(esqueceu?)

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Janeiro 07, 2009

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Já que a internet vive de memes, como lembrou o Artur, é hora de aproveitar o tempo livre e a cabeça-de-vento das férias e continuar o meme das Sete Coisas. Lá vai.  

Sete coisas que faço bem: nadar; escrever; traduzir (especialmente de línguas como juridiquês e academiquês para o português); argumentar fortemente em favor daquilo em que acredito; ser escrota quando quero e com quem merece; passar horas falando de música; cantar Beatles e outras coisas que não exijam técnica avançada.

Sete coisas que não faço e não sei fazer: argumentar a favor daquilo em que NÃO acredito; jogar esportes coletivos; cozinhar bem (mas é meta de 2009); esconder sentimentos; trabalhar com assuntos administrativos; manter o quarto arrumado por mais de uma semana; tocar "Bad Horsie" do Steve Vai (piada interna do pessoal do WSOSTRR).

Sete coisas que me atraem no sexo oposto: sorriso; tipo físico latino lato sensu (italianos, espanhóis, portugueses...); ser nerd stricto sensu (i.e., não adianta só gostar de Star Wars se não quiser teorizar sobre as implicações da SW-mania sobre a cultura contemporânea ;P); bom gosto musical; não ser bombado; não subestimar a minha inteligência; ter cabelos castanhos ou mais escuros.

Sete coisas que digo com freqüência:
- WTF?
- Parabéns. [Com entonação irônica.]
- Aí X, né? [Onde X é qualquer verbo na terceira pessoa do singular. Outra piada interna do WSOSTRR.]
- É que eu vou pra Alemanha ano que vem/este ano...
- É a vida. / C'est la vie.
- PQP, era o meu ônibus!
- É o meu voto.

Sete atores/atrizes de que gosto: Daniel Brühl; Edward Norton; Rodrigo Santoro; Nicole Kidman; Johnny Depp; Raul Cortez e Heath Ledger - RIP :(

Sete atores/atrizes que eu detesto: Keira Knightley (OK, ela é boa, mas a cara dela me dá nojo); Orlando Bloom (o contrário: lindo, mas péssimo); Brendan Fraser; Freddie Prinze Jr.; Thiago Lacerda; Danielle Winits; Luana Piovani.

Sete filmes que eu adoro: 
- Eternal Sunshine of the Spotless Mind
- Vicky Cristina Barcelona
- Mar Adentro
- Adeus, Lênin!
- O Labirinto do Fauno
- The Doors
- Almost Famous

Sete bandas/artistas que eu adoro, neste momento: Rush; Joe Satriani; Dave Matthews Band; Liquid Tension Experiment; Dave Brubeck (solo ou com o quarteto); Ella Fitzgerald; Alanis Morissette.

Sete livros favoritos:
- Se um viajante numa noite de inverno (Italo Calvino)
- As cidades invisíveis (idem)
- Cânticos (Cecília Meireles)
- Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machadão)
- Peter Pan (Barrie)
- A Brincadeira (Milan Kundera)
- V for Vendetta (Alan Moore)

Pulei a parte das sete constatações inúteis porque estou com uma preguiça enorme dela.

Quem quiser continuar o meme, fique à vontade!  

Palavras-chave: lista, meme, sete coisas

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Dezembro 26, 2008

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Tive a idéia deste post há algum tempo, e decidi publicá-lo agora porque só voltarei no ano que vem. 2008 foi um ano intenso, produtivo, feliz e sofrido como poucos da minha vida, mas não quero fazer uma retrospectiva com palavras - seria cansativo e pouco original. Em vez disso, decidi montar uma trilha sonora: compilar as canções que foram marcantes ao longo do ano, que eu associo a acontecimentos importantes ou a estados de espírito recorrentes de 2008. Talvez isso possa traduzir melhor como foram estes doze longos meses para mim.

Em ordem cronológica (ou segundo o que a minha memória permite), segue a lista das minhas músicas do ano. Algumas podem ser associadas a vários momentos e por motivos totalmente distintos, mas não farei repetições.

Diem (Rodrigo y Gabriela)

New One (Rodrigo y Gabriela)

Cosmic Girl (Jamiroquai)

Ponta de Lança Africano (Jorge Ben) 

A História de Lily Braun (Chico Buarque, cantada por Gal Costa) 

O Último Pôr-do-sol (Lenine) 

Making Memories (Rush) 

Come Anytime (Hoodoo Gurus) 

Mind Trick (Jamie Cullum) 

Xanadu (Rush) 

Sweet Cleo Brown (versão em piano solo - Dave Brubeck)

The Sailor and the Mermaid (The Dave Brubeck Quartet) 

I Want You Back (Hoodoo Gurus) 

Hoje eu quero sair só (Lenine) 

La Villa Strangiato (Rush) 

Surfing with the Alien (Joe Satriani) 

Madrigal (Rush) 

O Meu Amor (Chico Buarque, cantada por Marieta Severo e Elba Ramalho)

Folhetim (Chico Buarque, cantada por Nara Leão) 

Fool to Think (Dave Matthews Band)

Far Cry (Rush) 

Different Strings (Rush)

Jimmy Olsen's Blues (Spin Doctors)  

Come On Baby (Joe Satriani)

Out of the Sunrise (Joe Satriani)

Andalusia (Joe Satriani) 

Crowd Chant (Joe Satriani) 

A Menina Dança (Novos Baianos)

Brasília 5:31 (Paralamas do Sucesso) 

Grey Street (Dave Matthews Band)

Bartender (Dave Matthews Band) 

Distant Early Warning (Rush) 

Manhattan Project (Rush) 

Ten Years Gone (Led Zeppelin) 

The Enemy Within (Rush) 

Alright (Jamiroquai) 

Siberian Khatru (Yes)

Change (Blind Melon)

America (Yes)

Heart of the Sunrise (Yes) 

Night and Day (Cole Porter, cantada por Ella Fitzgerald)  

Mystic Rhythms (Rush) 

Hemispheres (Rush) 

City is Crying (The Dave Brubeck Quartet) 

Starry Night (Joe Satriani) 

Biaxident (Liquid Tension Experiment)

Touched (VAST) 

Easy to Love (Cole Porter, cantada por Ella Fitzgerald)

Get Out of Town (Cole Porter, cantada por Ella Fitzgerald) 

Sour Girl (Stone Temple Pilots) 

3 Libras (A Perfect Circle) 

Martha My Dear (The Beatles) 

La jeune fille aux cheveux blancs (Camille) 

No Rain (Blind Melon)

It's the end of the world as we know it (REM)

Orange Crush (REM) 

Look Into The Sun (Jethro Tull) 

Para ver as meninas (Paulinho da Viola, cantada por Marisa Monte) 

Pedaço de Mim (Chico Buarque, cantada por Gal Costa e Francis Hime) 

 

Se eu esqueci alguma música, só devo desculpas a mim mesma. Feliz 2009 a todos. 

Palavras-chave: 2008, retrospectiva, trilha sonora

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Dezembro 23, 2008

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(Escrito ao som de "This Strange Engine" (Marillion), remix by The Positive Light. Segundo o encarte do CD, "I would advise you to listen to it on a Walkman whilst walking through the town on a Saturday afternoon". Não é sábado e estou sentada em casa, mas essa parece a trilha sonora perfeita.)

Nascer e morar por uma vida inteira em São Paulo é um fato que pode ser abordado por várias perspectivas. A mais comum delas é a que coloca os paulistanos "puros" como seres alienadíssimos, cujas vidas se resumem a pular de bolha em bolha: da bolha do apartamento para a bolha do carro para a bolha da escola ou do escritório para a bolha do shopping center. Há, por outro lado, o clichê do cosmopolitismo, que nos retrata como seres originalmente multifacetados e globais, devido ao microcosmo auto-suficiente (embora apenas na aparência) que esta cidade se tornou. Mas não quero falar de nada disso neste post.

Ando pensando em como minha condição de paulistana, e de pessoa natural de uma cidade grande em termos mais gerais, moldou meu caráter de modo que a cidade é tanto parte de mim quanto um órgão como o coração ou os pulmões. Minto. Em termos mais exatos, eu e ela somos organismos distintos (ela, uma máquina estranha, this strange engine), mas vivemos em simbiose. Cada parte da minha rotina nunca prescinde das engrenagens de São Paulo, e ela não prescinde de mim para que o motor continue a funcionar. Mas não é só isso. Cada memória da minha vida conecta-se automaticamente a algum cenário paulistano, antes mesmo de ligar-se a pessoas com quem convivi. E as memórias são revividas a cada momento em que ando pelas ruas-cenário da minha trajetória: andar por São Paulo é andar por dentro de mim, é lembrar que tudo ainda está lá, apesar de fazer parte do passado. Os semáforos continuam lá e eu ainda estou lá, comprando morangos com minha mãe na esquina daquele semáforo, depois de voltar da escola. Sentir essas memórias novamente, como se fossem presentes, pode ser tanto reconfortante quanto aterrador.

Pode-se dizer que essa sensação não é algo exclusivo da cidade grande, que qualquer lugar onde se nasce e se vive adquire esse caráter simbiótico com o habitante. O melhor exemplo fictício desse contra-argumento é a pequena Regina de Nenhum Lugar na África, que, apesar de ter morado em locais mais confortáveis e seguros, grita "Das ist der schönste Platz der Welt!" ("Este é o lugar mais bonito do mundo!") quando volta à precária casa de fazenda no coração do Quênia, onde passou boa parte da infância.

Todavia, a cidade parece criar uma dependência mais forte. Nós, urbanóides, não conseguimos abrir mão de determinadas facilidades e confortos, e até mesmo de certa dose de stress, caos e adrenalina- ficamos entediados quando tudo é muito calmo e pacífico. A cidade é um vício. Pode até matar, e freqüentemente é a morte que ela desencadeia. Mas não vivemos plenamente sem esse vício, não se ele foi alimentado desde o dia em que fomos paridos e respiramos este ar tóxico como nicotina.

Quando as memórias que a máquina nos faz reviver, durante as rotineiras caminhadas ou viagens sobre rodas, são tão dolorosas que fazem o vício se tornar insuportável, significa que há algo de errado na simbiose, e que na verdade os cenários paulistanos são nossos parasitas. Nesses momentos, o que resta fazer? Acabar bruscamente com a conexão? Será que isso é mesmo possível? Não sei dizer ao certo, mas minha hipótese é que um pouco de São Paulo sempre vive dentro de nós, mesmo que tentemos fugir. Mesmo que isso doa, seja por saudade, seja por aversão. Ou pelos dois motivos, porque é impossível não nutrir sentimentos contraditórios pela cidade grande.   

Palavras-chave: cidades, Marillion, memória, São Paulo

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Novembro 30, 2008

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O amor é pop, e daí?

Essa foi a conclusão a que chegamos eu e a Paula (minha companheira de post conjunto de algum tempo atrás) numa dessas conversas de menina nerd. Nós gostaríamos de descrever nossos sentimentos de um jeito mais profundo, erudito e intelectualóide, mas às vezes o mundo pop sabe explicar tudo de um jeito tão mais exato. Por exemplo, este verso do Skank, da música “Tão seu”: “feliz agora e não depois”. Remete em poucas palavras à sensação de querer aproveitar o momento mas ter algum impedimento qualquer...
 
A partir disso começamos a abordar o tema de hoje, que é tão controverso quanto o embate erudição-popularidade. A Paula explicará melhor na parte dela do post - segue em itálico.

Love, love, love...

E, mais uma vez, voltemos à temática amorosa. O clichê de todos os blogs, mas um de meus clichês fundamentais preferidos. Love, love, love: música dos Beatles, dos emos (que se inspiraram em The Cure... it's friday, i'm in love), dos sertanejos, do Calypso... tanta gente!
 
A pauta do dia será: "entre razões e emoções".

Todo mundo sabe que uma das coisas mais difíceis da vida é fazer decisões (já diriam os alemães: "wer die Wahl hat, hat die Qual" - quem tem a escolha, tem a dor, a angústia). E, é claro, isso vale para o amor, só com uma variante a mais na equação: não se sente racionalmente, quando se ama alguém, ama-se simplesmente! Pode-se até explicar: "ah, ele é legal" ou bonito, blablabla. Mas, no fundo, a pessoa apenas o atraiu por um motivo x que a razão não explica. Ou melhor, como diria minha amiga Bruna, amor = amizade + atração física. Mas essa equação não é absolutamente matemática...
 
O amor é objetivo? Nenhuma ciência humana é, quanto mais um sentimento... mas se por um lado fala-se em uma "objetividade" ou racionalidade possível para as humanidades, imaginem falar isso pro amor... "você tem que respeitar precedentes! E o meu controle intersubjetivo?". Haha, ridículo.
 
Então, voltando ao universo musical clichê do amor, Di Ferrero diz: "entre razões e emoções a saída é fazer valer a pena". Vou ter que concordar em parte com o emuxo. Não adianta pensar demais quando o assunto é amor. Se isso não é racional mesmo, "libere o mosh", por favor, e simplifique as coisas. Não adianta ficarmos nos escondendo por trás de mecanismos de defesa do ego para fugir do que queremos. É claro que esses mecanismos também aparecem quando queremos dar uma desculpa ou quando estamos confusos, mas já vi muita gente não se realizar por falar algo como "não vai dar certo mesmo", "mas não tem nada a ver comigo", etc.
 
Por isso, quando o assunto é amor, o negócio é "Libera o mosh" mesmo. Como diria uma amiga minha do colegial: "só cai quem voa". Medo: sempre vamos ter. Quem gosta de levar um fora ou se decepcionar depois de se envolver? Mas acho que, quando o assunto é esse, vale a pena.
 
Pra terminar, só um comentário: paixão (a reação química que falei no post do blog da Bruna, lembram-se?) em alemão é Leidenschaft, só que leiden é sofrer... Interessante, não? Por isso que eu gosto desse idioma, é bem auto-explicativo, hehe...

O verbo leiden (sofrer) e o substantivo Leid (sofrimento) são mesmo muito interessantes. Formam não só a palavra Leidenschaft (paixão), mas também as expressões es tut mir Leid (desculpe, sinto muito) e jemanden / etwas nicht leiden können (não poder suportar alguém ou algo). São palavras e expressões ligadas a diferentes aspectos dos relacionamentos: a aproximação, o desentendimento, a conciliação. Tudo permeado pelo sofrimento...como ensina a sábia língua alemã, é algo de que não conseguimos fugir, mesmo tentando afogar o lado emocional com uma enxurrada de racionalidade. 

Voltando ao mundo pop, o conflito entre razão e emoção é um tema bem explorado por uma das minhas bandas queridinhas, o Rush, na música “Hemispheres” e no álbum homônimo. Assim começa a música, e já explica tudo:

When our weary world was young
The struggle of the ancients first began
The gods of love and reason
Sought alone to rule the fate of man

They battled through the ages
But still neither force would yield
The people were divided
Every soul a battlefield 

Vem o resultado do conflito:

Some fought themselves, some fought each other
Most just followed one another
Lost and aimless like their brothers
For their hearts were so unclear
And the truth could not appear
Their spirits were divided
Into blinded hemispheres 

A narrativa paramitológica termina com o aparecimento de Cygnus, o deus do equilíbrio, que proclama:

Let the truth of love be lighted
Let the love of truth shine clear
Sensibility
Armed with sense and liberty
With the heart and mind united
In a single perfect sphere 

Na ficção do mundo pop, tudo isso é possível. Mas o embate entre os hemisférios esquerdo e direito do cérebro é algo bem mais complexo e dolorosamente real do que o mito de Cygnus. Dizem que a capacidade intelectual do cérebro humano é ainda pouco utilizada pelos indivíduos do nosso estágio evolutivo. Por isso mesmo, os momentos de sobrecarga ainda me impressionam e assustam muito: é possível ter surtos de paixão e vontade de entregar-se emocionalmente a alguém (o lado direito deliciando-se com o vinho da ilusão), simultaneamente com gritos sensatos do lado esquerdo, que tentam apagar o fogo do vizinho porque a paixão não será correspondida, ou está fadada ao fracasso por causa das ironias do destino. É uma verdadeira batalha intramental, e é quase impossível abstrair das parcialidades e ser juiz de si mesmo. Porque o lado esquerdo é você, e o lado direito também é você. Tomar partido, em vez de buscar a conciliação, acaba sendo a saída menos dolorosa e complicada – e eu até duvido de que tenhamos capacidade intelectual suficiente para chegar a um nível de abstração superior a essa solução. Assim, inevitavelmente, algumas pessoas pendem para o lado frio, calculista e egoísta, que afoga as emoções e protege a integridade do eu, e outras para a irracionalidade completa, que culmina na abnegação, no viver para o outro, ainda que isso machuque. O que é certo: das Leid estará presente, de um jeito ou de outro, em facetas diferentes do mesmo fenômeno. Pra não dizer que eu não fui intelectualóide, é sempre interessante lembrar o velho Cartola, que avisava: “de cada amor tu herdarás só o cinismo”...é a isso que estamos fadados? Ou seremos juízes de nós mesmos – com a prerrogativa do livre convencimento – no momento em que aprendermos a sofrer, como Evey Hammond é forçada a aprender em V for Vendetta?
 
O conflito fica mais complicado quando extravasa do indivíduo, e ocorre entre aqueles que já “resolveram” (será?) seus conflitos internos de modos opostos: o racionalista e o emotivo. Será que esse parting of the ways é mesmo definitivo? As escolhas de cada uma das partes do relacionamento são realmente inconciliáveis? Alguém deve necessariamente ceder ao modo de vida do outro, ou existe um terceiro não-excluído e esquecido pela nossa mentalidade (lamentavelmente) hemisférica?     

A resposta definitivamente não está comigo, pois sou humana e não Cygnus. Assumo-me como emotiva porque minhas experiências de vida me ensinaram que “liberar o mosh” é ser mais sincera comigo mesma, e vale a pena pela intensidade, porque assim me sinto mais viva. Como bem ensina o clichê, prefiro sofrer por ter feito, não por ter deixado de fazer. Mas sou eu, e quem disse que esse é o jeito certo de se viver a vida? Ainda espero pela resposta de Cygnus, e sei que alguns milênios se passarão (e que eu não estarei mais aqui) antes que ela venha, precisa e indecifrável como um redondo 42. 

(Pois terminar este post pop com uma citação indireta de Douglas Adams é obrigatório.)   

Palavras-chave: amor, emoção, hemisférios, libera o mosh, razão

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Setembro 15, 2008

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Prólogos-desabafo do post:

Prólogo 1: Este blog está começando a parecer revista Claudia ou algo que o valha de tanto falar de relacionamentos. Mas eu realmente espero que não tenha o mesmo enfoque de uma revista desse tipo. De qualquer modo, idéias de posts não se seguram, são polidas e liberadas, e não é minha culpa se todas as minhas idéias ultimamente têm relação com esse tema.

Prólogo 2: Filosofia barata - costuma-se dizer daquele tipo de pensamento clichê, pouco elaborado, óbvio demais, que por isso empobrece a filosofia em que supostamente se baseia. (Já se disse também que o clichê e o óbvio não o são por acaso, mas isso são outros quinhentos.) Porém, trazer filosofia para situações corriqueiras, banais, terrenas é empobrecê-la? Se eu quiser dialogar com Hannah Arendt - e ter a ousadia de reinterpretá-la - ao falar sobre relacionamentos, estarei dessacralizando sua filosofia e barateando seu pensamento? Sei lá. Acho mais produtivo pensar em novas maneiras de ler Arendt do que gastar tempo com autocríticas que visam a proteger um mundo perfeito de idéias intangíveis. De qualquer modo, fica registrada a possível crítica no título do post, em homenagem às opiniões em contrário - e não era a própria Hannah quem tanto gostava da pluralidade?   

Vamos ao post.

Algumas experiências práticas dos últimos anos levaram-me a pensar bastante sobre a libertação em termos de relacionamentos interpessoais. Parece uma idéia contra-intuitiva, porque tudo o que queremos é o contrário: o enlace, a companhia, o compartilhamento, um pouco de auto-insuficiência, alguma dependência, aquela coisa toda de "é impossível ser feliz sozinho". Contudo, existem momentos em que, por motivos os mais variados possíveis, a convivência é dolorosa demais, e cortar relações é desejável e necessário. É o momento de libertação: a sensação de que não mais se depende de alguém (seja amigo, amado, amigo amado ou qualquer outra coisa), e de repente mil supernovas (parece-me que não têm esse nome por acaso...) explodem no universo, mostrando zilhões de novas possibilidades de vida.

Hannah Arendt também fala da libertação, mas no contexto da vida política do homem - que nada mais é do que uma vida de relacionamentos interpessoais. Ao tratar da liberdade política dos antigos, Arendt afirma que o homem precisava em primeiro lugar libertar-se das "necessidades da vida", aquelas relacionadas ao provimento da própria subsistência. Mas a plena liberdade política era um passo além da libertação; requeria também "a companhia de outros homens que estivessem no mesmo estado, e (...) um espaço público comum onde estes pudessem ser encontrados - ou seja, um mundo políticamente organizado, no qual os homens livres se pudessem integrar através da palavra e da ação" (trecho de Entre o Passado e o Futuro). Como se dá, contudo, a aquisição da liberdade num contexto em que a libertação é feita em relação à própria companhia e não às necessidades naturais?    

Se libertação não significa automaticamente liberdade, a idéia de que a libertação do relacionamento traz "liberdade" é falsa. A libertação pressupõe violência contra um estado anteriormente tomado como natural, seja ele a dependência oriunda das necessidades materiais, seja o costume de depender emocionalmente de alguém. E, segundo a própria Arendt (cf. "Da Violência" em Crises da República), a violência não cria poder político, apenas o destrói.

Se a libertação não implica criação, a verdadeira liberdade em termos de relacionamentos interpessoais deve advir da superação dos ferimentos criados pela violência. Cortar relações liberta, mas, no fim das contas, significa negar inútil e dolorosamente a predisposição à interdependência humana. Ser livre é, após superar a dor da libertação, aceitar a própria independência em relação ao outro sem fugir da convivência. É, enfim, ter poder sobre o próprio destino em harmonia com o poder do outro.

E assim eu chego ao clichê da paz e harmonia e felicidade geral da nação, e fecho este post de filosofia barata. Boa noite, Hannah!  

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Agosto 21, 2008

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Em continuação não-premeditada do post anterior, segue um trecho de notícia da BBC Brasil sobre o movimento por direitos iguais dos homens (!) na Suécia. Comentários adicionais são dispensáveis.

Guerra dos sexos

Apesar da aparente perda na tentativa de reclamar contra a discriminação, a luta dos homens por igualdade na Suécia já acumula algumas vitórias.

As mulheres perderam o privilégio de contar com tarifas preferenciais em agências de relacionamento e nos salões de beleza da Suécia depois de protestos realizados pelo sexo oposto. Agora, homens e mulheres pagam o mesmo preço pelos serviços.

As manifestações masculinas derrubaram também os preços especiais oferecidos às mulheres pelas empresas de táxi. As tarifas dos chamados "taxi-tjej" (táxi-garota, em tradução literal) haviam sido criadas para incentivar as mulheres a viajarem com segurança para casa durante a noite, na saída dos bares e clubes noturnos.

Nesses mesmos bares e clubes, a idade mínima para entrada de homens e mulheres (18 anos) também passou a ser a mesma depois de protestos. Antes, os bares noturnos permitiam a entrada de mulheres mais jovens para atrair a clientela masculina, mas barravam os homens da mesma idade.

Na semana passada, os guardas de uma penitenciária realizaram um protesto contra a norma que determina que pelo menos um guarda do sexo masculino tenha que estar presente no pátio durante o horário de banho de sol dos prisioneiros - o que, segundo eles, proporciona esquemas de folga privilegiados para as mulheres.

Aproveitando a onda reivindicatória, um casal de lésbicas que tentava ter um filho através de inseminação artificial também decidiu entrar na Justiça.

Após ser submetida a três tentativas sem sucesso, uma delas exigiu que a companheira também tivesse o direito de tentar a inseminação.

No entanto, o pedido foi negado pelo juiz com o argumento que um casal heterossexual não teria a mesma oportunidade de realizar uma dupla tentativa, uma vez que homens não podem engravidar.

( 

Palavras-chave: guerra dos sexos, Suécia

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Agosto 12, 2008

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Era uma vez uma Cinderela destinada ao "viveram felizes para sempre", que se cansou da vida nobre e decidiu voltar a fazer parte da plebe. Abandonada novamente sobre o borralho, jogou o espartilho ao fogo e quis ser fênix. Batalhou com nada mais que as próprias armas - corpo hábil e mente sagaz - para entrar para a rica burguesia. Enfim, livre e independente. 

Era uma vez um príncipe - ex-marido, atual namorado, ocasionalmente affair? - que assistiu a tudo isso em primeira mão, talvez até com direito a confidências de amiga (amiga? mulher?!) da própria Cinderela, que no mundo do business é a chefe de si mesma e geralmente atende pelo sobrenome (de solteira): Senhora Tal.

Eu sei e você sabe, se for mulher, como Cinderela se sentiu nesse processo todo. Se não passamos por ele, ouvimos a história, muito bem contada, da boca da mãe. E aprendemos a ver a vovó e a bisavó como coitadas que não sabiam viver... 

Mas como é que o príncipe reagiu a tudo isso? Cinderela, compreensivelmente ocupada com o próprio umbigo (que havia sido negligenciado por gerações), quase não deu atenção aos sinais dele.

Como a auto-afirmação das mulheres impactou o íntimo masculino? É muito fácil responder com clichês das feministas caricatas, algo como: "Eles se sentiram ameaçados pela nossa superioridade, e não querem aceitar que podemos viver muito bem sem a ajuda deles!". Alguém chegou a perguntar, a um universo representativo de homens, se foi isso mesmo que eles sentiram? Pode até ter sido isso. Mas isso é um sinal de vitória? Aliás, para falar em vitória, precisamos falar em competição, batalha, guerra de sexos. Porém, a história que os líderes masculinos construíram, da qual deveríamos copiar os bons exemplos e abominar os maus resultados, nos mostra que a guerra geralmente traz mais perdas à humanidade do que ganhos.

No início do século XXI, bem na hora da trégua (imagine o que quiser ao pensar em trégua), Cinderela embriaga-se com o poder recém-adquirido e não repara que o príncipe está, de fato, assustado. E esquece-se de dizer a ele alguns lembretes fundamentais: os termos do acordo de paz.

Cinderela deveria dizer ao príncipe que ele não precisa se assustar, porque a Senhora Tal, apesar de usar nome de solteira, ainda tem o cromossomo X duplicado e ainda precisa do Y que não veio junto com o corpo dela. Não só para satisfação física. É para completar a vida da ex-princesa em todos os aspectos em que ela é falha - sim, porque a emancipação não levou e nunca levará à perfeição.

Deveria dizer ainda que quis deixar de ter título de nobreza para livrar-se de um estereótipo-espartilho, e que os estereótipos opostos - Mulher Maravilha e afins - são igualmente sufocantes. Cinderela obviamente não quer voltar à condição antiga e passar o dia tricotando e cuidando de dez filhos, mas também não quer ser vista como aquela-que-não-precisa-de-ajuda, que afasta os homens, acuados like hell perante a independência feminina ("Por que é que ela precisa de mim, afinal?" - pensam eles, imagino). Pior ainda é ouvir falar, nas revistas femininas do século XXI, de uma tal de "mulher pós-moderna", que sabe conciliar magistralmente a carreira com a família, sem querer provar poder ou superioridade a ninguém - quer dizer que, no maravilhoso e polivalente mundo pós-moderno, não existe o livre-arbítrio de não ter carreira ou família? É necessário corresponder a todas essas expectativas? Basta de todos esses estereótipos! Cinderela não precisa de ajuda porque é mulher (isso seria voltar à antiga condição, e a hipocrisia das feministas que pedem a "volta do cavalheirismo" é a parte mais irritante desse conto de fadas), mas porque é ser humano, que sozinho não se sustenta. Tem suas dificuldades ínsitas como mulher, mas não quer ser vista como coitada por causa disso. Quer companhia porque todos querem, inclusive os indivíduos do sexo masculino, e ponto final.

Logo antes do fim deste período de trégua e da implementação definitiva do acordo de paz, imagino o príncipe (ou Cinderela, por que não?) tendo os mesmos pensamentos do personagem desta tirinha do Happysad: 

Um brinde às nossas fragilidades, forças, igualdades e desigualdades, e que sejam respeitadas e desfrutadas como são. 

(Escrito ao som de Freewill, do Rush.)    

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Julho 29, 2008

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(Texto baseado no livro As cidades invisíveis, de Italo Calvino, e numa conversa de madrugada - durante uma caminhada pela Rua Augusta - com Fernando Rossine, a.k.a. o Pizza. A idéia original é dele, a execução é minha. Para quem não leu, o livro mencionado tem 5 capítulos intitulados "As cidades contínuas", daí o título deste post.) 

Numa primeira tentativa (errônea) de descrever Augusta, alguém diria que ela tem dois tipos de visitantes: aqueles que a conhecem durante o dia e aqueles que a experimentam durante a noite. Quem parte desse ponto de vista comete um engano elementar, pois enxerga Augusta não a partir de sua inteireza, mas a partir de como a vêem seus observadores parciais.

Certo é que os visitantes diurnos e os visitantes noturnos expressam-se diferentemente em relação a Augusta, mas nunca por fazerem parte de grupos distintos e bem definidos. A realidade de Augusta é que se desdobra em duas: as portas que lá se encontram abertas para a luz diurna nunca pertencem às casas visitadas durante a noite, que, por sua vez, fecham durante o dia suas entradas noturnas, como seres cavernícolas, fotofóbicos embora muitas vezes autoluminescentes.

Augusta não repousa. Apenas fecha alguns de seus olhos para abrir outros, conforme a posição do Sol em relação ao visitante que, pretensioso, quer conhecê-la por inteiro em menos de vinte e quatro horas. Não há dois tipos de visitantes, há duas Augustas distintas que se alternam periodicamente, e todavia existe apenas uma Augusta, ser polivalente capaz de estar ao mesmo tempo adormecido e acordado. É irrelevante, portanto, indagar-se a respeito da lucidez de seus sonhos.     

       

 

Palavras-chave: Augusta, Italo Calvino, São Paulo

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Abril 01, 2008

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Eles participam de reuniões que misturam RPG, War e estudo acadêmico hardcore.

(E eu faço pior: organizo coisas insanas desse tipo. Para saber mais: vide o blog Representatives of the World e o Guia do Modeleiro das Galáxias.) 

Vídeo do TEMAS 2008, enviado a mim por Daniel Carvalho, também conhecido como dire-maníaco do martelo.

Palavras-chave: geekiness, MUNs

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O Orkut, confirmando a vocação iconoclasta e irreverente da família Google, muda a palavra do canto esquerdo superior da página inicial dos usuários para Yogurt.

Tr1n1ty, no blog do Pirate Bay, afirma que o site de busca de torrents mudou seus servidores para o tecnológico deserto do Sinai, no Egito, onde há não apenas conectividade local, mas também conectividade para a Arábia Saudita e para Israel. E tem mais: assim que eles conseguirem mais verba, expandirão suas bases para a Jordânia também. Um excelente modo de hospedar um site simultaneamente em dois continentes. O motivo? A nova legislação sueca de copyright, que entra em vigor hoje. Para a IFPI, conhecida por combater o compartilhamento de arquivos pela web, foi deixado um aviso especial: "Moses walked in the desert of Sinai for 40 years. Our servers will be active for at least another 40 as well."

Pesquisadores do MIT desenvolveram um gerador de improbabilidade infinita que foi enviado secretamente a Minsk, capital da Bielorrússia, para um grupo de estudiosos que afirma trabalhar para a Hatch, empresa canadense de consultoria em engenharia, que por sua vez presta serviços a uma empresa russa. Na verdade, o referido grupo, do qual minha mãe faz parte, empregou o gerador de improbabilidade em experiências sobre a vulnerabilidade do poder político de Alexander Lukashenko, experiências ainda sem resultado. Minha mãe teve a oportunidade de trazer o instrumento para o Brasil, onde eu o tenho utilizado para receber em dia os guias de estudo elaborados pelos diretores da SiEM.     

Tire suas próprias conclusões...ou olhe o calendário, se você é um workaholic desmemoriado.

Palavras-chave: geekiness, humor geek, primeiro de abril, SiEM, web

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição.

Postado por Bruna Romano Pretzel | 1 comentário

Março 30, 2008

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 [Atualização: mudei o título do texto após uma reflexão despertada pelos oportunos comentários ao post. A mudança serve para deixar um pouco mais claras as intenções do texto, elucidadas em um comentário de minha própria autoria. E também porque o título estava muito insosso...]

Quem nasce com alma de acadêmico vai morrer com alma de acadêmico e nunca consegue escapar dessa condição. Conversando por MSN com uma amiga, também acadêmica, sobre o tema cotidiano dos relacionamentos amorosos, recebi um texto que ela escreveu a respeito e perguntei se poderia "dialogar" com o texto no meu blog. É, você leu direito: nós somos nerds a esse ponto.

Portanto, aí vai o texto dela (GORZONI, Paula. Não existe amor! São Paulo: Gorzoni Editores, 2008.), seguido dos meus comentários. 

Não existe amor!

Sim, sim! o amor é uma farsa. Todos os seres desse planeta Terra que fingem amar não passam de seres enganados pela falsa sensação de algo bom.

Pera, vamos começar de novo esse texto. Como assim? Não existe amor? Quer dizer então que todos os finais de contos de fadas são uma mentira? e o último capítulo das novelas? e todas aquelas músicas chorosas-amorosas (não é emo)?

Dizer que o amor não existe é um clichê do clichê. Praticamente igual a rimar amor e dor, é o calor, que aquece a alma, diria Nando Reis. A verdade disso tudo eu não sei e, sinceramente, acho que nunca saberei.

O grande problema é que o ritmo é frenético, as pessoas mal tem tempo de se apaixonar. Ou melhor, até se apaixonam, mas como a paixão é uma reação química-hormonal do nosso corpo que dura no máximo 6 meses... é passou, foi bom te conhecer, beijotchaumeliga. Não te liguei. Dancei.

E o amor? é tudo uma convenção da sociedade? eu falo que te amo, é algo recíproco, então vamos nos unir e viver a vida juntos? é assim? e de repente eu não quero mais repartir a vida com vc porque... não te amo mais. Não te amo mais? a frase mais dolorida em rompimentos de relacionamento. Se é dolorida, é porque amou. alguém amou alguém, que não ama mais... como é complexo esse tal de amor que eu nem sei se existe.

E nessa filosofia barata e circular, eu digo: acho que nunca amei ninguém de verdade e com a intensidade que queria amar. A intensidade que consideraria o amor. Logo, o amor é uma grande balela. Esqueci de dizer que amar não é tão lógico assim...

"Não existe amor" também é frase de refrão de uma música dos Titãs. Isso quer dizer que tudo o que eu disse não é tão original e talvez até faça algum sentido. Mas na realidade vivo querendo descobrir alguém que me prove que tudo o que escrevi aqui... isso sim é tudo balela.

Bom, devo concordar com GORZONI (2008) quando ela diz que a afirmação da não-existência do amor é um clichê do clichê. Eu tenho fortes convicções de que já experimentei amor uma vez na vida, mas só uma. Agora, será que a reciprocidade é um elemento constitutivo ou apenas acessório do amor? Nessa minha única experiência, o amor era perfeitamente recíproco. Mas será que ele ainda existiria se fosse meramente unilateral? Ou seria só uma reação química-hormonal que a gente chama de paixão?

Ou é tudo químico-hormonal e nós chamamos de "amor" uma relação de atração física misturada com alguma afinidade de gostos e comportamentos, que não tem nada de metafísico mas nós gostaríamos que fosse bonitinha e perfeitinha como nos contos de fada que GORZONI (2008) lembrou?

Na verdade, se é metafísico ou não, não importa. Pela minha experiência, tem muito de atração física, tem muito de amizade, tem muito de afinidade. Mas tem um algo a mais que eu definiria como "enxergar a pessoa como alguém que completa sua vida em todos os aspectos". Uma hipótese que poderia ser testada pela seguinte questão: se você tivesse que passar muito tempo sozinho(a) com alguém sem que a conversa ficasse sem assunto, sem que vocês se enchessem um do outro, sem que você se sentisse desconfortável em exprimir seus sentimentos mais íntimos, adicionando a tudo isso a atração física, quem seria?

Parece ideal demais, é claro. Se eu nunca tivesse encontrado alguém assim, também não acreditaria.

Mas tudo o que é bom dura pouco (assunto extra-blog...), e o amor é raro, então duvido que isso algum dia se repita na minha vida. Portanto, eu sigo sendo mais uma cética que tenta desconstruir todas as ilusões e expectativas exageradas que se formam espontaneamente no meu imaginário romântico. Porque todos temos um imaginário desse tipo, seja porque a sociedade da informação nos impôs isso, seja porque isso é possivelmente inerente ao lado direito do cérebro, não importa...o que acontece é que, ainda que tentemos colocar nossos sentimentos out to dry (CULLUM, 2005), é bem difícil aceitar de vez que o mundo é um moinho (CARTOLA, 1976).

Não tem escapatória. A gente - eu, a Paula, você leitor - continua lembrando qualquer bandeira em cada riso do possível amado (CAZUZA & GILBERTO, ano desconhecido).

Afinal, a definição de amor que paradoxalmente mais me instiga e conforta é uma fala do filme Cazuza - O Tempo Não Pára (WERNECK, 2004). Não sei se foi escrita pelo Cazuza verdadeiro, mas no filme é ele quem fala:
"O amor é o ridículo da vida...
A gente procura nele uma pureza impossível.
Uma pureza que está sempre se pondo...indo embora.
Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga idéia de paraíso que nos persegue...bonita e breve...como borboletas que só vivem vinte e quatro horas."

Sorte é se abandonar e deixar o barco correr. Sem pressa.

Palavras-chave: academia, amor, relacionamentos

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Postado por Bruna Romano Pretzel | 3 usuários votaram. 3 votos | 9 comentários

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Musicófilos leitores: muita atenção para este post.

Ele é sobre Rodrigo y Gabriela (Orkut, site oficial), uma dupla de violonistas mexicanos injustiçadamente desconhecida por grande parte dos apreciadores brasileiros de boa música. 

Vamos ao começo da história: estava eu, em meados do semestre passado, ouvindo a abençoada rádio "Meus vizinhos" do genial Last.fm. Uma dada hora, aparece o título "Stairway to Heaven" na tela do meu PC, com "Rodrigo y Gabriela" como intérpretes. Penso: bah! Cover de Stairway to Heaven? Não dou nada, é manjado e deve ser ruim. 

A música começa com um solinho de violão, que - importante - não é o solo inicial da música original. É a melodia da parte cantada. Um pouco mais tarde, entra outro violão, e a música desenvolve-se para uma mistura de flamenco e violão clássico, que faz questão de não ser totalmente fiel ao original do Led Zeppelin e toma um rumo único - colorido, virtuoso, apaixonante.

Quase desnecessário dizer que, a essa altura, eu já estava googlando e orkutando atrás de mais informações sobre os mexicanos havia pouco desconhecidos. Descobri que apenas por volta de 70 brasileiros estavam na comunidade "Rodrigo y Gabriela - BR" (hoje já são 136), e que, para conseguir CD da dupla, só importando pelo Amazon. Descobri que eles são muito conhecidos nos EUA, na Europa e até no Japão e na Austrália, e que têm alguma popularidade no México somente devido ao fato de que vêm da...Cidade do México.

Os amigos Rodrigo e Gabriela são, na verdade, metaleiros de coração: começaram a tocar juntos em uma banda de thrash metal em sua cidade natal, mas decidiram ir além e explorar novos estilos no violão. Mudaram-se para Dublin e passaram a tocar nas ruas da capital irlandesa, forjando um estilo próprio que mistura elementos latinos, clássicos e até mesmo metal. (Sim, eles têm covers acústicos de Metallica!) Para nossa felicidade, foram afinal descobertos e gravaram em estúdio.

Como eu já disse acima, nenhum dos três álbuns (dois de estúdio e um ao vivo) da dupla pode ser encontrado em alguma loja brasileira - pelo menos, não nas que eu procurei. Portanto, fui obrigada a recorrer, entre outros esquemas, aos vídeos que os fãs europeus e norte-americanos disponibilizaram no YouTube. Aqui vai uma versão ao vivo de Stairway to Heaven:

[Atualização: descobri um vídeo de F.T.U.S.V.D., composição da dupla que não está em nenhum de seus álbuns, com direito a uma citação de Smoke on the Water e um trabalho sensacional de percussão da Gabriela. Vide abaixo. Dizem as más línguas que a sigla corresponde a "Fuck The United States Visa Department", já que eles tiveram que cancelar uma turnê nos EUA por causa de um problema com vistos.]

Se os vídeos acima não provarem que os brasileiros têm que conhecer melhor o trabalho de Rodrigo y Gabriela, eu desisto de acreditar em bom gosto musical por aqui. Alguns críticos arrogantes dizem que não é nada impressionante, que os meninos tocam bem mas que "há coisa melhor" - e começam a comparar com Al di Meola, John McLaughlin e o diabo a quatro. Peraí, né. A proposta é diferente: é claro que a dupla quer mostrar que tem boa técnica (o que é verdade). Mas eles não querem ser lembrados apenas pelo virtuosismo - se é que querem ou podem ser chamados de virtuoses. O que chama a atenção em Rodrigo y Gabriela é o colorido do som: uma mistura inclassificável, que você não pode chamar de flamenco nem de rock, mas que nunca chega perto de algo amorfo. (Diferença importante em comparação com o "novo rock" que os auto-rotulados indies tentam construir e que não passa de um revival piorado de Beatles e outras bandas gloriosas.) Em cada segundo das músicas da dupla, existe um pedacinho identificável de cada uma de suas influências, tudo muito bem juntado para formar um estilo realmente único.

Enfim, ouçam Rodrigo y Gabriela. Fucem na internet, no Orkut, no YouTube. Se quiserem, recorram ao meu acervo. Música boa e original precisa de estímulo nestes tempos.        

Palavras-chave: México, música instrumental, violão

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Postado por Bruna Romano Pretzel | 2 usuários votaram. 2 votos | 0 comentário

Março 29, 2008

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Quem me conhece há um certo tempo sabe que eu gosto de citar Peter Pan de vez em quando - principalmente em assuntos filosóficos. Quem leu o original, sabe que não é livro de criança, e que é dez mil vezes mais profundo do que as versões ou alusões filmadas com atores de carne e osso (Em busca da Terra do Nunca é adulto demais para ser profundo, e sem comentários a respeito de Hook - embora eu goste dos dois filmes).

Pois bem, eu passei a sustentar ultimamente que o personagem principal de Peter Pan não é Peter, e sim Wendy. OK, isso passa por todas as minhas próprias críticas aos subjetivismos da teoria literária: eu escolhi Wendy muito provavelmente porque ela me parece a personagem mais interessante e porque eu me identifico com ela em diversos aspectos. De qualquer modo, a história começa com o foco na família Darling e não em Neverland; temos uma primeira visão aprofundada do menino Peter através dos olhos de Wendy, e o livro termina com a história da maternidade de Wendy. Aliás, tenho minhas suposições de que o livro inteiro trata muito da maternidade em si.

Mas essa digressão inicial serve para conduzir a uma passagem singela, porém importantíssima, que o meu querido Barrie introduz na parte final da obra. Ele diz que Wendy cresceu (apesar de ter prometido a Peter que não o faria), e que, ainda por cima, cresceu um dia mais rápido do que as outras meninas. Porque, no fim das contas, ela era das meninas que gostavam de crescer.

Bingo! Quem disse que síndrome de Peter Pan é não querer crescer? Se esse Peter Pan alude à obra e não ao personagem, temos que a personagem principal (na minha visão) tem essa síndrome justamente no sentido contrário ao que todo mundo pensa. Sim, pode existir uma síndrome de Peter Pan invertida.

E tudo isso que eu escrevi foi uma digressão para conduzir ao tópico principal do post, que é o lado bom de envelhecer.

Os filhos dos séculos XX e XXI têm uma paranóia incessante contra o processo de envelhecimento: nossa adolescência estende-se pelo menos até os 25 anos, e nossos instrumentos de escape da realidade multiplicam-se ad infinitum: internet, seriados de TV como Lost e Sex and the city, raves, novos tipos de droga, tratamentos de beleza. Blogs. 

Difícil não ter medo do mundo velho de impostos a pagar e alguns dias mais perto da morte.

Mas...
E aquele dia em que você de repente pára - e percebe que está ouvindo pela segunda vez seguida um CD solo do Dave Brubeck, gravado em um estúdio caseiro em 1957? Jazz piano, com faixas puramente instrumentais que têm nomes como "I'm old fashioned" e "You'd be so nice to come home to"? E, pior ainda, você está realmente gostando, não está ouvindo porque alguém mais velho colocou no player - VOCÊ comprou e ouve por prazer.

É um sinal de que você envelheceu, sim.
Só que...isso não é ruim! Você ouve jazz instrumental. E isso de repente é mais verdadeiro do que as camisetas com bandeira do Reino Unido que você usava só por causa dos Sex Pistols. Mais verdadeiro do que tudo aquilo que entrou por peer pressure na sua vida só porque você tinha medo de envelhecer.

No fim das contas, Peter teria muito a aprender sobre verdade com a menina que cresceu um dia mais rápido que as outras. 

Palavras-chave: jazz, literatura, síndrome de Peter Pan

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Postado por Bruna Romano Pretzel | 1 usuário votou. 1 voto | 1 comentário

Março 27, 2008

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Blog para mim nunca foi espaço de escrever para os outros...seria antes um local mais estável do que o meu próprio PC para armazenar conversas no estilo "eu comigo mesma".

Mas já que existe o Stoa, pensei: por que não?

É, não tem por que não. E resolvi aproveitar o ensejo para descarregar alguns pensamentos meio aleatórios de hoje. (Aliás, que outra qualidade intrínseca têm os pensamentos senão a aleatoriedade?)

Todo mês a baixa hormonal - que eu propositalmente não chamo de TPM, para evitar a carga moral negativa da sigla - me proporciona algumas bad trips que correspondem, numa perspectiva otimista do problema, às inspirações que Roger Waters teve ao escrever as letras maníaco-depressivas do álbum The Wall. Este mês, a viagem tem girado em torno das minhas motivações para viver, para seguir em frente.

Pensando nisso, eu percebi que a vida universitária, com o caos positivo que lhe é inerente, me viciou em adrenalina.     

Explicando melhor: o fim da vida de colégio nos retira aquela segurança da infância e da adolescência, aquela rotina de Eduardo (pra dar um exemplo tosco de Legião Urbana), uma coisa que a gente passa a achar CHATA depois que entra na vida pretensamente adulta. Começamos a tomar as rédeas de nossas próprias vidas e a perspectiva é extremamente excitante: tudo parece possível. E cada um tem sua viagem pessoal. Alguns materializam sua sensação de liberdade no uso de drogas - álcool, maconha, ecstasy, LSD - e constroem a talvez-ilusão de que o afastamento do superego realmente os torna mais livres. Outros, do grupo workaholic, sentem-se motivados a experimentar todos os tipos de atividade relacionados à universidade - estágio, grupos de estudo, extensão, simulações - e constroem a talvez-ilusão de que estão contribuindo para um mundo mais livre (se isso é "um mundo melhor" ou não, vai de cada um).

Eu gosto de me embriagar com a segunda talvez-ilusão, porque acredito nela. E disso resulta que a minha motivação para viver é ter qualquer trabalho que me desafie. Um estresse contínuo, no sentido bom que a medicina empresta ao termo. Um risco permanente, que garanta descargas regulares de adrenalina no meu organismo. Em outras palavras: se a vida é fácil ou rotineira demais, what's the point in living it?

Eu não sei se o caos universitário vai acabar algum dia ou se essa condição se instalou de vez na minha vida, mas sei que gosto de ter esse vício. Gosto muito.

Palavras-chave: bioquímica, universidade

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Postado por Bruna Romano Pretzel | 2 usuários votaram. 2 votos | 2 comentários