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Julho 2009

Julho 21, 2009

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Comumente, ouvimos sobre a pertinência do ensino das ciências como algo que é natural e com valor transcendental. Ensinar ciências é indispensável e naturalmente obrigatório. O que pouco nos perguntamos é sobre o porquê. Por que devemos ensinar e por que devemos aprender ciências no ensino básico, onde a justificativa profissional por muitas vezes nos escapa?

 

O ensino de ciências, em especial o ensino da física como está colocado hoje, tem um papel importante no mundo contemporâneo, tem a função de segmentar, desiludir, castrar e matar no estudante o desejo de aprender física. Isto é decorrência direta de uma concepção particular do ser humano, uma concepção particular das relações humanas entre os homens e entre o homem e o mundo.

 

A ciência é essencialmente humana. Retirar o lastro humano da física é desvitalizar seu desenvolvimento e empobrecer seu ensino. Nesta perspectiva a física sempre aparece como algo distante, desconectado da vida dos sujeitos, desprovido de tensão social, inatingível e de difícil compreensão. O ensino de física é visto como um remédio amargo que a sociedade tem que tomar para que se possa entrar plenamente na civilidade contemporânea.

 

Mas este texto não se limita a lamentações, podemos pensar que em novos horizontes. Entretanto não podemos nos enganar, qualquer mudança substancial no ensino de ciências passa necessariamente por uma mudança na concepção e função social da escola, na mudança das próprias condições sociais, em última análise passa por questões políticas.

 

Qualquer ação no ensino de ciências que não tenha em seu horizonte uma mudança radical da sociedade e da escola manter-se-á como um esforço local e estará fadado a desparecer, devorado pela própria ação escolar e pela própria ação social.

 

O ensino de ciências deve servir para, antes de mais nada, problematizar a posição do homem no mundo e a posição do homem na humanidade. Deve trazer explicitamente questões sobre as relações de consumo, gênero, estratificação social, progresso etc. O ensino de ciências deve ser revitalizado por questões existenciais e por desafios sociais, como ferramenta para repensar o próprio homem.

Palavras-chave: educação, Ensino de ciência

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Julho 22, 2009

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Esse pode parecer um tema antigo e fora de moda, mas olhando para fora da universidade vejo que não há tema mais atual e necessário. A educação de jovens e adultos, apesar de sempre marginal nos fóruns de educação é o ponto de partida para um projeto de mudança nacional. Obviamente essa ação isolada nos leva a lugar nenhum, mas quando pensamos em uma sociedade mais justa, não podemos deixar de lado a autonomia daqueles que a sustentam. 

Hoje o ensino formal de jovens e adulto é visto como uma ação assistencial. “Fazemos na medida do possível”, “fazemos quando sobra tempo e dinheiro”. Esse pensamento leva essa modalidade de educação a condições sombrias, nunca priorizada, isso quando ao menos é levada em conta. No ensino de ciências essa condição não é diferente, poucos são os trabalhos que se debruçam sobre a educação científica nesse âmbito. 

De maneira geral, e não quero ser injusto com as poucas, mas valiosas iniciativas de reversão deste quadro, a educação dos adultos é tratada em sua práxis, da mesma forma com que é tratada a educação infantil. É importante notar que essa não é uma mera distância temporal ou uma mera diferença etária. O adulto quando chega à educação formal (podemos pensar que na maioria das vezes é a escola) é movido por razões, motivos e questões diversas da criança. O adulto que já está inserido no mundo produtivo e em uma dinâmica de consumo tem uma história particular refletida em sua biografia. As histórias de migração e trabalho, as histórias de felicidades e tragédias familiares, as histórias de conquistas e exploração, seus desejos e vontades, tudo isso é essencialmente distinto.

 

O estudante quando se defronta com a educação de massa é visto como um “aluno padrão”, perde parte da sua personalidade, sua história e assume a ilusão de ser apenas mais um aluno. Esse quadro piora quando pensamos na educação de adultos, já que o aluno padrão oferecido pela escola é um aluno infantil. Infantilizar o adulto é ignorar os motivos que o trouxeram até a escola.

 

Neste quadro mais amplo podemos pensar no que seria a educação científica para os jovens e adultos. Particularmente, acredito que deve ser uma educação capaz de ver acima dos muros do conteudismo disciplinar. Deve inevitavelmente se ligar a vida. A ciência não pode ser usada como instrumento de opressão, mas como ferramenta de autonomia. Deve ser como ferramenta para alcançar outros níveis de consciência, para a compreensão de si e do outro, para compreensão de sua própria prática e do mundo. 

 

Dada essas questões podemos pensar ainda em: por que ensinar as leis de Newton? A educação de jovens e adultos na forma como está serve a quem?  

Palavras-chave: Educação, Educação de jovens e adultos, Ensino de ciência

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Julho 23, 2009

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Este talvez seja o menos inflamado post, até o momento, mas não o menos importante.

 

Por volta de maio de 2006, já nos últimos meses da minha graduação me dei conta que, não havia visitado o MAC – USP (Museu de Arte Contemporânea). Em cinco anos imerso no meio acadêmico e não havia visitado um dos principais museus da universidade. No afã de corrigir esse erro de percurso, tomei a decisão de ir ao museu e visitar qualquer que fosse a exposição, fizesse chuva ou sol. Enquanto estava visitando a exposição no meio da tarde em um dia de semana, o museu estava praticamente vazio. Um senhor, já de idade avançada, com mais três crianças entram e iniciaram a visitação. Estava eu, parado em frente a uma fotografia, observando atentamente os detalhes e tentando entender por que eu estava ali, parado observando os detalhes. Quando uma das crianças me abordou, uma menina que aparentava ter dez anos, me perguntou. “Moço aqui, tem alguma linha ou marca no chão que devemos seguir?” Sem entender muito bem, a garota me explicou por mais três ou quatro vezes, até que eu disse que não trabalhava ali, e ela saiu com certa decepção. Só algum tempo depois, quando ela já não estava mais por perto é que entendi! Ela me perguntava sobre a indicação do roteiro da exposição, algumas exposições são criadas para serem vista por um percurso determinado pelo expositor. Precisou de uma criança de dez anos, para me ensinar isso sobre os museus.

 

Esse fato foi imprescindível para alimentar minhas reflexões durante meu trabalho na Estação Ciências. Pouco tempo depois disto fui trabalhar na Estação Ciências, em um período especialmente conturbado, com greves e embates internos. Mesmo em meio a toda a confusão, pude pensar sobre algumas questões alheias a política local. Uma delas, sobre o tratamento dado aos visitantes em idade pré-escolar. 

 

A grande preocupação dos monitores no atendimento destes grupos estava na baixa absorção dos conceitos explicados. Sempre que um monitor tinha que atender grupos com crianças em idade pré-escolar, não o fazia sem antes reclamar, resmungar, esbravejar e por fim tentar se livrar fazendo troca com algum outro monitor menos atento. Essa postura é reflexo de um monitor pouco capacitado, para não dizer sem capacitação nenhuma, e pela pouca ou nenhuma preocupação dos elaboradores das exposições, administradores, educadores e funcionários com o atendimento desse público.

 

A instituição como um todo não tem como público alvo essas crianças, entretanto esse fato merece ser notado, já que hoje pais, professores e parte da sociedade, reclama do baixo interesse dos adolescentes. O interesse pela ciência, e de modo geral pela escola, não nasce do dia para a noite, ele é cultivado e construído desde tenra idade. A visita destas crianças ainda em faze de elaboração de sua linguagem e de seus pensamentos é crucial para que elas se apropriem de algo que vai além da conceituação disciplinar. Visitar um museu como a Estação Ciências, implica em aprender muito mais do que a física escolar, implica em aprender hábitos de visitação, valorização da ciência como um artefato cultural e aprende a gostar da ciência por uma aproximação que só os museus e centros de difusão podem fazer.

Aprendermos a gostar de ciências, da mesma forma que aprendemos a gostar de arroz com feijão, futebol, músicas, vídeo games etc. O gosto pela ciência é aprendido, e as experiências que temos nessa idade, traz elementos para nosso desempenho e interesse escolar, nossa escolha profissional, nossa escolhas políticas etc.

 

Tendo em vista esses fatos é de extrema importância que as instituições de difusão científica abracem sua função pedagógica, e que se preparem para receber esse público, que tanto merece zelo.

Palavras-chave: Educação, Ensino de ciências

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Julho 24, 2009

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Hoje a educação básica está saturada de avaliações. Avaliações que os professores realizam sobre os alunos, avaliação que os alunos fazem sobre os professores, que os diretores fazem sobre os professores, que a supervisão e a secretaria de educação realizam sobre a direção e sobre a escola etc. Nos últimos dez anos passamos avaliando e aprimorando as ferramentas de avaliação. Com provas cada vez mais elaboradas, que atingem cada vez um número maior de aspectos e de pessoas.

 

Em meio a essa “convulsão avaliativa” pouco nos perguntamos sobre o que avaliar? Como avaliar? Por que avaliar? E para que avaliar? Essas perguntas, simplesmente não estão presentes na mente do avaliado. Ele simplesmente se submete a avaliação, que para ele não toma sentido algum.

 

De fato, estamos perdidos em meio a grandes sistemas de avaliação, e nos preocupamos pouco com os grandes sistemas de ação. Neste sentido, as avaliações deixam de orientar ações para que haja melhora na educação e acaba por servir, ou aos mecanismos de opressão local, ou as pedagogias empresariais comportamentalista de estímulo-resposta (como vem sendo as atuais políticas de bonificação).

 

Precisamos nos perguntar a quem serve essas avaliações?

 

Obviamente que não estou jogando fora as avaliações, mas tento assinalar para a falta de reais investimentos na educação básica, falta de reais esforços. Esforços que transcendam questões eleitorais, que vão além de interesses particulares.

 

Há dentro da educação aqueles que se conformam com os poucos investimentos feitos, e lançam mão do bordão “Temos que trabalhar com o que temos”. Esses, mesmo que de bom coração, estão impedidos de buscar melhoras reais, e patinam em uma lama escorregadia que os cansa e os vence. Esses, se submetem facilmente aos “não mentirosos”, fidedignos e reais sistemas de avaliação. Esses mesmos acabam por se satisfazer, acalmam seu peito com um desprestigioso galardão.

 

A educação brasileira clama por mudanças que transformem sua raiz, que sejam mudanças profundas em sua forma de agir, pensar e avaliar.

Palavras-chave: Educação; Avaliação

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Julho 27, 2009

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É loucura minha, ou a mídia quer me vender uma epidemia? Já passamos por crianças sendo empurradas de apartamentos, milhares de CPIs, crise econômica mundial, morte do Michael Jackson, escândalos no senado e epidemia mexicana, sem falar das copas perdidas. Quantas coisas tentam me vender todos os dias?

 

A cada dia que ando no metrô de São Paulo percebo um aumento das velhas e boas mascaras de proteção. Pânico geral no trabalho, janelas secularmente fechadas foram aberta (isso foi bom), abertas pela força do medo. Álcool nas mãos e nos telefones de uso coletivos. Assunto a todo o momento, as aulas serão ou não adiadas? Morreram ou não pessoas? Devo ir a regiões com grandes aglomerações de pessoas? Medo, medo, medo, implantam um medo paralisante, que angustia a todos e a ninguém.

 

A quem interessa uma epidemia no Brasil? Será que existe alguma empresa farmacêutica que tem exclusividade para o único remédio dessa epidemia? Acho que sim. Será que a mídia quer desviar o assunto, para não vermos o óbvio? Acho que sim. Será que querem implantar o medo alarmista, para que em momento oportuno algum herói ofereça a única saída possível? Acho que sim. Na mídia brasileira, diversas perguntas são oportunas e diversas respostas nem tanto.

 

Longe das teorias de conspiração gostaria de notar a facilidade com que esquecemos a reais doenças que assolam nossa sociedade, em especial a urbana paulistana. A pseudo-liberdade nos desresponsabiliza. Sempre achamos que a miséria alheia não é de nossa conta. Por quantas vezes a esmola oportuna silencia a nossa consciência, algo que nos diz que há muitas coisas erradas. Mas abafamos, para sobreviver em um mundo liberal.

 

Quantas pessoas dormirão sozinhas, na fina garoa, indigentes, desamparadas pela democracia libertadora. Essa é a doença que devemos nos preocupar e repensar, a doença do esquecimento completo da dignidade humana. Esse pode parecer um discurso batido, mas mais do que nunca necessário. 

 

Essa epidemia que a assola à mídia, camufla outras questões que veladamente pensamos, mas seria um pecado capital comentar, verbalizar ou trazer a público. Particularmente, não posso deixar essa preocupação perecer, fugir da minha memória atarefada. Isso me fará entender à que epidemia devo prestar atenção.

Palavras-chave: epidemia, gripe, Poilítica

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Julho 28, 2009

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Gostaria de poder resistir à quase insana tentativa de comentar o texto de José Saramago – “Problema de homens” – em que trata dos atuais conflitos de gênero, em particular os recentes acontecimentos da Espanha. Texto que possibilita a reflexão do atual machismo e da posição masculina sobre seus próprios atos.

 

Esse tema tem tudo para ser só mais uma panfletagem feminista que se perde em meio a tantos discursos e propósitos, a não ser por sua inabitual perspectiva. Oferecer ao homem condição de refletir sobre seu papel na abolição da violência de gênero.

 

Nem como cidadão, nem como homem, deixaria a cargo do homem libertar a mulher, isso pode nos levar a um machismo de ordem superior, onde só o homem tem condições para reverter o quadro atual. Mas não é disso que o texto de Saramago trata, acredito que ele tente resgatar da omissão completa, as dores do homem sobre a violência de gênero. Na Espanha não sei, mas no Brasil, onde os brasileiros já não se permitem sentir dor, caminhamos em uma total anestesia. A violência contra a mulher acaba por se tornar uma paródia cômica em programas de televisão que só servem a alimentar o machismo em mulheres e homens. A sociedade brasileira é nutrida por um machismo velado, entranhado em nossa cultura nos meandros da língua masculina. No machismo atual a subserviência se traveste de humildade e o orgulho se instrumenta da humilhação. Esse, assim como o racismo, preconceito, corrupção, negligência não nos mostra a face clara, está sempre pronto a ser negado.

 

Os homens têm que sentir sim! A punhalada de seu próprio punho, e entender que a agressão ao outro, em especial ao outro gênero, é no fundo uma agressão a si. A compaixão permite sentir o que o outro sente, e dela deve nascer a mudança, não só do homem, mas de toda a sociedade. Acredito que chegará o momento que a violência de gênero, não só será a primeira preocupação pública, como será impensável e inconcebível à natureza humana.

 

Não posso me enganar, não só por meio de um protesto masculino aflorará a consciência da boçalidade que vivenciamos, precisamos de reais e concretos acertos em direção a igualdade. Uma igualdade que ao mesmo tempo preserva as diferenças, missão quase impossível para a sociedade como está. Mas devo dizer “quase”.

 

Em suma, para mudar as relações de gênero na sociedade, implica inevitavelmente em mudar suas raízes.

 Recomendo que leiam o texto do José Saramago na integra e comentem.

http://caderno.josesaramago.org/2009/07/27/problema-de-homens/

Palavras-chave: crítica social, Machismo, Política

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Julho 29, 2009

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Vou comentar, algo que passa longe de uma severa resenha, mas que não chega a ser uma mera indicação. Posso dizer que, apenas comentarei o livro “Liberdade e neurobiologia” do filosofo estadunidense John R. Searle, que vem desenvolvendo trabalhos de grande repercussão no campo da filosofia da mente. Esta leitura é recomendada não só para aqueles que buscam aprofundamento na educação, mas para aqueles que buscam as atuais questões da consciência.

 

Uma contribuição importante para este campo, que já vem sendo feita à séculos, mas que Searle consegue expor com clareza, principalmente para o público leigo, é o rompimento com a separação cartesiana entre corpo e mente. Quando separamos corpo e mente, surge junto a isso outra questão que para os críticos de Descartes, é intransponível. Como religar mente e corpo, e como explicar a influência da mente sobre o corpo, ou vice-versa? Searle destaca que adotando a solução cartesiana de separação, não conseguimos traspor a segunda questão, aqui colocada.

 

Em seguida faz uso de uma poderosa metáfora com a estrutura molecular, onde assim como a propriedade de rigidez de um objeto é estado de uma aglomeração particular de moléculas, a consciência pode ser entendida como uma “propriedade superior” à uma configuração neuronal. Não conseguimos determinar a rigidez nem explicá-la observando a molécula isoladamente, esta propriedade não reside na molécula isolada, assim como a consciência não pode ser explicada pela ação exclusiva de um neurônio. Nesta metáfora cabem certas ressalvas já que o sistema molecular é um sistema determinístico, onde a rigidez é conhecida apenas conhecendo os estados do conjunto de moléculas. Se assim fosse a consciência seriamos incapazes de explicar o livre arbítrio, já que as escolhas estariam pré-determinadas em estados neuronais anteriores. Por fim cairíamos em uma forma já conhecida de entender a vida humana, como é o caso do destino. Para isso ele tenta introduzir a idéia de indeterminismo como propriedade dos sistemas neuronais, que na consciência se manifestaria por meio do livre arbítrio.

 

Suas explicações para as escolhas racionais, baseado no principio de indeterminação são bem convincentes e evidencia anos de reflexão. Entretanto quando tenta embutir aspectos sociais à mente, caí em um realismo ingênuo. Tenta criar categorias, a meu ver muito frágeis, para discriminar o que é dependente e independente das escolhas humanas. Cita os fenômenos fiscos como independentes e os fenômenos lingüísticos como dependentes, se por um lado rompe com a dualidade cartesiana, por outro, cria um dualismo que não permitirá a compreensão ampla dos fenômenos sociais.

 

Assim neste livro o autor não consegue realizar o salto, ainda em aberto nas ciências cognitivas, entre a mente individual e as complexas relações sociais. Apesar da grande elaboração do contorno neurobiológico, suas considerações sobre política, linguagem e sociedade são extremamente simplistas e insere quase tudo em uma lógica consensual e consciente. Com as ferramentas desenvolvidas na segunda parte do texto, não conseguimos explicar fenômenos político-sociais como a atual situação em Honduras (desde 28 de junho de 2009), onde um governo é deposto e seu presidente é exilado, o governo interino, ou o governo golpista, divide opiniões sobre sua legitimidade tanto no povo hondurenho quanto na comunidade internacional. As soluções para tais questões políticas são as mais diversas, incapazes de serem reduzidas, ao menos nos modelos atuais, à uma racionalidade neurobiológica.

 

De modo geral, creio ser uma leitura interessante mais aos educadores e filósofos do que aos políticos.

 SEARLE, John R. Liberdade e neurobiologia:reflexões sobre o livre-arbítrio, a linguagem e o poder político. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

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Julho 30, 2009

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Hoje, é muito comum ver discursos que exaltam, clamam e reivindicam a democracia. A educação, filosofia e política são bombardeadas pelo termo “democratização”. Depois de décadas vivendo sobre um regime ditatorial ou não democrático, as pessoas de todas as classes sociais e de diversos nichos culturais apóiam a democracia como uma idéia “quase” que natural. Já nascemos com anseios democráticos! Principalmente com os atuais (mas nem tão atuais assim) incidentes no oriente médio, mais especificamente em Teerã.

 

Mas seria a democracia, a palavra chave para todos os problemas sociais? Que tipo de democracia é essa? Quero realmente a democracia da forma como se realiza hoje no Brasil? Meu voto vale realmente o mesmo que o seu? Problematizar essa democracia liberal de representação é o primeiro passo para responder tais questões.

 

A democracia não tem como conseqüência a igualdade, no fundo ela pressupõe igualdade. Na forma como vejo colocada a democracia brasileira hoje, a igualdade se põe como condição de existência. Pensando nesta democracia, onde todos podem votar, se expressar, coligar, montar partidos políticos, exercer livremente seus preceitos religiosos, etc. Tudo isso respeitando uma lei ou conjunto de regras elaborada e votada democraticamente.

 

Nessa democracia, seria possível a existência de um fascista (com aspirações antidemocráticas)? Diria sim, a democracia suporta a convivência com este fascista, ele pode e deve se manifestar, se expor, manifestar suas preocupações com a nação e usufruir dos direitos democráticos. Tudo isso pode acontecer e acontece sem causar maiores problemas. Mas poderia, esta mesma democracia, suportar a convivência com dois fascistas? Sim. Três, quatro, cinco, seis fascistas podem conviver. Mas este pequeno grupo de fascistas que se tronam cinqüenta por cento (mais um) da população já dispõem de força suficiente para implantar pela própria força democrática o fascismo. Neste fascismo, nascido da democracia, já não há espaço para as aspirações democráticas.

 

Neste problema, aparentemente simples, reside uma fratura dos atuais discursos democráticos, que tem como pilar a singela e por muitas vezes hipócrita, igualdade. Sem rever profundamente os discursos de igualdade, a democracia colapsa em uma ditadura da maioria. Nesta ditadura da maioria o que aconteceriam com as minorias? Essa idéia é um pouco contrário ao que aconteceu e, de certo modo, ainda acontece no Brasil, onde uma pequena parcela da população detém grande poder político-econômico. Apesar de aparentemente fictício e aparentemente improvável, quando olhamos para a os movimentos fascistas e nazistas, na Europa entre o fim da primeira guerra e o fim da segunda guerra, vemos que estes não foram movimentos das minorias.

 

Por fim, isso nos leva a outras questões, como, qual democracia devo perseguir, quais seus pressupostos e quais suas implicações? Não devemos ter medo de colocar a atual democracia em xeque, pois questionar a democracia não nos faz antidemocráticos. Não é esse o principio áureo da democracia?

Palavras-chave: democracia, direito, igualdade, Política

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Julho 31, 2009

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Em um curso recente que fiz no Instituto de Física da USP, um dos objetivos era a desconstrução do modelo realista para uma reconstrução crítica do realismo. Se é que captei bem o espírito da coisa. No decorrer do curso discutimos diversos aspectos da física e dos modelos científicos, se o elétron existe realmente, a construção da nossa percepção tridimensional do espaço, o aparecimento da noção de tempo na humanidade, as formas de mediação como elemento das teorias científicas, dentre outras coisas que pretendo escrever futuramente. Depois de desconstruir um realismo, que hoje vejo, mais que ingênuo, restava para a última aula reconstruir das cinzas o argumento realista. Em outras palavras, justificar por que a resposta para a pergunta: existe ou não uma realidade independente do homem? Era sim, existe uma realidade. Obviamente a mais árdua tarefa realista. Devo dizer de saída que essa tarefa é, ao meu ver, impossível.

 

Por meio de uma piada infame se introduziu o argumento. A piada dizia: “Por que o homem é necessariamente realista? Por que seus ancestrais idealistas pensaram: será que esse predador existe?”. Por um mecanismo de seleção natural, os indivíduos idealistas foram logo extintos. Esse realismo biológico, que em minha argumentação pode parecer chulo, é a base para os mais recentes teses realistas. “A realidade existe, e o provaram a seleção natural”.

 

Em seguida, lançaram mão de uma experiência um tanto famosa. Pintinhos recém nascidos e isolados da mãe comiam em um cercado iluminado. Com todo vigor que lhes é peculiar na juventude. O homem, experimentador realista, passa a mão por entre a iluminação e o chão. Todos os pintinhos pararam imediatamente de comer e saíram correndo, fazendo isso mais duas ou três vezes, percebe-se que é um comportamento recorrente. A argumentação continuava o realismo é inerente a todos, “praticamente uma herança genética”. Quem ensinou os pintinhos que aquela sombra no chão poderia ser um predador impiedoso?

 

Sem entrar no mérito, ao menos por enquanto, dos mecanismos biológicos de propagação de informação hereditária, gostaria de avaliar este argumento realista. Um primeiro aspecto esta em se valer, ainda que metaforicamente, da comparação entre a consciência humana e de galináceos em fase imatura. Em outras palavras, o homem que pode ser comparado à pintinhos, permanece em um realismo ingênuo e imediatista, assustadoramente coagido pela realidade indubitavelmente existente a sua volta. Por mais que eu não queira admitir grande parte dos homens ainda se permitem viver desta forma.

 

Segundo ponto que devemos observar neste argumento é o fato de que, o que passava entre a luz e o chão não era um predador, mas sim a mão do experimentador, assim os pintinhos mais realistas foram os primeiros a se enganar. Essa aposta realista, pode trazer e incorrer em diversos enganos, como a confusão entre a mão e o predador. E poderíamos incluir nesse meio, correndo o risco de ser injusto, os pragmáticos.

 

Por fim, me utilizando da mais barata psicologia comportamentalista, podemos pensar que  se permanecermos passando a mão sob a luz, sem predar nenhum pintinho, logo estes na dor da fome irão comer sem se preocupar com as sobras no chão. Em outras palavras, talvez tenhamos nascido como realistas, mas essa não é a única e inequívoca opção humana.

Penso hoje em um movimento que alterne entre o realismo e o relativismo que seja capaz de aumentar a criticidade da análise e das conclusões. Um dos meus medos, e risco que terei que assumir, é o de cair em progresso positivista ou em qualquer outras miscelânea filosófica incapaz de me auxiliar nas reflexões.

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