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março 28, 2008

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É comum vermos pessoas do meio universitário valorizando os textos como forma de representação do conhecimento acadêmico. Nada de errado com isso, muito pelo contrário - os textos são o melhor veículo para transmitir conhecimento através de um tempo indefinido. É apenas reflexo do fato de lidarmos cotidianamente com textos que nós os valorizemos tanto.

Entretanto, é errado desprezar o valor da comunicação oral, e é falacioso simplesmente negar que essa forma de comunicação possa ser confiável.

A fala pode ser simultânea com a visão, no caso mais imediato um professor pode explicar algo enquanto aponta para uma figura no quadro-negro; ou pode narrar algo enquanto projeta um slide, ou pode simplesmente acompanhar sua fala de gestos. Esta simultaneidade inexiste no texto - mesmo no hipertexto - aonde o máximo possível é a justaposição de imagens, textos e vídeos. Exceto quando o hipertexto se resume em um vídeo, mas nesse caso a propriedade de permitir a simultaneidade é do vídeo, e não do hipertexto.

O fato de que a fala é muitas vezes acompanhada de gestos é especialmente revelador. A comunicação oral é, geralmente, mais "íntima", menos pretensiosa, mais afetiva e familiar que a comunicação escrita. Isto facilita certos atos comunicativos que são difíceis na escrita. Exemplo de exatas: creio que é consenso que a explicação ao vivo do que vem a ser a "regra da mão direita" é muito mais compreensível do que qualquer explicação escrita em livro. Enfim, a comunicação se dá de maneira mais eficiente oralmente que textualmente, sobre certos assuntos.

Quão confiável é algo que me foi dito? A confiabilidade não é intrínseca ao dito - ela é característica do enunciador. Por exemplo, se tenho um conhecido que é loroteiro, não vou acreditar quando ele me disser uma informação verdadeira. Da mesma forma, se um autor de livros de auto-ajuda lançar um livro científico, não vou le-lo, até que muitas pessoas de boa reputação mo recomendem.

Enfim, algo não deixa de ser verdade se é simplesmente dito ao invés de ter sido escrito, e a fala é instrumento melhor que a escrita para ao menos uma atividade acadêmica: o ensino.

Palavras-chave: comunicação oral, gestos, oral, oralidade

Postado por Renato Callado Borges | 2 usuários votaram. 2 votos

Comentários

  1. Luciana Santos escreveu:

    A fala pode ajudar também a direcionar o foco da conversa, quando por escrito podemos desviá-lo ao nosso gosto e perder o ponto por problemas de interpretação. Geralmente, ao vivo, corrigimos esses desvios mais facilmente e somos capazes de explicar nosso ponto com mais clareza. Exemplo: discutir feminismo na internet. Em geral é tanta opinião emotiva e argumentos delicados envolvidos que, na minha opinião, uma conversa de bar é melhor que um fórum.

    Luciana SantosLuciana Santos ‒ domingo, 15 junho 2014, 23:27 -03 # Link |

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