O amor é pop, e daí?
Essa foi a conclusão a que chegamos eu e a Paula (minha companheira de
post conjunto de algum tempo atrás) numa dessas conversas de menina nerd. Nós gostaríamos de descrever nossos sentimentos de um jeito mais profundo, erudito e intelectualóide, mas às vezes o mundo pop sabe explicar tudo de um jeito tão mais exato. Por exemplo, este verso do Skank, da música “Tão seu”: “feliz agora e não depois”. Remete em poucas palavras à sensação de querer aproveitar o momento mas ter algum impedimento qualquer...
A partir disso começamos a abordar o tema de hoje, que é tão controverso quanto o embate erudição-popularidade. A Paula explicará melhor na parte dela do post - segue em itálico.
Love, love, love...
E, mais uma vez, voltemos à temática amorosa. O clichê de todos os blogs, mas um de meus clichês fundamentais preferidos. Love, love, love: música dos Beatles, dos emos (que se inspiraram em The Cure... it's friday, i'm in love), dos sertanejos, do Calypso... tanta gente!
A pauta do dia será: "entre razões e emoções".
Todo mundo sabe que uma das coisas mais difíceis da vida é fazer decisões (já diriam os alemães: "wer die Wahl hat, hat die Qual" - quem tem a escolha, tem a dor, a angústia). E, é claro, isso vale para o amor, só com uma variante a mais na equação: não se sente racionalmente, quando se ama alguém, ama-se simplesmente! Pode-se até explicar: "ah, ele é legal" ou bonito, blablabla. Mas, no fundo, a pessoa apenas o atraiu por um motivo x que a razão não explica. Ou melhor, como diria minha amiga Bruna, amor = amizade + atração física. Mas essa equação não é absolutamente matemática...
O amor é objetivo? Nenhuma ciência humana é, quanto mais um sentimento... mas se por um lado fala-se em uma "objetividade" ou racionalidade possível para as humanidades, imaginem falar isso pro amor... "você tem que respeitar precedentes! E o meu controle intersubjetivo?". Haha, ridículo.
Então, voltando ao universo musical clichê do amor, Di Ferrero diz: "entre razões e emoções a saída é fazer valer a pena". Vou ter que concordar em parte com o emuxo. Não adianta pensar demais quando o assunto é amor. Se isso não é racional mesmo, "libere o mosh", por favor, e simplifique as coisas. Não adianta ficarmos nos escondendo por trás de mecanismos de defesa do ego para fugir do que queremos. É claro que esses mecanismos também aparecem quando queremos dar uma desculpa ou quando estamos confusos, mas já vi muita gente não se realizar por falar algo como "não vai dar certo mesmo", "mas não tem nada a ver comigo", etc.
Por isso, quando o assunto é amor, o negócio é "Libera o mosh" mesmo. Como diria uma amiga minha do colegial: "só cai quem voa". Medo: sempre vamos ter. Quem gosta de levar um fora ou se decepcionar depois de se envolver? Mas acho que, quando o assunto é esse, vale a pena.
Pra terminar, só um comentário: paixão (a reação química que falei no post do blog da Bruna, lembram-se?) em alemão é Leidenschaft, só que leiden é sofrer... Interessante, não? Por isso que eu gosto desse idioma, é bem auto-explicativo, hehe...
O verbo leiden (sofrer) e o substantivo Leid (sofrimento) são mesmo muito interessantes. Formam não só a palavra Leidenschaft (paixão), mas também as expressões es tut mir Leid (desculpe, sinto muito) e jemanden / etwas nicht leiden können (não poder suportar alguém ou algo). São palavras e expressões ligadas a diferentes aspectos dos relacionamentos: a aproximação, o desentendimento, a conciliação. Tudo permeado pelo sofrimento...como ensina a sábia língua alemã, é algo de que não conseguimos fugir, mesmo tentando afogar o lado emocional com uma enxurrada de racionalidade.
Voltando ao mundo pop, o conflito entre razão e emoção é um tema bem explorado por uma das minhas bandas queridinhas, o Rush, na música “Hemispheres” e no álbum homônimo. Assim começa a música, e já explica tudo:
When our weary world was young
The struggle of the ancients first began
The gods of love and reason
Sought alone to rule the fate of man
They battled through the ages
But still neither force would yield
The people were divided
Every soul a battlefield
Vem o resultado do conflito:
Some fought themselves, some fought each other
Most just followed one another
Lost and aimless like their brothers
For their hearts were so unclear
And the truth could not appear
Their spirits were divided
Into blinded hemispheres
A narrativa paramitológica termina com o aparecimento de Cygnus, o deus do equilíbrio, que proclama:
Let the truth of love be lighted
Let the love of truth shine clear
Sensibility
Armed with sense and liberty
With the heart and mind united
In a single perfect sphere
Na ficção do mundo pop, tudo isso é possível. Mas o embate entre os hemisférios esquerdo e direito do cérebro é algo bem mais complexo e dolorosamente real do que o mito de Cygnus. Dizem que a capacidade intelectual do cérebro humano é ainda pouco utilizada pelos indivíduos do nosso estágio evolutivo. Por isso mesmo, os momentos de sobrecarga ainda me impressionam e assustam muito: é possível ter surtos de paixão e vontade de entregar-se emocionalmente a alguém (o lado direito deliciando-se com o vinho da ilusão), simultaneamente com gritos sensatos do lado esquerdo, que tentam apagar o fogo do vizinho porque a paixão não será correspondida, ou está fadada ao fracasso por causa das ironias do destino. É uma verdadeira batalha intramental, e é quase impossível abstrair das parcialidades e ser juiz de si mesmo. Porque o lado esquerdo é você, e o lado direito também é você. Tomar partido, em vez de buscar a conciliação, acaba sendo a saída menos dolorosa e complicada – e eu até duvido de que tenhamos capacidade intelectual suficiente para chegar a um nível de abstração superior a essa solução. Assim, inevitavelmente, algumas pessoas pendem para o lado frio, calculista e egoísta, que afoga as emoções e protege a integridade do eu, e outras para a irracionalidade completa, que culmina na abnegação, no viver para o outro, ainda que isso machuque. O que é certo:
das Leid estará presente, de um jeito ou de outro, em facetas diferentes do mesmo fenômeno. Pra não dizer que eu não fui intelectualóide, é sempre interessante lembrar o velho Cartola, que avisava: “de cada amor tu herdarás só o cinismo”...é a isso que estamos fadados? Ou seremos juízes de nós mesmos – com a prerrogativa do livre convencimento – no momento em que aprendermos a sofrer, como
Evey Hammond é forçada a aprender em V for Vendetta?
O conflito fica mais complicado quando extravasa do indivíduo, e ocorre entre aqueles que já “resolveram” (será?) seus conflitos internos de modos opostos: o racionalista e o emotivo. Será que esse parting of the ways é mesmo definitivo? As escolhas de cada uma das partes do relacionamento são realmente inconciliáveis? Alguém deve necessariamente ceder ao modo de vida do outro, ou existe um terceiro não-excluído e esquecido pela nossa mentalidade (lamentavelmente) hemisférica?
A resposta definitivamente não está comigo, pois sou humana e não Cygnus. Assumo-me como emotiva porque minhas experiências de vida me ensinaram que “liberar o mosh” é ser mais sincera comigo mesma, e vale a pena pela intensidade, porque assim me sinto mais viva. Como bem ensina o clichê, prefiro sofrer por ter feito, não por ter deixado de fazer. Mas sou eu, e quem disse que esse é o jeito certo de se viver a vida? Ainda espero pela resposta de Cygnus, e sei que alguns milênios se passarão (e que eu não estarei mais aqui) antes que ela venha, precisa e indecifrável como um redondo 42.
(Pois terminar este post pop com uma citação indireta de Douglas Adams é obrigatório.)
Palavras-chave: amor, emoção, hemisférios, libera o mosh, razão
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