Stoa :: Andre Machado Rodrigues :: Blog :: Histórico

Fevereiro 2010

Fevereiro 01, 2010

default user icon

“Não sou comunista, podem confiar em mim!” – Esta frase, apesar de não estar explicitamente dita no filme, pode sintetizar uma de suas principais idéias. O filme tem uma função muito clara, mostrar que o nosso presidente nunca teve aspirações comunistas, e correndo o risco de ser demasiadamente genérico poderia dizer que nunca foi de esquerda. O que tornam sua trajetória pessoal e seu governo ainda mais intrigantes.

 

Assistindo o filme a todo o instante tinha a impressão de estar assistindo uma novela global, não só por contar com caras carimbadas da televisão, mas também pela forma com que a história foi contada. Um pout-porri de fatos biográficos nunca suficientemente aprofundados, sempre pintados com um leve tom de cinza claro, o que não permite manchar os personagens com cor alguma. Neste sentido concordo com a crítica feita – the economist – , de uma imagem excessivamente higienizada. O filme vem para consolidar uma imagem a muito cultivada pelo Lula, a de não oferecer perigo algum a ninguém.

 

Apesar disto, me faz pensar no quanto é surpreendente esta história como um todo. Pensar que um operário se tornaria presidente da republica, ainda é um fato difícil de entender. Mais difícil ainda é entender como, em um país extremamente elitista e que procura manter um “estatus quo” preservando o enorme fosso social, este operário consegue se reeleger e terminar seu mandato com os maiores índices de aprovação já vistos. Isto revela um pouco da complexidade da política, economia e social em que este filme está inserido. O que se apresenta como um paradoxo me deixa pessoalmente confuso, não sei se devo gostar ou se devo desgostar. Não sei nem mesmo se existe uma terceira opção.

 

Vejo este fato como andar dois passos para frente, um nordestino, operário e sem curso superior sendo eleito. O que anteriormente o descredenciaria, hoje o torna apito a representar o povo brasileiro. Mostra que avançamos no sentido de derrubar diversos preconceitos. Por outro lado, seu governo se manteve muito preso a medidas paliativas que não vislumbram nenhuma consolidação. A política economia, alvo de grande elogio por toda a imprensa é na verdade o seio de suas contradições, fazendo com que os bancos batam recordes de lucro.  Não chega a tocar nos pontos vitais como o da reforma agrária. Neste sentido andamos um passo para trás. Nesta valsa nem um pouco refinada que é a política nacional vejo que avançamos, mas não o suficiente para que possamos nos alegrar. Não sei se estou sendo muito exigente em relação às ações presidenciais, mas sei que a sociedade ainda aguarda mudanças muito mais profundas do que as que estão ocorrendo hoje.

 

Por fim, não vejo como realizar a crítica deste filme sem tocar na crítica a um governo. Recomendo o filme para que possamos olhar o que de fato está escrito nas entrelinhas. Muitas vezes dito, através do que deixou de dizer. Esta é a oportunidade de exercitar nossa critica que neste filme consegue fundir a crítica política à crítica cinematográfica.

Palavras-chave: Lula, Vídeos

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues | 1 comentário

Fevereiro 03, 2010

default user icon

Em um recente curso oferecido aos professores da rede publica de ensino no estado de São Paulo, do qual participei da elaboração, execução e avaliação, durante o segundo semestre de 2009, inflou em mim uma reflexão que até então se encontrava apenas como semente.

 

Sei que a reflexão sobre o papel da tecnologia na educação é antiga e ultrapassam as fronteiras das experiências conquistadas neste curso, minha intenção aqui não é “reinventar a roda”. Este curso, todo à distância, contava com algumas “ferramentas” que permitiam seu desenvolvimento. O curso contava com: quatro vídeoaulas sobre os conteúdos disciplinares com duração entre 60 e 75 minutos; quatro videoconferências com os professores das vídeoaulas; um fórum em que o professor-cursista deveria obrigatoriamente entrar e enviar mensagens; e um formulário em que registrava os trabalhos ao longo do curso.

 

Uma questão que se impõem para entendermos o desenrolar deste curso em especial o alto indicie de evasão – cerca de 80% de desistência na disciplina de física – está em relação à apropriação destas “ferramentas”. Em outras palavras, isto é ferramenta para quem? Ao desenhar o curso, imaginamos que o professor domina minimamente o uso da internet e/ou dos equipamentos que constituem as condições para o envolvimento no curso. De posse destas “ferramentas” o professor pode – como imaginávamos – se dedicar a estudar os conteúdos disciplinares, neste caso a física.

 

Grande engano! E digo grande por sua extensão, já que atinge diretamente todos os professores-cursistas e por sua recorrência, já que está presente na grande parte dos cursos à distância. Podemos elencar algumas razões que nos ajudariam a aprofundar a discussão. É uma grande ingenuidade imaginar que o professor do ensino médio esta automaticamente confortável com a informática simplesmente por viver na contemporaneidade. Sua presença na vida cotidiana é inegável, mas é algo bem diferente de se apropriar e de gostar de usar. Outro aspecto está no uso da ferramenta especifica. Os fóruns, por exemplo, têm funcionamentos específicos. O fato de já ter usado fóruns anteriormente não é garantia de que o uso deste será auto-evidente. Mesmo que dominemos o uso da ferramenta como no caso do fórum ainda existem outras questões que devem ser analisadas, como por exemplo: quantas vezes devem ser acessadas por semana? Como não ser indelicado ao fazer uma crítica? Como sintetizar as idéias para que possa inserir-las neste ou naquele formato? Em suma, podemos sintetizar em três níveis, mais ou menos, complementares: (i) o domínio da informática geral; (ii) o domínio das ferramentas específicas e (iii)  a apropriação cultural desta tecnologia.

 

Negligenciar estes aspectos no desenho do curso faz com que a tecnologia deixe de ser ferramenta e passe a ser objeto de estudo. Os conteúdos disciplinares vagam no plano de fundo. Este curso deixa de ser um curso de física em que se usa a tecnologia para vencer determinadas barreiras e passa a ser um curso da tecnologia em que a física é usada como pretexto. Tanto o primeiro quanto o segundo formato são legítimos. Mas, neste caso em particular, o professor se inscreveu em um curso de física e não de tecnologia. Mesmo que o professor se disponha a aprender sobre a tecnologia, os profissionais contratados para ministrar o curso estão dispostos e sabem ensinar física, não a tecnologia.

 

Isto faz com que, esta questão esteja entre as grandes – não a única – causa da evasão dos professores neste curso à distância. Uma reflexão importante que muitas vezes lhe falta investir o tempo e a atenção necessária. Falta refletir ou aprofundar a reflexão sobre os objetos de estudo e as ferramentas disponíveis para tanto.

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues | 1 usuário votou. 1 voto | 1 comentário