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Dezembro 2009

Dezembro 07, 2009

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Para aqueles que buscam – por ventura iludidos pelo título – neste texto um resumo do noticiário da manhã que insiste em estampar as “más novas” sobre a educação, recomendo que pare de ler imediatamente. Pare de ler para que sua busca por sanguinolência na educação não sofra nenhuma decepção substancial. Pretendo neste texto refletir sobre a prática do professor em sua atuação mais cotidiana e corriqueira na sala de aula, algo inúmeras vezes esquecido.

 

O professor e falo ao professor de física, mas creio caber a diversos outros casos, é devorado pelo cotidiano e pela convulsão de acontecimentos na sala de aula. Por inúmeras vezes deixa de ver sentido em sua prática e apenas deixa o barco ser levado pela tempestuosa fúria do mar que é a escola contemporânea. Abaixa os punhos e veste a camisa rotulada pelos diversos produtos vendidos na escola. Sua prática deixa de refletir a resistência a um mundo que abomina – e por isso quer mudá-lo – para ser aceitação e passividade diante da mais perversa realidade. Não se desola frente à crueza de sua própria vida, ao contrário se anestesia como todos os outros.

 

Este estado, em que os sujeitos são refém da “vida”, não é privilégio de professores da escola pública, nem mesmo é privilégio dos professores, mas ver quão agudamente este estado está instaurado na educação sinaliza para a permanência de um quadro social mais amplo. O professor se vê como apenas uma peça na avalanche histórica em que se tornou a educação, inflado por um pragmatismo que se miscigena com o descaso e a desesperança, o professor age como um rolo compressor que anda, resolve, faz, trabalho somente na medida em que mantém afastados os fantasmas de suas próprias reflexões.

 

Os professores hoje têm medo de se perguntar sobre o sentido de sua profissão, o sentido da escola, o sentido da educação, o professor assim como muitos outros têm medas da possível, para não dizer quase certa, resposta. Para não encarar de frente suas vidas esvaziadas o professor já não se pergunta mais. Apenas repete o que já vem a séculos sendo feito, assume como verdade o que foi decidido por ela, transforma em obviedade os absurdos e sorri as intransigências. Não vejo como romper com a historicidade da vida escola, mas creio que esta deva estar revitalizada e quando necessário subjugada. 

 

A escola atual já não tem raízes em lugar algum – se é que um dia teve. Não só para os estudantes, mas também para os professores a escola não tem sentido de ser, a escola apenas flutua em alguma esfera extra-corpórea. Isto certamente é crônico, resta-nos saber se é remediável. 

 

Apesar deste texto ter ares de pesar, e ser uma crítica ao zumbi(dismo) que cada dia mais toma conta da educação. Vejo luzes no fim deste túnel. Assim procuro incessantemente brechas nesta armadura, procuro o calcanhar de Aquiles deste imobilismo. Lançar meus alunos e meus professores em suas próprias reflexões fazendo com que conheçam uma parte de si que sempre tiveram medo de olhar. E fazer com que, tanto minhas experiências positivas quanto negativas me sirvam como propulsor nesta busca.

 

Esta transformação nunca é fácil, nunca nos é dada de mão beijada, sempre virá na luta. Uma luta que não se restrinja aos movimentos desesperados na areia movediça e não se restrinja a luta puramente espiritual onde não há comprometimento.

Palavras-chave: educação, Professor

Este post é Domínio Público.

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Dezembro 08, 2009

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Certa vez ouvi de um professor que: quando lemos um texto que nos identificamos, este não faz mais do que dar palavras aquilo que já vínhamos acalentando. Acredito que este texto de Ziraldo sobre Ferreira Gullar é mais uma prova disso. Então cito com prazer.

 

“Me encanto com as palavras do poeta: ‘Ao mesmo tempo o capitalismo é fecundo e criativo. Como a Natureza. É injusto e cruel. Como a Natureza’. E o que é o Socialismo? ‘É a intervenção racional do ser humano neste processo natural.’


Ele propõe diques e regulagens. Em vez de o rio ficar inundando tudo, façamos a represa.
A represa está para o rio como o Socialismo está para o Capitalismo. É a intervenção da razão. O grande problema do Socialismo é que, em tudo, não só na política, a coisa mais difícil é domar o processo da vida, que excede a qualquer teoria.


A proposta do Socialismo, compreendida assim, está acima da possibilidade humana. Nós jamais dominaremos a Natureza. O Homem, porém, não vai desistir por causa disto, não vai deixar de lutar. O Homem é uma invenção dele mesmo. Nós não somos Natureza – pois ela não raciocina –, embora tenhamos uma base natural. E olha o Gullar de novo: ‘Nós inventamos tudo, Deus, as cidades, o teatro, nós vivemos num mundo cultural. A própria Natureza em que vivemos hoje, ainda que não esteja de todo domada, é cultural, modificada, o homem inventou o universo em que vive. A vida não tem sentido mas todo dia nós inventamos um sentido para ela.’


Tentei aqui reproduzir parte do discurso do Gullar, tirando pedaços da entrevista que ele deu para o número de OPasquim21. Ele termina a entrevista dizendo que a grande aventura do homem é esta: inventarmos nós mesmos a cada dia.


Por esta razão, Gullar crê que o sonho não acabou. Quem pensa – ele diz – e é capaz de, pensando, amar o próximo como a si mesmo – esta parte é minha mas o Gullar, é claro, não a nega – tem que ficar atento todo o tempo. Se o Socialismo, que perdeu a batalha do século XX, é a intervenção racional do ser humano na apocalíptica força da Natureza, aqui mencionada, o homem – criador de tudo – há de descobrir o caminho para alcançar, pensando e criando, um mundo justo.


Gullar é um homem cheio de esperança. E porque seu discurso me comoveu profundamente eu, aqui do alto desta tribuna, informo ao mundo que sairei por aí, levando aos gentios a palavra do mestre, bradando aos céus que a esperança não morreu.


Gullar, você é meu profeta e eu vou ser o seu São Paulo.”

 


Ziraldo

Palavras-chave: capitalismo, gullar, Política, socialismo, ziraldo

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