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Autor A Ética Futura

 A Ética Futura


Por : Jocax , do livro do Genismo

 

Para entendermos a ética-futura, vamos rever as causas e os fatores que originam uma ética.

 

Embora ética e moral possam ser pensadas como sinônimos, freqüentemente precisamos diferenciá-las, como vimos anteriormente na Gamética. De outro modo, a ética pode ser entendida como a formalização de uma moral previamente estabelecida, e por essa razão a moral, em geral, precede a ética.

 

É bom ressaltar que quando a ética surge como uma forma de formalização da moral, ela também passa a ser, para as gerações que aprendem com ela, através da cultura, a origem da moral, e, neste caso, pode-se dizer que a ética é precursora da moral, mas em termos históricos a moral sempre precedeu a ética. Neste texto, contudo, iremos tratar a ética e a moral como sinônimos.

 

A moral surge naturalmente como uma forma de minimizar conflitos num grupo de indivíduos que vivem em sociedade. Antes mesmo do surgimento do homem moderno, nossos ancestrais –os hominídeos - já viviam em sociedade, e por esta razão, a origem de grande parte de nossos códigos morais estão incrustados em nossos genes. Podemos constatar isso observando o comportamento de outras espécies. Em macacos, por exemplo, os elementos de um grupo sabem quem é o líder, o elemento alfa, e que devem respeitá-lo para evitar piores conseqüências. É uma forma primitiva de regra moral.

 

Outros animais demarcam seu território com determinados odores para se evitar que invasores, da mesma espécie, adentrem sua área. Estes tipos de comportamentos podem ser pensados como códigos morais que devem ser respeitados para evitar conflitos. Assim, podemos perceber que a moral está sempre acompanhada de uma punição aos que não a respeitarem, sem a qual, ela deixara de ser seguida.

 

Nas sociedades humanas, a ética evoluiu bastante. Em nossa sociedade, a ética foi extensivamente catalogada e normatizada dando origem às leis e aos códigos penais. Há muito tempo já não é mais necessário demarcar o território com sinais para indicar que a área já possui dono. Hoje, existem contratos escritos e assinados que marcam, de maneira análoga, o direito de posse. O Direito surge então como conseqüência direta da normatização da moral. O Direito é, portanto, a ética documentada.

 

A ética não evoluiu somente na extensão e no modo moderno de demarcar fronteiras entre o que é certo e errado. Com a evolução da capacidade cerebral, determinadas ações podiam ser avaliadas, e julgadas, através das conseqüências que delas derivassem.

 

É importante notar que este padrão médio de avaliar as conseqüências de uma ação, e que depende da inteligência média do grupo, é o que irá determinar quando um dado ato deve ou não ser considerado ético ou legal. Pessoas com deficiência mental, por exemplo, são sempre absolvidas de quaisquer atos danosos que venham a praticar, pois sua inteligência deficitária as impedem de avaliar, com a precisão de uma pessoa normal, as conseqüências de seus atos.

 

Como a capacidade de avaliar conseqüências é fruto direto da inteligência, então, a responsabilidade também deve ser uma propriedade individual e, assim, o julgamento ético deveria ser aplicado dentro do contexto da individualidade pessoal, que poderia variar de uma forma quase contínua, como também ocorre com a variabilidade da inteligência entre os indivíduos de um grande agrupamento humano.

 

Além de a ética abarcar o julgamento sobre ações tomadas a partir da previsibilidade de suas conseqüências, abre-se também um novo ramo, pouquíssimo explorado, mas também fruto da evolução intelectual humana: a “responsabilidade por omissão”.

 

A responsabilidade da omissão surge do dever que temos de nos preocupar não somente com as conseqüências de nossos atos, mas também com as conseqüências de nosso não-agir, das escolhas que poderíamos ter feito, mas não fizemos. Ao escolhermos uma determinada ação, e não uma outra, somos também responsáveis por permitir um determinado leque de conseqüências e não outro. E estas avaliações deverão ser sempre baseadas na MEC.

 

A responsabilidade por omissão não é tão explorada e detalhada como a responsabilidade pela ação porque, em geral, pressupõe a necessidade de mais inteligência do que aquela necessária para avaliar as conseqüências de atos já escolhidos. É muito mais difícil saber quais ações poderiam ser tomadas e avaliar qual seria a melhor delas, ou a menos má, do que apenas avaliar uma única ação, já escolhida, pois, para cada uma das ações possíveis, uma estimativa de avaliação de suas conseqüências deveria ser feita. Só assim poder-se-ia saber qual seria a melhor escolha.

 

Contudo, dentro de uma espécie no qual o QI médio da população sobe inexoravelmente a cada geração, a ética não poderá ficar para trás. A ética-futura pretende que ações não executadas, as escolhas não tomadas, também sejam parte integrante da ética e da responsabilidade de seus agentes, assim como o é, hoje, a responsabilidade pelas conseqüências das ações já tomadas.

 

Podemos comparar a ética futura com a ética tradicional com uma sentença:

 

A ética tradicional se preocupa apenas com a responsabilidade na diminuição da felicidade de sistema social, ao passo que a ética futura fornece uma ênfase maior à responsabilidade pelo aumento da felicidade num tempo futuro do sistema.

 

Um exemplo ajudará a elucidar este novo enfoque:

 

Um homem rouba 100 milhões de reais do erário público. Sua pena deveria ser maior ou menor do que a de alguém que roubou de uma empresa particular? E esse mesmo crime em relação ao crime por assassinato? Qual pena deveria ser a mais grave?

 

Resposta: segundo a ética futura, a pena deveria ser maior pelo roubo do erário público do que o de uma instituição privada, e, dependendo do valor,  também maior do que a de alguém que cometeu um assassinato. Isso porque este montante de dinheiro, sendo parte do erário publico, poderia ser utilizado para salvar talvez  milhares de vidas que são diariamente ceifadas pela fome ou por deficiências na área de saúde.

 

Atualmente, sabe-se que morrem, por exemplo, no Brasil, dezenas de crianças por dia por desnutrição e problemas. Se com 10 mil reais fosse possível salvar uma criança da morte então, estes 100 milhões roubados poderiam salvar da morte certa cerca de 10 mil crianças. Isso significa que este dinheiro roubado poderia ter sido usado para salvar milhares de vidas, portanto este roubo causou um prejuízo maior, em termos de vidas humanas, do que  a morte de uma única pessoa, assim, a pena por este roubo deveria ser maior do que a pena pelo crime de um único assassinato.

 

Uma abordagem inusitada da ética futura está no resultado de sua análise sobre a quantidade de filhos de um casal. Considere um casal bastante rico que, para não ter sua vida de viagens, festas e jantares prejudicada, resolve não ter filhos. Entretanto, se tivessem um filho, este teria tudo que precisasse e poderia ter uma vida bastante feliz. Mas, este casal decidiu que esta vida não deverá existir, e esta felicidade, que poderia ser sentida de forma plena, não deverá existir. Isso não seria o equivalente a uma espécie de assassinato? Pois esta decisão tirou a possibilidade de existência de uma vida que tinha tudo para ser feliz. Deveria haver punição para isso?

 

Agora consideremos um outro caso: um casal muito pobre, com vários filhos, engravida novamente e decide fazer um aborto porque um novo filho irá fazer com que os recursos alimentares dos outros tornem-se ainda mais diminutos. Eles fazem o aborto, e são descobertos pela polícia e então condenados pelo crime de aborto. O leitor deve comparar a situação do casal rico e do casal pobre e, utilizando a ética futura, verificar a contradição em punir um casal que decidiu não ter um filho que passaria necessidade e não punir o outro casal que poderia ter um filho feliz.

 

Uma solução ética para o primeiro caso seria o pagamento de uma espécie de “taxa de não natalidade”: os casais ricos que poderiam ter filhos, e não o tem por algum tipo de egoísmo, teriam de pagar uma taxa mensal ao governo que, por exemplo, seria revertida para ajudar crianças necessitadas.

 


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