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Maio 30, 2011

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Eu não sou usuário de drogas ilícitas, nem estava presente durante a marcha da maconha, nem sei se sou favor das reivindicações do grupo que a organizou. Entretanto me incomodei bastante com o resultado da manifestação. Me incomodei com os excessos da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana, que são óbvios e patentes nos vídeos que assisti(*), mas me incomodei ainda mais com a decisão judicial que permitiu a ação dos policiais e GCMs.

Taxar de apologia ao crime a legitima manifestação de pessoas que acreditam que uma lei deve ser alterada é ridículo.

Eu não sou advogado nem estudante de direito e por isso tenho uma sincera dúvida a respeito do conceito de apologia ao crime. Por favor me corrijam os que entendem do assunto se o raciocínio abaixo estiver errado:

1) Apologia ao crime é algo complicado de definir, porque algo que não é um fato concreto não pode ser crime. Apologia ao crime é dizer algo como "eu acho que a Suzane von Richthofen tinha mesmo que matar os pais", um crime concreto. Para mim é difícil conceber como a defesa de algo que não é um fato concreto, já perpetrado no passado e tipificado como crime, pode ser considerada apologia ao crime. Nesse sentido, dizer "eu acho que todo mundo deveria matar os pais" não é apologia ao crime. Não aconteceu, não é concreto. Prossigamos mesmo assim. 

2) Não obstante a objeção acima, suponha que se entenda que apologia ao crime é discursar incentivando uma prática criminosa. Ainda assim, mesmo que a marcha estivesse incentivando o uso da maconha, isso não seria apologia ao crime. Por uma razão simples: o uso de maconha não é crime no Brasil. Apenas seria apologia ao crime incentivar o tráfico de drogas. Há quem diga "mas o uso pressupõe o tráfico ou o plantio, portanto incentivar o uso continua incentivando o crime". Opa! Lógica um pouco nebulosa essa. O que está em jogo é o uso da maconha, não a forma como ela foi adquirida. O ato de usar maconha não é crime. 

3) Mas ainda que se entenda que incentivar o uso de maconha é apologia ao crime, a marcha da maconha não era isso. Era apenas uma manifestação pública pedindo a regulamentação do uso de maconha, do seu porte e comércio.

4) Mas ainda que se entenda que manifestar-se pela regulamentação do uso de drogas é apologia ao crime, não se pode condenar ninguém antes do fato. Antes de acontecer a marcha, ninguém fez apologia a nada. Ninguém disse absolutamente nada. O máximo que se pode fazer é deter e processar as pessoas que, durante o evento, se manifestaram assim ou assado. Um crime é um fato concreto, já perpetrado, não uma expectativa a respeito do que pode acontecer no futuro.

A regulamentação ou não do uso da maconha não é um assunto sobre o qual eu tenha uma opinião objetiva. Isso é algo que deve demorar para acontecer e é um assunto sobre o qual muitos dados ainda devem ser tomados e estudados. Apesar de eu tender a ser a favor, acho que inexiste um modelo de descriminalização adequado para a atual situação precária do atendimento de saúde no Brasil.

Mas o que está em jogo é muito mais importante do que isso: é a liberdade do indivíduo de manifestar publicamente suas crenças a respeito das leis de seu país. Não é possível que defender uma mudança em uma lei seja considerado apologia ao crime!

Propor uma reforma constitucional deve ser considerado alta traição contra a nossa lei maior? E os partidos que defendem a reforma política estão atentando contra o sistema eleitoral e devem ser dissolvidos como organizações criminosas? E as pessoas que são contra o estatuto do desarmamento devem ser presas como perigosas defensoras do uso de armas de fogo?

Um simples exame de casos extremos mostra como é ridícula essa posição!

Muita gente diz: "bem feito, era só um bando de maconheiros". Eu fico impressionado com essa reação. Eu até concordo que há uma fração daqueles manifestantes com as quais eu provavelmente não me relacionaria, e que levam vidas que eu não aprovo. Mas isso não importa!

Não importa se quem está se manifestando é um maconheiro, um pastor evangélico, um bêbado, um santo, um pai de família ou um velho tarado. O fato de um sujeito ser usuário de maconha não é razão para que suas liberdades civis sejam diminuídas. Todas as pessoas têm pleno direito, garantido pela constituição, a manifestar-se publicamente sobre o que quer que julgue justo.

 

(*) Há um vídeo no site da Folha em que um homem está tranquilamente caminhando sobre a calçada, sozinho. Ele não está se manifestando, não está segurando placas, não está gritando, não está fazendo absolutamente nada além de caminhar na calçada. Provavelmente era um dos manifestantes, mas naquela situação ele estava obviamente apenas indo embora. Um PM se aproxima, dá uma rasteira nele, derrubando-o no chão, e o arrasta pela camisa. O homem se debate e sai correndo. O PM o persegue e, de repente, um GCM o derruba com uma voadora no peito. Eu sinceramente duvido que isso esteja de acordo com os procedimentos de controle de multidões da tropa de choque. Ao final da sequencia se observa a razão da ação: destruir o equipamento fotográfico que o homem carregava.

Aqui está o vídeo. Assista o trecho do instante 1:07 até 1:30:

 

 

Palavras-chave: constituição, direitos, justiça, maconha, marcha da maconha, polícia

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Postado por Rafael Sola de Paula de Angelo Calsaverini | 1 usuário votou. 1 voto | 4 comentários

Maio 19, 2011

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Todos já devem ter ficado sabendo da tragédia anunciada que aconteceu no estacionamento da FEA ontem a noite. Um estudante reagiu a um assalto e foi baleado na cabeça, morrendo no local. 

A USP é erma, cheia de rotas de fuga, frequentada por gente razoavelmente bem remunerada, sem polícia, com pouca iluminação pública,… é um belo convite. E esse convite foi respondido com um recente aumento do número de ocorrências no campus. Parece óbvio que uma quadrilha de sequestros relâmpago têm agido na Cidade Universitária desde o começo do ano, além de outros assaltos e ocorrências. Era uma questão de tempo até que alguém reagisse e fosse baleado.

Não é a primeira vez que a USP passa por uma onda de crimes (houve uma onda de estupros em 2002) e não é a primeira vez que alguém morre na USP, e nem é a primeira vez que alguém é baleado.

De um lado, assim como nas ocasiões passadas, a resposta da Reitoria é de que não pode fazer nada sem o aval do Conselho do Campus. De outro, sabemos que há um setor da universidade – que apesar de minoritário é bastante barulhento, e parece ter influencia nos conselhos que decidem esse tipo de coisa – que é absolutamente contra qualquer presença policial no campus.

É difícil para mim entender porque algumas pessoas associam qualquer presença da PM, mesmo com uma simples ronda preventiva, com repressão ideológica. Será que elas acham que os policiais vão entrar nas salas de aula para checar que tipo de conteúdo está sendo ensinado? Será que vão confiscar livros suspeitos na biblioteca? Será que pessoas serão presas por serem filiadas a partidos de esquerda? A fantasia uspiana é tão densa que causa paranóias poderosíssimas.

Também é difícil para mim entender como o reitor pode ser tão fraco e bunda-mole. Ele é responsável pela administração dessa universidade e, ainda que não caiba a ele tomar decisões finais, ele tem poder de influenciar os conselhos responsáveis por essas decisões. Eu não consigo acreditar que ele tenha tão pouco poder como afirma. Afinal, ele foi capaz de invocar poderes externos para ser nomeado reitor mesmo sem ter sido eleito... Pouco influente ele não é.

Enfim. Nada vai mudar. A USP continua a mesma ilha da fantasia, anacrônica, ideologicamente congelada no tempo, com a mesma administração fraca e inapta de sempre, lentamente desmoronando, no ritmo uspiano de sempre. 

Por isso ouça meu conselho: não frequente a USP. Não é seguro, e não vai se tornar seguro tão cedo. 

 

 

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Abril 18, 2011

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A essa altura todos já sabem mais ou menos o que aconteceu na USP - a empresa terceirizada responsável pela limpeza, que está em processo de falência já faz uns meses, deu um calote nos seus funcionários, dizendo que a USP não teria dado o dinheiro. Por isso os funcionários entraram em greve. Nada mais justo - é o que todo mundo diria nessa situação. Você me paga, eu trabalho. Você não me paga, eu não trabalho. 

Num primeiro momento eu acredito que todos por aqui se sensibilizaram com a situação dos funcionários. Não é fácil ganhar pouco e trabalhar duro, e de repente se ver sem pagamento. Essas pessoas não têm reservas ou economias. Elas não têm ao que recorrer para comprar comida se o seu salário não é depositado. Quem ganha R$ 600,00 por mês não tem como fazer poupança. Acredito que qualquer aluno estaria disposto a participar de um movimento sério para exigir que a USP pagasse essas pessoas imediatamente – como me parece que é legalmente a obrigação dela fazer, me corrijam se estou errado – e depois perseguir compensação na justiça junto à empresa que deu o calote.

Eu estaria plenamente disposto a tomar a limpeza dos prédios da minha unidade nas minhas próprias mãos, e juntar um grupo de estudantes para fazer uma faxina diária no prédio, para que os funcionários terceirizados não precisassem trabalhar sem receber. Eu estaria plenamente disposto a tentar conseguir assitência jurídica para eles. A criar uma rede de assistência e distribuir cestas básicas para eles. Ajudar a pressionar a reitoria por uma solução imediata, e por uma revisão dos editais de licitação para que as próximas empresas a serem contratadas fossem devidamente investigadas e houvesse critérios de exclusão para evitar outras picaretagens do tipo. Enfim... perseguir, de maneira séria e dentro da lei, soluções para o caso e assistência para essas pessoas enquanto a coisa não se resolvesse.

Até que... de repente lixo. Um certo grupo – minoritário e isolado – de estudantes e funcionários decidiu que era uma excelente idéia “ajudar” essas pessoas espalhando lixo por algumas unidades, depredando banheiros e até jogando papel higiênico usado pelos corredores da FFLCH. E a reação de todo mundo é: qual é o ponto? Em que isso ajuda? Que possível consequencia de espalhar lixo no corredor pode ser benéfica, ou avançar a possibilidade de resolver a questão?

Nenhuma! Vandalizar a escola causa antipatia, afasta pessoas sérias da causa, não acelera em nada o processo de resolver o problema e causa prejuízo para o patrimônio da escola. Grande idéia, não?! A única possível vantagem é chamar atenção. Mas atenção negativa vale? Qualquer atenção?

Um “limpaço” não chamaria a mesma atenção? E não passaria a imagem exatamente contrária? As pessoas não se solidarizariam com os estudantes que desceram do salto para limpar o chão para ajudar pessoas que realmente têm necessidades?

A imagem externa dos estudantes da USP já é a de um bando de mimadinhos que gostam de quebrar tudo e fazer birra uma vez por ano. Essa imagem não é acurada mas, se de fato um grupinho resolve agir segundo o estereótipo uma vez por ano qual é o sinal que se manda para a sociedade? De que vale a pena se solidarizar com qualquer causa que essas pessoas defendam?

A verdade é que uma parte dessas pessoas que estimulam o vandalismo como tática de luta não estão querendo resolver o mesmo problema que o pessoal da limpeza. O pessoal da limpeza quer os seus salários e seu emprego de volta. Os vândalos querem o fim dos salários e empregos. Eles pouco se importam se essas pessoas vão receber ou não, eles querem usá-los como os pobres martirizados pelo sistema capitalista. O lixo nos corredores serve muito mal aos propósitos dos funcionários que estão sem salário, mas não foi concebido para isso. Foi concebido para perturbar a ordem, ameaçar a estabilidade, servir à mobilização contra “tudo o que está aí”.

Bom, isso é o que a gente vê cotidianamente na USP. A gente já conhece o vandalismo da universidade como tática de mobilização e sabe que, além de uns transtorninhos para a comunidade universitária uma vez por ano, ele tem pouco efeito no mundo real.

É uma pena... muita coisa poderia ser feita para ajudar de fato essas pessoas a obter de fato o que querem: seus salários e alguma segurança nos seus empregos. Além disso essa era uma grande oportunidade para rever a forma como a USP tem contratado empresas de limpeza e para entender porque essa não é a primeira vez que um contrato de terceirização dá problema. Talvez porque as empresas mudam e os donos não...

Mas ninguém vai fazê-lo porque a turba já cooptou a questão para suas causas particulares. Qualquer dissidente é um “fascista, escravagista”. Eles têm o “monopólio da luta”, com os métodos deles, com os objetivos deles, e com os resultados que a gente já conhece faz tempo. 

 

Palavras-chave: calote, fascismo de esquerda, greve, limpeza, lixo, terceirizados

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Fevereiro 07, 2011

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Esse post vai defender a grande heresia política que está estampada no título. Não importa se é "direita" ou "esquerda", cristão conservador ou socialista progressista - se você escolheu um time, você está fazendo do mundo um lugar pior. E o meu principal argumento é a reação dos diversos "times" ideológicos dominantes com relação a duas situações políticas em dois países do oriente.

Há dois anos ocorreu no Irã algo muito parecido com o que agora está ocorrendo no Egito - pessoas foram às ruas em massa para protestar basicamente contra duas coisas: a autocracia de seu regime, que prende, tortura e mata pessoas por crimes de opinião, e a corrupção do regime que loteia a riqueza do país como se fosse uma propriedade privada de sua classe dominante. Do ponto de vista ideológico os governos do Irã e do Egito são tão diferentes quanto possível. Do ponto de vista de quem vive diariamente sob o seu jugo, são a mesma exata e nojenta realidade: regimes autocráticos que usam os mesmo expedientes, a mesma mecânica, a mesma tortura. A ideologia é apenas o verniz intelectual sobre uma dinâmica social idêntica.

Ainda mais semelhante foi a forma com que os protestos começaram, como se espalharam através da internet, e como se espalhou feito pólvora na juventude secular e, até esse momento, bastante alienada da política pela situação de seus países. Outro ponto de semelhança foi como em ambos os casos o movimento arregimentou gente de toda classe - secularistas, religiosos, jovens, velhos, classe média, políticos. A única diferença objetiva entre esses dois levantes é o fato de que o governo iraniano foi mais competente em reprimir violentamente os seus manifestantes.

Entretanto a reação dos diversos grupos ideológicos sobre os dois levantes foi muito diferente. Quando os iranianos se levantaram contra a fraude eleitoral que garantiu a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, os conservadores do ocidente bateram palmas, os neocons se rejubilaram, a direita cristã americana e a direita secular brasileira, Israel e os seus defensores, os grupos secularistas do oriente médio, todos clamaram por apoio à revolução verde. A esquerda européia, os islamistas xiitas, a esquerda sulamericana, todos descartaram o movimento como "revolta oligárquica", acusaram de ser fomentado por estrangeiros, de ser uma revolta das classes altas, e que o povo estava realmente feliz com o regime.

Quando os egípcios se levantaram, inspirados por Tunis, contra o terror imposto pelo governo egípcio sobre o país, a esquerda se rejubilou, os liberais americanos clamam para que o governo corte a ajuda financeira ao exército egípcio, a esquerda brasileira os chama de revolucionários (*), o PSTU envia uma pessoa - cuja coragem eu até admiro, pois a situação está feia para estrangeiros lá - para cobrir a Revolução Egípcia. Já a direita americana e os neocons se encolhem de medo e começam a espalhar sua paranóia anti-islâmica, "meu deus, e a Irmandade Muçulmana, os terroristas? Isso é igual à revolução iraniana em 79!". Israel e seus defensores se preocupam "e os tratados? e a segurança do estado israelense? Forças estrangeiras estão envolvidas: o Hammas e o Irã!"(**), a direita brasileira olha torto, com todas as suspeitas possíveis "nós sabemos quem de fato está por trás dessa insurreição?".

O fato é que para certos grupos ideologicamente engajados, o regime egípcio é "amigo dos nossos amigos", se comporta bem com Israel, colabora com os Estados Unidos, enquanto o regime iraniano é "inimigo dos nossos amigos" - ataca Israel e denuncia os Estados Unidos. Para os outros grupos ideologicamente engajados a situação é exatamente oposta: o Irã é "inimigo dos nossos inimigos" e o Egito é "amigo dos nossos inimigos".

Note: acredito que a maioria dessas pessoas não estão agindo de má-fé intelectual, nem são ignorantes sobre a situação. Mas acredito que o véu do engajamento ideológico intoxica o julgamento. A afiliação ideológica e o engajamento parecem ter uma correlação direta com uma troca da lógica pela paranóia, do raciocínio por um comportamento de manada.

Há bastante evidência empírica em estudos de psicologia e neurociencia de que nossas decisões morais são tomadas em grande parte não por um julgamento intelectual detalhado, mas por "gut feeling", sob influencia de regiões do cérebro ligados a frustração e recompensa, conformação social e rejeição(***). Em alguns experimentos mesmo o julgamento de um fato bastante objetivo e lógico, com uma resposta única e bastante bastante óbvia (perguntas do tipo "esta figura geométrica é maior do que aquela?" "qual dessas figuras encaixa naquele buraco?") pode ser fortemente afetado pela necessidade de se conformar ao grupo social. Pessoas sob forte pressão social podem de fato ver e perceber outra coisa e raciocinar de forma diferente ao olhar para os mesmos fatos objetivos(****).

Eu tenho a impressão que o comportamento de pessoas muito fortemente engajadas em alguma doutrina ou ideologia tem alguma forte relação com essa necessidade de conformação à norma do seu grupo. Há uma pressão por certas conclusões - conclusões tomadas antes do raciocínio, antes dos fatos, antes das evidências. Não importa se há ou não evidência se a Irmandade Muçulmana defende o terrorismo, há uma pressão ideológica para que se conclua que Israel corre perigo se o status quo do Egito for perturbado. Não importa se há evidência de que a "Revolução Verde" no Irã não é apenas uma "revolta das oligarquias" mas um movimento bastante pervasivo na sociedade iraniana, há uma forte pressão ideológica para que se conclua que qualquer dissidência é um movimento de ricos insatisfeitos, fomentado por Israel.

O pior que pode acontecer com uma mente sã, hábil e saudável é ser cooptada pelo engajamento político-ideológico e delegar seus raciocínios à lógica de grupo, passar a ajustar os raciocínios e fatos às conclusões, e não o contrário. Grande parte dos nossos problemas são resultados dessa tendênca desastrosas, e grande parte de nossas disputas e contradições públicas são resultado de dois lados que resolveram ignorar os fatos e assumir conclusões automáticas. E como é impossível chegar a um acordo com alguém que já em conclusões prontas, sobra aos grupos denunciarem-se mutuamente em público ao invés de tentar obter um compromisso lógico. Isso aconteceu nas eleições americanas de 2008, nas eleições brasileiras do ano passado, em cada uma das grandes controvérsias públicas pelas quais o nosso país e outros passaram nos últimos anos... aliás, eu poderia até dizer que esse tem sido o principal motor da política por um longo tempo.

Faça um favor a si mesmo: se esforce para questionar a si próprio. Se esforce para questionar o seu grupo. Se esforce para questionar seus autores favoritos. Se esforce para que o guia principal de suas decisões e convicções sejam a lógica e os fatos. Não tenha respostas prontas. E abandone o engajamento ideológico o mais rápido que for capaz. Não se engane: é muito difícil. Como o físico Richard Feynman disse uma vez "you must not fool yourself, and you are the easiest person to fool". Mas vale a pena o esforço. 

Notas de rodapé:

(*) de fato são revolucionários, mas não são os 'revolucionários' que os marxistas do PSTU gostariam que eles fossem...

(**) Essa é a MAIOR BESTEIRA que eu ouvi nos últimos tempos - para a informação dos paranóicos de plantão, para começo de conversa a Irmandade Muçulmana sempre condenou o terrorismo e defende a não violência (com exceção do conflito com Israel, claro). Além disso, a Irmandade Muçulmana e os xiitas iranianos SÃO INIMIGOS. Al-Qarawadi, um dos membros mais influentes da Irmandade Muçulmana (que é sunita!) já chamou os aiatolás xiitas do Irã de apóstatas e é proibido de entrar no Irã. Sim, a Irmandade é islamista, defende o estabelecimento de um regime teocrático e é hostil a Israel, mas nada está tão longe de uma entidade terrorista ligada ao Irã quanto a Irmandade Muçulmana! E por fim, e mais importante de tudo: a Irmandade não está por trás dos protestos. Membros da irmandade participaram sim dos protestos, mas como coadjuvantes, participantes secundários. A grande massa não está lá por razões religiosas.

(***) O Cortex Anterior Cingulado, uma área do cérebro que sempre se mostra ativa em experimentos ligados a rejeição social e conformação ao grupo, aparece também em experimentos associados a resolução de dilemas morais. Em breve vou colocar umas referências aqui. Preciso organiza-las. Talvez as descreva em outro post. 

(****) Há um experimento clássico em que você mostra um conjunto de figuras para o indivíduo e pergunta qual delas é a maior. As figuras são de tamanhos claramente diferentes e uma fração quase unanime das pessoas acertam a resposta quando questionadas individualmente. Então você repete o experimento colocando a pessoa em uma platéia com vários atores que estão orientados a dar em voz alta a resposta errada. A porcentagem de pessoas que conforma sua resposta à resposta errada do grupo, basicamente ignorando a evidência visual clara, é enorme. Não me lembro os números mas vou colocar aqui mais tarde. O Cortex Anterior Cingulado se ativa durante esses experimentos, e mais fortemente nas pessoas que conformam sua resposta à resposta errada do grupo.

E veja: é muito difícil não se conformar. Já fizeram informalmente esse experimento comigo, e eu fiquei tremendamente confuso em relação a qual era a figura maior por vários minutos antes de dar a resposta certa. Depois de um tempo olhando as figuras fiquei até com vergonha. A diferença de tamanho era enorme. 

Post Scriptum:

1) É claro que o engajamento político, no sentido de engajamento nas atividades políticas, é algo positivo. Se você se engaja em participar ativamente das decisões na sua cidade, no seu país, se você participa honestamente do processo político e não é um cidadão passivo, você está fazendo certo. Me refiro nesse post ao engajamento em uma ideologia, um sistema doutrinário político que apresente respostas prontas para os problemas. Isso é o que você deve tentar banir do seu mundo. 

2) É claro que ao tomar decisões você vai pesar valores subjetivos. Alguém que julgue que justiça social é mais importante que liberdades individuais vai tomar decisões diferentes de alguém que pense o contrário, ainda que esteja diante dos mesmos fatos objetivos. O que é importante é que os dados e fatos objetivos sejam racionalmente examinados antes que as conclusões resultantes desse exame racional sejam submetidas ao crivo dos seus valores subjetivos, de forma  intelectualmente honesta. 

 

Palavras-chave: direita, esquerda, estupidez, ideologia, manada

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Fevereiro 01, 2011

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Nos últimos dias eu tenho acompanhado, atônito e sem fôlego, os fatos que ocorreram na Tunísia e no Egito. É inacreditável o quão rapidamente um movimento popular foi capaz de colocar um país inteiro sob suas asas incendiando o legítimo descontentamento daquele povo em uma ação contra a tirania de seus regimes. Para aqueles fãs de ficção científica que leram sobre as guerras digitais nas páginas de William Gibson isso é inacreditavelmente similar ao que 20 anos atrás era só ficção científica.

Como bem lembrado pelo jornalista Sultan Sooud al Qassemi (uma das melhores fontes sobre o assunto no twitter) , o que está acontecendo agora não é exatamente inédito em espírito. Há pouco mais de 21 anos o ditador romeno Nicolae Ceauşescu teve que fugir do comitê central do Partido Comunista Romeno em Bucareste por  causa de uma multidão que exigia sua renúncia na praça central da cidade. O mesmo acontece hoje no Egito, quando mais de 2 milhões de pessoas (2 milhões!!!) se reúnem na praça Tahrir (adequadamente chamada em português "praça da Liberação") exigindo uma coisa e apenas uma coisa: o fim do regime autoritário liderado por Hosni Mubarak. Como na Romênia 21 anos atrás, os egípcios na praça Tahrir não têm líderes, não foram convocados por nenhuma oposição, não foram alimentados por nenhuma ideologia. Apenas atenderam a um chamado anônimo que se espalhou de boca em boca: veja demonstrar sua insatisfação com o regime. Mas há algo de diferente: enquanto os romenos tiveram de contar com rádios estrangeiras para espalhar as notícias, os egípcios e tunísios têm a internet, o twitter, o facebook, mensagens sms, telefones celulares, o youtube e toda forma de comunicação ubíqua, disponível no bolso a qualquer momento, para transmitir qualquer informação instantaneamente. Imediamente datas e horários de protestos podem ser anunciados para milhões de pessoas, informações sobre a posição de forças repressoras podem imediamente ser obtidas, o horror da repressão violenta pode imediatamente ser transmitido para milhões por vídeos e fotos.

Os protestos foram convocados para o dia 25 de janeiro, no twitter e facebook. Levou apenas 4 dias, de 25 a 29 de janeiro, para que os egípcios fossem capazes de arregimentar um número suficiente de manifestantes para que pudessem desmantelar completamente as forças policiais leais ao regime. Apenas segundos foram suficientes para que o mundo todo soubesse que os confrontos tiraram a vida de 100 pessoas na madrugada do dia 29. Levou apenas mais 3 dias para que o número de manifestantes saltasse de 20 mil para mais de 2 milhões hoje na praça Tahrir. Através de sms os jovens egípcios puderam organizar comitês de vigilância para seus bairros, para defender suas propriedades e famílias. Ouvi mais de um egípcio no twitter dizer: me sinto mais seguro ao andar hoje pelas ruas do Cairo do que em qualquer outro dia. Voluntários organizaram o trânsito, cuidaram da limpeza das ruas e governaram a cidade na ausência do estado - tudo organizado pela internet e pelos sms.

A queda de Mubarak é uma questão de tempo. É impossível um governo sobreviver a uma tão grande insurreição popular. Aqui no ocidente tudo é observado com temor. O Egito é um país central no mundo árabe. Qualquer coisa que aconteça lá ressoa em todos os outros países da região. Lá estão as melhores universidades que formam os jovens árabes, os mais influentes intelectuais, a mais influente diplomacia e a cultura árabe mais complexa e sofisticada. Quem são essas pessoas que hoje dominam as ruas do Cairo? Quem são seus líderes? É uma revolta fundamentalista? É como no Irã em 1979? O mundo ainda não entendeu direito como é que se descobre quem são essas pessoas: converse com elas! Leia tudo o que elas dizem! Você pode entrar em contato direto com as pessoas que estão nas ruas no dia-a-dia dessa revolução através da internet. Isso é inédito na história do mundo. Você pode saber exatamente o que os motiva e o que eles querem.

Não, isso é muito importante entender, essa não é uma revolta fundamentalista islâmica, é uma insurreição popular contra um tirano. Não é um movimento como a revolução iraniana em 1979. As pessoas que estão lá na praça Tahrir são, como a reportagem da Al Jazeera English costuma dizer, "from all walks of life", cristãos, muçulmanos, secularistas, islamistas, comerciantes, estudantes, marxistas, liberais, operários de fábricas, jovens liberais, que vivem vidas ocidentalizadas, mulheres de burca, mulheres de cabelos soltos e roupas ocidentais, intelectuais, líderes religiosos, civis, militares... é, enfim, o povo egípcio. O colunista do New York Times Nicholas Kristoff relata ouvir de um manifestante na praça Tahrir: "nós queremos o que vocês têm na América! Nos ajude a ter democracia!". O produtor do Democracy Now! Sharif Abdel Kouddous descreve o que a multidão cantava "muslim, christian, we're all egyptian" ("muçulmano, cristão, somos todos egípcios"). 

Outra coisa importante de entender: esse movimento não tem líderes, até agora ninguém tomou a frente como organizador, mentor ou líder de nada (ao contrário dos protestos no Irã em 2009, onde Mir-Hosein Musavi era claramente o líder político dos protestos). Surgiu espontaneamente, quando a notícia do que houve na Tunísia convenceu os egípcios de que um regime autoritário pode ser derrubado por uma insurreição em grande parte pacífica.

Isso é o que traz mais medo, porque no vazio do poder causado pela queda de Mubarak não há alguém que o substitua e a revolta pode ser sequestrada por fundamentalistas. Mas eu não acredito nisso. Pelo que se vê as pessoas dizendo, não é isso que vai acontecer. A principal força religiosa conservadora que tem participado dos protestos é a Irmandade Islamica, um movimento islamista bastante tradicional que existe a mais 90 anos na região. Mas eles não são os líderes da revolta, e vários de seus líderes já anunciaram publicamente que não buscam sequer participar de um governo pós-Mubarak. Claro que qualquer governo vai ter que ter o apoio deles e eles provavelmente vão acabar participando, mas nada que não seja um governo de união nacional - com cristãos, muçulmanos, conservadores, moderados e secularistas juntos - será estável, e é para isso que o ocidente deve estar alerta.

O mais importante a se esperar de tudo isso é que o povo egípcio poderá, pela primeira vez, escolher o que vai acontecer e quem estará governando. É muito provável que o resultado dessa revolução seja um governo eleito pelo voto direto. E é muito provável que o Egito não seja o último país árabe a passar por uma transformação profunda esse ano. 

Post scriptum: fontes para acompanhar esses acontecimentos. 

A melhor fonte para acompanhar o que acontece no Egito agora é a internet. Esqueçam as agências de notícias ocidentais. A única agência de notícias capaz de dar notícias acuradas sobre o que acontece lá é a Al Jazeera English. Recomendo acompanhar o live blog para notícias em cima da hora, e assistir o stream ao vivo da televisão

Mas a melhor fonte continuam sendo os twitters. Eu fiz uma lista no twitter e adicionei algumas boas fontes. Os principais são os jornalistas Sultan Al Qassemi (@sultanalqassemi) em Dubai e Mona Eltahawy (@monaeltahawy) em New York, os jornalistas da Al Jazeera que estão no dia-a-dia da praça Tahrir (mesmo depois de serem presos): Dan Nolan (@nolanjazeera) e Ayman Mohyeldin (@aymanM), e o já citado Sharif Kouddos (@sharifkouddos). Mas há muitos outros, especialmente pessoas que não são jornalistas e estão todos os dias na praça junto com os manifestantes, como Shereef Abbas (@shereefabbas) e Amr El Beleidy (@beleidy) . Há muitas outras boas fontes que não estão na minha lista, mas é tudo o que eu consigo acompanhar sem ficar doido.

As hashtags do twitter para acompanhar isso tudo são #jan25 (em referência ao dia em que tudo começou), #egypt, #sidibouzid (uma referência à cidade na Tunisia onde tudo começou). Mas seguir a tag #egypt é quase impossível! São centenas de tweets por segundo!

 

 

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Outubro 13, 2010

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Nessa campanha presidencial - como, aliás, deve ser em qualquer campanha eleitoral - tem acontecido uma fenômeno interessante nas propagandas e discursos de aliados de cada um dos candidatos do segundo turno. Ambas as campanhas tentam comparar os governos de Lula e FHC apresentando todo tipo de números e estatísticas. O interessante é que o cenário parece estranhamente ambíguo: para cada estatística que mostra Lula melhor que FHC existe outra que mostra o exato contrário. Para dois exemplos interessantes desse tipo de campanha, veja esses dois links:

Esse fenômeno pode parecer estranho para os espectadores da campanha menos acostumados aos números. Afinal, quem foi melhor para o ensino superior, FHC que aumentou o número de matrículas ou Lula que criou mais universidades? Quem diminuiu mais a pobreza, FHC aumentou 4 vezes mais o IDH ou Lula que criou 3 vezes mais empregos?

Não há nada de estranho aí. O que está por trás dessa estranheza é uma falácia estatística que pode ser chamada "falácia do atirador". Imagine um homem que quer demonstrar que é um excelente atirador e te mostra um alvo pintado em um campo de tiro, com 10 tiros certeiros na mosca. Você pode achar que ele é um grande atirador mesmo, mas sabe como ele produziu esse resultado?

O atirador ergueu uma enorme parede de madeira, de 10 metros de largura e 5 de altura, colocou-se na posição de tiro e descarregou 500 tiros contra a parede, sem tentar mirar particularmente em nenhuma posição. Claro que depois disso a parede estará cravejada de buracos e em alguns lugares haverá buracos de tiro mais próximos um dos outros. O atirador escolhe convenientemente 10 buracos que, ao acaso, ficaram bastante próximos entre si e desenha e pinta o alvo em torno deles. Então ele corta o resto da madeira e recoloca o alvo em sua posição original, com 10 tiros "certeiros" na mosca.

O homem não é um excelente atirador. Ele apenas escolheu o alvo depois de ter os resultados. Ele selecionou os "bons" resultados e descartou os ruins. Ele transformou uma distribuição bastante larga em uma distribuição mais estreita apenas descartando certos resultados e mostrando outros.

Como isso se aplica à campanha eleitoral?

Para cada aspecto de um governo que você queira avaliar, existe um sem número de estatísticas que podem ser usadas. Se, por exemplo, eu quero avaliar a evolução da renda, posso mostrar o crescimento do PIB per capita, ou de algum índice de salários, ou da fração do PIB correspondente aos salários, ou quanto subiram os salários em comparação com a taxa básica de juros, ou comparar com taxas “reais” praticadas no mercado. Posso comparar esses números em dólares ou reais, posso comparar o poder aquisitivo real, ou quanto essa renda compra de uma certa cesta de produtos essenciais. Posso focar apenas no crescimento da renda da classe C, ou em quanto cresceu (ou caiu) a razão da renda da classe C pela renda da classe A. Posso comparar quantos bens de consumo essenciais as pessoas conseguem comprar, ou posso comparar quanto o crescimento de suas rendas se compara com o rendimento de um certo investimento padronizado. Todas essas são formas de comparar quanto a renda cresceu.

Deu para perceber que existe um grande número de estatísticas para comparar dois governos, mesmo que fiquemos apenas no restrito conjunto de estatísticas referentes ao aumento da renda. Se eu comparar todos esses números entre o governo A e o governo B, alguns resultados serão pró-A e outros serão pró-B. É natural que seja assim por uma razão simples: há uma flutuação incrível nesses números. Flutuações temporais, flutuações causadas por diferentes metodologias ou mesmo flutuação que resulta do processo de amostragem. A incerteza nesses números as vezes é muito grande, e medidas em semanas diferentes podem causar flutuações de vários pontos percentuais. Não temos um valor determinado para esses números, temos uma distribuição de probabilidades que representa o quanto sabemos sobre eles. E essa distribuição é relativamente larga.

Então existe uma probabilidade de que cada estatística seja pró-A ou pró-B, ainda que os governos A e B tenham sido mais ou menos parecidos. E mesmo que o governo A tenha sido muito melhor que o governo B em certo sentido, ainda assim teremos uma certa probabilidade de ter um certo número de estatísticas pró-B. Mas eu sempre posso escolher que fração das estatísticas que eu pretendo mostrar será pró-A ou pró-B. Eu posso apenas mostrar 100% de estatísticas pró-A e argumentar assim que o governo A foi incrível. Isso é bem ilustrado pela famosa propaganda da Folha de São Paulo de alguns anos atrás, em que se apresenta diversas estatísticas positivas do governo de Adolf Hitler na Alemanha, que certamente foi um governo desastroso!!!

Então é impossível comparar dois governos com estatísticas? Claro que não. É perfeitamente possível. Apenas é necessário fazê-lo de forma sistemática, com métodos claros, com padrões e referências bem definidos. Existem procedimentos para se evitar a falácia do atirador em estudos estatísticos. Por exemplo, pode-se escolher que estatísticas serão calculadas de antemão, antes da colheita de dados, de acordo com um método bem definido. Isso evita que se “desenhe o alvo” em torno do resultado desejado. Pode-se fazer uma análise de sensitividade, mostrando que ainda que a metodologia fosse diferente, o resultado não seria tão diferente assim. Enfim, existem técnicas para isso.

Mas isso é algo que campanhas eleitorais nunca serão capazes de fazer. Elas são enviesadas por princípio, a cesta de índices que escolhem para mostrar é viciada e sua interpretação errônea e vazia. E isso vale para qualquer campanha, independente da orientação ideológica do candidato. É inevitável. Não chega nem a ser desonestidade, é da natureza da propaganda. O ideal seria que, ao invés de usar os números de forma leviana, fossem contratados estatísticos profissionais e neutros para criar essas análises. Mas isso nunca vai acontecer. :wink:

O melhor é que o eleitor esteja atento às formas com que os números podem ser usados contra ele. Números adequadamente escolhidos podem defender qualquer estória que se deseje contar. Mas não fique achando que toda estatística é resultado de manipulação. Há métodos adequados para se evitar a manipulação, mesmo a manipulação involuntária.

Há uma citação de natureza ética difundida entre os estatísticos adequada para fechar essa discussão. Infelizmente não me lembro o autor ou a exata fraseologia, mas a essência é: é sempre possível mentir usando a estatística, mas é impossível dizer a verdade sem ela.

 

Palavras-chave: eleições, Estatística, falácias, lógica, números

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Setembro 29, 2010

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(post que fiz para o Ars Physica... vou colocar aqui também, como sempre)

Como eu já disse por aqui, eu fico bastante entusiasmado com a idéia de cursos abertos online e disponibilização de material em vídeo, como na iniciativa OpenCourseWare, por exemplo. E eu sou um usuário adicto desses materiais. Já devo ter ouvido as aulas de mais de uma dezena desses cursos, por diversão mesmo, em áreas muito diversas (história, estudos religiosos, biologia, antropologia...). Mas não comecei esse texto para falar desses cursos, mas para falar de algo que esses cursos me fizeram notar a respeito de uma diferença fundamental entre o ensino de física e o ensino em outras áreas do conhecimento, de forma particular, mas não restrita, nas ciências médicas e biológicas.

Para exemplificar o que quero dizer, vou me referir à terceira aula do curso de biologia geral dado na primavera de 2010, na Universidade da Califórnia em Berkeley, cujas aulas em vídeo e éudio estão disponíveis para download no site de webcasts da universidade (http://webcast.berkeley.edu). Em certo ponto dessa aula, a professora diz "e realmente nos últimos 5 ou 6 anos muita pesquisa foi feita para entender a estrutura interna e função do ribossomo, e eu vou mostrar para vocês uma imagem..." e passa a discorrer sobre assunto de pesquisa muito recente, sobre o qual ainda há dúvidas e questões em discussão. Cenas como essa são comuns em todos os cursos que ouvi. Assuntos de pesquisa são citados na sala de aula rotineiramente e discutidos nos trabalhos e dissertações que os alunos tem de entregar para ser avaliados. Isso me chocou. Me chocou como algo completamente alheio com a minha experiência de sala de aula, que acredito ser não muito diferente da experiência de todos os físicos formados no Brasil, e provavelmente no mundo todo. É inconcebível na nossa experiência que um professor de Física I (ou de Physics 101) entre na sala de aula e dê como exercício de casa a uma turma mista de dezenas e dezenas ingressantes de diversos cursos - engenharia, física, química, ... - a leitura de um artigo de pesquisa publicado a menos de 10 anos. Nenhum assunto discutido em uma aula de física, mesmo nos últimos anos da faculdade, é mais recente do que a década de 40. Em compensação, poucos assuntos discutidos em uma aula de biologia celular são mais antigos que a década de 70, e muitos tem menos de 10 ou 15 anos de idade! E por que é assim?

Tudo bem, há uma série de explicações muito plausíveis para isso. Talvez a mais forte seja que os conceitos físicos e as ferramentas matemáticas usadas na pesquisa são muito mais avançados do que os que estão sendo estudados na graduação, e que é necessário um período longo de treinamento para sair da primeira aula sobre as leis de movimento de Newton e chegar na mecânica quântica, passando por todos aqueles passos intermediários. A maturação de um físico é um processo longo e lento, nessa visão. Vai da primeira aula de Física I até mais ou menos o meio do doutorado. A física é uma ciência mais antiga e madura, dizem os que defendem essa idéia, e um estudante de física tem que estudar toooodas essas coisas com detalhes, desde o nascimento da mecânica newtoniana até a mecânica quântica e suas aplicações mais elementares. Além disso, um ingressante em física ainda não foi exposto nem ao ferramental matemático básico para prosseguir aprendendo física - o cálculo, a algebra linear e etc...

Apesar de acreditar que há alguma verdade nisso, sinceramente acho que ela é exagerada e super-simplificada pela típica autosuficiência e arrogância dos físicos (eu me incluo nessa conta) e pela inércia do sistema educacional. Faz anos que é assim, foi assim que fizemos no passado, é assim que faremos no futuro porque é assim que se ensina física. E bem, veja só, é mais difícil aprender física, não é?

Não. Não é. Sinceramente, não é. Aprender biologia pra valer é tão difícil quanto aprender física. Ou mais! Pode ter um pouco menos de matemática, mas nas duas ou três primeiras aulas do curso introdutório para a graduação da UC Berkeley que assisti já há uma série de mecanismos celulares complicados, relações entre as organelas, estruturas moleculares complicadas, como as isomerias e as simetrias afetam a função das moléculas, e se o carbono alfa está assim, então a isomeria faz com que o poro da membrana nuclear fique assado... Surpresa

Não é fácil, definitivamente. E não é "coleção de selos", é uma sequencia lógica de mecanismos e estruturas bem entendida até certo ponto. Eu não estou acompanhando direito.

Porque um ingressante de biologia está pronto para discutir a biologia molecular dos poros da membrana nuclear de maneira tão detalhada e um estudante de física não está pronto para discutir fenômenos críticos e transições de fase, ou entender, pelo menos num nível qualitativo, o que é decoerência, o que são teorias de campo conforme e porque a correspondência AdS/CFT é tão importante, quais são as alternativas para explicar energia escura, porque o grafeno é um material tão especial, porque é tão difícil ter materiais semicondutores que sejam ferromagnéticos, o que a física por trás de folding de proteínas tem a ver com a física de cristais magnéticos, quais são os melhores candidatos para física além do modelo padrão, como podemos detectar radiação Hawking?

E se tocamos nesse assunto, porque não ir mais fundo? Se os estudantes de física não chegam à metade do século passado, os estudantes do colegial param muito antes disso. A física mais recente que fingimos ensinar nas escolas tem pelo menos 150 anos de idade, e é absolutamente inútil para essas pessoas da forma como é ensinada, em todos os aspectos. Não estimulam curiosidade científica, não as ajudam a entender o ambiente tecnológico em que vivem, não fornecem ferramentas de trabalho úteis e nem as preparam para a universidade.

O ensino de Física está, em minha opinião, caduco em todos os níveis e precisando de urgente reforma. E quanto mais a pesquisa avança, mais urgente essa mudança se torna. Se queremos pessoas prontas para integrar os quadros de pesquisa, se queremos estudantes motivados e se queremos desenvolver o quanto antes o gosto pela pesquisa, precisamos forçar a fazer o que os biólogos fizeram de forma natural, e trazer a física da pesquisa de volta para as salas de aula.

 

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Agosto 04, 2010

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Bem, eu vou propagandear aqui outro blog que criei aqui no wordpress para falar principalmente sobre programação funcional, Haskell e as relações dessa linguagem com matemática e física. Como essa comunidade é bastante específica, escrever em português não atingiria muita gente então eu criei um blog para escrever sobre isso em inglês (broken english…). 

De qualquer forma eu óbviamente não vou deixar de escrever aqui, e quando eu achar que tem algo desse assunto que seja suficientemente geral para caber aqui, vou postar aqui também, em português.

Enfim, para quem se interessar: http://randomagent.wordpress.com/ é o endereço do outro blog, onde já há um tutorial sobre monad transformers usando processos estocásticos como exemplo. )

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Julho 27, 2010

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Como esse assunto acontece com alguma recorrência eu vou salvar aqui as coisas que escrevi em outros lugares para fins de referência. 

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Eu acredito que estamos melhor sem regulamentação. Vou dar duas séries de argumentos - uma de porque eu sou contra o sistema de regulamentações como um todo e outra de porque eu sou contra a regulamentação da profissão de físico ainda que o sistema de regulamentações não seja desmantelado. 

1) Só existe uma razão objetiva para regulamentar uma profissão: impedir que pessoas não qualificadas exerçam atividades que representam um risco sério caso sejam mal executadas. Qualquer regulamentação que não se baseie nisso só tem um objetivo: criar um clubinho de pessoas que controlam uma série de atividades e impedir o acesso de outras pessoas a essas atividades, gerando uma reserva de mercado.

Isso é prejudicial ao mercado, inibe a geração de empregos e inibe o crescimento de novas áreas de aplicação de conhecimentos antigos, além de aumentar injustificadamente o custo de contratação. 

Isso também é ruim para os profissionais. Uma vez regulamentada a profissão, ficam estabelecidos limites claros para o que aquele profissional faz e o que ele não faz, e é muito provável que se isso se cristalize no mercado profissional. Isso limita as atividades que você pode desenvolver. 

Finalmente, isso é ruim para a profissão. A existência de atividades privativas faz com que os conselhos profissionais obriguem os cursos a ensinarem algumas disciplinas, engessando as estruturas curriculares e preenchendo a grade horário dos estudantes com disciplinas muitas vezes mal colocadas. Por exemplo isso acontece com os cursos de engenharia - por conta da grande quantidade de atividades que são privativas de engenheiros de todas as áreas, todos os cursos são obrigados a ministrar, por exemplo, matérias associadas a construção civil e a projeto de sistemas elétricos, ainda que isso não esteja nem próximo da intenção de um estudante de engenharia de controle e automação ou de engenharia metalúrgica.

2) Acima eu dei razões pelas quais eu sou radicalmente contra o sistema de regulamentação de profissões - que eu acho que deveria ser estritamente limitado a profissões que trazem risco. Mas isso está aí e não há muitas chances de que esse sistema de regulamentação seja posto de lado. Por isso ainda são necessárias razões para não regulamentar a Física ainda que o sistema continue. 

Regulamentar a Física como profissão exige a delimitação de que atividades serão privativas de um físico, que só ele poderia desempenhar. Entretanto, um coisa que salta aos olhos é o fato de que não existe realmente um corpo de atividades acima das quais você pode colocar o rótulo "Física". Física não é um conjunto de atividades ou técnicas mas um conjunto de conhecimentos. Não é como a Medicina, a Fisioterapia, a Engenharia Elétrica, a Enfermagem ou a Geologia - que além de seus respectivos conjuntos de conhecimentos associados possuem um conjunto de técnicas e atividades que as caracterizam. Certamente um físico está habilitado por seus conhecimentos a desempenhar diversas tarefas úteis, mas não são tarefas privativas que qualquer outro profissional não possa aprender e desempenhar com a mesma eficiência.

Pode-se objetar a essa observação dizendo que há sim uma tarefa, que envolve grandes riscos, e que seria primordialmente tarefa dos físicos: dosimetria de radiações e manipulação de elementos radioativos. Eu discordo fortemente dessa visão. Essas não são atividades que exigem todo o conhecimento adquirido em um curso de quatro anos de física, mas que qualquer profissional de física, química, engenharia ou áreas correlatas poderia desempenhar depois de um curso de habilitação. Aliás, essa é uma atividade que a gigantesca maioria dos físicos que eu conheço não está apta a desempenhar por não terem tido treinamento específico.

Finalmente, qual seria o efeito de se regulamentar Física como profissão? 

Seriam dois efeitos:

1) Seria criada uma reserva de mercado para certas atividades, com piso salarial fixado. Muitos vêem isso como vantagem, eu vejo como problema. Hospitais e departamentos de radiologia seriam obrigados a contratar físicos, para empregos incompatíveis com todo o treinamento que esses profissionais possuem. É ridículo supor que exige-se uma formação completa em física para se dosar a radiação de um aparelho de raios X. Basta uma formação de técnico de radiologia. E não se engane - a remuneração vai ser compatível com a de um técnico. Ninguém vai pagar salário de nível superior para fazer isso.

Sobre o piso salarial - físicos não ganham mal. Em uma recente pesquisa da FGV física era o 31º curso superior mais bem remunerado, com salário inicial médio de R$ 3500. 

2) A necessidade de treinamento específico vai fazer com que se insira nos cursos de bacharelado em física disciplinas obrigatórias de instrumentação e dosimetria de radiações, e a gigantesca maioria dos profissionais de física não vão trabalhar nessa área. 

3) Diversas atividades que hoje são desenvolvidas com sucesso por pessoas formadas em física vão ficar de fora da legislação: computação, finanças, projeto de produtos, ... e vão sobrar para a física tarefas menos remuneradas e mais diretamente ligadas ao curso: metrologia, dosimetria, ...

Finalmente, a Fisica não é, nunca foi e nunca será privativa de um clube de pessoas que resolvem delimitá-la. A Física não é delimitável. É IMPOSSÍVEL traçar uma linha e dizer que o que está lá dentro é Física e o que está fora não é. 

Isso não é uma característica apenas da física mas de todo campo que é eminentemente científico e não técnico. Também é impossível delimitar o que um biólogo faz, o que um químico faz, o que um matemático faz, o que um sociólogo faz, o que um estatístico faz. 

Há uma interface tão tênue e tão fluida entre essas áreas que qualquer um é capaz de estudar, aprender e ingressar em qualquer atividade que um físico for capaz de exercer. 

É assim que é, e é assim que tem que ser. Essa é a nossa riqueza e o que realmente diferencia um profissional com uma forte formação científica e quantitativa: não há limitações no que ele pode aprender a fazer.

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Junho 30, 2010

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"Exaltado seja o Filho, nosso salvador;
s
ua soberania seja suprema, sem rival algum.
Q
ue seja o pastor dos homens, suas criaturas"

Cântico cristão? Não. É um trecho do Enûma Eliš, poema épico babilônico que, entre outras coisas, narra a batalha entre Marduk - uma espécie de deus dos ventos e tempestades -  e Tiamat - deusa primordial associada a águas caóticas - e a subsequente criação do mundo e da humanidade e o estabelecimento de Marduk como o rei dos deuses e presidente sobre a assembléia de deuses. Marduk era o Filho - no sentido de que não pertencia às primeiras gerações de deuses, e era o salvador, no sentido de que salvara esses deuses - seus pais - da fúria de Tiamat, que pretendia destruí-los. 

Tudo bem, eu distorci um pouco uma tradução do acadiano para o inglês (obviamente eu não sei ler acadiano, aliás... nenhuma língua antiga) para encaixar as coisas. O inglês traz:

"Most exalted be the Son, our avenger;
Let his sovereignty be surpassing, having no rival.
May he sheperd the black-headed ones(1), his creatures" 
--- The Ancient Near East, Volume I - an anthology of texts and pictures, James Pritchard

 

Segundo o próprio tradutor, "black-headed ones" é um termo comum em acadiano que significa raça humana. E de "vingador" para "salvador" foi uma pequena aposta. Não sei se o termo original permite essa tradução. 

Obiviamente esse trecho de hino religioso foi produzido em um contexto muito diferente do cristianismo, muitos e muitos séculos antes do início dessa religião e para decorar um mito muito diferente do mito cristão. 

Entretanto é bastante conhecido entre os estudiosos do antigo oriente próximo que havia bastante intercâmbio cultural entre esses povos, e que há paralelos interessantes entre textos babilônicos, inclusive o Enûma Eliš, e trechos do antigo testamento, uma compilação de textos hebraicos. O cristianismo, que rapidamente se transformou em religião greco-romana, recebendo todo tipo de influencia dessa outra cultura, nasceu no oriente próximo, como uma seita apocaliptica judaica e obviamente carregou consigo boa parte dessa herança.

Para mim é um quase inevitável ficar imaginando se esse tipo de hino religioso não fazia parte do estoque cultural daquelas pessoas, se eles não conheciam esses termos e até que ponto a imagem do Filho divino, do pastor, do salvador, não eram parte de uma memória cultural  que eventualmente achou expressão no apocalipticismo judaico e na nova seita que nascia com a morte do pregador galileu Yeshua de Nazaré. 

 

Palavras-chave: babilonia, bíblia, cristianismo, enuma elish, hebreus, história da religião, judaismo, textos antigos

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Junho 17, 2010

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O Reitor João Grandino Rodas foi aclamado por uma boa parte da comunidade uspiana como a solução para os problemas da USP com o movimento radical de extrema esquerda que anualmente sequestra a universidade. Eu duvidei disso desde o princípio. A campanha muito antecipada, o currículo, falemos honestamente, muito pobre de realizações acadêmicas para um professor titular, o tom vago da sua carta programa... isso nunca me inspirou confiança alguma. 

Faz anos que eu digo que a USP precisa ser administrada por cientistas, pesquisadores, professores de verdade. Pessoas que se dedicam no dia a dia às atividades que fazem a USP ter sentido e que se preocupem com essas atividades. Há tempos que temos como reitores pessoas que se dedicaram muito mais em ascender na burocracia uspiana através de cargos administrativos do que através do trabalho academico de fato. Mas isso é outra conversa...

Desde o início da temporada 2010 da rodada anual de greves e piquetes do Sintusp, todos estamos ansiosos para saber o que afinal o grande reitor iria fazer para nos salvar, uma vez que aparentemente é isso que ele saberia fazer. E desde então só nos deparamos com surpresas negativas. 

Os piquetes continuam no mesmo lugar há semanas, as pessoas que invadiram prédios públicos continuam lá, e a violência contra os direitos de pessoas que não estão em greve e querem continuar trabalhando e estudando - direito garantido pela mesma lei de greve que regulamenta o direito dessas pessoas de fazer greve - continua como sempre. Isso tudo sem nem comentar a lambança na Faculdade de Direito - que seria razão suficiente em qualquer instituição séria para que o reitor renunciasse.

Dias atrás o Sintusp anunciou o trancamento do portão principal do campus e hoje cumpriu a promessa. Não é possível que o reitor, com todo seu saber jurídico, não seja capaz de conseguir uma liminar para que a polícia  se postasse logo cedo nos portões e impedisse seu fechamento! É obrigação legal do reitor zelar pelo funcionamento normal da universidade e faltar com essa obrigação é prevaricação.

 

 

Palavras-chave: baderna, fechamento do P1, Greve, Piquete, Rodas

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Novembro 28, 2009

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Fiquem de olho, pessoal. Houve mais de 9 mil votos na eleição do DCE esse ano. Nunca houve um quórum tão grande. As chapas Reconquista, Nada Será Como Antes e Todo Carnaval tem Seu Fim são as favoritas.

Em alguns minutos deve começar a apuração na ECA, que pode ser acompanhada pelo twitter.

As duas chapas ligadas ao PSOL e ao PSTU parecem estar muito receosas de que a Reconquista de fato ganhe e estão tentando anular o processo eleitoral, segundo o que eu ouvi no twitter.

Se fizerem isso será um belo tiro no pé...

Palavras-chave: dce, eleições

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Novembro 24, 2009

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Pessoal,
hoje, amanhã e depois serão realizadas as eleições para o DCE. Eu sei a imagem que a maioria de nós associa ao DCE e a essas eleições: a mesma palhaçada de sempre, 200 chapas iguais, defendendo ideologias anacrônicas, greve e etc.

Esse ano entretanto um pessoal resolveu fazer uma chapa de contraponto a essa palhaçada. Quem sabe seja possível eleger uma chapa que consiga dar ao DCE alguma utilidade e quem sabe esse pessoal consiga fazer alguma representação discente minimamente decente.

Eu também sou muito cético com relação a isso e também, ao longo do tempo, acumulei evidências para concluir que no fundo DCE's e centros acadêmicos não servem para nada e o melhor mesmo é deixar os malucos de ultra-esquerda com a sua ilusão de controle sobre alguma coisa. Mas quem sabe não dá para usar o DCE para alguma coisa útil, nem que seja só um pouquinho.

Por isso eu peço que vocês leiam o programa da chapa Reconquista - http://reconquista2010.com.br - e pensem se vale a pena votar e tentar ver se é possível alguma coisa mudar.Os pontos principais do programa são: fim da influência de partidos, fim dos piquetes, respeito ao patrimônio da USP e negociações decentes com a reitoria em assuntos de interesse dos estudantes sem o grevismo de sempre.


A votação é nos dias 24, 25 e 26 de novembro. As urnas devem estar nos centros academicos. Se for votar verifique se há 8 chapas na cédula, dois carimbos no verso (um do DCE e outro do centro academico) e duas assinaturas.

Votam todos os graduandos (cédula branca) e pós-graduandos (cédula amarela) regularmente matriculados em qualquer curso da USP, portando a carteirinha USP. Se você não vota, por favor, passe essa mensagem a pessoas que você sabe que votam.

Palavras-chave: DCE, eleições DCE, reconquista

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Novembro 07, 2009

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Eu achei que não fosse querer escrever nada sobre o episódio da garota que foi molestada por uma turba na Uniban porque estava usando um vestido curto, e achei que as pessoas tinham mais ou menos um consenso estabelecido sobre o fenômeno que aconteceu e o julgamento médio das pessoas - excetuando algumas anomalias bizarras - era o mesmo.

Mas lendo hoje o meu twitter fico sabendo da coisa mais inesperada e ridícula:

A Universidade Bandeirante informou em anúncio publicado em jornais paulistas neste domingo, 8, que decidiu expulsar a aluna Geisy Arruda de seu quadro discente. A estudante do curso de Turismo sofreu assédio coletivo no último dia 22 de outubro por ir ao campus de São Bernardo do Campo da faculdade com um vestido curto.
No anúncio publicitário, entitulado 'A educação se faz com atitude e não com complacência' a universidade diz que tomou a decisão após uma sindicância interna constatar que a aluna teve uma postura incompatível com o ambiente da universidade, frequentando as dependências da unidade em trajes inadequados. Para a Uniban, Geisy provocou os colegas ao fazer um percurso maior que o habitual, desrespeitando princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade.

A universidade afirma ainda que foi constatado que "a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar".

http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,uniban-expulsa-aluna-ass

Meus grifos. Fiquei pasmo por alguns segundos quando li isso. Continuo não sabendo o que escrever sobre isso. É daquelas (raríssimas) coisas que ultrapassam a minha capacidade de me manter calmo e tentar entender as razões do outro(i). Me dá vontade de abandonar a racionalidade e mandar todo mundo ''tomar nos seus respectivos cus'' como dizia um antigo amigo meu da faculdade. (não venham reclamar do palavrão, ''não estou aqui para fazer amigos'', como diz outro amigo meu)

E é justamente aí é que a gente percebe o poder da manada. São essas as notas que a Manada tange em nossas mentes, as notas escuras que todo mundo tem lá no fundo. A Manada ultrapassa nosso raciocínio e os nossos freios morais. O ''custo psicológico'' de ofender meus freios morais e atentar contra a estabilidade do meu ambiente social é grandemente reduzido quando estamos em grupo. E é aí que essa mesma vontade que eu tive de abandonar a razão vence(ii). A Manada é o super-organismo imbecil a quem rendemos nossa individualidade quando em grupo. Para alguns deve ser quase um transe místico(iii).

Claro que isso não exime ninguém da imputabilidade pelos atos que realiza sob influência da Manada. O indivíduo ainda é racional e ainda escolhe submeter-se ou não a esse ''espírito coletivo'' destrutivo.

Note que não uso aqui a palavra espírito num sentido místico - estou falando de um comportamento emergente, de uma reação coletiva. Como o meu orientador costuma dizer, parece que nós sempre gostamos de personalizar reações emergentes: damos nomes em maiúsculas, usamos artigos definidos e pronomes pessoais. Assim chamamos Cosmo à ordem coletiva do universo e à aparente causalidade coletiva dos fatos, chamamos Natureza à fenomenologia ecológica, às cadeias alimentares, à evolução por seleção natural e à ordem biológica, e chamamos Mente aos fenômenos coletivos produzidos por uma infinidade de células nervosas no nosso Sistema Nervoso Central

Esses fenômenos coletivos em nada diferem, na minha percepção, dos fenômenos coletivos que observamos em outras instâncias mais físicas, menos pessoais e com menos implicações humanas - sendo a emergência do ferromagnetismo a partir da interação de uma infinidade de ''pequenos magnetos'' o mais célebre.

A Manada também é um fenômeno coletivo. Possui a assinatura evidente - quase a definição - de um fenômeno coletivo: não é possível explicar seu comportamento baseando-se apenas no comportamento de cada indivíduo separadamente, mas é necessário entender a interação entre eles.


O inadmissível nesse fato, o espantoso e o inesperado, não é a reação da turba que molestou a garota. Isso é uma coisa até compreensível  (o que não a torna menos absurda). O que me espanta é a reação, supostamente individual e raciocinada, da diretoria da Uni(tale)ban. Expulsar a garota e defender os agressores. Culpar a vítima e proteger os que deveriam ser investigados e expulsos. Atacar o comportamento individual e abraçar a irracionalidade coletiva.

Não estou dizendo que a garota é a heroína da liberdade individual também. É provável que o vestido da garota fosse inadequado. É provavel que ela tenha provocado as pessoas. É provavel que eu nunca me aproximasse dela e se a conhecesse julgasse uma pessoa inadequada, vulgar e ela provavelmente não faria parte do meu círculo social se estudasse na mesma escola que eu. Mas isso não importa.

Nada do que se enquadra na categoria ''comportamento individual dentro da lei, que não incomoda a saúde, a dignidade e o livre-arbítrio de outrem'' deve ser reprimido com essa violência, ainda mais reprimido por uma turba. E, como disse um jornalista(iv) bem odiado por aqui, mesmo que ela estivesse ofendendo uma lei, ela tem o direito de ser reprimida por um agente da lei e não ser moralmente linchada pela Manada.

Espero mesmo que essa não seja a última vez que ouvimos falar desse caso e que haja autoridade capaz de investigar e punir aquela turba de chimpanzés que chegou a ameaçar a garota de estupro. Sobre a expulsão, bem... a Uniban é uma instituição privada e tem o direito de recusar um aluno se quiser - até onde eu sei (advogados por favor me iluminem quanto a isso se eu estiver errado). Mas aquela turba precisa de punição.

 

Notas

(i)  Outra dessas coisas é o judiciário ter que praticamente implorar para que uma decisão judicial seja respeitada. Coisas incompreensíveis... mas isso é outra estória.

(ii) Vontade que eu me esforcei para controlar para escrever aqui algo relativamente civilizado aqui. Talvez se eu estivesse na minha Manada...

(iii) A @elenavolpato no twitter recomendou que eu lesse sobre os conceitos junguianos de Sombra e Persona. Deve ser semelhante ao que eu entendo por Manada e indivíduo. Enfim... preciso ler.

(iv) Antes de falar ''mimimi, não leio a Veja, mimimi, não gosto do Reinaldo Azevedo, mimimi, blog de direitista'', apenas leia o que ele escreveu. Ignore a fonte e interprete o conteúdo - é mais inteligente agir assim. Eu também não sou o maior fã dele e frequentemente discordo dele. Mas frequentemente eu também concordo com ele. Acontece, pombas.

Palavras-chave: absurdo, comportamento animal, irracionalidade, manada, uniban, unitaleban

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Novembro 06, 2009

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É tão frequente por aí na internet que pessoas de fora da cidade de São Paulo perguntem como se chega na Cidade Universitária  que eu acho estranho não ter nenhuma informação no próprio site da USP. Eu já passei pela experiência de chegar aqui e precisar ir na USP sem conhecer nada da cidade, é realmente horrível. A cidade inspira terror.

Mas é realmente fácil chegar na USP. Há várias opções. Aqui eu vou colocar as quatro opções que na minha opinião são as melhores para quem está vindo de ônibus para a cidade e precisa chegar na Cidade Universitária ou no campus da USP Leste (EACH). 

A primeira coisa para se ter em mente, que muitas pessoas não sabem antes de vir a São Paulo, é que a Cidade Universitária é ENORME. É uma grande região da cidade, fechada por muros. O ônibus entra dentro do campus e roda quase meia hora lá dentro, então tenha paciência. 

É importante que você saiba direitinho em que prédio quer ir, porque dentro do campus há dezenas e dezenas de prédios. Tenha o cuidado de conseguir direitinho essa informação porque nem sempre as pessoas sabem onde fica o serviço que você quer. É sempre bom saber em que unidade fica o prédio. Os cobradores e motoristas nem sempre conhecem onde ficam as coisas no campus. Pergunte para as pessoas que estão no ônibus. O melhor mesmo é ver no mapa do Google Maps antes de fazer qualquer coisa. Note que o Google Maps tem uma base de dados bem acurada de todas as opções de transporte público em São Paulo. Basta clicar na opção ''Como Chegar'', dar os dois endereços (ou marcar no mapa) e clicar em ''Transporte Público''. Ele te dará duas ou três opções de ônibus/metrô/trem para chegar onde deseja. 

Campus Butantã - Cidade Universitária

Partindo do Terminal Rodoviário do Tietê

Quem está descendo no Tietê tem a opção de pegar o ônibus Cidade Universitária na Av. Cruzeiro do Sul. Mas sinceramente eu acho essa uma péssima opção. Se você tem hora marcada, pode esquecer. Esse ônibus demora pelo menos 2 horas e meia para chegar na USP, mesmo em uma dia sem trânsito. A melhor opção é cortar caminho pelo metrô, que fica dentro da rodoviária.

Tome o metrô no sentido Jabaquara, desça na estação Paraíso ou na estação Ana Rosa (tanto faz, eu prefiro usar a Ana Rosa porque tem bem menos movimento). Agora tome o metrô da linha verde sentido Vila Madalena.

A partir daí existem cinco opções. Qual é a melhor opção depende de onde você vai no campus, porque nem todos os ônibus fazem o mesmo caminho uma vez lá dentro. Verifique no Google Maps ou no site da SPTrans o caminho do ônibus e veja se ele passa onde você quer. 

As opções são:

1) Descer na estação Consolação, sair da estação e andar na Rua Augusta sentido Jardins até o primeiro ponto de ônibus. Alí passam dois ônibus Cidade Universitária, um azulzinho e um laranja, linhas 107T e 7181.

2) Descer na estação Consolação, andar até o cruzamento da Avenida Paulista e a Rua da Consolação. No cruzamento há dois pontos de ônibus: sentido centro e sentido bairro. O que interessa é o ponto de ônibus sentido bairro. Daí pega o Butantã-USP, linhas 702U e 7411.

3) Descer na estação Clínicas, sair pela Av. Dr. Arnaldo. Lá você deve atravessar a avenida para o outro lado e andar um pouquinho para a sua direita para achar um ponto de ônibus na frente do cemitério. Lá você deve pegar o Butantã-USP, linhas 701U, 177H, 177P e 724A.

4) Descer na estação Vila Madalena, sair da estação pela saída principal. Descendo a escadinha logo depois da porta há um pequeno terminal de ônibus. No finalzinho do terminal de ônibus, no último ponto que fica na mesma calçada da saída da estação, você pega o ônibus Rio Pequeno, linha 7725.

Todos esses ônibus também servem para voltar e eles passam perto sempre das estações de metrô onde você desceu para pegá-los. Para pegar a volta basta esperar o ônibus no outro lado da rua onde você desceu.

Há outras opções: ponte orca, pegar trem da CPTM, usar outras linhas de ônibus, mas sinceramente eu não recomendo. Ou vai demorar muito, ou você vai ter que andar um trecho chato a pé, ou você vai ter que pegar ônibus em uma região da cidade que eu não recomendo se você não sabe andar por lá. Esses são os caminhos mais fáceis, em locais bem tranqüilos de se andar, relativamente rápidos.

 

Partindo do Terminal Rodoviário da Barra Funda

Descendo no terminal Barra Funda eu só conheço uma opção: 

1) Pegar o metrô (metrô, não CPTM, ambos ficam dentro da rodoviária) para a Sé (sentido Corinthians-Itaquera). Descendo na Sé você deve fazer baldeação para a linha azul, sentido Jabaquara e descer nas estações Paraíso ou Ana Rosa. Daí você toma o metrô da linha verde no sentido Vila Madalena e segue uma das quatro opções acima. 

Se alguém souber de caminhos melhores do que esse (pensando nos critérios: rapidez, segurança, andando pouco e se expondo pouco) me dá um toque que eu coloco aqui.

Campus USP Leste - EACH

É bem mais fácil chegar na USP Leste do que na Cidade Universitária. 
Partindo do Terminal Rodoviário Tietê

Partindo do Tietê você deve pegar o metrô, sentido Jabaquara. Desça na estação Sé e tome o metrô da linha vermelha, sentido Corinthians-Itaquera e desça na estação Brás. 

Na estação Brás tome o trem da CPTM, na linha 12 Safira, sentido Calmon Viana. Depois de mais ou menos meia hora você deve chegar na estação USP Leste. Desça nessa estação. Uma das saídas da estação cai dentro do campus da USP Leste. 

Outra opção é descer na estação Tatuapé da linha vermelha do metrô (ao invés de descer no Brás) e então pegar o CPTM (mesmo linha acima). A desvantagem é que para tomar o CPTM daí você tem que pagar a passagem de novo pois não há integração (e provavelmente não vai conseguir ir sentado no trem).

A única observação é na volta. Se você voltar por volta das 18 horas tome cuidado na hora de descer no Brás. Nesse horário a estação estará LOTADA. Quando eu digo lotada eu quero dizer que na estação vai ter mais gente do que na sua cidade natal. E toda essa gente quer entrar no trem ao mesmo tempo que você quer sair, então se proteja com os braços e empurre, senão você não sai do trem. Saia pela primeira porta de cada vagão - quando está muito lotado os funcionários da estação reservam a primeira porta de cada vagão apenas para desembarque, o que ajuda pra caramba. Mas isso não é sempre, então esteja pronto para a maior muvuca do universo. 

Partindo do Terminal Barra Funda

Partindo da Barra Funda, tome o metrô sentido Corinthians-Itaquera e desça no Brás ou no Tatuapé e siga as mesmas instruções acima. 

Circular

Na Cidade Universitária (campus Butantã) há duas linhas de ônibus circular gratuito para quem circula no campus. Elas rodam praticamente todo o campus. 

Entretanto eu não sei o itinerário que o circular faz e o site da USP é UM LIXO e não tem informação nenhuma sobre isso. Aliás, obter informação sobre qualquer coisa da USP na internet é praticamente impossível, então se você quiser usar o circular é melhor ligar lá e perguntar o itinerário ou mandar um e-mail e rezar pela resposta.

(0xx11)3091-4974
circular@usp.br


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Novembro 05, 2009

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Eu estava planejando estudar um pouco de natural language processing, information retrieval e lingüística computacional, um assunto que eu sempre achei muito promissor e interessante. Há um pacote para Python chamado Natural Language Toolkit, com várias ferramentas supimpas e até alguns corpora de texto em português. Mas como eu sou um cara chato eu quero montar o meu próprio corpus de texto me baseando talvez em buscas específicas e poder ver como os resultados dos algoritmos variam mudando as fontes e os assuntos. 

A minha primeira tentativa bem sucedida foi tentar baixar em grande quantidade artigos da Folha de São Paulo para o meu computador. Isso me serviu para aprender a usar algumas boas bibliotecas Python que eu não conhecia: o BeautifulSoup, o feedparser e o pacote de expressões regulares.

Neste post eu queria descrever um pouco dessas bibliotecas e um pouco dos problemas de se conseguir informação desse tipo na internet - informação que a princípio está lá, é "acessível" e "pode ser usada". 

O primeiro problema é legal: eu provavelmente não posso usar esse corpus de notícias que eu baixei. Sinceramente estou pouco ligando - na minha cabeça se um texto está na web é como se estivesse jogado no meio da rua, eu posso pegar e usá-lo para o que eu quiser desde que eu não tente ganhar dinheiro vendendo o texto (posso vender o livro que contém o texto se eu quiser) sem autorização do autor.

Superado esse problema vamos aos problemas técnicos de acessar o texto:

  • A forma mais fácil de obter uma seqüencia de textos de notícia é usar um RSS, entretanto é praxe dos RSS de jornais e revistas não colocar o texto todo no feed mas apenas um sumário. Então a utilidade do RSS é apenas fornecer o link para  a notícia e eu tenho que baixar a notícia no site mesmo. Além disso o feed apenas contém as 10 ou 15 últimas entradas e não um registro histórico completo então preciso de alguma forma de acessar uma lista dos feeds dos últimos anos. 
  • Os sites de jornal são bonitos, cheios de barras, colunas, tabelas e propaganda. Isso é muito legal, mas quando você quer pegar apenas o texto da notícia é um saco. Seria muito fácil se os programadores que fizeram o site fossem muuuuito legais e marcassem direitinho o html, mas não é assim.

 

Então o roadmap é: (1) aprender a parsear um feed RSS usando um script, (2) fazer um programa que olhe um html e consiga extrair a notícia e (3) encontrar um histórico do RSS que eu quero baixar. Após muita navegação na web eu consegui resolver os três problemas usando ferramentas muito legais e simples de usar.

O problema (1) é resolvido usando o Universal Feedparser, uma biblioteca para parsear RSS automágicamente. A interface é beeeem intuitiva. Vamos a um exemplo simples com o feed da Folha.

Posso então fazer:

import feedparser url_feed = "http%3A//feeds.folha.uol.com.br/folha/emcimadahora/rss091.xml"

feed = feedparser.parse(url_feed) for post in feed.entries:     print post.title, post.link

Esse código vai imprimir os títulos e links de todas as notícia. O que está acontecendo é que a função feedparser.parse simplesmente olha para o XML e retorna o seu conteúdo em um objeto do tipo dict:

>>> print feed.keys() ['feed', 'status', 'updated', 'version', 'encoding', 'bozo', 'headers', 'etag', 'href', 'namespaces', 'entries']

O problema número (3) (já volto para o 2) acabou sendo resolvido depois de hoooooras de busca na web. Eu sabia que devia haver solução, uma vez que o google reader é capaz de mostrar feeds antigos. Encontrei, finalmente, esse post no blog de dicas sobre o Google. O Google Reader não apenas é um leitor de RSS, mas ele também salva o histórico de todo feed que alguém já leu e esse histórico pode ser acessado em um feed no endereço:

http://www.google.com/reader/atom/feed/FEED_URL?r=n&n=NUM

Onde FEED_URL deve ser substituido pela (dã) URL do feed que te interessa e NUMBER_OF_ITEMS é o número de itens que você quer recuperar. 

As duas limitações são: o número máximo de itens é 5000 (eu gostaria de ter muito mais, mas por enquanto é o que dá pra fazer) e você deve estar logado no sistema de login do Google para conseguir fazer isso. 

Isso é um saco... eu não sabia logar no Google através de um script e estava quase desistindo quando achei essa pergunta no StackOverflow (o MELHOR site para resolver dúvidas de programação de qualquer espécie).

A solução é simular um cookie na hora de acessar a página do Google Reader. A biblioteca urllib2 (que está na biblioteca padrão do Python) consegue fazer isso. Aí embaixo vai uma função para produzir um cookie para acessar qualquer página do Google:

import urllib
import urllib2

def getGoogleSID(user,passwd):     # Authenticate to obtain SID     auth_url = 'https%3A//www.google.com/accounts/ClientLogin'

    auth_req_data = urllib.urlencode({'Email': user, 'Passwd': passwd})     auth_req = urllib2.Request(auth_url, data=auth_req_data)     auth_resp = urllib2.urlopen(auth_req)     auth_resp_content = auth_resp.read()     auth_resp_dict = dict(x.split('=') for x in auth_resp_content.split('\n') if x)     SID = auth_resp_dict["SID"]     header = {}     header['Cookie'] = 'Name=SID;SID=%s;Domain=.google.com;Path=/;Expires=160000000000' % SID    

    return header

def retrieveGooglePage(user,passwd, url):     header = getGoogleSID(user,passwd)     request = urllib2.Request(url, None, header)     openurl= urllib2.urlopen(reader_req)     text = reader_resp.read()     return text

A função getGoogleSID gera o cookie adequado que é depois usado na função retrieveGooglePage, que retorna todo o conteúdo de uma página do google com com um certo url como se você estivesse logado como o usuário fornecido. Essa função pode ser usada para obter o feed que eu me referi acima.

Então o que pode ser feito é: obtém-se o feed das últimas 5000 notícias e desse feed se obtem os links para as notícias no site da Folha. Agora é necessário parsear o html do site para obter o texto. Aí é que entra a biblioteca BeautifulSoup. Essa biblioteca é um parser de html muito bem feito e fácil de usar.

Uma página em html parseada no BeautifulSoup vira uma estrutura de dados (uma árvore) adequada para extrair conteúdo facilmente. Para dar um exemplo vou colocar abaixo uma  função que extrai a data da notícia. 

Por sorte o programador da página foi suficientemente bonzinho para marcar no html onde está a data da notícia. Aí vai um trecho do html de uma notícia:

<div id="articleDate">      <!--DATA-->04/11/2009<!--/DATA-->      -      <!--HORA-->19h56<!--/HORA--> </div>

<h1> <!--TITULO-->STF retoma julgamento de Azeredo após relator propor ação penal por peculato<!--/TITULO--> </h1>

Note a id "articleDate" na tag <div>. O BeautifulSoup é capaz de obter uma lista com o conteúdo de todas as tags <div> com uma certa id.

from BeautifulSoup importimport urllib2

#obtendo o html da página com urllib2 url = "http%3A//www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u647489.shtml" entry = urllib2.urlopen(url) raw_html =  entry.read()   #criando um soup soup = BeautifulSoup(raw_html) #extraindo uma list com o conteúdo de todas as tags <div id="articleDate"> lista = soup.findAll(id="articleDate")

 

O conteúdo da variável lista é uma lista com um elemento que é um soup que contém o html:

<div id="articleDate">
 <!--DATA-->04/11/2009<!--/DATA-->  
  -
 <!--HORA-->19h56<!--/HORA-->
</div>

Agora é trivial obter a data e a hora da notícia a partir desse string fazendo:

data = lista[0].contents[2]
hora = lista[0].contents[6]

Isso foi fácil. Agora o difícil: obter o texto. Infelizmente o programador do site da Folha não foi tão bonzinho assim. Não há nada marcando o texto. Além disso há um monte de lixo no meio do texto: links, vídeos e propaganda. Antes de obter o texto é preciso limpar o lixo. 

Para dar um exemplo de como limpar texto com o BeautifulSoup, vamos arrancar todos os links, ou seja, todas as tags <a>, do nosso documento:

#partindo da soup obtida acima
for tree in soup('a'):
    tree.extract()

É SÓ ISSO! Todos os links <a href=...> BLABLABLA </a> foram removidos do soup. Poderiamos fazer isso de forma mais compacta usando list comprehension:

[tree.extract() for tree in soup('a')]

Outra coisa que podemos fazer é remover numa tacada só todos os scripts, noscripts e o css:

#usando list comprehension

[ [ tree.extract()  for tree in soup(elem)]  for elem in ['script', 'noscript', 'style'] ]

#usando dois loops for aninhados:

for elem in ['script', 'noscript', 'style']:     for tree in soup(elem):         tree.extract()

Finalmente, para fechar o padrão, podemos remover tudo o que está em um <div> com id "bookmarklets", que no caso do site da Folha é usado para marcar links para notícias relacionadas:

[tree.extract() for tree in soup.findAll(id="bookmarklets")]

Enfim... é tão trivial retirar algo do html como é encontrar. Depois de retirar tudo o que está atrapalhando, pode-se remover as tags html fazendo um:

texto = soup.findAll(text=True

Nada mais fácil! Com 10 linhas eu consegui parsear toda a página da Folha e extrair as notícias. Agora vou montar meu banco de dados e logo postarei sobre o Natural Language Toolkit!!

(meu vício de emacs me fez apertar C-X C-S umas 30 vezes durante a edição desse post)


 

Palavras-chave: acesso, BeautifulSoup, code, código, feed, html, notícias, parsing, python, RSS

Postado por Rafael Sola de Paula de Angelo Calsaverini | 2 comentários

Outubro 04, 2009

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Imaginem o sujeito que vai escrever um programa de computador que retorna resultados para sua pesquisa e precisa decidir a linguagem que vai usar. O programa é de porte médio, nada muito difícil do ponto de vista lógico nem muito pesado.

Ciclo básico de desenvolvimento em C
(pode ser facilmente traduzido para C++ ou Fortran)

Dia 1.

1) Definir o problema.
2) Dividir o problema em subrotinas/estruturas e fazer um rascunho delas.

Dia 2.

3) Pesquisar bibliotecas prontas algumas das rotinas que você quer.
4) Implementar das rotinas que não estão prontas.

(...) Dia 5.

5) Compilação de teste.
6) Correção dos infinitos erros de sintaxe.
7) Primeira execução. Segmentation Fault.
8) Abre o gdb, encontra e corrige todas as derreferências de ponteiros nulos.
9) Fique pasmo que depois de tanto tempo você ainda cometa esses erros.

Dia 6.

10) Compila e roda pela primeira vez sem erros de compilação ou execução.
11) Identificação de 350 bugs.
12) Corrigir rotinas.
13) Mais bugs.

(...) Dia 15

511) Ok. Testei o programa. Bug free!
512) Roda o programa.

(...) Dia 17

513) Programa terminou de rodar e você tem os resultados. Você começa a fazer as dezenas de gráficos necessários para a sua pesquisa.
514) Percebe que os resultados estão totalmente errados.
515) Volta ao passo 12.

(...) Dia 20.

938) Mais bugs. Volta ao passo 12.

(...) Dia 22

1130) Mais bugs. Really nasty ones. Volta ao passo 12.

(...) Dia 27.

1250) Percebe que sua rotina é extremamente ineficiente e volta ao passo 2.
1260) Curiosamente o programa baixou de 5 mil linhas para apenas 1200 e a frequencia de bugs caiu vertiginosamente.
1261) Mais bugs. Foi só impressão sua.

(...) Dia 30.

1290) Mais bugs. Volta ao passo 12.
1300) UFA! Tá pronto. Quer dizer... cansei de bugs. Já funciona bem o suficiente.
1301) Roda o programa em poucas horas e obtém excelentes resultados.


Ciclo básico de desenvolvimento em Python ou PERL:

Primeiras duas horas:

1) Passos 1 e 2 como descritos acima.
2) Pesquisar bibliotecas que já tenham todas as rotinas/classes qeu você precisa.
3) Escrever as poucas conexões necessárias entre todas as rotinas/classes prontas. (tá, em PERL isso leva um pouco mais de tempo)
4) Rodar o programa
5) Vai tomar um suco.

(...) Dia 10.

6) Churrasco na casa do seu amigo.
(PERL: na verdade é um campeonato de PERL obfuscation e PERL poetry)

(...) Dia 15.

7) Acabou a energia elétrica do seu prédio poucas horas antes do fim da execução do programa. Põe pra rodar de novo.

(...) Dia 20

8) Show da sua banda favorita. 
(PERL: você nota que a letra da música é um programa válido em PERL!!! Corre para casa e compila.)

(...) Dia 30.

9) Finalmente o programa terminou de rodar e você obteve excelentes resultados.


Ciclo básico de desenvolvimento Haskell:

Dia 1.

1) Definir o problema
2) Separar o problema em funções...
- Putz! Como faz isso? Como faz...
3) Algumas horas pensando e conversando no canal #Haskell do Freenode e interagindo com o lambdabot:
- CLARO! Como não pensei nisso antes?

Dia 2.

3) Procurar bibliotecas prontas no Hackage.
4) Passar algumas horas tentando entender o que aquele código do módulo Obscure.Misterious.Cryptic faz.
5) - CLARO!!! Como eu não pensei nisso antes? Olha o tipo dessa função: é óbvio.

Dia 3.

4) Começa a implementação. Olhos esbugalhados diante do monitor, uma folha em branco e uma cara de espanto. O cursor pisca insidiosamente na tela em branco do editor de texto, convidando você a escrever qualquer coisa. Você resiste.
5) - Carácoles, como faz isso?

(...) Dia 10.
6) - Carácoles, como faz isso?

(...) Dia 12.
7) Você se rende ao cursor e escreve alguma coisa no editor de texto e tenta compilar. Imediatamente é assaltado por uma mensagem de erro absolutamente incompreensível que nem os ops do canal #Haskell sabem o que significa.

(...) Dia 15.
8) Seu cérebro está fritando faz dias. Você tem dor de cabeça de tanto pensar, mas parece estar sempre perto da solução.

(...) Dia 20.
9) Você sonha com um anjo que lhe entrega duas tábuas de pedra com o código que quer implementar, mas esquece quando acorda.

(...) Dia 30.
10) AAAHH!!!! CLARO!!! É tão óbvio, como eu não pensei nisso antes???
11) Implementa em 5 minutos e 3 linhas o código mais elegante que você já produziu na vida.
12) Roda o programa em poucas horas e obtém excelentes resultados.
13) Escreve um artigo para o Functional Pearls sobre o seu código e vai correndo no canal #haskell contar o que fez. Só para descobrir que alguém tem uma solução muito mais elegante e muito mais eficiente usando um teorema em Teoria de Categorias e um monad bizarro.


No fim todas as alternativas levam o mesmo tempo para dar resultado. Mas pouca gente suporta o stress que a primeira alternativa te dá e poucas tem disposição para encarar a terceira.

Mas que a terceira é a mais divertida, aaaah isso é.

Palavras-chave: C, Haskell, joke, PERL, programação, Python

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Julho 17, 2009

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Outro dia deparei com uma guria:
Orgulhosa, bata de algodão cru,
Saia e o cabelo sebento em parceria
Com um buço escuro de gabiru.

Ela falava algo sobre mais-valia
E a labuta do proletariado sofrido,
O latifundio que explora e a sangria
Do homem do campo, e do gemido
Da mulher oprimida pela hierarquia
Machista, escrava e serva do marido.

Ouvi toda a irritada homilia de perto,
Impressionado da eloquência da moça,
Quando achei, por ironia, um excerto
Do panfleto que ela carregava na bolsa.

Ele falava algo sobre a mais-valia
E a labuta do proletariado sofrido,
O latifundio que explora e a sangria
Do homem do... assinado: o partido.

A guria só papagueava o que lia!!
Boquiaberto de espanto e imóvel
Fiquei ao ver que a moça desvalia
O dinheiro mas tinha um automóvel
Importado e muita outra regalia.

Filha de um chefe da tesouraria
De banco com escritório na cidade.
Mimada com sapatos e pedraria,
Rebelde na pracinha da faculdade.
 

Palavras-chave: poetaria, rima tonta, whatever

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Julho 12, 2009

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Essa semana saiu uma excelente matéria na revista The Economist a respeito dos escandalos que eu e você conhecemos já muito bem a respeito da nossa casa legislativa maior, o Senado brasileiro. A matéria irritou alguns parlamentares que mandaram os jornalistas cuidarem dos escândalos do legislativo britânico - no maior estilo ''mas manhêêê o pedrinho também fez''. 

O senador Heráclito Fortes do DEM disse que a matéria é preconceituosa e elitista, e o senador Arthur Virgílio do PSDB relembrou escândalos recentes na Câmara dos Comuns. É interessante ver a oposição se defendendo da matéria quando ela é uma crítica clara aos governistas. Isso mostra claramente uma coisa muito triste - e óbvia - não tem santo no Senado Federal. Todos os senadores - TODOS ELES - se beneficiaram de esquemas irregulares e imorais de financiamento de suas atividades pessoais com verba pública e todos eles estão na defensiva por isso. 

Já que os senadores iniciaram o jogo de comparações, vamos fazer comparações. Garanto a vocês que será divertido.

Ao referenciar escandalos recentes na Casa dos Comuns, o senador Virgílio se refere ao que aconteceu com o congressista Michael Martin do Labour Party, ex-presidente da casa que renunciou esse ano por escandalos envolvendo dinheiro público. Ele foi acusado de usar algumas dezenas de milhares de libras para pagar advogados em causa própria e para usar serviços de táxi, entre outras coisas. Além disso ele foi criticado por gastar muito com viagens, gastar alguns milhões na reforma da residencia oficial do Speaker of the House (que no fim das contas é patrimônio público e não fica para ele), além de ter ganho uma aposentadoria milionária de forma - como dizem por aqui - legal porém imoral.

Há um detalhe interessante: Martin foi o primeiro Speaker of the House of the Commons a ser forçado a renunciar ao cargo por acusações de corrupção em 300 anos. Nosso senado teve 3 renúncias em 8 anos - Renan Calheiros, Jáder Barbalho e Antônio Carlos Magalhães (turminha do barulho, não?) e nossa Câmara de Deputados teve o recente caso do Severino Cavalcanti (em 2005).

Outro caso interessante a se ter em mente a respeito de como a corrupção funciona em instituições de respeito por aí pelo mundo é lembrar do caso do ex-presidente do Banco Mundial Paul Wolfowitz, que foi obrigado a deixar a instituição depois que alguém descobriu que sua namorada teve um aumento de salário equivalente a aproximadamente 50 mil dólares por ano quando ele chegou à presidência.

50 mil dólares, 20 mil libras...

50 mil dólares por ano é o que ganhava o neto de José Sarney como secretário no Senado, nomeado por ato secreto de Agaciel Maia, diretor da casa, que era por sinal compadre de Sarney: o senador foi padrinho de casamento de sua filha. Quatro senadores, incluindo Sarney, recebiam irregularmente auxílio moradia totalizando pouco mais de 80 mil dólares por ano.

Entretanto, julga o presidente Lula, isso não é suficiente para que o presidente Sarney renuncie e o Senado é desmoralizado quando o chefe do Executivo  manda e desmanda nas decisões.

No Brasil para que um escandalo derrube alguém tem que ser muito maior do que o que foi o suficiente para o Speaker Martin e para o president Wolfowitz. 

E eu nem quero começar a falar sobre a farra das passagens, sobre as outras diversas nomeações, sobre a não publicação de atos públicos de nomeação - o que chega a ser pior que tomar dinheiro público, sobre os 10 mil funcionários que o Senado sustenta com uma média salárial de 100 mil dólares por ano e sobre todos os outros múltiplos escandalos, de implicação profunda em todos os setores do Senado, que tivemos só durante o primeiro semestre de 2009. E nem quero comentar sobre o fato de que ninguém foi punido até agora e de que Agaciel Maia ainda é funcionário público. 

Sim, o Senado brasileiro é uma casa de horrores e a Câmara dos Deputados é só um pouco melhor. Comparados aos nossos os escandalos da Casa dos Comuns - e da maioria das casas legislativas dos países organizados onde impera a lei - parecem coisa de amador.

Palavras-chave: #forasarney, Casa de Horrores, escandalos, Sarney, Senado

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Junho 23, 2009

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Hoje eu vi essa matéria da Folha de São Paulo falando sobre o evento da próxima quinta-feira na frente da FEA. Nessa matéria dois grupos foram descritos. Uma de um grupo chamado CDIE, que a um tempo vem recolhendo um abaixo assinado em oposição às decisões tomadas nas assembléias do DCE, que o grupo considera não ter representatividade dado o baixo quórum freqüente nas reuniões.

A outra é um grupo infantil que se autodenominou FlacUSP - Forças Libertárias Anti-Comunistinhas da USP - e quem fala em seu nome é um tal de Leandro, que é tão infantil que não identifica seu nome completo. Eu vi esse grupinho surgir na comunidade da USP no Orkut e eu alertei desde o primeiro post deles que eu achava uma idéia ruim, perigosa e infantil. E tinha certeza que ia acabar atraindo esse tipo de babaca como esse Leandro, que diz a entrevista:

Leandro classifica os atos do movimento grevista como "balbúrdia" e diz preferir a ditadura. "A ditadura impõe a ordem, não deixa essa zona acontecer." 

Isso sim é um fascista, viram? Não me espanta nem um pouco que exista esse tipo de imbecil na USP. Dada a quantidade de imbecis de todos os tipos que eu já conheci por aqui, esse é só mais um maluco. Maluco perigoso, mas conheço outros malucos perigosos também de outro tipo. 

O que me espanta mesmo é esse cara ser entrevistado como um dos organizadores do evento de quinta-feira - que está sendo chamado de flash mob mas na verdade não é, uma vez que vai ter uma organização mais centralizada e uma divulgação prévia mais organizada. Garanto a vocês: não é. Eu conheço as pessoas que estão organizando, a maioria delas pessoalmente. Nenhuma delas concorda com a barbaridade que esse Leandro, se é que o nome dele é esse, falou para a jornalista. 

Se ele estava lá no flash mob do dia 19, eu não sei quem ele é (não conheço as 300 pessoas que foram espontaneamente no evento), mas idéias e ações desse tipo não serão toleradas pela organização, tenho certeza. E eu garanto que se forem, eu me recuso a ir no evento e saio de lá imediatamente.

Razoabilidade tem que acontecer dos dois lados e quem está aqui querendo fazer um negócio pacífico e dialogar com o pessoal que aderiu a greve para tentar atingir uma convivência decente não vai tolerar que radicais imbecis falem por eles.

Estou mandando esse texto para a jornalista que escreveu a matéria, espero que ela esclaresça na matéria que esse cara não tem nada a ver com a organização do evento. 

Palavras-chave: fascista, flash mob, Folha de São Paulo, greve

Postado por Rafael Sola de Paula de Angelo Calsaverini | 5 usuários votaram. 5 votos | 11 comentários

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