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Julho 2009

Julho 01, 2009

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  Amigos,

Uma viagem ao exterior sempre nos faz pensar e esta foi realmente especial, pois eu e Patrícia viajamos no espaço e também no tempo, ao encontro de muitas das raízes da nossa nacionalidade.

Cabo Verde foi durante os séculos um sítio estratégico para onde os portugueses traziam os escravos capturados na África em seu caminho para o Brasil. Ali as famílias eram desmembradas e assim se quebravam os laços, tornando-os mais dóceis ao cativeiro.

A escala no arquipélago também tinha importância logística fundamental para abastecer e consertar os navios; para descansar e curar a tripulação e a “carga” dos sofrimentos da longa travessia marítima A estratégia dos mercadores de escravos era fazer o que fosse preciso para evitar que os escravos se organizassem; que se rebelassem; que fugissem...

Não é de se admirar a enorme mortandade dos escravos nos navios negreiros! Homens, mulheres e crianças indefesos, perplexos, deprimidos e sem esperança; para muitos morrer foi uma benção!Sempre me perguntei por que somos um povo tão submisso, tão permissivo.

Por que historicamente temos aceitado tanta violência sem questionar, tantas imposições do poder, sem refugar... Talvez esta característica esteja escrita no nosso DNA de “homo gentilis”.  E o que devia ser uma qualidade acaba sendo a fonte de todos os nossos problemas.  

Com esse pensamento na cabeça, fruto dos estudos preparatórios que fizemos, tomamos os nossos assentos na classe econômica da TAP rumo a Portugal.  Não pude deixar de notar as semelhanças entre os aviões de hoje e os navios negreiros de antigamente: no respeito ao passageiro, no espaço e cuidados a ele dispensados... E o nosso

Antes de nossa decolagem em Brasília suportamos duas horas de atraso, devidamente embarcados, enquanto os técnicos de terra desmontavam e remontavam uma turbina. Os nossos parentes e amigos que esperavam a saída do avião estavam em pânico... Nós, quietos, aguardávamos, querendo acreditar que tudo estava sendo feito para o nosso “bem”... Não tínhamos nem coragem de pensar que talvez os interesses econômicos da empresa falassem mais alto e não a nossa segurança...

Tudo resolvido, o piloto dá ordem de partida e lá fomos nós! Nem quinze minutos se passaram quando o avião “derrapa” na subida e despenca de uma vez, como se tivesse perdido sustentação. Foi um susto e tanto e ainda nem tínhamos chegado à famigerada zona subtropical do Atlântico Sul e suas turbulências, que ocasionaram o desastre do Airbus 447 da Air France!

Por um bom tempo após o susto evitávamos nos movimentar e até respirar mais pesado com medo de prejudicar a navegação...  A minha companheira de assento que nem sequer respondera ao meu cumprimento na chegada, imersa que estava numa enorme tristeza ( estaria doente, teria perdido algum amor?) , se agarrou comigo como a uma tábua de salvação.

A partir daí, como nos salvamos, começamos uma delicada amizade. Disse-me que morava em Lisboa há 12 anos, trabalhava no comércio fazendo nada em especial e que tinha tantas saudades do Brasil que as férias acabaram, mas seu coração se recusava a partir com ela...

Muitas horas depois chegamos à Lisboa para uma conexão para Praia, capital de Cabo Verde. Tínhamos algumas horas antes do reembarque e eu e Patrícia resolvemos dar uma volta na capital mais importante do mundo... nos idos de 1500!

A cidade, chuvosa e vazia, com seus muitos monumentos, parecia o espectro de um tempo em que exerceu poder absoluto sobre as colônias, suas riquezas e seus habitantes. Donos da metade do mundo agora só mandam num pequeno pedacinho de terra, coitadinhos... Esse é o sentimento que predomina no homem comum português: que o mundo moderno lhes deve muito e que em troca de tantos serviços o mundo só tem retribuído com ingratidão e com as migalhas da mesa dos poderosos.

Não consegui ter pena deles por seus infortúnios atuais. Talvez estejam de alguma forma colhendo a violência que semearam.No final da tarde embarcamos num vôo Lisboa-Praia operado pela TACV, (Transportes Aéreos Cabo Verde), a empresa estatal que opera há 50 anos os trajetos para Lisboa  e agora mais recentemente para Fortaleza.

A tripulação, composta integralmente por negros cabo-verdianos, elegantes, orgulhosos de seu país e muito bem humorados animaram o nosso vôo com comida cheirosa, bebidas e gentilezas reais. Quem precisa de mais?  Até tirei uma foto para comemorar a nossa chegada!

Terminando a aventura da viagem de ida uma espera de bagagens de mais de uma hora no aeroporto de Praia sem que ninguém reclamasse ou se irritasse. Nem o time de futebol local que voltava à Praia, carregado de troféus, perdeu a paciência com a burocracia demorada! Êta povo cordato;benza a Deus!

O arquipélago , de origem vulcânica, tem dez ilhas soltas no meio do  oceano  Atlântico. Metade tem nome de santo, as demais lembram os elementos: Fogo, Sal, Brava... Além do povo, o mar, que no dizer dos cabo-verdianos: “ é bem mauzinho...” , é o grande elemento da unidade nacional. 

A terra é seca, a vegetação nesta fase do ano é escassa, mas verdeja tão logo chegam as chuvas. Na Ilha do Fogo seu vulcão ativo entra em erupção de tempos em tempos: a última foi em 1995. No meio tempo engendra terras férteis onde se planta café, uvas, maçãs...

Chegamos a Cabo Verde cansadas, porém motivadas com o trabalho que faríamos no país, que foi colônia de Portugal até 1975, tem um povo de etnia semelhante à brasileira em sua mescla de português com africanos escravos, teve um governo de partido único por vinte anos (quantas semelhanças!!!), e agora dá passos firmes para estabelecer uma democracia sustentável. E como nós brasileiros, têm muito orgulho de trilhar seu próprio caminho!

O Brasil, nos últimos anos tem intensificado de muitas maneiras as atividades cooperação internacional com países de África e Patrícia e eu estávamos ansiosas em participar!

Durante a viagem percebemos um grande fluxo de técnicos entre o Brasil e países africanos, todos prestando cooperação técnica em campos diversos como saúde, agricultura, educação, relações internacionais.Somente a ANVISA em cooperação com a ARFA, a Agência cabo-verdiana que cuida da qualidade e segurança de medicamentos  e alimentos,  desenvolve projetos  nas áreas de Segurança de Alimentos, Monitoramento de Preços de Medicamentos, Vigilância de Pós-Comercialização com o Projeto Hospitais Sentinela e mais recentemente,  na área  de Laboratórios de Saúde Pública, no qual também está envolvido o LACEN do Ceará.

Mas há muitos outros projetos em andamento com o Brasil, como nos disse a Dra. Sonia Regina Guimarães Gomes, ministra-conselheira da Embaixada Brasileira em Cabo Verde: Reorganização da Atenção Básica em Saúde, com a Universidade Federal de Juiz de Fora, Agricultura, com a EMBRAPA entre outros. Isso sem contar o forte intercâmbio de estudantes  africanos nas universidades  públicas de todo o Brasil.

Temos certeza que como nós, todos têm muito orgulho do trabalho que desenvolvem ajudando a fortalecer seu governo democrático, até por que Cabo Verde é terra fértil no sentido estrito e também no figurado, e essas parcerias têm dado excelentes frutos! 

Logo à chegada, a Patrícia, antes de mim, percebeu que os cabo-verdianos falam numa língua própria,  o crioulo, cuja sintaxe é igual ao Português, porém usam palavras diferentes. Alguns exemplos:  procurar é “spiá”, conversar  é “papiá”  e conhecer  é “conxê”.  É uma língua de carinho, não de trabalho, que se fala em casa, com os amigos. É delicada, parece familiar, mas não se entende nada...

Assista ao vídeo do Tcheka um famoso artista local, excelente cantor e violonista, (não consegui saber se também compõe...) para sentir a cadência da língua e a beleza da música de Cabo Verde!

Na segunda-feira de manhã começamos nossos trabalhos na ARFA. Conhecemos o diretor: Dr Miguel e a equipe com quem iríamos trabalhar a semana toda: a Djamila, o Eduardo e a Janete.O ponto alto das atividades foi o encontro de todas as lideranças do país relacionadas ao medicamento. Sentaram à mesma mesa, representantes da empresa nacional importadora, da empresa farmacêutica nacional que fabrica cerca de 60 tipos de medicamentos, da universidade de Farmácia, dos usuários, dos hospitais, dos centros de saúde, além do Ministério  da Saúde e da ARFA.

Nós apresentamos a experiência brasileira na Rede Sentinela, tanto no que tange à notificação de problemas na qualidade dos medicamentos como as nossas iniciativas para seu uso racional,  enfatizando que mais do que por mérito nosso e da ANVISA, esses resultados só puderam ser atingidos graças à cooperação voluntária dos mais de 200 hospitais  brasileiros que pertencem à Rede Sentinela.  Eles, como nós no Brasil, também têm problemas de articulação entre as áreas, áreas de sombra, como eles dizem, onde as competências não estão bem claras.

Modestamente acho que a nossa participação foi importante para dar o  “ponta-pé de partida”  para essa necessária integração de instituições pelo bem comum que é o serviço à população!

A nossa visita a Cabo Verde previa basicamente a apresentação do modelo brasileiro de notificação em farmacovigilância, com vistas à futura implantação de uma “rede sentinela” em Cabo Verde que ajudasse o governo que agora se abre para a economia mundial a obter medicamentos por preços melhores, porém sem descuidar da qualidade. Para isso será formada uma rede piloto de notificação composta dos dois hospitais centrais, alguns hospitais regionais, centros e delegacias de saúde e farmácias, seguindo o mesmo modelo de notificação aplicado no Brasil pelo Projeto Hospitais Sentinela, baseado  na sensibilização e na pró-atividade dos profissionais  de sua rede de Serviços. 

A Rede de Serviços hospitalares de Cabo Verde está dimensionada para dar assistência à sua população que é de meio milhão de habitantes.  É composta por dois hospitais centrais de média complexidade: O Hospital Agostinho Neto em Praia/ Ilha de Santiago e o Hospital Batista de Sousa, no outro extremo Norte do arquipélago, na Ilha de São Vicente, que têm, respectivamente, cerca de  300 e 200 leitos em operação.  

Há ainda hospitais regionais de menor complexidade que referem seus pacientes mais complexos para um dos dois hospitais centrais.  A alta complexidade hospitalar que não pode ser atendida no país é encaminhada para o Hospital Universitário de Coimbra, em Portugal com o qual mantém acordo de cooperação. Os custos com esses tratamentos fora do país são encargos muito pesados e por isso já se estuda a possibilidade de ampliar o espectro de atendimento, cobrindo algumas áreas da alta complexidade como as Diálises, e também, utilizando a Telemedicina, realizar  consultas de 2ª opinião nos casos mais complexos e tratar do paciente sem que ele precise viajar para Portugal. 

Por motivo de facilidade de acesso visitamos o Hospital Agostinho Neto e um Centro de Saúde, ambos na Ilha de Santiago. No Posto de Saúde da Achada de Santo Antonio fomos recebidas pela Dra Dulce Dupret, médica e chefe da unidade que nos apresentou o seu serviço. A unidade é super moderna não estando nada a dever para os melhores postos de saúde públicos brasileiros.

E os problemas também são os mesmos: carência relativa de profissionais, clientela pouco informada sobre sua própria saúde e a articulação das ações com as unidades de complexidade superior. 

No Hospital Agostinho Neto (HAN), fomos recebidas pela diretora clínica, a Dra Mecildes Costa. Nas conversas preliminares me disse que tem uma filha estudando no Brasil que depois, vimos, foi colega do meu filho no curso de Medicina na Unifesp/São Paulo.  Êta mundo pequeno!  Enquanto visitávamos o hospital foi nos contando sobre a história do HAN que há 150 anos participa da luta do povo cabo-verdiano para a superação das doenças infectocontagiosas e agora se aparelha para enfrentar o desafio das doenças crônicas.

Como tantos hospitais brasileiros também históricos, o HAN opera com uma estrutura defasada em relação aos desafios da moderna medicina, o que dificulta a organização do trabalho. Porém há novidades no front: as novas instalações da Maternidade, da Farmácia Hospitalar e novos serviços como a Diálise e a Telemedicina.   

A adesão do HAN à Rede Sentinela já está em curso, bem como a do Hospital Batista de Souza, e esperamos que em nosso encontro anual em Fortaleza já  contemos com a  participação de ambos! Para estes hospitais a troca de experiências com a rede brasileira será um estímulo a mais para perseguir no caminho da melhoria da qualidade! 

Deixamos Cabo Verde conhecendo um pouco mais das nossas raízes, percebendo melhor as nossas semelhanças tanto nas fragilidades como nas fortalezas e acredito mais aptos para escolher e perseverar no caminho da qualidade, da eficiência, usando modelos próprios, que respeitem o nosso DNA comum e na nossa  cultura. 

Nos agradecimentos finais, quero registrar o abraço emocionado de despedida em cada um dos colegas com quem carinhosamente nos relacionamos nesta semana e lembrar que por trás desse gesto simbólico estão os muitos amigos da Rede Sentinela,  espalhados em cada pedacinho deste Brasil enorme; pessoas de fibra e de luta que nos inspiram a  viver esta ousadia de sonhar com uma rede transnacional que promova a saúde nos termos que entendemos com os  seus significados próprios e seus valores.

 E vamos trabalhar, minha gente!   

Palavras-chave: Cabo Verde, cooperação internacional, escravidão, sistema de saúde

Postado por Clarice Alegre Petramale | 2 comentários