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outubro 10, 2009

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O Princípio da Incerteza Filosófico (PIF)
Jocax, Novembro de 2008

Resumo: Estabeleceremos um princípio filosófico-científico que é similar, porém mais abrangente, que o princípio da incerteza de Heisemberg.

Palavras Chaves: Filosofia, Incerteza, PIF, Princípio da Incerteza Filosófico.

A Mecânica quântica, que é a parte da Física que estuda o microcosmo, tem um princípio fundamental, conhecido por “Princípio da Incerteza”. Este princípio, descoberto por Werner Heisemberg, estabelece a impossibilidade física de conhecer (saber ou medir), simultaneamente, a posição e a velocidade de uma partícula com precisão maior do que certa constante [1]. Esta imprecisão é considerada como sendo uma lei fundamental da mecânica quântica, e tal incerteza não depende de nenhuma tecnologia, e é considerado um atributo do universo.

Desde o advento da “Ciência Expandida” [2] sabemos que é impossível até mesmo refutar uma teoria como pensava Popper. Então tudo indicava para uma visão mais abrangente e menos incerta do universo, tal incerteza deve abranger nossas observações. Baseado nestas conclusões eu irei propor um princípio, que eu chamei de “Princípio da Incerteza Filosófico”, ou simplesmente PIF, que estabelece o seguinte:

“É impossível saber se alguma observação, medida, ou percepção, corresponde de fato à realidade”.

Podemos tomar a realidade como algo que tenha existência independentemente de alguma interpretação, processamento, ou imaginação.

Provavelmente muitos já tiveram esta mesma idéia, mas não a formalizaram, pois desde o advento do conceito de “Solipsismo” [3], sabemos que é impossível provar que qualquer coisa que seja possa ser, de fato, realidade. E pior do que isso, até mesmo o próprio Solipsismo pode ser uma ilusão, uma vez que o “eu” que percebe pode também não ser real como foi mostrado em “Penso, logo existe!” [4]. Ou seja, o próprio “ser”, que observa, pensa, e sente pode não existir fora de outro nível de interpretação.

Além disso, e o mais importante, é que mesmo que tomemos a nossa própria realidade como sendo real, isto é, que existe independentemente de qualquer interpretação de um nível superior, como é suposto pela ciência, ainda assim teremos problemas: Ainda assim não poderemos tomar nenhuma observação como sendo real. Para entendermos isso, vamos roubar o exemplo da “caixa de sapatos” do ensaio sobre “Ciência Expandida” [2]:

Suponha que estamos andando pela rua e observamos uma caixa de sapatos com um tijolo dentro dela. Podemos concluir de nossa observação que o que vemos é uma caixa de sapatos com um tijolo? Infelizmente a resposta é não, pois em princípio, poderia ocorrer uma das seguintes situações - de infinitas possíveis - quando se observa um tijolo sendo que não é um tijolo:

- O volume era, na verdade, de um rádio de pilha imitando um tijolo.
- O volume era algo que se assemelhava a um tijolo, mas não era um tijolo.
- Um curto-circuito cerebral momentâneo fez você imaginar um tijolo numa caixa vazia.
- Uma nova arma de ondas alfa foi testada em você para que você imaginasse o tijolo.
- Alguém criou uma imagem holográfica do tijolo para que você pensasse que era real.
- etc.etc.

Tais tipos de enganos, embora improváveis, podem acontecer, em qualquer nível de observação, seja ela científica, ou não. E isso justifica o PIF como um princípio filosófico-científico fundamental sobre o limite do conhecimento.

 

Referências

[1] Princípio da incerteza de Heisenberg
http://pt.wikipedia.org/wiki/Princ%C3%ADpio_da_incerteza_de_Heisenberg

[2] Ciência Expandida
http://www.genismo.com/logicatexto25.htm

[3] Solipsismo
http://pt.wikipedia.org/wiki/Solipsismo

[4] “Penso, Logo Existe!”
http://www.genismo.com/logicatexto29.htm

Postado por João Carlos Holland de Barcellos em Ciência e Filosofia

Comentários

  1. Thiago escreveu:

    Olá, João C. H. Barcellos, muito interessante seu texto, e li alguma coisa no www.genismo.com relacionada (você cita um artigo de lá). Não me envolvo muito com questões puramente filosóficas, mas adianto que já há tentativas de estudos nesse sentido do PIF. O maior problema é a complexidade matemática de estudos assim.

    Como exemplo, imagine ter que definir todas as variáveis que você utilizou. Definir um observador, um ambiente, uma observação, a capacidade de observar (cada observador tem, consigo, um conjunto de métodos pelos quais ele é capaz de observar algo)... Algumas teorias, que ainda são bem jovens (ainda têm muito a desenvolver-se), mostram que tudo sobre o que podemos afirmar é sobre o conjunto de possíveis realizações de nossas observações (conjunto imagem de tais métodos), e não sobre a realidade em si (em algum sentido embaraçado). Notei que é formado no IFUSP, então gostaria de saber se você tem como base algo deste tipo? Desconheço se existirem, mas existem estudos finalizados?

    Obrigado,
    []s

    Thiago S. MosqueiroThiago ‒ domingo, 11 outubro 2009, 12:04 -03 # Link |

  2. João Carlos Holland de Barcellos escreveu:

    Ola Thiago !

    Eu nao sabia que existia estudos relacionados ou semelhantes ao PIF.
    Na verdade o PIF eh essencialmente filosofico e nao muito pratico, pois normalmente descartamos as possibilidades menos provaveis e tomamos as observacoes como sendo realidade. Entretanto, se buscamos a verdade, nao podemos tomar com muita feh que tais observacoes realmente se referem aa realidade!  Pode ocorrer que nao sejam verdade e isso pode mudar tudo como, por exemplo no caso de que estejamos num "Universo Virtual" sendo simulados em algum laboratorio de pesquisa de um universo real:

    "
    "O Simulador "
    ( Setembro/1997 )

    Na mesa de um Bar professor e aluno divagam :

    Aluno :- A História da computação tem cerca de uns 300 anos, e vista do
    seus primórdios, o que temos hoje pareceria ficção científica.
    Prof : - De fato, principalmente no campo da simulação. Você poderia
    imaginar então daqui há uns 3 milhões de anos, como seria o poder
    computacional ?!
    Aluno: - Acho que é quase impossível mesmo imaginar !
    Prof : - De fato, provavelmente, não será nem mesmo o homo-sapiens que
    habitará a terra, se é que ela ainda existirá.
    Aluno : - Com esses computadores imagine a qualidade e o poder de
    simulação, acho que poderiam simular quase tudo !.
    Prof : - Sim, creio que até mesmo um universo virtual poderia ser
    simulado em tais máquinas, talvez, por exemplo, com cada átomo desse
    universo sendo representado por um objeto na memória...
    Aluno: - Nesta simulação, talvez, até mesmo algum tipo de ‘vida’
    poderia aparecer, não ?
    Prof : - Perfeitamente! Seria um ótimo laboratório para o estudo, por
    exemplo, da evolução. Creio que até formas de vida inteligentes
    poderiam surgir de um tal simulador!
    Aluno: - Poderiam estas formas de vida inteligente descobrir que estão
    sendo ‘simuladas’ dentro de um computador? e que na verdade são
    criaturas virtuais?
    Prof: - Creio que elas poderiam ter indícios de que são objetos virtuais
    desde que tenham alcançado um nível cultural e tecnológico avançado.
    Aluno : - Como assim ?
    Prof : - Mesmo um computador avançadíssimo teria certas limitações : sua
    precisão de cálculo continuaria finita e o tempo de processamento não
    poderia ser instantâneo.
    Aluno : E Daí?
    Prof :- Neste caso, estes seres virtuais poderiam perceber que não
    conseguiriam medir a posição de uma partícula com precisão infinita,
    uma vez que o computador que simula a partícula tem precisão finita. Um
    outro indício seria perceber que as leis físicas de seu mundo, como que
    por mágica, obedecem a fórmulas matemáticas simples, fruto do modelo
    matemático que o simulador segue.
    Aluno :- Interessante ! A própria velocidade máxima de propagação de
    informação neste mundo deveria estar limitada a um valor máximo.
    Prof. :- Sim, decorrente das próprias limitações de precisão e
    velocidade do simulador. Haveria um efeito de tunelamento na qual uma
    partícula atravessa uma barreira, que poderia ser facilmente explicado
    pela imprecisão computacional.
    Aluno :- Será que tais seres aceitariam uma tal constatação, a de que
    são, na realidade, 'seres virtuais' ?
    Prof : - Não creio, seria algo muito duro de se aceitar! Como se poderia
    aceitar que todo seu universo fizesse parte de uma espécie de ‘sonho’
    que poderia se apagar a qualquer momento?
    Aluno :- E os responsáveis pelo experimento? Teriam coragem de desligar
    o simulador desse universo virtual?
    Prof :- Não sei, o jeito é esperar para ver. De qualquer modo, quando
    nos desligarem não sentiremos nada mesmo !

    ========// =========
    Este diálogo serviu para passar a idéia de como seria a física de um
    universo digital de laboratório, um universo virtual. Pessoalmente não
    acredito que nosso universo seja digital, embora não o negue e alguns
    indícios, como uma Física baseada na mecânica quântica, parecem
    corroborar tal teoria. Contudo, a "navalha de ocam" aponta-nos em outra
    direção pois um universo virtual exige um meta-universo que, sendo mais
    complexo do que o universo que ele simula, também necessitaria de uma
    explicação. (O meta-universo deveria ser, em princípio, mais complexo do
    que o universo simulado porque deveria ter pelo menos tantas partículas
    quantas partículas que ele pode simular.)
    Por "ocam" então, e a menos que novas evidências sejam encontradas,
    deveremos descartar a hipótese de que nosso universo seja virtual, e a
    pergunta original ficaria ainda sem resposta.

    "

    Percebeu que com a ideia da PIF podemos partir para uma nova proposta de estudo da Fisica?  

    Entretanto, como estava dizendo , em geral desconsidera-se estas hipoteses menos provaveis e utiliza-se intintivamente a "NAVALHA DE OCAM". Da uma lida :

    http://stoa.usp.br/mod/forum/forum_view_thread.php?post=64

     

     

     

    João Carlos Holland de BarcellosJoão Carlos Holland de Barcellos ‒ domingo, 11 outubro 2009, 13:20 -03 # Link |

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