Stoa :: Andre Machado Rodrigues :: Blog :: A meritocracia educacional – A atividade do professor

agosto 17, 2009

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Apesar da meritocracia educacional estar presente na relação entre professores e estudantes, ela também é assustadoramente utilizada para orquestrar a prática dos professores. Por traz de um plano de carreira manco sempre se esconde a mais perversa forma de meritocracia. Como se sabe, e isso passa longe de uma mera lamentação, os salários docentes no sistema de educação pública neste país são indecentes, fazem com que bons profissionais se afastem desta área. A maior parte dos formados em licenciatura em física trabalham nos mais diversos setores da sociedade, menos na educação. E quem pode culpá-los?

 

Dos bons profissionais que restam, alguns poucos sobreviventes, são submetidos a uma barata técnica de eficiência corporativa, baseada na mais mequetrefe psicologia comportamentalista. Fazem uma pilhagem nos salários e benefícios, reduzem a pó as condições da prática docente, superlotam as salas de aulas, despem-no de qualquer recurso material, chamam-no de baderneiro ao primeiro sinal de reivindicação. Atrofiam a educação básica, e o pior fazem tudo isso parecer normal. “É assim mesmo, não há o que fazer” dizem os políticos, os professores, os alunos e o cidadão.

 

Depois de tudo isso, depois de décadas de imoralidades, jogam migalhas, para que os já cansados profissionais da educação possam correr atrás de uma maratona eleitoreira. Usam e abusam da meritocracia educacional, para conter e controlar os professores fazendo-os correr um percurso que não é só deles.

 

Premiar os mais eficientes em um cenário tão crítico pode ser um “tiro no pé”. Diversas coisas não desejadas devem ocorrer. A competição exacerbada daqueles que não podem competir. Ver no outro docente um inimigo potencial torna-se nocivo, fragmentada na competição e na busca por um sucesso individual que não necessariamente se reflete na melhoria do sistema. Pode ainda tornar-se paralisante e desmotivador na medida em que nem todos ganham prêmios e na medida em que nem todos ganham condições de competir. E por fim se a meritocracia educacional se mantém e se sustenta por muito tempo, cria um fosso gigantesco entre os profissionais que são muito bem remunerados e profissionais que são pessimamente remunerados. Um sistema com dois pólos tão rígidos e determinados colapsa e tem seu majorante muito baixo do necessário.

 

A educação como atividade profissional é inexoravelmente uma atividade colaborativa. A cooperação é a base para qualquer prática educativa, é base para qualquer prática docente. A abolição da meritocracia educacional é necessária para que se abra espaço para outras reflexões. Reflexões ainda não sufocadas pela adrenalina da competição.

 

Não há panacéia para a educação. Existem sim, muitas reflexões, discussões e ações coordenadas, das quais eu, particularmente, excluiria a meritocracia educacional, e qualquer tentativa de amesquinhar e desumanizar a educação.

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues | 1 usuário votou. 1 voto

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