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Julho 27, 2010

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Como esse assunto acontece com alguma recorrência eu vou salvar aqui as coisas que escrevi em outros lugares para fins de referência. 

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Eu acredito que estamos melhor sem regulamentação. Vou dar duas séries de argumentos - uma de porque eu sou contra o sistema de regulamentações como um todo e outra de porque eu sou contra a regulamentação da profissão de físico ainda que o sistema de regulamentações não seja desmantelado. 

1) Só existe uma razão objetiva para regulamentar uma profissão: impedir que pessoas não qualificadas exerçam atividades que representam um risco sério caso sejam mal executadas. Qualquer regulamentação que não se baseie nisso só tem um objetivo: criar um clubinho de pessoas que controlam uma série de atividades e impedir o acesso de outras pessoas a essas atividades, gerando uma reserva de mercado.

Isso é prejudicial ao mercado, inibe a geração de empregos e inibe o crescimento de novas áreas de aplicação de conhecimentos antigos, além de aumentar injustificadamente o custo de contratação. 

Isso também é ruim para os profissionais. Uma vez regulamentada a profissão, ficam estabelecidos limites claros para o que aquele profissional faz e o que ele não faz, e é muito provável que se isso se cristalize no mercado profissional. Isso limita as atividades que você pode desenvolver. 

Finalmente, isso é ruim para a profissão. A existência de atividades privativas faz com que os conselhos profissionais obriguem os cursos a ensinarem algumas disciplinas, engessando as estruturas curriculares e preenchendo a grade horário dos estudantes com disciplinas muitas vezes mal colocadas. Por exemplo isso acontece com os cursos de engenharia - por conta da grande quantidade de atividades que são privativas de engenheiros de todas as áreas, todos os cursos são obrigados a ministrar, por exemplo, matérias associadas a construção civil e a projeto de sistemas elétricos, ainda que isso não esteja nem próximo da intenção de um estudante de engenharia de controle e automação ou de engenharia metalúrgica.

2) Acima eu dei razões pelas quais eu sou radicalmente contra o sistema de regulamentação de profissões - que eu acho que deveria ser estritamente limitado a profissões que trazem risco. Mas isso está aí e não há muitas chances de que esse sistema de regulamentação seja posto de lado. Por isso ainda são necessárias razões para não regulamentar a Física ainda que o sistema continue. 

Regulamentar a Física como profissão exige a delimitação de que atividades serão privativas de um físico, que só ele poderia desempenhar. Entretanto, um coisa que salta aos olhos é o fato de que não existe realmente um corpo de atividades acima das quais você pode colocar o rótulo "Física". Física não é um conjunto de atividades ou técnicas mas um conjunto de conhecimentos. Não é como a Medicina, a Fisioterapia, a Engenharia Elétrica, a Enfermagem ou a Geologia - que além de seus respectivos conjuntos de conhecimentos associados possuem um conjunto de técnicas e atividades que as caracterizam. Certamente um físico está habilitado por seus conhecimentos a desempenhar diversas tarefas úteis, mas não são tarefas privativas que qualquer outro profissional não possa aprender e desempenhar com a mesma eficiência.

Pode-se objetar a essa observação dizendo que há sim uma tarefa, que envolve grandes riscos, e que seria primordialmente tarefa dos físicos: dosimetria de radiações e manipulação de elementos radioativos. Eu discordo fortemente dessa visão. Essas não são atividades que exigem todo o conhecimento adquirido em um curso de quatro anos de física, mas que qualquer profissional de física, química, engenharia ou áreas correlatas poderia desempenhar depois de um curso de habilitação. Aliás, essa é uma atividade que a gigantesca maioria dos físicos que eu conheço não está apta a desempenhar por não terem tido treinamento específico.

Finalmente, qual seria o efeito de se regulamentar Física como profissão? 

Seriam dois efeitos:

1) Seria criada uma reserva de mercado para certas atividades, com piso salarial fixado. Muitos vêem isso como vantagem, eu vejo como problema. Hospitais e departamentos de radiologia seriam obrigados a contratar físicos, para empregos incompatíveis com todo o treinamento que esses profissionais possuem. É ridículo supor que exige-se uma formação completa em física para se dosar a radiação de um aparelho de raios X. Basta uma formação de técnico de radiologia. E não se engane - a remuneração vai ser compatível com a de um técnico. Ninguém vai pagar salário de nível superior para fazer isso.

Sobre o piso salarial - físicos não ganham mal. Em uma recente pesquisa da FGV física era o 31º curso superior mais bem remunerado, com salário inicial médio de R$ 3500. 

2) A necessidade de treinamento específico vai fazer com que se insira nos cursos de bacharelado em física disciplinas obrigatórias de instrumentação e dosimetria de radiações, e a gigantesca maioria dos profissionais de física não vão trabalhar nessa área. 

3) Diversas atividades que hoje são desenvolvidas com sucesso por pessoas formadas em física vão ficar de fora da legislação: computação, finanças, projeto de produtos, ... e vão sobrar para a física tarefas menos remuneradas e mais diretamente ligadas ao curso: metrologia, dosimetria, ...

Finalmente, a Fisica não é, nunca foi e nunca será privativa de um clube de pessoas que resolvem delimitá-la. A Física não é delimitável. É IMPOSSÍVEL traçar uma linha e dizer que o que está lá dentro é Física e o que está fora não é. 

Isso não é uma característica apenas da física mas de todo campo que é eminentemente científico e não técnico. Também é impossível delimitar o que um biólogo faz, o que um químico faz, o que um matemático faz, o que um sociólogo faz, o que um estatístico faz. 

Há uma interface tão tênue e tão fluida entre essas áreas que qualquer um é capaz de estudar, aprender e ingressar em qualquer atividade que um físico for capaz de exercer. 

É assim que é, e é assim que tem que ser. Essa é a nossa riqueza e o que realmente diferencia um profissional com uma forte formação científica e quantitativa: não há limitações no que ele pode aprender a fazer.

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Fevereiro 12, 2009

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Uns dias atrás em um post do blog Cosmic Variance o Sean Carroll estava se perguntando sobre  grandes surpresa na ciência.  Entre perguntas sobre qual foi a coisa mais surpreendente que já descobrimos e qual seria a próxima coisa mais surpreendente que poderíamos descobrir no futuro, diversas grandes surpresas foram levantadas pelos comentadores.

Quando falamos sobre coisas chocantes a respeito do universo tendemos a falar de micro-coisas e de mecânica quântica. Coisas estranhas acontecem nessa escala de tamanho, fenômenos incompatíveis com nossa experiência cotidiana da natureza e até difíceis de descrever para pessoas não-iniciadas em física moderna e contemporânea.

Apenas uma das pessoas qeu comentou se lembrou de uma coisa que foi históricamente muito mais chocante e que levou séculos e séculos de gradual aumento da nossa compreensão das coisas para se conhecer: a ordem de grandeza do tamanho e da idade do nosso universo, a distância até as estrelas próximas, a estrutura heterogênea na escala das galáxias, a estrutura homogênea na escala cosmológica, ... tudo isso levou 500 anos ou mais de pesquisa para ser estabelecido. E mais e mais fatos sobre a estrutura de larga escala do universo têm sido descobertos, em intervalos de tempo cada vez mais curtos. Que nós possamos conhecer tanto sobre essa estrutura do universo nas diversas escalas grandes de tamanho (com relação ao nosso tamanho) que compreendem a primeiro a Terra, depois  o sistema solar, as galáxias,  as estruturas cosmológicas,  ...  acho que essa é a maior supresa que a ciência já revelou. Maior que a estranheza do mundo microscópico.

Não que eu esteja diminuindo a surpresa que o mundo microscópico revelou. Mas eu acho que essas descobertas sobre o nosso macrocosmo são as que mais chocariam as pessoas mais brilhantes dos séculos passados se fossem reveladas prematuramente. Dizer para Galileu que as estrelas mais próximas estão a  10^{14} quilômetros de distância e que conseguimos saber detalhes da estrutura de objetos que estão a 
10^{20} ou 10^{21} quilômetros de distância e que temos evidências confiáveis de que o universo tem algo em torno de 10^{10} anos de idade seria muito mais chocante do que tentar falar da estrutura atômica da matéria ou da inexistencia de trajetórias definidas para partículas microscópicas. E acho que o principal motivo para isso é que ele poderia entender isso. Talvez eu esteja errado e essas duas coisas, conhecimento das escalas do universo e a natureza microscópica da matéria sejam uma tão surpreendente quanto a outra. Certamente a segunda causou muito mais impacto de curto prazo na história do mundo, se isso é sinônimo de surpresa.

E as surpresas futuras? Algumas coisas foram sugeridas nos comentários, a maioria delas relacionadas à física de altas energias, algumas brincadeiras, poucas coisas que de fato me supreenderiam. Com o perdão da grande parte dos meus colegas arsphysicistas que trabalham nessa área, eu acho que  a física de altas energias e o mundo microscópio já são coisas tão estranhas  que a existência de alguma coisa ainda mais estranha ainda em escalas maiores de energia não me surpreenderia tanto.

O que realmente me surpreende? O quão rápido está evoluindo a neurosciência.

Um livro que 20 anos atrás dissesse que em 100 anos dominariamos a interface do cérebro com máquinas artificiais e que seriamos capazes de controlar, apenas com o pensamento, máquinas e computadores e até nos comunicarmos à distância usando redes sem fio ligadas aos nossos cérebros seria um livro de ficção científica. E seria daquelas ficções de mais remota realização. Hoje seria um livro de futurologia, daqueles até que bastante plausíveis.

Toda semana a Nature publica um ou dois artigos com feitos experimentais que seriam quase inacreditáveis alguns anos atrás. Pequenos circuitos neurais controlando pequenos robôs, neuronios crescendo estruturas em volta de eletrodos, pequenos sensores capazes de detectar o sinal elétrico emitido por um único neurônio in vivo  no cérebro de um ratinho, um macaco capaz de controlar máquinas complexas com sinais elétricos de seu cérebro a milhares de quilometros de distância através da internet. Daria calafrios nos mais imaginativos escritores de ficção-científica de 20 ou 30 anos atrás saber que essas coisas estavam tão perto de se realizar.

Claro que eu só estou falando de feitos tecnológicos e pouco de neurociência. A questão é que esses feitos vieram com a grande aumento compreensão rápido do funcionamento do cérebro. E ainda estamos nos princípios dessa compreensão. Por isso eu acho que as próximas grandes surpresas estarão associadas ao quanto podemos saber sobre como funcionam nossos próprios cérebros.

Palavras-chave: ciência, futurologia, surpresas

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Outubro 18, 2008

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Todos os aficcionados por ciência tem por hobby delatar e atacar os divulgadores de bad-scienceou pseudo-ciência - aqueles estudos com ares pretenciosos de ciência mas que no fundo não têm sustentação objetiva. Alguns até diriam que é o papel dos acadêmicos da ciência tomarem a frente nessa batalha e capitanear os esforços pela erradicação da pseudo-ciência, inspirados em Carl Sagan, Richard Dawkins e outros heróis. Entretanto esbarramos aí em questões complicadas, às quais eu pretendo discutir sem dar respostas - uma vez que eu não as tenho. Creio aliás que são questões onde é mais útil pensar sobre o assunto com cuidado do que ter respostas (1). 

A primeira questão é a óbvia questão demarcatória: que é pseudo-ciência? Que venham os falsificacionistas, os kuhnianos, os lakatosianos, Hume, Feyerabend e todos os filósofos da ciência de mãos dadas admitir que nunca resolveram essa questão. Não parece, pelo menos por enquanto, ser possível definir ciência sem excluir ou incluir coisas que não gostaríamos que estivessem lá. Ciência e não-ciência não são classes de equivalência de sistemas lógicos. O que podemos fazer é outra pergunta: que atitudes são esperadas de um cientista, e quais atitudes são esperadas de um pseudo-cientista? E logo depois podemos nos perguntar porque as atitudes do cientista são preferíveis às do pseudo-cientista. 

Para atacar essa pergunta vou citar, o que é um péssimo costume pessoal, um grande cientista:

É a nossa responsabilidade como cientistas, sabendo do grande progresso que vem de uma satisfatória filosofia da ignorância, (...) ensinar como a dúvida não deve ser temida mas bem-vinda  e discutida; e demandar essa liberdade, como nosso dever perante todas as futuras gerações.

Richard P. Feynman, What Do You Care What Other People Think(3)

Meus grifos e minha tradução (perdoem-me por qualquer erro). Essa citação, usada numa bela palestra do Prof. Nestor Caticha sobre a vida de Feynman semana passada no Convite à Física (2), aponta na direção do que é considerado entre os cientistas um padrão de comportamento desejável (porém nem sempre seguido): honestidade intelectual, particularmente honestidade com a dúvida. Ter dúvida e não se sentir constrangido, admitir não saber e admitir que a nossa capacidade de conhecer é limitada e que seu produto é sujeito à revisão é a atitude esperada de cientista. Essa dúvida entretanto não é passiva. O estado de dúvida é o estado de busca da sanação dessa dúvida. 

O pseudo-cientista arquetípico não age assim. Ele brande a certeza em uma verdade revelada, que lhe foi transmitida por meios misteriosos e que todos os outros não conseguem enxergar. Ele crê ter o mundo contra sí, contra a sua verdade auto-evidente. 

Por que é bom agir como um cientista e não como um pseudo-cientista? Eu não sou um estudioso de ética para atacar essa pergunta. Eu estaria muito mais disposto a responder: o que a sociedade ganha se as pessoas agirem como cientistas e não como pseudo-cientistas? Há dezenas de possíveis lucros para a sociedade: governantes dispostos a revisarem suas crenças e projetos são mais capazes de prever, evitar e consertar erros administrativos, modelos de gestão adaptativos que se revisam periodicamente são mais eficientes, pessoas com dúvidas são curiosas e aprendem mais, ... enfim, um mundo onde as dúvidas são expressas e sanadas é mais eficiente que um mundo onde as dúvidas são suprimidas em favor da verdade revelada.

Outro ponto, muito mais complicado que esse é: devem os pseudo-cientistas ter liberdade de expressão para sair pelo mundo propagando suas crenças? Essa pergunta é uma dentre uma classe de perguntas muito difíceis. Por sorte essa não é tão difícil quanto as piores dentre essa classe (e.g., "deve um militante anti-democrático ser beneficiado pelas liberdades que a democracia preconiza?"). Essa pergunta é difícil por uma única razão: sua resposta não pode ser justificada sem apelar para valores subjetivos. A minha resposta para essa pergunta é um grande, sonoro, veemente e incondicional SIM. Liberdade de expressão é um valor que eu considero inegociável e incondicional. Qualquer pergunta que comece como "deve fulano ter liberdade de expressão ... ?" é por mim respondida com sim antes de ouvir as condições. Mas eu não consigo justificar essa resposta sem apelar para as minhas crenças sobre o mundo (4). Porém liberdade de expressão não é liberdade para exigir qualquer tipo de apoio por parte de quem quer que seja, quanto mais apoio público, para propagação das suas idéias. 

Ahá, diria um atento: o cientista tem apoio e financiamento público não só para propagar suas idéias como para ensiná-la às criancinhas, pesquisá-las, aprofundá-las, publicá-las e divulgá-las como quiser!!! Isso é fato. Mas o cientista só o tem sob duas condições, pelo menos na minha opinião: 

  • a ciência, calcada na busca da sanação objetiva das dúvidas, produz progresso técnico, intelectual e filosófico. Iniciativas baseadas na certeza pseudo-científica geralmente conduzem ao estacionamento e até ao regresso;
  • ao desenvolver a sua atividade o cientista deve aprofundar a cultura da dúvida e da pesquisa objetiva, propagando essa cultura entre os seus alunos e entre os contribuintes que o financiam, para o lucro da sociedade.
Diante de toda essa pintura idealizada, cabe-me agora atacar os cientistas pela sua não-realização. Os cientistas brasileiros, guardando-se célebres exceções,  não têm divulgado satisfatóriamente suas pesquisas, não têm procurado desenvolver uma satisfatória "filosofia da ignorância" (para citar Feynman novamente) , não têm estimulado em seus alunos essa cultura de ter dúvidas e procurar resolver as boas dúvidas. Não têm sido bem sucedidos em promover o ensino de ciência, que não é o ensino de uma zoologia de fórmulas matemáticas, mas a propagação da idéia de que a admissão da dúvida e da busca de sua sanação como elementos fundamentais do progresso. 
 
Quando a academia toma para si suas obrigações não é preciso lutar contra a pseudo-ciência. Ela simplesmente não se sustenta diante de uma visão do mundo que admite a ignorância. Em contraste, quando a academia não faz a sua obrigação, a sociedade não se vê disposta a financiá-la, não sente os benefícios de desenvolver ciência madura em suas universidades e volta-se às verdades reveladas e às certezas destrutivas. 

 

Notas:

(1) E isso não é verdade para qualquer questão filosófica?

(2) Convite a Física são palestras semanais no Instituto de Física da USP. São destinadas ao público leigo. Aberta ao público, entrada franca. Por favor: lotem essas palestras.

(3) Leia mais sobre o papel da dúvida na ciência segundo Feynman aqui: http://laserstars.org/bio/Feynman.html

(4) E alguém pode objetar: alguém consegue justificar alguma resposta sem apelar para suas crenças ? Mas acho que vocês entenderam o que eu quis dizer...

Palavras-chave: Ciência, Feynman, Filosofia, papel da ciência, papel dos cientistas, pseudo-ciência

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Setembro 10, 2008

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Uma das bases da religião, segundo o teólogo e antropólogo da religião Rudolph Otto (ver: A Idéia do Sagrado), é o Sagrado, que ele define como algo que causa a sensação do numinoso (do latim: numen, presença ou poder divinos), de algo que é totalmente outro (no original: auseinander, no inglês: whole other), totalmente diferente de mim e entretanto profundamente relacionado comigo. Otto usa também outro termo: mysterium tremendum, a sensação avassaladora de admiração diante de algo, o choque diante do "whole other".  Por outro lado, há quem pense que o cientista é o exato oposto. É alguém para quem não há mysterium tremendum, mas a fria racionalização da experiência humana. A redução, através da devida explicação, de qualquer mistério ou incerteza a uma série encadeada de fatos que dão objetividade e realidade ao universo. Para mim não há nada mais estranho à ciência do que a ausência de admiração e choque, a ausência do numinoso na presença do whole other.

Quando se contempla a natureza com olhos espirituais/filosóficos, o que nos causa admiração? O livro de Jó dá uma pista: "domínio e admiração pertencem a Deus; ele estabelece ordem nas alturas" (Jo 25,3). A história da religião é a história da ordem. Cada mito cosmogônico é uma versão da vitória da ordem sobre algum caos primordial incontrolável e monstruoso. O Bereshit hebraico, o livro do Gênesis para os ocidentais, principia seu mito de criação com a terra vazia e informe e o ruach de deus pairando sobre o abismo e deus, em seguida, segue ordenando o universo: separa o dia da noite, separa as águas,  estabelece terra firme, cria cada espécie de animais, plantas, etc, tudo de maneira a ordenar e categorizar o universo. O Enuma Elish babilônico também inicia com o caos:

"Quando no alto não se nomeava o céu,
e em baixo a terra não tinha nome,
do oceano primordial (Apsu), seu pai;
e da tumultuosa Tiamat, a mãe de todos,
as águas se fundiam numa,
e os campos não estavam unidos uns com os outros,
nem se viam os canaviais;
quando nenhum dos deuses tinha aparecido,  
nem eram chamados pelo seu nome,
nem tinham qualquer destino fixo (...)".

(Note que ele está falando dos planetas: os deuses não tinham aparecido
e não tinham "destino fixo", claramente inspirado nas "rotas" que os planetas
traçam no céu ao longo dos anos em relação às estrelas.) 

 

E Marduk é o deus que derrota o caos, Tiamat e Apsu, e cria a ordem: dá nome ao céu e a terra, separa as águas, cra terra firme (alguma semelhança com a gênese bíblica?), etc. Notem como a oposição entre ordem e desordem é estabelecida e como a ordem do universo provoca admiração nessas pessoas: os planetas em seus "destinos fixos" no céu, as águas devidamente separadas no oceano e nas águas "acima do firmamento", a regularidade das estações e a sua possível predição pela posição das estrelas, etc.

Esse tipo de mysterium tremendum é ausente na ciência? Vamos consultar os cientistas. Permitam-me mais uma citação, atribuida a Richard Feynman:

"Poets say science takes away from the beauty of the stars — mere globs of gas atoms. Nothing is "mere". I too can see the stars on a desert night, and feel them. But do I see less or more? The vastness of the heavens stretches my imagination — stuck on this carousel my little eye can catch one-million-year-old light.A vast pattern — of which I am a part... What is the pattern or the meaning or the why? It does not do harm to the mystery to know a little more about it. For far more marvelous is the truth than any artists of the past imagined it. Why do the poets of the present not speak of it? What men are poets who can speak of Jupiter if he were a man, but if he is an immense spinning sphere of methane and ammonia must be silent?" 

Meus grifos. Eu vejo nessa admiração o mesmo mysterium tremendum, a mesma admiração com o whole other sentida pelos místicos e pelos religiosos. Nesse ponto a ciência está muito mais próxima da religião do que se supõe. Por mais que hajam diferenças fundamentais, por mais que o ceticismo tenha um sério papel na ciência que não se observa na religião e por mais que as religiões estabelecidas e institucionalizadas estimulem muito menos esse sentimento de admiração do que uma religiosidade fria e mecânica, ou um frenesi fanático fatalista e esfomeado de milagres, o que move o homem a produzir uma ou outra coisa é o mesmo sentimento de admiração diante da ordem, da regularidade, da apreensibilidade do universo.

É claro que na ciência e na religião existem aqueles que perderam, ou nunca tiveram, esse senso de admiração. A mim resta me apiedar deles, que transformaram uma fonte inesgotável de prazer para alma em uma fria série de tarefas sem sentido, sem razão de ser. 

 

Palavras-chave: admiração, ciência, mysterium tremendum, numinoso, ordem, religião

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Postado por Rafael Sola de Paula de Angelo Calsaverini | 4 usuários votaram. 4 votos | 5 comentários

Dezembro 19, 2007

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Eu me considero um cientista. E como tal me interesso pela estrutura da ciência, o que talvez não seja o que Thomas Kuhn recomendaria.

Vou colar aqui um post que fiz na comunidade da USP do orkut quando se discutia o que é ciência e qual é o caráter das ciências sociais e humanas. Não sou filósofo da ciência, tampouco cientista humano. Tudo o que conheço de filosofia da ciência vem do pouco que eu li e muito que eu conversei com um amigo que é quase um epistemólogo de verdade, meu camarada Welton Gomes, que tem estudado essas coisas já por alguns anos.

Certamente os filósofos de verdade vão achar uma série de erros, mal-entendidos e falhas de interpretação. Gostaria muito se apontassem essas falhas, e me permitissem assim corrigir o texto e aprofundar meu entendimento do assunto.

A maior lição da epistemologia é a de que tentar definir ciência é uma atividade infrutífera.

 

O conceito popperiano (também chamado de falsificacionista ingênuo) é de que ciência é tudo aquilo que é experimentalmente falsificável, ou seja, aquilo que o resultado de um experimento isento e objetivo pode demonstrar ser falso.

Por exemplo: se ao medir a aceleração com que os corpos caem se notasse que objetos com massas diferentes sofrem acelerações diferentes, se demonstraria que as teorias atuais para a gravitação estão erradas - pois isso é o exato oposto das previsões que essas teorias fazem. Então a teoria da gravitação é falsificável e portanto é ciência segundo Karl Popper.

Há sérios problemas com essa definição. Por exemplo: a astrologia é perfeitamente falsificável. Basta fazer um estudo detalhado da personalidade das pessoas e compará-la às suas cartas natais. Mas ninguém gostaria de chamar a astrologia de ciência, a não ser os astrólogos. Me parece também que há também um argumento devido à Lakatos que mostra que, sob certas restrições razoáveis, não é possível demonstrar que uma afirmação é falsificável.

Então existem outras linhas de raciocínio como a teoria sociológica de Thomas Kuhn, o falsificacionismo mais sofisticado de Imre Lakatos, e a teoria "anarquista" de Paul Feyerabend. Mas nenhuma delas apresenta um claro procedimento de classificação das atividades humanas em ciência e não-ciência. Elas apenas descrevem o que se observa.

É interessante notar que geralmente esses filósofos tomam a física e a química como padrão para estudar ciência, porque são as ciências com maior número de resultados estabelecidos e que passaram por maior número de, para usar o vocabulário kuhniano, revoluções científicas, com mudanças sérias de paradigma. Ou seja: são as ciências mais "maduras", em certo aspecto.

Paul Feyerabend demonstrou com sua "teoria anarquista" de maneira muito clara que tentativas ingênuas de se definir ciência são totalmente infrutíferas e possívelmente nunca vão dar conta de incluir ou desincluir aquilo que o senso comum gostaria de chamar ou não de ciência.

Eu gosto particularmente do modelo lakatosiano/kuhniano.

 

Segundo Kuhn, uma atividade científica passa por dois tipos de períodos: os períodos de ciência normal, e os períodos de revolução científica.

Nos períodos de ciência normal, não há grandes mudanças de paradigma, mas o estabelecimento de um paradigma teórico universal entre os pesquisadores da área e o aprofundamento das aplicações desse paradigma a um número cada vez maior de questões.

De repente o paradigma alcança o seu limite, e não consegue mais explicar resultados experimentais. Então diversos candidatos (escolas de pensamento / teorias alternativas / ...) surgem como alternativas ao paradigma anterior e há um embate entre teorias. Esse é o período de revolução científica. Eventualmente esse período termina quando uma das teorias vence e um novo período de ciência normal emerge.

Essa é uma explicação bem simplificada de um modelo que é também bastante simplificado.

Lakatos construiu uma espécie de fusão do modelo kuhniano com um falsificacionismo de autoria dele, que é uma visão bem mais sofisticada (e precisa!).

Segundo Lakatos esse tipo de revolução não precisa acontecer em toda a ciência mas em determinados programas de pesquisa. Os princípios, leis, axiomas ... de um programa de pesquisa num período de ciência normal podem ser separados (talvez não de maneira muito unívoca) em duas partes: o núcleo firme que são a base de uma teoria, coisas que se forem mudadas causarão grandes mudanças; e o cinturão protetor coisas que podem mudar com o tempo sem afetar o núcleo firme.

Um período de ciência normal se caracteriza pela pesquisa apenas no cinturão protetor, sem ataques ao núcleo firme. Nesse período, o cinturão protetor se avoluma, com cada vez maior aplicação dos "fatos científicos estabelecidos" que compõe o núcleo firme à situações diferentes.

Quando eventualmente o cinturão protetor para de crescer com a falha dos resultados do núcleo firme em explicar novas situações, o núcleo firme passa a ser atacado, e temos uma revolução científica. Na minha percepção da ciência, baseada toda na física, que é minha área da atuação, parte do que é o núcleo firme de um dado programa de pesquisa pode ser parte do cinturão protetor de uma teoria mais geral. Dessa forma, a aproximação de Born-Openheimer é parte do núcleo firme da física da matéria condensada, mas é parte do cinturão protetor da física de forma mais geral.

 

Para dar o exemplo da física, grande parte dos programas de pesquisa dessa área estão, desde a década de 30, num período muito bem sucedido de ciência normal.

O núcleo firme da física (mecânica quântica, teoria quântica de campos e relatividade especial) está inabalavelmente estabelecido desde essa época. E a pesquisa no cinturão protetor (física da matéria condensada, física de altas energias, física atômica, física nuclear, ...) está em acelerada expansão desde essa época.

Algumas áreas encontram-se em períodos de revolução científica clara (física de energias ultra-altas, gravitação quântica, cosmologia) em que teorias rivais estão competindo (Loop Quantum Gravity vs. String Theory, por exemplo).

Outras áreas estão em um período meio nebuloso, difícil de classificar.

O mesmo acontece com as ciência humanas - algumas estão em períodos de revolução científica bastante prolongados, em que escolas diferentes de pensamento coexistem e nenhuma eventualmente torna-se o paradigma dominante. Talvez isso seja uma questão estrutural destas ciências humanas, pela dificuldade de estabelecimento de resultados experimentais ou talvez seja realmente uma questão de tempo até que um paradigma se mostre superior aos outros em frutificações (construção de um cinturão protetor).

Outras ciências humanas estão, eu acho, iniciando períodos de ciência normal. Ou talvez assim pareça para mim devido a minha ignorância dessas áreas. A lingüística parece ser uma delas.

 

Palavras-chave: ciência, epistemologia, filosofia da ciência, Imre Lakatos, Karl Popper, o que é ciência?, Paul Feyerabend, Thomas Kuhn

Este post é Domínio Público.

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