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Agosto 2010

Agosto 22, 2010

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Este ano minha turma da Faculdade de Medicina, a intrépida 58, completa 35 anos de formatura e se prepara para mais um encontro. Época de lembranças, mobilizadas pela visão das fotos lindas do Moa e do Vasco que até parecem cenas do cinema noir!

Para quem viveu os anos 70 e para aqueles que não viveram, mas ainda assim, sentem saudades, dedico o relato do meu "debut" na faculdade.

 Depois de um vestibular duríssimo, com provas escritas e práticas, fui classificada para ocupar uma vaga no curso de Medicina mais valorizado do país.

Foi o máximo! Nem eu acreditava... Meu prestígio na família, entre os colegas do Fernão Dias, entre os poucos amigos, subiu como um rojão. Estávamos em 1970, em plena ditadura!

A recepção aos calouros preparada pelo Centro Acadêmico Oswaldo Cruz-CAOC, foi memorável: tivemos um ciclo de palestras sobre temas sociais no Depto Científico e o encerramento foi uma apresentação de teatro, com uma peça desenvolvida especialmente para nós. O idealizador, Gelson Reicher, e os atores, todos alunos da escola,  participavam da diretoria do CAOC.

O espetáculo foi impactante: poesias de Maiakovski, músicas do “Panis et Circences” , a palavra de ordem era liberdade. 

Saí de lá com a sensação de ter antevisto uma pequena nesga de um novo mundo.

Saí entusiasmada do espetáculo, sem saber bem por quê; e a partir daí comecei a circular pelo CAOC e participar de algumas atividades.

Logo surgiu uma excursão programada para a Semana Santa quando iríamos conhecer as precárias condições socioeconômicas da região do Ribeira, a área mais pobre e subdesenvolvida do estado de São Paulo e entender um pouco mais a respeito da vida que o povo brasileiro, nossos futuros pacientes levavam.

Consegui convencer meus pais e lá fui eu para a tal excursão!

Saímos da escola de manhã e viajamos de ônibus quase o dia todo até chegar à Iporanga, a nossa base no vale do Ribeira.

Durante a viagem, no banco do ônibus, atrás de mim, dois alunos mais velhos conversavam sobre uma viagem à Serra do Mar que ambos haviam feito nas férias passadas; que me pareceram duras demais para se considerar como férias.

Lembro de ter pensado: como esse pessoal é estranho; que férias são estas? Acampamento selvagem, mosquitos, dormir ao relento, levar rações para subsistência, tudo em plena mata. Soube depois que o rapaz se chamava Cabral, diretor do CAOC e o que pensei serem férias era realmente treinamento de guerrilha.

 

Passamos por três ou quatro cidades do Vale do Ribeira e na última, Iporanga, foi onde ficamos. Chegamos cansados ao abrigo, uma escola cedida pela prefeitura, e antes de dormir tivemos uma longuíssima discussão política sobre correlação de forças no mundo capitalista ou sei lá o que mais...

Na manhã seguinte fomos divididos em pequenos grupos e no sorteio o líder escolhido para o meu grupo foi o Cabral.

Antonio Carlos Nogueira Cabral foi um jovem quieto, moreno, cabelos escuros e abundantes, alto e forte. Era amigável, porém discreto, aquele tipo que cuida das pessoas, mas que é tímido com as palavras. Tivemos uma convivência muda, porém intensiva por cerca de uma semana.

O nosso grupo, mal preparado fisicamente, a cada dia perdia elementos pelo caminho. O Cabral, ao contrário, preparadíssimo, trazia na mochila tudo que era necessário para a sobrevivência.

A bagagem da maioria das meninas do grupo composta de estojo de maquiagem, perfume, repelente de insetos, sandálias e roupinhas “fashion”; estava longe da necessidade daquele ambiente inóspito.

Os desafios da viagem se tornavam mais e mais exigentes; e sem condição de prosseguir, os participantes foram ficando pelo caminho. No fim do período, continuávamos: eu, uns poucos colegas e nosso guia que caminhava sempre à frente.

Assim, acompanhamos mapas, vadeamos rios, subimos e descemos montanhas em lombo de mulas, pousamos em escolas e casas de fazenda, comemos bolacha com sardinha em lata, bebemos água na concha das mãos em todos os riachos transparentes; (...ai que sede!) e entrevistamos os raros moradores daqueles fundões para preencher os nossos questionários sócio-econômicos.

Quando nos apresentávamos, os matutos não acreditavam que jovens universitários bem nascidos como nós pudessem ter qualquer interesse em suas vidas sem graça.

Lembro que uma das nossas perguntas era a freqüência com que eles comiam carne e a resposta mais freqüente era uma vez por ano: no Natal! Embora criassem uma ou duas vaquinhas eram vegetarianos por necessidade.

 

De noite, antes de dormir, o Cabral cuidava de nós, tirava os espinhos dos nossos pés, cuidava das bolhas, retirava os carrapatos, massageava nossos músculos doloridos...

De manhã voltavamos à estrada...

As descidas das montanhas para mim eram as piores. Depois de horas e horas caminhando, os músculos, cansados não seguravam direito o corpo e caíamos sentados, várias vezes seguidas, escorregando nas picadas. Já os rios eram uma delícia, largos, rasos, fundo de seixos rolados, água cristalina e corrente, sombras das árvores das matas ciliares. E o calor, meu amigo... Andávamos com a roupa molhada no corpo para aplacar o calor!

 

Não entendi muita coisa dessa viagem. O esforço para obter as tais entrevistas socio-economicas, foi imenso; e o perigo nos rondava em cada estradinha pendurada mas montanhas.

O lugar era o mais isolado e mais acidentado que eu jamais conhecera, no entanto helicópteros sobrevoavam a região todo o tempo, e nem em São Paulo eu vira tantos juntos!

Voltamos finalmente à civilização.

Claro, não contei nada disso para meus pais.

- Como foi a viagem?

- Normal!

E ficou por isso.

 De volta à escola nunca mais tornei a ver o Cabral. O comentário era que ele estaria envolvido com subversivos e teria abandonado os estudos. Alguns meses depois um colega da minha classe foi preso por ter dado abrigo a ele durante algum tempo em sua casa. Não tinha nada com política, não conhecia ninguém, só prestou um favor a um colega em apuros.

Foi torturado, teve uma ulcera hemorrágica por stress, e só foi operado de emergência, pois os outros presos vendo que ele estava à morte fizeram a maior confusão até que ele fosse levado ao hospital.

Meses depois voltou para a escola, enfraquecido, apavorado. Era meu amigo, conversávamos muito nas longas madrugadas das festas do Esqueleto’s, enquanto servíamos no bar. Era um sujeito do bem!

  

Em 1982 Alex Polari, membro de um dos grupos de esquerda volta do exílio e escreve “Em busca do Tesouro”. Lendo seu livro, já esgotado, tive a resposta, com doze anos de atraso, sobre o que estávamos nós, alunos da FMUSP, fazendo no Vale da Ribeira na semana Santa de 1970. Fomos observadores privilegiados não acidentais, de um episódio crucial da guerrilha do Ribeira: a perseguição e a fuga para a Bahia de Carlos Lamarca, líder revolucionário, escondido naquela região.

Senti que eu era o próprio Forrest Gump vivendo, sem saber uma semana memorável e participando como coadjuvante daquele evento histórico!

Palavras-chave: anos de chumbo, anos dourados, faculdade de medicina

Postado por Clarice Alegre Petramale | 1 usuário votou. 1 voto | 2 comentários