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Julho 2009

Julho 14, 2009

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Folha de São Paulo, domingo, 12 de julho de 2009

Esoterismo quântico

Novo livro do cientista Victor Stenger ataca os gurus que mistificam conceitos
da física para dar verniz de ciência a suas crenças

PABLO NOGUEIRA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Tanto os fãs ardorosos dos documentários "Quem somos nós" e "O Segredo" quanto
os espectadores que consideraram esses filmes um desfile de bobagens requentadas
do movimento Nova Era podem tirar algum proveito do novo livro do físico
americano Victor Stenger. "Quantum Gods" (Deuses Quânticos) se destina
justamente a atacar a crença de que as modernas teorias cientificas são
perfeitamente compatíveis com toda forma de prática esotérica.

O livro é uma resposta direta a ambos documentários, nos quais cientistas,
médicos, religiosos e gurus de auto-ajuda recorrem a conceitos da mecânica
quântica -ramo da física que explica o comportamento da matéria a níveis muito
pequenos- e de outras ciências para abordar temas místicos como poder do
pensamento, carma, vida após a morte etc.

Desde o fim dos anos 1980, Stenger tem militado na corrente neoateísta que tem
no biólogo Richard Dawkins e no filósofo Daniel Dennett suas faces mais
conhecidas. Seu novo livro começa fazendo um breve e irônico levantamento das
idéias defendidas pela nova onda de gurus quânticos.

Stenger dá destaque a Amit Goswami, físico indiano bastante popular no Brasil,
tendo sido entrevistado duas vezes no programa Roda Viva, da TV Cultura. Mas até
o Dalai Lama é citado, devido a seu livro "O Universo num Só Átomo". O líder
tibetano, porém, é abordado de forma respeitosa.

Já o fundador da meditação transcedental, o físico e guru indiano Maharishi Yogi
(1917-2008) recebe chumbo pesado. David Bohm e Fritjof Capra, cientistas que não
aparecem nos filmes, mas que são pioneiros do encontro da Mecânica Quântica com
a Nova Era, também não escapam ilesos.

Divulgador experiente, Stenger inclui no livro seções que formam uma curta mas
substanciosa história da ciência. Isso permite a um leigo tomar pé do debate
sobre problemas teóricos complexos, mas deixa passar a chance de desmontar
detalhadamente afirmações supostamente científicas com as quais o espectador se
depara em "Quem somos nós".

Em vez de tentar negar, por exemplo, a afirmação de Goswami de que a consciência
é o fundamento do Universo, ele prefere repassar a história da criação da física
de partículas. Em vez de contestar os experimentos de Masaru Emoto, que afirma
que as moléculas de água podem ser alteradas pela força do pensamento, ele
descreve os fracassos obtidos em testes de parapsicologia.

É como se Stenger acreditasse que uma apresentação criteriosa de conceitos
complicados, como o emaranhamento quântico, será o suficiente para que os
leitores possam, por si só, perceber os pontos em que Capra, Goswami e companhia
estão "forçando a barra".



Em benefício da dúvida

Só que o mais provável é que o leitor leigo se sinta incapaz de chegar a uma
conclusão por conta própria. Neste caso, provavelmente a leitura apenas terá
colaborado para aumentar suas dúvidas. Porém, isso, por si só, já pode ser algo
positivo. Afinal, uma das maiores objeções que se pode fazer a "Quem somos nós"
é que o filme não avisa aos espectadores que as posições ali apresentadas são,
no mínimo dos mínimos, controversas, e que não são endossadas pela imensa
maioria da comunidade cientifica.

Stenger oferece aos leitores a visão acadêmica destes mesmos temas, numa
linguagem acessível. Saber que existe uma outra visão (na verdade várias) da
mecânica quântica pode ser uma grande novidade para muitos dos fãs de "Quem
somos nós", que fizeram dele o quinto documentário mais lucrativo da história
dos EUA.

O livro analisa também as idéias de outros grupos que, volta e meia, recorrem à
mecânica quântica para sustentar suas idéias. Ilya Prigogine, prêmio Nobel de
química de 1977 e herói da corrente acadêmica conhecida como
transdiciplinaridade, é diretamente contestado. Prigogine afirma que os
processos termodinâmicos não podem ser abordados através do tradicional
reducionismo metodológico tão caro à ciência moderna pois, neste caso, esses
processos não seriam reversíveis no tempo.

Stengers afirma que, por princípio, todos os processos físicos são reversíveis
temporalmente, e que Prigogine "está completamente errado, mesmo tendo ganho um
prêmio Nobel". Também sobram críticas para a parapsicologia e para os teólogos
que investigam o mundo microscópico em busca de sinais da ação do Deus cristão,
ou de algo próximo a ele.



Sobrecarga

Ao mirar em tantos objetivos diferentes, o autor sofre do ônus de ter poucas
páginas para devassar temas muito variados e complexos. Sem o espaço necessário
para uma exposição mais adequada, sua argumentação soa, em vários momentos,
concisa demais. Mas há um motivo para isso: em livros anteriores ele já investiu
diretamente contra criacionistas, adeptos do Design Inteligente, da
parapsicologia etc. Aqui, em certos momentos onde seria necessário um maior
aprofundamento, ele se limita a se referir a sua própria obra.

No final do livro, Stenger argumenta diretamente contra a existência de qualquer
tipo de divindade. Sua visão do fenômeno religioso lembra um pouco a de Dawkins,
restringindo-se a análise de certos estereótipos. Nada disso, porém, chega a
comprometer a consistência do livro. Stenger tem o conhecimento científico e a
expertise literária necessários para apresentar um bom contra-ponto à febre de
física Nova Era que continua circulando pelo planeta, Brasil inclusive.



LIVRO - "Quantum Gods"

Victor Stenger; Prometheus Books, 292 págs., US$ 27,00

Postado por João Carlos Holland de Barcellos em Ateus e Ateísmo | 1 usuário votou. 1 voto | 9 comentários

Julho 17, 2009

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A Crença em um Deus, como vimos acima, não apenas nos afasta do bom senso, da lógica e da verdade, mas também pode nos induzir a atos insanos como, por exemplo,  à Inquisição, às Cruzadas e, atualmente, “homens-bombas”, entre outros. Para entendermos a lógica por trás destes atos insanos propelidos pela fé irracional, mostraremos, a seguir, dois exemplos (fictícios): “O Mártir Cristão Jocaxiano” e “O Estuprador Espírita”. Tais comportamentos motivados pela crença irracional, apesar de seguirem uma lógica clara, produzirão resultados desastrosos. A explicação é que as suas premissas, isto é, as crenças em que se baseiam estão erradas, e apesar da lógica ser cristalina, se as premissas são errôneas as conclusões podem ser catastróficas [1].

 


I.3 - O Mártir Cristão Jocaxiano

 

O Mártir Cristão Jocaxiano (MCJ) é uma excelente pessoa: um católico devoto de Deus e um ótimo pai. O MCJ quer o melhor para sua família e seus filhos, e fará tudo a seu alcance para dar o melhor a eles.

 

Pensando no futuro de seus filhos, MCJ recentemente teve uma excelente idéia: ele sabe que seus filhos ainda são crianças inocentes e, como um crente religioso fervoroso, também sabe que o paraíso é infinitamente melhor que a Terra e, portanto, o melhor lugar para se estar. Diante disso, MCJ tem um plano de mandar seus filhos para lá, porque isso garantiria a felicidade deles já, ao lado de Deus, além de evitar que, porventura, pudessem pecar e ir ao inferno.

 

MCJ sabe que para executar seu plano ele terá de matar seus filhos, mas isso não é problema, pois a vida aqui na Terra não é nada perante a eternidade no paraíso e seus filhos ficarão eternamente gratos por terem sido mandado a um lugar tão bom, ao lado de Deus.

MCJ, como um assíduo leitor da bíblia, tem consciência de que matar é pecado e que, quando mandar seus filhos ao paraíso, ele próprio irá para o inferno. Mas, como um bom pai, ele pensa primeiro em seus filhos e, por isso, vai assumir este martírio. Porém,  ainda tem uma esperança, pois, satisfazendo o desejo de Jesus - “Venham a mim as crianças” – e fazendo isso pelo bem delas, poderá, quem sabe, ter o perdão divino.

Como bom homem, MCJ está estudando, pela internet, confecção de bombas. Ele pretende também levar mais crianças ao paraíso colocando uma enorme bomba na maior escola infantil de seu bairro. Assim, fará o bem não apenas aos seus filhos, mas também às outras crianças.

Às vezes MCJ se pergunta como ninguém havia pensado nisso antes, e acha que só não foi feito porque não acreditavam realmente no paraíso, ou porque eram demasiadamente egoístas por temerem a danação eterna ao bem dos outros. MCJ sabe que Hitler também levou milhões de inocentes diretamente ao paraíso, para perto de Jesus e, por isso, vai escrever uma carta ao Papa propondo a sua canonização.

--//--


 

I.4- O Estuprador Espírita

 

O homem-pedófilo, espírita, andando pela calçada, vê uma criança e sente um desejo enorme de possuí-la. Mas, como adepto do espiritismo, ele não sabe se a criança MERECE ser estuprada ou não.

 

Então, ele começa a pensar:

 

"-Quem sabe aquela criança não é uma alma MÁ que PRECISA SER CASTIGADA pelo que cometeu em suas vidas passadas?"

 

"-Quem sabe ela não estuprou, ou empalou e matou milhares em suas vidas passadas?”

 

“-Como posso saber se ela MERECE ser castigada pelo que fez ou não?"

 

Ele reflete mais um pouco. Enquanto isso seu desejo aumenta, ele reflete um pouco mais, buscando mais dados em seu conhecimento sobre espiritismo:

 

"-Meu espírito viveu por um longo tempo e por muitas vidas eles sabem o que aconteceu no passado, a verdade! Se eles estão me EMPURRANDO através de meu desejo sexual para estuprar aquela criança, por certo é por que COM CERTEZA ela é CULPADA, e FEZ ALGO MUITO RUIM em suas vidas passadas!"

 

E finalmente conclui:

 

"-Mas eu nem deveria me preocupar com isso, se Deus e nem ninguém não me impedirem de praticar o ato, isso é simplesmente porque a criança MERECE MESMO sofrer!"

 

"-No espiritismo, nenhum sofrimento é em vão, todo sofrimento tem uma razão de existir!"

 

“-Ela deve sofrer uma EXPIAÇÃO!”

 

Decidido a castigar a criança MALÉVOLA e, claro, saciar seu desejo sexual, ele agarra a criança a leva para um local ermo onde a estupra covardemente!

 

Por fim, pensa:

 

"-ESTÁA FEITO! TEVE A EXPIAÇÃO QUE MERECEU, A DESGRAÇADA ! "

"-Obrigado meu espírito por me dizer o que fazer!"

“-Obrigado meu Senhor por ter me permitido fazer a justiça!”

 

Certo de que praticou um ato justo, vai embora.

 

Nisso, passa um senhor, também espírita, e vê a criança que acabou de ser estuprada, agonizando. Como ele é um adepto do espiritismo logo conclui:

 

"-QUE CRIANCA MALDITA!"

"-ERA TÃO PECADORA QUE TEVE A EXPIAÇÃO QUE MERECEU!"

"-MAS ACHO QUE AINDA NÂO FOI O SUFICIENTE!"

 

Ele vai até onde agonizava a criança, pega a sua caneta do bolso e a enfia no pescoço da criança, fazendo-a morrer sufocada pelo seu próprio sangue...

 

"-Agora sim maldita! Teve finalmente o que merecia!"

"-Só uma alma MUITO MÁ NO PASSADO poderia ter sofrido um castigo como este!"

“-Isso só prova que você era realmente uma alma MUITO Má!”

 

Dá então uma cuspida no rosto da criança morta, e vai embora achando que cumpriu seu dever de educar e fazer evoluir a pobre alma...

--//--

Palavras-chave: Ateísmo, Crença, Estuprador Espirita, Martir Cristao Jocaxiano

Postado por João Carlos Holland de Barcellos em Ateus e Ateísmo | 79 comentários