Stoa :: Andre Machado Rodrigues :: Blog :: Conversas de bar

novembro 11, 2009

default user icon

Uma das coisas mais surpreendentes da vida e que damos pouco valor é a corriqueira e banal conversa de bar. O bar assim como suas conversas é onipresente, podemos tentar nos esconder, fugir, mudar, mas onde formos lá estará eles o bar e suas conversas. Há muito tempo masculinizadas, hoje, principalmente nos grandes centros, credita de uma democracia assombrosa. Que a meu ver merecem meticulosos estudos.

 

A temporalidade do bar é outra, diversa daquela que encontramos nos lares, no trabalho, nas igrejas. Não há momento mais oportuno que o agora. A qualquer momento se desenrola qualquer conversa sobre qualquer coisa. Não há espera desnecessária apenas prontidão e acolhimento.

 

Nessas conversas, política, religião, sexualidade e futebol se alternam enquanto temática e em diversos momentos se fundem formando um novo mundo mítico, que se desfaz com a mesma velocidade com que se criou. Assuntos velados nas conversas familiares, proibidas no trabalho e heresias na religião, ganham vida e pertinência nessas conversas. O garçom treina sua psicanálise e cria peças de direito de família. Nessas conversas todos somos especialistas de assuntos gerais. Falamos com franqueza e com espontaneidade pueril. Qualquer problema, com meia palavra, se desdobra em pranto de tragédia ou comédia pastelão. Até a mais ardilosa traição ganha cadência de humor e a inocente piada pode ganhar pesar existencial. Não há regra e não há lei. Até a mais consolidada das leis físicas são subvertidas e aceitas, as leis do direito são criadas a cada momento e revogadas a cada momento posterior. O único compromisso que se estabelece é o de viver aqueles istantes. Nem mesmo o compromisso da manutenção da conversa se faz presente.

 

A bebida é elemento importante, mas não é ela quem fornece os objetivos nem as regras do jogo. Nessas argumentações já não existe o desejo de ganhar, de estar certo de ser verdadeiro. Existe um descompromisso em convencer o outro. Podemos ser a favor da legalização da maconha sem sermos presos, podemos deixar de torcer para aquele time ou mesmo deixar de gostar de futebol.

 

Ao fim da conversa nos levantamos e vamos embora, como algo que nunca existiu. Resta apenas uma vaga lembrança dos argumentos dos sentimentos, restam coisas importantes e marcantes, mas insuficientes para mudar nossa vida.

 

Essas conversas tão marginalizadas e esquecidas são um oasis no deserto de trabalhar, estudar, correr, resolver o mundo. Sem romantismos, devemos dar o credito necessário as corriqueiras conversas de bar.

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues | 1 usuário votou. 1 voto

Você deve entrar no sistema para escrever um comentário.

Termo de Responsabilidade

Todo o conteúdo desta página é de inteira responsabilidade do usuário. O Stoa, assim como a Universidade de São Paulo, não necessariamente corroboram as opiniões aqui contidas.