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fevereiro 03, 2010

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Em um recente curso oferecido aos professores da rede publica de ensino no estado de São Paulo, do qual participei da elaboração, execução e avaliação, durante o segundo semestre de 2009, inflou em mim uma reflexão que até então se encontrava apenas como semente.

 

Sei que a reflexão sobre o papel da tecnologia na educação é antiga e ultrapassam as fronteiras das experiências conquistadas neste curso, minha intenção aqui não é “reinventar a roda”. Este curso, todo à distância, contava com algumas “ferramentas” que permitiam seu desenvolvimento. O curso contava com: quatro vídeoaulas sobre os conteúdos disciplinares com duração entre 60 e 75 minutos; quatro videoconferências com os professores das vídeoaulas; um fórum em que o professor-cursista deveria obrigatoriamente entrar e enviar mensagens; e um formulário em que registrava os trabalhos ao longo do curso.

 

Uma questão que se impõem para entendermos o desenrolar deste curso em especial o alto indicie de evasão – cerca de 80% de desistência na disciplina de física – está em relação à apropriação destas “ferramentas”. Em outras palavras, isto é ferramenta para quem? Ao desenhar o curso, imaginamos que o professor domina minimamente o uso da internet e/ou dos equipamentos que constituem as condições para o envolvimento no curso. De posse destas “ferramentas” o professor pode – como imaginávamos – se dedicar a estudar os conteúdos disciplinares, neste caso a física.

 

Grande engano! E digo grande por sua extensão, já que atinge diretamente todos os professores-cursistas e por sua recorrência, já que está presente na grande parte dos cursos à distância. Podemos elencar algumas razões que nos ajudariam a aprofundar a discussão. É uma grande ingenuidade imaginar que o professor do ensino médio esta automaticamente confortável com a informática simplesmente por viver na contemporaneidade. Sua presença na vida cotidiana é inegável, mas é algo bem diferente de se apropriar e de gostar de usar. Outro aspecto está no uso da ferramenta especifica. Os fóruns, por exemplo, têm funcionamentos específicos. O fato de já ter usado fóruns anteriormente não é garantia de que o uso deste será auto-evidente. Mesmo que dominemos o uso da ferramenta como no caso do fórum ainda existem outras questões que devem ser analisadas, como por exemplo: quantas vezes devem ser acessadas por semana? Como não ser indelicado ao fazer uma crítica? Como sintetizar as idéias para que possa inserir-las neste ou naquele formato? Em suma, podemos sintetizar em três níveis, mais ou menos, complementares: (i) o domínio da informática geral; (ii) o domínio das ferramentas específicas e (iii)  a apropriação cultural desta tecnologia.

 

Negligenciar estes aspectos no desenho do curso faz com que a tecnologia deixe de ser ferramenta e passe a ser objeto de estudo. Os conteúdos disciplinares vagam no plano de fundo. Este curso deixa de ser um curso de física em que se usa a tecnologia para vencer determinadas barreiras e passa a ser um curso da tecnologia em que a física é usada como pretexto. Tanto o primeiro quanto o segundo formato são legítimos. Mas, neste caso em particular, o professor se inscreveu em um curso de física e não de tecnologia. Mesmo que o professor se disponha a aprender sobre a tecnologia, os profissionais contratados para ministrar o curso estão dispostos e sabem ensinar física, não a tecnologia.

 

Isto faz com que, esta questão esteja entre as grandes – não a única – causa da evasão dos professores neste curso à distância. Uma reflexão importante que muitas vezes lhe falta investir o tempo e a atenção necessária. Falta refletir ou aprofundar a reflexão sobre os objetos de estudo e as ferramentas disponíveis para tanto.

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues | 1 usuário votou. 1 voto

Comentários

  1. Clarice Alegre Petramale escreveu:

    Andre,

    Tenho alguma experiencia com cursos virtuais para profissionais da saúde, com bons resultados ( cerca de 50%) de conclusão...

    No caso que vc apresenta, lembremos que muitos desses "alunos-profissionais" o máximo da tecnologia com que conviveram na juventude foi o telefone fixo!

    Eles merecem um módulo introdutório sobre como usar as novas ferramentas do curso: o forum, os chats... e alguma atividade que promova a socialização do grupo para que eles se sintam unidos e desafiados a não desistir do curso e se ajudarem mutuamente a  superar os desafios durante o curso e depois manter essa rede de discussão ativa para consultas futuras ( que é o melhor resultado) 

    Reformule seu plano de curso e verá que esse grupo, de início tão difícil pode se mostrar muito produtivo. E os organizadores se sentirão recompensados pois terão consciencia da importancia que tiveram abrindo as portas  desse novo mundo da tecnologia para essa geração.

    Clarice Alegre PetramaleClarice Alegre Petramale ‒ quinta, 04 fevereiro 2010, 22:30 -02 # Link |

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