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setembro 02, 2009

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Uma leitura tardia em minha própria história, talvez não tivesse maturidade para tê-la tomado antes. Com certeza muitas coisas não teria compreendido e deixaria passar mais coisas que agora. Não posso dizer que foi a leitura mais simples e fácil que já realizei, mas com certeza uma das mais interessantes.

 

Inicialmente os autores fazem duras críticas ao idealismo de Hegel, que em seu delírio, cria o “Homem”, um homem em geral, um homem ideal. Neste sentido, inviabiliza o entendimento da História como expressão concreta de um homem particular, neste caso o alemão. E desliga o Homem do mundo e de suas condições materiais. Por outro lado, também não deixa passar ilesa os materialismos imóveis e estratificados, que amordaça pelo ingênuo naturalismo. Transformam assim a História em uma mera coleção de fatos de um empirismo vazio.

 

Neste sentido declara sobre a real liberdade, que não pode estar separa de suas condições materiais. Assim a liberdade não pode ser encontrada apenas no plano das idéias, mas deve estar presente nas condições mundanas do homem, no trabalho que este realiza e nas condições deste trabalho e das circunstâncias de sua vida material.

 

Mostra pelo desenvolvimento das relações de trabalho que a História humana não reside nas vontades individuais de soberanos e políticos, a História humana é antes uma história dos meios de produção, que possibilitam ou não determinada forma de vida.

 

Mostra também como a História da propriedade privada esta imbricada à História da divisão do trabalho. Com isso consegue relacionar como mesmo a ciência, que para os cientistas se mostra independente de qualquer ação humana em um contato mais ou menos direto com a natureza, se subordina ao meios de produção e as condições materiais de uma época determinada. Tornando-se na sociedade capitalista a mercadoria.

 

Posso destacar dois trecho representativos de um amplo trabalho de reflexão e observação que Marx & Engels se propuseram neste texto.

 

“Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência” (p. 26).

 

Esta frase tomada isoladamente pode promover mais polemicas que esclarecimentos. Mas é nesta inversão essencial da consciência e da História humana que possibilitou o desenvolvimento frutífero das pesquisas soviéticas no inicio do século XX, como as obras de Bakhtin, Voloshinov, Vigotski, Leontiev dentre outros. Inversão sem precedentes na filosofia que permitiram compreender diversos fenômenos sociais, psicológicos, lingüísticos e econômicos.

 

A segunda trecho que considero importante notar é:

 

“Os indivíduos partiram sempre de si, mas naturalmente, de si no quadro das suas condições e relações históricas dadas, não do individuo ‘puro’ no sentido dos ideólogos” (p. 92).

 

Isto mina as buscas inconseqüentes promovidas na sociologia, educação, psicologia e nas diversas áreas que criaram para si indivíduos puros e ideais, e desenvolveram infinidades de teorias que nunca seriam capazes de se religar ao mundo real ou ao homem real.

 

Atribuo em parte a isso o isolamento e encapsulação dos conteúdos escolares, que foram feitos para um homem existente apenas no imaginários de seus criadores. O que mais para frente poderemos chamar de atividade alienada.

 

Recomendo essa leitura aos educadores, que realmente estão dispostos a repensar sua própria concepção de homem. Por traz da ação pedagógica, seja ela qual for, reside uma concepção antropológica. Para compreender suas escolhas pedagógicas, e escolhas na vida, é importante revisitar sua compreensão de homem, sem a qual nem mesmo a ação seria possível.

MARX, K. & ENGELS, F. A ideologia alemã: Teses sobre Feuerbach. São Paulo: Centauro Editora, 2006.

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues

Comentários

  1. Ewout ter Haar escreveu:

    Foi só no sexta parágrafo que me dei conta que estava falando sobre um livro de Marx e Engels.  As "Teses sobre Feuerbach" (Wikipedia) estão online. Acho que o mais famoso é o número 11

    Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.

    Gosto muito dos seus textos, mas sinto falta de links para outros lugar na Web, inserindo-os na conversa e dando contexto.

    Ewout ter HaarEwout ter Haar ‒ quarta, 02 setembro 2009, 11:29 BRT # Link |

  2. André Rodrigues escreveu:

    Oi Ewout,

    concordo com você, vou tentar contextualizar melhor os próximos textos ...

    sobre a transformação ainda é uma questão que procuro responder, acho que ajuda se pensarmos que de fato o mundo já esta sendo constantemente transformado, assim nosso trabalho não seria o de transforma-lo, mas oientar suas incessantes transformações - isso redireciona nossos esforços.

    Antes, creio que devemos pensar em para que direção levariamos o mundo.

    Andre Machado RodriguesAndré Rodrigues ‒ quarta, 02 setembro 2009, 13:32 BRT # Link |

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