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fevereiro 01, 2010

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“Não sou comunista, podem confiar em mim!” – Esta frase, apesar de não estar explicitamente dita no filme, pode sintetizar uma de suas principais idéias. O filme tem uma função muito clara, mostrar que o nosso presidente nunca teve aspirações comunistas, e correndo o risco de ser demasiadamente genérico poderia dizer que nunca foi de esquerda. O que tornam sua trajetória pessoal e seu governo ainda mais intrigantes.

 

Assistindo o filme a todo o instante tinha a impressão de estar assistindo uma novela global, não só por contar com caras carimbadas da televisão, mas também pela forma com que a história foi contada. Um pout-porri de fatos biográficos nunca suficientemente aprofundados, sempre pintados com um leve tom de cinza claro, o que não permite manchar os personagens com cor alguma. Neste sentido concordo com a crítica feita – the economist – , de uma imagem excessivamente higienizada. O filme vem para consolidar uma imagem a muito cultivada pelo Lula, a de não oferecer perigo algum a ninguém.

 

Apesar disto, me faz pensar no quanto é surpreendente esta história como um todo. Pensar que um operário se tornaria presidente da republica, ainda é um fato difícil de entender. Mais difícil ainda é entender como, em um país extremamente elitista e que procura manter um “estatus quo” preservando o enorme fosso social, este operário consegue se reeleger e terminar seu mandato com os maiores índices de aprovação já vistos. Isto revela um pouco da complexidade da política, economia e social em que este filme está inserido. O que se apresenta como um paradoxo me deixa pessoalmente confuso, não sei se devo gostar ou se devo desgostar. Não sei nem mesmo se existe uma terceira opção.

 

Vejo este fato como andar dois passos para frente, um nordestino, operário e sem curso superior sendo eleito. O que anteriormente o descredenciaria, hoje o torna apito a representar o povo brasileiro. Mostra que avançamos no sentido de derrubar diversos preconceitos. Por outro lado, seu governo se manteve muito preso a medidas paliativas que não vislumbram nenhuma consolidação. A política economia, alvo de grande elogio por toda a imprensa é na verdade o seio de suas contradições, fazendo com que os bancos batam recordes de lucro.  Não chega a tocar nos pontos vitais como o da reforma agrária. Neste sentido andamos um passo para trás. Nesta valsa nem um pouco refinada que é a política nacional vejo que avançamos, mas não o suficiente para que possamos nos alegrar. Não sei se estou sendo muito exigente em relação às ações presidenciais, mas sei que a sociedade ainda aguarda mudanças muito mais profundas do que as que estão ocorrendo hoje.

 

Por fim, não vejo como realizar a crítica deste filme sem tocar na crítica a um governo. Recomendo o filme para que possamos olhar o que de fato está escrito nas entrelinhas. Muitas vezes dito, através do que deixou de dizer. Esta é a oportunidade de exercitar nossa critica que neste filme consegue fundir a crítica política à crítica cinematográfica.

Palavras-chave: Lula, Vídeos

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues

Comentários

  1. Osvaldo escreveu:

    Poxa André, gostei do seu texto. Não vi o filme ainda (não lançaram aqui em Portugal), assim que assistir volto para dar uma opinião.

    Abraços.

    Osvaldo de SouzaOsvaldo ‒ segunda, 01 fevereiro 2010, 11:53 -02 # Link |

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