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Setembro 11, 2009

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Em sua obra autobiográfica intitulada a parte e o todo, o físico alemão Werner Heisenberg escrever e discute sua vida, obra e formação em física. Esta é sem dúvida uma leitura obrigatória para todos os estudantes de física e ciências. Em especial, esta leitura ajudará a desmistificar ainda mais a física e sua construção. As considerações que pretendo tecer aos físicos estendem-se também aos professores de física e ciências em geral.

 

A soma de casos curiosos que percorreram toda da a vida de Heisenberg é gigantesca, então gostaria de destacar alguns aspectos, sem estragar o final, mesmo sendo um final já sabido. Ele conta de suas leituras solitárias de Platão (em grego) durante a primeira guerra mundial. Este pode ser considerado um indicio de que a formação do físico não pode se fechar na física.

 

Conta seu primeiro encontro com o matemático John von Neumann com quem iria trabalhar, e de como ele lhe lembrava Fausto. Seu primeiro contato com a física se deu por meio dos seminários de pesquisa, a física atômica e os problemas mais atuais da física. Só posteriormente veio a se inteirar da física clássica em todas as suas mazelas. Isso também me leva a um outro indicio, a de que a física clássica não é condição ou pré-requisito para a compreensão da física moderna e contemporânea. Essa idéia precisa ser repensada no ensino da física.

 

Outro fato que não podemos deixar passar sobre a sua formação é sua intensa relação com Neils Bohr, em suas diversas viagens e caminhadas discutiram e refinaram diversos aspectos, principalmente filosóficos, da física quântica.  O que me leva a pensar que a formação no físico não pode se limitar à biblioteca, laboratório e sala de aula.

 

Nesta obra, o autor tenta justificar suas escolhas políticas, principalmente em relação à segunda guerra mundial e a ascensão do nazismo. Referente a isso, conta sobre seu retorno a Alemanha pouco antes da guerra se iniciar, suas esperanças de reconstrução da Alemanha pós-guerra, sua participação das reuniões do partido nacional socialista ainda na juventude, e sobre o seu papel no comando do projeto nuclear alemão. Apesar de contar com detalhes suas experiências e de seus argumentos serem convincentes, procuro olhar para este aspecto com certa reserva, é bom lembrarmos que é um alemão, escrevendo em um período de paz sobre suas escolhas na guerra. Não serão completas mentiras, mas estão longes de serem sinceras verdades.

 

Dois momentos são especialmente excitantes. O primeiro em que conta da noite em que chegou ao principio da incerteza, sua angustia e estupefação em relação à física, sua busca por dar significado a isso. Neste episódio relatado por ele, pude perceber o quão humana é a física, e que ela não fala sobre outra coisa que não do homem. O segundo episódio relatado já em uma das últimas partes do livro quando recebeu a notícia, em uma prisão Inglesa, de que a bomba nuclear havia sido detonada. Sua descrença e sua preocupação em relação ao colega de prisão Otto Hahn, cuja a teoria de fissão do urânio viabilizou a construção da bomba. Segundo o autor, Otto Hahn, permaneceu trancado sem falar por alguns dias, o que causava apreensão entre os demais físicos alemães presos. Neste momento Heisenberg discute a culpa do cientista e abre a margem para mais uma vez humanizar o cientista.

 

É interessante ver a interação entre os diversos físicos e cientistas, conhecidos apenas por fama. Coloca a todo o instante sua visão particular sobre Planck, Einstein, Bohr, Dirac, Shödinger dentre outros.

 

A possibilidade de testemunhar a efervescência da física no inicio do século XX, colocando em cheque diversas obviedades na física, política, religião etc, fazem desta uma obra indispensável a reflexão do professor de física e do físico.

HEISENBERG, W. A parte e o todo. São Paulo: Contraponto, 2007.

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Setembro 02, 2009

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Uma leitura tardia em minha própria história, talvez não tivesse maturidade para tê-la tomado antes. Com certeza muitas coisas não teria compreendido e deixaria passar mais coisas que agora. Não posso dizer que foi a leitura mais simples e fácil que já realizei, mas com certeza uma das mais interessantes.

 

Inicialmente os autores fazem duras críticas ao idealismo de Hegel, que em seu delírio, cria o “Homem”, um homem em geral, um homem ideal. Neste sentido, inviabiliza o entendimento da História como expressão concreta de um homem particular, neste caso o alemão. E desliga o Homem do mundo e de suas condições materiais. Por outro lado, também não deixa passar ilesa os materialismos imóveis e estratificados, que amordaça pelo ingênuo naturalismo. Transformam assim a História em uma mera coleção de fatos de um empirismo vazio.

 

Neste sentido declara sobre a real liberdade, que não pode estar separa de suas condições materiais. Assim a liberdade não pode ser encontrada apenas no plano das idéias, mas deve estar presente nas condições mundanas do homem, no trabalho que este realiza e nas condições deste trabalho e das circunstâncias de sua vida material.

 

Mostra pelo desenvolvimento das relações de trabalho que a História humana não reside nas vontades individuais de soberanos e políticos, a História humana é antes uma história dos meios de produção, que possibilitam ou não determinada forma de vida.

 

Mostra também como a História da propriedade privada esta imbricada à História da divisão do trabalho. Com isso consegue relacionar como mesmo a ciência, que para os cientistas se mostra independente de qualquer ação humana em um contato mais ou menos direto com a natureza, se subordina ao meios de produção e as condições materiais de uma época determinada. Tornando-se na sociedade capitalista a mercadoria.

 

Posso destacar dois trecho representativos de um amplo trabalho de reflexão e observação que Marx & Engels se propuseram neste texto.

 

“Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência” (p. 26).

 

Esta frase tomada isoladamente pode promover mais polemicas que esclarecimentos. Mas é nesta inversão essencial da consciência e da História humana que possibilitou o desenvolvimento frutífero das pesquisas soviéticas no inicio do século XX, como as obras de Bakhtin, Voloshinov, Vigotski, Leontiev dentre outros. Inversão sem precedentes na filosofia que permitiram compreender diversos fenômenos sociais, psicológicos, lingüísticos e econômicos.

 

A segunda trecho que considero importante notar é:

 

“Os indivíduos partiram sempre de si, mas naturalmente, de si no quadro das suas condições e relações históricas dadas, não do individuo ‘puro’ no sentido dos ideólogos” (p. 92).

 

Isto mina as buscas inconseqüentes promovidas na sociologia, educação, psicologia e nas diversas áreas que criaram para si indivíduos puros e ideais, e desenvolveram infinidades de teorias que nunca seriam capazes de se religar ao mundo real ou ao homem real.

 

Atribuo em parte a isso o isolamento e encapsulação dos conteúdos escolares, que foram feitos para um homem existente apenas no imaginários de seus criadores. O que mais para frente poderemos chamar de atividade alienada.

 

Recomendo essa leitura aos educadores, que realmente estão dispostos a repensar sua própria concepção de homem. Por traz da ação pedagógica, seja ela qual for, reside uma concepção antropológica. Para compreender suas escolhas pedagógicas, e escolhas na vida, é importante revisitar sua compreensão de homem, sem a qual nem mesmo a ação seria possível.

MARX, K. & ENGELS, F. A ideologia alemã: Teses sobre Feuerbach. São Paulo: Centauro Editora, 2006.

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Agosto 19, 2009

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Em sua mais madura obra, Paulo Freire consegue em, a “Pedagogia do da autonomia”, elencar diversos saberes necessários para a prática docente, sabres necessários não há prática da mera constatação, mas para a prática da reflexão e ação transformadora.

 

Em um texto politicamente posicionado, o autor esmiúça a pratica docente centrada na ética, temperando-a com diversas experiências particulares. Partindo deste ponto o autor reforça em todo o livro a importância de se responsabilizar e, no rompimento com fatalismo neoliberal, reconhecer um futuro problemático.

 

Aquele que lê esta obra apenas pela metade sairá com um ranço maniqueísta, principalmente no que diz respeito ao pensar certo e fazer certo, pensar errôneo e fazer errôneo. Entretanto só com muita atenção ao fim da obra consegue-se superar as dualidades aparentes, naquilo que o autor se apóia, na ética e responsabilidade.

 

Por diversas vezes o autor oferece exemplos concretos do que deve conter na prática pedagógica. Posso neste ensejo destacar alguns aspectos que considero ser relevante refletir no transcorrer da leitura. O não contentamento com uma educação da reprodução. Educação que se esvanece na tecnicidade. Com isso resgata um principio presente em suas diversas obras, o educando não é um aprendedor passivo, não é um mero deposito do conhecimento do professor. Ao contrario, o educando é em si, um ser livre e na liberdade forja-se a pedagogia da transformação. Repensar os mais elementares aspectos da prática docente implica também em repensar a função da educação e o papel do professor.

 

Em uma fala sedutora, Paulo Freire nega a globalização que descaracteriza qualquer cultura e empobrece as particularidades humanas. Nega as formas de discriminação e de superioridade. Nega os regimes autoritários. Toda essa negação vem como produto de uma concepção do homem inacabado, que busca, no inacabamento do homem, conhecer.

 

Reforça a idéia também presente em sua bibliografia, onde no dialogo, no encontro sincero entre os homem é possível educar e educando transformar. O dialogo não implica em uma aceitação inadvertida de tudo, mas implica em escutar criticamente e se posicionar criticamente, isso em respeito ao outro.

 

E traz como fio condutor a tese da impossibilidade de ensinar e aprender como práticas implicadas uma na outra. Ensino quando aprendo e aprendo quando ensino. O educador que não se abre a sua própria educação enquanto educa, mantém sempre distante, e distante não consegue respeitar o outro. Na distancia que o professor mantém do aluno, não consegue respeitar a experiência e conhecimento do aluno. Se mantém sempre protegido por seus próprios preconceitos.

 

Este texto, apesar do muito ouvi falar, mostra-se atual, tanto no que tange a pedagogia, a filosofia e a política. Apesar de diversas instituições de educação já não mergulharem nesta leitura e permitirem pouco a pouco, o que Paulo Freire chama de, o acinzamento de seu discurso pedagógico. Esta obra recobra a idéia de uma educação essencialmente política, e não uma política tacanha e mesquinha, mas uma política como resultado e como condição de minha consciência e ação no mundo.

 

Desta maneira, recomendo esta leitura a todos os educadores, em especial, aos educadores que se desvitalizaram, que se perderam na labiríntica burocratização da educação. Esta leitura deve ser feita não como a taboa de salvação da educação nacional, mas como uma oportunidade de nos esperançarmos novamente.

 

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1997.

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Agosto 18, 2009

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Só aqueles que já leram “A metamorfose” de Franz Kafka sabem da impossibilidade de tecer qualquer comentário objetivo, então para não frustrar ninguém me despirei desse desejo e tentarei relatar a minha, mais pessoal, impressão desta leitura.

Quando fiz vinte e cinco anos, dava aula de física na escola publica para o ensino regular e para jovens e adultos. Quando me dei conta de minha idade, veio com esta consciência uma enorme preocupação, que por incrível que possa parecer não se tratava da preocupação de estar cada vez mais velho. Ao contrário, era uma preocupação de outra natureza, sofria enormemente por pensar que, para chegar aos cinqüenta anos teria que viver mais vinte e cinco. Viver praticamente mais uma vida. O que, com freqüência, faria feliz diversas pessoas, a mim veio carregado de um pranto incomunicável. Não sei como e não sei o porquê. 

Foi neste período em que tive contato com esta obra, já não estava mau o suficiente, e me meti a ler. Achei esse livro na biblioteca da escola, em meio a diversos livros que seriam descartados. Uma história que se repete já que as primeiras edições produzidas por Kafka foram descartadas logo após a sua morte.

 

Inicialmente não entendia bem o propósito desta obra, que já no inicio da leitura me trazia repulsa, me enojava a detalhada tragédia do protagonista, Gregor Samsa. E em meio a tanta aversão que me roia, fiquei intrigado com alguns aspectos.

 

A surpreendente domesticação do espírito, que apesar de ser acometido por algo impensável, reservava em sua angustia espaço para a preocupação com seu trabalho e família. Uma preocupação vassalar, que vem do desejo de se fazer cumprir seus supostos deveres, que apesar de cansado, deformado como um inseto monstruoso segue ao trabalho dia após dia, mesmo que em sua mera preocupação. 

 

O segundo aspecto que me prendeu a reflexão está na capacidade de “adaptação” de seus familiares, que apesar de horrorizados, aprenderam a se acostumar, e se acostumaram ao horror. Encontraram nesta condição uma forma de “cotidianizar” o horror. Algo que vejo refletido também em minha prática diária, o de aprender a conviver com a miséria, pobreza, fome, dor etc, e neste quadro só ver uma saída, o de me adaptar.

 

Colocar em questão a humanidade do homem é sempre necessário e apesar de ser recorrente na reflexão não perde sua capacidade de surpreender. Na situação em que se encontra o protagonista, foi inevitável me perguntar. O que me humaniza? Ou poderíamos refazer esta pergunta como, o que me hominiza? Sem essa reflexão, posso ver refletida na minha ação irreflexiva a mais grotesca boçalidade, e logo perco de vista o que me faz homem. Só me resta a animalesca vivencia cotidiana, que reduz o pensar, ao instinto e ao reflexo.

 

Essa leitura mostra-se importante ao educador que deve a todo instante, a cada fala, se recolocar no mundo, se reconstruir no mundo, se reposicionar. Sem isso, incorremos no erro de nos metamorfosear em um inseto monstruoso, ou de tratar o outro que aprende como um inseto que só nos faz enojar.

 

Este é um livro que recomendo não só aqueles que, com alma irrequieta como a minha buscam formas de mudar o mundo, mas também a todos aqueles que tem seus espíritos repousando na mais acolhedora certeza.

 

KAFKA, F. A metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Palavras-chave: existencialismo, kafka, Leitura, Livros

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Agosto 06, 2009

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Texto difícil de ser comentado pela profusão de novos conceitos que Thomas Kuhn insere em sua mais relevante obra, a “A estrutura das revoluções científicas”. Com mais de uma dúzia de sentidos possíveis para a palavra “paradigma”, essa obra conseguiu repercussão mundial e influência nas mais impensadas áreas do conhecimento e do desconhecimento. Essa obra juntamente com a década de sessenta quebra diversas noções estabelecidas nas teorias sobre o conhecimento, em especial sobre o conhecimento científico. Leitura obrigatória para físicos, filósofos, educadores e todos aqueles que decidem refletir sobre a ciência, sociedade e conhecimento.

 

Utilizando-se de diversos exemplo históricos, Kuhn explora a prática científica, dividindo-a em duas grandes categoria pouco rígidas. A chamada ciência normal e a ciência extraordinária. A partir disso cria um estudo sistêmico das revoluções científicas como a revolução copernicana, einsteiniana, dentre outras.  A idéia de que um paradigma não dispõe das mesmas bases epistemológicas que o paradigma anterior, conceito estampado como “incomensurabilidade” do paradigma, é um dos conceitos que mais incomoda positivistas, empirista, racionalistas e por que não também a ala idealista dos filósofos e dos cientistas, pois quebra a noção de progresso sucessivo da ciência.

 

Sobre o progresso da ciência, ou sobre a impressão de progresso da ciência, é devido, e nisso acredito que Kuhn faz uma análise bastante produtiva, a educação científica, em especial a presença cristalizada do livro didático. Para que um físico se forme, e para que digamos que ele sabe física, não é necessário a ele que tenha lido ou estudados os escritos originais, como Principia de Newton, Diálogos de Galileu, os Tratados de Maxwell, obras que expressam o caminho bem sucedido da ciência, que dirá de ler texto que não foram bem aceitos e cientificamente fracassados. Apenas estudar o livro didático é a condição para que o físico não fique questionado a todo o instante as bases da própria física, ação nociva ao “progresso científico”.  

 

Uma das grandes perguntas que o modelo de Kuhn não nos permite examinar é a sobrevivência de determinadas teorias, como a mecânica newtoniana que, da forma como se estabilizou no século XIX, permite aos físicos, estudos planetário, lançar foguetes e resolver uma série de problemas na terra (como na engenharia), o ensino deste modelo sobrevive desde então com assustadora estabilidade, o modelo newtoniano mostra-se mais vivo do que nunca, em especial pelas contribuições das dinâmicas não lineares, como o caos determinístico. Tudo isso depois do advento da teoria quântica e da teoria da relatividade. O modelo newtoniano incomensurável à quântica e a relatividade é pesquisado e ensina.

 

No vértice oposto temos o modelo geocêntrico, ao modo pouco versátil de Ptolomeu, com a revolução copernicana o modelo geocêntrico deixou de ser pesquisado e ensinado (ao menos no ensino oficial de física), apesar da astronomia de posição se utilizar das referencias terrestres como ferramenta matemática, esta não realiza pesquisas que procuram refinar o modelo geocêntrico, como por exemplo na construção de epiciclos. Lembrando que não se trata apenas de uma simples mudança de referenciais já que a Terra não é um referencial inercial em relação ao Sol.

 

Assim o que explica o fato do modelo ptolomaico, apesar de resolver diversos problemas, estar fora da pesquisa e do ensino das ciências, enquanto o modelo newtoniano conservou seu vigor, e por enquanto não vislumbramos uma queda?

 

Uma obra extremamente interessante, mas que para sua leitura crítica exige do leitor um aprofundamento da história da ciência e seus debates. Apesar dos exemplos diversificados tentando abarcar outras ciências, o foco permanece na história da física. Motivo suficiente para historiadores e filósofos da ciência ressalvarem quanto a utilização na análise que outras ciências como a química, biologia e geologia.

 

KUHN, T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2005.

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Julho 29, 2009

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Vou comentar, algo que passa longe de uma severa resenha, mas que não chega a ser uma mera indicação. Posso dizer que, apenas comentarei o livro “Liberdade e neurobiologia” do filosofo estadunidense John R. Searle, que vem desenvolvendo trabalhos de grande repercussão no campo da filosofia da mente. Esta leitura é recomendada não só para aqueles que buscam aprofundamento na educação, mas para aqueles que buscam as atuais questões da consciência.

 

Uma contribuição importante para este campo, que já vem sendo feita à séculos, mas que Searle consegue expor com clareza, principalmente para o público leigo, é o rompimento com a separação cartesiana entre corpo e mente. Quando separamos corpo e mente, surge junto a isso outra questão que para os críticos de Descartes, é intransponível. Como religar mente e corpo, e como explicar a influência da mente sobre o corpo, ou vice-versa? Searle destaca que adotando a solução cartesiana de separação, não conseguimos traspor a segunda questão, aqui colocada.

 

Em seguida faz uso de uma poderosa metáfora com a estrutura molecular, onde assim como a propriedade de rigidez de um objeto é estado de uma aglomeração particular de moléculas, a consciência pode ser entendida como uma “propriedade superior” à uma configuração neuronal. Não conseguimos determinar a rigidez nem explicá-la observando a molécula isoladamente, esta propriedade não reside na molécula isolada, assim como a consciência não pode ser explicada pela ação exclusiva de um neurônio. Nesta metáfora cabem certas ressalvas já que o sistema molecular é um sistema determinístico, onde a rigidez é conhecida apenas conhecendo os estados do conjunto de moléculas. Se assim fosse a consciência seriamos incapazes de explicar o livre arbítrio, já que as escolhas estariam pré-determinadas em estados neuronais anteriores. Por fim cairíamos em uma forma já conhecida de entender a vida humana, como é o caso do destino. Para isso ele tenta introduzir a idéia de indeterminismo como propriedade dos sistemas neuronais, que na consciência se manifestaria por meio do livre arbítrio.

 

Suas explicações para as escolhas racionais, baseado no principio de indeterminação são bem convincentes e evidencia anos de reflexão. Entretanto quando tenta embutir aspectos sociais à mente, caí em um realismo ingênuo. Tenta criar categorias, a meu ver muito frágeis, para discriminar o que é dependente e independente das escolhas humanas. Cita os fenômenos fiscos como independentes e os fenômenos lingüísticos como dependentes, se por um lado rompe com a dualidade cartesiana, por outro, cria um dualismo que não permitirá a compreensão ampla dos fenômenos sociais.

 

Assim neste livro o autor não consegue realizar o salto, ainda em aberto nas ciências cognitivas, entre a mente individual e as complexas relações sociais. Apesar da grande elaboração do contorno neurobiológico, suas considerações sobre política, linguagem e sociedade são extremamente simplistas e insere quase tudo em uma lógica consensual e consciente. Com as ferramentas desenvolvidas na segunda parte do texto, não conseguimos explicar fenômenos político-sociais como a atual situação em Honduras (desde 28 de junho de 2009), onde um governo é deposto e seu presidente é exilado, o governo interino, ou o governo golpista, divide opiniões sobre sua legitimidade tanto no povo hondurenho quanto na comunidade internacional. As soluções para tais questões políticas são as mais diversas, incapazes de serem reduzidas, ao menos nos modelos atuais, à uma racionalidade neurobiológica.

 

De modo geral, creio ser uma leitura interessante mais aos educadores e filósofos do que aos políticos.

 SEARLE, John R. Liberdade e neurobiologia:reflexões sobre o livre-arbítrio, a linguagem e o poder político. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

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