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Stoa :: Priscila Frohmut Fonseca :: Blog :: Histórico

Setembro 2007

Setembro 03, 2007

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O refrão da músdica é uma homenagem mais que explícita ao compositor Adoniran Barbosa

 

 

http://www.youtube.com/watch?v=XcnwdJhjk-U&

Palavras-chave: A volta do Trem das Onze, medley, miscelânea, miscelanea, miscellanea, Tom Zé, Trem das Onze, video, videos, youtube

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Setembro 04, 2007

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só assistindo pra entender isso... um show diferente e curioso acompanhado de música do Kitaro

 

http://www.youtube.com/watch?v=4akNUE_lyfc

Palavras-chave: animação, animation, areia, Kitaro, medley, miscelânea, miscelanea, miscellanea, Nippon, sand, sand animation, video, videos, youtube, youtube animação

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Setembro 06, 2007

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Quem se defende

 

Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.

A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito do rio que a contém
Ninguém chama de violento.
A tempestade que faz dobrar as betulas
É tida como violenta
E a tempestade que faz dobrar
Os dorsos dos operários na rua?


Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

Bertold Brecht

***

texto colocado em complementação a essa duas postagens de fórum:

http://stoa.usp.br/reformas/weblog/2532.html

http://stoa.usp.br/reformas/weblog/4047.html

 

***

 

Este post é Domínio Público.

Postado por Priscila Frohmut Fonseca | 1 comentário

Setembro 12, 2007

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Liberdade, sonho e esperança


Quisera eu dizer que o mundo é livre. Quisera eu dizer que meu país é livre. Quisera eu dizer que as pessoas são livres. E que o mundo está repleto de sonhos. E as mentes encharcadas de esperança.

 

O mundo depende de uma moeda e de uma economia de um país que faz crescer a guerra, que faz crescer o medo, que aumenta o sofrimento e o desespero de quem tem medo da guerra, que assim perde a esperança, que assim aceita a guerra e se atira a ela e a empurra para que tudo lhe acabe de uma vez; e assim também cresce o ódio a alimentar a guerra, que faz com que mais gente tema, mais gente sofra, mais gente se desespere, mais gente se atire à guerra. Um ciclo fechado em si, sem começo e fim e que se espalha, tirando mais esperança daquele que tem fome, daquele que trabalha como um escravo que não tem como manter a si e à família dignamente, daquele que é criança e perde a infância a trabalhar, daquele que vive na rua sem lar certo, daquele que mortalmente adoece e não tem condições de curar-se ou aliviar seu sofrimento: daqueles que têm de ver o dinheiro que devia ser seu a alimentar a economia e a moeda de um país que com sua moeda alimenta por sua vez a guerra...

 

Mas enfim há quem veja a natureza do vício desse ciclo e volte a energia de sua revolta para atacar a origem da guerra sem fazer mais guerra. Há quem veja que sonhar não é errado, e por isso mantém sua esperança até seu último fio de vida, sonhando em enfim ver seu mundo livre.


(Diário de Suzano, 9º Concurso de Crônicas e Contos Teen do DS Escola, 2004)

 

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição.

Postado por Priscila Frohmut Fonseca | 0 comentário

Setembro 17, 2007

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Trabalhar no anonimato é um dos grandes privilégios a se ter na vida... Quase ninguém te vê fazer, poucos sabem que você faz, todo mundo vê os resultados e a informação é repassada e compartilhada pelas pessoas sem barreiras nem restrições.

Nos momentos em que o anonimato não é permitido, lançar mão da pseudonímia é um pequenino esforço a mais para que esse ciclo de transmissão de informação não seja quebrado. A partir daí, o pseudônimo já não serve como uma imagem de esconderijo, mas sim como uma ferramenta utilitária.

Sendo uma ferramenta, independente do fato do pseudônimo ser efêmero ou se tornar forte, resistindo ou não ao tempo, o referencial permanece, e se mantêm latente; assim, o ciclo se manteve e se perpetuou, e a ferramenta foi útil em cumprir o seu papel.

(Sala Pró-aluno do CCE, Cidade Universitária - São Paulo, Setembro de 2007)

Palavras-chave: anonimato, compartilhamento de informação, ferramenta, Fonseca, Frohmut, Priscila Frohmut, prosa, pseudonímia, pseudônimo, texto, trabalho, viagem nas idéias, viajando nas idéias

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição.

Postado por Priscila Frohmut Fonseca | 5 comentários

Setembro 18, 2007

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Por que quero me mudar pra um lugar mais frio?


Porque quero caminhar
sem tantas proteções contra o sol
sem medo de cansaço e desidratação
todo os dias.
Quero dormir bem todas as noites
e não precisar esperar uma grande frente fria
pra dormir de ventilador desligado ou trocar
o lençol pelo edredom ou a camisola
pelo pijama.
Quero poder ver neve quando me der vontade
ou ao menos conhecê-la.
Quero ter dor de cabeça ou mal estar apenas por motivos que não sejam o calor.
Quero ter por perto quem prefira a água fria de um rio cachoeira lago
em lugar de ir à praia e mergulhar na água morna e por vezes quente
do mar mesmo
quando o clima é quente
o sol é escaldante
o calor é delirante
e tudo fica estafante
E eu só posso tentar fugir
ficando num quarto com um ventilador no máximo me enchendo de água e suco
com uma bolsa de gelo na cabeça
enquanto os outros estão
na praia.
Queria ao menos poder fugir de passar calor sem precisar pra isso
de uma fortuna...


(Poá - SP, Agosto de 2006)

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição.

Postado por Priscila Frohmut Fonseca | 1 comentário

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Quem tem certeza de que existe o deus que é homem, ou é mulher, ou que são dois, ou dezenas, ou um só, ou milhares?

Que certeza você tem de que por aqui ainda vão se passar milhões de anos, ou centenas, ou que esse é o último ano de toda a existência em absoluto?

O poeta Horácio era mesmo um maluco, ah se era! Imagina, pra quê? pra quê correr contra o tempo, como se tivesse um machado acima da cabeça, que pudesse te dar fim a qualquer momento? Tem que ser muito maluco pra pensar assim... mas ser poeta não é ser um pensador maluco?

Que certeza você tem do amanhã?

Que certeza você tinha ontem sobre o seu hoje?

O que te garante que o seu hoje tem um amanhã?

O hoje pode ser o seu ontem. E o seu amanhã pode ser hoje! O quê te garante a verdade?

Você diz que tem certeza que um dia tudo vai melhorar.

Você, ah é! você diz que com certeza vai ter jeito na semana que vem, no mês que vem, no ano que vem talvez... A única certeza pra mim, pra você, pra todos, é a morte!

O quê você fez como o seu ontem?

O que você está fazendo com o seu hoje?

Você tem grandes planos para o futuro?

O quê te garante quando vai acabar o quê ainda não acabou? Quem pode dizer o tempo do fim, ou o fim do tempo?

O seu amanhã é hoje, porque pra você pode não ter amanhã.

O seu hoje é ontem, porque você ainda não se mexeu.

Por que você está aí sentado? Está ganhando o quê parado? O quê você ganha esperando?

Por que você não sai do seu cantinho confortável pra fazer alguma coisa?

Enquanto você fica parado esperando o futuro chegar, o futuro chegou e já se desfez! Enquanto você ficou estacionado o tempo te ultrapassou e o mundo correu e te atropelou!

Aproveita o aqui e o agora, deixa o futuro pro sonhador que não vê o tempo passando e que acha que o melhor vai chegar no amanhã que não se sabe quando vai ser!

Não espere uma outra pessoa o que você podia, bem que podia fazer hoje!

Porque tudo nasce para a morte; o que vive parado, aquele que agora vive parado já está morto, e o que viveu parado morreu sem existir!

(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, Novembro de 2006)

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição.

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As idéias não surgem da escuridão do nada. É preciso uma faísca, porque no vácuo do pensamento não se cria aquilo que pode se transformar, se remoldar, se adaptar e se balançar nos socos e pontapés da vida na psique pra depois se firmar reerguido e mais forte.

Não somos inferiores, porque ninguém que é necessariamente vivo é superior. O inferior é o que pensa ao mesmo tempo que são muitos os iguais a si mesmo, e que tantos outros que são diferentes são inferiores e precisam de sua orientação de sábio líder para um dia serem iguais ou parecidos consigo.

Experiência - dos muitos anos passados - não é sinônimo de sabedoria, nem causa essencialmente necessária, nem parte inseparável, inerente. A sabedoria não vem da simples passagem dos anos ao nosso redor, porque ver as mudanças sem fazer parte delas, sem se readaptar com elas é ficar parado enquanto o mundo corre e te atropela. A sabedoria real exige que nada seja definitivo, julgado e concluído de uma vez por todas; necessita de visão aberta ao mundo, aos fatos, e às idéias o tempo todo, sendo que a própria Ciência que traz o conhecimento e o avanço, com suas idéias bem formuladas, exige a possibilidade de ter suas idéias revistas, repensadas, permitindo ser adaptada, reformulada e até mesmo derrubada por novas idéias que contradizem aquela anterior.

O conhecimento não está nos livros ou no que alguém disse mas você não viu e nem achou por si mesmo. O que traz o conhecimento é receber informação, absorver o que recebeu sem engolir tudo a seco de olhos fechados ou tapando o nariz pra disfarçar a dúvida. Ter o conhecimento é juntar o que você viu, leu, ouviu, de uma vez só, analisar e ainda acrescentar, mostrar que você é vivo e tem suas próprias idéias.

A vida não está no sangue que corre nas veias, não está na comida que você digere e não está no que os outros falam pra você. As idéias em transformação e reconsideração constante mantém vivo o pensamento. A mente que formou, julgou e se permitiu concluir seu pensamento como definitivo morre. E o corpo sem mente não tem mais vida, se destrói, se corrói, se desfaz e desaparece no turbilhão do tempo em renovação.

(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, Setembro de 2006)

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Setembro 20, 2007

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Mulher ao Espelho

(Cecília Meireles)

Hoje, que seja esta ou aquela
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz,
já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
Que mal fez, essa cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto
se é tudo tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscam-se no espelho.

Este post é Domínio Público.

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Setembro 24, 2007

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Depois de passar tanto tempo com toda aquela cabeleira... eu me cansei dela. É, eu cansei...

Passando tanto tempo vendo pouco a pouco tantos fios se acompridando, uma cabeleira que se mantinha firme e forte, me acostumei com ela. E antes de iniciar o cursinho, decidi deixar ela crescer ainda mais, queria ver ela me render mais do que o aspecto visual de espelho... pensando que, "já que eu não sou chegada em tintura, não faço químicas no cabelo, já cuido tanto dele... vou deixar ele ainda maior e depois vender!"

Pois é, a bendita "poda" bimestral da cabeleira passou a ser semestral, pra dar mais chance da poda não ser muito grande me deixando no prejuízo a cada vez que fosse passada a tesoura nela, aplicando um banho de reparador de pontas a cada duas semanas... e ela seguiu tão firme forte quanto antes. Nem queda de fios por stress podia atingir o vigor que tinha. Nem por isso.

Depois de passados mais de dois anos e meio... faltando pouco pra três anos de cultivo, ela já chegando mais embaixo, ultrapassando o nível dos quadris, eu ainda não sabia onde eu ia deixar ela em troca dos trocados que eu tanto precisava...

Em Mogi das Cruzes, e até antes de chegar lá, situação complicada. O colega que não chega pra pegar o trem, o alojamento que alguém se responsabilizou de ver e esqueceu de avisar que naõ viu, a cartolina e o craft que dois se esqueceram de levar e não lembraram de comprar - será possível que agora uma cabeça precisa se prestar a pensar o que duas juntas não pensam? - as mídias que não saem, as canetas que não foram, a tinta que faltou pro cartaz, o colega com as novas mídias que não chega... e temperatura de mais de 30 graus às 9 da manhã sem bolsa de gelo pra aliviar a cabeça.

A cabeleira estava recém-lavada, eu vi que o vigor não era mais o mesmo... o stress, além dos nervos, atingiu aqueles fios, e eles enfim estavam começando a ceder. Foi aí que eu me lembrei dela. Recostada, tão quieta dentro da mochila, no descanso desde o cartaz de craft feito... esperando que eu me lembrasse dela. Noite de lua-nova - a mais obscura que eu já tinha encarado - com o Equinócio já muito próximo, os problemas ficando maiores do que minha cabeça sozinha conseguia administrar e que graças a outras duas cabeças - problemáticas e confusas - ficavam ainda maiores... achei que era uma boa hora.

Ainu que me foi mãe tão grande, em tantos contratempos...
Eu peguei a bendita tesoura. Cansei de deixar pra depois.
Metade da cabeleira foi-se embora... e ofereci a Ainu, Brigidh e Cerridwen... parte dela ficou nos morrros em Mogilar, outra parte em Jurubatuba, e o que restou, no fim, ficou na Cidade Universitária.

Um alívio... foi-se embora metade dela. E o peso que saiu de mim foi bem mais que físico... eu precisava fazer.

(Cidade Universitária, São Paulo, 16 de Setembro de 2007)

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Setembro 26, 2007

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O concreto Augusto de Campos concreto

Luxo-lixo-luxo

se não tem lixo não tem

luxo não tem lixo

precisa de lixo pra ter luxo

pra ter lixo tem o luxo

pra mais luxo vai mais lixo vai

mais lixo pra mais luxo que

só cresce quando o lixo cresce

mais luxo mais lixo mais

luxo do lixo que

vem dos que não tem luxo

os que tem mandam mais lixo

pra miséria do lixo do

mundo gente-lixo-luxo-lixo

para o luxo-gente-lixo.

(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, Outubro de 2006)

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O concreto viaduto

 

 

Que dirá o maldito
no meu luto
viaduto de ilusões que
me cercam e me cobrem e
engolem a nação-mundo
que dirá o bastardo do mundo
no esquecido do não dito
quem esquece e não
se apressa pra fazer tudo
tudo aquilo que foi dito
de uma boca
dum maldito de não dito
que não lembra o que disse que
foi dito para os outros
que hoje olham o viaduto
sem carro ônibus bicicleta
os cobriu o viaduto
viaduto vida e casa
que de casa não tem nada
os que tem vida no
viaduto de noite cobertos
no viaduto debaixo
do viaduto
da guerra fome morte miséria
que a ilusão dos
filhos-bastardos-do-mundo criaram
colocou pros filhos-da-miséria
a ilusão que não existe
guerra-fome-morte-miséria
pra além do que conhecem
ou que só existe
pra além do que eles conhecem
miséria que só é minha
miséria que não é minha
miséria que não é de ninguém
mas que é de todo mundo
miséria pra todo (o) mundo.

(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, Outubro de 2006)

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Setembro 27, 2007

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O pensador francês Edgar Morin, que esteve no Brasil no mês passado, a convite do Sesc, faz nesta exclusiva à E uma reflexão sobre o homem diante da revolução cibernética. Fiel a seu estilo, envereda por questões básicas, como ética, solidariedade e morte. Morin, um dos grandes ícones da intelectualidade européia deste século, comenta os avanços e retrocessos experimentados pela humanidade contemporânea, como as conquistas nos campos do conhecimento e da ciência, e a extrema bárbarie provocada pelas duas guerras mundiais e outros grandes conflitos regionais. Discorre sobre a existência de duas mundializações: uma ligada ao capital e, portanto, nociva, enquanto a outra conduz ao congraçamento e à alteridade. Morin fala ainda sobre a importância de reformar o pensamento em benefício do próprio ser humano, para que possa enfrentar com mais instrumentos a complexidade dos problemas e da existência.


Diante da revolução tecnológica, do fim do comunismo, da supremacia do capitalismo, da Internet e de todas essas revoluções, o mundo está melhor? Podemos ser otimistas?

As palavras otimismo e pessimismo, a meu ver, não têm sentido, porque o futuro é incerto. Podemos dizer que a queda do comunismo totalitário é um acontecimento positivo. Porém, em contrapartida, podemos afirmar que o liberalismo econômico não resolverá todos os problemas, além de ser um potencial criador de novos problemas. O desenvolvimento tecnológico sempre foi ambivalente: se a técnica permite liberar os humanos de muitos trabalhos cansativos, por meio da introdução das máquinas nas indústrias, por exemplo; ao mesmo tempo, ele sujeitou-nos à sua lógica, ou seja, a lógica da nação artificial. Os trabalhadores tiveram de se sujeitar à lógica das máquinas, à cronometragem, à especialização, etc. A Internet, que permite múltiplas comunicações, favorece o tráfico financeiro, as máfias, etc. Não podemos pensar que o desenvolvimento tecnológico e econômico propiciará o desenvolvimento moral, psicológico e humano. É preciso entrar no próximo milênio refletindo sobre o que foi o nosso século, que trouxe muitas mortes: morte com as duas guerras mundiais e com os campos de concentração, trouxe a ameaça mortal com o desenvolvimento das armas atômicas e também uma outra ameaça sobre a biosfera, sobre a própria vida.

O que existe como germe de um sentimento positivo encontra-se na multiplicação das comunicações no planeta, no fato de que todos os humanos, onde quer que estejam, têm problemas de vida e de morte semelhantes. A atualidade demonstra que todos os habitantes do planeta vivem em uma mesma comunidade de destino. O problema é, portanto, saber se nós tomaremos consciência desse destino em comum e se faremos uma outra mundialização. O que isso quer dizer? A mundialização que aí se apresenta é baseada na técnica e na economia. Mas existe uma segunda mundialização minoritária que aponta para a mundialização das idéias de humanismo, de democracia, da compreensão entre os povos e mesmo da cidadania terrestre. Por exemplo, hoje, a Anistia Internacional, o Green Peace, os Médicos sem Fronteiras, muitas ONGs são cidadãos do planeta, ou seja, não se interessam apenas pelas suas respectivas nações. A meu ver, a segunda mundialização é aquela que poderia fazer da Terra uma pátria comum, sem que percamos nossa pátria de origem. Essa é a incerteza do próximo século. Como eu não sou profeta, não posso dizer o que vai acontecer.

Alguns economistas, basicamente americanos, começam a pensar que toda essa tecnologia, entrando no cotidiano das pessoas, permitirá que haja uma distribuição de renda mais correta, honesta, enfim, mais justa. Qual é a sua opinião?

O desenvolvimento das produções das culturas de cereais, de arroz e a aqua cultura permitem, hoje em dia, alimentar todos os seres humanos. Mas os famintos existem, os problemas de desnutrição continuam porque quando se ajuda um país que sofre de fome, a maior parte dos recursos é desviada pelas máfias, pela burocracia e pela corrupção. E os economistas sempre cometem erros, próprios deles, julgando que é a Economia que pode resolver todos os problemas. Eles, até o presente momento, freqüentemente se enganaram, incapazes de evitar as crises e de prever o futuro, pois a Economia é uma ciência fechada que não se dá conta de todos os aspectos, sejam psicológicos, sociais, culturais ou históricos.

A Economia não está separada do mundo. Um grande economista liberal, Friederich Von Hayeck, disse que um economista que é somente economista é um animal pernicioso.

Um sociólogo americano chamado Richard Sennet lançou um livro no qual defende a idéia de que a globalização acabará com a solidariedade dos trabalhadores e, portanto, com a ética deles. Ele diz que sem solidariedade não há ética. O que o senhor pensa sobre isso?

A crise da solidariedade começou antes da globalização atual, pois em todos os países economicamente desenvolvidos existe o individualismo exagerado, oriundo da degradação de antigas solidariedades, como a familiar, da cidade, do bairro, etc. A integração num trabalho especializado fecha o indivíduo num pequeno setor e o impede de ver os problemas globais.

O desenvolvimento adotado pelas economias monetárias também vai num sentido contrário ao da solidariedade. Surge, dessa situação, a crise da solidariedade, ou seja, uma crise da ética. O alimento para a crise é a extensão do liberalismo econômico no mundo inteiro. Mas, a meu ver, a resposta a essa crise está na regeneração da solidariedade e se tomarmos consciência de que somos cidadãos de um mesmo planeta, de que teremos todos os mesmos problemas vitais e de que devemos civilizar a Terra, poderemos tornar a ser solidários. É por isso que eu digo que existe uma segunda globalização mais importante e que vai no sentido contrário à primeira, mas que, infelizmente, é muito mais frágil.

O que o senhor entende por ecologia da ação?

Quando empreendemos uma ação, especialmente no domínio público ou social, esta ação, quando ingressa no meio social e econômico, vai parar de obedecer às nossas intenções, pois sofrerá diferentes influências e se desviará do seu sentido, rumando muitas vezes em sentido contrário à nossa vontade. Isso significa que não é suficiente termos boas intenções. É preciso termos boas estratégias para impedir que a ação tome um sentido contrário. É disso que geralmente nos esquecemos: de que a ação escapa do seu autor e de que freqüentemente pode ter conseqüências inversas da sua intenção inicial.

O senhor afirma que o homem habita a Terra ao mesmo tempo prosaica e poeticamente. Será que o senhor pode nos desenvolver essa idéia?

Prosa e poesia não são apenas gêneros literários. São duas maneiras de viver. Quando vivemos prosaicamente, realizamos coisas obrigatórias, por vezes entediantes. Coisas que não nos trazem emoção e que, algumas vezes, são atividades cansativas. Somos obrigados a realizar certas atividades prosaicas para sobreviver e para ganhar a vida, por exemplo. A qualidade poética da vida é a qualidade que encontramos na comunhão entre as pessoas: nas festas, no fervor, no amor, no futebol, nos poemas, enfim, em todas as coisas que dão uma intensidade afetiva. A meu ver, existe um excesso de prosa na vida porque obedecemos muito à lógica das máquinas artificiais, às inteligências artificiais, e não olhamos suficientemente para a lógica do ser vivo, uma lógica segundo a qual viver é expandir-se afetiva e intelectualmente.

A medicina parece estar conseguindo resultados positivos para prolongar a vida do homem. Como fica a morte diante dessa possibilidade?

Até o momento, o prolongamento da vida humana não é sempre um prolongamento da vida de seres humanos com plena saúde, de posse de suas forças físicas. Prolonga-se a vida dos seres humanos em estado de enfermidade lamentável. Portanto, a solução não está em prolongar a quantidade de vida; é preciso agregar qualidade. Seja em qualquer medida, o prolongamento da vida terá um limite, ele não será capaz de suprimir a morte. A morte restará como um problema fundamental para o ser humano. Hoje em dia, nas condições culturais em que nos encontramos, as pessoas gastam muito tempo tentando reencontrar a si próprias, em saber o que são, o que elas querem mas, freqüentemente, descobrem as respostas tarde. Muitas pessoas envelhecem sem realizar aquilo que gostariam de ter realizado.

Neste século, o homem conseguiu promover duas coisas extremamente contraditórias: nunca matou tanto o ser humano, e, ao mesmo tempo, nunca evoluiu tanto no conhecimento, nas Ciências, na Filosofia e na compreensão do homem. Como o senhor analisa essa contradição?

Na medida em que o homem detém o conhecimento especializado em múltiplos domínios, os progressos do conhecimento não são suficientes. Nós detemos um conhecimento capaz de religar todos os elementos separados num pensamento mais rico e global. O conhecimento científico não traz, por si só, a conseqüência moral. A Ciência é conhecer por conhecer. A moral é outra coisa.

Portanto, temos sempre o mesmo problema que se traduz num déficit ético. Além do mais, a Ciência possui dois aspectos: o aspecto de conhecimentos maravilhosos e o aspecto destrutivo, como a bomba atômica e a manipulação genética. A técnica foi colocada a serviço da barbárie e nós vimos isso durante as duas guerras mundiais. Nós ainda não saímos, digamos, da barbárie do espírito humano para ingressar em uma época civilizada.

O que o senhor entende por pensamento complexo? Como pode ser engendrada a reforma do pensamento?

Nós vivemos numa época em que o ensino nos ensina a separar as coisas e não a religá-las. Um bom conhecimento é um conhecimento capaz de apreender (captar) a complexidade daquilo que se passa, além de situar as informações num contexto, considerando os fenômenos globais. A complexidade é tudo o que está misturado. Podemos salientar que o conhecimento é insuficiente em relação a toda complexidade dos problemas do planeta e da humanidade em geral. Eu acredito que é preciso reformar o pensamento, ou seja, reformar o ensino, pois os espíritos devem estar preparados para enfrentar a complexidade do mundo. Eu insisto, também, que em nenhum lugar nos ensinam como afrontar a incerteza. O destino humano, individual ou histórico, é incerto. A meu ver, existe muita reforma de pensamento a ser realizada para que sejamos capazes de nos defrontarmos com as tarefas gigantescas do século que chega. Vivemos em uma época em que o mundo está no interior de cada um de nós: de manhã, lendo o noticiário europeu, tomo um café que vem do Brasil e um chá que vem da Índia. O mundo está no interior de mim mesmo. Nas favelas brasileiras, o mundo está presente de uma outra maneira, porque o desenvolvimento da monocultura expulsou os camponeses de sua terra. Nessa favela são utilizados o alumínio e o material plástico que vêm desta civilização mundial.

André Breton, numa das máximas sobre o surrealismo, disse que era importante não separarmos a arte da vida, pois arte e vida são uma coisa só. Isso é possível ainda hoje?

É uma idéia muito justa. André Breton, a quem tive a honra de conhecer pessoalmente, tinha, assim como os surrealistas, a idéia de que a poesia devia ser vivida. Isso significa que a arte não é um luxo, lazer ou divertimento. A arte nos fala de nós mesmos, dos problemas de nossa vida. Se tomarmos, por exemplo, a última obra de Beethoven, no final, ele quis escrever o sentido de sua música. Ele escreveu "Mussen es seinen? Es mussen sein" ("É possível todas as tragédias da vida, todas as dores da vida, todas as dificuldades da vida? Sim, é possível"). A primeira frase é a revolta contra o destino e a segunda nos diz que é preciso aceitá-lo.

Beethoven nos deixa diante de suas contradições. Cada um de nós deve se revoltar contra o destino e aceitá-lo ao mesmo tempo.

Neste século, nos deparamos com duas concepções filosóficas distintas, a de Jean Paul Sartre e a de Albert Camus. A qual pensamento o senhor se filiaria, na visão que Camus tinha da vida em especial, ou em Sartre, com sua visão existencial e política?

É evidente que sob o plano político e moral, filio-me a Albert Camus, porque Sartre mistificou os falsos julgamentos políticos, notadamente sobre a União Soviética, o comunismo etc. Albert Camus, desde o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima, viu que esse fato representava uma tragédia para a humanidade. Sartre não percebeu isso. Camus permaneceu um personagem ético e político muito importante. Existem aspectos na filosofia de Sartre que são muito interessantes, mas eu creio que Camus se mostrou à altura dos desafios do século e Sartre respondeu muito mal aos mesmos desafios.

Sobre a questão do feminismo neste século: a mulher desempenhando um papel igual ao do homem, e o homem ocupando um lugar às vezes igual ao da mulher. Do ponto de vista do equilíbrio social, o senhor acredita que os espaços avançaram?

O equilíbrio pode se realizar quando a mulher, por meio da emancipação, passar a realizar atividades que, antigamente, eram reservadas aos homens. O homem também exerce atividades reservadas às mulheres, como lavar a louça, cuidar das crianças, etc.

O equilíbrio ocorre quando há uma relativa feminilização do homem e uma relativa masculinização da mulher.

***

fonte: http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=68&Artigo_ID=611&IDCategoria=810&reftype=2

*** 

Revista E, Sesc SP, nº 29, Ano 6, outubro de 1999

http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link_home.cfm?Edicao_Id=68&breadcrumb=2&tipo=3

***

Palavras-chave: ação, Albert Camus, André Breton, atitude, Breton, Camus, capitalismo, Ciência, civilização, comunismo, conhecimento, conhecimento científico, consciência, contradição, cultura, ecologia, Economia, Edgar Morin, Ensino, entrevista, equilíbrio, especialização, ética, feminismo, Filosofia, globalização, humanidade, individualismo, intenção, internet, Jean Paul Sartre, Morin, mundialização, neoliberalismo, ONGs, pensamento, política, progresso, progressos, revolução, revolução cibernética, revolução tecnológica, Sartre, ser humano, Sesc, sociedade, solidariedade, surrealismo, técnica, tecnologia, texto, textos, vida

Este post é Domínio Público.

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Setembro 28, 2007

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Maio de 2007:

- ... eu estava aprendendo a embedar vídeos, era mais fácil do que parecia...

- Como?

- Inserir um vídeo no meio de um texto...

- Não seria "atachar"?

- "Atachar" é "anexar", como você faz no e-mail... "embedar" é fazer um embed, inserir algo, não é a mesma coisa que anexar...

- Eu não sabia disso... em que ano você está?

- ... no segundo, por quê?

- O que mais te ensinam no BCC?

- HEIM? Peraí, que curso você faz?

- Física...

- ... mas o que é BCC?

- Bacharelado em Ciências da Computação... é o seu curso né! no IME!

"Ai meus deuses!"

- HEIM? QUEM TE DISSE QUE EU ESTUDO NO IME? EU FAÇO LETRAS!

- Tá certo, tô sabendo... até mais!

***

Dois dias depois:

- É você que é a aluna do IME?

"Ai meus deuses... e essa agora!"

- Você tá procurando quem?

- Disseram que tem uma aluna do IME por aqui, pela descrição parece que é você...

"AAAAAIIIIII !!! NINGUÉM MERECE !!!"

- Quem foi que falou isso pra você?

- ... é que tem uma coisa estranha acontecendo no computador, eu não consigo imprimir, e eu não sei mexer com Linux...

- ... tá, peraí, foi alguém que faz Física que falou pra você? Me diz qual é o nome daquela ilustre figura.

- ... eu não sei o nome dele, ele disse que é da Física mas não tinha como me ajudar.

"AI MEUS DEUSES, EU NÃO ACREDITO!!! MALDITO!!!"

- Me desculpa, mas eu sou da Letras, te indicaram a pessoa errada... vou dar uma olhada, mas eu não posso garantir nada.

"... ninguém merece!"

***

Dois meses depois:

- ... lá na obra só tem homem trabalhando, tem hora que cansa ficar lá... imagina, você indo pra lá, só uma mulher no meio de uma bando de cueca...

- Bem, deve ser mesmo um porre trabalhar assim... mas o que é que eu ia fazer numa obra de construção?

- Sei lá, eu não conheço muito bem a área de elétrica, sou formado em Engenharia Civil, vou fazer Elétrica depois, quando der uma folga...

- ... eu acho que não entendi o que você disse.

- Mas que curso que você faz mulher?

"MAIS ESSA AGORA... EU MEREÇO..."

- Eu faço Letras meu amigo...

- Eu jurava que você era da Poli.. você tem cara de engenheira!

"P*Q*P* !!! MAIS ESSA NÃO !!!"

- A gente pode mudar de assunto?

- Desculpa, mas eu tinha certeza que você estudava na Poli !!!

***

Uma semana depois:

- ... mas por causa da Lua em Aquário, acho que fica explicado.

- Você já almoçou?

- Eu tô indo agora!

...

- Eu costumo almoçar aqui sempre depois que eu vou no CCE de manhã, aqui fica bem mais perto que o bandejão da Química...

- Com quem você assiste aula hoje?

- ?

- Em que ano você tá?

- ... no segundo, por quê?

- Mas eu não te vi na calourada...

- Quem foi que te disse que eu faço Física, Henrique?

- Parecia.. desculpa.

- Eu falei que faço Letras... esqueceu?

"ENOUGH!!! I GIVE UP!!!"

(Cidade Universitária, São Paulo, Agosto de 2007)

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Postado por Priscila Frohmut Fonseca | 0 comentário