Lidiane Soares Rodrigues
Desde que entrei no Departamento de História, a discussão em torno da profissionalização da atividade do historiador faz parte da pauta. A cada greve, Congresso, simpósio, encontros, enfim, saídas cotidianas de rotina, o tema vinha à baila. O argumento dos que defendiam a não profissionalização era irrefutável! “Se para ser historiador dependêssemos apenas do diploma, então Caio Prado Jr. não o seria!” Argumento silenciador. Quem ousaria se opor a qualquer coisa que envolva Caio Prado Jr.? Seu nome entre nós cala de tal maneira que, confesso, dia desses ouvi um geógrafo, daqueles que adoram falar de história, qualificá-lo da seguinte maneira: “muitos dizem que ele é historiador, mas na verdade ele é um geógrafo retrospectivo”. Minha salvação da fisgada dolorida que sinto, quando ouço algum “entendido” emitindo lições sobre a história: Lucien Febvre. Consola-me saber que já por volta de 1920 era hábito dos fatigados com suas disciplinas emitirem juízos que envolvessem a história e depois voltarem à sua atividade (Combates, vocês sabem...). De todo modo, demorei um pouco para me recuperar do susto. Recomposta, reprovei com desgosto a covardia do professor que se aproveitava do completo desconhecimento de sua turma para defender algo que não teriam como contestar, percebi o quanto algumas disciplinas são carentes de referências primordiais, e do quanto (des)entendidos confundem história com retrospectiva. Porém, o mais tocante para mim. Dei-me conta do quanto compartilho com a confraria dos historiadores de alguns valores, muitos dos quais a figura de Caio Prado Jr., historiador sim!, é a síntese mais bem acabada. É interessante que, passada uma década de minhas primeiras aventuras na Faculdade, ainda me lembre da surpresa que a turma de calouros à qual pertencia sofreu ao descobrir que nem aulas no departamento ele havia dado. Ficamos indignadíssimos! E quanto da experiência na base desta indignação não me fez engrossar o coro dos que diziam reiteradas vezes, permaneçamos sem profissão, como Caio Prado?
Não imaginava, naqueles dias em que absorvemos um modo de pensar, um modo de ser e um modo de se colocar que a vida universitária conforma, que iria me dedicar aos temas que hoje tanto me ocupam. (E menos idéia eu tinha ainda do quanto esse período presta auxílio para que se apague, relativamente, as marcas inconvenientes dos trânsfugas de classe que vem de baixo e o esnobismo dos que vem de cima. Contra os pecados dos primeiros, esse texto diz muita coisa. Contra os dos segundos, os mecanismos simbólicos de compensação, como a adoção de elementos de uma suposta dissidência política – no fundo, prerrogativa de classe – tais como roupas sujas, cortes de cabelo cuidadosamente mal feitos, defesa da democracia interna, gírias e todos tipo de adorno associado à rebeldia chic mereceriam uma crônica à parte. Crônica maior da vida institucional seria ainda a que se dedicasse ao encontro desses dois... “tipos”).[1]
Decidida a compreender intelectuais militantes, reconstituir suas trajetórias, escandir seus dilemas – e, sobretudo, quanta pretensão!, as viragens históricas que propiciam os (des)engajamentos – optei por aqueles que, no Brasil, pareciam-me ter se envolvido mais na política partidária, e decerto algo disso se deve à natureza de sua disciplina: os sociólogos. Deparo-me novamente, com o tema da profissionalização. Como se sabe, a campanha dos sociólogos por sua profissionalização, nos anos oitenta, era tributária do envolvimento deles nas lutas sociais, na redemocratização – no que gostam de chamar de realização (finalmente, como lhes parecia) do Brasil moderno.
Porém, é também com a nossa que me deparo. Eles e nós – um tema ao qual poderíamos dedicar, e dedicamos, muito de nossas mais genuínas energias – outro elemento chave daquele modo de ser, pensar e se colocar que a Faculdade nos oferece. Quantas oposições, quantas imagens. Os que se deleitam nas zonas fronteiriças das disciplinas – que fazem eles? Dizem-nos nossos temas cativos, definem nosso horizonte, mas sobretudo, esforçam-se por nos diferenciarem deles. Aliás, deles e também de uma outra categoria. Pois se nós nos ocupamos de “todo acontecer humano no tempo”, no dizer de Marc Bloch (Apologia), os sociólogos parecem-nos fortemente reduzir o acontecer humano, e os jornalistas, o tempo. Podendo ainda os estragos de sociólogos e jornalistas com relação ao acontecer no tempo, serem intercambiáveis com os dos economistas.
Como não tive o bom senso de escolher temas canônicos da historiografia, os chistes de autopromoção de alguns e exclusão de outros que o jogo cordial convoca tocou-me sensivelmente. Militância de sociólogo? Coisa de sociólogo. Depois do XVIII só jornalismo. Ouvi e ri não sem sentir o desafio mesclado à desqualificação. Desvantagens, contudo, não raro exigem superação. Busquei algo mais que uma quantidade de séculos ou tema – metragens confortáveis, convenhamos, a não ser que queiramos ‘dar férias à razão’ – para pensar História. O que encontrei não convém a esta altura, mas diante das vaidades juvenis, dos jogos de auto-afirmação e da illusio deslumbrada, gosto de me fiar em Fernand Braudel:
“(...) ninguém espere encontrar aqui uma resposta, nem sequer uma tentativa de respostas, às habituais perguntas sobre as relações entre história e sociologia ou uma continuação da polêmica, continuamente retomada, ainda que não seja nunca a mesma, entre esses vizinhos que não podem ignorar-se nem conhecer-se perfeitamente e que, nas suas discussões, quando se definem, o fazem unilateralmente... o diálogo do sociólogo e do historiador constitui sempre um falso diálogo”. (História e ciências sociais. Lisboa: Editorial Presença, 1972, p.123).Não preciso elencar exemplos que tornariam enfadonha essa conversa. Todos podemos nos reconhecer em alguma imagem que nos seja mais dileta nessas diferenciações. Essa imagem certamente os transforma em filhos da revolução industrial, terceiro estado ou qualquer coisa do gênero que melhor realce a nossa nobreza. Eis um propósito do qual os empreendimentos mais sinceros para marcar a fronteira entre as atividades não escapa. Há algo mais divertido e demarcador de nossa diferença que lembrar: “Eles já deram presidente para o país”, “eles se consideram cientistas”, “eles têm profissão”? Eis que espelham tudo aquilo que peca contra nossos modelos de excelência política e intelectual e denota um vínculo superficial com o tempo imediato que nos causa absoluto horror. Com efeito, é Caio Prado Jr. que nos inspira, mesmo contra eles. Homem sem profissão, mas não ao modo descompromissado de um Oswald de Andrade. Aristocrata de origem, e... de espírito, cuja ruptura de classe pela adesão ao Partido Comunista não implicou o abandono do habitus, porém o tornou figura ainda mais atraente – evidente no ‘trato fino’ dado às controvérsias, no diálogo que manteve com adversários políticos que um comunista típico eliminaria da interlocução. Convicções políticas sem prestígio partidário. Dedicação à História sem consagração profissional de especialista. Síntese do que de melhor o modernismo paulista produziu como resposta ao dilema cosmopolitismo e localismo. Vida dedicada à história vivida e à escrita da história. Em tudo distinto deles. Convenhamos, o que de melhor gostaríamos de ser. (Então sejamos! E, por favor, lembremos de sua passagem pela FFCL, de que Geografia e História não eram como os cursos atuais e... da prisão que o impede de concluí-los!)
Está em jogo – como não reconhecê-lo – um modelo de excelência intelectual e de elegância com relação aos modos e costumes, do qual a referência ao nosso grande historiador é um expressivo, mas não único, elemento. Ele opera de maneira tão poderosa que não nos damos conta, por vezes de suas incongruências, de suas contradições. Esse estilo anti-capitalista, nutrido pela antiguidade do métier, pelo cultivo do Ancien Régime – muito próprio, por sinal, valeria indagar se o de Napoleão III ou o de Luís XIV – em nossos gostos e prazeres paralisa o debate com relação à profissionalização do historiador, inibe o próprio senso de anacronismo, nossa preciosa pedra de toque. Afirmar que não podemos nos profissionalizar porque “senão aqueles que não fizeram história não serão historiadores, como Caio Prado, por exemplo” é ignorar a história da universidade, da disciplina, enfim, o tempo passado e a (talvez mal sucedida, mas isso não será pensado sequer se não nos detivermos nesse ponto) modernização de algumas instituições que efetivamente fornecem quadros para o estudo da história. Mutatis mutandis, significa afirmar que Klimt não deve entrar no museu, senão Michelangelo deixa de ser arte.
Não defendo, com isso, a profissionalização. Muito menos o abandono de nossa divertida... illusio – preciso esclarecer? Porém, como não lembrar o ABC da sociologia da educação segundo a qual a valorização dos que se formam fora dos sistemas educacionais é prerrogativa dos que os podem dispensar em sua própria formação? Seria padecer de um ensimesmamento pouco inteligente e impedir a (ainda que precária, mas necessária) localização da disciplina no conjunto da produção cultural atual. Defender, como alternativa ao estilo sem profissão, a profissionalização a todo custo, é adotar o filisteu arrivista como modelo de vida. Definitivamente, não!
Profissionalizar a atividade é uma faca de dois gumes, para falar com a língua do terceiro estado, e estão mais ligadas às questões, digamos, ‘sindicais’. Esses dois gumes merecem mais atenção nas discussões, pois, entre historiadores, forjar a auto-imagem aristocrática já é algo um tanto gasto, como uma maquiagem ao fim do dia que começa a dar sinais de que o rosto é mais bonito sem ela. Vale nos ocuparmos menos dos retoques e ir aos problemas que oculta a domicílio. No (falso) diálogo fora da confraria, a brincadeira continua. Mas, não sem alguma dose de melancolia, pois é Clio e não Clotilde que me auxilia, suspeito que não por muito tempo.
São Paulo, janeiro de 2009.[1] Aos que não perdoam a escapada sociológica incontornável nesse termo, lembremos. Também Sergio Buarque os empregou. Respondo ao resto abaixo.
Este post é Domínio Público.
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Comentários
Rafael Sola de Paula de Angelo Calsaverini escreveu:
Eu não acho que carreiras essencialmente acadêmicas devam ser profissionalizadas, regulamentadas ou limitadas de nenhuma maneira.
Aliás, eu sou bastante avesso a esse modelo de delimitação rigorosa do que cada carreira faz e quais são os requisitos, a não ser nos casos em que há necessidade de fato (médicos, engenheiros, e outras profissões que trazem perigo quando não há conhecimento técnico adequado).
Eu sou físico. Também não há regulamentação da profissão de físico, não há delimitações legais do que é necessário para ser físico, nem delimitação do que é que um físico faz, nem estabelecimento de reserva de mercado - de coisas que só físicos podem fazer. Não há conselhos regionais nem nenhum desses artefatos que não são críticos para a minha profissão. E eu acho que essa é a situação ideal.
Eu sou físico, e não consigo delimitar objetivamente o que é que um físico faz. Ele não é limitado pelo que faz, mas pelo que sabe e como emprega o que sabe. Um físico faz modelos quantitativos. Agora, se isso se tornar privativo aos físicos, um monte de economistas e engenheiros vão perder o emprego - o que não é justo, porque eles fazem isso muito bém também nas suas áreas.
A maioria dos físicos trabalha com pesquisa acadêmica. Poucos trabalham na indústria. Alguns no mercado financeiro. Outros com computação de alto desempenho. Em todo lugar onde se precisa de alguém que sabe pensar quantitativamente e construir modelos matematicamente sofisticados, um físico poderá ser contratado. Mas um matemático aplicado também. Um bom engenheiro também. Ou um bom historiador com uma propensão a estudar matemática, que preferiu tornar-se um pesquisador quantitativo.
Veja, no meu doutorado eu trabalho com modelagem quantitativa de sistemas sócio-economicos (ok, no seu departamento isso é algo bem próximo da heresia). Se isso fosse atividade privativa dos economistas e sociólogos, ninguém faria pesquisa nessa área no Brasil, porque não há tradição nessa direção nos departamentos de economia e ciências sociais.
A pesquisa não pode ser limitada em sentido algum e a atividade das pessoas cujo trabalho é primordialmente intelectual não pode ser limitada ou regulada em sentido algum. Não porque o trabalho intelectual seja especial de alguma forma, mas é porque qualquer um é capaz de aprende-lo, e o que separa um historiador de um físico são só alguns anos de dedicação na aquisição de certos conhecimentos e habilidades intelectuais que qualquer um pode fazer.
E não é que um dos físicos mais reverenciados na atualidade se formou em história? Ed Witten trabalha em teoria de campos e física de altas energias. O campo que ele trabalha é o matematicamente mais sofisticado da física contemporânea e uma grande maioria dos doutores em física (por serem de outras áreas) sequer conseguiriam ler os trabalhos nessa área. Eu mesmo não consigo. E a maioria dos matemáticos teria bastante dificuldade também. Entretanto ele é formado em história.
Rafael Sola de Paula de Angelo Calsaverini escreveu:
Deixa eu só clarificar o que eu escrevi aqui:
Me refiro específicamente à modelagem baseada em agente e física estatística aplicada a esses modelos de agentes.
Rafael Sola de Paula de Angelo Calsaverini escreveu:
E no fim das contas, o que é ficar sem profissão? Em que isso acarreta? Quais são os prejuízos?
A regulamentação legal não é a criação da profissão, mas o reconhecimento por parte do estado de que exercer uma dada atividade exige requisitos mínimos e que há atividades que não deveriam ser realizadas senão por pessoas com o mínimo de qualificação técnica.
Eu não acho que física, história, sociologia, biologia, para citar alguns cursos, oferecem qualificação técnica para atividades que não deveriam ser exercidas senão por bacharéis diplomados nessas áreas.
Talvez medir níveis de contaminação radiativa devesse ser privativo dos físicos. Mas um engenheiro tem exatamentes as mesmas condições de fazer isso se fizer um curso básico de radiologia.
Talvez lidar com contaminantes biológicos devesse ser privativo dos biólogos. Mas e os médicos, biomédicos, bio-engenheiros, ... entende? Essas habilidades técnicas podem ser muito bem adquiridas por qualquer pessoa que venha das áreas correlatas. Portanto esse tipo de coisa pode ser muito bem resolvido instituindo-se não regulamentações, mas certificações - o sujeito faz um bom curso complementar e a partir de agora ele é certificado e autorizado alidar com contaminantes biológicos.
Tirando as qualificações técnicas para lidar com coisas potencialmente perigosas, o que é que muda regulamentar ou não uma profissão? O reconhecimento da sociedade da importância daquela atividade?
Não sei. Eu acho que essa gana por regulamentar é algo que está mais associado à alguma necessidade emocional de algumas pessoas de tal ou tal profissão.
Há um projeto tramitando para regulamentação dos físicos. Eu e a maioria dos físicos que eu conheço, achamos a idéia ridícula. Mas como ela foi capitaneada unilateralmente por um cara aleatório aí, sem apoio de ninguém, sem consultar a SBF (Sociedade Brasileira dos Físicos - não é uma entidade de classe legalmente estabelecida mas apenas uma sociedade de físicos) e já foi enviada para o congresso diretamente, então nós nem demos a nossa opinião. O que é uma merda, com o perdão da escatologia.
Lidiane Soares Rodrigues escreveu:
Olá
Fico feliz em ter sido lida por alguém com formação em Física. E, pelo modo como se apresenta, parece-me um híbrido, no sentido de Bruno Latour. Não tenho tempo aqui para lhe falar da pesquisa que desenvolvo, mas híbrida também seria uma designação aproximada do que faço (e, de todo modo, o texto denuncia tudo para os que se localizam na fronteira entre epistemologia e história das ciências)! Creio também, por outro lado, que não identifique a definição de uma ciência com a de uma profissão, senão não teria dito que a "regulamentação legal não é a criação da profissão, mas o reconhecimento por parte do estado de que exercer uma dada atividade exige requisitos mínimos e que há atividades que não deveriam ser realizadas senão por pessoas com o mínimo de qualificação técnica". Com efeito, todo o meu texto só faz sentido com esta óbvia diferença.
No entanto... ele está repleto de referências, que, confesso, sabia que daria em desentendimento, mas esclarecer seria como... ter que explicar uma piada, compreende... Basta então dizer que "Homens sem profissão" é título de uma... digamos, biografia de Oswald de Andrade, remete à sua brincadeira com os chato boys e, sem isso, estamos muito longe de compreender que o texto inteiro é uma grande ironia, tanto para com os arrivistas que querem a profissão a todo custo quanto com os aristocratas (em geral travestidos de outras coisas) que não a querem pois podem dispensar as formalidades rígidas de tudo que se ligue à instituição escolar (lições básicas com P. Bourdieu).
Espero (não) ter explicado a piada, rs.
Boa pesquisa, Lidiane.