Stoa :: Andre Machado Rodrigues :: Blog :: Sonhos de outono – Jon Fosse

novembro 10, 2009

default user icon

Em um sábado desses, para ser mais preciso o último sábado, decidi vencer meus maiores inimigos, que por inúmeras vezes me impediam de sair de casa e ir ao teatro. A crença de que sou a pessoa mais atarefada do mundo já me impediu de desfrutar os mais furtivos momentos de lazer e sempre que o fazia me sentia culpado, culpado por não estar trabalhando nas coisas que acredito serem importantes. O segundo inimigo e não menos importante, a preguiça, serve como amarra, que me prende a minha zona de conforto. Vencer o transito, a distância, a insegurança e o desconforto, dentre outras coisas, é um desafio permanentemente imposto a minha cotidianidade.

 

Primeiro fui ao Teatro Popular do Sesi, assim que cheguei ao estacionamento fui informado que os ingressos se esgotaram. Sem pensar duas vezes manobrei o carro e fui rumo ao Sesc na avenida Paulista, algumas quadras a frente. Para minha surpresa os ingressos para as próximas peças também já estavam esgotados. Efeito provocado pelo calor quase insuportável, que impedia qualquer um que tinha juízo de ficar em casa. Lá mesmo comprei os ingressos para assistir a uma peça intitulada “Sonhos de outono”. A única que ainda deixava sobrar ingressos no Sesc consolação. Inicialmente me veio à mente uma paródia melodramática de Shakespeare, imagem criada por minha mente fraca que já não suportaria desconsolos de novela das oito.

 

Grata surpresa! O único cenário disponível para a interação dos personagens, era um cemitério. Nada medonho ou deprimente, ao contrário um cemitério que poderia ser muito bem substituído por uma mesa de bar ou uma sala de estar domingueira, a menos é claro de seu necessário ar funesto que pouco a pouco trançava os personagens e inflava de sentido os diálogos sempre pareados. Ao contrário das obras existenciais, sempre como um soco no estomago, com que tenho me deparado esta peça do dramaturgo norueguês Jon Fosse colocou na espera da morte as mais corriqueiras conversas.

 

Breves encontros entre os personagens, que se aguardavam funerais de parentes e depois dos próprios personagens propiciava a inserção de questões e de escolhas pessoais. O devir de alguns personagens que sempre, a sombra da morte, tomavam decisões e (des)deisões.

 

Esta peça, ao menos como a vejo, ilustra bem a presença contínua e não extraordinária da morte. Apesar da tristeza e apesar dos pesares, está sempre presente e sempre a estreita. Não como uma serpente ardia, mas como uma flor de lapela, que procuramos manter sempre por perto. Sempre nos lembrará de nossa mortalidade e sempre nos obrigará a repensar, mesmo que sutilmente, os rumos e sentidos desta vida. Não como um estudo racional e extraordinário destes sentidos, mas como um mergulho vertiginoso na experiência.

 

Esta tarefa de colocar em cada ação, em cada pensamento em cada respirar uma decisão existencial que se “aproxima da morte” é um desafio que Jon Fosse tentou colocar de maneira suave, e não por isso menos contundente.

 

Desta maneira recomendo uma apreciação atenta desta peça. Para que possamos aprender a saborear a vida.

Palavras-chave: existencialismo, morte, Política, teatro

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues

Você deve entrar no sistema para escrever um comentário.

Termo de Responsabilidade

Todo o conteúdo desta página é de inteira responsabilidade do usuário. O Stoa, assim como a Universidade de São Paulo, não necessariamente corroboram as opiniões aqui contidas.