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novembro 03, 2009

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Este texto tem a intenção de subverter alguns princípios que servem como pedra angular para aqueles que se aventuram no campo da pesquisa em educação, humanidades, e por que não dizer, para aqueles que se aventuram a pesquisar o mundo. Em minha aventura, ou planejamento dela, esbarrei em duas questões que julgo importantes. Ambas com suas bases ontológicas, epistemológicas e axiológicas específicas, ou seja, estas questões estão transversalmente ao conteúdo e ações da pesquisa. Se acreditasse no “método” diria que são concernentes a ele.

 

A primeira questão está em moldar o problema de pesquisa tornando-o factível e público, sem rendê-lo à “burocratização acadêmica”, sem perder sua vitalidade e visceralidade. Poderíamos dizer que a paixão no casamento não dura para sempre, minada e domesticada pela rotina cotidiana. Entretanto entrar em um casamento prescindindo da paixão é aceitá-lo como natimorto é, em termos populares, embarcar em uma canoa furada. Este deve ser e permanecer como um problema pessoal, não um problema privado ou individualizado, mas personalizado. Um problema permanentemente encharcado de pessoalidade.  Quero dizer que este problema não precisa ficar subjugado ao tangível, mas deve atingir de forma aguda nossa pessoalidade.

 

Por inúmeras vezes nos vemos tentados a abandonar as grandes questões que nos afligem em nome das questões de outrem. Abandonar em nome de esquemas pré-determinados. Abandonar em nome das bolsas, publicações e um eventual “poder”. Colocamos nossa pesquisa e problemas em um circulo alienante, desvitalizamos as questões e extirpamos seus sentidos. A questão que se coloca ao pesquisador desde o início está em como tornar seu problema factível mantendo uma relação intima com o pesquisador. É imprescindível ao pesquisador ver seu problema social e amplo ainda como seu problema. Neste sentido é ilegítimo alegar-se refém.

 

Isto nos leva a segunda questão: como investigar e como conheço meu objeto? Infelizmente a maior parte das pesquisas em educação, em especial na educação científica, carregam um ranço indesejável das pesquisas em física, ou das ciências “chamadas hard”. Baseado principalmente em um realismo ingênuo, estas metodologias de pesquisas cartesianas se infiltraram, corroendo por dentro as tentativas de entender o mundo. A mais nociva dentre elas é a separação entre observador e objeto. Este distanciamento e imparcialidade buscada pelo pesquisador é um projeto falido de início, cega o pesquisador sobre seu próprio posicionamento em relação ao mundo.

 

O pesquisador deve abandonar a busca pela imparcialidade e se assumir como parcial. Assumir a parcialidade não como um mal de que deve ser superado, mas como uma propriedade intrínseca do sistema, intrínseca do viver no mundo e de conhecer o mundo. Só ai encontramos a superação do ilusório distanciamento sujeito e objeto.

 

O próprio pesquisador se coloca como sujeito/objeto da pesquisa, assim a pesquisa em ciência, educação e humanidades nunca se desvincula do fazer ciência e das escolhas éticas que estas implicam. A pesquisa e o pesquisador enquanto ser ético se implicam mutuamente. É neste âmbito que ganha sentido perguntar: fazer ciência para que? Por que fazer esta pesquisa?

 

Perguntas veladas e caladas na academia ganham corpo e passam a assombrar ou a impulsionar o pesquisador.

Palavras-chave: Educação, epstemologia, investigação, pesquisa

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues

Comentários

  1. Ewout ter Haar escreveu:

    Entendo que quer explicar o seu ponto fazendo uma oposição ao seu complementar, mas a sua visão de que é pesquisa em Física é ingênuo e na maioria dos casos que conheço, falso. 

    Primeiro, não existe um tipo de pesquisa feito por físicos ou cientistas da natureza. Tentando caracterizar as ciências da natureza como tendo um único metodologia na verdade é justamente cair no erro do que está acusando os supostos cientistas "hard". É muito difícil publicar fora da sua área, justamente porque demora entender não somente as convenções de publicação (por exemplo, o dedutivo hipótese-modelo-análise na Física vs o indutivo, métodos-resultados-análise nas ciências biológicas) mas também os reais diferenças metodológicas de cada área. Há uma multiplicidade enorme de abordagens, métodos, maneiras de avaliar "resultados" e sobretudo uma luta contínua sobre o que está "dentro" (válido para bolsas, prestígio etc.) e o que está "fora" (não merece estar na universidade e muito menos no meu departamento).

    Segundo, é verdade que um cientista (físico, biólogo) no seu dia a dia deve ter uma visão um pouco mais "realista" e consegue se distanciar mais do seu objeto do estudo do que um, digamos, economista. Mas acha realmente que ignoram a interação recíproca entre modelo e tomada de dados? Pessoalmente, acredito que cientistas tem uma noção bem boa sobre como e porque o que fazem funciona e quais são os limitações das suas abordagens. Mas se isto é verdade ou não é uma questão empírica: não pode simplesmente afirmar que todos os cientistas acreditam que ciência é feito hoje exatamente como era século 17.

    Pode ser que existem cientístas ingênuas. Tenho certeza que existem cientistias completamente incompetentes em qualquer campo fora da sua área de atução. Mas não reconheço o seu homen de palha como sendo típico entre os meus colegas, quando atuam nas suas áreas pelo menos.

    Ewout ter HaarEwout ter Haar ‒ terça, 03 novembro 2009, 13:29 -02 # Link |

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