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Setembro 2009

Setembro 01, 2009

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Atualmente os mocinhos se apropriaram do discurso ecológico, frenesi que se alastra por diversos setores da sociedade, a começar pela educação e a finalizar nos modos de consumo. É surpreendente como o capitalismo se apropriou do discurso ecológico, tão nocivo a ele no século passado – século XX. Neste século, o capitalismo transmutou o discurso ecológico e o colocou na prateleira dos melhores mercados. Ser ecologicamente correto ainda não é para todos.

 

Por todos os lados somos perseguidos pela culpa de nossa própria existência. Fazer com que se consuma pela culpa mostra-se ainda mais eficiente do que se consumir pela euforia e a felicidade plena.  Como este produto, recém enlatado vem sendo vendido, é apenas uma parte da questão que abordaremos em outro texto. Neste texto gostaria de evidenciar o argumento que se põe como pilar principal do discurso ecológico de mercado.

 

Quando nos perguntamos por que devemos mudar nossos hábitos? Por que preservar? Por que reciclar, reutilizar e reduzir?  A resposta mais disponível esta balizada pela preservação da própria espécie humana. Temos que salvar a terra para que o homem possa viver. Por que salvar ou preservar a fauna ou a flora? Para que o homem possa usufruir dessa riqueza e dessa diversidade mais tarde.

 

Esse argumento é pernicioso na medida em que, o homem só muda na medida do homem. Só haverá preservação enquanto o homem se sentir ameaçado. Só haverá mudança de hábito na medida da coação do homem pelo ambiente. Enquanto este for o argumento vertebral que sustenta os demais argumentos ecológicos não haverão mudanças duradouras e substanciais.

 

Exemplo disso está na economia de energia durante o chamado “apagão”, que promoveu uma redução do consumo de energia significativo em 2001, 2002 e no inicio de 2003, depois disso o consumo volta ao patamares anteriores. De fato foi apenas um incomodo passageiro. Da mesma forma podemos pensar nos índices alarmantes e previsões catastróficas anunciadas pelo IPCC – Intergovernamental Panel on Climate Change. Provocou ampla discussão sobre o assunto e interesse pelo efeito estufa, problema que sempre caia fora dos interesses populares até então.

 

O quanto estamos dispostos a fazer para que a terra se preserve, seriamos capazes de abrir mão do desenvolvimento tecnológico que cresce em um ritmo nunca visto? Seriamos capazes de abrir mão do livre consumo? Seriamos capazes de abrir mão da nossa própria existência em nome da preservação terrestre?

 

Ao que percebo todas essas questões vem sendo respondidas negativamente. O homem não abrirá mão do que lhe convém enquanto homem. Continuaremos criando e recriando necessidades, alimentando o sistema mercadológico. Tudo isso em nome da preservação da espécie humana.Poderiam nos chamar de egoístas, mas de fato quem faria isso?

 

Em nome da liberdade de exploração, em nome da liberdade de consumo, criamos prisões ambientais e ideológicas, que nos cercam e nos paralisam. Violências, epidemias, ignorâncias, medos etc. Livre ao mesmo tempo que presos. O homem conseguiu se aprisionar em seu argumento antropocentrista.

Palavras-chave: antropocêntrico, Ecologia, extinção, humanidade, Política

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Setembro 02, 2009

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Uma leitura tardia em minha própria história, talvez não tivesse maturidade para tê-la tomado antes. Com certeza muitas coisas não teria compreendido e deixaria passar mais coisas que agora. Não posso dizer que foi a leitura mais simples e fácil que já realizei, mas com certeza uma das mais interessantes.

 

Inicialmente os autores fazem duras críticas ao idealismo de Hegel, que em seu delírio, cria o “Homem”, um homem em geral, um homem ideal. Neste sentido, inviabiliza o entendimento da História como expressão concreta de um homem particular, neste caso o alemão. E desliga o Homem do mundo e de suas condições materiais. Por outro lado, também não deixa passar ilesa os materialismos imóveis e estratificados, que amordaça pelo ingênuo naturalismo. Transformam assim a História em uma mera coleção de fatos de um empirismo vazio.

 

Neste sentido declara sobre a real liberdade, que não pode estar separa de suas condições materiais. Assim a liberdade não pode ser encontrada apenas no plano das idéias, mas deve estar presente nas condições mundanas do homem, no trabalho que este realiza e nas condições deste trabalho e das circunstâncias de sua vida material.

 

Mostra pelo desenvolvimento das relações de trabalho que a História humana não reside nas vontades individuais de soberanos e políticos, a História humana é antes uma história dos meios de produção, que possibilitam ou não determinada forma de vida.

 

Mostra também como a História da propriedade privada esta imbricada à História da divisão do trabalho. Com isso consegue relacionar como mesmo a ciência, que para os cientistas se mostra independente de qualquer ação humana em um contato mais ou menos direto com a natureza, se subordina ao meios de produção e as condições materiais de uma época determinada. Tornando-se na sociedade capitalista a mercadoria.

 

Posso destacar dois trecho representativos de um amplo trabalho de reflexão e observação que Marx & Engels se propuseram neste texto.

 

“Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência” (p. 26).

 

Esta frase tomada isoladamente pode promover mais polemicas que esclarecimentos. Mas é nesta inversão essencial da consciência e da História humana que possibilitou o desenvolvimento frutífero das pesquisas soviéticas no inicio do século XX, como as obras de Bakhtin, Voloshinov, Vigotski, Leontiev dentre outros. Inversão sem precedentes na filosofia que permitiram compreender diversos fenômenos sociais, psicológicos, lingüísticos e econômicos.

 

A segunda trecho que considero importante notar é:

 

“Os indivíduos partiram sempre de si, mas naturalmente, de si no quadro das suas condições e relações históricas dadas, não do individuo ‘puro’ no sentido dos ideólogos” (p. 92).

 

Isto mina as buscas inconseqüentes promovidas na sociologia, educação, psicologia e nas diversas áreas que criaram para si indivíduos puros e ideais, e desenvolveram infinidades de teorias que nunca seriam capazes de se religar ao mundo real ou ao homem real.

 

Atribuo em parte a isso o isolamento e encapsulação dos conteúdos escolares, que foram feitos para um homem existente apenas no imaginários de seus criadores. O que mais para frente poderemos chamar de atividade alienada.

 

Recomendo essa leitura aos educadores, que realmente estão dispostos a repensar sua própria concepção de homem. Por traz da ação pedagógica, seja ela qual for, reside uma concepção antropológica. Para compreender suas escolhas pedagógicas, e escolhas na vida, é importante revisitar sua compreensão de homem, sem a qual nem mesmo a ação seria possível.

MARX, K. & ENGELS, F. A ideologia alemã: Teses sobre Feuerbach. São Paulo: Centauro Editora, 2006.

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Setembro 03, 2009

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Em uma de minhas últimas discussões com um de meus professores, já na pós-graduação, no momento em que discutíamos a organização de um projeto com a escola pública do ensino médio, comentei sobre a formação de uma categoria, categoria trabalhadora. Em cima deste fragmento, e apoiado em pontos anteriores de nossa discussão ele constrói um argumento, que me fez pensar por algum tempo. Dizia ele:

 

Não acredito em categorias ou sindicatos, já fui comunista, mas hoje acredito que sejam nocivos. Suas bandeiras são sempre em defesa de interesses próprios, salário, salário. Nunca se prestam a pensar, por exemplo, no bem da educação nacional. O que fazem estes professores junto a sua comunidade, que tipo de ações desenvolvem, se só lhes resta reivindicar. Este foi o último argumento pronunciado antes da reunião se encerrar. Como é uma síntese minha do argumento de outro e não uma citação ipsis litteris, não achei justo colocá-la entre aspas.

 

Para pensar neste problema temos que distinguir dois tipos de professores, os que se submetem passivamente e aceitam as condições de contorno, e os que se dispõem a agir. Os que se submetem passivamente engrossam cada vez mais as fileiras do magistério e são contaminados e contaminam com a idéia de subserviência e reprodução. “Eu ganho para isso então faço isso”. Limitam-se as condições mais imediatas e se contentam em realizar um trabalho ruim, por ganharem pouco e disporem de péssimas condições de trabalho. Apesar de caracterizá-lo, não iremos pensar neste professor, ao menos por enquanto.

 

E o que resta ao professor que decide agir? Podemos ainda dividi-lo por sua forma de ação profissional. O primeiro, em geral sindicalista, protesta e vê sempre suas ações ligadas aos aspectos globais da educação, as políticas públicas, a índices da educação, se vê inserido em uma categoria trabalhadora, consolida a consciência desta categoria. Entretanto não consegue perceber sentido as ações locais, que para ele estão fadadas a desaparecer e caminhar ao conformismo. Por outro lado, temos o professor que vê sua ação sempre localmente, procura mudanças na sua prática, atualiza-se, busca interação com a comunidade e se esforça para extrair as transformações necessárias das condições fornecidas localmente. Para este professor, as ações globais, lhes parecem reacionárias e protecionistas, vazias de significado e não vê nela frutos.

 

Obviamente o quadro do magistério público não se encerra neste agir paradoxal. Para que se revitalize a ação docente é necessário compreender que, tanto a ação local como a ação global isoladas esvaziam-se. Nenhuma ação local perdurará e provocará reais mudanças se não estiver conectada a ações e posicionamentos globais. Não só de vocação vive o professor, este tem também necessidades humanas, deve ser suportado em condições mínimas de sua materialidade. A ação local que se descola dos sentidos globais, é sempre um esforço remontado a cada instante que não passará de ação localizada, que se encerra na própria ação do professor, em outras palavras, assim que este professor deixar de realizá-la, por qualquer que seja o motivo, a ação local esta ação local desconectada se acaba. De maneira semelhante devemos pensar nas ações globais, que devem vir de uma integração das ações locais, se estes não surgem conectados as localidades se esvaziam e se evaporam no singelo discurso político. Acabam por conseguir apenas “reforminhas”, remendos onde se esperavam mudanças radicais.

 

O professor não pode ter dúvida do valor social do seu trabalho, e de seu papel na mudança da educação. Deve compreender que melhoria nas condições de trabalho do professor, como por exemplo a melhoria de seu salário, implicam diretamente na melhoria da educação. Precisam entender que ação globais e locais não se reduzem uma a outra, e que só ganham sentidos reais se estiveram integradas. O professor não pode abrir mão de se aprimorar e oferecer o seu melhor, ao mesmo tempo que faz parte de sua ação docente e respeito aos alunos lutar por melhores condições de trabalho, como a redução do número de estudantes do sala de aula, um plano de carreira digno para que possam atrair bons e competentes profissionais, um aumento substancial de salário para que a educação entre nas prioridades políticas de investimento, sabendo que o professor é humano e faz parte de sua formação integral, a arte, cultura, leitura e acesso a diversos outros artefatos culturais.

 

Toda a atividade humana é Histórica, isso implica em um devir de transformações que se dão nos âmbitos globais e locais, reintegrá-los é reintegrar a História educacional.

 

Palavras-chave: ação, Política, transformação

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Setembro 04, 2009

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É preciso iniciar este texto dizendo que não existem ações que sejam puramente locais, o que pode haver, e é o que discutiremos, são as consciências e as forma como a consciência localiza esta ação. Em outras palavras, como situo minha ação no mundo, e como situo minha ação no mundo mediante a outras ações. Neste sentido farei uma critica dedicada ao pragmatismo ingênuo e as reduções da consciência as ações puramente locais.

 

Para diversas pessoas, e em qualquer área de trabalho ou da vida que estivermos passando sempre encontraremos tais pessoas, os problemas devem ser, antes de tudo, solucionados. Não importa como, não importa o porquê. Enquanto dava aula, à escola em que lecionava ganhou uma assinatura de jornal e outra de revista, e cabia aos professores selecionar os materiais a serem adquiridos, depois de muito debater sobre a diversidade de materiais disponíveis não se chegou a nenhuma conclusão, e a conclusão nem mesmo despontava no horizonte. Uma parte dos professores, já insatisfeitos, questionavam por que uma decisão aparentemente simples, tomava tanto tempo e demandava tanta argumentação. Foi neste instante que percebi uma questão latente, que insistia em se esconder ao fundo e que não se tratava desta escolha em especial. Será que temos que resolver este problema independente da sua solução? Será que incentivo o hábito de leitura em meus estudantes independente das qualidades desta leitura? Que custos pago em reflexão para ter meu problema resolvido?

 

Esta é uma questão que não nasce na escola, e por isso transborda seus muros. Está presente na decisão política de um partido que pretende se eleger, e avalia o que deve abrir mão para ter meu problema solucionado. Esta na ação mais corriqueira da dona de casa que faz uma escolha do produto em detrimento de outro. E está, também, na escola e na ação docente, quando o professor avalia o estudante e avalia sua própria prática, quando o professor percebe que os estudantes não compreendem o conteúdo e mesmo assim prosseguem na ânsia de cumprir o programa. Quando o professor economiza trinta minutos ao avaliar uma material didático, quando se nega a refletir sobre suas condições materiais.

 

O professor pode se transformar em um rolo compressor, que resolve tudo, independe da solução. Que faz por fazer e nunca consegue inserir sua ação em propósitos mais amplos. Que tem sua ação na escola descolada de suas escolhas na vida. Este desligamento dos sentidos vitais dos sujeitos e as soluções dadas aos problemas locais é o principio motor da alienação.

 

O professor que desenvolve criticidade e reflete sobre sua prática, consegue conscientemente alocar sua ação local no seio das preocupações e posicionamentos globais, se nega a aceitar qualquer solução para apenas solucionar um problema, e pode por muitas vezes assumir não haver solução ou mesmo se negar a solucionar. Principalmente se sentir que a soluções carecem de mais reflexão e apreciação.

 

Com o mesmo principio podemos pensar em questões mais gerais da educação como o PROUNI – Programa Universidade para Todos, os sistemas de cotas nas universidades públicas, as parcerias que se estabelecem entre ONGs e escolas públicas ou fundações e universidades etc. Acreditar que minha ação docente perante aos estudantes não exige de mim um posicionamento em relação as diversas questões que permeiam a educação é isolar toda ação que acredito ser transformadora, extirpar de minhas ações locais qualquer reflexão das questões mais gerais é assumir minha ação como alienada.

 

Neste quadro, refletir e compreender o porquê e pra que das questões, derrubando as obviedades, se torna tão importante quanto solucionar o problema. Devemos centrar a prática docente na valorização do processo e não só nos frutos ou produtos.

Palavras-chave: ação, existencia, Política, pragmatismo

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Setembro 08, 2009

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Nada melhor que mergulhar na loucura dos outros para compreender nossa própria insanidade. Assim inicio recomendando que assistam este vídeo lançado em 2006, com o nome de V de Vingança. O que pretendo comentar não é sua história original em romances gráficos, sua adaptação para o cinema, suas falhas técnicas, tão pouco seus problemas de filmagem. Gostaria de comentar-lhes como um expectador, que devo iniciar dizendo, empolgado, entusiasmado pelo a história e pela produção cinematográfica em questão. Não posso deixar passar a oportunidade de registrar minha admiração pessoal por este vídeo.

 

Em um futuro complicado e desiludido, saturado pela servidão e pela subserviência, aparece um herói, que se auto-intitula “V” e que tem como meta de vida, minar a, então atual, forma de Estado. Seu principal recurso é a “idéia”, a força e poder das idéias. Com isso inicia um sucessão de eventos que vão pouco a pouco desmumificando a população e deve culminar em uma grande manifestação popular.

 

A trama mostrou-se interessante, na medida em que consegue emaranhar a investigação policial e o suspense da identidade do herói aos fatos mais amplos do país. Esses pólos da história culminaram em uma mescla sedutora, dos atos dos personagens com os objetivos mais gerais da trama. Isso sem deixar que os personagens se afogassem em sua própria personalidade, e sem fazer com fiquem distantes pura crítica política. Apesar dos elogios, devo destacar alguns pontos que devem ser notados com atenção ao assistir esse vídeo. Se não são passiveis de crítica, são ao menos passíveis de discussão.

 

Nesta trama, creio que por se tratar de um romance, personaliza excessivamente o poder. Durante todo o filme sabemos quem devemos odiar e para quem devemos torcer. Faz com que os alvos estejam sempre visíveis, não nos confunde, não questiona nossa própria moralidade e ética. Apesar de responsabilizar a todos pela quadro crítico, a vingança é sempre muito pontual e pessoal. Na crítica social trazida pelo filme, o perdão e a vingança, são sempre sentimentos pessoais, que nos permite como expectador, sentir empatia e viver a angustia do personagem, mas não nos permite entender as dinâmicas sociais. Neste sentido, o que move o herói, não é mesmo sentimento que move o povo, entretanto o filme todo eles se vêem como cúmplices.

 

Em outro ponto, o filme traz as formas de poder uniformizadas, assim a dominação é dada a população sempre na mesma medida, na mesma forma, o que desproblematiza questões sociais importantes, como as relações de classe e trabalho, sexo e gênero, carências, abundancia e a economia nacional. Mesmo em sistemas totalitários historicamente conhecidos como nazismo, fascismo, à direita e stalinismo, maoísmo, à esquerda. A dominação é sempre problemática em diversos outros níveis, que transbordam a vontade de um ou dois. Assim poderemos acabar com Bush ou com Sadan, mas as questões problemáticas e a dominação permanecerão.

 

Por fim, o vídeo traz uma revolução marcada pela idéia. Não acredito que uma revolução apenas “ideológica” ou “ideal”, sejam suficientes para reverter qualquer quadro político, econômico, ou social. Obviamente, no filme a materialidade do ideal esta encerra na construção a ser destruída, está encerrada no parlamento inglês. Entretanto, ao mesmo tempo que assume a materialidade da revolução, com o ícone, a nega no símbolo. Ou seja, destruir o prédio, apesar de fisicamente, não terá seus efeitos para além do símbolo. Com uma pontualidade britânica, a revolução ganha hora e data marcada, menos paulatina do que esperaria que fosse.

 

Recomendo que assistam atentamente, e quantas vezes forem necessárias, um vídeo que nos permite ao menos sonhar com mudanças. Com um final que nos dá esperança e que recoloca nossas ações frente a algo imensamente maior.

 

V de Vingança (2006). Alemanha/EUA.Warner Bros. Direção: James McTeigue.

Palavras-chave: Anarquia, poder, revolução, romance gráfico, Vídeos

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Setembro 10, 2009

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Um estandarte evocado pelo ensino de ciências e pelos cientistas que se dedicam à divulgar a ciência, é o embate direto com a religião. Estes vêm guiados principalmente pelo pragmatismo estadunidense e por um “eficientismo” travestido de racionalismo. Tentam, em uma cruzada coroada de nobreza, expurgar todo e qualquer resquício de conceituação não científica. Em meio a guerra santa a diversidade humana sofre. Sofrem os conceitos e ritos que não são, nem chancelados pela ciência, por um lado, e não são protegidos pela mãe religiosa, por outro.

 

Na busca pela verdade os cientistas em geral, e os professores de ciências em especial, se revestem do que podemos chamar de sacerdócio científico. Declaram a mais pura e límpida fé científica. Consolidam liturgias e materializam os rituais. Tomam a ciência com religiosidade fundamentalista. E no estreito caminho da verdade caminham.

 

Mas a estes professores e por que não dizer a estes cientistas, devemos lhe recobrar a práxis. Na vida, não é reservado apenas espaço para a ciência, para a física. Por mais que lhe queira ser cientista, a todo instante a vida lhe impõem circunstâncias de provação em que a ciência deve ser, ao menos por momento, marginalizada, esquecida ou negada. Assim nos permitimos, comunicar, assistir um filme, cozinhar, errar, planejar nossas finanças, amar etc. E é preciso notar que esse não é um obstáculo a ser superado pela ciência, pois a vida cotidiana, não se funda por completo na ciência.

 

Assim, para que uma pessoa se forme ou se diga “cidadã”, não deve e não pode fazer uma redução de seus critérios à ciência. Quando discutimos o aborto, quando compramos pão, votamos, traímos, trabalhamos etc., estamos com muito mais em jogo do que a ciência. Temos em jogo nossos valores, cultura e identidade. Não podemos esperar de um povo, que compre a religião da ciência. Os estudantes, assim como os professores, devem perceber que a ciência não é o único e verdadeiro critério. A ciência é um dos diversos critérios que devemos considerar nas tomadas de decisão, principalmente inseridos na sociedade contemporânea.

 

Partindo deste pressuposto nos despimos de diversas obviedades, como acreditar que o conhecimento técnico sempre sobrepuja a vontade popular, quando imaginamos que o engenheiro irá salvar a cidade, que os cientistas solucionarão o aquecimento global e salvarão a humanidade, que os conhecimentos populares são blasfêmias frente aos conhecimentos científicos, que as formas de pensar cotidianas devem ser extirpadas da vida humana, dentre outras. A caça as bruxas, ou em outras palavras a inquisição científica, nos impede de vermos a diversidade. Diversidade não como obstáculo a ser superado, mas como condição do sistema.

 

Entender que o discurso científico deve ser apropriado como “somatória” aos diversos discursos já disponíveis ao estudante, e que se apropriar de mais este discurso e forma de pensar é imprescindível para que ele, estudante, transite na diversidade e na pluralidade que é sua própria vida, não pode ferir nosso ego científico. Esta não é uma carta de negação da ciência, mas uma tentativa dentre as diversas feitas de dessacralização. O professor deve abrir mão, por mais que lhe doa, de seu sacerdócio. Deve deixar a nobre intenção catequizadora de desbastar o paganismo científico.

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Setembro 11, 2009

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Em sua obra autobiográfica intitulada a parte e o todo, o físico alemão Werner Heisenberg escrever e discute sua vida, obra e formação em física. Esta é sem dúvida uma leitura obrigatória para todos os estudantes de física e ciências. Em especial, esta leitura ajudará a desmistificar ainda mais a física e sua construção. As considerações que pretendo tecer aos físicos estendem-se também aos professores de física e ciências em geral.

 

A soma de casos curiosos que percorreram toda da a vida de Heisenberg é gigantesca, então gostaria de destacar alguns aspectos, sem estragar o final, mesmo sendo um final já sabido. Ele conta de suas leituras solitárias de Platão (em grego) durante a primeira guerra mundial. Este pode ser considerado um indicio de que a formação do físico não pode se fechar na física.

 

Conta seu primeiro encontro com o matemático John von Neumann com quem iria trabalhar, e de como ele lhe lembrava Fausto. Seu primeiro contato com a física se deu por meio dos seminários de pesquisa, a física atômica e os problemas mais atuais da física. Só posteriormente veio a se inteirar da física clássica em todas as suas mazelas. Isso também me leva a um outro indicio, a de que a física clássica não é condição ou pré-requisito para a compreensão da física moderna e contemporânea. Essa idéia precisa ser repensada no ensino da física.

 

Outro fato que não podemos deixar passar sobre a sua formação é sua intensa relação com Neils Bohr, em suas diversas viagens e caminhadas discutiram e refinaram diversos aspectos, principalmente filosóficos, da física quântica.  O que me leva a pensar que a formação no físico não pode se limitar à biblioteca, laboratório e sala de aula.

 

Nesta obra, o autor tenta justificar suas escolhas políticas, principalmente em relação à segunda guerra mundial e a ascensão do nazismo. Referente a isso, conta sobre seu retorno a Alemanha pouco antes da guerra se iniciar, suas esperanças de reconstrução da Alemanha pós-guerra, sua participação das reuniões do partido nacional socialista ainda na juventude, e sobre o seu papel no comando do projeto nuclear alemão. Apesar de contar com detalhes suas experiências e de seus argumentos serem convincentes, procuro olhar para este aspecto com certa reserva, é bom lembrarmos que é um alemão, escrevendo em um período de paz sobre suas escolhas na guerra. Não serão completas mentiras, mas estão longes de serem sinceras verdades.

 

Dois momentos são especialmente excitantes. O primeiro em que conta da noite em que chegou ao principio da incerteza, sua angustia e estupefação em relação à física, sua busca por dar significado a isso. Neste episódio relatado por ele, pude perceber o quão humana é a física, e que ela não fala sobre outra coisa que não do homem. O segundo episódio relatado já em uma das últimas partes do livro quando recebeu a notícia, em uma prisão Inglesa, de que a bomba nuclear havia sido detonada. Sua descrença e sua preocupação em relação ao colega de prisão Otto Hahn, cuja a teoria de fissão do urânio viabilizou a construção da bomba. Segundo o autor, Otto Hahn, permaneceu trancado sem falar por alguns dias, o que causava apreensão entre os demais físicos alemães presos. Neste momento Heisenberg discute a culpa do cientista e abre a margem para mais uma vez humanizar o cientista.

 

É interessante ver a interação entre os diversos físicos e cientistas, conhecidos apenas por fama. Coloca a todo o instante sua visão particular sobre Planck, Einstein, Bohr, Dirac, Shödinger dentre outros.

 

A possibilidade de testemunhar a efervescência da física no inicio do século XX, colocando em cheque diversas obviedades na física, política, religião etc, fazem desta uma obra indispensável a reflexão do professor de física e do físico.

HEISENBERG, W. A parte e o todo. São Paulo: Contraponto, 2007.

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Setembro 18, 2009

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Deparei-me mais de uma vez com um trecho do livro “manuscritos econômico-filosóficos” de Marx. Apesar de escritos (1844) há quase duzentos anos, nos assombramos com a atualidade do texto em especial do trecho que cito a seguir. Este trecho traduz bem em que circunstância vive ou deixa de viver o trabalhador.

 

“A auto-renúncia, a renúncia à vida, a todas as carências humanas, é a sua [economista nacional] tese principal. Quanto menos comeres, beberes, comprares livros, fores ao teatro, ao baile, ao restaurante, pensares, amares, teorizares, cantares, pintares, esgrimires etc., tanto mais tu poupas, tanto maior se tornará o teu tesouro, que nem as traças nem o roubo o corroem, teu capital. Quanto menos tu fores, quanto menos externares a tua vida, tanto mais tens, tanto maior é a tua vida exteriorizada, tanto mais acumulas da tua essência estranhada. Tudo o que o economista nacional te arranca de vida e de humanidade, ele te supre de dinheiro e riqueza. E tudo aquilo que tu não podes, pode o teu dinheiro: ele pode comer, beber, ir ao baile, ao teatro, sabe de arte, de erudição, de raridade históricas, de poder político, pode viajar, pode apropriar-se disso tudo para ti; pode comprar tudo isso; ele é a verdadeira capacidade. Mas ele, que é tudo isso, não deseja senão criar-se a si próprio, comprar a si próprio, pois tudo a mais é, sim, seu servo e se eu tenho o senhor, tenho o servo e não necessito do servo. Todas as paixões e toda atividade têm, portanto, de naufragar na cobiça. Ao trabalhador só é permitido ter para que queira viver, e só é permitido querer viver para ter.” (p.142)

 

Quanto mais deixa de viver mais tem para deixa de viver. Para aqueles que não “trabalham” é difícil se ver neste ciclo.

 

Logo pela manhã minha esposa comentou sobre um e-mail que recebeu e dizia: “Agradeço à minha sobra, pois se há sombra quer dizer que estou ao Sol.” E em seguida comentou com pesar: “Sinto falta da minha sombra! Chego à empresa e o Sol mal saiu, quando saio da empresa o Sol já se pôs”. Isso poderia ser traduzido grosseiramente como falta da própria vida. Vida que agora engendra uma produção estranhada. Será que sem sombra continuamos existindo?

 

Quando subo no trem, sempre lotado, pela manhã. Vejo um rebanho, obtuso, tosco, feio, com a expressão de sofrimento e horror tatuada à face. Isso não é produto de um gosto estético particular, é efetivamente o premio do trabalhador.

 

MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2008.

Palavras-chave: manuscritos econômico-filosóficos, Marx, Política, Trabalhador, trabalho

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Setembro 23, 2009

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Obviamente não podemos reduzir toda a ação socialista à dois modos, reformistas e revolucionário. Assim reconheço que a ação e reflexão da transformação devem existir em um espectro contínuo que têm como limite a reforma e a revolução. Em outros termos poderíamos dizer que esta é a diferença essencial entre o “velho comunista” e o “comunista velho”, não necessariamente nesta ordem.

 

O reformista se distância do vigor da juventude na mesma proporção que se aproxima das desilusões da maturidade. Cansado de esperar grandes e rápidas mudanças, ele aposta na progressiva remedição. Aplaude com entusiasmos e considera como ganho as mais paliativas das soluções, qualquer passo para frente passa a ser um passo importante, não importa como e não importa quanto. Os reformistas formam a grade massa daqueles que pretendem provocar mudanças. Eles têm uma sabia paciência e desde cedo sabem que não verão as mudanças ocorrem em seu tempo, tentam desta maneira conservar uma esperança quase que espiritual, que transcenda sua existência e a existência de suas ações. Ele é assim caracterizado como o “comunista velho”.

 

Já o revolucionário esta imbuído de outro animo, outro espírito. Ele vê em suas ações o real potencial de mudança. Pretende e busca sempre mudanças essenciais, negando qualquer transformação superficial. Mesmo que tropece em seus próprios passos este pretende caminhar a largos. A efervescia de suas aspirações sempre se confronta com a morosidade mundana e sempre tem como produto a decepção. Os revolucionários são sempre o mínimo possível e nunca deixa se confundir na multidão. O que o torna revolucionário – e por vezes excêntrico – é justamente o que inviabiliza sua revolução. Pode ser chamado de o “velho comunista”.

 

Os revolucionários e reformistas, apesar de não compartilharem suas posições na vida, por vezes se ajudam, mas apenas por vezes. O reformista, por mais que queira transformar não pretende transformar demais, por isso nunca rompe com a lógica anterior. Não sabe ele o poder reacionário, reprodutivo e estabilizador do pensamento hegemônico, não sabe ele que sempre faz carinhos em um leão. Já o revolucionário sempre espera o momento da revolução, espera, espera, espera. O momento perfeito nunca vêm, e ao revolucionário só resta esperar a revolução, o levante revolucionário que está para além de sua própria ação. Isso é o que faz se confundir o pensamento revolucionário com o pensamento utópico.

 

Exposto isso, podemos nos perguntar onde há alternativa? Será que existe a paulatina revolução, que ocorre por meio de revoluções locais e atingem a todos depois de longo tempo? Será que existe reforma global, podemos reformar a lógica essencial do sistema? Creio que estas questões só podem ser feitas por aqueles que buscam de alguma forma a transformação. Para aqueles que, entregues ao fatalismo liberal, os tão resignados que se conformam em fazer parte de algo, mesmo que seja fazer parte de sua própria exclusão. A estes resta lamentar.

 

Essas escolhas, entre o que reformo e o que revoluciono, são as mais difíceis para aqueles que decidem transformar. Mas são ao mesmo tempo as escolhas mais essenciais no processo de transformação, que me coloca perante aquilo que mudo. Quando quero mudar a escola ou a política, minha ação nela e com ela devem ser ações claras, de reforma ou de revolução, não como um dualismo irreconciliável, mas como formas de minha própria consciência. Essa é a escolha que vivo hoje, e que pretendo viver por muito tempo, enquanto houver esperança de transformar.

Palavras-chave: pensamento hegêmonico, Política, reforma, revolução, sistema

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