Stoa :: Clarice Alegre Petramale :: Blog :: Breve estória da medicina: Terapia de reidratação Oral

abril 14, 2008

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Hoje estou completando 57 anos e para comemorar a data, retorno a esse espaço com um pouco da estória recente da medicina nesse nosso país tropical abençoado por Deus. Este texto conta a minha participação há cerca de 20 anos atrás, na implantação da terapia de reidratação oral ( TRO) no tratamento de crianças e bebês desidratados. A aventura se deu no município de Osasco/SP, a primeira cidade brasileira a implantar esse modelo de cuidado no sistema público de saúde. 

A OMS estava testando na África e na Ásia uma nova terapia de reidratação (TRO) para o tratamento de crianças em estado de desidratação moderada e grave. Era um mistura de sal, açúcar e água em determinada proporção que deveria ser dada via oral para as crianças desidratadas, colher a colher, copo após copo, numa velocidade pré determinada, até a criança se rehidratar. Estávamos acostumados com sorinhos orais de menor concentração salina e que absolutamente não conseguiam hidratar ninguém, porisso a nova de terapia enfrentou inicialmente muito descrédito. A única forma disponível naquela época para hidratar essas crianças era a utilização de soros por via venosa e quem tem experiência em hospital sabe a dificuldade que é conseguir uma veia de calibre considerável em um bebe desidratado! A desidratação era causa importante de mortes em crianças e a chegada dessa nova terapia nos entusiasmou: hidratar as crianças, sem agulha, sem internação, só com água sal e açúcar era fantástico!

A batalha pela introdução da TRO no município de Osasco, começou em 1983, onde eucoordenava os programas de Atenção a Criança e à Mulher. Além do conhecimento foi preciso aliar muita perseverança, acionar uma rede de relacionamentos, algum poder e contar com muita sorte para que a introdução dessa nova tecnologia no dia a dia da saúde fosse bem sucedida. Afinal não havia interesse econômico envolvido, ou empresa interessada, bancando essa promoção.

A nova tecnologia (TRO) era mais eficiente, mais segura, mais conveniente e mais barata do que a tecnologia em uso. A Economia da Saúde diria que a tecnologia então em uso: a hidratação venosa, estaria dominada em relação à nova forma de tratar. Na prática não foi tão fácil assim.

A nossa estratégia inicial foi apostar na mudança de comportamento dos médicos para introduzir a TRO na secretaria de saúde do municipio, mas o resultado não foi dos melhores. Aproveitamos as reuniões mensais que tínhamos criado para educação continuada e convidamos palestrantes, também médicos, de escolas importantes, USP e Paulista, amigos nossos, para trazer toda a ciência e toda evidência que apoiava a TRO. A discussão no nível científico foi acalorada, mas os médicos resistiam à mudança com o argumento de que não iriam arriscar a vida das crianças tentando uma terapia que não tinham certeza se funcionaria.

Poderíamos ter parado por aí, mas uma situação favorável surgiu: no nosso curso de enfermagem abordamos o mesmo tema com uma linguagem mais simples e as auxiliares logo se interessaram porque a elas cabia cuidar das veias das crianças em tratamento e sabiam como isso era difícil. Naqueles anos o stress no trabalho da enfermagem tinha como componente importante a guerra contínua para conseguir e manter veias em pacientes internados. No Emílio Ribas no auge da epidemia de meningite as crianças recebiam antibióticos por via venosa por muitas semanas a fio e não havia os modernos gadgets que temos hoje. Um buterfly era raro e guardado com carinho para os casos impossíveis... Voltando da digressão, nossas alunas estavam ansiosas por testar se a TRO daria certo de verdade, se teria efetividade, como diz a teoria, e nos pediram um estágio prático.

Nos valemos de nossos contatos no PS e pedimos permissão para treinar as auxiliares de enfermagem nessa nova terapia, sob nossa supervisão. O Dr.Vicente Delamanha, diretor do PS Infantil  de Osasco era um pediatra esclarecido, com especialização na França e recebeu com boa vontade a nossa proposta. Os médicos do plantão também gostaram da idéia, pois era menos trabalho para eles, uma vez que eles triavam os desidratados para a nossa equipe e nós fazíamos o trabalho em conjunto com as mães. Ao final, com a criança hidratada, voltávamos ao médico de plantão para mostrar os resultados e para a alta.

Finalmente pegamos o rumo!Ficamos três semanas realizando esse trabalho, tratando as crianças, ensinamos mães, médicos e auxiliares do PS Infantil não só um conhecimento, mas uma nova competência. Daí para frente a onda virou a nosso favor e a novidade se espalhou substituindo a forma antiga de tratar. Nós e nossa equipe aprendemos que é preciso perseverança e uma boa da rede de relacionamentos para qualquer trabalho inovador que se queira fazer!

Hoje em dia, os novos médicos raramente vêem uma criança dehidratada em terceiro grau, como víamos naquela época. Provavelmente nunca viram uma morte sequer por esta causa. Tudo porque a hidratação oral foi tão difundida que ao primeiro sinal de vômitos ou diarreia, qualquer mãe  sabe como preparar o soro caseiro e o oferece à criança evitando assim que ela desidrate.

Moral da estória: Não basta ter uma idéia brilhante, é preciso se aliar às pessoas certas, àquelas que têm interesse em ver a mudança acontecer!

Boa noite!

Clarice

Palavras-chave: Medicina, terapia de reidrtação oral, TRO

Postado por Clarice Alegre Petramale | 3 usuários votaram. 3 votos

Comentários

  1. Ewout ter Haar escreveu:

    Com um dia de atraso: parabéns! Muito interessante como uma nova tecnologia, obviamente superior ao anterior, ainda assim enfrente resistências à adoção. Acho que pessoas são muito conservadores mesmo, e talvez por boas razões de uma maneira geral.

    A sua frase "Além do conhecimento foi preciso aliar muita perseverança, acionar uma rede de relacionamentos, algum poder e contar com muita sorte" é uma boa descrição de qualquer processo de aprendizagem. No ensino formal temos sobretudo o aspecto "conhecimento", "poder" e "perseverança", mas devíamos levar em conta mais o aspecto "rede de relacionamentos" para equilibrar. O convencimento e mudança de atitude acontecem muito mais eficientemente por meio de relacionamentos com os pares.

    Ewout ter HaarEwout ter Haar ‒ terça, 15 abril 2008, 17:47 -03 # Link |

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