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Dezembro 08, 2009

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Certa vez ouvi de um professor que: quando lemos um texto que nos identificamos, este não faz mais do que dar palavras aquilo que já vínhamos acalentando. Acredito que este texto de Ziraldo sobre Ferreira Gullar é mais uma prova disso. Então cito com prazer.

 

“Me encanto com as palavras do poeta: ‘Ao mesmo tempo o capitalismo é fecundo e criativo. Como a Natureza. É injusto e cruel. Como a Natureza’. E o que é o Socialismo? ‘É a intervenção racional do ser humano neste processo natural.’


Ele propõe diques e regulagens. Em vez de o rio ficar inundando tudo, façamos a represa.
A represa está para o rio como o Socialismo está para o Capitalismo. É a intervenção da razão. O grande problema do Socialismo é que, em tudo, não só na política, a coisa mais difícil é domar o processo da vida, que excede a qualquer teoria.


A proposta do Socialismo, compreendida assim, está acima da possibilidade humana. Nós jamais dominaremos a Natureza. O Homem, porém, não vai desistir por causa disto, não vai deixar de lutar. O Homem é uma invenção dele mesmo. Nós não somos Natureza – pois ela não raciocina –, embora tenhamos uma base natural. E olha o Gullar de novo: ‘Nós inventamos tudo, Deus, as cidades, o teatro, nós vivemos num mundo cultural. A própria Natureza em que vivemos hoje, ainda que não esteja de todo domada, é cultural, modificada, o homem inventou o universo em que vive. A vida não tem sentido mas todo dia nós inventamos um sentido para ela.’


Tentei aqui reproduzir parte do discurso do Gullar, tirando pedaços da entrevista que ele deu para o número de OPasquim21. Ele termina a entrevista dizendo que a grande aventura do homem é esta: inventarmos nós mesmos a cada dia.


Por esta razão, Gullar crê que o sonho não acabou. Quem pensa – ele diz – e é capaz de, pensando, amar o próximo como a si mesmo – esta parte é minha mas o Gullar, é claro, não a nega – tem que ficar atento todo o tempo. Se o Socialismo, que perdeu a batalha do século XX, é a intervenção racional do ser humano na apocalíptica força da Natureza, aqui mencionada, o homem – criador de tudo – há de descobrir o caminho para alcançar, pensando e criando, um mundo justo.


Gullar é um homem cheio de esperança. E porque seu discurso me comoveu profundamente eu, aqui do alto desta tribuna, informo ao mundo que sairei por aí, levando aos gentios a palavra do mestre, bradando aos céus que a esperança não morreu.


Gullar, você é meu profeta e eu vou ser o seu São Paulo.”

 


Ziraldo

Palavras-chave: capitalismo, gullar, Política, socialismo, ziraldo

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Novembro 11, 2009

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Uma das coisas mais surpreendentes da vida e que damos pouco valor é a corriqueira e banal conversa de bar. O bar assim como suas conversas é onipresente, podemos tentar nos esconder, fugir, mudar, mas onde formos lá estará eles o bar e suas conversas. Há muito tempo masculinizadas, hoje, principalmente nos grandes centros, credita de uma democracia assombrosa. Que a meu ver merecem meticulosos estudos.

 

A temporalidade do bar é outra, diversa daquela que encontramos nos lares, no trabalho, nas igrejas. Não há momento mais oportuno que o agora. A qualquer momento se desenrola qualquer conversa sobre qualquer coisa. Não há espera desnecessária apenas prontidão e acolhimento.

 

Nessas conversas, política, religião, sexualidade e futebol se alternam enquanto temática e em diversos momentos se fundem formando um novo mundo mítico, que se desfaz com a mesma velocidade com que se criou. Assuntos velados nas conversas familiares, proibidas no trabalho e heresias na religião, ganham vida e pertinência nessas conversas. O garçom treina sua psicanálise e cria peças de direito de família. Nessas conversas todos somos especialistas de assuntos gerais. Falamos com franqueza e com espontaneidade pueril. Qualquer problema, com meia palavra, se desdobra em pranto de tragédia ou comédia pastelão. Até a mais ardilosa traição ganha cadência de humor e a inocente piada pode ganhar pesar existencial. Não há regra e não há lei. Até a mais consolidada das leis físicas são subvertidas e aceitas, as leis do direito são criadas a cada momento e revogadas a cada momento posterior. O único compromisso que se estabelece é o de viver aqueles istantes. Nem mesmo o compromisso da manutenção da conversa se faz presente.

 

A bebida é elemento importante, mas não é ela quem fornece os objetivos nem as regras do jogo. Nessas argumentações já não existe o desejo de ganhar, de estar certo de ser verdadeiro. Existe um descompromisso em convencer o outro. Podemos ser a favor da legalização da maconha sem sermos presos, podemos deixar de torcer para aquele time ou mesmo deixar de gostar de futebol.

 

Ao fim da conversa nos levantamos e vamos embora, como algo que nunca existiu. Resta apenas uma vaga lembrança dos argumentos dos sentimentos, restam coisas importantes e marcantes, mas insuficientes para mudar nossa vida.

 

Essas conversas tão marginalizadas e esquecidas são um oasis no deserto de trabalhar, estudar, correr, resolver o mundo. Sem romantismos, devemos dar o credito necessário as corriqueiras conversas de bar.

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Novembro 10, 2009

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Em um sábado desses, para ser mais preciso o último sábado, decidi vencer meus maiores inimigos, que por inúmeras vezes me impediam de sair de casa e ir ao teatro. A crença de que sou a pessoa mais atarefada do mundo já me impediu de desfrutar os mais furtivos momentos de lazer e sempre que o fazia me sentia culpado, culpado por não estar trabalhando nas coisas que acredito serem importantes. O segundo inimigo e não menos importante, a preguiça, serve como amarra, que me prende a minha zona de conforto. Vencer o transito, a distância, a insegurança e o desconforto, dentre outras coisas, é um desafio permanentemente imposto a minha cotidianidade.

 

Primeiro fui ao Teatro Popular do Sesi, assim que cheguei ao estacionamento fui informado que os ingressos se esgotaram. Sem pensar duas vezes manobrei o carro e fui rumo ao Sesc na avenida Paulista, algumas quadras a frente. Para minha surpresa os ingressos para as próximas peças também já estavam esgotados. Efeito provocado pelo calor quase insuportável, que impedia qualquer um que tinha juízo de ficar em casa. Lá mesmo comprei os ingressos para assistir a uma peça intitulada “Sonhos de outono”. A única que ainda deixava sobrar ingressos no Sesc consolação. Inicialmente me veio à mente uma paródia melodramática de Shakespeare, imagem criada por minha mente fraca que já não suportaria desconsolos de novela das oito.

 

Grata surpresa! O único cenário disponível para a interação dos personagens, era um cemitério. Nada medonho ou deprimente, ao contrário um cemitério que poderia ser muito bem substituído por uma mesa de bar ou uma sala de estar domingueira, a menos é claro de seu necessário ar funesto que pouco a pouco trançava os personagens e inflava de sentido os diálogos sempre pareados. Ao contrário das obras existenciais, sempre como um soco no estomago, com que tenho me deparado esta peça do dramaturgo norueguês Jon Fosse colocou na espera da morte as mais corriqueiras conversas.

 

Breves encontros entre os personagens, que se aguardavam funerais de parentes e depois dos próprios personagens propiciava a inserção de questões e de escolhas pessoais. O devir de alguns personagens que sempre, a sombra da morte, tomavam decisões e (des)deisões.

 

Esta peça, ao menos como a vejo, ilustra bem a presença contínua e não extraordinária da morte. Apesar da tristeza e apesar dos pesares, está sempre presente e sempre a estreita. Não como uma serpente ardia, mas como uma flor de lapela, que procuramos manter sempre por perto. Sempre nos lembrará de nossa mortalidade e sempre nos obrigará a repensar, mesmo que sutilmente, os rumos e sentidos desta vida. Não como um estudo racional e extraordinário destes sentidos, mas como um mergulho vertiginoso na experiência.

 

Esta tarefa de colocar em cada ação, em cada pensamento em cada respirar uma decisão existencial que se “aproxima da morte” é um desafio que Jon Fosse tentou colocar de maneira suave, e não por isso menos contundente.

 

Desta maneira recomendo uma apreciação atenta desta peça. Para que possamos aprender a saborear a vida.

Palavras-chave: existencialismo, morte, Política, teatro

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Setembro 23, 2009

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Obviamente não podemos reduzir toda a ação socialista à dois modos, reformistas e revolucionário. Assim reconheço que a ação e reflexão da transformação devem existir em um espectro contínuo que têm como limite a reforma e a revolução. Em outros termos poderíamos dizer que esta é a diferença essencial entre o “velho comunista” e o “comunista velho”, não necessariamente nesta ordem.

 

O reformista se distância do vigor da juventude na mesma proporção que se aproxima das desilusões da maturidade. Cansado de esperar grandes e rápidas mudanças, ele aposta na progressiva remedição. Aplaude com entusiasmos e considera como ganho as mais paliativas das soluções, qualquer passo para frente passa a ser um passo importante, não importa como e não importa quanto. Os reformistas formam a grade massa daqueles que pretendem provocar mudanças. Eles têm uma sabia paciência e desde cedo sabem que não verão as mudanças ocorrem em seu tempo, tentam desta maneira conservar uma esperança quase que espiritual, que transcenda sua existência e a existência de suas ações. Ele é assim caracterizado como o “comunista velho”.

 

Já o revolucionário esta imbuído de outro animo, outro espírito. Ele vê em suas ações o real potencial de mudança. Pretende e busca sempre mudanças essenciais, negando qualquer transformação superficial. Mesmo que tropece em seus próprios passos este pretende caminhar a largos. A efervescia de suas aspirações sempre se confronta com a morosidade mundana e sempre tem como produto a decepção. Os revolucionários são sempre o mínimo possível e nunca deixa se confundir na multidão. O que o torna revolucionário – e por vezes excêntrico – é justamente o que inviabiliza sua revolução. Pode ser chamado de o “velho comunista”.

 

Os revolucionários e reformistas, apesar de não compartilharem suas posições na vida, por vezes se ajudam, mas apenas por vezes. O reformista, por mais que queira transformar não pretende transformar demais, por isso nunca rompe com a lógica anterior. Não sabe ele o poder reacionário, reprodutivo e estabilizador do pensamento hegemônico, não sabe ele que sempre faz carinhos em um leão. Já o revolucionário sempre espera o momento da revolução, espera, espera, espera. O momento perfeito nunca vêm, e ao revolucionário só resta esperar a revolução, o levante revolucionário que está para além de sua própria ação. Isso é o que faz se confundir o pensamento revolucionário com o pensamento utópico.

 

Exposto isso, podemos nos perguntar onde há alternativa? Será que existe a paulatina revolução, que ocorre por meio de revoluções locais e atingem a todos depois de longo tempo? Será que existe reforma global, podemos reformar a lógica essencial do sistema? Creio que estas questões só podem ser feitas por aqueles que buscam de alguma forma a transformação. Para aqueles que, entregues ao fatalismo liberal, os tão resignados que se conformam em fazer parte de algo, mesmo que seja fazer parte de sua própria exclusão. A estes resta lamentar.

 

Essas escolhas, entre o que reformo e o que revoluciono, são as mais difíceis para aqueles que decidem transformar. Mas são ao mesmo tempo as escolhas mais essenciais no processo de transformação, que me coloca perante aquilo que mudo. Quando quero mudar a escola ou a política, minha ação nela e com ela devem ser ações claras, de reforma ou de revolução, não como um dualismo irreconciliável, mas como formas de minha própria consciência. Essa é a escolha que vivo hoje, e que pretendo viver por muito tempo, enquanto houver esperança de transformar.

Palavras-chave: pensamento hegêmonico, Política, reforma, revolução, sistema

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Setembro 18, 2009

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Deparei-me mais de uma vez com um trecho do livro “manuscritos econômico-filosóficos” de Marx. Apesar de escritos (1844) há quase duzentos anos, nos assombramos com a atualidade do texto em especial do trecho que cito a seguir. Este trecho traduz bem em que circunstância vive ou deixa de viver o trabalhador.

 

“A auto-renúncia, a renúncia à vida, a todas as carências humanas, é a sua [economista nacional] tese principal. Quanto menos comeres, beberes, comprares livros, fores ao teatro, ao baile, ao restaurante, pensares, amares, teorizares, cantares, pintares, esgrimires etc., tanto mais tu poupas, tanto maior se tornará o teu tesouro, que nem as traças nem o roubo o corroem, teu capital. Quanto menos tu fores, quanto menos externares a tua vida, tanto mais tens, tanto maior é a tua vida exteriorizada, tanto mais acumulas da tua essência estranhada. Tudo o que o economista nacional te arranca de vida e de humanidade, ele te supre de dinheiro e riqueza. E tudo aquilo que tu não podes, pode o teu dinheiro: ele pode comer, beber, ir ao baile, ao teatro, sabe de arte, de erudição, de raridade históricas, de poder político, pode viajar, pode apropriar-se disso tudo para ti; pode comprar tudo isso; ele é a verdadeira capacidade. Mas ele, que é tudo isso, não deseja senão criar-se a si próprio, comprar a si próprio, pois tudo a mais é, sim, seu servo e se eu tenho o senhor, tenho o servo e não necessito do servo. Todas as paixões e toda atividade têm, portanto, de naufragar na cobiça. Ao trabalhador só é permitido ter para que queira viver, e só é permitido querer viver para ter.” (p.142)

 

Quanto mais deixa de viver mais tem para deixa de viver. Para aqueles que não “trabalham” é difícil se ver neste ciclo.

 

Logo pela manhã minha esposa comentou sobre um e-mail que recebeu e dizia: “Agradeço à minha sobra, pois se há sombra quer dizer que estou ao Sol.” E em seguida comentou com pesar: “Sinto falta da minha sombra! Chego à empresa e o Sol mal saiu, quando saio da empresa o Sol já se pôs”. Isso poderia ser traduzido grosseiramente como falta da própria vida. Vida que agora engendra uma produção estranhada. Será que sem sombra continuamos existindo?

 

Quando subo no trem, sempre lotado, pela manhã. Vejo um rebanho, obtuso, tosco, feio, com a expressão de sofrimento e horror tatuada à face. Isso não é produto de um gosto estético particular, é efetivamente o premio do trabalhador.

 

MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2008.

Palavras-chave: manuscritos econômico-filosóficos, Marx, Política, Trabalhador, trabalho

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Setembro 04, 2009

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É preciso iniciar este texto dizendo que não existem ações que sejam puramente locais, o que pode haver, e é o que discutiremos, são as consciências e as forma como a consciência localiza esta ação. Em outras palavras, como situo minha ação no mundo, e como situo minha ação no mundo mediante a outras ações. Neste sentido farei uma critica dedicada ao pragmatismo ingênuo e as reduções da consciência as ações puramente locais.

 

Para diversas pessoas, e em qualquer área de trabalho ou da vida que estivermos passando sempre encontraremos tais pessoas, os problemas devem ser, antes de tudo, solucionados. Não importa como, não importa o porquê. Enquanto dava aula, à escola em que lecionava ganhou uma assinatura de jornal e outra de revista, e cabia aos professores selecionar os materiais a serem adquiridos, depois de muito debater sobre a diversidade de materiais disponíveis não se chegou a nenhuma conclusão, e a conclusão nem mesmo despontava no horizonte. Uma parte dos professores, já insatisfeitos, questionavam por que uma decisão aparentemente simples, tomava tanto tempo e demandava tanta argumentação. Foi neste instante que percebi uma questão latente, que insistia em se esconder ao fundo e que não se tratava desta escolha em especial. Será que temos que resolver este problema independente da sua solução? Será que incentivo o hábito de leitura em meus estudantes independente das qualidades desta leitura? Que custos pago em reflexão para ter meu problema resolvido?

 

Esta é uma questão que não nasce na escola, e por isso transborda seus muros. Está presente na decisão política de um partido que pretende se eleger, e avalia o que deve abrir mão para ter meu problema solucionado. Esta na ação mais corriqueira da dona de casa que faz uma escolha do produto em detrimento de outro. E está, também, na escola e na ação docente, quando o professor avalia o estudante e avalia sua própria prática, quando o professor percebe que os estudantes não compreendem o conteúdo e mesmo assim prosseguem na ânsia de cumprir o programa. Quando o professor economiza trinta minutos ao avaliar uma material didático, quando se nega a refletir sobre suas condições materiais.

 

O professor pode se transformar em um rolo compressor, que resolve tudo, independe da solução. Que faz por fazer e nunca consegue inserir sua ação em propósitos mais amplos. Que tem sua ação na escola descolada de suas escolhas na vida. Este desligamento dos sentidos vitais dos sujeitos e as soluções dadas aos problemas locais é o principio motor da alienação.

 

O professor que desenvolve criticidade e reflete sobre sua prática, consegue conscientemente alocar sua ação local no seio das preocupações e posicionamentos globais, se nega a aceitar qualquer solução para apenas solucionar um problema, e pode por muitas vezes assumir não haver solução ou mesmo se negar a solucionar. Principalmente se sentir que a soluções carecem de mais reflexão e apreciação.

 

Com o mesmo principio podemos pensar em questões mais gerais da educação como o PROUNI – Programa Universidade para Todos, os sistemas de cotas nas universidades públicas, as parcerias que se estabelecem entre ONGs e escolas públicas ou fundações e universidades etc. Acreditar que minha ação docente perante aos estudantes não exige de mim um posicionamento em relação as diversas questões que permeiam a educação é isolar toda ação que acredito ser transformadora, extirpar de minhas ações locais qualquer reflexão das questões mais gerais é assumir minha ação como alienada.

 

Neste quadro, refletir e compreender o porquê e pra que das questões, derrubando as obviedades, se torna tão importante quanto solucionar o problema. Devemos centrar a prática docente na valorização do processo e não só nos frutos ou produtos.

Palavras-chave: ação, existencia, Política, pragmatismo

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Setembro 03, 2009

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Em uma de minhas últimas discussões com um de meus professores, já na pós-graduação, no momento em que discutíamos a organização de um projeto com a escola pública do ensino médio, comentei sobre a formação de uma categoria, categoria trabalhadora. Em cima deste fragmento, e apoiado em pontos anteriores de nossa discussão ele constrói um argumento, que me fez pensar por algum tempo. Dizia ele:

 

Não acredito em categorias ou sindicatos, já fui comunista, mas hoje acredito que sejam nocivos. Suas bandeiras são sempre em defesa de interesses próprios, salário, salário. Nunca se prestam a pensar, por exemplo, no bem da educação nacional. O que fazem estes professores junto a sua comunidade, que tipo de ações desenvolvem, se só lhes resta reivindicar. Este foi o último argumento pronunciado antes da reunião se encerrar. Como é uma síntese minha do argumento de outro e não uma citação ipsis litteris, não achei justo colocá-la entre aspas.

 

Para pensar neste problema temos que distinguir dois tipos de professores, os que se submetem passivamente e aceitam as condições de contorno, e os que se dispõem a agir. Os que se submetem passivamente engrossam cada vez mais as fileiras do magistério e são contaminados e contaminam com a idéia de subserviência e reprodução. “Eu ganho para isso então faço isso”. Limitam-se as condições mais imediatas e se contentam em realizar um trabalho ruim, por ganharem pouco e disporem de péssimas condições de trabalho. Apesar de caracterizá-lo, não iremos pensar neste professor, ao menos por enquanto.

 

E o que resta ao professor que decide agir? Podemos ainda dividi-lo por sua forma de ação profissional. O primeiro, em geral sindicalista, protesta e vê sempre suas ações ligadas aos aspectos globais da educação, as políticas públicas, a índices da educação, se vê inserido em uma categoria trabalhadora, consolida a consciência desta categoria. Entretanto não consegue perceber sentido as ações locais, que para ele estão fadadas a desaparecer e caminhar ao conformismo. Por outro lado, temos o professor que vê sua ação sempre localmente, procura mudanças na sua prática, atualiza-se, busca interação com a comunidade e se esforça para extrair as transformações necessárias das condições fornecidas localmente. Para este professor, as ações globais, lhes parecem reacionárias e protecionistas, vazias de significado e não vê nela frutos.

 

Obviamente o quadro do magistério público não se encerra neste agir paradoxal. Para que se revitalize a ação docente é necessário compreender que, tanto a ação local como a ação global isoladas esvaziam-se. Nenhuma ação local perdurará e provocará reais mudanças se não estiver conectada a ações e posicionamentos globais. Não só de vocação vive o professor, este tem também necessidades humanas, deve ser suportado em condições mínimas de sua materialidade. A ação local que se descola dos sentidos globais, é sempre um esforço remontado a cada instante que não passará de ação localizada, que se encerra na própria ação do professor, em outras palavras, assim que este professor deixar de realizá-la, por qualquer que seja o motivo, a ação local esta ação local desconectada se acaba. De maneira semelhante devemos pensar nas ações globais, que devem vir de uma integração das ações locais, se estes não surgem conectados as localidades se esvaziam e se evaporam no singelo discurso político. Acabam por conseguir apenas “reforminhas”, remendos onde se esperavam mudanças radicais.

 

O professor não pode ter dúvida do valor social do seu trabalho, e de seu papel na mudança da educação. Deve compreender que melhoria nas condições de trabalho do professor, como por exemplo a melhoria de seu salário, implicam diretamente na melhoria da educação. Precisam entender que ação globais e locais não se reduzem uma a outra, e que só ganham sentidos reais se estiveram integradas. O professor não pode abrir mão de se aprimorar e oferecer o seu melhor, ao mesmo tempo que faz parte de sua ação docente e respeito aos alunos lutar por melhores condições de trabalho, como a redução do número de estudantes do sala de aula, um plano de carreira digno para que possam atrair bons e competentes profissionais, um aumento substancial de salário para que a educação entre nas prioridades políticas de investimento, sabendo que o professor é humano e faz parte de sua formação integral, a arte, cultura, leitura e acesso a diversos outros artefatos culturais.

 

Toda a atividade humana é Histórica, isso implica em um devir de transformações que se dão nos âmbitos globais e locais, reintegrá-los é reintegrar a História educacional.

 

Palavras-chave: ação, Política, transformação

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Setembro 01, 2009

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Atualmente os mocinhos se apropriaram do discurso ecológico, frenesi que se alastra por diversos setores da sociedade, a começar pela educação e a finalizar nos modos de consumo. É surpreendente como o capitalismo se apropriou do discurso ecológico, tão nocivo a ele no século passado – século XX. Neste século, o capitalismo transmutou o discurso ecológico e o colocou na prateleira dos melhores mercados. Ser ecologicamente correto ainda não é para todos.

 

Por todos os lados somos perseguidos pela culpa de nossa própria existência. Fazer com que se consuma pela culpa mostra-se ainda mais eficiente do que se consumir pela euforia e a felicidade plena.  Como este produto, recém enlatado vem sendo vendido, é apenas uma parte da questão que abordaremos em outro texto. Neste texto gostaria de evidenciar o argumento que se põe como pilar principal do discurso ecológico de mercado.

 

Quando nos perguntamos por que devemos mudar nossos hábitos? Por que preservar? Por que reciclar, reutilizar e reduzir?  A resposta mais disponível esta balizada pela preservação da própria espécie humana. Temos que salvar a terra para que o homem possa viver. Por que salvar ou preservar a fauna ou a flora? Para que o homem possa usufruir dessa riqueza e dessa diversidade mais tarde.

 

Esse argumento é pernicioso na medida em que, o homem só muda na medida do homem. Só haverá preservação enquanto o homem se sentir ameaçado. Só haverá mudança de hábito na medida da coação do homem pelo ambiente. Enquanto este for o argumento vertebral que sustenta os demais argumentos ecológicos não haverão mudanças duradouras e substanciais.

 

Exemplo disso está na economia de energia durante o chamado “apagão”, que promoveu uma redução do consumo de energia significativo em 2001, 2002 e no inicio de 2003, depois disso o consumo volta ao patamares anteriores. De fato foi apenas um incomodo passageiro. Da mesma forma podemos pensar nos índices alarmantes e previsões catastróficas anunciadas pelo IPCC – Intergovernamental Panel on Climate Change. Provocou ampla discussão sobre o assunto e interesse pelo efeito estufa, problema que sempre caia fora dos interesses populares até então.

 

O quanto estamos dispostos a fazer para que a terra se preserve, seriamos capazes de abrir mão do desenvolvimento tecnológico que cresce em um ritmo nunca visto? Seriamos capazes de abrir mão do livre consumo? Seriamos capazes de abrir mão da nossa própria existência em nome da preservação terrestre?

 

Ao que percebo todas essas questões vem sendo respondidas negativamente. O homem não abrirá mão do que lhe convém enquanto homem. Continuaremos criando e recriando necessidades, alimentando o sistema mercadológico. Tudo isso em nome da preservação da espécie humana.Poderiam nos chamar de egoístas, mas de fato quem faria isso?

 

Em nome da liberdade de exploração, em nome da liberdade de consumo, criamos prisões ambientais e ideológicas, que nos cercam e nos paralisam. Violências, epidemias, ignorâncias, medos etc. Livre ao mesmo tempo que presos. O homem conseguiu se aprisionar em seu argumento antropocentrista.

Palavras-chave: antropocêntrico, Ecologia, extinção, humanidade, Política

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Agosto 28, 2009

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Eu e a aldeia -Marc Chagall

Eu e a aldeia – Marc Chagall (1911)

 

Nunca pensei em ser crítico de arte, e minhas aptidões passam longe disso, então farei uma breve consideração, para que, concordando ou não comigo, possam reconstruí-la em seu intimo.

 

Num primeiro olhar vejo um sonho, um sonho do cotidiano, um sonho longe da utopia e longe de qualquer idealismo, um verdadeiro sonho noturno. Um sonho que organiza o cotidiano e que consegue recobrar o viver simples.

A primeira vez que me deparei com esta obra, estava em um curso da pós-graduação, discutindo a organização e a pesquisa em física. É bom parar para pensar nisso.

 

Recomendo esta tela, para que os educadores que mergulhem em suas vivencias mais pueris. Para que possam, redescobrir o entusiasmo nos episódios banais que insistem em nos cercar.

Palavras-chave: Arte, Política, Sonho

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Agosto 27, 2009

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Sempre fui contra a privatização, e hoje mais do que nunca vejo que é necessário nos posicionarmos com relação a este assunto. Certa vez, pouco tempo depois da inauguração do CEU (Centro Educacional Unificado) em Aricanduva, fui visitá-lo. Um tanto deslumbrado com sua grandiosidade, por um lado, e preocupado com seus altos custos de manutenção e sua rápida deterioração e sucateamento, por outro. Quando me deparo com uma propaganda sobre merenda escolar, que havia subido de qualidade após a terceirização da cozinha. Logo minha esposa, que sempre fez uso do ensino público municipal de São Paulo, comenta. Ainda bem que terceirizaram a merenda, na época em que estudei erra horrível. Prontamente discordei sobre os supostos benefícios desta terceirização. Anos se passaram e este assunto ainda me toma espaço na mente.

 

Para que possamos discutir minimamente a privatização, deveríamos discutir o que é o público, o estado e suas responsabilidades. Entretanto, para não alongar por demais o debate, devo apensa dizer que para discutir a privatização, temos que retirar a ilusão que insiste em se enraizar em nosso imaginário, a de que as instituições públicas não funcionam ou estão fadadas a não funcionar. Poderia aqui relacionar diversas instituições públicas que desempenham primorosamente suas funções, mas não é isso que pretendo fazer, já que qualquer um poderia listar um número dobrado das instituições públicas que falham. E por ironia, começariam pelas instituições de educação. Mas ainda assim insisto, é preciso retirar este ranço negativista que impede o funcionamento do setor público.

 

A privatização, apesar de nos parecer sempre um bom negócio já que de maneira geral os serviços melhoram, ou ao menos cria-se a ilusão de que melhora. É fazer com que as pessoas que mais precisam do serviço prestado ou que mais usufruem do direito, fiquem a mercê de interesses privados.

 

Que empresa, em sã consciência e trabalhando na ânsia de crescer, colocaria os interesses públicos à frente do lucro? Não acredito que haja. O setor público que vem passando por diversas privatizações como as empresas de telefonia, fixa e móvel, o transporte e suas concessões, as rodovias e os pedágios, a saúde os planos de saúde, a educação e a faculdades, dentre outras que formam a base da economia, como a produção de “commoditys”.

 

Imaginemos, sem muito esforço, uma empresa que fornece merenda as escolas públicas serve aos alunos carne de segunda com qualidade e cumpre honestamente suas obrigações contratuais. Com a reviravolta do mercado externo a carne tem seu preço reduzido pela metade, e o preço da carne de primeira passa a ser o antigo preço da carne de segunda. Ainda sem fazer muito esforço, pense. Essa empresa passará a servir carne de primeira, mesmo que por tempo indeterminado? Não. Já que aproveitará o momento para aumentar seu lucro.

 

Nesta empresa, apesar de honesta e “bem intencionada” não reside a preocupação pública. O bem comum da lugar ao lucro. A empresa não precisa ser inescrupulosa, já que o lucro no setor privado é visto como algo natural, algo legal. De forma semelhante ocorre para os diversos outros setores da sociedade.

 

O interesse público não só pode como deve possibilitar o desenvolvimento e a melhoria das condições de vivência humana.

Palavras-chave: Política, privatização, público

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Agosto 25, 2009

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As greves! Acredito que não haja assunto mais polêmico na universidade e na educação que a greve, entretanto esta reflexão não tem por intenção pulverizar a polêmica comum e tão estéril, tenho antes a intenção de fornecer elementos para compreender um fenômeno cada vez mais freqüente no âmbito educacional.

 

Em 2004, realizei minha mais contundente participação em greves na universidade, em meio a uma graduação suficientemente complicada. Entrei no curso de graduação de licenciatura em física em 2001 e vivia a sombra da “grande greve” de 2000. Não sabia bem do que se tratava, mas nas conversas dos corredores me pareceu a mais extensa resistência grevista já instalada desde a ditadura. Ainda nos ares desta greve ocorreram as paralisações e por fim greve em 2004.

 

Vivento este evento notei o que posso chamar da maior dificuldade do movimento grevista. Ao contrario do que a maioria acredita, a maior dificuldade a ser superada por um sério movimento de greve não são as articulações governamentais, não são as sabotagens dos não grevistas, mas  a desinformação daqueles que decidiram aderir a greve.

 

Qualquer movimento grevista, e acredito que isso valha para a educação ou para qualquer outro setor da sociedade que decida se mobilizar, deve superar antes de mais nada a desinformação daqueles que decidiram militar. Quase todos sabem por que estão lá, mas quase ninguém concorda em por que estar. O que, de inicio, não desmerece a greve já que esta é reflexo de uma longa insatisfação, mas que compromete sua longevidade e seu poder de conquista.

 

Na ânsia de potencializar a adesão, os objetivos são diluídos de forma que o maior número de pessoas possa na sua insatisfação identificar-se. Mas nessa mesma ânsia cria-se a impossibilidade de um real posicionamento.

 

Na greve de 2004 percebi que ao ter um ponto claro (mesmo que ilusoriamente claro), naquela época o veto do governador à LDO, facilitou a mobilização das pessoas e sua reunião pelo motivo que se unificava e não só pela insatisfação pulverizada. Isso facilitou por conseguinte a circulação da informação e o posicionamento dos estudantes, professores e funcionários. Mesmo para aqueles que não tem muita clareza ou que sentem dificuldade de se posicionar, ganham confiança ao perceber que o que lhe impulsiona, também faz ao outro.

 

Por outro lado, existe uma dificuldade intrínseco na propagação da informação, já que o meios oficiais portadores da credibilidade, investimento e uma suposta qualidade, em geral, não são controlados pelo movimento grevista que lhe resta uma imprensa que nasce na marginalidade e por isso tem sua credibilidade colocada em cheque a todo instante. Este aspecto deixa cada vez mais vulnerável os movimentos populares, em especial os grevistas que nascem no seio das instituições.

 

Encontrar modos de comunicação mais claros, em um plano de distribuição da informação mais eficaz é um desafio para o movimento grevista de grande escala. Esteja ele na educação ou não.

Palavras-chave: comunicação, greve, Política

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Agosto 24, 2009

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Por não estar no foco de minhas preocupações atuais meus comentários sobre esta temática soarão por demais ingênuas. Entretanto sei que para compreender as questões sociais mais amplas relacionadas ao poder, política, educação e cidadania terei que, pouco a pouco, me enfronhar com a noção de propriedade. Uma idéia que nos parece tão inofensiva e natural. E justamente por isso que o senso comum se nega a refletir sobre ela.

 

Primeiro é preciso pensar que dentro desta idéia cabem diversas organizações e categorias, como a propriedade pública e a propriedade privada, móvel e imóvel, etc. Dentro de qualquer categorização pensada devemos, antes de mais nada, desnaturalizar a noção de propriedade, em outras palavras, passamos tempo demais acreditando que a noção de propriedade instaurada é a única possível, e transcendentalmente legítima. Assim, a propriedade, quase que como um dom divino é imutável e eternamente presente.

 

Quando vemos, ou pensamos em um roubo, ou mesmo quando vemos uma invasão de terras, ficamos chocados e acreditamos que essa contravenção é, além de uma contravenção da lei, uma contravenção do estado natural das coisas. Neste momento nos esquecemos que esta noção é humanamente construída e pode ser humanamente reinventado, não como uma reinvenção do individuo, mas uma reinvenção em seu devir histórico.

 

Certa vez ouvi de um colega: “A sociedade Inca apesar de toda sofisticação, foi ‘dizimada’ por não possuir dois elementos: a roda e a arma de fogo”. Tentando fugir das implacáveis reduções, poderíamos ainda incluir a noção de propriedade como extremamente relevante para compreender os modos de dominação na América colonial. Poderíamos ainda estender a vitalidade da noção de propriedade para compreender a construção dos pensamentos hegemônicos atuais.

 

No encontro com outra cultura, a primeira dissonância que aparece esta na plano da propriedade. Saber que outras civilizações constroem suas sociedades balizadas por noções distintas de propriedade nos ajuda a retirar deste conceito a obviedade.

 

Outro ponto que acredito ser importante notar é que, toda noção de propriedade guarda nela uma tensão. Sua construção é um processo decorrente de diversas tensões e de como cada época e cada sociedade as resolve. Seja a sociedade indígena pré-colonial guarani, cuba pós revolução, sociedade romana, Japão feudal etc. Cada noção de propriedade pode revelar essas tensões e as diversas formas como cada sociedade se assenta nelas. Como desdobramentos diretos dessa noção está na idéia de propriedade dos meios de produção e na propriedade da força de trabalho.

 

Um estudo histórico e cultural nos ajudaria em uma compreensão mais profunda das questões atuais como a distribuição de renda, reforma agrária e demarcação de territórios indígenas, problemas de transporte e habitação, direitos autorais, questões relacionadas a família e a mulher, visões de ciência etc.

 

A noção de propriedade não é obvia, ela é antes histórica e cultural. Para entender o “estatu quo” da sociedade e para subverter a própria noção de propriedade é necessário, de alguma forma, desnaturalizá-la, subverter seu ontologia.

Palavras-chave: Política, propriedade, Propriedade privada

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Agosto 05, 2009

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Dentre tantas reflexões que me desperta este tema, teria que começar por algum lugar. Um dos mais nocivos vícios da ciência moderna é a fé de que a ciência é neutra. O discurso de neutralidade da ciência nasce, em sua prática, junto ao discurso científico, sua primeira quimera. Reforçado por uma reconstrução histórica conveniente e alicerçado pelos frutos e estreita relação com a técnica, a neutralidade da ciência se tornou no século XX um pressuposto balizar para a ação dos cientistas e para determinar a relação da ciência com a sociedade. Portanto este é um ponto de reflexão que deve ser tangenciado na prática educativa, política e cidadã.

 

Longe da imagem de cientista louco que quer dominar o mundo, figura que dorme no imaginário contemporâneo, quero construir um cientista responsável, um leitor, usuário e estudante de ciências responsável. Não só responsável pela produção, mas também pela difusão e uso de uma ciência, que é antes de mais nada, uma ciência humana portanto de responsabilidade humana.

 

O velho ditado de que a faca pode tanto passar manteiga no pão, quanto cortar a outra pessoa, geralmente generalizado para os diversos produtos científicos, onde a faca não é boa nem ruim, depende da forma com que a usamos. Este argumento camufla a “tensa” atividade humana de sua produção e seu uso.

 

O conhecimento científico é transpassado por uma dinâmica das relações dos conceitos científicos, o que de certa forma já é esperado, mas devemos incluir a isso a dinâmica das relações das comunidade científicas e a dinâmica das relações da sociedade de maneira mais ampla. Não podemos e não devemos negar o fato de que no seio da atividade científica reside a ação política (política não partidária, mas política), isso ganha materialidade nas justificativas dos pedidos de financiamento, nos recursos aos pedidos de financiamento, nos pareceres científicos, na divulgação científica, no livro didático etc.

 

Seja por traz da ação laboratorial ou da construção teórica, existem latentes as diversas visões sobre o ser humano, sobre a finalidade do seu fazer e sobre seu papel na sociedade. Estas noções orientam a ação do cientista, educador, leitor e estudante e no fundo determina se ele se responsabiliza ou não por isso.

 

Como justificar à humanidade, que em sua maioria carece das condições básicas de subsistência, o financiamento de bilhões para um hadron collider, sem criar a necessidade de pânico apocalíptico? A justificativa é, em ultima análise uma ação política. Como justificar à uma comunidade científica e uma sociedade com ranço inquisidor, que a terra sofre influência do sol à distância e sem agente material alguma? Essa é antes uma ação política, que traz consigo a responsabilidade. Poderíamos esgotar essa discussão nos exemplo, entretanto devemos pensar nos desdobramentos.

 

Aquele que acredita na neutralidade do discurso está iludido sobre sua própria condição. Assumir a ciência como não neutra implica em me responsabilizar, em repensar minha prática científica, educativa e cidadã, implica em re-situar minha pesquisa em meio ao propósitos humanos. O mais doloroso, mas necessário é desacralizar a ciência e trazê-la para o mundo. Neste âmbito, da responsabilidade, passa a ser legitimo questionar os rumos do desenvolvimento científico, fora disso nos parece absurdo.

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Agosto 03, 2009

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Estava eu em uma fila de um banco, em uma segunda-feira cinzenta, até agora nada de novo. Acho que na segunda-feira passada encontrei essas mesmas pessoas nessa mesma fila. Mas não posso dizer com certeza, vejo apenas os olhos de temor por traz de diversas máscaras branca, que nem são tão brancas assim. Ir ao banco tornou-se a derradeira atividade coletiva necessária. Encontrar as pessoas é realmente reconfortante, mesmo sem poder tocá-las, mesmos cabisbaixas. Tudo está como na semana passada, quase insuportável. Até que alguém, que parecia displicente com sua própria saúde, entrar no banco. De golpe todos os olhares se voltaram para ela, inclusive o meu. Olhares que agora já não se reduziam apenas ao medo ganhavam tons de nojo e preconceito. Sem ninguém esperar, esse infeliz, solta um espiro abre a máscara e coça o nariz. Como um simples coçar de nariz poderia provocar tanto pânico senão nestas condições? Diversas pessoas tentam fugir desesperadas do banco, mas só as que estavam mais próximas da porta conseguem sair. Logo o segurança, em um ato impensado, ativa a tranca automática da porta, com o intuito de ninguém sair com valores, ou com operações pela metade. Vendo a porta fechada duas senhas, como que ensaiadas, começaram a gritar e clamar pelo bom e velho Senhor. Os gritos e preces das duas senhoras, contaminaram, de maneira mais rápida que apropria gripe, as pessoas que ainda estavam no banco. Além do pânico restou apenas o cuidado para não nos tocarm0s. Esse, aliás, foi o primeiro procedimento adotado pela população, extinguir o toque e se mostrou muito eficiente para controlar os focos de epidemia. Mas pesar do grande desespero e correria, faltava ali um ingrediente indispensável à qualquer tumulto, o empurra-empurra. De repente, de um consenso assustador as pessoas se voltam para o senhor coçador de nariz. Mas a grande pergunta que passava na cabeça de todos era: Como linchar o homem sem tocá-lo, e como fazer isso coletivamente sem nos tocarmos? Ainda sem uma solução iniciaram as marchas rumo ao infeliz senhor, quando já próximos dele, uma moça que também marchava em direção a ele, em um tropicão desconcertado esbarra em duas pessoas logo a sua frente, sem poder sair dali recomeça o tumulto. Até que em uma ação novamente impensada o segurança se mune do extintor de incêndios e começa a disparar contra as pessoas agitadas com o intuito de acalmar os demais. O senhor coçador de nariz corre e agarra o segurança, quando os dois caem no chão. O segurança saí de si e começa a berrar enlouquecidamente. Os mais calmos encostam na parede. Na queda o senhor coçador, começa a esboçar uma fisionomia de agonia e dor retorcida, provavelmente um infarto. Mas ninguém se move, todos olham, mas ninguém se move, quem seria capaz de tocá-lo, tínhamos medo até mesmo de pensar nessa possibilidade, depois de algum tempo agonizando o homem falece, abrem a porta do banco e as pessoas começam, serenamente a sair, e como se nada tivesse acontecido, estávamos nós novamente ao banco na segunda-feira seguinte, e só me restava a impressão de já ter visto todas aquelas pessoas na última semana.

Depois de milhões de anos de evolução biológica e de milhares de evolução cultural, conseguimos extinguir o mais primitivo e sensível ato humano, o toque, toque de outro humano. Como conseqüência inevitável do medo, nos tornamos estranhos. Como andar em uma calçada com uma multidão apressada, e apesar de toda a pressa, apesar da multidão, nunca nos tocamos, nunca esbarramos, quase que um encontro galáctico. Apesar de passarmos ali todos os dias, somos estranhos. Ainda mais rápido que o alastramento gripal esta a propagação do medo. A individualização e isolamento dos sujeitos que vinha crescendo, ganha agora um catalisador de proporções nunca antes vista. Na globalização que empardece os sujeitos, o medo nos torna ilhas desprovidas de contato. Do abraçar à um corriqueiro aperto de mãos, nos permitimos, por meio do toque nos envolver. Não nos tocamos mais, com medo de que no outro nos encontremos novamente.

Palavras-chave: gripe, humanidade, Política, sociedade atual, toque

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Julho 30, 2009

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Hoje, é muito comum ver discursos que exaltam, clamam e reivindicam a democracia. A educação, filosofia e política são bombardeadas pelo termo “democratização”. Depois de décadas vivendo sobre um regime ditatorial ou não democrático, as pessoas de todas as classes sociais e de diversos nichos culturais apóiam a democracia como uma idéia “quase” que natural. Já nascemos com anseios democráticos! Principalmente com os atuais (mas nem tão atuais assim) incidentes no oriente médio, mais especificamente em Teerã.

 

Mas seria a democracia, a palavra chave para todos os problemas sociais? Que tipo de democracia é essa? Quero realmente a democracia da forma como se realiza hoje no Brasil? Meu voto vale realmente o mesmo que o seu? Problematizar essa democracia liberal de representação é o primeiro passo para responder tais questões.

 

A democracia não tem como conseqüência a igualdade, no fundo ela pressupõe igualdade. Na forma como vejo colocada a democracia brasileira hoje, a igualdade se põe como condição de existência. Pensando nesta democracia, onde todos podem votar, se expressar, coligar, montar partidos políticos, exercer livremente seus preceitos religiosos, etc. Tudo isso respeitando uma lei ou conjunto de regras elaborada e votada democraticamente.

 

Nessa democracia, seria possível a existência de um fascista (com aspirações antidemocráticas)? Diria sim, a democracia suporta a convivência com este fascista, ele pode e deve se manifestar, se expor, manifestar suas preocupações com a nação e usufruir dos direitos democráticos. Tudo isso pode acontecer e acontece sem causar maiores problemas. Mas poderia, esta mesma democracia, suportar a convivência com dois fascistas? Sim. Três, quatro, cinco, seis fascistas podem conviver. Mas este pequeno grupo de fascistas que se tronam cinqüenta por cento (mais um) da população já dispõem de força suficiente para implantar pela própria força democrática o fascismo. Neste fascismo, nascido da democracia, já não há espaço para as aspirações democráticas.

 

Neste problema, aparentemente simples, reside uma fratura dos atuais discursos democráticos, que tem como pilar a singela e por muitas vezes hipócrita, igualdade. Sem rever profundamente os discursos de igualdade, a democracia colapsa em uma ditadura da maioria. Nesta ditadura da maioria o que aconteceriam com as minorias? Essa idéia é um pouco contrário ao que aconteceu e, de certo modo, ainda acontece no Brasil, onde uma pequena parcela da população detém grande poder político-econômico. Apesar de aparentemente fictício e aparentemente improvável, quando olhamos para a os movimentos fascistas e nazistas, na Europa entre o fim da primeira guerra e o fim da segunda guerra, vemos que estes não foram movimentos das minorias.

 

Por fim, isso nos leva a outras questões, como, qual democracia devo perseguir, quais seus pressupostos e quais suas implicações? Não devemos ter medo de colocar a atual democracia em xeque, pois questionar a democracia não nos faz antidemocráticos. Não é esse o principio áureo da democracia?

Palavras-chave: democracia, direito, igualdade, Política

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Julho 29, 2009

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Vou comentar, algo que passa longe de uma severa resenha, mas que não chega a ser uma mera indicação. Posso dizer que, apenas comentarei o livro “Liberdade e neurobiologia” do filosofo estadunidense John R. Searle, que vem desenvolvendo trabalhos de grande repercussão no campo da filosofia da mente. Esta leitura é recomendada não só para aqueles que buscam aprofundamento na educação, mas para aqueles que buscam as atuais questões da consciência.

 

Uma contribuição importante para este campo, que já vem sendo feita à séculos, mas que Searle consegue expor com clareza, principalmente para o público leigo, é o rompimento com a separação cartesiana entre corpo e mente. Quando separamos corpo e mente, surge junto a isso outra questão que para os críticos de Descartes, é intransponível. Como religar mente e corpo, e como explicar a influência da mente sobre o corpo, ou vice-versa? Searle destaca que adotando a solução cartesiana de separação, não conseguimos traspor a segunda questão, aqui colocada.

 

Em seguida faz uso de uma poderosa metáfora com a estrutura molecular, onde assim como a propriedade de rigidez de um objeto é estado de uma aglomeração particular de moléculas, a consciência pode ser entendida como uma “propriedade superior” à uma configuração neuronal. Não conseguimos determinar a rigidez nem explicá-la observando a molécula isoladamente, esta propriedade não reside na molécula isolada, assim como a consciência não pode ser explicada pela ação exclusiva de um neurônio. Nesta metáfora cabem certas ressalvas já que o sistema molecular é um sistema determinístico, onde a rigidez é conhecida apenas conhecendo os estados do conjunto de moléculas. Se assim fosse a consciência seriamos incapazes de explicar o livre arbítrio, já que as escolhas estariam pré-determinadas em estados neuronais anteriores. Por fim cairíamos em uma forma já conhecida de entender a vida humana, como é o caso do destino. Para isso ele tenta introduzir a idéia de indeterminismo como propriedade dos sistemas neuronais, que na consciência se manifestaria por meio do livre arbítrio.

 

Suas explicações para as escolhas racionais, baseado no principio de indeterminação são bem convincentes e evidencia anos de reflexão. Entretanto quando tenta embutir aspectos sociais à mente, caí em um realismo ingênuo. Tenta criar categorias, a meu ver muito frágeis, para discriminar o que é dependente e independente das escolhas humanas. Cita os fenômenos fiscos como independentes e os fenômenos lingüísticos como dependentes, se por um lado rompe com a dualidade cartesiana, por outro, cria um dualismo que não permitirá a compreensão ampla dos fenômenos sociais.

 

Assim neste livro o autor não consegue realizar o salto, ainda em aberto nas ciências cognitivas, entre a mente individual e as complexas relações sociais. Apesar da grande elaboração do contorno neurobiológico, suas considerações sobre política, linguagem e sociedade são extremamente simplistas e insere quase tudo em uma lógica consensual e consciente. Com as ferramentas desenvolvidas na segunda parte do texto, não conseguimos explicar fenômenos político-sociais como a atual situação em Honduras (desde 28 de junho de 2009), onde um governo é deposto e seu presidente é exilado, o governo interino, ou o governo golpista, divide opiniões sobre sua legitimidade tanto no povo hondurenho quanto na comunidade internacional. As soluções para tais questões políticas são as mais diversas, incapazes de serem reduzidas, ao menos nos modelos atuais, à uma racionalidade neurobiológica.

 

De modo geral, creio ser uma leitura interessante mais aos educadores e filósofos do que aos políticos.

 SEARLE, John R. Liberdade e neurobiologia:reflexões sobre o livre-arbítrio, a linguagem e o poder político. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

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Julho 28, 2009

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Gostaria de poder resistir à quase insana tentativa de comentar o texto de José Saramago – “Problema de homens” – em que trata dos atuais conflitos de gênero, em particular os recentes acontecimentos da Espanha. Texto que possibilita a reflexão do atual machismo e da posição masculina sobre seus próprios atos.

 

Esse tema tem tudo para ser só mais uma panfletagem feminista que se perde em meio a tantos discursos e propósitos, a não ser por sua inabitual perspectiva. Oferecer ao homem condição de refletir sobre seu papel na abolição da violência de gênero.

 

Nem como cidadão, nem como homem, deixaria a cargo do homem libertar a mulher, isso pode nos levar a um machismo de ordem superior, onde só o homem tem condições para reverter o quadro atual. Mas não é disso que o texto de Saramago trata, acredito que ele tente resgatar da omissão completa, as dores do homem sobre a violência de gênero. Na Espanha não sei, mas no Brasil, onde os brasileiros já não se permitem sentir dor, caminhamos em uma total anestesia. A violência contra a mulher acaba por se tornar uma paródia cômica em programas de televisão que só servem a alimentar o machismo em mulheres e homens. A sociedade brasileira é nutrida por um machismo velado, entranhado em nossa cultura nos meandros da língua masculina. No machismo atual a subserviência se traveste de humildade e o orgulho se instrumenta da humilhação. Esse, assim como o racismo, preconceito, corrupção, negligência não nos mostra a face clara, está sempre pronto a ser negado.

 

Os homens têm que sentir sim! A punhalada de seu próprio punho, e entender que a agressão ao outro, em especial ao outro gênero, é no fundo uma agressão a si. A compaixão permite sentir o que o outro sente, e dela deve nascer a mudança, não só do homem, mas de toda a sociedade. Acredito que chegará o momento que a violência de gênero, não só será a primeira preocupação pública, como será impensável e inconcebível à natureza humana.

 

Não posso me enganar, não só por meio de um protesto masculino aflorará a consciência da boçalidade que vivenciamos, precisamos de reais e concretos acertos em direção a igualdade. Uma igualdade que ao mesmo tempo preserva as diferenças, missão quase impossível para a sociedade como está. Mas devo dizer “quase”.

 

Em suma, para mudar as relações de gênero na sociedade, implica inevitavelmente em mudar suas raízes.

 Recomendo que leiam o texto do José Saramago na integra e comentem.

http://caderno.josesaramago.org/2009/07/27/problema-de-homens/

Palavras-chave: crítica social, Machismo, Política

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