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Stoa :: Priscila Frohmut Fonseca :: Blog :: Entrevista Edgar Morin - Revista E - outubro de 1999

setembro 27, 2007

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O pensador francês Edgar Morin, que esteve no Brasil no mês passado, a convite do Sesc, faz nesta exclusiva à E uma reflexão sobre o homem diante da revolução cibernética. Fiel a seu estilo, envereda por questões básicas, como ética, solidariedade e morte. Morin, um dos grandes ícones da intelectualidade européia deste século, comenta os avanços e retrocessos experimentados pela humanidade contemporânea, como as conquistas nos campos do conhecimento e da ciência, e a extrema bárbarie provocada pelas duas guerras mundiais e outros grandes conflitos regionais. Discorre sobre a existência de duas mundializações: uma ligada ao capital e, portanto, nociva, enquanto a outra conduz ao congraçamento e à alteridade. Morin fala ainda sobre a importância de reformar o pensamento em benefício do próprio ser humano, para que possa enfrentar com mais instrumentos a complexidade dos problemas e da existência.


Diante da revolução tecnológica, do fim do comunismo, da supremacia do capitalismo, da Internet e de todas essas revoluções, o mundo está melhor? Podemos ser otimistas?

As palavras otimismo e pessimismo, a meu ver, não têm sentido, porque o futuro é incerto. Podemos dizer que a queda do comunismo totalitário é um acontecimento positivo. Porém, em contrapartida, podemos afirmar que o liberalismo econômico não resolverá todos os problemas, além de ser um potencial criador de novos problemas. O desenvolvimento tecnológico sempre foi ambivalente: se a técnica permite liberar os humanos de muitos trabalhos cansativos, por meio da introdução das máquinas nas indústrias, por exemplo; ao mesmo tempo, ele sujeitou-nos à sua lógica, ou seja, a lógica da nação artificial. Os trabalhadores tiveram de se sujeitar à lógica das máquinas, à cronometragem, à especialização, etc. A Internet, que permite múltiplas comunicações, favorece o tráfico financeiro, as máfias, etc. Não podemos pensar que o desenvolvimento tecnológico e econômico propiciará o desenvolvimento moral, psicológico e humano. É preciso entrar no próximo milênio refletindo sobre o que foi o nosso século, que trouxe muitas mortes: morte com as duas guerras mundiais e com os campos de concentração, trouxe a ameaça mortal com o desenvolvimento das armas atômicas e também uma outra ameaça sobre a biosfera, sobre a própria vida.

O que existe como germe de um sentimento positivo encontra-se na multiplicação das comunicações no planeta, no fato de que todos os humanos, onde quer que estejam, têm problemas de vida e de morte semelhantes. A atualidade demonstra que todos os habitantes do planeta vivem em uma mesma comunidade de destino. O problema é, portanto, saber se nós tomaremos consciência desse destino em comum e se faremos uma outra mundialização. O que isso quer dizer? A mundialização que aí se apresenta é baseada na técnica e na economia. Mas existe uma segunda mundialização minoritária que aponta para a mundialização das idéias de humanismo, de democracia, da compreensão entre os povos e mesmo da cidadania terrestre. Por exemplo, hoje, a Anistia Internacional, o Green Peace, os Médicos sem Fronteiras, muitas ONGs são cidadãos do planeta, ou seja, não se interessam apenas pelas suas respectivas nações. A meu ver, a segunda mundialização é aquela que poderia fazer da Terra uma pátria comum, sem que percamos nossa pátria de origem. Essa é a incerteza do próximo século. Como eu não sou profeta, não posso dizer o que vai acontecer.

Alguns economistas, basicamente americanos, começam a pensar que toda essa tecnologia, entrando no cotidiano das pessoas, permitirá que haja uma distribuição de renda mais correta, honesta, enfim, mais justa. Qual é a sua opinião?

O desenvolvimento das produções das culturas de cereais, de arroz e a aqua cultura permitem, hoje em dia, alimentar todos os seres humanos. Mas os famintos existem, os problemas de desnutrição continuam porque quando se ajuda um país que sofre de fome, a maior parte dos recursos é desviada pelas máfias, pela burocracia e pela corrupção. E os economistas sempre cometem erros, próprios deles, julgando que é a Economia que pode resolver todos os problemas. Eles, até o presente momento, freqüentemente se enganaram, incapazes de evitar as crises e de prever o futuro, pois a Economia é uma ciência fechada que não se dá conta de todos os aspectos, sejam psicológicos, sociais, culturais ou históricos.

A Economia não está separada do mundo. Um grande economista liberal, Friederich Von Hayeck, disse que um economista que é somente economista é um animal pernicioso.

Um sociólogo americano chamado Richard Sennet lançou um livro no qual defende a idéia de que a globalização acabará com a solidariedade dos trabalhadores e, portanto, com a ética deles. Ele diz que sem solidariedade não há ética. O que o senhor pensa sobre isso?

A crise da solidariedade começou antes da globalização atual, pois em todos os países economicamente desenvolvidos existe o individualismo exagerado, oriundo da degradação de antigas solidariedades, como a familiar, da cidade, do bairro, etc. A integração num trabalho especializado fecha o indivíduo num pequeno setor e o impede de ver os problemas globais.

O desenvolvimento adotado pelas economias monetárias também vai num sentido contrário ao da solidariedade. Surge, dessa situação, a crise da solidariedade, ou seja, uma crise da ética. O alimento para a crise é a extensão do liberalismo econômico no mundo inteiro. Mas, a meu ver, a resposta a essa crise está na regeneração da solidariedade e se tomarmos consciência de que somos cidadãos de um mesmo planeta, de que teremos todos os mesmos problemas vitais e de que devemos civilizar a Terra, poderemos tornar a ser solidários. É por isso que eu digo que existe uma segunda globalização mais importante e que vai no sentido contrário à primeira, mas que, infelizmente, é muito mais frágil.

O que o senhor entende por ecologia da ação?

Quando empreendemos uma ação, especialmente no domínio público ou social, esta ação, quando ingressa no meio social e econômico, vai parar de obedecer às nossas intenções, pois sofrerá diferentes influências e se desviará do seu sentido, rumando muitas vezes em sentido contrário à nossa vontade. Isso significa que não é suficiente termos boas intenções. É preciso termos boas estratégias para impedir que a ação tome um sentido contrário. É disso que geralmente nos esquecemos: de que a ação escapa do seu autor e de que freqüentemente pode ter conseqüências inversas da sua intenção inicial.

O senhor afirma que o homem habita a Terra ao mesmo tempo prosaica e poeticamente. Será que o senhor pode nos desenvolver essa idéia?

Prosa e poesia não são apenas gêneros literários. São duas maneiras de viver. Quando vivemos prosaicamente, realizamos coisas obrigatórias, por vezes entediantes. Coisas que não nos trazem emoção e que, algumas vezes, são atividades cansativas. Somos obrigados a realizar certas atividades prosaicas para sobreviver e para ganhar a vida, por exemplo. A qualidade poética da vida é a qualidade que encontramos na comunhão entre as pessoas: nas festas, no fervor, no amor, no futebol, nos poemas, enfim, em todas as coisas que dão uma intensidade afetiva. A meu ver, existe um excesso de prosa na vida porque obedecemos muito à lógica das máquinas artificiais, às inteligências artificiais, e não olhamos suficientemente para a lógica do ser vivo, uma lógica segundo a qual viver é expandir-se afetiva e intelectualmente.

A medicina parece estar conseguindo resultados positivos para prolongar a vida do homem. Como fica a morte diante dessa possibilidade?

Até o momento, o prolongamento da vida humana não é sempre um prolongamento da vida de seres humanos com plena saúde, de posse de suas forças físicas. Prolonga-se a vida dos seres humanos em estado de enfermidade lamentável. Portanto, a solução não está em prolongar a quantidade de vida; é preciso agregar qualidade. Seja em qualquer medida, o prolongamento da vida terá um limite, ele não será capaz de suprimir a morte. A morte restará como um problema fundamental para o ser humano. Hoje em dia, nas condições culturais em que nos encontramos, as pessoas gastam muito tempo tentando reencontrar a si próprias, em saber o que são, o que elas querem mas, freqüentemente, descobrem as respostas tarde. Muitas pessoas envelhecem sem realizar aquilo que gostariam de ter realizado.

Neste século, o homem conseguiu promover duas coisas extremamente contraditórias: nunca matou tanto o ser humano, e, ao mesmo tempo, nunca evoluiu tanto no conhecimento, nas Ciências, na Filosofia e na compreensão do homem. Como o senhor analisa essa contradição?

Na medida em que o homem detém o conhecimento especializado em múltiplos domínios, os progressos do conhecimento não são suficientes. Nós detemos um conhecimento capaz de religar todos os elementos separados num pensamento mais rico e global. O conhecimento científico não traz, por si só, a conseqüência moral. A Ciência é conhecer por conhecer. A moral é outra coisa.

Portanto, temos sempre o mesmo problema que se traduz num déficit ético. Além do mais, a Ciência possui dois aspectos: o aspecto de conhecimentos maravilhosos e o aspecto destrutivo, como a bomba atômica e a manipulação genética. A técnica foi colocada a serviço da barbárie e nós vimos isso durante as duas guerras mundiais. Nós ainda não saímos, digamos, da barbárie do espírito humano para ingressar em uma época civilizada.

O que o senhor entende por pensamento complexo? Como pode ser engendrada a reforma do pensamento?

Nós vivemos numa época em que o ensino nos ensina a separar as coisas e não a religá-las. Um bom conhecimento é um conhecimento capaz de apreender (captar) a complexidade daquilo que se passa, além de situar as informações num contexto, considerando os fenômenos globais. A complexidade é tudo o que está misturado. Podemos salientar que o conhecimento é insuficiente em relação a toda complexidade dos problemas do planeta e da humanidade em geral. Eu acredito que é preciso reformar o pensamento, ou seja, reformar o ensino, pois os espíritos devem estar preparados para enfrentar a complexidade do mundo. Eu insisto, também, que em nenhum lugar nos ensinam como afrontar a incerteza. O destino humano, individual ou histórico, é incerto. A meu ver, existe muita reforma de pensamento a ser realizada para que sejamos capazes de nos defrontarmos com as tarefas gigantescas do século que chega. Vivemos em uma época em que o mundo está no interior de cada um de nós: de manhã, lendo o noticiário europeu, tomo um café que vem do Brasil e um chá que vem da Índia. O mundo está no interior de mim mesmo. Nas favelas brasileiras, o mundo está presente de uma outra maneira, porque o desenvolvimento da monocultura expulsou os camponeses de sua terra. Nessa favela são utilizados o alumínio e o material plástico que vêm desta civilização mundial.

André Breton, numa das máximas sobre o surrealismo, disse que era importante não separarmos a arte da vida, pois arte e vida são uma coisa só. Isso é possível ainda hoje?

É uma idéia muito justa. André Breton, a quem tive a honra de conhecer pessoalmente, tinha, assim como os surrealistas, a idéia de que a poesia devia ser vivida. Isso significa que a arte não é um luxo, lazer ou divertimento. A arte nos fala de nós mesmos, dos problemas de nossa vida. Se tomarmos, por exemplo, a última obra de Beethoven, no final, ele quis escrever o sentido de sua música. Ele escreveu "Mussen es seinen? Es mussen sein" ("É possível todas as tragédias da vida, todas as dores da vida, todas as dificuldades da vida? Sim, é possível"). A primeira frase é a revolta contra o destino e a segunda nos diz que é preciso aceitá-lo.

Beethoven nos deixa diante de suas contradições. Cada um de nós deve se revoltar contra o destino e aceitá-lo ao mesmo tempo.

Neste século, nos deparamos com duas concepções filosóficas distintas, a de Jean Paul Sartre e a de Albert Camus. A qual pensamento o senhor se filiaria, na visão que Camus tinha da vida em especial, ou em Sartre, com sua visão existencial e política?

É evidente que sob o plano político e moral, filio-me a Albert Camus, porque Sartre mistificou os falsos julgamentos políticos, notadamente sobre a União Soviética, o comunismo etc. Albert Camus, desde o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima, viu que esse fato representava uma tragédia para a humanidade. Sartre não percebeu isso. Camus permaneceu um personagem ético e político muito importante. Existem aspectos na filosofia de Sartre que são muito interessantes, mas eu creio que Camus se mostrou à altura dos desafios do século e Sartre respondeu muito mal aos mesmos desafios.

Sobre a questão do feminismo neste século: a mulher desempenhando um papel igual ao do homem, e o homem ocupando um lugar às vezes igual ao da mulher. Do ponto de vista do equilíbrio social, o senhor acredita que os espaços avançaram?

O equilíbrio pode se realizar quando a mulher, por meio da emancipação, passar a realizar atividades que, antigamente, eram reservadas aos homens. O homem também exerce atividades reservadas às mulheres, como lavar a louça, cuidar das crianças, etc.

O equilíbrio ocorre quando há uma relativa feminilização do homem e uma relativa masculinização da mulher.

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fonte: http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=68&Artigo_ID=611&IDCategoria=810&reftype=2

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Revista E, Sesc SP, nº 29, Ano 6, outubro de 1999

http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link_home.cfm?Edicao_Id=68&breadcrumb=2&tipo=3

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Palavras-chave: ação, Albert Camus, André Breton, atitude, Breton, Camus, capitalismo, Ciência, civilização, comunismo, conhecimento, conhecimento científico, consciência, contradição, cultura, ecologia, Economia, Edgar Morin, Ensino, entrevista, equilíbrio, especialização, ética, feminismo, Filosofia, globalização, humanidade, individualismo, intenção, internet, Jean Paul Sartre, Morin, mundialização, neoliberalismo, ONGs, pensamento, política, progresso, progressos, revolução, revolução cibernética, revolução tecnológica, Sartre, ser humano, Sesc, sociedade, solidariedade, surrealismo, técnica, tecnologia, texto, textos, vida

Este post é Domínio Público.

Postado por Priscila Frohmut Fonseca

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