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Outubro 19, 2010

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VOTO DE MULHER NÃO É VOTO FEMININO, DILMA PRESIDENTE CONTRA O SEXISMO
 
Lugar de mulher é na cozinha, seja em casa, seja na política. Como já era de se esperar o cenário que deu condições para que tivéssemos uma candidata mulher ao cargo mais alto da República é o mesmo que empurra as mulheres para suas “devidas” posições – e de modo nada explícito, os papéis assumidos pelas mulheres na divisão social-sexual do trabalho da campanha de José Serra é um ataque dos mais eficazes porque não reconhecido como tal, contra a emancipação da mulher e contra a possibilidade de participarem da esfera pública em pé de igualdade com os homens.
O trabalho da boataria difamatória, realizado por duas mulheres de sua campanha, é indicador forte disso: assumem posições simétricas com relação a figura do candidato, Soninha e Mônica Serra. A primeira, na qualidade de coordenadora da campanha na internet, conhecida pela experiência profissional no manejo do imaginário juvenil, jogou papel decisivo na alavanca que empurrou o candidato para o segundo turno, incendiando listas de emails com a bombástica do aborto. Está de parabéns por saber seu papel de mulher: a fofoca. O mesmo vale para a segunda, que assume o papel sorrateiro que cabe à mulher que sabe seu lugar, acusando sua adversária de querer “morte de criancinhas”. O papel “feminino” assumido pelas mulheres nessa campanha também se manifesta entre militantes. Há um telemarketing pró-Serra, que consiste em ligar para residências, procurando reverter os votos de eleitores que no primeiro turno votaram em Marina, com o argumento de Dilma ser a favor do aborto. A maioria das pessoas envolvidas no procedimento são mulheres.  (Correio Braziliense, 16 de outubro de 2010, Ulisses Campbell).  No final de junho deste ano, foi por meio do twitter que a vereadora Mara Gabrilli fez a seguinte pergunta: “Você confiaria seus filhos para Dilma de babá?”. Eis os pontos mais básicos: deslocamento da esfera pública para a privada, lembrando o lugar social da mulher, apelo à imagem da maternidade, o ataque de “mulher a mulher”, que salvaguarda a iniciativa do epíteto “machista” que receberia imediatamente caso partisse de um homem. Elas estão de parabéns. E Dilma?
            As escolhas de Dilma foram passo a passo um enfrentamento do lugar naturalmente reservado a ela. Ela é economista, portanto mais razão que emoção; ela é ex-guerrilheira, portanto mais guerra que paz, ela é candidata ao poder executivo e não fofoqueira ou algo que o valha. Sua biografia desafia o curativo falso nessa ferida aberta que são as relações entre os sexos e põe em xeque a possibilidade de realização dos valores modernos da secularização, da liberdade, da igualdade. Seus adversários – e quiçá, alguns aliados – desnorteiam-se. Chegou-se mesmo a dizer que uma feminista não votaria em Dilma por ser produto de Lula. A falácia do argumento é gritante, porém nada evidente, pois põe de cabeça para baixo as relações sociais. Ora, essa crítica, além de pressupor o ridículo de um partido exclusivamente de mulheres, não atina para óbvio: a acusação de má filha (de Lula) vai de par com a de má mãe (a favor do aborto), casando ambas com o “ela não vai dar conta”, pois, sendo má administradora do lar (esfera privada), também não pode administrar bem o país (esfera pública). Patrimonialismo e patriarcalismo, nada há de novo nesse front, a não ser para quem não sabe atirar e se contenta com fofocas, a não ser o fato de que se escancaram os limites de nossa edificante “modernidade”. Eis o motivo pelo qual voto de mulher não tem que ser feminino, pode ser anti-sexista e chamar a todos (e todas) à famigerada razão.
 
Os autores não vão assinar o panfleto. Temem ser demitidos por delito de opinião. Preferem a reprodução do texto sem atribuição de autoria-propriedade. Uma análise sociológica das relações de gênero na campanha será publicada em revista acadêmica posteriormente, caso José Serra não seja eleito.

 

Este post é Domínio Público.

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Outubro 17, 2010

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Manifesto em Defesa da Educação Pública

Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.
Sob seu governo, a Universidade de São Paulo foi invadida por policiais armados com metralhadoras, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Em seu primeiro ato como governador, assinou decretos que revogavam a relativa autonomia financeira e administrativa das Universidades estaduais paulistas. Os salários dos professores da USP, Unicamp e Unesp vêm sendo sistematicamente achatados, mesmo com os recordes na arrecadação de impostos. Numa inversão da situação vigente nas últimas décadas, eles se encontram hoje em patamares menores que a remuneração dos docentes das Universidades federais.
Esse "choque de gestão" é ainda mais drástico no âmbito do ensino fundamental e médio, convergindo para uma política de sucateamento da Rede Pública. São Paulo foi o único Estado que não apresentou, desde 2007, crescimento no exame do Ideb, índice que avalia o aprendizado desses dois níveis educacionais.
Os salários da Rede Pública no Estado mais rico da federação são menores que os de Tocantins, Roraima, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Acre, entre outros. Somada aos contratos precários e às condições aviltantes de trabalho, a baixa remuneração tende a expelir desse sistema educacional os professores qualificados e a desestimular quem decide se manter na Rede Pública. Diante das reivindicações por melhores condições de trabalho, Serra costuma afirmar que não passam de manifestação de interesses corporativos e sindicais, de "tró-ló-ló" de grupos políticos que querem desestabilizá-lo. Assim, além de evitar a discussão acerca do conteúdo das reivindicações, desqualifica movimentos organizados da sociedade civil, quando não os recebe com cassetetes.
Serra escolheu como Secretário da Educação Paulo Renato, ministro nos oito anos do governo FHC. Neste período, nenhuma Escola Técnica Federal foi construída e as existentes arruinaram-se. As universidades públicas federais foram sucateadas ao ponto em que faltou dinheiro até mesmo para pagar as contas de luz, como foi o caso na UFRJ. A proibição de novas contratações gerou um déficit de 7.000 professores. Em contrapartida, sua gestão incentivou a proliferação sem critérios de universidades privadas. Já na Secretaria da Educação de São Paulo, Paulo Renato transferiu, via terceirização, para grandes empresas educacionais privadas a organização dos currículos escolares, o fornecimento de material didático e a formação continuada de professores. O Brasil não pode correr o risco de ter seu sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados.
No comando do governo federal, o PSDB inaugurou o cargo de "engavetador geral da república". Em São Paulo, nos últimos anos, barrou mais de setenta pedidos de CPIs, abafando casos notórios de corrupção que estão sendo julgados em tribunais internacionais. Sua campanha promove uma deseducação política ao imitar práticas da extrema direita norte-americana em que uma orquestração de boatos dissemina dogmas religiosos. A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontra paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor.

Fábio Konder Comparato, USP
Carlos Nelson Coutinho, UFRJ
Heloisa Fernandes, USP
Theotonio dos Santos, UFF
Emilia Viotti da Costa, USP
José Arbex Jr., PUC-SP
Marilena Chaui, USP
João José Reis, UFBA
Joel Birman, UFRJ
Leda Paulani, USP
Dermeval Saviani, Unicamp
João Adolfo Hansen, USP
Flora Sussekind, Unirio
Otávio Velho, UFRJ
Renato Ortiz, Unicamp
Luiz Renato Martins, USP
Maria Victoria de Mesquita Benevides, USP
Enio Candotti, UFRJ
Glauco Arbix, USP
Laymert Garcia dos Santos, Unicamp
Franklin Leopoldo e Silva, USP
Luis Fernandes, UFRJ
Antonio Carlos Mazzeo, Unesp
Wander Melo Miranda, UFMG
Ronaldo Vainfas, UFF
Caio Navarro de Toledo, Unicamp
Celso Frederico, USP
Armando Boito, Unicamp
Henrique Carneiro, USP
Angela Leite Lopes, UFRJ
Afrânio Catani, USP
Otavio Soares Dulci, UFMG
Laura Tavares, UFRJ
Wolfgang LeoMaar, UFSCar
João Quartim de Moraes, Unicamp
Ildeu de Castro Moreira, UFRJ
Scarlett Marton, USP
Emir Sader, UERJ
Sidney Chalhoub, Unicamp
Marcelo Perine, PUC-SP
Flavio Aguiar, USP
Léon Kossovitch, USP
Celso F. Favaretto, USP
Benjamin Abdalla Jr., USP
Irene Cardoso, USP
Vladimir Safatle, USP
José Ricardo Ramalho, UFRJ
Gilberto Bercovici, USP
Ivana Bentes, UFRJ
José Sérgio F. de Carvalho, USP
José Castilho de Marques Neto, Unesp
Maria Ligia Coelho Prado,USP
Peter Pal Pelbart, PUC- SP
Sergio Cardoso, USP
Ricardo Musse, USP
Consuelo Lins, UFRJ
Iumna Simon, USP
Vera da Silva Telles, USP
Elisa Kossovitch , Unicamp
Edilson Crema, USP
Liliana Segnini, Unicamp
José Jeremias de Oliveira Filho, USP
Sebastião Velasco e Cruz, Unicamp
Ligia Chiappini, Universidade Livre de Berlim
Giuseppe Cocco, UFRJ
Luiz Roncari, USP
Marcio Suzuki, USP
Francisco Foot Hardman, Unicamp
Eleutério Prado, USP
Eliana Regina de Freitas Dutra, UFMG
Helder Garmes, USP
Marcos Dantas, UFRJ
Adélia Bezerra de Meneses, Unicamp
Luís Augusto Fischer, UFRS
Zenir Campos Reis, USP
Alessandro Octaviani, USP
Federico Neiburg, UFRJ
Maria Lygia Quartim de Moraes, Unicamp
Cilaine Alves Cunha, USP
Evando Nascimento, UFJF
Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos, USP
Juarez Guimarães, UFMG
Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, PUC-SP
Marcos Silva, USP
Walquíria Domingues Leão Rego, Unicamp
Sérgio de Carvalho, USP
Rosa Maria Dias, Uerj
Jorge Luiz Souto Maior, USP
Gil Vicente Reis de Figueiredo, UFSCar
Ladislau Dowbor, PUC-SP
Lucilia de Almeida Neves, UnB
Bernardo Ricupero, USP
Joaquim Alves de Aguiar, USP
Maria Lúcia Montes, USP
Eugenio Maria de França Ramos, Unesp
Ana Fani Alessandri Carlos, USP
Mauro Zilbovicius, USP
Jacyntho Lins Brandão, UFMG
Paulo Silveira, USP
Marly de A. G. Vianna, UFSCar
José Camilo Pena, PUC-RJ
Lincoln Secco, USP
Mario Sergio Salerno, USP
Rodrigo Duarte, UFMG
Paulo Nakatani, UFES
Sean Purdy, USP
Adriano Codato, UFPR
Ricardo Nascimento Fabbrini, USP
Denilson Lopes, UFRJ
Marcus Orione, USP
Ernani Chaves, UFPA
Gustavo Venturi, USP
João Roberto Martins Filho, UFSCar
Marcos Siscar, Unicamp
Nelson Cardoso Amaral, UFG
Evelina Dagnino, Unicamp
Vinicius Berlendis de Figueiredo, UFPR
Silvia de Assis Saes, UFBA
Carlos Ranulfo, UFMG
Flavio Campos, USP
Liv Sovik, UFRJ
Marta Maria Chagas de Carvalho, USP
Paulo Faria, UFRGS
Rubem Murilo Leão Rego, Unicamp
Maria Helena P. T. Machado, USP
Francisco Rüdiger, UFRS
Nelson Schapochnik, USP
Maria Augusta da Costa Vieira, USP
Elyeser Szturm, UnB
José Geraldo Silveira Bueno, PUC-SP
Reginaldo Moraes, Unicamp
Luiz Recaman, USP
Iram Jácome Rodrigues, USP
Roberto Grun, UFSCar
Edson de Sousa, UFRGS
Márcia Cavalcante Schuback, UFRJ
Luciano Elia, Uerj
Julio Ambrozio, UFJF
Oto Araujo Vale, UFSCar
João Emanuel, UFRN
Paulo Martins, USP
Analice Palombini, UFRS
Alysson Mascaro, USP
José Luiz Vieira, UFF
Paulo Benevides Soares, USP
Marcia Tosta Dias, Unifesp
Salete de Almeida Cara, USP
Anselmo Pessoa Neto, UFG
Marta Kawano, USP
Ricardo Basbaum, Uerj
Iris Kantor, USP
Fernando Lourenço, Unicamp
Luiz Carlos Soares, UFF
André Carone, Unifesp
Adriano Scatolin, USP
Richard Simanke, UFSCar
Francisco Alambert, USP
Arlenice Almeida, Unifesp
Miriam Avila, UFMG
Sérgio Salomão Shecaira, USP
Carlos Eduardo Martins, UFRJ
Antonio Albino Canelas Rubim, UFBA.
Claudio Oliveira, UFF
Eduardo Brandão, USP
Jesus Ranieri, Unicamp
Mayra Laudanna, USP
Aldo Duran, UFU
Luiz Hebeche, UFSC
Eduardo Morettin, USP
Adma Muhana, USP
Fábio Durão, Unicamp
Amarilio Ferreira Jr., UFSCar
Jaime Ginzburg, USP
Ianni Regia Scarcelli, USP
Marlise Matos, UFMG
Mauricio Santana Dias, USP
Adalberto Muller, UFF
Ivo da Silva Júnior, Unifesp
Cláudio Oliveira, UFF
Ana Paula Pacheco, USP
Sérgio Alcides, UFMG
Romualdo Pessoa Campos Filho, UFG
Bento Itamar Borges, UFU
Tânia Pellegrini, UFSCar
José Paulo Guedes Pinto, UFRRJ
Luiz Damon, UFPR
Emiliano José, UFBA
Eduardo Passos, UFF
Horácio Antunes, UFMA
Laurindo Dias Minhoto, USP
Paulo Henrique Martinez, Unesp
Igor Fuser, Faculdade Cásper Líbero
Herculano Campos, UFRN
Adriano de Freixo, UFF
Suzana Guerra Albornoz, UNISC/RS
Sonia Campaner, PUC-SP
Alexandre Fonseca, UFRJ
Raul Vinhas Ribeiro, Unicamp
Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo, Uerj
Carmen Gabriel, UFRJ
Ana Gonçalves Magalhães, USP
Regina Mennin, Unifesp
Regina Pedroza, UnB
Regina Vinhaes Gracindo, UnB
Elina Pessanha, UFRJ
Elisa Maria Vieira, UFMG
Reinaldo Martiniano, UFMG
Freda Indursky, UFRGS
Frederico Carvalho, UFRJ
Renata Paparelli, PUC-SP
Renato Lima Barbosa, UEL
Antonio Prado, Unicamp
Antonio Teixeira, UFMG
Aparecida Neri de Souza, Unicamp
Ricardo Barbosa de Lima, UFG
Ricardo Kosovski, UNIRIO
Ricardo Mayer, UFAL
Rita Diogo, UERJ
Adalberto Paranhos, UFU
Adalton Franciozo Diniz, PUC-SP
Alcides Fernando Gussi, UFC
Aldo Victorino, UERJ
José Guilherme Ramos, Unincor
Alex Fabiano Jardim, Unimontes
Alexandra Epoglou, UFU
Alexandre Henz, Unifesp
Alfredo Cordiviola, UFPE
Alícia Gonçalves, UFPB
Alita Sá Rego, UERJ
Alvaro Luis Nogueira, CEFET/RJ
Amaury Júnior, UFRJ
Amilcar Pereira, UFRJ
Amon Pinho, UFU
Ana Maira Coutinho, PUC-Minas
Ana Maria Araújo Freire, PUC/SP
Ana Maria Chiarini, UFMG
Ana Maria Doimo, UFMG
Ana Maria Medeiros, UERJ
André Daibert, CEFET/RJ
André Figueiredo, UFRRJ
André Leclerc, UFC
André Martins, UFRJ
André Paulo Castanha, Unioeste
Andrea Franco, PUC-Rio
Andrea Macedo, UFMG
Andrea Silva Ponte, UFPB
Angela Prysthon, UFPE
Angelita Matos Souza, Facamp
Angelita Pereira de Lima, UFG
Aníbal Bragança, UFF
Anita Leandro, UFRJ
Anna Carolina Lo Bianco, UFRJ
Antonio Carlos Lima, UFRJ
Antônio Cristian Saraiva Paiva, UFC
Antonio Justino Ruas Madureira, UFU
Antonio Pinheiro de Queiroz, UnB
Armen Mamigonian, USP
Benito Bisso Schmidt, UFRGS
Benjamin Picado, UFF
Branca Jurema Ponce, PUC/SP
Brasilmar Nunes, UFF
Bruna Dantas, Univ. Cruzeiro do Sul
Bruno Guimarães, UFOP
Carla Dias, UFRJ
Carlos Bauer, Uninove
Carlos José Espíndola, UFSC
Carolina Martins Pulici, Centro Universitário Senac
Cauê Alves, PUC-SP
Celia Rocha Calvo, UFU
César Barreira, UFC
César Nigliorin, UFF
Clara Araujo, UERJ
Clarice Mota, UFAL
Claudinei Silva, Unioeste
Claudio Benedito Baptista Leite, Unifesp
Cláudio DeNipoti, UEPG
Cleber Santos Vieira, Unifesp
Custódia Selma Sena do Amaral, UFG
Daniela Frozi, UERJ
Daniela Weber, FURG
Daniele Nilym, UFC
Dau Bastos, UFRJ
Débora Barreto, UCM
Debora Breder, UCM
Débora Diniz, UnB
Denise Golcalves, UFRJ
Diva Maciel, UnB
Doris Accioly, USP
Doris Rinaldi, Uerj
Douglas Barros, PUC-Campinas
Edgar Gandra, UFPel
Edson Arantes Junior, UEG
Eduardo Sterzi, Faap
Elizabeth Maria Azevedo Bilange, UFMS
Emerson Giumbelli, UFRGS
Ercília Cazarin, Univ. Passo Fundo
Ernesto Perini, UFMG
Eugênio Rezende de Carvalho, UFG
Fabiana de Souza, UFG
Fabiele Stockmans, UFPE
Fábio Franzini, Unifesp
Fábio Franzini, Unifesp
Fernanda dos Santos Castelano Rodrigues, UFSCar
Fernando Fragozo, UFRJ
Fernando Freitas, UERJ
Fernando Resende, UFF
Fernando Salis, UFRJ
Filipe Ceppas, UFRJ
Flavio Fogliatto, UFRGS
Geísa Matos, UFC
George Lopes Paulino, UFC
Geovane Jacó, UECE
Geraldo Orthof ,UnB
Geraldo Pontes Jr., UERJ
Gesuína Leclerc, UFC
Gilberto Almeida, UFBA
Gilson Iannini, UFOP
Giselle Martins Venancio, UFF
Gizelia Maria da Silva Freitas, UFPA
Graciela Paveti, UFMG
Gustavo Coelho, UERJ
Gustavo Krause, UERJ
Hélio Carlos Miranda de Oliveira, UFU
Hélio Silva, UFSC
Henri Acselrad, UFRJ
Henrique Antoun, UFRJ
José Carlos Prioste, Uerj
José Carlos Rodrigues, PUC – Rio
José Claudinei Lombardi, Unicamp
Henrique Antoun, UFRJ
Henrique de Paiva, Uninove
Humberto Hermenegildo de Araújo, UFRN
Ianni Scarcelli, USP
Irlys Barreira, UFC
Isaurora Cláudia Martins, UVA
Ivan Rodrigues Martin, Unifesp
Izabela Tamaso, UFG
Jackson Aquino, UFC
Jacqueline Girão Lima, UFRJ
Jacqueline O.L. Zago, UFTM
Janete M. Lins de Azevedo, UFPE
Jania Perla Diógenes de Aquino, UFC
Joana Bahia, UERJ
Joelma Albuquerque, UFAL
John Comerford, UFRRJ
Jorge Valadares, Fund Oswaldo Cruz
José Artur Quilici Gonzalez, UFABC
José Lindomar Albuquerque, UNIFESP
José Luiz Ferreira, UFERSA
José Messias Bastos,UFSC
José Otávio Guimarães, UnB
José Ubiratan Delgado, IRD- CNEN
Joziane Ferraz de Assis, UFV
Kátia Paranhos, UFU
Kelen Christina Leite, UFSCar
Laura Feuerwerker, USP
Leandro Melo, Senac
Simone Wolff, UEL
Solange Ferraz de Lima, USP
Sônia Maria Rodrigues, UFG
Lena Lavinas, UFRJ
Leonardo Daniato, UniFor
Lia Tomas, Unesp
Liliam Faria Porto Borges, UNIOESTE
Lúcia Maria de Assis, UFG
Lucia Pulino, UnB
Luciana Hartmann, UnB
Luciano Mendes de Faria Filho, UFMG
Luciano Rezende, Instituto Federal de Alagoas
Luciano Simão, UFF
Luís Filipe Silvério Lima, Unifesp
Luis Mattei, UFF
Luiz Fábio Paiva, UFAM
Luiz Paulo Colatto, CEFET-RJ
Luiz Sérgio Duarte da Silva, UFG
Madalena Guasco Peixoto, PUC-SP
Marcelo Carcanholo, UFF
Marcelo de Sena, UFMG
Marcelo Martins de Sena, UFMG
Marcelo Paixão, UFRJ
Marcelo Pinheiro, UFU
Marcia Angela Aguiar, UFPE
Marcia Cristina Consolim, Unifesp
Márcia Maria Menendes Motta, UFF
Marcia Maria Motta, UFF
Marcia Paraquett, UFBA
Marcio Galdman, UFRJ
Marco André Feldman Schneider, UFF
Marcos Aurélio da Silva, UFSC
Marcos Barreto, UFRJ
Marcos Cordeiro Pires, Unesp
Marcos Santana de Souza, UFS
Marcus Wolff , UCM
Maria Amélia Dalvi, UFES
Maria Aparecida Leite Soares, Unifesp
Maria Augusta Fonseca, USP
Maria Cristina Batalha, UERJ
Maria Cristina Giorgi, CEFET- RJ
Maria Cristina Giorgi, CEFET/RJ
Maria Cristina Volpi, UFRJ
Mônica de Carvalho, PUC-SP
Natalia Reis, UFF
Neide T. Maia González, USP
Nelson Maravalhas, UnB
Nelson Tomazi, UEL
Maria de Fátima Gomes, UFRJ
Maria Fernanda Fernandes, Unifesp
Maria Jacqueline Lima, UFRJ
Maria José Aviz do Rosário, UFPA
Maria José Vale, Unicastelo
Maria Lúcia Homem, FAAP
Maria Lúcia Seidl, UERJ
Maria Luiza de Oliveira, Unifesp
Maria Luiza Heilborn, UERJ
Maria Neyara de Oliveira Araújo, UFC
Maria Rita Aprile, Uniban
María Zulma M. Kulikowski, USP
Mariana Cassab, UFRJ
Mariana Cavalcanti, FGV-RJ
Marisa Bittar, UFSCar
Markus Lasch, Unifesp
Marlon Salomon, UFG
Marly Vianna, UFSCar
Marly Vianna, UFSCar
Márnio Pinto, UFSC
Marta Peres, UFRJ
Marta Pinheiro, UFRJ
Mary Castro, UCSal
Miroslav Milovic, UnB
Edson Arantes Jr., UERJ
Moema Rebouças, UFES
Monica Alvim, UFRJ
Monica Bruckmann, UFRJ
Nereide Saviani, Unisantos
Neusa Maria Dal Ri, Unesp
Nina Leite, Unicamp
Nise Jinkings, UFSC
Nora Krawczyk, Unicamp
Olga Cabrera, UFG
Olgamir Amancia Ferreira de Paiva, UnB
Ovídio de Abreu, UFF
Patrícia Reinheimer, UFRRJ
Patrícia Sampaio, UFAM
Paulino José Orso, Unioeste
Paulo Bernardo Ferreira Vaz, UFMG
Paulo Machado, UFSC
Paulo Pinheiro Machado, UFSC
Paulo Roberto de Almeida, UFU
Rafael Haddock-Lobo, UFRJ
Ramón Fernandez, FGV-SP
Raul Pacheco Filho, PUC-SP
Rita Schmidt, UFRGS
Robespierre de Oliveira, UEM
Rodrigo Nobile, UERJ
Rogério Medeiros, UFRJ
Ronaldo Gaspar, Unicastelo
Rosana C. Zanelatto Santos, UFMS
Rosana Costa, UFRJ
Rosemary de Oliveira Almeida, UECE
Sabrina Moehlecke, UFRJ
Sara Rojo, UFMG
Sarita Albagli, UFRJ
Sidnei Casetto, Unifesp
Silviane Barbato, UnB
Silvio Costa, PUC/GO
Simone Michelin, UFRJ
Suzzana Alice Lima Almeida, UNEB
Sylvia Novaes, USP
Tadeu Alencar Arrais, UFG
Tadeu Capistrano, UFRJ
Tania Rivera, UnB
Tatiana Roque, UFRJ
Telma Maria Gonçalves Menicucci, UFMG
Tercio Redondo, USP
Théo Lobarinhas Piñeiro, UFF
Tomaz Aroldo Santos, UFMG
Valdemar Sguissardi, UFSCar
Vera Chuelli, UFPR
Vera Figueiredo, PUC-Rio
Victor Hugo Pereira, UERJ
Viviane Veras, Unicamp
Volnei Garrafa, UnB
Wagner da Silva Teixeira, UFTM
Waldir Beividas, USP
Wilson Correia, UFRB
Adriano de Freixo, Universidade Federal Fluminense
Andre Gunder Frank, UFF
Flávia Nascimento, UNESP
Graziela Serroni Perosa, EACH/USP
Gustavo Caponi, Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC
Helena Esser dos Reis, UFG
Jaime Rodrigues, Universidade Federal de São Paulo/Unifesp
Jaqueline Kalmus, UniFIEO
Joana Ziller – Universidade Federal de Ouro Preto/UFOP
Juliana Tavares, IFF
Luis Guilherme Galeão da Silva, USP
Luiz Mariano Carvalho, UERJ
Maria Margareth de Lima, UFPB
Maria Waldenez de Oliveira, UFSCAR
Nelson Schapochnik, USP
Paulo Rodrigues Belém, PUC/Rio de Janeiro
Raul Vinhas Ribeiro, UNICAMP
Rita Fagundes, UFS
Tercio Loureiro Redondo, USP
Valéria Vasconcelos, UNIUBE/MG
Ana Paula Cantelli Castro, Universidade Federal do Piauí/UFP
Hélio Lemos Sôlha – Professor, UNICAMP
Pedro C. Chadarevian, UFSCAR
Ivaldo Pontes Filho, UFPE
Ricardo Summa, UFRRJ
Ernesto Salles, UFF
Sidney Calheiros de Lima, USP
Claudia Moraes de Souza, Unesp/Marília
Estêvão Martins Palitot, Universidade Federal da Paraíba/UFB
Lilian Sagio Cezar, USP
Gislene Aparecida dos Santos, EACH – USP
Eliézer Cardoso de Oliveira, Universidade Estadual de Goiás
Luiz Menna-Barreto, EACH/USP
Raquel Alvarenga Sena Venera, UFSC
Aida Marques, Universidade Federal Fluminense
Cleria Botelho da Costa, UnB
Ernestina Gomes de Oliveira, Faculdade de Direito do Instituto Superior de Ciências Aplicadas de Limeira
Kátia Menezes de Sousa, Universidade Federal de Goiás
Aluizio Moreira, UFCG
Luiz Gonzaga Godoi Trigo, EACH/USP
Lucas Bleicher, UFMG
Luiz Carlos Seixas, FMU e UniFIEO
Giane da Silva Mariano Lessa, UFRRJ
George Gomes Coutinho, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro
Walter Andrade, Fundação Padre Albino
Antonio Torres Montenegro, Universidade Federal de Pernambuco/UFPE
Regina Beatriz Guimarães Neto, Universidade Federal de Pernambuco/UFPE
Enilce Albergaria Rocha, Universidade Federal de Juiz de Fora
Reinaldo Salvitti, USP
Vania Noeli Ferreira de Assunção, PUC/SP
José Arlindo dos Santos, Fundação Universidade do Tocantins/UNITINS
Jose Carlos Vaz, USP
Marisa Midori Deaecto, USP
Luiz Cruz Lima, Universidade Estadual do Ceará/UECE
Maria do Carmo Lessa Guimarães, Universidade Federal da Bahia/UFBA
Ebe Maria de Lima Siqueira, Universidade Estadual de Goiás/UnU
Alexei Alves de Queiroz, UnB
Francisco Mazzeu, Unesp
Cláudia Regina Vargas, UFSCAR
Fábio Ferreira de Almeida, Universidade Federal de Goiás
Celso Kraemer, Universidade Regional de Blumenau
Gladys Rocha, UFMG
Murilo César Ramos, UnB
Deolinda Freire, Universidade Federal do Triângulo Mineiro
Corinta Maria Grisolia Geraldi, UNICAMP
João Wanderley Geraldi, UNICAMP
Durval Muniz de Albuquerque Junior, Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Rafael Sanzio, UnB
Sônia Selene Baçal de Oliveira, Universidade Federal do Amazonas/UFAM
Arlindo da Silva Lourenço, Uniban
Izabel Cristina dos Santos Teixeira, UFT/Araguaína
Glaucíria Mota Brasil, Universiade Estadual do Ceará
Maria Neyara de Oliveira Araújo, Universidade Federal do Ceará
Alícia Ferreira Gonçalves, UFPB
Francisco Alves, UFSCar
Luiz Armando Bagolin, USP
Igor Fuser, Faculdade Cásper Líbero
Paula Glenadel, UFF
Lana Ferreira de Lima, Universidade Federal de Goiás/UFG
Karina Chianca Venâncio, Universidade Federal de Pernambuco/UFPE
Surya Aaronovich Pombo de Barros, Universidade Federal da Paraíba/UFPB
Fausto Fuser, USP
Silvia Beatriz Adoue, UNESP/Araraquara
Sônia Campaner, PUC/SP
Paulo Henrique Martinez, Unesp
Iram Jácome Rodrigues, USP
Sílvio Camargo, Unicamp
Fernando Nogueira da Costa, Unicamp
Mariana Cassab, UFRJ
Suzana Guerra Albornoz, FURG/Rio Grande e UNISC/RS
Alexandre Abda, FAP/SP
José Edvar Costa de Araújo, Universidade Estadual Vale do Acaraú
Gabriel Almeida Antunes Rossini, PUC/SP
Cláudio Oliveira, Universidade Federal Fluminense/UFF
Aixa Teresinha Melo de Oliveira, CEFET/RJ – UnED/Petrópolis
Flávio Rocha de Oliveira, FESP/SP
Viviane Conceição Antunes Lima, UFRRJ
Rita Maskell Rapold, UNEB
Valter Duarte Ferreira Filho, UERJ e UFRJ
Romeu Adriano da Silva, Universidade Federal de Alfenas
Paulo Cesar Azevedo Ribeiro, Universidade Estácio de Sá
Andréa Lisly Gonçalves, Universidade Federal de Ouro Preto
Álvaro Luis Martins de Almeida Nogueira, Cefet
Welerson Fernandes Kneipp, Cefet
Jarlene Rodrigues Reis, Cefet
André Barcelos Damasceno Daibert, Cefet
Luiz Antonio Mousinho Magalhães, Universidade Federal da Paraíba/UFPB
Maria Cristina Cortez Wissenbach, USP
Denise Helena P.Laranjeira, Universidade Estadual de Feira de Santana
Magnus Roberto de Mello Pereira, Universidade Federal do Paraná/UFPR
Ricardo Cardoso Paschoal, CEFET/RJ
Luciano dos Santos Bersot, UFPR
Sérgio de Paula Machado, Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ
Antônio Alberto Machado, Unesp/Franca-SP
Sérgio Ricardo de Souza, CEFET/MG
Angela Thalassa, Faculdade de Arujá / IESA
Débora C. Piotto, USP
Marcelo Parizzi Marques Fonseca, UFSJ

Este post é Domínio Público.

Postado por Lidiane Soares Rodrigues | 0 comentário

Março 23, 2010

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 NOTA DE ESCLARECIMENTO. Fui convidada pela Comissão da Semana de Calourada de 2010 para dar a aula trote. Pensamos numa aula que, diferentemente das anteriores, não se esgotasse nos primeiros cinco minutos com discussões a respeito do rigor dos exames e bate-boca com veteranos. Para isso, fiz uma bricolage insólita de assertivas que isoladamente são sustentáveis. Caprichamos também nas componentes simbólicas de uma aula: traje professoral, voz, gravidade, biografia e títulos, etc. Deu certo e chegamos a projetos de iniciação científica! Agradeço sinceramente ao convite e à colaboração de todos, “no antes e no durante”. Ao conceber a aula e contemplei alguns dos que muito admiro intelectualmente. Em particular, meu codinome – Bertha Dunkel – foi roubado do nome do alter ego de Roberto Schwarz. Tentei traduzir a biografia dessa vanguardista alemã dos anos vinte para a produção universitária historiográfica. * Como meus leitores são espirituosos o suficiente para identificá-as boutades sinto-me dispensada da petulância de comentar a mim mesma. Por fim, os alucinados pelo marxismo como eu, terão notado que Dunkel lembra Duncker, o editor. E os mais sensíveis terão reparado que, salvo engano, há alguns anos nenhuma pós-graduanda havia sido convidada para essa tarefa – observação com a qual respondo o veterano que, na penúltima pergunta, não conseguiu concluir seu raciocínio e ao mesmo tempo desbancar a professora por meio de um elogio à sua aparência. T[tex][/tex]odos riram. Mas (não sei se) sacaram que o substrato desajeitado do argumento era: como pode (p)ousar aí e falar da subordinação das mulheres, se sua posição é de autoridade, “apesar de sua jovialidade”. As feridas sociais dificultam (mas requerem) o diálogo racional. Vamos a ele?

 * Para quem se interessar: Revista Teoria e prática, n. 3. Abril de 1968.

 

MINI-BIO.

A Profa Bertha Dunkel dispensa apresentações, mas vamos fazê-las, pois a professora, como todos sabem, aprecia a manutenção dos protocolos e da etiqueta. Ela tem se dedicado assiduamente a temas polêmicos e controversos. Enfrentou numerosas críticas desde seu mestrado, em que se dedicou a assunto pouco estudado e cujo título diz tudo por si mesmo:  “Os prazeres da noite: homossexualismo e sodomia entre freiras no Brasil colonial”. Seu trabalho chegou a ser censurado pela Igreja. Em seu doutorado, ao contrario, enfrentou tema muito freqüentado entre nós, e eminentemente dominado por homens, as guerras do século XVI. A pesquisa resultou no trabalho chamado: “Um novo marco geográfico para a Batalha de Lepranto”, no qual pôde, por meio de achados documentais rediscutir o papel da variação climática nas guerras do século XVI europeu. Seu orientador, Fernand Braudel dá nome ao auditório em que nos encontramos. Também foi alvo de muitas críticas, que a professora enfrentou brilhando muito durante três meses de replicas e tréplicas num famoso jornal de grande circulação, foi realmente emocionante acompanhar esse debate. Seus últimos trabalhos, segundo uma entrevista concedida à Revista do Centro Acadêmico, procuraram conciliar duas paixões: a cultura e a revolução socialista. Segundo ela, os temas mais apaixonantes só podem ser enfrentados numa fase mais madura e ela diz começar a se sentir mais segura para se aventurar neles e foi com tal convicção que começou a estudar a facção frankfurtiana do peronismo. Sob orientação de Pierre Bourdieu, investigou então as conexões históricas e sociológicas entre movimentos subversivos da ordem – aos quais, segundo ela, nunca aderiu por ser muito tímida.  Passo agora a palavra a professora que nos honra com sua presença.

FASCISMO NO MOVIMENTO HIPPIE.

PROFA BERTHA DUNKEL.

A História, nossa disciplina, tem o privilégio face outras disciplinas e o dever profissional de aspirar sempre a uma reconstituição o mais completa possível dos eventos e ensaiar interpretações para os mesmos, sob pena de nos transformar o historiador, figura que tem sobrevivido com força desde a Antiguidade mero cronista, compilador de fatos que sequer existem sem uma interpretação já subentendida. Porém, arriscar tais interpretações implica a adoção de método e teoria, sem os quais também não há boa história. Por outro lado, somo sói ocorrer nos trabalhos mais ligeiros manda o bom método que não o exponha em separado, que não se perca tempo com longas tergiversações metodológicas. Dito de outro modo, o bom método não se enuncia em lugar algum e se pratica em toda parte. Da mesma maneira, a melhor defender da visada teórica é seu bom manejo. Sendo assim, vejo-me dispensada da obrigação acadêmica de me filiar com etiquetas teórico-metodológicas e deixo à argúcia dos meus ouvintes, na qual confio, a delicadeza de atinar para esses elementos.

O tratamento desse tema envolve duas escalas – uma macro histórica e outra micro histórica. Convém definir seus termos: macro histórica no sentido de grandes formações civilizacionais, no nosso caso, esse objeto inédito do século vinte, a sociedade civil internacional, fruto de uma particular conjuntura de composição orgânica do capital; e micro escala pois é preciso compreender do coração do homem às estrelas que o cobrem, sendo legítimo investigar também as motivações mais íntimas que nos unem uns aos outros, as experiências compartilhadas que fazem que nos sintamos familiares junto a alguns e estranhos junto a outros – sem regredir a um psicologismo ou subjetivismo metodológico pré científico e romântico altamente burguês. Com o conceito de habitus, já trabalhado por Panofsky, Elias e Bourdieu, e infelizmente em franco processo de vulgarização, pretendo assinalar disposições intelectuais e atitudinais, fruto de uma vivência histórica comum, lastreada pela cisão entre trabalho concreto e trabalho abstrato, que moveram os indivíduos que aderiram tanto ao nazismo quanto ao movimento hippie e às contestações juvenis de 1968. Para dizer tudo de maneira didática: a experiência social vivida pelos que aderiram aos fascismos, ao movimento hippie e às contestações guardam semelhanças substanciais-formais, a despeito de em sua aparência-conteúdo serem simetricamente opostas, sobretudo no sinal ideológico que seu agentes imaginam sustentar.

Mas antes de descermos o foco à essa vivência social compartilhada, na base dos impulsos que como um ímã atraíram os indivíduos, é válido ampliar a escala. Aparentemente, pode-se supor que a prosperidade dos trinta anos gloriosos do capitalismo inaugurada com o fim da segunda guerra cindisse os que nascessem nesse período dos que viveram as crises da primeira metade do século. Trata-se de um equívoco. A crise da primeira metade e a prosperidade da segunda estão ligadas ao grande processo de recomposição orgânica do capital e são formalmente idênticas na produção de valores de uso contra a lei da queda tendencial da taxa de lucros. Como se sabe a composição do capital é responsável pela produção e reprodução das classes sociais – além da burguesia, trabalhadores e exército industrial de reserva. A demografia, por assim dizer, como todas as ciências burguesas, opera no nível das aparências, do empírico imediato, curiosamente num nível pré-científico. Para usarmos uma metáfora bela e ao mesmo tempo didática, a boa história, no dizer de Fernand Braudel não fica admirada com as ondas do mar, mas busca a força subterrânea aos olhos nus torna possível a movimentação e existência das ondas. Sendo assim, a chave da compreensão das classes sociais precisa ser encontrada na movimentação do capital, que não se confunde com períodos de prosperidade ou crise, ao contrário, fetiches da aparência, essas fases escondem identidades formais profundas. E por isso é importante avaliarmos os juízos dos homens a respeito de sua própria reprodução, com efeito, são ventríloquos da demanda por mão de obra e reserva da mesma, emitida pelo capital. Para dizer tudo de maneira simples: a primeira e a segunda metade do século XX em que se pese a aparência de anos de crise e de anos gloriosos têm fundamentalmente a mesma composição orgânica sendo a prosperidade e a crise uma maneira de manter tal composição. Razão pela qual essas duas bandas do século deram origem a dois movimentos políticos que lhes são similares. Na aparência, prosperidade e crise se opõem, na essência, coincidem; na aparência, fascismo e hippies se opõem, na essência, que se encontra pela mediação da forma, coincidem. Simétricos inversos no conteúdo, são frutos da mesma forma social que se inverte na aparência.

Vale notar, a geração fascista (nascidos 1920) e a geração 68 têm em comum o fato de serem filhos de pais que viveram guerras, cresceram e se formaram dentro de um habitus comum. Habitus é o conjunto de predisposições atitudinais e intelectuais adquiridos de maneira irrefletida e se caracteriza por uma estrutura que é também dinâmica. Se o indivíduo incorpora a disciplina por exemplo, ele vai traduzi-la nos espaços que passa a socializar imprimindo a ela novos significados. Daí ser estrutural – como predisposição – mas dinâmico – ganhando outros sentidos variáveis. Nota-se que os hippies herdaram dos fascistas alguns elementos estruturais e dinâmicos e que tanto uns quanto outros se comprometem com a manutenção do status quo, sendo profundamente conservadores. Apresentarei sumariamente, de maneira propedêutica e evitando a acrimônia, alguns deles. A documentação, pedra de toque de nosso métier será parcialmente apresentada na exposição, por meio da biografia de Antoine Daniel Sacher-masoch e também por alguns materiais por meio dos quais procuro me desvencilhar da tendência papirocêntrica da produção historiográfica diplomática mais recente.

            As aproximações a serem estabelecidas entre o movimento hippie e o fascismo podem ser assim sumariadas em dois grandes flancos – um que diz respeito a visão de mundo e outro que consiste na micro-sociabilidade.

            No que tange ao primeiro ponto, é sobejamente conhecida a adoração da natureza pelos hippies. Ora apropriando-se da mitologia grega, associando a natureza à deusa Gaia, ora de outras culturas, como a Pacha mama andina, criou-se uma mitologia sobre a natureza e sobre a necessidade de voltarmos a ela, ao que seriam nossas raízes. Trata-se de um entre tantos movimentos que expressam a estafa com relação ao avanço da racionalidade moderna que pode ser interpretado como uma tentativa de reencantamento do mundo, para lembrar Max Weber. A adoração à natureza como parte de uma movimentação anti-moderna se sustenta na hipótese de que o desenvolvimento industrial impulsionado a partir do século XIX haveria interferido no equilíbrio interno da natureza e do homem com ela. Ao pressupor que este equilíbrio alguma vez existiu, os hippies se afastam das grandes descobertas da física quântica e se aproximam de seus irmãos, os nazistas. Os estudos hoje –tanto em física como em biologia - percebem justamente que a natureza, de certa maneira, funciona através de um modelo baseado no desequilíbrio. Através da chamada Deutsche Physik – desenvolvida pelos cientistas nacional-socialistas Philipp Lenard e Johannes Stark em oposição a física quântica judaica, cosmopolita e portanto, moderna de Einstein e Heisenberg – se combateu as idéias de um total desequilíbrio, de relações totalmente instáveis na natureza. Para estes físicos, eterna era a mãe natureza e indecifráveis muitos de seus mistérios. Fazia-se necessário que, em um sistema que apregoava a harmonia racial, social e econômica, uma concepção semelhante de natureza. E semelhante concepção tem os hippies sobre a natureza. Sabe-se que, movidos pela aposta na busca do equilíbrio perdido, os hippies se valeram de  pedras energizantes e demais materiais para promover a harmonização do ambiente. A busca de equilíbrio pelos fascistas seria encontrada por meio da eliminação de uma natureza desequilibrada, ou seja, o corpo de crianças deformadas, pobres, judeus, ciganos e outros grupos abarcados pela política de extermínio.

Equilíbrio e desequilíbrio são centrais nas concepções de arte dos fascistas. O ideal de corpo belo como aquele que tem suas medidas em equilíbrio era retomado do renascimento que por sua vez retomava dos gregos. As esculturas traduziam o ideal de perfeição do corpo e no regime fascista havia um cultivo das atividades físicas que garantissem a manutenção nos indivíduos desse ideal. Ora, entre os hippies, o ideal de beleza é inequivocamente o mesmo. Tal assertiva é defensável e indiscutível se colocarmos em tela a figura social que nas sociedades não igualitárias, concentra em seu percurso social, visão de mundo, obrigações e desejos a opressão de que todos os grupos inferiorizados são vítimas. Essa figura é a mulher segundo F. Engels. Vejamos. Curvas sinuosas, cabelos longos, posam languidas, sensuais em todas as imagens produzidas pelo movimento hippie. É impossível que em nossas retinas não se ative a imagem do Nascimento de Venus de Boticelli, um dos marcos da releitura do ideal grego de beleza –e, também entre os hippies esse corpo feminino ideal venha acompanhado de símbolos da fertilidade como flores remetendo à genitália. Note-se que, se entre os hippies não há sequer o estimulo à prática esportiva para manutenção da beleza do corpo é porque o ideal de adoração da natureza condensa um caráter ainda mais opressivo à mulher: que deve ser naturalmente bela; escondendo que mesmo a beleza é fruto de uma série de constrições sociais e políticas. Como é sabido, o fascismo queria controlar as mulheres de forma não coercitiva, direcionando-as para atividades sociais. O mesmo parece ter feito o movimento hippie na medida em que associava a exposição do corpo à sua emancipação, reiterando com isso o culto à matéria física, a beleza natural e a obrigação de se enquadrar dentro dela.

O movimento hippie, o fascismo e as contestações de 1968 compartilham também a valorização de uma aura de escândalo e subversão. Imbricados com o culto da natureza, da beleza natural se encontram um forte anti-intelectualismo, o estímulo à desrazão emocional e o apelo ao espontaneísmo – traços que aparentemente entram em contradição com a disciplina militar, mas são cultivados como fermento da guerra e elementos prévios à adesão ao fascismo. O rechaço dos hippies a todo tipo de trabalho converge nesse sentido com a queima de livros dos fascistas – posto que valorizam não a invenção ou produção que seja fruto de trabalho contínuo e assíduo mas aquelas obras que brotam da consciência de um gênio, que em geral se torna um grande ídolo. Dispensável, pela obviedade da aproximação, indicar que a adoração ao füher, ao duce se aparenta àquela dedicada aos músicos em Woodstock, aos líderes estudantis que em 1968 se tornavam mais lideranças quanto mais repetissem que não eram autoridades.

            Todas essas aproximações são contudo, bastante banais se comparadas com a consideração do habitus incorporado de uma geração pós guerra a outra. Os grupos de fascistas e nazistas se formam naquilo que Elias denominaria configuração de tipo especial. Se uma configuração “é uma formação social de tamanho variável, em que os indivíduos estão ligados por um modo específico de dependências recíprocas e, onde a reprodução supõe um equilíbrio móvel dessas tensões”; a tensão fundamental que dá o caráter de um grupo fascista é o estímulo à subversão da ordem, com a eliminação daqueles que não estão no interior do grupo por meio da ridicularização, do rebaixamento. Suspeito que seja desnecessário os exemplos de violência contra judeus por parte de fascistas ou de agressão simbólica aos mais velhos e trabalhadores que não dispõem do tempo livre socialmente necessário para o estilo de vida hippie.

Se uma configuração denomina uma sociabilidade, cujo padrão de convivência intensa e envolvente estabelece laços azeitados pela intimidade e ao mesmo tempo pela competição, é preciso indagar o que atiça a competição em cada figuração social. Na corte, por exemplo, o prestígio estava ligado à proximidade para com o rei. Espécie de obsessão fetichista pelo poder, na medida em que todos se agrupavam a seu redor por favores e eram abençoados material e simbolicamente, e, sem jamais chegarem a exercer o poder de rei, exerciam um poder sobre o rei, pois este precisava cultivar nos súditos os caprichos dos mesmos que o sustava em sua posição.  

Uma configuração consiste em estar imerso, preso ao jogo social ao mesmo tempo em que prende aos outros nesse mesmo jogo não reconhecido como tal e cuja natureza torna impossível de se reconhecer como preso nele: trata-se de uma interdependência entre os envolvidos. Não há melhor exemplo de violência simbólica, caracterizada por fazer do indivíduo sujeito e objeto da dominação simultaneamente, mecanismo pelo qual os envolvidos não se percebem nem como dominados pelos outros, nem como dominando os outros, espécie de méconaissance, cumplicidade dos agentes em torno do jogo. Nesse sentido, a violência simbólica é exercida sobre e com os iguais do grupo, no sentido anteriormente mencionado, contra aqueles que não fazem parte do grupo. Não por acaso aqueles que aderiam aos grupos, uma vez no grupo – fascista ou hippie – sentiam-se bem, mais fortes, empenhavam-se com todas as forças para atender aos padrões de comportamento do grupo, e declaram que o fizeram de maneira livre, porque “quiseram”. Ora, esta predisposição, herdada por meio dos pais, vem, de todo modo, da instituição do exército, evidente no caso dos fascistas, mas maquiada no caso dos hippies. Isso pode ser comprovado – meu ponto anti-papirocêntrico – pela concordância a respeito de vestir-se de maneira idêntica, como no exército, pela fuga da construção da individualidade, para o que os momentos de solidão são indispensáveis, pela busca por perder-se no coletivo.

Não preciso retomar o ponto, como em todas as configurações não-igualitárias, a mulher é mais uma vez a melhor expressão da coerção. Nos grupos, tanto de hippies quanto de fascistas há interrelações assimétricas e um jogo projetivo. A reprodução interna do grupo é garantida com as uniões matrimoniais e as mulheres que não corresponderem ao padrão de beleza estabelecido são expulsas do grupo, no mesmo passo em que os casais que se formam garantem a reprodução dele. Dito de outro modo, são socialmente expulsas pelas relações padrão de reprodução – não é preciso traduzir isso em leis formais. Lili Brik, uma cientista social russa realizou uma pesquisa em arquivos recentemente abertos a respeito do percurso pregresso e posterior dos que foram a Woodstock e num primeiro momento foi surpreendente descobrir que 87,5% dos casais que se formaram na ocasião permaneceram juntos. Uma taxa inferior foi inferida da pesquisa com casais que se conheceram em bailes fascistas, pois os homens morreram na guerra. Mas, descontando-se essa parcela, e fazendo a tabulação dos casamentos daqueles que se conheceram pela freqüência aos bailes nazistas e não tiveram os cônjuges mortos na guerra, chega-se a um percentual de 89% como índice de indissolubilidade do casamento. Como se vê, a conduta dos hippies a respeito da liberação sexual trai a prática do casamento monogâmico e duradouro, e os aproxima dos fascistas.

Tive a oportunidade de entrevistar uma mulher que conheceu seu marido em Woodstock pois estive lá quando dos preparativos para a comemoração dos quarenta anos do evento, com uma bolsa da Fundação Rockfeller, ano passado. Ela se chamava Mary Smith e me disse: “Agora, tanto tempo depois, olho para trás e vejo as coisas com um pouco mais de clareza, percebo que a vontade que eu tinha de me impor como diferente, de traçar minha vida em outros moldes e o quanto estava presa aos modelos tradicionais de minha infância. Fiquei surpreendida ao verificar o quanto isso é perceptível aos outros. Outro dia minha filha me dizia que apesar da nossa casa e da nossa vida ser completamente diferente, por vezes, sente em nossa ambiente uma repetição fiel da casa da avó”.

Ora, não fiquemos nas superestruturas sem base. Os juízos sustentados por nós a respeito da família não passam de epifenômenos dessa estrutura substancial que é a composição do capital. Isso explica por que fascistas, hippies e estudantes revoltados sustentam tais idéias e práticas a respeito dos hábitos sexuais e das modalidades sociais de reprodução. A propalada liberação sexual proposta em Woodstock ou nas barricadas em 1968 tem como mesma finalidade: o estímulo à reprodução da raça verificado entre nazistas. Não por acaso, as uniões matrimoniais estabelecidas entre jovens revoltosos nas mobilizações são tão duradouras. A ideologia do amor livre e da família alternativa trai a prática social cerrada dos pequenos grupos em que o jogo projetivo estabelecido entre os indivíduos estabelece uma configuração micro-sociológica de interdependência em que todos são imbuídos do desejo de ali estar e ali permanecer, para o que as uniões conjugais colaboram. Por mais que os hippies defendam a supressão da coação pela liberdade, no nível de sua sociabilidade essa proposta  leva à liberdade de coagir sem se sentir coagido o objeto da coerção, tão envolvido na rede que se encontra. O mesmo pode ser observado entre os grupos de jovens nazistas, com a ressalva de que eles não precisam sustentar verbalmente um ideal inviabilizado em suas práticas sociais. Também eles coagem os indivíduos a certos comportamentos sem que isso seja planejado ou pensado. Tratam-se de configurações. Em suma, apesar de terem aparentes valores de uso político distintos, os hippies e os nazistas são substancialmente o mesmo se analisarmos a forma do valor e o trabalho abstrato necessário para a produção da barbárie do extermínio nos nazistas e da emancipação humana na versão hippie ou nas dos soissent oitard. (!)

Acima sugeri, contudo que o nível mais profundo e, portanto mais significativo historicamente seria a consideração do mote atiçador da configuração nos redutos hippies e fascistas. Ele pode ser formulado de maneira sintética da seguinte forma: tanto a interdependência entre os agentes quanto a competição se estabelece em torno da busca pelo coeficiente de dissidência mais alto. Isso não é formulado explicitamente mas todos os agentes de uma configuração se sentem impelidos a atitudes de transgressão física, moral, sexual, afetiva, intelectual.

            Sabe-se que os hippies buscavam expandir a consciência, ir contra os parâmetros sociais, destruir as regras de conduta socialmente estabelecidas, identificadas como coercitivas. Ora, a ausência de regras leva ao arbítrio como única regra. Uma ordem social erigida sobre o arbítrio é o que se encontra em regimes que emanam não da impessoalidade das regras a que todos igualmente se submetem, mas do arbítrio da vontade de um indivíduo ou de um grupo que toma o poder e modifica as regras de acordo com o que estabelece, podendo mudá-las também desregradamente. Não é preciso descrever a escalada nazista na Alemanha para se ver que assim se deu o processo.

            Transgredir todo o possível, por isso disputavam hippies e nazistas. Trata-se, indubitavelmente, de uma CONTRADIÇÃO DO IDEAL DE SUBSTITUICAO DA COACAO PELA LIBERDADE E CHEGADA À LIBERDADE DE COAGIR E SER COAGIDO SEM RECONHECER NAS SUAS PRÁTICAS O FENÔMENO. A  maneira de se vestir do jovem dos anos sessenta oferece provas irrefutáveis disso, pois trata-se de um tempo em que até no modo de se vestir a dissidência precisa ser sustentada. Daí a adesão maciça ao unisex, o blue jeans, “sinal sensível da busca de igualdade sexual pregada pelo grupo. Apagava-se com isso a diferença entre os sexos para realçar a diferença entre as gerações. (ainda que aqui Woodstock requeira uma observação em particular – a nudez de todos remete a um tenso apagamento da diferença entre os sexos, todos nus, todos iguais; porém, a natureza, ponto antes abordado é que confere identidade aos sexos – mais um procedimento que naturaliza as relações sociais). Curiosamente, “todos os jovens irmanaram-se numa moda que simbolizava o novo, o revolucionário e o moderno. Essa postura foi, sem dúvida, uma das contradições de uma geração que reivindicava um mínimo de pressão externa contida no ‘cada um na sua’ que se transformou num lema geracional; mas que foi, precisamente, uma das gerações que mais aderiu à uniformidade e cedeu à pressão dos pares nos comportamentos e modo de apresentar-se.”  É preciso recorrer a alguma visada psicanalítica para compreender a contradição em tela. “Considerando que a juventude é um período em que o faz de conta próprio das situações lúdicas infantis deva ser abandonado para que seja possível a entrada no é e não é própria da condição do princípio de realidade, é preciso que ocorra no jovem um distanciamento do presente para a elaboração de um projeto futuro. Em resumo, há que haver o aprendizado da postergação, o abandono do imediatismo onipotente. Entretanto, os jovens da geração 60, com um discurso baseado na liberdade e independência , dimensionaram seu presente baseados em slogans como o tutto e súbito – ideal de vida regido por mecanismos imediatistas de caráter regressivo e onipotente. Os jovens aristocratas europeus deram uma guinada no gosto de falar. Aderiram a um vocabulário e a um gestual até então inaceitável pelo grupo social a que pertenciam – roupas rasgadas e uso de palavrões. É como se cinderela brilhasse mais ao não se vestir esplendidamente, apagando com isso a diferença de classe. Oras, todos sabemos que apagar as diferenças de classe  era também um dos propósitos do fascismo.

Uma hermenêutica biográfica poderia dar conta da perequação de tantos sonhos? É patente a herança da violência que a geração dos 60 recebe da geração da segunda guerra. A violência com o corpo, as guerrilhas, a disposição para a destruição da matéria artística são elementos inconfundivelmente nazistas e hippies. Tome-se um dos ícones deles no Brasil, por exemplo. Em 1968, quando se ia ao teatro, assistir digamos a uma peça de Zé Celso, o espancamento do burguês no palco fazia os burgueses no público regozijar. Quando se assistia a “Os fuzis da Senhora Carrar” recebia-se ao fim da peça, armas. E como não recordar “Proibido proibir”, de Caetano Veloso, cuja letra é expressiva tanto da violência que assinalo quanto da disposição ao rechaço às regras que leva não à ausência dela, mas à regra do mais forte: Os automóveis ardem em chamas / Derrubar as prateleiras / As estátuas, as estantes / As vidraças, louças/  Livros, sim... Dispenso-me de indicar o óbvio anti intelectualismo compartilhado com o fascismo, do “destruir os livros”.

Como havia anunciado e prometido, minha matéria documental seria a biografia de Antoine Daniel Sacher-Masoch. Como seu sobrenome deixa entrever, ele tinha ascendência austríaca. Seus eram colaboracionistas franceses que moravam na Alemanha – ele médico e ela professora de piano; ambos receberam, como muitos casais na mesma condição, treinamento militar. Antoine nasceu em 1946 e cresceu em Strassburg, migrando para Sorbonne para estudar Filosofia, já tendo apreendido alemão e piano desde os quatro ou cinco anos de idade. Portanto, em maio de 1968, nas rebeliões em que participa na Sorbonne tem 22 anos e no agitado festival de Woodstock, no qual estará marcando presença, com Juliette, sua esposa até hoje, que conheceu nas barricadas parisienses, 23 anos. Vale atentar para essas disposições nutridas pela herança do habitus. Envolver-se em movimentos de massa, viajar para vários países, falar várias línguas, migração interna e externa ao país, transgredir a ordem, estabelecer laço matrimonial duradouro e ligado a um projeto político compartilhado são obviamente disposições de comportamento herdadas de seus pais. Não parece coincidência que a disciplina alemã que aprendeu em casa fosse convertida em disciplina para estar presente em todos os grandes eventos da dissidência juvenil de sua geração, para estudar intensamente Ecologia e se tornar, como tantos outros com trajetória idêntica – o próprio Dani Le Rouge, mais famoso – representante do Partido Verde Alemão no Parlamento da União Européia. Também parece ser herdada a disposição a se vestir por uma espécie de mimetismo, como o grupo a que quer pertencer. As fotografias da família ilustram perfeitamente essa assertiva – tanto seus pais em desconfortáveis trajes nazistas, quanto Antoine e Julliete nos aparentemente não obrigatórios trajes hippies em Woodstock.

Poderia multiplicar os meus exemplos, porém acredito que seja suficiente e convincente os já mencionados. E gostaria de saber quais são as questões que têm a me fazer. Pediria apenas aos veteranos que, por gentileza, evitem questões perfunctórias, para não inibir os calouros. Enquanto vocês as formulam, posso comentar a bibliografia da aula.

 

BIBLIOGRAFIA. Aula 22.02.10. Profa. Bertha Dunkel.

 

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Postado por Lidiane Soares Rodrigues | 0 comentário

Junho 24, 2009

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Os Pós-Graduandos da USP-Capital vêm, por meio desta nota, posicionar-se contra o Manifesto de  Dirigentes de Unidades da USP assinado por 38 Diretores de Unidades  no dia 15 de junho de 2009. Entendemos que o apoio conferido à Reitora é também o apoio à repressão violenta e descabida posta em prática pela polícia militar na USP contra as manifestações  democráticas e legítimas de funcionários, estudantes e professores que defendiam seus direitos e pediam a saída da PM do campus*. Denunciamos, dessa forma, a  ilegitimidade de ações que, como essa, geram a criminalização de  movimentos sociais, impedem a livre manifestação e expressão de  idéias e, assim, impossibilitam o diálogo e o respeito aos direitos  humanos e constitucionais. Salientamos, ainda, a contradição exposta  pelo documento quando diretores, sem qualquer diálogo com os segmentos de  suas unidade, assinam um Manifesto que, para defender uma suposta democracia,  apóia incondicionalmente a repressão e a violência na universidade  pública. Esse deslocamento entre o posicionamento dos Diretores e a opinião dos estudantes, funcionários e professores das respectivas Faculdades e Institutos expressa o absurdo da atual estrutura de poder da USP, na qual os Diretores de Unidade, escolhidos pela Reitora, respondem antes a esta que a sua própria comunidade. Além disso, tal Manifesto constitui-se numa fraude política, pois abusa do desconhecimento geral sobre a estrutura de poder da USP: os diretores de unidade não são uma nova força legitimadora das ações da Reitora, uma vez que todos são membros do Conselho Universitário e, por isso, não só são coniventes desde o início com as políticas repressivas, como também são, em muitos casos, seus formuladores. Conclamamos, portanto, ações de diálogo e negociações entre os diferentes segmentos da comunidade USP para que possamos encontrar soluções para os graves  problemas que enfrentamos. Para tanto, defendemos uma reforma  radical da estrutura de poder da universidade em todos os níveis. É  urgente a criação de canais efetivos para que o diálogo se torne a  base de uma Universidade verdadeiramente plural e democrática para a geração e transmissão de conhecimento.

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Junho 10, 2009

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Divulgo - que mais se poderá fazer?

 

---------- Forwarded message ----------
From: Pablo Ortellado <paort@uol.com.br>
Date: 2009/6/9



Caros, abaixo segue o relato que escrevi para a lista dos doutores para a qual envio relatos do Co. Pablo


Prezados colegas,

Eu nunca utilizei essa lista para outro propósito que não informes sobre
o que acontece no Co (transmitindo as pautas antes da reunião e depois
enviando relatos). Essa lista esteve desativada desde a última reunião
do Co porque o servidor na qual ela estava instalada teve problemas e,
com a greve, não podia ser reparado. Dada a urgência dos atuais
acontecimentos, consegui resgatar os emails e criar uma lista
emergencial em outro servidor. O que os senhores lerão abaixo é um
relato em primeira pessoa de um docente que vivenciou os atos de
violência que aconteram poucas horas atrás na cidade universitária (e
que seguem, no momento em que lhes escrevo – acabo de escutar a explosão
de uma bomba). Peço perdão pelo uso desta lista para esse propósito, mas
tenho certeza que os senhores perceberão a gravidade do caso.

Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam
deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação,
que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações
de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para
repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse
aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para
presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes
e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os
policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras
de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e
xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes.
Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.

Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos
docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No
decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia
agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de
grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o
estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano
Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura
do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria
estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de
concusão (falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaços
e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo
até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia havia sido
interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do
prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas).
Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas
começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora
Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do
professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete
todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A
multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício
cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante
cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro
de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita,
recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o
chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os
estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma
pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em
pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia
mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás
Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da
tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava
na sede da Adusp se recuperando.

Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões
se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de
maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que haviam sido
espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu
colega, professor Jorge Machado). Escutei relato de pelo menos três
professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da
Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo
ao hospital que pelo menos dois estudantes e um funcionário haviam sido
feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia)
e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar
e nenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outra delegação
de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido
presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcion�
�rios do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa
de que haveria mais presos.

A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de
professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A
situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser
dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em
reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse
num campus universitário. Estou cercado de colegas que estão chocados
com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica
não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o
diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais.

Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem
que é conveniente.

Cordialmente,


Prof. Dr. Pablo Ortellado
Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo

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Junho 09, 2009

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Lembro-me com algum gosto da aula inaugural do meu curso. Como é típico dos discentes devo ter guardado o acessório e não o essencial, pois não me recordo do problema que movia a exposição do professor. E no entanto, guardo alguns comentários em parênteses, que fechados na hora, abrem-se continuamente em minhas reflexões. Contava o professor: “Eu estava nesta biblioteca aqui ao lado quando o homem chegou à Lua, lendo a bibliografia do meu doutorado, sobre a revolução industrial inglesa. Foi impactante”. Não pude compreender àquela altura que a chegada à Lua tocasse o coração do historiador da revolução inglesa, embora a relação mais óbvia se estabelecesse como evidente. Hoje, um pequeno passo na Universidade e um grande passo em direção à plena barbárie fizeram-me compreender que em certas circunstâncias há algo de ridículo e grandioso na dedicação que devotamos a nossos trabalhos acadêmicos. É evidente que me refiro à Polícia Militar na USP.

Sou roubada abruptamente do silêncio dessa sala de trabalho, em que numa monástica disciplina, entrego os melhores anos dessa sôfrega juventude que já se esvai à compreensão de nossa vida intelectual. Uma mensagem de telefone celular - afinal todos sabem que não atendo nada dentro desse convento ou bunker, como preferir - “ligue a TV, e prepare-se”. Meu amigo sabia perfeitamente que não poderia continuar o trabalho sobre “concepções divergentes do ofício de sociólogo nos anos cinqüenta e sessenta” sabendo, vendo, sentindo, o que ocorria nas ruas da Universidade de São Paulo.

Há cerca de sete anos, por volta desses dias de junho, muitos estudantes pensavam salvar a Faculdade de Filosofia da USP, empenhados numa greve, cuja reivindicação era simplesmente que a Faculdade continuasse a existir - o que, naquele momento significava: contratação de professores, em caso contrário, cursos seriam fechados. Para essa nobre missão, convidaram os nobres professores - os notáveis, as pratas da casa, para discursarem em apoio à causa. Eles foram. Quem podia ser contra estudantes que queriam... Estudar? Impossível não lembrar com saudade daqueles dias. Impossível não viver com pesar, estes.

Ontem, pela noite, soube que uma aluna do Departamento de História chamou a polícia e que a chefia do mesmo departamento foi responsável pela solução de um conflito que não existiu. Soube e acompanhei a tropa de choque agredindo os funcionários. Hoje, mais polícia. Polícia de lá, polícia de cá - expediente rotineiro, e não excepcional, na Universidade? Ela sempre foi o lugar do dissenso construtivo, do diálogo, do embate, do confronto de idéias. Ela deve ser isso. A polícia, a omissão a deslegitimarão dos espaços de dissenso - eis o cotidiano dela? Foi o que não quis notar quando, diante de minha indignação, um jovem, do alto da sabedoria de que eles se arvoram, disse: “não me espanta”.

Quando eu e alguns historiadores esperançosos e apaixonados por História manifestávamos nosso desejo de estudar a história da Universidade de São Paulo, ouvimos a resposta de algumas inteligências que vivem em eterno descanso: mas isso não é história. “Depois do século XVIII, só jornalismo” - nunca se deram ao trabalho de pensar a história pois deitam lânguidas nos divãs da tradição. Poderei agora responder, sem mais: “sim isso é história, afinal o objeto se tornou um cadáver”? Tristes tardes.

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O pé na lua e o fim da Faculdade

 

Lembro-me com algum gosto da aula inaugural do meu curso. Como é típico dos discentes devo ter guardado o acessório e não o essencial, pois não me recordo do problema que movia a exposição do professor. E no entanto, guardo alguns comentários em parênteses, que fechados na hora, abrem-se continuamente em minhas reflexões. Contava o professor: “Eu estava nesta biblioteca aqui ao lado quando o homem chegou à Lua, lendo a bibliografia do meu doutorado, sobre a revolução industrial inglesa. Foi impactante”. Não pude compreender àquela altura que a chegada à Lua tocasse o coração do historiador da revolução inglesa, embora a relação mais óbvia se estabelecesse como evidente. Hoje, um pequeno passo na Universidade e um grande passo em direção à plena barbárie fizeram-me compreender que em certas circunstâncias há algo de ridículo e grandioso na dedicação que devotamos a nossos trabalhos acadêmicos. É evidente que me refiro à Polícia Militar na USP.

 

Sou roubada abruptamente do silêncio dessa sala de trabalho, em que numa monástica disciplina, entrego os melhores anos dessa sôfrega juventude que já se esvai à compreensão de nossa vida intelectual. Uma mensagem de telefone celular - afinal todos sabem que não atendo nada dentro desse convento ou bunker, como preferir - “ligue a TV, e prepare-se”. Meu amigo sabia perfeitamente que não poderia continuar o trabalho sobre “concepções divergentes do ofício de sociólogo nos anos cinqüenta e sessenta” sabendo, vendo, sentindo, o que ocorria nas ruas da Universidade de São Paulo.

 

Há cerca de sete anos, por volta desses dias de junho, muitos estudantes pensavam salvar a Faculdade de Filosofia da USP, empenhados numa greve, cuja reivindicação era simplesmente que a Faculdade continuasse a existir - o que, naquele momento significava: contratação de professores, em caso contrário, cursos seriam fechados. Para essa nobre missão, convidaram os nobres professores - os notáveis, as pratas da casa, para discursarem em apoio à causa. Eles foram. Quem podia ser contra estudantes que queriam... Estudar? Impossível não lembrar com saudade daqueles dias. Impossível não viver com pesar, estes.

 

Ontem, pela noite, soube que uma aluna do Departamento de História chamou a polícia e que a chefia do mesmo departamento foi responsável pela solução de um conflito que não existiu. Soube e acompanhei a tropa de choque agredindo os funcionários. Hoje, mais polícia. Polícia de lá, polícia de cá - expediente rotineiro, e não excepcional, na Universidade? Ela sempre foi o lugar do dissenso construtivo, do diálogo, do embate, do confronto de idéias. Ela deve ser isso. A polícia, a omissão a deslegitimarão dos espaços de dissenso - eis o cotidiano dela? Foi o que não quis notar quando, diante de minha indignação, um jovem, do alto da sabedoria de que eles se arvoram, disse: “não me espanta”.

 

Quando eu e alguns historiadores esperançosos e apaixonados por História manifestávamos nosso desejo de estudar a história da Universidade de São Paulo, ouvimos a resposta de algumas inteligências que vivem em eterno descanso: mas isso não é história. “Depois do século XVIII, só jornalismo” - nunca se deram ao trabalho de pensar a história pois deitam lânguidas nos divãs da tradição. Poderei agora responder, sem mais: “sim isso é história, afinal o objeto se tornou um cadáver”?

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Janeiro 20, 2009

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Historiadores, homens sem profissão.

Lidiane Soares Rodrigues

  

Desde que entrei no Departamento de História, a discussão em torno da profissionalização da atividade do historiador faz parte da pauta. A cada greve, Congresso, simpósio, encontros, enfim, saídas cotidianas de rotina, o tema vinha à baila. O argumento dos que defendiam a não profissionalização era irrefutável! “Se para ser historiador dependêssemos apenas do diploma, então Caio Prado Jr. não o seria!” Argumento silenciador. Quem ousaria se opor a qualquer coisa que envolva Caio Prado Jr.? Seu nome entre nós cala de tal maneira que, confesso, dia desses ouvi um geógrafo, daqueles que adoram falar de história, qualificá-lo da seguinte maneira: “muitos dizem que ele é historiador, mas na verdade ele é um geógrafo retrospectivo”. Minha salvação da fisgada dolorida que sinto, quando ouço algum “entendido” emitindo lições sobre a história: Lucien Febvre. Consola-me saber que já por volta de 1920 era hábito dos fatigados com suas disciplinas emitirem juízos que envolvessem a história e depois voltarem à sua atividade (Combates, vocês sabem...). De todo modo, demorei um pouco para me recuperar do susto. Recomposta, reprovei com desgosto a covardia do professor que se aproveitava do completo desconhecimento de sua turma para defender algo que não teriam como contestar, percebi o quanto algumas disciplinas são carentes de referências primordiais, e do quanto (des)entendidos confundem história com retrospectiva. Porém, o mais tocante para mim. Dei-me conta do quanto compartilho com a confraria dos historiadores de alguns valores, muitos dos quais a figura de Caio Prado Jr., historiador sim!, é a síntese mais bem acabada. É interessante que, passada uma década de minhas primeiras aventuras na Faculdade, ainda me lembre da surpresa que a turma de calouros à qual pertencia sofreu ao descobrir que nem aulas no departamento ele havia dado. Ficamos indignadíssimos! E quanto da experiência na base desta indignação não me fez engrossar o coro dos que diziam reiteradas vezes, permaneçamos sem profissão, como Caio Prado?

Não imaginava, naqueles dias em que absorvemos um modo de pensar, um modo de ser e um modo de se colocar que a vida universitária conforma, que iria me dedicar aos temas que hoje tanto me ocupam. (E menos idéia eu tinha ainda do quanto esse período presta auxílio para que se apague, relativamente, as marcas inconvenientes dos trânsfugas de classe que vem de baixo e o esnobismo dos que vem de cima. Contra os pecados dos primeiros, esse texto diz muita coisa. Contra os dos segundos, os mecanismos simbólicos de compensação, como a adoção de elementos de uma suposta dissidência política – no fundo, prerrogativa de classe – tais como roupas sujas, cortes de cabelo cuidadosamente mal feitos, defesa da democracia interna, gírias e todos tipo de adorno associado à rebeldia chic mereceriam uma crônica à parte. Crônica maior da vida institucional seria ainda a que se dedicasse ao encontro desses dois... “tipos”).[1]

Decidida a compreender intelectuais militantes, reconstituir suas trajetórias, escandir seus dilemas – e, sobretudo, quanta pretensão!, as viragens históricas que propiciam os (des)engajamentos – optei por aqueles que, no Brasil, pareciam-me ter se envolvido mais na política partidária, e decerto algo disso se deve à natureza de sua disciplina: os sociólogos. Deparo-me novamente, com o tema da profissionalização. Como se sabe, a campanha dos sociólogos por sua profissionalização, nos anos oitenta, era tributária do envolvimento deles nas lutas sociais, na redemocratização – no que gostam de chamar de realização (finalmente, como lhes parecia) do Brasil moderno.

Porém, é também com a nossa que me deparo. Eles e nós – um tema ao qual poderíamos dedicar, e dedicamos, muito de nossas mais genuínas energias – outro elemento chave daquele modo de ser, pensar e se colocar que a Faculdade nos oferece. Quantas oposições, quantas imagens. Os que se deleitam nas zonas fronteiriças das disciplinas – que fazem eles? Dizem-nos nossos temas cativos, definem nosso horizonte, mas sobretudo, esforçam-se por nos diferenciarem deles. Aliás, deles e também de uma outra categoria. Pois se nós nos ocupamos de “todo acontecer humano no tempo”, no dizer de Marc Bloch (Apologia), os sociólogos parecem-nos fortemente reduzir o acontecer humano, e os jornalistas, o tempo. Podendo ainda os estragos de sociólogos e jornalistas com relação ao acontecer no tempo, serem intercambiáveis com os dos economistas.

Como não tive o bom senso de escolher temas canônicos da historiografia, os chistes de autopromoção de alguns e exclusão de outros que o jogo cordial convoca tocou-me sensivelmente. Militância de sociólogo? Coisa de sociólogo. Depois do XVIII só jornalismo. Ouvi e ri não sem sentir o desafio mesclado à desqualificação. Desvantagens, contudo, não raro exigem superação. Busquei algo mais que uma quantidade de séculos ou tema – metragens confortáveis, convenhamos, a não ser que queiramos ‘dar férias à razão’ – para pensar História. O que encontrei não convém a esta altura, mas diante das vaidades juvenis, dos jogos de auto-afirmação e da illusio deslumbrada, gosto de me fiar em Fernand Braudel:

“(...) ninguém espere encontrar aqui uma resposta, nem sequer uma tentativa de respostas, às habituais perguntas sobre as relações entre história e sociologia ou uma continuação da polêmica, continuamente retomada, ainda que não seja nunca a mesma, entre esses vizinhos que não podem ignorar-se nem conhecer-se perfeitamente e que, nas suas discussões, quando se definem, o fazem unilateralmente... o diálogo do sociólogo e do historiador constitui sempre um falso diálogo”. (História e ciências sociais. Lisboa: Editorial Presença, 1972, p.123). 

 Não preciso elencar exemplos que tornariam enfadonha essa conversa. Todos podemos nos reconhecer em alguma imagem que nos seja mais dileta nessas diferenciações. Essa imagem certamente os transforma em filhos da revolução industrial, terceiro estado ou qualquer coisa do gênero que melhor realce a nossa nobreza. Eis um propósito do qual os empreendimentos mais sinceros para marcar a fronteira entre as atividades não escapa. Há algo mais divertido e demarcador de nossa diferença que lembrar: “Eles já deram presidente para o país”, “eles se consideram cientistas”, “eles têm profissão”? Eis que espelham tudo aquilo que peca contra nossos modelos de excelência política e intelectual e denota um vínculo superficial com o tempo imediato que nos causa absoluto horror. Com efeito, é Caio Prado Jr. que nos inspira, mesmo contra eles. Homem sem profissão, mas não ao modo descompromissado de um Oswald de Andrade. Aristocrata de origem, e... de espírito, cuja ruptura de classe pela adesão ao Partido Comunista não implicou o abandono do habitus, porém o tornou figura ainda mais atraente – evidente no ‘trato fino’ dado às controvérsias, no diálogo que manteve com adversários políticos que um comunista típico eliminaria da interlocução. Convicções políticas sem prestígio partidário. Dedicação à História sem consagração profissional de especialista. Síntese do que de melhor o modernismo paulista produziu como resposta ao dilema cosmopolitismo e localismo. Vida dedicada à história vivida e à escrita da história. Em tudo distinto deles. Convenhamos, o que de melhor gostaríamos de ser. (Então sejamos! E, por favor, lembremos de sua passagem pela FFCL, de que Geografia e História não eram como os cursos atuais e... da prisão que o impede de concluí-los!)

Está em jogo – como não reconhecê-lo – um modelo de excelência intelectual e de elegância com relação aos modos e costumes, do qual a referência ao nosso grande historiador é um expressivo, mas não único, elemento. Ele opera de maneira tão poderosa que não nos damos conta, por vezes de suas incongruências, de suas contradições. Esse estilo anti-capitalista, nutrido pela antiguidade do métier, pelo cultivo do Ancien Régime – muito próprio, por sinal, valeria indagar se o de Napoleão III ou o de Luís XIV – em nossos gostos e prazeres paralisa o debate com relação à profissionalização do historiador, inibe o próprio senso de anacronismo, nossa preciosa pedra de toque. Afirmar que não podemos nos profissionalizar porque “senão aqueles que não fizeram história não serão historiadores, como Caio Prado, por exemplo” é ignorar a história da universidade, da disciplina, enfim, o tempo passado e a (talvez mal sucedida, mas isso não será pensado sequer se não nos detivermos nesse ponto) modernização de algumas instituições que efetivamente fornecem quadros para o estudo da história. Mutatis mutandis, significa afirmar que Klimt não deve entrar no museu, senão Michelangelo deixa de ser arte.

Não defendo, com isso, a profissionalização. Muito menos o abandono de nossa divertida... illusio – preciso esclarecer?  Porém, como não lembrar o ABC da sociologia da educação segundo a qual a valorização dos que se formam fora dos sistemas educacionais é prerrogativa dos que os podem dispensar em sua própria formação? Seria padecer de um ensimesmamento pouco inteligente e impedir a (ainda que precária, mas necessária) localização da disciplina no conjunto da produção cultural atual. Defender, como alternativa ao estilo sem profissão, a profissionalização a todo custo, é adotar o filisteu arrivista como modelo de vida. Definitivamente, não!

Profissionalizar a atividade é uma faca de dois gumes, para falar com a língua do terceiro estado, e estão mais ligadas às questões, digamos, ‘sindicais’. Esses dois gumes merecem mais atenção nas discussões, pois, entre historiadores, forjar a auto-imagem aristocrática já é algo um tanto gasto, como uma maquiagem ao fim do dia que começa a dar sinais de que o rosto é mais bonito sem ela. Vale nos ocuparmos menos dos retoques e ir aos problemas que oculta a domicílio. No (falso) diálogo fora da confraria, a brincadeira continua. Mas, não sem alguma dose de melancolia, pois é Clio e não Clotilde que me auxilia, suspeito que não por muito tempo.

 São Paulo, janeiro de 2009.


[1] Aos que não perdoam a escapada sociológica incontornável nesse termo, lembremos. Também Sergio Buarque os empregou. Respondo ao resto abaixo.

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Postado por Lidiane Soares Rodrigues | 1 usuário votou. 1 voto | 4 comentários