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Agosto 2009

Agosto 01, 2009

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Quero comentar e indicar um vídeo, que vale apena ser assistido não só nas costumeiras secções de cinema caseiro do sábado à noite. Sob o título “Ilha das flores”, Jorge Furtado produziu no áudio visual algo difícil de ser encontrado mesmo em trabalhos literários ou nas mais elaboradas retóricas. Com um fio ético, traça as complexas relações humanas engendradas na sociedade capitalista pós-moderna. Este vídeo complementa diversas de minhas reflexões por trazer à luz diversos exemplos concretos, exemplos banalizados pelo cotidiano, exemplos que de tão óbvios se tornaram invisíveis. Vídeo produzido no fim dos anos noventa. Lembram? Queda do muro de Berlim, Jorge W. Bush (pai) toma posse, depois dos movimentos e lutas pelo voto direto elegemos Fernando Collor de Mello.

 

A crítica a sociedade de consumo, à noção de propriedade privada e ao lucro, mostra como, apesar tudo, compomos uma grande roda viva nunca parada fora da reflexão. Por meio de diversas definições construídas ao longo do vídeo, e de certa maneira construídas ao longo da nossa vida estudantil. O vídeo tenta relacionar os conceitos humanos, como dinheiro, família, tempo etc, por meio de uma definição do homem: Encéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor. Utiliza-se de uma definição biológica como sendo a mais geral, em que é critério visível de igualdade entre aqueles que possuem encéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor.

 

Entretanto apesar de uma construção complexa entre as diversas definições, tudo que foi construído entre os conceitos, desaparece como areia entre os dedos ao tentarmos inserir os humanos moradores da ilha das flores. Toda a noção de dinheiro, família, sociedade e principalmente de homem não serve de nada se não inserirmos a liberdade. A liberdade como condição humana da dignidade.

 

Não é a liberdade que se reduz ao poder votar, ao poder comprar, ao poder dizer. É no fim de tudo a liberdade que nos identifica como humanos. É no fim de tudo, a liberdade que nos dá a condição humana, de sermos de fato humanos.

 

Recomendo esse vídeo para todos aqueles que estão dispostos à repensar e a re-situar  o homem no mundo, bem como se repensar e se re-situar nele.

http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=647#

 

Palavras-chave: ética, humanidade, lucro, poder, Vídeos

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Agosto 03, 2009

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Estava eu em uma fila de um banco, em uma segunda-feira cinzenta, até agora nada de novo. Acho que na segunda-feira passada encontrei essas mesmas pessoas nessa mesma fila. Mas não posso dizer com certeza, vejo apenas os olhos de temor por traz de diversas máscaras branca, que nem são tão brancas assim. Ir ao banco tornou-se a derradeira atividade coletiva necessária. Encontrar as pessoas é realmente reconfortante, mesmo sem poder tocá-las, mesmos cabisbaixas. Tudo está como na semana passada, quase insuportável. Até que alguém, que parecia displicente com sua própria saúde, entrar no banco. De golpe todos os olhares se voltaram para ela, inclusive o meu. Olhares que agora já não se reduziam apenas ao medo ganhavam tons de nojo e preconceito. Sem ninguém esperar, esse infeliz, solta um espiro abre a máscara e coça o nariz. Como um simples coçar de nariz poderia provocar tanto pânico senão nestas condições? Diversas pessoas tentam fugir desesperadas do banco, mas só as que estavam mais próximas da porta conseguem sair. Logo o segurança, em um ato impensado, ativa a tranca automática da porta, com o intuito de ninguém sair com valores, ou com operações pela metade. Vendo a porta fechada duas senhas, como que ensaiadas, começaram a gritar e clamar pelo bom e velho Senhor. Os gritos e preces das duas senhoras, contaminaram, de maneira mais rápida que apropria gripe, as pessoas que ainda estavam no banco. Além do pânico restou apenas o cuidado para não nos tocarm0s. Esse, aliás, foi o primeiro procedimento adotado pela população, extinguir o toque e se mostrou muito eficiente para controlar os focos de epidemia. Mas pesar do grande desespero e correria, faltava ali um ingrediente indispensável à qualquer tumulto, o empurra-empurra. De repente, de um consenso assustador as pessoas se voltam para o senhor coçador de nariz. Mas a grande pergunta que passava na cabeça de todos era: Como linchar o homem sem tocá-lo, e como fazer isso coletivamente sem nos tocarmos? Ainda sem uma solução iniciaram as marchas rumo ao infeliz senhor, quando já próximos dele, uma moça que também marchava em direção a ele, em um tropicão desconcertado esbarra em duas pessoas logo a sua frente, sem poder sair dali recomeça o tumulto. Até que em uma ação novamente impensada o segurança se mune do extintor de incêndios e começa a disparar contra as pessoas agitadas com o intuito de acalmar os demais. O senhor coçador de nariz corre e agarra o segurança, quando os dois caem no chão. O segurança saí de si e começa a berrar enlouquecidamente. Os mais calmos encostam na parede. Na queda o senhor coçador, começa a esboçar uma fisionomia de agonia e dor retorcida, provavelmente um infarto. Mas ninguém se move, todos olham, mas ninguém se move, quem seria capaz de tocá-lo, tínhamos medo até mesmo de pensar nessa possibilidade, depois de algum tempo agonizando o homem falece, abrem a porta do banco e as pessoas começam, serenamente a sair, e como se nada tivesse acontecido, estávamos nós novamente ao banco na segunda-feira seguinte, e só me restava a impressão de já ter visto todas aquelas pessoas na última semana.

Depois de milhões de anos de evolução biológica e de milhares de evolução cultural, conseguimos extinguir o mais primitivo e sensível ato humano, o toque, toque de outro humano. Como conseqüência inevitável do medo, nos tornamos estranhos. Como andar em uma calçada com uma multidão apressada, e apesar de toda a pressa, apesar da multidão, nunca nos tocamos, nunca esbarramos, quase que um encontro galáctico. Apesar de passarmos ali todos os dias, somos estranhos. Ainda mais rápido que o alastramento gripal esta a propagação do medo. A individualização e isolamento dos sujeitos que vinha crescendo, ganha agora um catalisador de proporções nunca antes vista. Na globalização que empardece os sujeitos, o medo nos torna ilhas desprovidas de contato. Do abraçar à um corriqueiro aperto de mãos, nos permitimos, por meio do toque nos envolver. Não nos tocamos mais, com medo de que no outro nos encontremos novamente.

Palavras-chave: gripe, humanidade, Política, sociedade atual, toque

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Agosto 04, 2009

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Tento escrever esse texto como um generalista em Paulo Freire, em posição contrária ao que seria um especialista de suas obras. Esse texto assim como tantos outros que me disponho a tecer, não deve ser conclusivo, nem servir para conclusão alguma. Tem antes a pretensão de, como uma fagulha na palha seca, ser o inicio de um incêndio de proporções só controladas pelo próprio leitor. Assim gostaria de comentar um excerto de um prólogo escrito, no auge de sua maturidade, para o livro Pedagogia da Autonomia.

 

“Na verdade, seria incompreensível se a consciência de minha presença no mundo não significasse já a impossibilidade de minha ausência na construção da própria presença. Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo. Se sou produto da determinação genética ou cultural ou de classe, sou irresponsável pelo que faço no mover-me no mundo e se careço de responsabilidade não posso falar em ética. Isso não significa negar os condicionantes genéticos, culturais, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos seres condicionados mas não determinados. Reconhecer que a História é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me  reiterar, é problemático e não inexorável.” (p. 19)

 

Com retórica excepcional, Paulo Freire consegue relacionar a ética à liberdade. Se contrapor ao determinismo, seja ele qual for, é o inicio para se responsabilizar. Sobre o futuro nada posso dizer, além do já “problemático”. Esse é, em outros termos, o caminho que permite sair do materialismo histórico para o materialismo dialético. Romper com o determinismo é me responsabilizar pela minha construção de meu ser no mundo.

 

Apesar de muito criticar a sociedade atual, a crítica se propõem no campo da esperança, colocaria ainda mais, no campo da esperança responsável. Ao me responsabilizar passo a ser agente e deixo de ser, o que de fato nunca fui, paciente de tudo. 

 

Não posso deixar de me inflar de animo em quanto escrevo, mas sei que qual quer grande mudança exigirá de mim uma contra prestação. A mudança não depende de mim em quanto individuo, assim como qual quer liberdade que experimente não a faço enquanto individuo, mas sim como sujeito, um sujeito responsável e livre.

 

Mas na prática como isso se traduz? Não me deixo abater nem molestar pelo que vejo, e ao mesmo tempo não abro mão da crítica, uma crítica capaz de provocar mudanças. É isso que sinto no meu encontro diário com meus seiscentos alunos. Não posso perder isso de vista. Não posso desperdiçar a oportunidade de provocar mudanças, ao mesmo tempo que mudo.

 

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

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Agosto 05, 2009

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Dentre tantas reflexões que me desperta este tema, teria que começar por algum lugar. Um dos mais nocivos vícios da ciência moderna é a fé de que a ciência é neutra. O discurso de neutralidade da ciência nasce, em sua prática, junto ao discurso científico, sua primeira quimera. Reforçado por uma reconstrução histórica conveniente e alicerçado pelos frutos e estreita relação com a técnica, a neutralidade da ciência se tornou no século XX um pressuposto balizar para a ação dos cientistas e para determinar a relação da ciência com a sociedade. Portanto este é um ponto de reflexão que deve ser tangenciado na prática educativa, política e cidadã.

 

Longe da imagem de cientista louco que quer dominar o mundo, figura que dorme no imaginário contemporâneo, quero construir um cientista responsável, um leitor, usuário e estudante de ciências responsável. Não só responsável pela produção, mas também pela difusão e uso de uma ciência, que é antes de mais nada, uma ciência humana portanto de responsabilidade humana.

 

O velho ditado de que a faca pode tanto passar manteiga no pão, quanto cortar a outra pessoa, geralmente generalizado para os diversos produtos científicos, onde a faca não é boa nem ruim, depende da forma com que a usamos. Este argumento camufla a “tensa” atividade humana de sua produção e seu uso.

 

O conhecimento científico é transpassado por uma dinâmica das relações dos conceitos científicos, o que de certa forma já é esperado, mas devemos incluir a isso a dinâmica das relações das comunidade científicas e a dinâmica das relações da sociedade de maneira mais ampla. Não podemos e não devemos negar o fato de que no seio da atividade científica reside a ação política (política não partidária, mas política), isso ganha materialidade nas justificativas dos pedidos de financiamento, nos recursos aos pedidos de financiamento, nos pareceres científicos, na divulgação científica, no livro didático etc.

 

Seja por traz da ação laboratorial ou da construção teórica, existem latentes as diversas visões sobre o ser humano, sobre a finalidade do seu fazer e sobre seu papel na sociedade. Estas noções orientam a ação do cientista, educador, leitor e estudante e no fundo determina se ele se responsabiliza ou não por isso.

 

Como justificar à humanidade, que em sua maioria carece das condições básicas de subsistência, o financiamento de bilhões para um hadron collider, sem criar a necessidade de pânico apocalíptico? A justificativa é, em ultima análise uma ação política. Como justificar à uma comunidade científica e uma sociedade com ranço inquisidor, que a terra sofre influência do sol à distância e sem agente material alguma? Essa é antes uma ação política, que traz consigo a responsabilidade. Poderíamos esgotar essa discussão nos exemplo, entretanto devemos pensar nos desdobramentos.

 

Aquele que acredita na neutralidade do discurso está iludido sobre sua própria condição. Assumir a ciência como não neutra implica em me responsabilizar, em repensar minha prática científica, educativa e cidadã, implica em re-situar minha pesquisa em meio ao propósitos humanos. O mais doloroso, mas necessário é desacralizar a ciência e trazê-la para o mundo. Neste âmbito, da responsabilidade, passa a ser legitimo questionar os rumos do desenvolvimento científico, fora disso nos parece absurdo.

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Agosto 06, 2009

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Texto difícil de ser comentado pela profusão de novos conceitos que Thomas Kuhn insere em sua mais relevante obra, a “A estrutura das revoluções científicas”. Com mais de uma dúzia de sentidos possíveis para a palavra “paradigma”, essa obra conseguiu repercussão mundial e influência nas mais impensadas áreas do conhecimento e do desconhecimento. Essa obra juntamente com a década de sessenta quebra diversas noções estabelecidas nas teorias sobre o conhecimento, em especial sobre o conhecimento científico. Leitura obrigatória para físicos, filósofos, educadores e todos aqueles que decidem refletir sobre a ciência, sociedade e conhecimento.

 

Utilizando-se de diversos exemplo históricos, Kuhn explora a prática científica, dividindo-a em duas grandes categoria pouco rígidas. A chamada ciência normal e a ciência extraordinária. A partir disso cria um estudo sistêmico das revoluções científicas como a revolução copernicana, einsteiniana, dentre outras.  A idéia de que um paradigma não dispõe das mesmas bases epistemológicas que o paradigma anterior, conceito estampado como “incomensurabilidade” do paradigma, é um dos conceitos que mais incomoda positivistas, empirista, racionalistas e por que não também a ala idealista dos filósofos e dos cientistas, pois quebra a noção de progresso sucessivo da ciência.

 

Sobre o progresso da ciência, ou sobre a impressão de progresso da ciência, é devido, e nisso acredito que Kuhn faz uma análise bastante produtiva, a educação científica, em especial a presença cristalizada do livro didático. Para que um físico se forme, e para que digamos que ele sabe física, não é necessário a ele que tenha lido ou estudados os escritos originais, como Principia de Newton, Diálogos de Galileu, os Tratados de Maxwell, obras que expressam o caminho bem sucedido da ciência, que dirá de ler texto que não foram bem aceitos e cientificamente fracassados. Apenas estudar o livro didático é a condição para que o físico não fique questionado a todo o instante as bases da própria física, ação nociva ao “progresso científico”.  

 

Uma das grandes perguntas que o modelo de Kuhn não nos permite examinar é a sobrevivência de determinadas teorias, como a mecânica newtoniana que, da forma como se estabilizou no século XIX, permite aos físicos, estudos planetário, lançar foguetes e resolver uma série de problemas na terra (como na engenharia), o ensino deste modelo sobrevive desde então com assustadora estabilidade, o modelo newtoniano mostra-se mais vivo do que nunca, em especial pelas contribuições das dinâmicas não lineares, como o caos determinístico. Tudo isso depois do advento da teoria quântica e da teoria da relatividade. O modelo newtoniano incomensurável à quântica e a relatividade é pesquisado e ensina.

 

No vértice oposto temos o modelo geocêntrico, ao modo pouco versátil de Ptolomeu, com a revolução copernicana o modelo geocêntrico deixou de ser pesquisado e ensinado (ao menos no ensino oficial de física), apesar da astronomia de posição se utilizar das referencias terrestres como ferramenta matemática, esta não realiza pesquisas que procuram refinar o modelo geocêntrico, como por exemplo na construção de epiciclos. Lembrando que não se trata apenas de uma simples mudança de referenciais já que a Terra não é um referencial inercial em relação ao Sol.

 

Assim o que explica o fato do modelo ptolomaico, apesar de resolver diversos problemas, estar fora da pesquisa e do ensino das ciências, enquanto o modelo newtoniano conservou seu vigor, e por enquanto não vislumbramos uma queda?

 

Uma obra extremamente interessante, mas que para sua leitura crítica exige do leitor um aprofundamento da história da ciência e seus debates. Apesar dos exemplos diversificados tentando abarcar outras ciências, o foco permanece na história da física. Motivo suficiente para historiadores e filósofos da ciência ressalvarem quanto a utilização na análise que outras ciências como a química, biologia e geologia.

 

KUHN, T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2005.

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Agosto 07, 2009

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Pode parecer pretensão, e talvez o seja, querer falar do índio se tão pouco conheço de sua vida. Incorro em vários erros, erros conscientes que devem ser extintos na medida em que me aprofundo nos estudos indígenas e na medida em que conheço sua vida e cultura. O primeiro de muitos, é tratar o índio como um índio em geral, sabendo que é impossível dada a diversidade deste que nem mesmo pode ser chamado de povo, já que transborda à este conceito. Mesmo assim insisto.

O índio brasileiro, em especial os índios que residem nas reservas do estado de São Paulo passaram por dois tipos de bilingüismos, que para muitos se distinguem apenas na formas, mas vejo neles diferenças radicais. 

O primeiro bilingüismo esta na confluência inicial entre a cultura indígena e a cultura européia (para nós a portuguesa), passaram então a aprender além do guarani o português, trazido em sua maioria por padres, então podemos ler, passaram a aprender o português religioso. Aprender uma nova língua não é apenas decifrar um novo código, é incorporar e ser incorporado, é se fundir a uma nova cultura. Aprender novas práticas engendradas pela própria língua. Neste caso “catequização”. O segundo bilingüismo por que passaram os índios, é o de dispor do português como língua materna e ter que aprender o guarani posteriormente, já em idade escolar. Isso se deve principalmente a recente expansão da escola formal, que muitos insistem em chamar de universalização do direito a educação. Os indígenas aprendem o guarani já em posse do português e com isso apreender inclusive a grafar seus fonemas indígenas, o que permite o nascimento de uma “nova língua”, uma língua essencialmente híbrida, que tem gramática e grafia portuguesa, mas conserva o vocábulo e as sonoridades do guarani.

 

Assim também podemos pensar no bilingüismo na sociedade atual, em que dispomos do português como língua materna e aprendemos o inglês como segunda língua, quando o fazemos buscamos incorporar a cultura até o século XIX, inglesa e depois disso, estadunidense.

 

Esse paralelo, aparentemente pobre, nos fornece elementos para repensar tanto nossa educação bilíngüe, quanto a educação bilíngüe indígena, e mais para frente nos fornecerá elementos para repensar a educação científica nestes dois quadros.

 

Apesar de estruturalmente nossa educação bilíngüe se aproximar do segundo bilingüismo indígena, onde os índios também dispõem do português como língua materna, nossa educação bilíngüe, guardada as devidas proporções, mantém paridade com o primeiro bilingüismo do povo indígena. Obviamente os argumentos mudaram, e não poderia ser diferente já que em sua função social os argumentos são ferramentas históricas e culturais. Para o índio lhes era permitido participar de uma nova cultura, além da grande recompensa de poder entrar no céu. A nós é prometida além da nova cultura a entra no mercado de trabalho. 

 

Assim como para os romanos difundir o latim é a mais poderosa maneira de perpetuar as práticas romanas. Aprender o português mostrou-se como ferramenta imprescindível à exploração desta nova terra. Aprender o inglês é também o mais eficaz modo de manter e fazer crescer o “modo americano de vivar”. Por que não aprender chinês, árabe, guarani?

 

A segunda forma de bilingüismo indígena toma outro sentido, o da construção de uma identidade do povo indígena, que se liga também pela língua, passa por um resgata das relações e das práticas sociais que por muitos já é esquecida, assim o bilingüismo indígena atual toma sentido radicalmente distinto do bilingüismo atual.

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Agosto 11, 2009

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Diversas perguntam perturbam e devem perturbar a educação desde seu surgimento. As respostas são tão diversas quanto às perguntas, e passam por uma questão-resposta importante, a meritocracia educacional. Hoje a meritocracia educacional, já institucionalizada e generalizada para as diversas instancias educacionais, é uma questão que deve ser discutida constantemente e nunca desaparecer do espírito daqueles que nela estão envolvidos, seja como estudante, professor ou gestor, ou ainda como cidadão.

 

É quase impossível de se pensar na educação de massa atual sem prensarmos conjuminadamente na forma de meritocracia que ela engendra. A mais visível esta na relação entre professor aluno, uma relação complexa que envolve expectativas, regras, práticas. Uma relação que cria um mecanismo de auto-regulação ao qual chamamos de “nota”, uma manifestação particular e concreta da meritocracia educacional.

 

No primeiro encontro entre professor e aluno, é quase inevitável a hostilidade, já que o professor detém algo que o estudante deseja e lhe é necessário para que tenha bom emprego, dinheiro, sucesso, sem falar na aprovação paterna. E o professor lhe colocará obstáculos para que não possa alcançar facilmente esta nota. Também aparece como função do professor a de avaliar o desempenho do estudante ao lhe colocar determinados obstáculo. A rivalidade, neste sistema, torna-se inevitável já que o professor têm algo que o aluno quer.

Com isso a atividade do estudante não é dirigida ao estudo e sim a nota. Com esse redirecionamento da atividade estudantil, torna-se legitimo ao estudante, “colar”. Obter notas satisfatórias deixa de estar necessariamente relacionado ao aprender. “Colar”, bajular dentre outras estratégias para a obtenção de nota, não são senão produtos deste sistema estabelecido, em uma micro-análise, entre professor e aluno. Quanto mais tolhido está o estudante do prazer de estudar, menos sua atividade está relacionada ao estudar, e mais apegada à nota. Assim o estudo é encarado como o remédio amargo que deve ser tomado para se obter ao fim de tudo dinheiro, sucesso, carreira, aprovação.  A atividade de estudar em si, nunca ganha sentido e sempre se encontra na tortuosa tarefa de vencer o professor.

 

Antes de serem parceiros, professor e aluno são adversários, e estabelecem então um dinâmica de trabalho competitiva. Assim, quando muitos estudantes tiram boas notas, está atestada a incompetência do professor. De um professor que não se mostrou um adversário a altura, e se martiriza, sabota, escarneia, vale de diversos meios para ganhar essa competição. Quanto mais expressiva a meritocracia maior a competição, mais esvanecida encontra-se a relação do aluno com o estudar.

 

Achar a beleza no estudar, recobrar o prazer do aprender. A tarefa conjunta de dar sentido ao ensinar-aprender é o que une professor e aluno. Não advogo em nome da não avaliação, não advogo contra a nota. Advogo em nome da curiosidade, prazer e beleza de interagir, estudar, aprender. Quando o sistema educacional se esgota de beleza resta apenas uma sórdida e atropelada meritocracia educacional. O estudante não fará nada que não valha nota e o professor não valora nada a não ser pela nota.

A “economia” desoladora que tem como única ferramenta a meritocracia, isola o sujeito de sua atividade educativa, a desvitaliza. A atividade estudantil, que tem essa base, será sempre para o estudante uma atividade alienada.

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Agosto 15, 2009

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Apesar das preocupações no ensino, ou na educação, a distância estarem voltados para o desenvolvimento de ferramentas e para a agilidade na troca de informações, creio que, antes de desenvolver ou durante o desenvolvimento, devemos olhar, com nossos olhares famintos para o pano de fundo em que isso acontece. Em outras palavras, devemos pensar na matriz sócio-histótica-cultural em que está assentada a educação a distancia. Devemos desfocar as ferramentas, ambientes e informações para possibilitar mergulhos mais profundos do que os profissionais da educação à distância estão dando hoje.


Assim como a construção do “dinheiro”, mudou as relações de mercado e de trabalho, e posteriormente mudanças provocadas pelo crédito – cartão de crédito. A fundação da escola, para dar conta do ensino de massa, elabora uma forma nova de atividade educacional, desta maneira a educação a distancia traz transformações radicais aos conceitos balizares da educação.


Uma que gostaria de destacar é a mudança nas noções espaciais. Essa nova forma de educar promove com ela, e nesse caso direi concomitante, uma nova geografia, nova geografia educacional.


Se hoje quisermos realizar um encontro com países lusofônicos, o Brasil poderá se comunicar com Portugal, Moçambique etc. Mas existe uma dificuldade exigente com relação a Timor-Leste, que recém emergido de uma guerra civil, tem dificuldade na suas conexões à internet.


A idéia ingênua de que barreiras são quebradas, não permite ver os fossos abertos e não permite, por conseqüência, superá-los. Fossos de acesso, sócio-economico, político etc. É uma doce ilusão imaginar que a universalidade do conhecimento para o amazônico que nem mesmo fala o português, não domina tais ferramentas ou vive em condições de imensa pobreza. Tanto falamos de censores, mas esses são apenas personificações dos diversos fossos que a educação, em especial, a educação à distância deve superar.


Barreiras invisíveis e de difícil contorno, mas que se mostram muito presentes e mais do que nunca atuais. Barreiras que minam o discurso da universalidade dos conhecimentos e faz manifestar as peculiaridades latentes, a diversidade humana.


Isso por que pouco falamos, mas “acesso” a informação garante muito pouco ou quase nada.

 

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Agosto 17, 2009

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Apesar da meritocracia educacional estar presente na relação entre professores e estudantes, ela também é assustadoramente utilizada para orquestrar a prática dos professores. Por traz de um plano de carreira manco sempre se esconde a mais perversa forma de meritocracia. Como se sabe, e isso passa longe de uma mera lamentação, os salários docentes no sistema de educação pública neste país são indecentes, fazem com que bons profissionais se afastem desta área. A maior parte dos formados em licenciatura em física trabalham nos mais diversos setores da sociedade, menos na educação. E quem pode culpá-los?

 

Dos bons profissionais que restam, alguns poucos sobreviventes, são submetidos a uma barata técnica de eficiência corporativa, baseada na mais mequetrefe psicologia comportamentalista. Fazem uma pilhagem nos salários e benefícios, reduzem a pó as condições da prática docente, superlotam as salas de aulas, despem-no de qualquer recurso material, chamam-no de baderneiro ao primeiro sinal de reivindicação. Atrofiam a educação básica, e o pior fazem tudo isso parecer normal. “É assim mesmo, não há o que fazer” dizem os políticos, os professores, os alunos e o cidadão.

 

Depois de tudo isso, depois de décadas de imoralidades, jogam migalhas, para que os já cansados profissionais da educação possam correr atrás de uma maratona eleitoreira. Usam e abusam da meritocracia educacional, para conter e controlar os professores fazendo-os correr um percurso que não é só deles.

 

Premiar os mais eficientes em um cenário tão crítico pode ser um “tiro no pé”. Diversas coisas não desejadas devem ocorrer. A competição exacerbada daqueles que não podem competir. Ver no outro docente um inimigo potencial torna-se nocivo, fragmentada na competição e na busca por um sucesso individual que não necessariamente se reflete na melhoria do sistema. Pode ainda tornar-se paralisante e desmotivador na medida em que nem todos ganham prêmios e na medida em que nem todos ganham condições de competir. E por fim se a meritocracia educacional se mantém e se sustenta por muito tempo, cria um fosso gigantesco entre os profissionais que são muito bem remunerados e profissionais que são pessimamente remunerados. Um sistema com dois pólos tão rígidos e determinados colapsa e tem seu majorante muito baixo do necessário.

 

A educação como atividade profissional é inexoravelmente uma atividade colaborativa. A cooperação é a base para qualquer prática educativa, é base para qualquer prática docente. A abolição da meritocracia educacional é necessária para que se abra espaço para outras reflexões. Reflexões ainda não sufocadas pela adrenalina da competição.

 

Não há panacéia para a educação. Existem sim, muitas reflexões, discussões e ações coordenadas, das quais eu, particularmente, excluiria a meritocracia educacional, e qualquer tentativa de amesquinhar e desumanizar a educação.

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Agosto 18, 2009

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Só aqueles que já leram “A metamorfose” de Franz Kafka sabem da impossibilidade de tecer qualquer comentário objetivo, então para não frustrar ninguém me despirei desse desejo e tentarei relatar a minha, mais pessoal, impressão desta leitura.

Quando fiz vinte e cinco anos, dava aula de física na escola publica para o ensino regular e para jovens e adultos. Quando me dei conta de minha idade, veio com esta consciência uma enorme preocupação, que por incrível que possa parecer não se tratava da preocupação de estar cada vez mais velho. Ao contrário, era uma preocupação de outra natureza, sofria enormemente por pensar que, para chegar aos cinqüenta anos teria que viver mais vinte e cinco. Viver praticamente mais uma vida. O que, com freqüência, faria feliz diversas pessoas, a mim veio carregado de um pranto incomunicável. Não sei como e não sei o porquê. 

Foi neste período em que tive contato com esta obra, já não estava mau o suficiente, e me meti a ler. Achei esse livro na biblioteca da escola, em meio a diversos livros que seriam descartados. Uma história que se repete já que as primeiras edições produzidas por Kafka foram descartadas logo após a sua morte.

 

Inicialmente não entendia bem o propósito desta obra, que já no inicio da leitura me trazia repulsa, me enojava a detalhada tragédia do protagonista, Gregor Samsa. E em meio a tanta aversão que me roia, fiquei intrigado com alguns aspectos.

 

A surpreendente domesticação do espírito, que apesar de ser acometido por algo impensável, reservava em sua angustia espaço para a preocupação com seu trabalho e família. Uma preocupação vassalar, que vem do desejo de se fazer cumprir seus supostos deveres, que apesar de cansado, deformado como um inseto monstruoso segue ao trabalho dia após dia, mesmo que em sua mera preocupação. 

 

O segundo aspecto que me prendeu a reflexão está na capacidade de “adaptação” de seus familiares, que apesar de horrorizados, aprenderam a se acostumar, e se acostumaram ao horror. Encontraram nesta condição uma forma de “cotidianizar” o horror. Algo que vejo refletido também em minha prática diária, o de aprender a conviver com a miséria, pobreza, fome, dor etc, e neste quadro só ver uma saída, o de me adaptar.

 

Colocar em questão a humanidade do homem é sempre necessário e apesar de ser recorrente na reflexão não perde sua capacidade de surpreender. Na situação em que se encontra o protagonista, foi inevitável me perguntar. O que me humaniza? Ou poderíamos refazer esta pergunta como, o que me hominiza? Sem essa reflexão, posso ver refletida na minha ação irreflexiva a mais grotesca boçalidade, e logo perco de vista o que me faz homem. Só me resta a animalesca vivencia cotidiana, que reduz o pensar, ao instinto e ao reflexo.

 

Essa leitura mostra-se importante ao educador que deve a todo instante, a cada fala, se recolocar no mundo, se reconstruir no mundo, se reposicionar. Sem isso, incorremos no erro de nos metamorfosear em um inseto monstruoso, ou de tratar o outro que aprende como um inseto que só nos faz enojar.

 

Este é um livro que recomendo não só aqueles que, com alma irrequieta como a minha buscam formas de mudar o mundo, mas também a todos aqueles que tem seus espíritos repousando na mais acolhedora certeza.

 

KAFKA, F. A metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Palavras-chave: existencialismo, kafka, Leitura, Livros

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Agosto 19, 2009

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Em sua mais madura obra, Paulo Freire consegue em, a “Pedagogia do da autonomia”, elencar diversos saberes necessários para a prática docente, sabres necessários não há prática da mera constatação, mas para a prática da reflexão e ação transformadora.

 

Em um texto politicamente posicionado, o autor esmiúça a pratica docente centrada na ética, temperando-a com diversas experiências particulares. Partindo deste ponto o autor reforça em todo o livro a importância de se responsabilizar e, no rompimento com fatalismo neoliberal, reconhecer um futuro problemático.

 

Aquele que lê esta obra apenas pela metade sairá com um ranço maniqueísta, principalmente no que diz respeito ao pensar certo e fazer certo, pensar errôneo e fazer errôneo. Entretanto só com muita atenção ao fim da obra consegue-se superar as dualidades aparentes, naquilo que o autor se apóia, na ética e responsabilidade.

 

Por diversas vezes o autor oferece exemplos concretos do que deve conter na prática pedagógica. Posso neste ensejo destacar alguns aspectos que considero ser relevante refletir no transcorrer da leitura. O não contentamento com uma educação da reprodução. Educação que se esvanece na tecnicidade. Com isso resgata um principio presente em suas diversas obras, o educando não é um aprendedor passivo, não é um mero deposito do conhecimento do professor. Ao contrario, o educando é em si, um ser livre e na liberdade forja-se a pedagogia da transformação. Repensar os mais elementares aspectos da prática docente implica também em repensar a função da educação e o papel do professor.

 

Em uma fala sedutora, Paulo Freire nega a globalização que descaracteriza qualquer cultura e empobrece as particularidades humanas. Nega as formas de discriminação e de superioridade. Nega os regimes autoritários. Toda essa negação vem como produto de uma concepção do homem inacabado, que busca, no inacabamento do homem, conhecer.

 

Reforça a idéia também presente em sua bibliografia, onde no dialogo, no encontro sincero entre os homem é possível educar e educando transformar. O dialogo não implica em uma aceitação inadvertida de tudo, mas implica em escutar criticamente e se posicionar criticamente, isso em respeito ao outro.

 

E traz como fio condutor a tese da impossibilidade de ensinar e aprender como práticas implicadas uma na outra. Ensino quando aprendo e aprendo quando ensino. O educador que não se abre a sua própria educação enquanto educa, mantém sempre distante, e distante não consegue respeitar o outro. Na distancia que o professor mantém do aluno, não consegue respeitar a experiência e conhecimento do aluno. Se mantém sempre protegido por seus próprios preconceitos.

 

Este texto, apesar do muito ouvi falar, mostra-se atual, tanto no que tange a pedagogia, a filosofia e a política. Apesar de diversas instituições de educação já não mergulharem nesta leitura e permitirem pouco a pouco, o que Paulo Freire chama de, o acinzamento de seu discurso pedagógico. Esta obra recobra a idéia de uma educação essencialmente política, e não uma política tacanha e mesquinha, mas uma política como resultado e como condição de minha consciência e ação no mundo.

 

Desta maneira, recomendo esta leitura a todos os educadores, em especial, aos educadores que se desvitalizaram, que se perderam na labiríntica burocratização da educação. Esta leitura deve ser feita não como a taboa de salvação da educação nacional, mas como uma oportunidade de nos esperançarmos novamente.

 

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1997.

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Agosto 20, 2009

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Um filme que dificilmente será lembrado, clássico demais para o circuito comercial e marginal demenos para o circuito alternativo, provavelmente ficará no limbo cinematográfico. De qualquer modo, tento regatá-lo documentalmente, registrando aqui minhas impressões.

 

Gran Torino (2008) pode ser considerado uma marca da boa fase que vive o ator e diretor Clint Eastwood. Um filme que para a juventude psicodélica, viciada em adrenalina, será monótono. Apesar de não ser, particularmente fã, tenho que admitir que o amadurecimento de suas produções que refletem sua, nem tão controversa, forma de ver.

 

Com um final ruim, que considerei a tentativa da surpresa que não surpreendeu, por isso perdido na previsibilidade. Mas este fim valoriza o desenvolvimento, nos permite olhar para o desenvolvimento de maneira mais crítica, e nos dificulta nos solidarizar com o herói.

 

Um viúvo envelhecido e armado com seus preconceitos, já desesperançado, vivendo em uma casa antiga em um bairro decadente se vê envolvido com seus vizinhos imigrantes vietnamitas. Neste quadro o filme se desenvolve mostrando a relação deste sujeito com os familiares, com a igreja e com os vizinhos imigrantes. Podemos extrair alguma reflexões fundadas na prática, que de alguma maneira este filme subsidia.

 

Sobre a experiência do relacionar humano, nos faz pensar no quanto precisamos nos colocar vulneráveis para experimentar o viver humano, o relacionar humano e o emocionar humano. Despojar de nossos prejuízos passa a ser condição “sine qua non” para viver enquanto ser humano que se relaciona, só assim nos permitimos nos solidarizar, criar a substantiva empatia. É um engano pensar que a experiência sozinha derruba os já engatilhados preconceitos, com eles a mão não seremos capazes de nos lançar na nossa própria humanidade e por conseqüência não seremos capazes da mais elementar experiência. 

 

Este filme nos leva a imaginar que, para além do heroísmo individual, existe a humanidade e a solidariedade, para além da pura existência humana, existe a existência inter-humana. Um mergulho em si, implica em fazer junto um mergulho no outro. Só me permitindo conhecer o outro me conheço. Só me conhecendo experimento.

 

Em sua relação com o carro, deixa evidente que não é necessário apenas conservar as relações, é preciso permitir que essas relações mudem, criem história. Poderemos viver o devir destas relações na medida em que nos despimos.

 

Por fim o filme mostra uma trágica tentativa de ajudar, que acaba em uma aniquilação do outro, e por fim uma aniquilação de si. Apesar de “conhecer” o outro, não podemos nos perder nele, pois por mais que se estenda minha solidariedade nunca serei o outro. Em termos práticos, a ânsia de salvar e resolver os problemas dos outros, não pode nos levar a perda de quem somos.

 

Recomendo este filme como entretenimento atento, apesar de sua individualização da relação com os imigrantes, acredito que ajude a refletir sobre nosso encontro com o outro, um outro inevitavelmente distinto, e neste outro distinto em que buscamos uma identidade.

 

Gran Torino (2008). EUA.Warner Bros. Direção: Clint Eastwood.

Palavras-chave: Clint Eastwood, drama, imigração, relacionamento, Vídeos

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Agosto 24, 2009

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Por não estar no foco de minhas preocupações atuais meus comentários sobre esta temática soarão por demais ingênuas. Entretanto sei que para compreender as questões sociais mais amplas relacionadas ao poder, política, educação e cidadania terei que, pouco a pouco, me enfronhar com a noção de propriedade. Uma idéia que nos parece tão inofensiva e natural. E justamente por isso que o senso comum se nega a refletir sobre ela.

 

Primeiro é preciso pensar que dentro desta idéia cabem diversas organizações e categorias, como a propriedade pública e a propriedade privada, móvel e imóvel, etc. Dentro de qualquer categorização pensada devemos, antes de mais nada, desnaturalizar a noção de propriedade, em outras palavras, passamos tempo demais acreditando que a noção de propriedade instaurada é a única possível, e transcendentalmente legítima. Assim, a propriedade, quase que como um dom divino é imutável e eternamente presente.

 

Quando vemos, ou pensamos em um roubo, ou mesmo quando vemos uma invasão de terras, ficamos chocados e acreditamos que essa contravenção é, além de uma contravenção da lei, uma contravenção do estado natural das coisas. Neste momento nos esquecemos que esta noção é humanamente construída e pode ser humanamente reinventado, não como uma reinvenção do individuo, mas uma reinvenção em seu devir histórico.

 

Certa vez ouvi de um colega: “A sociedade Inca apesar de toda sofisticação, foi ‘dizimada’ por não possuir dois elementos: a roda e a arma de fogo”. Tentando fugir das implacáveis reduções, poderíamos ainda incluir a noção de propriedade como extremamente relevante para compreender os modos de dominação na América colonial. Poderíamos ainda estender a vitalidade da noção de propriedade para compreender a construção dos pensamentos hegemônicos atuais.

 

No encontro com outra cultura, a primeira dissonância que aparece esta na plano da propriedade. Saber que outras civilizações constroem suas sociedades balizadas por noções distintas de propriedade nos ajuda a retirar deste conceito a obviedade.

 

Outro ponto que acredito ser importante notar é que, toda noção de propriedade guarda nela uma tensão. Sua construção é um processo decorrente de diversas tensões e de como cada época e cada sociedade as resolve. Seja a sociedade indígena pré-colonial guarani, cuba pós revolução, sociedade romana, Japão feudal etc. Cada noção de propriedade pode revelar essas tensões e as diversas formas como cada sociedade se assenta nelas. Como desdobramentos diretos dessa noção está na idéia de propriedade dos meios de produção e na propriedade da força de trabalho.

 

Um estudo histórico e cultural nos ajudaria em uma compreensão mais profunda das questões atuais como a distribuição de renda, reforma agrária e demarcação de territórios indígenas, problemas de transporte e habitação, direitos autorais, questões relacionadas a família e a mulher, visões de ciência etc.

 

A noção de propriedade não é obvia, ela é antes histórica e cultural. Para entender o “estatu quo” da sociedade e para subverter a própria noção de propriedade é necessário, de alguma forma, desnaturalizá-la, subverter seu ontologia.

Palavras-chave: Política, propriedade, Propriedade privada

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Agosto 25, 2009

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As greves! Acredito que não haja assunto mais polêmico na universidade e na educação que a greve, entretanto esta reflexão não tem por intenção pulverizar a polêmica comum e tão estéril, tenho antes a intenção de fornecer elementos para compreender um fenômeno cada vez mais freqüente no âmbito educacional.

 

Em 2004, realizei minha mais contundente participação em greves na universidade, em meio a uma graduação suficientemente complicada. Entrei no curso de graduação de licenciatura em física em 2001 e vivia a sombra da “grande greve” de 2000. Não sabia bem do que se tratava, mas nas conversas dos corredores me pareceu a mais extensa resistência grevista já instalada desde a ditadura. Ainda nos ares desta greve ocorreram as paralisações e por fim greve em 2004.

 

Vivento este evento notei o que posso chamar da maior dificuldade do movimento grevista. Ao contrario do que a maioria acredita, a maior dificuldade a ser superada por um sério movimento de greve não são as articulações governamentais, não são as sabotagens dos não grevistas, mas  a desinformação daqueles que decidiram aderir a greve.

 

Qualquer movimento grevista, e acredito que isso valha para a educação ou para qualquer outro setor da sociedade que decida se mobilizar, deve superar antes de mais nada a desinformação daqueles que decidiram militar. Quase todos sabem por que estão lá, mas quase ninguém concorda em por que estar. O que, de inicio, não desmerece a greve já que esta é reflexo de uma longa insatisfação, mas que compromete sua longevidade e seu poder de conquista.

 

Na ânsia de potencializar a adesão, os objetivos são diluídos de forma que o maior número de pessoas possa na sua insatisfação identificar-se. Mas nessa mesma ânsia cria-se a impossibilidade de um real posicionamento.

 

Na greve de 2004 percebi que ao ter um ponto claro (mesmo que ilusoriamente claro), naquela época o veto do governador à LDO, facilitou a mobilização das pessoas e sua reunião pelo motivo que se unificava e não só pela insatisfação pulverizada. Isso facilitou por conseguinte a circulação da informação e o posicionamento dos estudantes, professores e funcionários. Mesmo para aqueles que não tem muita clareza ou que sentem dificuldade de se posicionar, ganham confiança ao perceber que o que lhe impulsiona, também faz ao outro.

 

Por outro lado, existe uma dificuldade intrínseco na propagação da informação, já que o meios oficiais portadores da credibilidade, investimento e uma suposta qualidade, em geral, não são controlados pelo movimento grevista que lhe resta uma imprensa que nasce na marginalidade e por isso tem sua credibilidade colocada em cheque a todo instante. Este aspecto deixa cada vez mais vulnerável os movimentos populares, em especial os grevistas que nascem no seio das instituições.

 

Encontrar modos de comunicação mais claros, em um plano de distribuição da informação mais eficaz é um desafio para o movimento grevista de grande escala. Esteja ele na educação ou não.

Palavras-chave: comunicação, greve, Política

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Agosto 26, 2009

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Quem poderia falar de Newton sem incorrer em erros? Nem mesmo ele. Sua incontestável participação na ciência e sua, muitas vezes esquecida, participação nas interpretações dos textos bíblicos e vida religiosa da época, marcaram suas obras.

 

Genialidade contestada por poucos. Um deles Robert Hooke, seu compatriota, que tinha superioridade política e que de vez enquanto mostrava-se como uma barreira a ser transposta. Seus debates e intrigas dentro e fora da academia ajudaram a delinear as discussões sobre a natureza da luz, nos séculos seguintes. Outro que colocava em cheque suas contribuições, tanto no desenvolvimento do calculo quanto na construção da teoria gravitacional era Gottfried Leibniz, que promoveu o desenvolvimento da teoria da mecânica relacional paralelamente ao da gravitação universal.

 

Apesar de todos os desafetos, Newton conseguiu o que desde muito antes de Galileu tentava-se fazer, tornar profano o celeste. Dizer sem constrangimento que a ciência terrestre poderia explicar de alguma maneira o celeste, e que o que regia o celeste, regia também o terrestre. Esta não é tarefa imposta a qualquer um.

 

Todos já ouviram, em algum momento da vida escolar, a anedota da maçã de Newton. Entretanto falta contar a história da Lua de Newton. Não só a mágica da maçã, mas também a mágica da Lua. Se o arco-íres não foi o mesmo depois de Newton, o que dirá da Lua.

 

Uma pergunta por inúmeras vezes feita é: se o planeta Terra atrai a Lua e a Lua atrai a Terra. Por que a Lua não “cai” na Terra. Ao soltar uma maçã de muito alto ela cai. Se as mesmas regras que regem a maçã regem também a Lua, por que a Lua não “cai”?

 

Para essa pergunta imaginaríamos diversas explicações, que passando por deuses iriam até a falta de gravidade. Será que é isso, na “altura” da Lua já não existe ação gravitacional da Terra? Será que é isso, pressa no cristalino orbe celeste, o Senhor não permitiu que caísse.

 

Bem, a resposta foi a mais estapafúrdia, inimaginável, mágica e contra censual. Quem disse que a Lua não esta caindo? A Lua de fato “cai”. A Lua de Newton, pasmem meus caros, “cai”. Assim como a maçã a Lua também “cai” na Terra, entretanto sua velocidade tangencial faz com que, em sua queda, nunca encontre a Terra. Essa “eterna queda” é o que chamamos de órbita. Esse, ao meu ver, foi o pulo do gato dado por Newton em sua teoria.

 

A Lua que foi vulgarizada por Galileu, por meio de suas rugas imperfeitas denunciadas pela luneta, recebe de Newton o golpe fatal e cai na Terra. Como anjo caído, da inicio à revolução dos homens.

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Agosto 27, 2009

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Sempre fui contra a privatização, e hoje mais do que nunca vejo que é necessário nos posicionarmos com relação a este assunto. Certa vez, pouco tempo depois da inauguração do CEU (Centro Educacional Unificado) em Aricanduva, fui visitá-lo. Um tanto deslumbrado com sua grandiosidade, por um lado, e preocupado com seus altos custos de manutenção e sua rápida deterioração e sucateamento, por outro. Quando me deparo com uma propaganda sobre merenda escolar, que havia subido de qualidade após a terceirização da cozinha. Logo minha esposa, que sempre fez uso do ensino público municipal de São Paulo, comenta. Ainda bem que terceirizaram a merenda, na época em que estudei erra horrível. Prontamente discordei sobre os supostos benefícios desta terceirização. Anos se passaram e este assunto ainda me toma espaço na mente.

 

Para que possamos discutir minimamente a privatização, deveríamos discutir o que é o público, o estado e suas responsabilidades. Entretanto, para não alongar por demais o debate, devo apensa dizer que para discutir a privatização, temos que retirar a ilusão que insiste em se enraizar em nosso imaginário, a de que as instituições públicas não funcionam ou estão fadadas a não funcionar. Poderia aqui relacionar diversas instituições públicas que desempenham primorosamente suas funções, mas não é isso que pretendo fazer, já que qualquer um poderia listar um número dobrado das instituições públicas que falham. E por ironia, começariam pelas instituições de educação. Mas ainda assim insisto, é preciso retirar este ranço negativista que impede o funcionamento do setor público.

 

A privatização, apesar de nos parecer sempre um bom negócio já que de maneira geral os serviços melhoram, ou ao menos cria-se a ilusão de que melhora. É fazer com que as pessoas que mais precisam do serviço prestado ou que mais usufruem do direito, fiquem a mercê de interesses privados.

 

Que empresa, em sã consciência e trabalhando na ânsia de crescer, colocaria os interesses públicos à frente do lucro? Não acredito que haja. O setor público que vem passando por diversas privatizações como as empresas de telefonia, fixa e móvel, o transporte e suas concessões, as rodovias e os pedágios, a saúde os planos de saúde, a educação e a faculdades, dentre outras que formam a base da economia, como a produção de “commoditys”.

 

Imaginemos, sem muito esforço, uma empresa que fornece merenda as escolas públicas serve aos alunos carne de segunda com qualidade e cumpre honestamente suas obrigações contratuais. Com a reviravolta do mercado externo a carne tem seu preço reduzido pela metade, e o preço da carne de primeira passa a ser o antigo preço da carne de segunda. Ainda sem fazer muito esforço, pense. Essa empresa passará a servir carne de primeira, mesmo que por tempo indeterminado? Não. Já que aproveitará o momento para aumentar seu lucro.

 

Nesta empresa, apesar de honesta e “bem intencionada” não reside a preocupação pública. O bem comum da lugar ao lucro. A empresa não precisa ser inescrupulosa, já que o lucro no setor privado é visto como algo natural, algo legal. De forma semelhante ocorre para os diversos outros setores da sociedade.

 

O interesse público não só pode como deve possibilitar o desenvolvimento e a melhoria das condições de vivência humana.

Palavras-chave: Política, privatização, público

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Agosto 28, 2009

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Eu e a aldeia -Marc Chagall

Eu e a aldeia – Marc Chagall (1911)

 

Nunca pensei em ser crítico de arte, e minhas aptidões passam longe disso, então farei uma breve consideração, para que, concordando ou não comigo, possam reconstruí-la em seu intimo.

 

Num primeiro olhar vejo um sonho, um sonho do cotidiano, um sonho longe da utopia e longe de qualquer idealismo, um verdadeiro sonho noturno. Um sonho que organiza o cotidiano e que consegue recobrar o viver simples.

A primeira vez que me deparei com esta obra, estava em um curso da pós-graduação, discutindo a organização e a pesquisa em física. É bom parar para pensar nisso.

 

Recomendo esta tela, para que os educadores que mergulhem em suas vivencias mais pueris. Para que possam, redescobrir o entusiasmo nos episódios banais que insistem em nos cercar.

Palavras-chave: Arte, Política, Sonho

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