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junho 12, 2009

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Tenho ouvido comentários e perguntas por parte da comunidade visinha à USP (moro no Jd. Bonfiglioli). Eles invariavelmente questionam: "O que está acontecendo na USP?". Eu vivo a realidade da Universidade hoje, ou seja, não há greve e é isto o que digo a todos que me questionam. Não havia antes da ação da polícia e não há hoje. Há sim o que acontece todos os anos, alguém diz "Greve", e o circular, o(s) restaurante(s) do CRUSP, as creches, o CEPEUSP, os serviços de manutenção, param. Notaram bem? Todos os serviços que afetam diretamente os alunos, docentes e funcionários da comunidade. Já virou piada, todo ano em maio alguns setores da Universidade declaram "férias coletivas" (a frase não é minha!). Costumo brincar e dizer que a reitora deve estar muito contente com o movimento, só em pensar no que se economiza em conta de água, luz, combustível etc...

Vejam bem: não sou um reacionário de direita, que ataca a greve simplesmente porque greve é coisa de "comunista" (conheço diversos colegas que pensam assim). Eu participei ativamente de pelo menos duas greves na Universidade, a de 1988 como funcionário e a de 2004 como docente. Em 1988 a Poli parou, nossas assembléia diárias no edifício da Engenharia Civil eram um exemplo de democracia em ação. Na época participei de poucas assembléias gerais, mas já naquela época me convencí que estas assembleias tinham outras agendas e que estávamos totalmente por nossa conta. Em 2004 defendi uma postura totalmente impopular tomada pela equipe de uma disciplina do Biênio da Poli que eu coordenava e aderí à greve, mesmo sendo esta a única disciplina do segundo ano que parou. Como resultado alguns alunos foram prejudicados e eu concluí que o movimento não valeu a pena. Lembro apenas que naquela ocasião a reitoria "ofereceu" 0% de reajuste na data-base, ou seja, ela praticamente pediu a todos que entrassem em greve.

A greve de hoje não tem motivo de ser. Os sindicatos pedem 16%, a reitoria concedeu 6%. Que eu saiba, em uma negociação há a necessidade de se ceder em algo por ambas as partes  e os próprios sindicatos assumiram em seus boletins que o índice concedido corrige a inflação anual. A greve continuou porque? Será que a promessa de mais 4% a ser concedido no segundo semestre iria stisfazer esta minoria que insiste em prejudicar todo mundo mantendo esta greve absurda? Não posso falar por eles, mas desconfio que não. A agenda política deste grupo é outra. Se a reitoria voltasse atrás e concedesse os 16% eles iriam arranjar outra desculpa para continuar o movimento, pelo simples fato de que a sobrevivência destes movimentos radiacais depende desta exposição na mídia.  A cada bomba "de efeito moral" que explodia, eles esfregavam as mãos e abriam um sorriso satisfeito: mais uma cena chocante iria ser exibida na TV!

Aqui cabe um "mea culpa", que penso, deveria ser coletivo. Estes grupos estão no "poder" na Universidade porque a maioria de nós nos omitimos. É fato que pipocam relatos sobre a ação intimidatória de alguns membros mais exaltados desta facção, mas se fôssemos em peso a estas assembléias, mesmo sacrificando uma ou outra aula, e votássemos contra esta greve, eles ficariam falando sózinhos. Provavelmente grunhiriam alguns comentários sobre como a Universidade é conservadora (ignorando completamente a história dos que são contra esta greve), mas teríam que acatar, pois a noção que eles tem de democracia é a da ditadura da maioria e não a da busca do consenso entre posições divergentes, como deveria ser.

Palavras-chave: ditadura, Greve, opressão, Sindicatos

Este post é Domínio Público.

Postado por Claudio Geraldo Schon | 4 usuários votaram. 4 votos

Comentários

  1. Oda escreveu:

    Muito bom Cladio, vc tem toda a razao quando diz que nos deveriamos nos mobilizar mais.

    OdaOda ‒ domingo, 14 junho 2009, 00:12 -03 # Link |

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