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        <title><![CDATA[Rafael Sola de Paula de Angelo Calsaverini : Blog]]></title>
        <description><![CDATA[Blog de Rafael Sola de Paula de Angelo Calsaverini, hospedado no Stoa.]]></description>
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        <item>
            <title><![CDATA[Marcha da Maconha]]></title>
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            <pubDate>Mon, 30 May 2011 13:19:05 GMT</pubDate>
		<dc:subject><![CDATA[constituição]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[polícia]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[marcha da maconha]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[maconha]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[justiça]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[direitos]]></dc:subject>
            <description><![CDATA[<p align="JUSTIFY">Eu não
sou usuário de drogas ilícitas, nem estava presente durante a
marcha da maconha, nem sei se sou favor das reivindicações do grupo
que a organizou. Entretanto me incomodei bastante com o resultado da
manifestação. Me incomodei com os excessos da Polícia Militar e da
Guarda Civil Metropolitana, que são óbvios e patentes nos vídeos
que assisti(*), mas me incomodei ainda mais com a decisão judicial que
permitiu a ação dos policiais e GCMs.</p>
<p align="JUSTIFY">Taxar de
apologia ao crime a legitima manifestação de pessoas que acreditam
que uma lei deve ser alterada é ridículo. </p>
<p align="JUSTIFY">Eu não sou advogado nem
estudante de direito e por isso tenho uma sincera dúvida a respeito do conceito de apologia ao crime. Por favor me
corrijam os que entendem do assunto se o raciocínio abaixo estiver errado:</p>
<p align="JUSTIFY">1)
Apologia ao crime é algo complicado de definir, porque algo que não
é um fato concreto não pode ser crime. Apologia ao crime é dizer
algo como "eu acho que a Suzane von Richthofen tinha mesmo que
matar os pais", um crime concreto. Para mim é difícil conceber como a defesa de algo que não é um fato concreto, já perpetrado no
passado e tipificado como crime, pode ser considerada apologia ao
crime. Nesse sentido, dizer "eu acho que todo mundo deveria matar os pais" não é apologia ao crime. Não aconteceu, não é concreto. Prossigamos mesmo assim. </p>
<p align="JUSTIFY">2) Não obstante a objeção acima, suponha que se entenda que apologia ao crime é discursar
incentivando uma prática criminosa. Ainda assim, mesmo que a marcha
estivesse incentivando o uso da maconha, isso não seria apologia ao
crime. Por uma razão simples: o uso de maconha não é crime no
Brasil. Apenas seria apologia ao crime incentivar o tráfico de
drogas. Há quem diga "mas o uso pressupõe o tráfico ou o plantio, portanto incentivar o uso continua incentivando o crime". Opa! Lógica um pouco nebulosa essa. O que está em jogo é o uso da maconha, não a forma como ela foi adquirida. O ato de usar maconha não é crime. </p>
<p align="JUSTIFY">3) Mas
ainda que se entenda que incentivar o uso de maconha é apologia ao
crime, a marcha da maconha não era isso. Era apenas uma manifestação
pública pedindo a regulamentação do uso de maconha, do seu porte e
comércio.
</p>
<p align="JUSTIFY">4) Mas
ainda que se entenda que manifestar-se pela regulamentação do uso
de drogas é apologia ao crime, não se pode condenar ninguém antes
do fato. Antes de acontecer a marcha, ninguém fez apologia a nada.
Ninguém disse absolutamente nada. O máximo que se pode fazer é
deter e processar as pessoas que, durante o evento, se manifestaram
assim ou assado. Um crime é um fato concreto, já perpetrado, não
uma expectativa a respeito do que pode acontecer no futuro.
</p>
<p align="JUSTIFY">A
regulamentação ou não do uso da maconha não é um assunto sobre o
qual eu tenha uma opinião objetiva. Isso é algo que deve demorar
para acontecer e é um assunto sobre o qual muitos dados ainda devem
ser tomados e estudados. Apesar de eu tender a ser a favor, acho que
inexiste um modelo de descriminalização adequado para a atual
situação precária do atendimento de saúde no Brasil.
</p>
<p align="JUSTIFY">Mas o que
está em jogo é muito mais importante do que isso: é a <span style="text-decoration: underline;"><strong>liberdade do
indivíduo de manifestar publicamente suas crenças a respeito das
leis de seu país</strong></span>. Não é possível que defender uma mudança em uma
lei seja considerado apologia ao crime!
</p>
<p align="JUSTIFY">Propor
uma reforma constitucional deve ser considerado alta traição contra
a nossa lei maior? E os partidos que defendem a reforma política
estão atentando contra o sistema eleitoral e devem ser dissolvidos
como organizações criminosas? E as pessoas que são contra o
estatuto do desarmamento devem ser presas como perigosas defensoras
do uso de armas de fogo?
</p>
<p align="JUSTIFY">Um
simples exame de casos extremos mostra como é ridícula essa
posição!
</p>
<p align="JUSTIFY">Muita
gente diz: "bem feito, era só um bando de maconheiros". Eu
fico impressionado com essa reação. Eu até concordo que há uma
fração daqueles manifestantes com as quais eu provavelmente não me
relacionaria, e que levam vidas que eu não aprovo. Mas isso não
importa!
</p>
<p align="JUSTIFY">Não
importa se quem está se manifestando é um maconheiro, um pastor
evangélico, um bêbado, um santo, um pai de família ou um velho
tarado. O fato de um sujeito ser usuário de maconha não é razão
para que suas liberdades civis sejam diminuídas. Todas as pessoas
têm pleno direito, garantido pela constituição, a manifestar-se
publicamente sobre o que quer que julgue justo.</p>
<p align="JUSTIFY"> </p>
<p align="JUSTIFY">(*) Há um vídeo no site da Folha em que um homem está tranquilamente caminhando sobre a calçada, sozinho. Ele não está se manifestando, não está segurando placas, não está gritando, não está fazendo absolutamente nada além de caminhar na calçada. Provavelmente era um dos manifestantes, mas naquela situação ele estava obviamente apenas indo embora. Um PM se aproxima, dá uma rasteira nele, derrubando-o no chão, e o arrasta pela camisa. O homem se debate e sai correndo. O PM o persegue e, de repente, um GCM o derruba <strong style="text-decoration: underline;">com uma</strong> <strong style="text-decoration: underline;">voadora no peito</strong>. Eu sinceramente duvido que isso esteja de acordo com os procedimentos de controle de multidões da tropa de choque. Ao final da sequencia se observa a razão da ação: destruir o equipamento fotográfico que o homem carregava.</p>
<p align="JUSTIFY"><a href="http://www.youtube.com/watch?v=fCfxshW2OME&amp;feature=player_detailpage#t=67s">Aqui está o vídeo</a>. Assista o trecho do instante 1:07 até 1:30:</p>
<p align="JUSTIFY"><object width="400" height="300"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/fCfxshW2OME&feature=player_detailpage#t=67s"></param><param name="wmode" value="transparent"></param><embed class="VideoPlayback" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/fCfxshW2OME&feature=player_detailpage#t=67s" width="400" height="300"/></embed></object></p>
<p> </p>
<p> </p>]]></description>
        </item>
                
        <item>
            <title><![CDATA[Não frequente a USP. Não é seguro.]]></title>
            <link>http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/92021.html</link>
            <guid isPermaLink="true">http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/92021.html</guid>
            <pubDate>Thu, 19 May 2011 12:49:51 GMT</pubDate>
		<dc:subject><![CDATA[polícia]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[morte]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[incompetência]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[crime]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[violência]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[USP]]></dc:subject>
            <description><![CDATA[<p style="font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2; margin: 0.09in;"  align="JUSTIFY"><span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="#ffffff;">Todos
já devem ter ficado sabendo da tragédia anunciada que aconteceu no
estacionamento da FEA ontem a noite. Um estudante reagiu a um assalto
e foi baleado na cabeça, morrendo no local. </span></span></span></p>
<p style="font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2; margin: 0.09in;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="#ffffff;">A
USP é  erma, cheia de rotas de fuga, frequentada por gente
razoavelmente bem remunerada, sem polícia, com pouca iluminação
pública,… é um belo convite. E esse convite foi respondido com um
recente aumento do número de ocorrências no campus. Parece óbvio
que uma quadrilha de sequestros relâmpago têm agido na Cidade
Universitária desde o começo do ano, além de outros assaltos e
ocorrências. Era uma questão de tempo até que alguém reagisse e
fosse baleado. </span></span></span>
</p>
<p style="font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2; margin: 0.09in;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="#ffffff;">Não
é a primeira vez que a USP passa por uma onda de crimes (houve uma
onda de estupros em 2002) e não é a primeira vez que alguém morre
na USP, e nem é a primeira vez que alguém é baleado. </span></span></span>
</p>
<p style="font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2; margin: 0.09in;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="#ffffff;">De
um lado, assim como nas ocasiões passadas, a resposta da Reitoria é
de que não pode fazer nada sem o aval do Conselho do Campus. De
outro, sabemos que há um setor da universidade – que apesar de
minoritário é bastante barulhento, e parece ter influencia nos
conselhos que decidem esse tipo de coisa – que é absolutamente
contra qualquer presença policial no campus.</span></span></span></p>
<p style="font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2; margin: 0.09in;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="#ffffff;">É
difícil para mim entender porque algumas pessoas associam qualquer
presença da PM, mesmo com uma simples ronda preventiva, com
repressão ideológica. Será que elas acham que os policiais vão
entrar nas salas de aula para checar que tipo de conteúdo está
sendo ensinado? Será que vão confiscar livros suspeitos na
biblioteca? Será que pessoas serão presas por serem filiadas a
partidos de esquerda? A fantasia uspiana é tão densa que causa
paranóias poderosíssimas. </span></span></span>
</p>
<p style="font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2; margin: 0.09in;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="#ffffff;">Também
é difícil para mim entender como o reitor pode ser tão fraco e
bunda-mole. Ele é responsável pela administração dessa
universidade e, ainda que não caiba a ele tomar decisões finais,
ele tem poder de influenciar os conselhos responsáveis por essas
decisões. Eu não consigo acreditar que ele tenha tão pouco poder
como afirma. Afinal, ele foi capaz de invocar poderes externos para
ser nomeado reitor mesmo sem ter sido eleito... Pouco influente ele
não é. </span></span></span>
</p>
<p style="font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2; margin: 0.09in;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="#ffffff;">Enfim.
Nada vai mudar. A USP continua a mesma ilha da fantasia, anacrônica,
ideologicamente congelada no tempo, com a mesma administração fraca
e inapta de sempre, lentamente desmoronando, no ritmo uspiano de sempre. </span></span></span></p>
<p style="font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2; margin: 0.09in;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="#ffffff;">Por
isso ouça meu conselho: não frequente a USP. Não é seguro, e não
vai se tornar seguro tão cedo. </span></span></span>
</p>
<p> </p>
<p> </p>]]></description>
        </item>
                
        <item>
            <title><![CDATA[O Lixo como fator de luta.]]></title>
            <link>http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/91295.html</link>
            <guid isPermaLink="true">http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/91295.html</guid>
            <pubDate>Mon, 18 Apr 2011 12:08:31 GMT</pubDate>
		<dc:subject><![CDATA[fascismo de esquerda]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[terceirizados]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[lixo]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[limpeza]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[greve]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[calote]]></dc:subject>
            <description><![CDATA[<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY"><span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="#ffffff;"><br />A
essa altura todos já sabem mais ou menos o que aconteceu na USP - a
empresa terceirizada responsável pela limpeza, que está em processo
de falência já faz uns meses, deu um calote nos seus funcionários,
dizendo que a USP não teria dado o dinheiro. Por isso os
funcionários entraram em greve. Nada mais justo - é o que todo
mundo diria nessa situação. Você me paga, eu trabalho. Você não
me paga, eu não trabalho. </span></span></span></p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;"><span style="#ffffff;">Num
primeiro momento eu acredito que todos por aqui se sensibilizaram com
a situação dos funcionários. Não é fácil ganhar pouco e
trabalhar duro, e de repente se ver sem pagamento. Essas pessoas não
têm reservas ou economias. Elas não têm ao que recorrer para
comprar comida se o seu salário não é depositado. Quem ganha R$
600,00 por mês não tem como fazer poupança. </span></span></span></span></span><span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;"><span style="#ffffff;">Acredito
que qualquer aluno estaria disposto a participar de um movimento
sério para exigir que a USP pagasse essas pessoas imediatamente –
como me parece que é legalmente a obrigação dela fazer, me
corrijam se estou errado – e depois perseguir compensação na
justiça junto à empresa que deu o calote.</span></span></span></span></span></p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;"><span style="#ffffff;">Eu
estaria plenamente disposto a tomar a limpeza dos prédios da minha
unidade nas minhas próprias mãos, e juntar um grupo de estudantes
para fazer uma faxina diária no prédio, para que os funcionários
terceirizados não precisassem trabalhar sem receber. Eu estaria
plenamente disposto a tentar conseguir assitência jurídica para
eles. A criar uma rede de assistência e distribuir cestas básicas
para eles. Ajudar a pressionar a reitoria por uma solução imediata,
e por uma revisão dos editais de licitação para que as próximas
empresas a serem contratadas fossem devidamente investigadas e
houvesse critérios de exclusão para evitar outras picaretagens do
tipo. Enfim... perseguir, de maneira séria e dentro da lei, soluções
para o caso e assistência para essas pessoas enquanto a coisa não
se resolvesse. </span></span></span></span></span>
</p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;"><span style="#ffffff;">Até
que... de repente lixo. Um certo grupo – minoritário e isolado –
de estudantes e funcionários decidiu que era uma excelente idéia
“ajudar” essas pessoas espalhando lixo por algumas unidades,
depredando banheiros e até jogando papel higiênico usado pelos
corredores da FFLCH. E a reação de todo mundo é: qual é o ponto?
Em que isso ajuda? Que possível consequencia de espalhar lixo no
corredor pode ser benéfica, ou avançar a possibilidade de resolver
a questão?</span></span></span></span></span></p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;"><span style="#ffffff;">Nenhuma!
Vandalizar a escola causa antipatia, afasta pessoas sérias da causa,
não acelera em nada o processo de resolver o problema e causa
prejuízo para o patrimônio da escola. Grande idéia, não?! A única
possível vantagem é chamar atenção. Mas atenção negativa vale?
Qualquer atenção? </span></span></span></span></span>
</p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;"><span style="#ffffff;">Um
“limpaço” não chamaria a mesma atenção? E não passaria a
imagem exatamente contrária? As pessoas não se solidarizariam com
os estudantes que desceram do salto para limpar o chão para ajudar
pessoas que realmente têm necessidades?</span></span></span></span></span></p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;"><span style="#ffffff;">A
imagem externa dos estudantes da USP já é a de um bando de
mimadinhos que gostam de quebrar tudo e fazer birra uma vez por ano.
Essa imagem não é acurada mas, se de fato um grupinho resolve agir
segundo o estereótipo uma vez por ano qual é o sinal que se manda
para a sociedade? De que vale a pena se solidarizar com qualquer
causa que essas pessoas defendam?</span></span></span></span></span></p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;"><span style="#ffffff;">A
verdade é que uma parte dessas pessoas que estimulam o vandalismo
como tática de luta não estão querendo resolver o mesmo problema
que o pessoal da limpeza. O pessoal da limpeza quer os seus salários
e seu emprego de volta. Os vândalos querem o fim dos salários e
empregos. Eles pouco se importam se essas pessoas vão receber ou
não, eles querem usá-los como os pobres martirizados pelo sistema
capitalista. O lixo nos corredores serve muito mal aos propósitos
dos funcionários que estão sem salário, mas não foi concebido
para isso. Foi concebido para perturbar a ordem, ameaçar a
estabilidade, servir à mobilização contra “tudo o que está aí”.
</span></span></span></span></span>
</p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;"><span style="#ffffff;">Bom,
isso é o que a gente vê cotidianamente na USP. A gente já conhece
o vandalismo da universidade como tática de mobilização e sabe
que, além de uns transtorninhos para a comunidade universitária uma
vez por ano, ele tem pouco efeito no mundo real.</span></span></span></span></span></p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;"><span style="#ffffff;">É
uma pena... muita coisa poderia ser feita para ajudar de fato essas
pessoas a obter de fato o que querem: seus salários e alguma
segurança nos seus empregos. Além disso essa era uma grande
oportunidade para rever a forma como a USP tem contratado empresas de
limpeza e para entender porque essa não é a primeira vez que um
contrato de terceirização dá problema. Talvez porque as empresas
mudam e os donos não... </span></span></span></span></span>
</p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">
<span style="color:#000000;"><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;"><span style="font-style: normal;"><span style="font-weight: normal;"><span style="#ffffff;">Mas
ninguém vai fazê-lo porque a turba já cooptou a questão para suas
causas particulares. Qualquer dissidente é um “fascista,
escravagista”. Eles têm o “monopólio da luta”, com os métodos
deles, com os objetivos deles, e com os resultados que a gente já
conhece faz tempo. </span></span></span></span></span>
</p>
<p> </p>]]></description>
        </item>
                
        <item>
            <title><![CDATA[O engajamento político-ideológico faz do mundo um lugar pior.]]></title>
            <link>http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/85691.html</link>
            <guid isPermaLink="true">http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/85691.html</guid>
            <pubDate>Mon, 07 Feb 2011 17:14:25 GMT</pubDate>
		<dc:subject><![CDATA[direita]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[manada]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[ideologia]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[estupidez]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[esquerda]]></dc:subject>
            <description><![CDATA[<p> </p>
<p align="JUSTIFY">
Esse post vai defender a grande heresia política que está estampada no título. Não importa se é "direita" ou
"esquerda", cristão conservador ou socialista progressista -
se você escolheu um time, você está fazendo do mundo um lugar
pior. E o meu principal argumento é a reação dos diversos "times"
ideológicos dominantes com relação a duas situações políticas
em dois países do oriente.</p>
<p align="JUSTIFY">
Há
dois anos ocorreu no Irã algo muito parecido com o que agora está
ocorrendo no Egito - pessoas foram às ruas em massa para protestar
basicamente contra duas coisas: a autocracia de seu regime, que
prende, tortura e mata pessoas por crimes de opinião, e a corrupção
do regime que loteia a riqueza do país como se fosse uma propriedade
privada de sua classe dominante. Do ponto de vista ideológico os
governos do Irã e do Egito são tão diferentes quanto possível. Do
ponto de vista de quem vive diariamente sob o seu jugo, são a mesma
exata e nojenta realidade: regimes autocráticos que usam os mesmo
expedientes, a mesma mecânica, a mesma tortura. A ideologia é
apenas o verniz intelectual sobre uma dinâmica social idêntica. 
</p>
<p align="JUSTIFY">
Ainda
mais semelhante foi a forma com que os protestos começaram, como se
espalharam através da internet, e como se espalhou feito pólvora na
juventude secular e, até esse momento, bastante alienada da política
pela situação de seus países. Outro ponto de semelhança foi como
em ambos os casos o movimento arregimentou gente de toda classe -
secularistas, religiosos, jovens, velhos, classe média, políticos. A
única diferença objetiva entre esses dois levantes é o fato de que
o governo iraniano foi mais competente em reprimir violentamente os
seus manifestantes. 
</p>
<p align="JUSTIFY">
Entretanto
a reação dos diversos grupos ideológicos sobre os dois levantes foi
muito diferente. Quando os iranianos se levantaram contra a fraude
eleitoral que garantiu a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, os
conservadores do ocidente bateram palmas, os neocons se rejubilaram,
a direita cristã americana e a direita secular brasileira, Israel e
os seus defensores, os grupos secularistas do oriente médio, todos
clamaram por apoio à revolução verde. A esquerda européia, os
islamistas xiitas, a esquerda sulamericana, todos  descartaram o
movimento como "revolta oligárquica", acusaram de ser fomentado
por estrangeiros, de ser uma revolta das classes altas, e que o povo
estava realmente feliz com o regime. 
</p>
<p align="JUSTIFY">
Quando
os egípcios se levantaram, inspirados por Tunis, contra o terror
imposto pelo governo egípcio sobre o país, a esquerda se rejubilou,
os liberais americanos clamam para que o governo corte a ajuda
financeira ao exército egípcio, a esquerda brasileira os chama de
revolucionários (*), o PSTU envia uma pessoa - cuja coragem eu até
admiro, pois a situação está feia para estrangeiros lá - para
cobrir a Revolução Egípcia. Já a direita americana e os neocons
se encolhem de medo e começam a espalhar sua paranóia
anti-islâmica, "meu deus, e a Irmandade Muçulmana, os
terroristas? Isso é igual à revolução iraniana em 79!". Israel
e seus defensores se preocupam "e os tratados? e a segurança do
estado israelense? Forças estrangeiras estão envolvidas: o Hammas e
o Irã!"(**), a direita brasileira olha torto, com todas as
suspeitas possíveis "nós sabemos quem de fato está por trás
dessa insurreição?".</p>
<p align="JUSTIFY">
O
fato é que para certos grupos ideologicamente engajados, o regime
egípcio é "amigo dos nossos amigos", se comporta bem com
Israel, colabora com os Estados Unidos, enquanto o regime iraniano é
"inimigo dos nossos amigos" - ataca Israel e denuncia os Estados
Unidos. Para os outros grupos ideologicamente engajados a situação
é exatamente oposta: o Irã é "inimigo dos nossos inimigos" e o
Egito é "amigo dos nossos inimigos". 
</p>
<p align="JUSTIFY">
Note:
acredito que a maioria dessas pessoas não estão agindo de má-fé
intelectual, nem são ignorantes sobre a situação. Mas acredito que
o véu do engajamento ideológico intoxica o julgamento. A afiliação
ideológica e o engajamento parecem ter uma correlação direta com
uma troca da lógica pela paranóia, do raciocínio por um
comportamento de manada. 
</p>
<p align="JUSTIFY">
Há
bastante evidência empírica em estudos de psicologia e neurociencia
de que nossas decisões morais são tomadas em grande parte não por
um julgamento intelectual detalhado, mas por "gut feeling", sob
influencia de regiões do cérebro ligados a frustração e
recompensa, conformação social e rejeição(***). Em alguns experimentos
mesmo o julgamento de um fato bastante objetivo e lógico, com uma
resposta única e bastante bastante óbvia (perguntas do tipo "esta
figura geométrica é maior do que aquela?" "qual dessas figuras
encaixa naquele buraco?") pode ser fortemente afetado pela
necessidade de se conformar ao grupo social. Pessoas sob forte
pressão social podem de fato <strong>ver e perceber</strong> outra coisa e raciocinar de forma diferente ao
olhar para os mesmos fatos objetivos(****).</p>
<p>Eu
tenho a impressão que o comportamento de pessoas muito fortemente
engajadas em alguma doutrina ou ideologia tem alguma forte relação
com essa necessidade de conformação à norma do seu grupo. Há uma
pressão por certas conclusões - conclusões tomadas antes do
raciocínio, antes dos fatos, antes das evidências. Não importa se
há ou não evidência se a Irmandade Muçulmana defende o
terrorismo, há uma pressão ideológica para que se conclua que
Israel corre perigo se o <em>status quo</em> do Egito for perturbado.
Não importa se há evidência de que a "Revolução Verde" no
Irã não é apenas uma "revolta das oligarquias" mas um
movimento bastante pervasivo na sociedade iraniana, há uma forte
pressão ideológica para que se conclua que qualquer dissidência é
um movimento de ricos  insatisfeitos, fomentado por Israel.</p>
<p align="JUSTIFY">
O
pior que pode acontecer com uma mente sã, hábil e saudável é ser
cooptada pelo engajamento político-ideológico e delegar seus
raciocínios à lógica de grupo, passar a ajustar os raciocínios e
fatos às conclusões, e não o contrário. Grande parte dos nossos
problemas são resultados dessa tendênca desastrosas, e grande parte
de nossas disputas e contradições públicas são resultado de dois
lados que resolveram ignorar os fatos e assumir conclusões
automáticas. E como é impossível chegar a um acordo com alguém
que já em conclusões prontas, sobra aos grupos denunciarem-se
mutuamente em público ao invés de tentar obter um compromisso
lógico. Isso aconteceu nas eleições americanas de 2008, nas
eleições brasileiras do ano passado, em cada uma das grandes
controvérsias públicas pelas quais o nosso país e outros passaram
nos últimos anos... aliás, eu poderia até dizer que esse tem sido
o principal motor da política por um longo tempo. 
</p>
<p align="JUSTIFY">
Faça
um favor a si mesmo: se esforce para questionar a si próprio. Se
esforce para questionar o seu grupo. Se esforce para questionar seus
autores favoritos. Se esforce para que o guia principal de suas
decisões e convicções sejam a lógica e os fatos. Não tenha respostas prontas. E abandone o
engajamento ideológico o mais rápido que for capaz. Não se engane: é muito difícil. Como o físico Richard Feynman disse uma vez "you must not fool yourself, and you are the easiest person to fool". Mas vale a pena o esforço. </p>
<p align="JUSTIFY"><span style="text-decoration: underline;">Notas de rodapé:</span></p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">(*) de fato são revolucionários, mas não são os 'revolucionários' que os marxistas do PSTU gostariam que eles fossem...</p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">(**) Essa é a MAIOR BESTEIRA que eu ouvi nos últimos tempos - para a informação dos paranóicos de plantão, para começo de conversa a Irmandade Muçulmana sempre condenou o terrorismo e defende a não violência (com exceção do conflito com Israel, claro). Além disso, a Irmandade Muçulmana e os xiitas iranianos SÃO INIMIGOS. Al-Qarawadi, um dos membros mais influentes da Irmandade Muçulmana (que é <strong>sunita</strong>!)<strong> </strong>já chamou os aiatolás xiitas do Irã de apóstatas e é proibido de entrar no Irã. Sim, a Irmandade é islamista, defende o estabelecimento de um regime teocrático e é hostil a Israel, mas nada está tão longe de uma entidade terrorista ligada ao Irã quanto a Irmandade Muçulmana! E por fim, e mais importante de tudo: a Irmandade não está por trás dos protestos. Membros da irmandade participaram sim dos protestos, mas como coadjuvantes, participantes secundários. A grande massa não está lá por razões religiosas.</p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">(***) O Cortex Anterior Cingulado, uma área do cérebro que sempre se mostra ativa em experimentos ligados a rejeição social e conformação ao grupo, aparece também em experimentos associados a resolução de dilemas morais. Em breve vou colocar umas referências aqui. Preciso organiza-las. Talvez as descreva em outro post. </p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">(****) Há um experimento clássico em que você mostra um conjunto de figuras para o indivíduo e pergunta qual delas é a maior. As figuras são de tamanhos claramente diferentes e uma fração quase unanime das pessoas acertam a resposta quando questionadas individualmente. Então você repete o experimento colocando a pessoa em uma platéia com vários atores que estão orientados a dar em voz alta a resposta errada. A porcentagem de pessoas que conforma sua resposta à resposta errada do grupo, basicamente ignorando a evidência visual clara, é enorme. Não me lembro os números mas vou colocar aqui mais tarde. O Cortex Anterior Cingulado se ativa durante esses experimentos, e mais fortemente nas pessoas que conformam sua resposta à resposta errada do grupo. </p>
<p style="margin-left: 0.08in; margin-right: 0.08in; margin-top: 0.08in; font-style: normal; font-weight: normal; widows: 2; orphans: 2;"  align="JUSTIFY">E veja: é muito difícil não se conformar. Já fizeram informalmente esse experimento comigo, e eu fiquei tremendamente confuso em relação a qual era a figura maior por vários minutos antes de dar a resposta certa. Depois de um tempo olhando as figuras fiquei até com vergonha. A diferença de tamanho era enorme. </p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Post Scriptum:</span></p>
<p align="JUSTIFY">1) É claro que o engajamento político, no sentido de engajamento nas atividades políticas, é algo positivo. Se você se engaja em participar ativamente das decisões na sua cidade, no seu país, se você participa honestamente do processo político e não é um cidadão passivo, você está fazendo certo. Me refiro nesse post ao engajamento em uma ideologia, um sistema doutrinário político que apresente respostas prontas para os problemas. Isso é o que você deve tentar banir do seu mundo. </p>
<p>2) É claro que ao tomar decisões você vai pesar valores subjetivos. Alguém que julgue que justiça social é mais importante que liberdades individuais vai tomar decisões diferentes de alguém que pense o contrário, ainda que esteja diante dos mesmos fatos objetivos. O que é importante é que os dados e fatos objetivos sejam racionalmente examinados antes que as conclusões resultantes desse exame racional sejam submetidas ao crivo dos seus valores subjetivos, de forma  intelectualmente honesta. </p>
<p> </p>]]></description>
        </item>
                
        <item>
            <title><![CDATA[A Revolução Egípcia]]></title>
            <link>http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/85634.html</link>
            <guid isPermaLink="true">http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/85634.html</guid>
            <pubDate>Tue, 01 Feb 2011 18:34:38 GMT</pubDate>
		<dc:subject><![CDATA[Egito]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[Oriente Médio]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[Protestos]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[Revolta]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[Revolução]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[Tunísia]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[Mundo Árabe]]></dc:subject>
            <description><![CDATA[<p>Nos
últimos dias eu tenho acompanhado, atônito e sem fôlego, os fatos
que ocorreram na Tunísia e no Egito. É inacreditável o quão
rapidamente um movimento popular foi capaz de colocar um país
inteiro sob suas asas incendiando o legítimo descontentamento
daquele povo em uma ação contra a tirania de seus regimes. Para
aqueles fãs de ficção científica que leram sobre as guerras
digitais nas páginas de William Gibson isso é inacreditavelmente
similar ao que 20 anos atrás era só ficção científica.</p>
<p align="JUSTIFY">
Como
bem lembrado pelo jornalista <a href="http://twitter.com/sultanalqassemi">Sultan
Sooud al Qassemi</a> (uma das melhores fontes sobre o assunto no
twitter) , o que está acontecendo agora não é exatamente inédito
em espírito. Há pouco mais de 21 anos o ditador romeno Nicolae
Ceauşescu teve que fugir do comitê central do Partido Comunista
Romeno em Bucareste por  causa de uma multidão que exigia sua renúncia na praça central da cidade. O
mesmo acontece hoje no Egito, quando mais de 2 milhões de pessoas (2
milhões!!!) se reúnem na praça Tahrir (adequadamente chamada em
português "praça da Liberação") exigindo uma coisa e
apenas uma coisa: o fim do regime autoritário liderado por Hosni
Mubarak. Como na Romênia 21 anos atrás, os egípcios na praça
Tahrir não têm líderes, não foram convocados por nenhuma
oposição, não foram alimentados por nenhuma ideologia. Apenas
atenderam a um chamado anônimo que se espalhou de boca em boca: veja
demonstrar sua insatisfação com o regime. Mas há algo de
diferente: enquanto os romenos tiveram de contar com rádios
estrangeiras para espalhar as notícias, os egípcios e tunísios têm
a internet, o twitter, o facebook, mensagens sms, telefones
celulares, o youtube e toda forma de comunicação ubíqua,
disponível no bolso a qualquer momento, para transmitir qualquer
informação instantaneamente. Imediamente datas e horários de
protestos podem ser anunciados para milhões de pessoas, informações
sobre a posição de forças repressoras podem imediamente ser
obtidas, o horror da repressão violenta pode imediatamente ser
transmitido para milhões por vídeos e fotos.</p>
<p align="JUSTIFY">
Os
protestos foram convocados para o dia 25 de janeiro, no twitter e
facebook. Levou apenas 4 dias, de 25 a 29 de janeiro, para que os
egípcios fossem capazes de arregimentar um número suficiente de
manifestantes para que pudessem desmantelar completamente as forças
policiais leais ao regime. Apenas segundos foram suficientes para que
o mundo todo soubesse que os confrontos tiraram a vida de 100 pessoas
na madrugada do dia 29. Levou apenas mais 3 dias para que o número
de manifestantes saltasse de 20 mil para mais de 2 milhões hoje na
praça Tahrir. Através de sms os jovens egípcios puderam organizar
comitês de vigilância para seus bairros, para defender suas
propriedades e famílias. Ouvi mais de um egípcio no twitter dizer:
me sinto mais seguro ao andar hoje pelas ruas do Cairo do que em
qualquer outro dia. Voluntários organizaram o trânsito, cuidaram da
limpeza das ruas e governaram a cidade na ausência do estado - tudo
organizado pela internet e pelos sms.</p>
<p align="JUSTIFY">
A
queda de Mubarak é uma questão de tempo. É impossível um governo
sobreviver a uma tão grande insurreição popular. Aqui no ocidente
tudo é observado com temor. O Egito é um país central no mundo
árabe. Qualquer coisa que aconteça lá ressoa em todos os outros
países da região. Lá estão as melhores universidades que formam
os jovens árabes, os mais influentes intelectuais, a mais influente
diplomacia e a cultura árabe mais complexa e sofisticada. Quem são
essas pessoas que hoje dominam as ruas do Cairo? Quem são seus
líderes? É uma revolta fundamentalista? É como no Irã em 1979? O
mundo ainda não entendeu direito como é que se descobre quem são
essas pessoas: converse com elas! Leia tudo o que elas dizem! Você
pode entrar em contato direto com as pessoas que estão nas ruas no
dia-a-dia dessa revolução através da internet. Isso é inédito na
história do mundo. Você pode saber exatamente o que os motiva e o
que eles querem.</p>
<p align="JUSTIFY">
Não,
isso é muito importante entender, essa <strong>não
é uma revolta fundamentalista islâmica, é uma insurreição
popular contra um tirano</strong>.
Não é um movimento como a revolução iraniana em 1979. As pessoas
que estão lá na praça Tahrir são, como a reportagem da Al Jazeera
English costuma dizer, "from all walks of life", cristãos,
muçulmanos, secularistas, islamistas, comerciantes, estudantes, marxistas, liberais, operários de
fábricas, jovens liberais, que vivem vidas ocidentalizadas, mulheres
de burca, mulheres de cabelos soltos e roupas ocidentais,
intelectuais, líderes religiosos, civis, militares... é, enfim, o
povo egípcio. O colunista do New York Times <a href="http://twitter.com/#!/NickKristof">Nicholas
Kristoff</a> relata <a href="http://twitter.com/#!/NickKristof/status/32513324906192896">ouvir
de um manifestante</a> na praça Tahrir: "nós queremos o
que vocês têm na América! Nos ajude a ter democracia!". O
produtor do <a href="http://www.democracynow.org/2011/1/31/sharif_abdel_kouddous_live_from_egypt">Democracy
Now!</a> <a href="http://twitter.com/#!/sharifkouddous">Sharif
Abdel Kouddous</a> descreve o que <a href="http://twitter.com/#!/sharifkouddous/status/31369429967183872">a
multidão cantava</a> "muslim, christian, we're all
egyptian" ("muçulmano, cristão, somos todos egípcios"). </p>
<p align="JUSTIFY">Outra
coisa importante de entender: esse movimento não tem líderes, até
agora ninguém tomou a frente como organizador, mentor ou líder de
nada (ao contrário dos protestos no Irã em 2009, onde Mir-Hosein
Musavi era claramente o líder político dos protestos). Surgiu
espontaneamente, quando a notícia do que houve na Tunísia convenceu
os egípcios de que um regime autoritário pode ser derrubado por uma
insurreição em grande parte pacífica.</p>
<p align="JUSTIFY">
Isso
é o que traz mais medo, porque no vazio do poder causado pela queda
de Mubarak não há alguém que o substitua e a revolta pode ser
sequestrada por fundamentalistas. Mas eu não acredito nisso. Pelo
que se vê as pessoas dizendo, não é isso que vai acontecer. A
principal força religiosa conservadora que tem participado dos
protestos é a Irmandade Islamica, um movimento islamista bastante
tradicional que existe a mais 90 anos na região. Mas eles não são
os líderes da revolta, e vários de seus líderes já anunciaram
publicamente que não buscam sequer participar de um governo
pós-Mubarak. Claro que qualquer governo vai ter que ter o apoio
deles e eles provavelmente vão acabar participando, mas nada que não
seja um governo de união nacional - com cristãos, muçulmanos,
conservadores, moderados e secularistas juntos - será estável, e é
para isso que o ocidente deve estar alerta.</p>
<p align="JUSTIFY">
O
mais importante a se esperar de tudo isso é que o povo egípcio
poderá, pela primeira vez, escolher o que vai acontecer e quem
estará governando. É muito provável que o resultado dessa
revolução seja um governo eleito pelo voto direto. E é muito
provável que o Egito não seja o último país árabe a passar por
uma transformação profunda esse ano. </p>
<p align="JUSTIFY">
<strong>Post
scriptum: </strong><em>fontes
para acompanhar esses acontecimentos. </em></p>
<p align="JUSTIFY">
A
melhor fonte para acompanhar o que acontece no Egito agora é a
internet. Esqueçam as agências de notícias ocidentais. A única
agência de notícias capaz de dar notícias acuradas sobre o que
acontece lá é a <a href="http://english.aljazeera.net/">Al
Jazeera English</a>. Recomendo acompanhar o <a href="http://blogs.aljazeera.net/middle-east/2011/01/31/live-blog-feb-1-egypt-protests">live
blog</a> para notícias em cima da hora, e assistir o <a href="http://english.aljazeera.net/watch_now/">stream
ao vivo da televisão</a>. </p>
<p align="JUSTIFY">
Mas
a melhor fonte continuam sendo os twitters. Eu fiz uma <a href="http://twitter.com/#!/list/rcalsaverini/egypt">lista
no twitter</a> e adicionei algumas boas fontes. Os principais
são os jornalistas Sultan Al Qassemi (@sultanalqassemi) em Dubai e
Mona Eltahawy (@monaeltahawy) em New York, os
jornalistas da Al Jazeera que estão no dia-a-dia da praça Tahrir (mesmo depois de serem presos): Dan Nolan
(@nolanjazeera) e Ayman Mohyeldin (@aymanM), e o já citado Sharif
Kouddos (@sharifkouddos). Mas há muitos outros, especialmente
pessoas que não são jornalistas e estão todos os dias na praça
junto com os manifestantes, como Shereef Abbas (@shereefabbas) e Amr
El Beleidy (@beleidy) . Há muitas outras boas fontes que não
estão na minha lista, mas é tudo o que eu consigo acompanhar sem
ficar doido.</p>
<p align="JUSTIFY">
As
hashtags do twitter para acompanhar isso tudo são #jan25 (em
referência ao dia em que tudo começou), #egypt, #sidibouzid (uma
referência à cidade na Tunisia onde tudo começou). Mas seguir a
tag #egypt é quase impossível! São centenas de tweets por segundo!</p>
<p align="JUSTIFY"> </p>
<p> </p>]]></description>
        </item>
                
        <item>
            <title><![CDATA[Eleições: a verdade e a mentira detrás dos números.]]></title>
            <link>http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/83957.html</link>
            <guid isPermaLink="true">http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/83957.html</guid>
            <pubDate>Wed, 13 Oct 2010 14:38:40 GMT</pubDate>
		<dc:subject><![CDATA[Estatística]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[números]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[lógica]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[falácias]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[eleições]]></dc:subject>
            <description><![CDATA[<p> </p>
<div style="background-image: url(data; background-attachment: initial; background-origin: initial; background-clip: initial; background-color: #ffffff; font: normal normal normal 13px/19px Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif; font-family: 'Times New Roman'; font-size: medium; background-position: 100% 0%; background-repeat: no-repeat no-repeat; padding: 0.6em; margin: 0px;">
<div>
<p style="text-align: justify;">
<div style="background-image: url(data; background-attachment: initial; background-origin: initial; background-clip: initial; background-color: #ffffff; font: normal normal normal 13px/19px Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif; font-family: 'Times New Roman'; font-size: medium; background-position: 100% 0%; background-repeat: no-repeat no-repeat; padding: 0.6em; margin: 0px;">
<div>
<p style="text-align: justify;">Nessa campanha presidencial - como, aliás, deve ser em qualquer campanha eleitoral - tem acontecido uma fenômeno interessante nas propagandas e discursos de aliados de cada um dos candidatos do segundo turno. Ambas as campanhas tentam comparar os governos de Lula e FHC apresentando todo tipo de números e estatísticas. O interessante é que o cenário parece estranhamente ambíguo: para cada estatística que mostra Lula melhor que FHC existe outra que mostra o exato contrário. Para dois exemplos interessantes desse tipo de campanha, veja esses dois links:</p>
<ul>
<li>Pró FHC - <a href="http://pt-br.governobrasil.wikia.com/wiki/Governo_Brasil_Wiki">Governo Brasil Wiki</a></li>
<li>Pró Lula - <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/10/comparacao_entre_os_governos_fhc_e_lula.php">O biscoito fino e a massa</a></li>
</ul>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">Esse fenômeno pode parecer estranho para os espectadores da campanha menos acostumados aos números. Afinal, quem foi melhor para o ensino superior, FHC que aumentou o número de matrículas ou Lula que criou mais universidades? Quem diminuiu mais a pobreza, FHC aumentou 4 vezes mais o IDH ou Lula que criou 3 vezes mais empregos?</p>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">Não há nada de estranho aí. O que está por trás dessa estranheza é uma falácia estatística que pode ser chamada "falácia do atirador". Imagine um homem que quer demonstrar que é um excelente atirador e te mostra um alvo pintado em um campo de tiro, com 10 tiros certeiros na mosca. Você pode achar que ele é um grande atirador mesmo, mas sabe como ele produziu esse resultado?</p>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">O atirador ergueu uma enorme parede de madeira, de 10 metros de largura e 5 de altura, colocou-se na posição de tiro e descarregou 500 tiros contra a parede, sem tentar mirar particularmente em nenhuma posição. Claro que depois disso a parede estará cravejada de buracos e em alguns lugares haverá buracos de tiro mais próximos um dos outros. O atirador escolhe convenientemente 10 buracos que, ao acaso, ficaram bastante próximos entre si e desenha e pinta o alvo em torno deles. Então ele corta o resto da madeira e recoloca o alvo em sua posição original, com 10 tiros "certeiros" na mosca.</p>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">O homem não é um excelente atirador. Ele apenas escolheu o alvo depois de ter os resultados. Ele selecionou os "bons" resultados e descartou os ruins. Ele transformou uma distribuição bastante larga em uma distribuição mais estreita apenas descartando certos resultados e mostrando outros.</p>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">Como isso se aplica à campanha eleitoral?</p>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">Para cada aspecto de um governo que você queira avaliar, existe um sem número de estatísticas que podem ser usadas. Se, por exemplo, eu quero avaliar a evolução da renda, posso mostrar o crescimento do PIB per capita, ou de algum índice de salários, ou da fração do PIB correspondente aos salários, ou quanto subiram os salários em comparação com a taxa básica de juros, ou comparar com taxas “reais” praticadas no mercado. Posso comparar esses números em dólares ou reais, posso comparar o poder aquisitivo real, ou quanto essa renda compra de uma certa cesta de produtos essenciais. Posso focar apenas no crescimento da renda da classe C, ou em quanto cresceu (ou caiu) a razão da renda da classe C pela renda da classe A. Posso comparar quantos bens de consumo essenciais as pessoas conseguem comprar, ou posso comparar quanto o crescimento de suas rendas se compara com o rendimento de um certo investimento padronizado. Todas essas são formas de comparar quanto a renda cresceu.</p>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">Deu para perceber que existe um grande número de estatísticas para comparar dois governos, mesmo que fiquemos apenas no restrito conjunto de estatísticas referentes ao aumento da renda. Se eu comparar todos esses números entre o governo A e o governo B, alguns resultados serão pró-A e outros serão pró-B. É natural que seja assim por uma razão simples: há uma flutuação incrível nesses números. Flutuações temporais, flutuações causadas por diferentes metodologias ou mesmo flutuação que resulta do processo de amostragem. A incerteza nesses números as vezes é muito grande, e medidas em semanas diferentes podem causar flutuações de vários pontos percentuais. Não temos um valor determinado para esses números, temos uma distribuição de probabilidades que representa o quanto sabemos sobre eles. E essa distribuição é relativamente larga.</p>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">Então existe uma probabilidade de que cada estatística seja pró-A ou pró-B, ainda que os governos A e B tenham sido mais ou menos parecidos. E mesmo que o governo A tenha sido muito melhor que o governo B em certo sentido, ainda assim teremos uma certa probabilidade de ter um certo número de estatísticas pró-B. Mas eu sempre posso escolher que fração das estatísticas que eu pretendo mostrar será pró-A ou pró-B. Eu posso apenas mostrar 100% de estatísticas pró-A e argumentar assim que o governo A foi incrível. Isso é bem ilustrado pela famosa propaganda da Folha de São Paulo de alguns anos atrás, em que se apresenta diversas estatísticas positivas do governo de Adolf Hitler na Alemanha, que certamente foi um governo desastroso!!!</p>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">Então é impossível comparar dois governos com estatísticas? Claro que não. É perfeitamente possível. Apenas é necessário fazê-lo de forma sistemática, com métodos claros, com padrões e referências bem definidos. Existem procedimentos para se evitar a falácia do atirador em estudos estatísticos. Por exemplo, pode-se escolher que estatísticas serão calculadas de antemão, antes da colheita de dados, de acordo com um método bem definido. Isso evita que se “desenhe o alvo” em torno do resultado desejado. Pode-se fazer uma análise de sensitividade, mostrando que ainda que a metodologia fosse diferente, o resultado não seria tão diferente assim. Enfim, existem técnicas para isso.</p>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">Mas isso é algo que campanhas eleitorais nunca serão capazes de fazer. Elas são enviesadas por princípio, a cesta de índices que escolhem para mostrar é viciada e sua interpretação errônea e vazia. E isso vale para qualquer campanha, independente da orientação ideológica do candidato. É inevitável. Não chega nem a ser desonestidade, é da natureza da propaganda. O ideal seria que, ao invés de usar os números de forma leviana, fossem contratados estatísticos profissionais e neutros para criar essas análises. Mas isso nunca vai acontecer. :wink:</p>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">O melhor é que o eleitor esteja atento às formas com que os números podem ser usados contra ele. Números adequadamente escolhidos podem defender qualquer estória que se deseje contar. Mas não fique achando que toda estatística é resultado de manipulação. Há métodos adequados para se evitar a manipulação, mesmo a manipulação involuntária.</p>
<p style="text-align: justify;"  dir="ltr">Há uma citação de natureza ética difundida entre os estatísticos adequada para fechar essa discussão. Infelizmente não me lembro o autor ou a exata fraseologia, mas a essência é: é sempre possível mentir usando a estatística, mas é impossível dizer a verdade sem ela.</p>
</div>
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</p>
</div>
</div>
<p> </p>]]></description>
        </item>
                
        <item>
            <title><![CDATA[A física da pesquisa e a física da sala de aula]]></title>
            <link>http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/83533.html</link>
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            <pubDate>Wed, 29 Sep 2010 23:45:46 GMT</pubDate>
		<dc:subject><![CDATA[ensino]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[universidade]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[pesquisa]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[ensino de física]]></dc:subject>
            <description><![CDATA[<p> </p>
<div style="background-image: url(data; background-attachment: initial; background-origin: initial; background-clip: initial; background-color: #ffffff; font: normal normal normal 13px/19px Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif; text-align: left; direction: ltr; font-family: 'Times New Roman'; font-size: medium; background-position: 100% 0%; background-repeat: no-repeat no-repeat; padding: 0.6em; margin: 0px;">
<p style="text-align: justify;"><span style="color:#888888;">(post que fiz para o Ars Physica... vou colocar aqui também, como sempre)</span></p>
<p style="text-align: justify;">Como eu já disse por aqui, eu fico bastante entusiasmado com a idéia de cursos abertos online e disponibilização de material em vídeo, como na iniciativa OpenCourseWare, por exemplo. E eu sou um usuário adicto desses materiais. Já devo ter ouvido as aulas de mais de uma dezena desses cursos, por diversão mesmo, em áreas muito diversas (história, estudos religiosos, biologia, antropologia...). Mas não comecei esse texto para falar desses cursos, mas para falar de algo que esses cursos me fizeram notar a respeito de uma diferença fundamental entre o ensino de física e o ensino em outras áreas do conhecimento, de forma particular, mas não restrita, nas ciências médicas e biológicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Para exemplificar o que quero dizer, vou me referir à terceira aula do <a href="http://webcast.berkeley.edu/course_details_new.php?seriesid=2010-B-7703&amp;semesterid=2010-B"><span style="color:#000000;">curso de biologia geral</span></a> dado na primavera de 2010, na Universidade da Califórnia em Berkeley, cujas aulas em vídeo e éudio estão disponíveis para download no site de webcasts da universidade (<a href="http://webcast.berkeley.edu">http://webcast.berkeley.edu</a>). Em certo ponto dessa aula, a professora diz "e realmente nos últimos 5 ou 6 anos muita pesquisa foi feita para entender a estrutura interna e função do ribossomo, e eu vou mostrar para vocês uma imagem..." e passa a discorrer sobre assunto de pesquisa muito recente, sobre o qual ainda há dúvidas e questões em discussão. Cenas como essa são comuns em todos os cursos que ouvi. Assuntos de pesquisa são citados na sala de aula rotineiramente e discutidos nos trabalhos e dissertações que os alunos tem de entregar para ser avaliados. Isso me chocou. Me chocou como algo completamente alheio com a minha experiência de sala de aula, que acredito ser não muito diferente da experiência de todos os físicos formados no Brasil, e provavelmente no mundo todo. É inconcebível na nossa experiência que um professor de Física I (ou de Physics 101) entre na sala de aula e dê como exercício de casa a uma turma mista de dezenas e dezenas ingressantes de diversos cursos - engenharia, física, química, ... - a leitura de um artigo de pesquisa publicado a menos de 10 anos. Nenhum assunto discutido em uma aula de física, mesmo nos últimos anos da faculdade, é mais recente do que a década de 40. Em compensação, poucos assuntos discutidos em uma aula de biologia celular são mais antigos que a década de 70, e muitos tem menos de 10 ou 15 anos de idade! E por que é assim?</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo bem, há uma série de explicações muito plausíveis para isso. Talvez a mais forte seja que os conceitos físicos e as ferramentas matemáticas usadas na pesquisa são muito mais avançados do que os que estão sendo estudados na graduação, e que é necessário um período longo de treinamento para sair da primeira aula sobre as leis de movimento de Newton e chegar na mecânica quântica, passando por todos aqueles passos intermediários. A maturação de um físico é um processo longo e lento, nessa visão. Vai da primeira aula de Física I até mais ou menos o meio do doutorado. A física é uma ciência mais antiga e madura, dizem os que defendem essa idéia, e um estudante de física tem que estudar toooodas essas coisas com detalhes, desde o nascimento da mecânica newtoniana até a mecânica quântica e suas aplicações mais elementares. Além disso, um ingressante em física ainda não foi exposto nem ao ferramental matemático básico para prosseguir aprendendo física - o cálculo, a algebra linear e etc...</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de acreditar que há alguma verdade nisso, sinceramente acho que ela é exagerada e super-simplificada pela típica autosuficiência e arrogância dos físicos (eu me incluo nessa conta) e pela inércia do sistema educacional. Faz anos que é assim, foi assim que fizemos no passado, é assim que faremos no futuro porque é assim que se ensina física. E bem, veja só, é mais difícil aprender física, não é?</p>
<p style="text-align: justify;">Não. Não é. Sinceramente, não é. Aprender biologia <strong style="font-weight: bold;">pra valer</strong> é tão difícil quanto aprender física. Ou mais! Pode ter um pouco menos de matemática, mas nas duas ou três primeiras aulas do curso introdutório para a graduação da UC Berkeley que assisti já há uma série de mecanismos celulares complicados, relações entre as organelas, estruturas moleculares complicadas, como as isomerias e as simetrias afetam a função das moléculas, e se o carbono alfa está assim, então a isomeria faz com que o poro da membrana nuclear fique assado... <img src="http://stoa.usp.br/mod/tinymce/lib/jscripts/tiny_mce/plugins/emotions/img/smiley-surprised.gif"  border="0"  alt="Surpresa"  title="Surpresa" /></p>
<p style="text-align: justify;">Não é fácil, definitivamente. E não é "coleção de selos", é uma sequencia lógica de mecanismos e estruturas bem entendida até certo ponto. Eu não estou acompanhando direito.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque um ingressante de biologia está pronto para discutir a biologia molecular dos poros da membrana nuclear de maneira tão detalhada e um estudante de física não está pronto para discutir fenômenos críticos e transições de fase, ou entender, pelo menos num nível qualitativo, o que é decoerência, o que são teorias de campo conforme e porque a correspondência AdS/CFT é tão importante, quais são as alternativas para explicar energia escura, porque o grafeno é um material tão especial, porque é tão difícil ter materiais semicondutores que sejam ferromagnéticos, o que a física por trás de folding de proteínas tem a ver com a física de cristais magnéticos, quais são os melhores candidatos para física além do modelo padrão, como podemos detectar radiação Hawking?</p>
<p style="text-align: justify;">E se tocamos nesse assunto, porque não ir mais fundo? Se os estudantes de física não chegam à metade do século passado, os estudantes do colegial param muito antes disso. A física mais recente que fingimos ensinar nas escolas tem pelo menos 150 anos de idade, e é absolutamente inútil para essas pessoas da forma como é ensinada, em todos os aspectos. Não estimulam curiosidade científica, não as ajudam a entender o ambiente tecnológico em que vivem, não fornecem ferramentas de trabalho úteis e nem as preparam para a universidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O ensino de Física está, em minha opinião, caduco em todos os níveis e precisando de urgente reforma. E quanto mais a pesquisa avança, mais urgente essa mudança se torna. Se queremos pessoas prontas para integrar os quadros de pesquisa, se queremos estudantes motivados e se queremos desenvolver o quanto antes o gosto pela pesquisa, precisamos forçar a fazer o que os biólogos fizeram de forma natural, e trazer a física da pesquisa de volta para as salas de aula.</p>
</div>
<p> </p>]]></description>
        </item>
                
        <item>
            <title><![CDATA[Blog sobre haskell e programação funcional.]]></title>
            <link>http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/80183.html</link>
            <guid isPermaLink="true">http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/80183.html</guid>
            <pubDate>Wed, 04 Aug 2010 03:31:11 GMT</pubDate>
            <description><![CDATA[<p><span style="font-family: Verdana, 'BitStream vera Sans', Helvetica, sans-serif; font-size: 12px; color: #555555;">
<div class="content"  style="padding-top: 5px; padding-right: 0px; padding-bottom: 0px; padding-left: 5px; line-height: 17px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden; margin: 0px;">
<div class="snap_preview"  style="padding:0px; margin: 0px;">
<p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Bem, eu vou propagandear aqui outro blog que criei aqui no wordpress para falar principalmente sobre programação funcional, Haskell e as relações dessa linguagem com matemática e física. Como essa comunidade é bastante específica, escrever em português não atingiria muita gente então eu criei um blog para escrever sobre isso em inglês (broken english…). </p>
<p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">De qualquer forma eu óbviamente não vou deixar de escrever aqui, e quando eu achar que tem algo desse assunto que seja suficientemente geral para caber aqui, vou postar aqui também, em português.</p>
<p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; padding: 0px;">Enfim, para quem se interessar: <a href="http://randomagent.wordpress.com/">http://randomagent.wordpress.com/</a> é o endereço do outro blog, onde já há um <a href="http://randomagent.wordpress.com/2010/08/03/stochastictransformer/">tutorial</a> sobre monad transformers usando processos estocásticos como exemplo. <img class="wp-smiley"  src="http://s.wordpress.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif"  border="0"  alt=")" /></p>
</div>
</div>
<div class="under"  style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 20px; margin-left: 0px; line-height: 16px; font-size: 11px; clear: both; padding: 0px;"><span style="padding-top: 0px; padding-right: 0px; padding-bottom: 6px; padding-left: 0px; float: left; margin: 0px;"></span></div>
</span></p>]]></description>
        </item>
                
        <item>
            <title><![CDATA[Regulamentação da profissão de Físico]]></title>
            <link>http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/79820.html</link>
            <guid isPermaLink="true">http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/79820.html</guid>
            <pubDate>Tue, 27 Jul 2010 14:45:05 GMT</pubDate>
		<dc:subject><![CDATA[ciência]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[legislação]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[regulamentação]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[Física]]></dc:subject>
            <description><![CDATA[<p>Como esse assunto acontece com alguma recorrência eu vou salvar aqui as coisas que escrevi em outros lugares para fins de referência. </p>
<p>----------------------------------------------------------------------------------------</p>
<p> </p>
<p>Eu acredito que estamos melhor sem regulamentação. Vou dar duas séries de argumentos - uma de porque eu sou contra o sistema de regulamentações como um todo e outra de porque eu sou contra a regulamentação da profissão de físico ainda que o sistema de regulamentações não seja desmantelado. </p>
<p>1) Só existe uma razão objetiva para regulamentar uma profissão: impedir que pessoas não qualificadas exerçam atividades que representam um risco sério caso sejam mal executadas. Qualquer regulamentação que não se baseie nisso só tem um objetivo: criar um clubinho de pessoas que controlam uma série de atividades e impedir o acesso de outras pessoas a essas atividades, gerando uma reserva de mercado.</p>
<p>Isso é prejudicial ao mercado, inibe a geração de empregos e inibe o crescimento de novas áreas de aplicação de conhecimentos antigos, além de aumentar injustificadamente o custo de contratação. </p>
<p>Isso também é ruim para os profissionais. Uma vez regulamentada a profissão, ficam estabelecidos limites claros para o que aquele profissional faz e o que ele não faz, e é muito provável que se isso se cristalize no mercado profissional. Isso limita as atividades que você pode desenvolver. </p>
<p>Finalmente, isso é ruim para a profissão. A existência de atividades privativas faz com que os conselhos profissionais obriguem os cursos a ensinarem algumas disciplinas, engessando as estruturas curriculares e preenchendo a grade horário dos estudantes com disciplinas muitas vezes mal colocadas. Por exemplo isso acontece com os cursos de engenharia - por conta da grande quantidade de atividades que são privativas de engenheiros de todas as áreas, todos os cursos são obrigados a ministrar, por exemplo, matérias associadas a construção civil e a projeto de sistemas elétricos, ainda que isso não esteja nem próximo da intenção de um estudante de engenharia de controle e automação ou de engenharia metalúrgica.</p>
<div>
<div>2) Acima eu dei razões pelas quais eu sou radicalmente contra o sistema de regulamentação de profissões - que eu acho que deveria ser estritamente limitado a profissões que trazem risco. Mas isso está aí e não há muitas chances de que esse sistema de regulamentação seja posto de lado. Por isso ainda são necessárias razões para não regulamentar a Física ainda que o sistema continue. </div>
<div><br /></div>
<div>Regulamentar a Física como profissão exige a delimitação de que atividades serão privativas de um físico, que só ele poderia desempenhar. Entretanto, um coisa que salta aos olhos é o fato de que não existe realmente um corpo de atividades acima das quais você pode colocar o rótulo "Física". Física não é um conjunto de atividades ou técnicas mas um conjunto de conhecimentos. Não é como a Medicina, a Fisioterapia, a Engenharia Elétrica, a Enfermagem ou a Geologia - que além de seus respectivos conjuntos de conhecimentos associados possuem um conjunto de técnicas e atividades que as caracterizam. Certamente um físico está habilitado por seus conhecimentos a desempenhar diversas tarefas úteis, mas não são tarefas privativas que qualquer outro profissional não possa aprender e desempenhar com a mesma eficiência.</div>
<div><br /></div>
<div>Pode-se objetar a essa observação dizendo que há sim uma tarefa, que envolve grandes riscos, e que seria primordialmente tarefa dos físicos: dosimetria de radiações e manipulação de elementos radioativos. Eu discordo fortemente dessa visão. Essas não são atividades que exigem todo o conhecimento adquirido em um curso de quatro anos de física, mas que qualquer profissional de física, química, engenharia ou áreas correlatas poderia desempenhar depois de um curso de habilitação. Aliás, essa é uma atividade que a gigantesca maioria dos físicos que eu conheço não está apta a desempenhar por não terem tido treinamento específico.</div>
</div>
<div><br /></div>
<div>
<div>Finalmente, qual seria o efeito de se regulamentar Física como profissão? </div>
<div><br /></div>
<div>Seriam dois efeitos:</div>
<div><br /></div>
<div>1) Seria criada uma reserva de mercado para certas atividades, com piso salarial fixado. Muitos vêem isso como vantagem, eu vejo como problema. Hospitais e departamentos de radiologia seriam obrigados a contratar físicos, para empregos incompatíveis com todo o treinamento que esses profissionais possuem. É ridículo supor que exige-se uma formação completa em física para se dosar a radiação de um aparelho de raios X. Basta uma formação de técnico de radiologia. E não se engane - a remuneração vai ser compatível com a de um técnico. Ninguém vai pagar salário de nível superior para fazer isso.</div>
<div><br /></div>
<div>Sobre o piso salarial - físicos não ganham mal. Em uma recente pesquisa da FGV física era o 31º curso superior mais bem remunerado, com salário inicial médio de R$ 3500. </div>
<div><br /></div>
<div>2) A necessidade de treinamento específico vai fazer com que se insira nos cursos de bacharelado em física disciplinas obrigatórias de instrumentação e dosimetria de radiações, e a gigantesca maioria dos profissionais de física não vão trabalhar nessa área. </div>
<div><br /></div>
<div>3) Diversas atividades que hoje são desenvolvidas com sucesso por pessoas formadas em física vão ficar de fora da legislação: computação, finanças, projeto de produtos, ... e vão sobrar para a física tarefas menos remuneradas e mais diretamente ligadas ao curso: metrologia, dosimetria, ...</div>
</div>
<div><br /></div>
<div>
<div>Finalmente, a Fisica não é, nunca foi e nunca será privativa de um clube de pessoas que resolvem delimitá-la. A Física não é delimitável. É IMPOSSÍVEL traçar uma linha e dizer que o que está lá dentro é Física e o que está fora não é. </div>
<div><br /></div>
<div>Isso não é uma característica apenas da física mas de todo campo que é eminentemente científico e não técnico. Também é impossível delimitar o que um biólogo faz, o que um químico faz, o que um matemático faz, o que um sociólogo faz, o que um estatístico faz. </div>
<div><br /></div>
<div>Há uma interface tão tênue e tão fluida entre essas áreas que qualquer um é capaz de estudar, aprender e ingressar em qualquer atividade que um físico for capaz de exercer. </div>
<div><br /></div>
<div>É assim que é, e é assim que tem que ser. Essa é a nossa riqueza e o que realmente diferencia um profissional com uma forte formação científica e quantitativa: não há limitações no que ele pode aprender a fazer.</div>
</div>]]></description>
        </item>
                
        <item>
            <title><![CDATA[Memória cultural]]></title>
            <link>http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/79538.html</link>
            <guid isPermaLink="true">http://stoa.usp.br/calsaverini/weblog/79538.html</guid>
            <pubDate>Wed, 30 Jun 2010 12:13:06 GMT</pubDate>
		<dc:subject><![CDATA[babilonia]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[textos antigos]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[judaismo]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[história da religião]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[hebreus]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[enuma elish]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[cristianismo]]></dc:subject>
		<dc:subject><![CDATA[bíblia]]></dc:subject>
            <description><![CDATA[<blockquote><em>"Exaltado seja o Filho, nosso salvador; <br />s</em><em>ua soberania seja suprema, sem rival algum.<br />Q</em><em>ue seja o pastor dos homens, suas criaturas"</em></blockquote>
<p>Cântico cristão? Não. É um trecho do Enûma Eliš, poema épico babilônico que, entre outras coisas, narra a batalha entre Marduk - uma espécie de deus dos ventos e tempestades -  e Tiamat - deusa primordial associada a águas caóticas - e a subsequente criação do mundo e da humanidade e o estabelecimento de Marduk como o rei dos deuses e presidente sobre a assembléia de deuses. Marduk era o Filho - no sentido de que não pertencia às primeiras gerações de deuses, e era o salvador, no sentido de que salvara esses deuses - seus pais - da fúria de Tiamat, que pretendia destruí-los. </p>
<p>Tudo bem, eu distorci um pouco uma tradução do acadiano para o inglês (obviamente eu não sei ler acadiano, aliás... nenhuma língua antiga) para encaixar as coisas. O inglês traz:</p>
<blockquote><em>"Most exalted be the Son, our avenger;<br />Let his sovereignty be surpassing, having no rival.<br />May he sheperd the black-headed ones(1), his creatures" <br /><span style="font-style: normal;">--- The Ancient Near East, Volume I - an anthology of texts and pictures, James Pritchard</span></em></blockquote>
<p> </p>
<p>Segundo o próprio tradutor, "black-headed ones" é um termo comum em acadiano que significa raça humana. E de "vingador" para "salvador" foi uma pequena aposta. Não sei se o termo original permite essa tradução. </p>
<p>Obiviamente esse trecho de hino religioso foi produzido em um contexto muito diferente do cristianismo, muitos e muitos séculos antes do início dessa religião e para decorar um mito muito diferente do mito cristão. </p>
<p>Entretanto é bastante conhecido entre os estudiosos do antigo oriente próximo que havia bastante intercâmbio cultural entre esses povos, e que há paralelos interessantes entre textos babilônicos, inclusive o Enûma Eliš, e trechos do antigo testamento, uma compilação de textos hebraicos. O cristianismo, que rapidamente se transformou em religião greco-romana, recebendo todo tipo de influencia dessa outra cultura, nasceu no oriente próximo, como uma seita apocaliptica judaica e obviamente carregou consigo boa parte dessa herança.</p>
<p>Para mim é um quase inevitável ficar imaginando se esse tipo de hino religioso não fazia parte do estoque cultural daquelas pessoas, se eles não conheciam esses termos e até que ponto a imagem do Filho divino, do pastor, do salvador, não eram parte de uma memória cultural  que eventualmente achou expressão no apocalipticismo judaico e na nova seita que nascia com a morte do pregador galileu Yeshua de Nazaré. </p>
<p> </p>]]></description>
        </item>
        
    </channel>
</rss>