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Setembro 2008

Setembro 26, 2008

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EPI 2008

XVIII Congresso Mundial de Epidemiologia e VII Congresso Brasileiro de Epidemiologia, reuniu em Porto Alegre/Brasil cerca de 5000 participantes que fizeram do evento um momento único de aprendizagem e troca de experiências entre 71 países.  Após o nosso Encontro da Rede Sentinela em São Paulo, parti direto para Porto Alegre para o XVIII Congresso Mundial de Epidemiologia e VII Congresso Brasileiro de Epidemiologia. O convite partiu de uma amiga de longa data, a Dra Suely Rozenfeld, que moderou a mesa Eventos Adversos em Hospitais. Eu apresentei a experiência da Rede Sentinela, o colega da FioCruz, Walter Mendes apresentou um estudo regional sobre freqüência de eventos adversos em hospitais do Rio e a Dra Ana Margherita Bork do Hospital Albert Einstein abordou a experiência do hospital que já havia mostrado no nosso encontro. A sala estava cheia; o assunto despertou muito interesse e a participação foi muito boa!Ainda tive o prazer de moderar uma mesa no último dia do congresso que reuniu excelentes apresentações orais sobre custos e perdas relacionadas a eventos adversos em hospitais. A Dra Angela Lopes Rodrigues da Universidade Federal de Sergipe abriu a mesa apresentando um estudo sobre o custo de infecções em UTIs do Espírito Santo; o nosso amigo Paulo Rogério Antonio, gerente de risco do Hospital do Servidor Estadual de São Paulo apresentou seu trabalho sobre o aumento da permanência em Unidade de Clínica Médica relacionada à ocorrência de eventos adversos com medicamentos; a Dra Denise Schout apresentou os indicadores de qualidade hospitalar do Complexo HC de São Paulo e por último, tivemos uma apresentação de Cuba, feita pelo Dr. Armando Salvá que nos trouxe as iniciativas daquele país para a internação domiciliar.De novo, sala cheia e muita participação! Vi muita coisa nova no congresso. Procurei escolher os assuntos menos conhecidos e as palestras de países estrangeiros.Adorei tudo o que vi! Estão de parabéns os organizadores, colaboradores e palestrantes que fizeram do evento um momento único de aprendizagem e troca de experiências entre 71 países e cerca de 5000 participantes, 12% deles estrangeiros.Eu, que não sou epidemiologista, me surpreendi de como muitas das nossas iniciativas para a rede sentinela também estão sendo discutidas pela Epidemiologia; como a utilização das novas tecnologias da informação, principalmente a Internet; a conferência da Laura Rodrigues (Reino Unido) sobre o uso de linkagem de dados e registros médicos para a a pesquisa epidemiológica foi instigante! Ficou patente em várias falas durante o evento como causas e efeitos se entrelaçam, ora aparentam ser causas, no momento seguinte surgem como efeitos. Essa natureza dual é mais flagrante nas condições em que multifatores sociais e econômicos são determinantes importantes. Citando o Paulo, é o efeito Tostines: que dizem que vende mais porque é fresquinho, ou será que é fresquinho porque vende mais? Assim também fatores negativos geram outros fatores também negativos que resultam em danos cada vez maiores. Essas considerações têm tudo a ver com a busca pela qualidade e segurança em nossos serviços... Vamos em frente! Bom fim de semana a todos!

Palavras-chave: Epidemiologia, Eventos adversos em hospitais, Rede Sentinela

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Setembro 28, 2008

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Ecos do passado

Como acontece nos congressos da ABRASCO, o EPI 2008 me deu a oportunidade de rever amigos que não via a décadas. Na viagem de volta a Brasília me lembrei de vários episódios das nossas afetivas e profissionais. Um deles, que descrevo aqui recupera um importante passo para a Saúde das Crianças em nosso país...leia mais

Um fato marcante para a Saúde da Criança se deu no início dos anos oitenta com a implantação da Carteira de Saúde da Criança para o acompanhamento da curva de Peso. A carteirinha da Criança já era bem conhecida nessa época, todos os serviços de pediatria a empregavam.

Além da identificação da criança, endereço e filiação trazia também o agendamento das consultas e as vacinações feitas. A medida e acompanhamento do peso da criança também não eram novidade: faziam parte da rotina de atendimento pediátrico e constavam no prontuário da criança, arquivado na unidade. A cada consulta o pediatra comparava o peso atual com o peso anterior, mas não tinha uma linha evolutiva para se orientar. Avaliava o incremento obtido de forma aproximada e não se falava mais nisso, até a próxima consulta.

A novidade dessa nova carteira era o acompanhamento do peso da criança por meio de três curvas, uma mediana e as outras duas que definiam respectivamente o limite superior e inferior, esperados para aquela idade, criando entre essas duas linhas um espaço de segurança para o desenvolvimento sadio da criança; que foi chamado  muito apropriadamente de "Caminho da Saúde".A diferença entre as duas tecnologias parece mínima, mas o resultado para a vigilância da saúde é muitas vezes superior. Estudos detectaram que as crianças submetidas à maioria das doenças têm manifestações difusas e pouco específicas: mal estar, inapetência, indisposição, febre e perda de peso. A perda aguda de peso, mesmo em crianças dentro do “caminho da saúde” é alerta importante para a busca de infecções inaparentes e outras condições patológicas.

Quando li sobre esses estudos fiquei ansiosa por implantar a novidade na rede básica de Osasco que eu coordenava. A dificuldade era arranjar os modelos de curva, que não tínhamos no Brasil. A rede internacional de relacionamentos da Ana Regina Reis, entrou em ação e uma bela manhã recebi um pacote postal com os cartões alaranjados do Caminho da Saúde.

A aceitação dos pediatras foi excelente, desta vez a chiadeira ficou por conta da enfermagem que teria muito trabalho a mais: pesar cuidadosamente as crianças sem roupas, o que não era feito; esperar o bebê parar de espernear para aferir o peso correto, o que às vezes dava muito trabalho e depois anotar o peso na curva, que tiveram que aprender, pois nunca antes lhes tinha sido ensinado. Precisamos providenciar salas de pré-consultas em todos os postos, abrigadas e sem correntes de ar para a pesagem dos bebês, balanças aferidas e treinamento do pessoal para a plotagem dos pontos na curva. Deu um trabalhão, mas valeu a pena! Passamos a detectar com facilidade não só os desnutridos, o que não era grande vantagem, mas também as crianças em situação de risco. Nesse grupo, buscávamos infecções ocultas que pudessem causar a parada no desenvolvimento e quando não era esse o caso, intensificávamos as visitas e as orientações. Muitas vezes a causa do problema era um misto de carências sociais e educacionais para o que entrávamos com suporte nutricional preventivo e monitoramento. E experiência envolveu milhares de crianças. A população de Osasco naquela época era de cerca de 600 mil habitantes, metade disso abaixo dos 18 anos e algo ao redor de 15000 menores de um ano. Osasco foi a primeira cidade brasileira a implantar o Caminho da Saúde, mas nunca publicamos esse trabalho. O Ministério da Saúde se alongou nas discussões, o Estado de São Paulo não aceitava o modelo do Ministério, pois já tinha sua carteira de vacinação e não queria mudar. Acabou fazendo um modelo diferenciado, em duas cores, rosa para meninas e azul para os meninos, mas perdeu um bom tempo nessa indecisão.  De novo, essa minha paixão pela “larga escala”, por enfrentar o problema real, ao invés de tratá-lo com os cuidados de um estudo, complicou a necessária documentação que a experiência merecia. De tanto ver centenas de crianças em situação de risco serem estabilizadas, graças ao uso sistemático do Caminho da Saúde, a intervenção passou a ser tão óbvia para nós, que nunca nos passou pela cabeça que seria importante descrevê-la num trabalho científico e publicá-la. Esquecíamos que outros gestores de saúde poderiam se beneficiar dos nossos resultados, assim como nós, no início, nos beneficiáramos dos estudos publicados por uns gringos que nem sabíamos quem eram!

Palavras-chave: avaliação de tecnologias leves, Caminho da Saúde, Memorias, Saude da Criança

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