Eu achei que não fosse querer escrever nada sobre o episódio da garota que foi molestada por uma turba na Uniban porque estava usando um vestido curto, e achei que as pessoas tinham mais ou menos um consenso estabelecido sobre o fenômeno que aconteceu e o julgamento médio das pessoas - excetuando algumas anomalias bizarras - era o mesmo.
Mas lendo hoje o meu twitter fico sabendo da coisa mais inesperada e ridícula:
A Universidade Bandeirante informou em anúncio publicado em jornais paulistas neste domingo, 8, que decidiu expulsar a aluna Geisy Arruda de seu quadro discente. A estudante do curso de Turismo sofreu assédio coletivo no último dia 22 de outubro por ir ao campus de São Bernardo do Campo da faculdade com um vestido curto.
No anúncio publicitário, entitulado 'A educação se faz com atitude e não com complacência' a universidade diz que tomou a decisão após uma sindicância interna constatar que a aluna teve uma postura incompatível com o ambiente da universidade, frequentando as dependências da unidade em trajes inadequados. Para a Uniban, Geisy provocou os colegas ao fazer um percurso maior que o habitual, desrespeitando princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade.
A universidade afirma ainda que foi constatado que "a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar".
http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,uniban-expulsa-aluna-ass
Meus grifos. Fiquei pasmo por alguns segundos quando li isso. Continuo não sabendo o que escrever sobre isso. É daquelas (raríssimas) coisas que ultrapassam a minha capacidade de me manter calmo e tentar entender as razões do outro(i). Me dá vontade de abandonar a racionalidade e mandar todo mundo ''tomar nos seus respectivos cus'' como dizia um antigo amigo meu da faculdade. (não venham reclamar do palavrão, ''não estou aqui para fazer amigos'', como diz outro amigo meu)
E é justamente aí é que a gente percebe o poder da manada. São essas as notas que a Manada tange em nossas mentes, as notas escuras que todo mundo tem lá no fundo. A Manada ultrapassa nosso raciocínio e os nossos freios morais. O ''custo psicológico'' de ofender meus freios morais e atentar contra a estabilidade do meu ambiente social é grandemente reduzido quando estamos em grupo. E é aí que essa mesma vontade que eu tive de abandonar a razão vence(ii). A Manada é o super-organismo imbecil a quem rendemos nossa individualidade quando em grupo. Para alguns deve ser quase um transe místico(iii).
Claro que isso não exime ninguém da imputabilidade pelos atos que realiza sob influência da Manada. O indivíduo ainda é racional e ainda escolhe submeter-se ou não a esse ''espírito coletivo'' destrutivo.
Note que não uso aqui a palavra espírito num sentido místico - estou falando de um comportamento emergente, de uma reação coletiva. Como o meu orientador costuma dizer, parece que nós sempre gostamos de personalizar reações emergentes: damos nomes em maiúsculas, usamos artigos definidos e pronomes pessoais. Assim chamamos Cosmo à ordem coletiva do universo e à aparente causalidade coletiva dos fatos, chamamos Natureza à fenomenologia ecológica, às cadeias alimentares, à evolução por seleção natural e à ordem biológica, e chamamos Mente aos fenômenos coletivos produzidos por uma infinidade de células nervosas no nosso Sistema Nervoso Central
Esses fenômenos coletivos em nada diferem, na minha percepção, dos fenômenos coletivos que observamos em outras instâncias mais físicas, menos pessoais e com menos implicações humanas - sendo a emergência do ferromagnetismo a partir da interação de uma infinidade de ''pequenos magnetos'' o mais célebre.
A Manada também é um fenômeno coletivo. Possui a assinatura evidente - quase a definição - de um fenômeno coletivo: não é possível explicar seu comportamento baseando-se apenas no comportamento de cada indivíduo separadamente, mas é necessário entender a interação entre eles.
O inadmissível nesse fato, o espantoso e o inesperado, não é a reação da turba que molestou a garota. Isso é uma coisa até compreensível (o que não a torna menos absurda). O que me espanta é a reação, supostamente individual e raciocinada, da diretoria da Uni(tale)ban. Expulsar a garota e defender os agressores. Culpar a vítima e proteger os que deveriam ser investigados e expulsos. Atacar o comportamento individual e abraçar a irracionalidade coletiva.
Não estou dizendo que a garota é a heroína da liberdade individual também. É provável que o vestido da garota fosse inadequado. É provavel que ela tenha provocado as pessoas. É provavel que eu nunca me aproximasse dela e se a conhecesse julgasse uma pessoa inadequada, vulgar e ela provavelmente não faria parte do meu círculo social se estudasse na mesma escola que eu. Mas isso não importa.
Nada do que se enquadra na categoria ''comportamento individual dentro da lei, que não incomoda a saúde, a dignidade e o livre-arbítrio de outrem'' deve ser reprimido com essa violência, ainda mais reprimido por uma turba. E, como disse um jornalista(iv) bem odiado por aqui, mesmo que ela estivesse ofendendo uma lei, ela tem o direito de ser reprimida por um agente da lei e não ser moralmente linchada pela Manada.
Espero mesmo que essa não seja a última vez que ouvimos falar desse caso e que haja autoridade capaz de investigar e punir aquela turba de chimpanzés que chegou a ameaçar a garota de estupro. Sobre a expulsão, bem... a Uniban é uma instituição privada e tem o direito de recusar um aluno se quiser - até onde eu sei (advogados por favor me iluminem quanto a isso se eu estiver errado). Mas aquela turba precisa de punição.
Notas
(i) Outra dessas coisas é o judiciário ter que praticamente implorar para que uma decisão judicial seja respeitada. Coisas incompreensíveis... mas isso é outra estória.
(ii) Vontade que eu me esforcei para controlar para escrever aqui algo relativamente civilizado aqui. Talvez se eu estivesse na minha Manada...
(iii) A @elenavolpato no twitter recomendou que eu lesse sobre os conceitos junguianos de Sombra e Persona. Deve ser semelhante ao que eu entendo por Manada e indivíduo. Enfim... preciso ler.
(iv) Antes de falar ''mimimi, não leio a Veja, mimimi, não gosto do Reinaldo Azevedo, mimimi, blog de direitista'', apenas leia o que ele escreveu. Ignore a fonte e interprete o conteúdo - é mais inteligente agir assim. Eu também não sou o maior fã dele e frequentemente discordo dele. Mas frequentemente eu também concordo com ele. Acontece, pombas.
Palavras-chave: absurdo, comportamento animal, irracionalidade, manada, uniban, unitaleban
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Comentários
Benedito Ubirata da Silva escreveu:
Rafael vc leu o post da nossa colega de USP que aqui no Stoa escreveu algo muito original, sobre o uso da minissaia. Ou seja, ela relata a experiência pessoal de não ter sido hotilizada, por nós no seu período em que esteve por aqui. E o mais legal, é um post curtinho, e ela observa uma interrogação para as outras mulheres daqui da USP. Saiu da primeira página!!!
Como estou meio doente, certo que é apenas o reciclar das minhas fases, logo passa, mas não gosto de escrever nesses períodos, pra não influenciar, e contente porque fui bem numa matéria que me reprova faz tempo, então resolvi repostar o post dela, e dar uma espalhada na net o que ela escreveu, mas como post dela.
É bom e original, é o relato de uma mulher de dentro dos nossos muros. Eu sei, e vc sabe sobre o que passou em outra universidade e a comparação do que passamos por aqui. Porque vemos desde que entramos aqui, que o que ela fala é real. Ou seja, quem quer vestir o que quer, veste o que quer.
A realidade, é que a moral da nossa universidade é segura pelo que se tem em trabalho acadêmico. Não mais. Se vc leu e fez um bookmark passa pra mim. Estou postando sempre aos finais de semana, e nesse só queria fazer um copy paste de um link forte, e ponto final. E esse assunto seria bom. Não sou mulher, mas as vezes solidariedade é interessante.
Será que os caras não tem sensibilidade, que mulher se sente mal quando é pressionada a não "vestir" algo que ela quer, com seus trocentos hormônios a mais que a gente? E que qdo isso não acontece ela sofre?
Abraços.
Benedito
Catia escreveu:
(Benedito, acredito que as questões da USP sejam outras. Não, tb nunca fui reprimida por causa da minha vestimenta na faculdade, mas já fui por outras coisas, nas quais essa idéia de manada, a qual o Rafael discute, tb se encaixa.)
Benedito Ubirata da Silva escreveu:
Se a USP tem questões, outras questões, todos sabemos que sim, ou sei lá se posso dizer que todos sabemos. Contudo, acho que o que se discute aqui é o ato de honestidade nossa, de dizermos que sentimos medo. Medo de algo muito mais forte que nós como indivíduo.Ou melhor, a questão, é que se nós qdo usamos de um hábito e nos sentimos bem, qdo vemos uma situação sendo arrebatada como foi, ficamos pensando se nós não seremos também.
Não sou mulher, mesmo assim escrevo na primeira pessoa do plural. Porque dá medo!
Tenho que ser honesto, enfrentar os nossos medos qdo voltamos pra casa retrabalha-los, admiti-los, depois de chegar numa situação individual, que dá pra continuar naquilo que faz, ou deixa de fazer, é duro. Muitas vezes perdemos a noite de sono, as vezes choramos ou sorrimos, ou melhor envolve emoção, pois a analise de como vamos nos comportar envolve emoção, não sou psicólogo, mas acho, que é assim.
E de repente vc vê alguém sendo atacado como foi, por algo que fazemos de forma normal. É o medo sim, de que talvez teremos que aceitar mais isso, ou aquilo. E então talvez por sermos comportados, nos sentimos indignados, mas também avaliamos se na nossa indignação não acabamos por ser um estranho no ninho.
Assim é a Forma de se manter dentro de uma Sociedade. Ou senão seria hipocrisia. Pois se estamos aqui, é para se inserir nela cada vez mais, e de forma mais segura que antes. Se a Sociedade mudou, só resta um caminho. Ou então, ser o Estranho no Ninho.
Legal, vc dizer sobre este tipo de não repressão, existente por aqui. Mas não nos fazemos apenas de Catia. Existem muito mais que 60% de mulheres na universidade. Antes de nós homens enfiarmos a nossa testoterona guela abaixo de quem quiser fazer algo contra, precisamos saber sim, o que vcs pensam. Afinal nessa questão fere unicamente a vcs, mulheres. Desculpe a enrolação, sou prolixo mesmo, já admito.
Beijos prô cê.
Benedito