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dezembro 08, 2009

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Certa vez ouvi de um professor que: quando lemos um texto que nos identificamos, este não faz mais do que dar palavras aquilo que já vínhamos acalentando. Acredito que este texto de Ziraldo sobre Ferreira Gullar é mais uma prova disso. Então cito com prazer.

 

“Me encanto com as palavras do poeta: ‘Ao mesmo tempo o capitalismo é fecundo e criativo. Como a Natureza. É injusto e cruel. Como a Natureza’. E o que é o Socialismo? ‘É a intervenção racional do ser humano neste processo natural.’


Ele propõe diques e regulagens. Em vez de o rio ficar inundando tudo, façamos a represa.
A represa está para o rio como o Socialismo está para o Capitalismo. É a intervenção da razão. O grande problema do Socialismo é que, em tudo, não só na política, a coisa mais difícil é domar o processo da vida, que excede a qualquer teoria.


A proposta do Socialismo, compreendida assim, está acima da possibilidade humana. Nós jamais dominaremos a Natureza. O Homem, porém, não vai desistir por causa disto, não vai deixar de lutar. O Homem é uma invenção dele mesmo. Nós não somos Natureza – pois ela não raciocina –, embora tenhamos uma base natural. E olha o Gullar de novo: ‘Nós inventamos tudo, Deus, as cidades, o teatro, nós vivemos num mundo cultural. A própria Natureza em que vivemos hoje, ainda que não esteja de todo domada, é cultural, modificada, o homem inventou o universo em que vive. A vida não tem sentido mas todo dia nós inventamos um sentido para ela.’


Tentei aqui reproduzir parte do discurso do Gullar, tirando pedaços da entrevista que ele deu para o número de OPasquim21. Ele termina a entrevista dizendo que a grande aventura do homem é esta: inventarmos nós mesmos a cada dia.


Por esta razão, Gullar crê que o sonho não acabou. Quem pensa – ele diz – e é capaz de, pensando, amar o próximo como a si mesmo – esta parte é minha mas o Gullar, é claro, não a nega – tem que ficar atento todo o tempo. Se o Socialismo, que perdeu a batalha do século XX, é a intervenção racional do ser humano na apocalíptica força da Natureza, aqui mencionada, o homem – criador de tudo – há de descobrir o caminho para alcançar, pensando e criando, um mundo justo.


Gullar é um homem cheio de esperança. E porque seu discurso me comoveu profundamente eu, aqui do alto desta tribuna, informo ao mundo que sairei por aí, levando aos gentios a palavra do mestre, bradando aos céus que a esperança não morreu.


Gullar, você é meu profeta e eu vou ser o seu São Paulo.”

 


Ziraldo

Palavras-chave: capitalismo, gullar, Política, socialismo, ziraldo

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues

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