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setembro 23, 2009

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Obviamente não podemos reduzir toda a ação socialista à dois modos, reformistas e revolucionário. Assim reconheço que a ação e reflexão da transformação devem existir em um espectro contínuo que têm como limite a reforma e a revolução. Em outros termos poderíamos dizer que esta é a diferença essencial entre o “velho comunista” e o “comunista velho”, não necessariamente nesta ordem.

 

O reformista se distância do vigor da juventude na mesma proporção que se aproxima das desilusões da maturidade. Cansado de esperar grandes e rápidas mudanças, ele aposta na progressiva remedição. Aplaude com entusiasmos e considera como ganho as mais paliativas das soluções, qualquer passo para frente passa a ser um passo importante, não importa como e não importa quanto. Os reformistas formam a grade massa daqueles que pretendem provocar mudanças. Eles têm uma sabia paciência e desde cedo sabem que não verão as mudanças ocorrem em seu tempo, tentam desta maneira conservar uma esperança quase que espiritual, que transcenda sua existência e a existência de suas ações. Ele é assim caracterizado como o “comunista velho”.

 

Já o revolucionário esta imbuído de outro animo, outro espírito. Ele vê em suas ações o real potencial de mudança. Pretende e busca sempre mudanças essenciais, negando qualquer transformação superficial. Mesmo que tropece em seus próprios passos este pretende caminhar a largos. A efervescia de suas aspirações sempre se confronta com a morosidade mundana e sempre tem como produto a decepção. Os revolucionários são sempre o mínimo possível e nunca deixa se confundir na multidão. O que o torna revolucionário – e por vezes excêntrico – é justamente o que inviabiliza sua revolução. Pode ser chamado de o “velho comunista”.

 

Os revolucionários e reformistas, apesar de não compartilharem suas posições na vida, por vezes se ajudam, mas apenas por vezes. O reformista, por mais que queira transformar não pretende transformar demais, por isso nunca rompe com a lógica anterior. Não sabe ele o poder reacionário, reprodutivo e estabilizador do pensamento hegemônico, não sabe ele que sempre faz carinhos em um leão. Já o revolucionário sempre espera o momento da revolução, espera, espera, espera. O momento perfeito nunca vêm, e ao revolucionário só resta esperar a revolução, o levante revolucionário que está para além de sua própria ação. Isso é o que faz se confundir o pensamento revolucionário com o pensamento utópico.

 

Exposto isso, podemos nos perguntar onde há alternativa? Será que existe a paulatina revolução, que ocorre por meio de revoluções locais e atingem a todos depois de longo tempo? Será que existe reforma global, podemos reformar a lógica essencial do sistema? Creio que estas questões só podem ser feitas por aqueles que buscam de alguma forma a transformação. Para aqueles que, entregues ao fatalismo liberal, os tão resignados que se conformam em fazer parte de algo, mesmo que seja fazer parte de sua própria exclusão. A estes resta lamentar.

 

Essas escolhas, entre o que reformo e o que revoluciono, são as mais difíceis para aqueles que decidem transformar. Mas são ao mesmo tempo as escolhas mais essenciais no processo de transformação, que me coloca perante aquilo que mudo. Quando quero mudar a escola ou a política, minha ação nela e com ela devem ser ações claras, de reforma ou de revolução, não como um dualismo irreconciliável, mas como formas de minha própria consciência. Essa é a escolha que vivo hoje, e que pretendo viver por muito tempo, enquanto houver esperança de transformar.

Palavras-chave: pensamento hegêmonico, Política, reforma, revolução, sistema

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues | 1 usuário votou. 1 voto

Comentários

  1. Alexandre Hannud Abdo escreveu:

    Oi Andre,

    Interessante essa questão de ultrapassar o dualismo, até porque, concretamente, é difícil ver uma coisa acontecer sem a outra.

    Acho que facilita, para tratar do assunto, separar a transformação das condições e expectativas na população da transformação nas estruturas de poder.

    Elas são dependentes mas nem sempre caminham juntas, e muitas vezes requerem abordagens diferentes.

    De fato o que chama de "revolução", pelo que talvez queira implicar algum tipo de luta armada, só ocorre se cria-se um enorme descompasso entre as duas, por transformações de uma ou ambas.

    Assim, estrategicamente, sequer faz sentido essa distinção entre "revolução" e uma reforma contínua. O indivíduo que faz essa escolha a priori não busca nada.

    Pois a escolha de estratégia não é de quem quer executar a mudança, mas sim função da reação das estruturas de poder e das condições sociais, e de como estas reagem às tentativas de mudá-las.

    Assim, pode até ser que mudanças contínuas causem uma "revolução", como pode ser que mudanças bruscas a tornem evitável.

    O "revolucionário" e o "reformista", mesmo assumindo que faça sentido tal classificação, são apenas estratégias num momento e contexto e não opções do indivíduo. Não tem assim sentido utilizá-la de base para convicções individuais, ou pior ainda, dizer que é preciso definir-se de um lado ou de outro.

    Existe, é claro, quem queira "evangelizar" as pessoas para ambos os lados, romantizando a situação, e cabe a nós estar atentos para quando o maior erro é fazer uma escolha a priori, sem dar a devida atenção à realidade e especialmente à nossa ignorância.

    Só não acho, mesmo nos extremos, que uma coisa seja "de velho" e a outra seja "velha", pois há sempre "mil maneiras de fazer Neston" e esse tipo de rótulo romântico pode atrapalhar um pouco as pessoas a se desenquadrarem. Mas, por outro lado, é ilustrativo.

    Um abraço,

    abdo

    ~Ni!~

    Alexandre Hannud AbdoAlexandre Hannud Abdo ‒ quinta, 24 setembro 2009, 20:51 -03 # Link |

  2. Oda escreveu:

    Ae Abdo! Belo discurso reformista!

    Brincadeiras a parte, acho que o Andre nao ta dizendo que uma postura eh melhor que a outra. E nem que se deva adotar uma das estrategias puramente ou mesmo que uma delas faca sentido. Mas que apenas que, se vc quer que as coisas mudem, entao vc precisa escolher entre as duas. Explico.

    Penso que esses dois conjuntos sao uma particaoda esquerda: ou vc eh revolucionario ou reformista. Nao tem meio termo - peco desculpas aos humanistas por um pensamento tao dicotomico, linear, cartesiano e nada transparadigmatico :D

    Exemplo tosco: invadem a reitoria. Isso nao eh reformista ou revolucionario, eh apenas um monte de gente doida querendo forcar um debate.

    Durante a invasao, uns querem negociar, ceder em alguns pontos e depois ir para casa satisfeito de ter ter um pequeno aumento e mais um ou dois beneficios. Outros querem depor o reitor e passar, eles mesmos, a controlar a universidade, decidindo tudo em assembleia e sem que nenhum deles - e todos ao mesmo tempo - seja donos da universidade.

    Os primeiros sao os reformistas. Nao querem saber desse papo de luta armada e so querem que as coisas melhorem gradativamente. Muitos deles - nao todos - sao velhos, ex-revolucionario com o saco na garganta de levar porrada. Em geral ja estao mais conscientes de que, para uma revolucao de verdade acontecer, muita coisa precisaria mudar. Entao que va mudando, afinal, dos males, o menor.

    Os demais sao revolucionarios. E a hora eh agora!!! Afinal, se eles comecarem, todo mundo vai aderir. E pode mandar choque, bope, exercito, marinhas e mercenarios que eles vao resistir bravamente ate o final. E, de quebra, vao sequestrar o Fernando Henrique (pq nao da para sequestrar o Lula, afinal ele eh bacana  - apesar de reformista - nem o Sarney e muito menos o Collor - afinal eles sao colegas do camarada molusco). E nesse sentido sao romaticos, sonhadores e acham que tudo vai dar certo...Por isso sao velhos e ultrapassados. Mas logo eles vao ler o proximo capitulo do livro e ver que a coisa nao eh bem assim. Mas sabe como eh... Ainda estao no 1o. ano...

    Mas no fundo, todos querem eh que as coisas mudem e para melhor (em algum sentido que ainda nao compreendi). Entao todos tem o seu dia de reformista - o dia de defender o bolsa familia - e o seu dia de revolucionario - que em geral eh no 5o. dia de cada mes.

    O negocio eh que se tem poucas oportunidades de escolher como quer tentar fazer mudar o mundo: dia de eleicao, dia de passeata, dia de invasao da reitoria, dia de bomba no planalto... E a pergunta que vc se faz eh: "E ai? Sera que ajudo a fazer o circo pegar fogo?"

     

    OdaOda ‒ sexta, 25 setembro 2009, 00:37 -03 # Link |

  3. Alexandre Hannud Abdo escreveu:

    Oda, eu não discordei do Andre em nada exceto no meu último parágrafo onde critico apenas uma terminologia.

    Penso ter apenas apresentado um mecanismo do que ele descrevia, em termos do conceito de estratégia e de um parâmetro que ele não havia abordado, a distância entre povo e governo.

    Você é que introduziu algo que eu não consigo dizer, do texto do Andre, se ele concorda:

    Penso que esses dois conjuntos sao uma particaoda esquerda: ou vc eh revolucionario ou reformista

    Essa idéia de que "uns SÃO assim, outro SÃO assado", pelo que entendi, ele critica no texto.

    E você mesmo parece discordar ao dizer:

    Entao todos tem o seu dia de reformista - o dia de defender o bolsa familia - e o seu dia de revolucionario - que em geral eh no 5o. dia de cada mes.

    Isto é, você está viajando na maionese :)

    Mas, deixemos o Andre se pronunciar... hahaha

    Abs!

    abdo

    ~~

    Alexandre Hannud AbdoAlexandre Hannud Abdo ‒ sexta, 25 setembro 2009, 01:41 -03 # Link |

  4. Oda escreveu:

    bom, entao nao entendi porra nenhuma do que vc escreveu...sabe como eh, texto de doutor eh mais sofisticado ;)

    Com relacao a:

    Você é que introduziu algo que eu não consigo dizer, do texto do Andre, se ele concorda:

    Penso que esses dois conjuntos sao uma particaoda esquerda: ou vc eh revolucionario ou reformista


    ok, faltou rigor: dado um instante de tempo, eh uma particao. conjectura: dado dois instantes de tempo, a diferenca entre o conjunto dos revolucionarios em cada instante tem medida nula. idem para a dos reformistas.

    mas entao ta bom, parece que concordamos, a menos de um monte de bobagem que eu escrevi e do fato de eu gostar do papo do velho.

    a melhor parte eh que: bla bla bla da esquerda, mas eu continuo no time adversario.

    o que eu diria agora descobri ainda hoje que um sacana ja me roubou as palavras (provavelmente antes de eu nascer) e pior que fez bem feito: "O homem só é feliz pelo supérfluo. No comunismo, só se tem o essencial. Que coisa abominável e ridícula!" - um tal de Nelson Rodrigues.

    e viva a minha Cheroka! O|||||||O

     

    OdaOda ‒ sexta, 25 setembro 2009, 02:27 -03 # Link |

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