Stoa :: Andre Machado Rodrigues :: Blog :: Alienação e o Ensino de Ciências

novembro 12, 2009

default user icon

Quase todas, para não dizer todas, as pessoas com quem comento a temática de meu projeto de doutorado, a cerca da alienação e da problematização, prontamente me questionam: O que alienação tem a ver com o ensino de ciências, ou com o ensino de física? Não posso deixar de responder, com a mesma prontidão: A meu ver, tudo!

 

Depois de tantos questionamentos fico aliviado por descobrir que as relações que pretendo construir não são óbvias. Se assim fossem, não haveria necessidade de uma tese para destacá-las, nem investiria um tempo considerável de minha vida neste empreendimento. Então, o fato de não ser uma obviedade funciona para mim como um propulsor e um indicativo de que devo me esforçar, não para torná-las obvias, mas desde cedo tornar as relações entre alienação e o ensino de física as mais claras possíveis. Depois disso é que poderão concordar ou discordar, contribuir e aderir a estas idéias. Esta também não é uma tarefa trivial, pois estas relações não se encontram completamente claras para mim, e não sei se um dia ficarão.

 

Em breve terei à frente uma banca formada por colegas e professores que estimo, e por se colocarem nesta banca como amigos não pouparão esforços, nem palavras, para me fazer claro. Esforço que terá como produto a elucidação das questões centrais do meu projeto. Isso implica em explicar, mesmo que me utilizando de argumentos incipientes, como veja a relação entre a alienação, e devo acrescentar nisto, como vejo o conceito de alienação marxiano ligado ao atual ensino de física. Como treino a esta situação pretendo elaborar alguns textos em que exponho meus principais argumentos e como vejo os desdobramentos destes na prática docente, na escola e no processo de ensino-apredizagem de ciências.

 

O primeiro argumento que não irei explorar aqui em suas conseqüências últimas, pois exigiria mim um esforço filosófico ao qual não disponho de fôlego, está na gênese e na relação essencial entre a física (podemos substituir neste caso por ciência) e o trabalho. Para Engels, e seguidores que se empenharam em refinar este principio, o aparecimento da consciência humana está intimamente relacionada ao aparecimento do trabalho, da ação humana sobre a natureza. Assim o desenvolvimento humano deixa de estar a reboque exclusivo das leis de desenvolvimento biológico e passa a ser influenciado majoritariamente pela cultura. Assim como o trabalho têm em sua gênese a complexa relação entre o homem e a natureza, a física compartilha deste mesmo principio genético.Entender as relações de trabalho, assim como compreender o desenvolvimento e o ensino da física, ambos passam por uma compreensão mais ampla das relações entre homem e natureza.

 

No fundo, este princípio compartilhado se reflete também e de modo semelhante nas relações entre ciência e técnica. A idéia ingênua de que a técnica é sempre produto da ciência e que a finalidade da ciência esta na técnica, ignora o caráter histórico tanto da ciência quanto da técnica.

 

Este princípio apesar de não constituir em si em uma ponte concreta entre a alienação e o ensino de física, servirá de ponto de partida, uma espécie de baliza, para a construção de outros argumentos capazes de relacionar, mesmo que metaforicamente a produção e o consumo no trabalho e na escola.

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues | 1 usuário votou. 1 voto

Comentários

  1. Osvaldo de Souza escreveu:

    Muito bom André, parabéns pelo texto e pelo trabalho!

    Osvaldo de SouzaOsvaldo de Souza ‒ quinta, 12 novembro 2009, 15:13 -02 # Link |

  2. Andre de Freitas Dutra escreveu:

    Sugestão,

     

    Olá "xará".

    Interessante o seu projeto. O que tenho a dizer não é, propriamente, uma crítica ou um questionamento, mas uma forma de diálogo. Trata-se de uma forma de "eu também entender" o que você pretende fazer.

    Ao falar em "alienação" você está usando um conceito que foi usado para tratar da situação do operário fabril. Se eu não estou enganado, esse conceito está ligado ao "feitiche da mercadoria" e a produção de "mais-valia". O processo de industrialização, levou que o operário não mais controlasse o processo de produção, mas que, ao contrário, passasse a ser controlado pelas máquinas.

    Ao falar em alienação no trabalho docente, você terá que responder algumas coisas: Se existe alienação no trabalho intelectual; Se o professor é uma espécie de proletário.

    Da minha parte, acho o conceito de alienação bastante complicado para ser usado para o trabalho do professor (seja ele de que matéria for).

    Dentro do espectro teórico que você está utilizando, que o marxismo", você poderia utilizar o conceito de IDEOLOGIA. O próprio Marx utilizou esse conceito e Althusser utilizou bastante em sua Crítica aos Aparelhos Ideológicos do Estado, onde a escola se encaixaria (devo alertar que Althusser anda bastante fora de moda na academia...).

    Outro conceito, ainda marxista, é o de HEGEMONIA desenvolvido por Gramsci (este sim, é bastante utilizado).

    Claro que o que expus são apenas sugestões. Quem decide os teóricos é o orientando, juntamente com seu orientador. No entanto, gostaria de ler sua resposta. Afinal, essa troca de idéias sempre nos enriquece.

     

    Boa sorte na sua pesquisa.

    Andre de Freitas DutraAndre de Freitas Dutra ‒ quinta, 12 novembro 2009, 17:21 -02 # Link |

  3. André Rodrigues escreveu:

    Caro xará,

    Ótimas sugestões... meu interesse nestes ‘posts’ é justamente este o de abrir espaço construtivo de dialogo.

    Pelo que tenho estudado de Marx, e esta será uma apreciação ainda ingênua, posso colocar a Alienação em duas esferas: O da produção, presente na atividade humana e neste sentido não esta restrita a industrialização, mas à propriedade privada tanto das terras quanto dos meios de produção (isto está presente nas obras mais jovens de Marx, como os manuscritos); a segunda esfera creio esta no que você colocou, no consumo e na mercadoria (conceitos consolidados nas obras mais tardias de Marx – O Capital). Esta divisão é preliminar, mas acho que pode me ajudar a situar a educação.

    Existem leituras que não poderei escapar (minha curiosidade não deixaria), como Gramsci, Lukács e Agnes Heller. Só não sei ainda como gerenciar todas essas leituras...

    Em principio creio que, o conceito de alienação é ferramenta importante para ver a atividade do professor, como assalariado e como atividade alienada. O que não será tarefa tão simples é entender como isso se reflete em outras esferas da escola, como por exemplo, na atividade do estudante.

    Espero continuar o debate...

     

    Até!

    Andre Machado RodriguesAndré Rodrigues ‒ sexta, 13 novembro 2009, 09:59 -02 # Link |

Você deve entrar no sistema para escrever um comentário.

Termo de Responsabilidade

Todo o conteúdo desta página é de inteira responsabilidade do usuário. O Stoa, assim como a Universidade de São Paulo, não necessariamente corroboram as opiniões aqui contidas.