Stoa :: Andre Machado Rodrigues :: Blog :: A meritocracia educacional – Estudante vs Professor

agosto 11, 2009

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Diversas perguntam perturbam e devem perturbar a educação desde seu surgimento. As respostas são tão diversas quanto às perguntas, e passam por uma questão-resposta importante, a meritocracia educacional. Hoje a meritocracia educacional, já institucionalizada e generalizada para as diversas instancias educacionais, é uma questão que deve ser discutida constantemente e nunca desaparecer do espírito daqueles que nela estão envolvidos, seja como estudante, professor ou gestor, ou ainda como cidadão.

 

É quase impossível de se pensar na educação de massa atual sem prensarmos conjuminadamente na forma de meritocracia que ela engendra. A mais visível esta na relação entre professor aluno, uma relação complexa que envolve expectativas, regras, práticas. Uma relação que cria um mecanismo de auto-regulação ao qual chamamos de “nota”, uma manifestação particular e concreta da meritocracia educacional.

 

No primeiro encontro entre professor e aluno, é quase inevitável a hostilidade, já que o professor detém algo que o estudante deseja e lhe é necessário para que tenha bom emprego, dinheiro, sucesso, sem falar na aprovação paterna. E o professor lhe colocará obstáculos para que não possa alcançar facilmente esta nota. Também aparece como função do professor a de avaliar o desempenho do estudante ao lhe colocar determinados obstáculo. A rivalidade, neste sistema, torna-se inevitável já que o professor têm algo que o aluno quer.

Com isso a atividade do estudante não é dirigida ao estudo e sim a nota. Com esse redirecionamento da atividade estudantil, torna-se legitimo ao estudante, “colar”. Obter notas satisfatórias deixa de estar necessariamente relacionado ao aprender. “Colar”, bajular dentre outras estratégias para a obtenção de nota, não são senão produtos deste sistema estabelecido, em uma micro-análise, entre professor e aluno. Quanto mais tolhido está o estudante do prazer de estudar, menos sua atividade está relacionada ao estudar, e mais apegada à nota. Assim o estudo é encarado como o remédio amargo que deve ser tomado para se obter ao fim de tudo dinheiro, sucesso, carreira, aprovação.  A atividade de estudar em si, nunca ganha sentido e sempre se encontra na tortuosa tarefa de vencer o professor.

 

Antes de serem parceiros, professor e aluno são adversários, e estabelecem então um dinâmica de trabalho competitiva. Assim, quando muitos estudantes tiram boas notas, está atestada a incompetência do professor. De um professor que não se mostrou um adversário a altura, e se martiriza, sabota, escarneia, vale de diversos meios para ganhar essa competição. Quanto mais expressiva a meritocracia maior a competição, mais esvanecida encontra-se a relação do aluno com o estudar.

 

Achar a beleza no estudar, recobrar o prazer do aprender. A tarefa conjunta de dar sentido ao ensinar-aprender é o que une professor e aluno. Não advogo em nome da não avaliação, não advogo contra a nota. Advogo em nome da curiosidade, prazer e beleza de interagir, estudar, aprender. Quando o sistema educacional se esgota de beleza resta apenas uma sórdida e atropelada meritocracia educacional. O estudante não fará nada que não valha nota e o professor não valora nada a não ser pela nota.

A “economia” desoladora que tem como única ferramenta a meritocracia, isola o sujeito de sua atividade educativa, a desvitaliza. A atividade estudantil, que tem essa base, será sempre para o estudante uma atividade alienada.

Este post é Domínio Público.

Postado por Andre Machado Rodrigues | 1 usuário votou. 1 voto

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  1. Tentando entender a Enade (Ewout ter Haar)

Comentários

  1. Flavio Fabricio escreveu:

    Achei muito legal o que vc disse... pretendo começar a fazer a licenciatura no ano que vem e gostaria de saber qual seria então, uma alternativa para diminuir essa competição...

    Sei que deve até ser ilusória para a maioria das escolas adotarem uma outra forma de avaliação que não a meritocracia... mas qual seria, na sua opinião, uma melhor maneira de avaliar o aluno...

    Flávio FabrícioFlavio Fabricio ‒ terça, 11 agosto 2009, 12:47 -03 # Link |

  2. Antonio Candido escreveu:

    "With grades students learn to guess the professor's mind and to obey. It is a very sophisticated machinery, whereby the natural desire to learn, the intrinsic motivation to want to learn something because you are interested in the thing itself, is destroyed. Grades are the carrot and stick that shape obedient employees and that prepare students for the higher level indoctrinations of graduate and professional schools. The only way to develop independent thinking in the classroom is to give freedom, to break the power relationship by removing the instrument of power. "

    As palavras acima, do Prof.  Denis Rancourt, não são somente parte de uma teoria pedagógica. Ao colocar em prática esta ideia e não dar notas aos seus alunos (ou dar A para todo mundo), ele provocou o sistema e acabou demitido de seu cargo de professor titular (tenure) na Universidade de Ottawa. Já falei anteriormente sobre este caso no post: Um caso de grave ataque à liberdade acadêmica.

    Antonio C. C. GuimarãesAntonio Candido ‒ terça, 11 agosto 2009, 13:37 -03 # Link |

  3. Catia escreveu:

    Não acho que meritocracia seja tão problemática por conta dessas questões que vc aborda. Digo isso porque existe uma atitude "too cool for school" que vem dos próprios estudantes, o elogio à trapaça, o se dar bem às custas dos outros, o desprezo pelo conhecimento etc. e tal, que envolve outras questões culturais.

    O problema da meritocracia é que mérito é uma coisa subjetiva. Para uma questão matemática ou uma análise sintática existe uma definição do que é certo e do que é errado. Mas para uma série de outras questões não dá para dizer o que é certo ou errado, o que é aceitável e o que é absurdo. No caso da análise literária, o que impede o estudante a fazer um estudo sobre a presença da mosca em Machado de Assis? E pode ser um trabalho muito bom, mas pode ter certeza que vai ter professor achando que isso "não tem nada a ver" e que em Machado vc deve discutir só a ironia e o ciúme. Esse tipo de coisa "poda" a ousadia acadêmica, opta-se por uma análise simplista, uma paráfrase de textos... e tem muito professor que prefere ler paráfrase. 

    CatiaCatia ‒ terça, 11 agosto 2009, 16:36 -03 # Link |

  4. André Rodrigues escreveu:

    Oi Catia, "meritocracia educacional" e avaliação não implicam nem se reduzem uma a outra. A avaliação deve ser feita, a questão que fica é, avaliação do que?

    Tanto professor quanto aluno tem que caminhar para a construção de um conhecimento que humaniza na autonomia. Enquanto houver "simples copismo" ou simples operacionalismo técnico, podemos dizer que o professor finge que ensina, e o aluno finge que aprende.

    Resulta no mar de analfabetos funcionais que temos hoje, ou nos médicos que realizam trafego de orgãos, etc. Esse simples e comodo operacionalismo nos trouxe até aqui e esta nos levando para o buraco!

    Deve pensar é essa sociedade que eu quero? Então, é essa a educação que eu quero?

    Espero que tenha ajudado mais que atrapalhado.

    Andre Machado RodriguesAndré Rodrigues ‒ segunda, 17 agosto 2009, 20:26 -03 # Link |

  5. Felipe Pait escreveu:

    "No primeiro encontro entre professor e aluno, é quase inevitável a hostilidade..." Puxa, não sabia disso! Agora que sei, nunca mais deixo de usar meu colete de Kevlar pelo menos nas primeiras aulas :-)

    Felipe PaitFelipe Pait ‒ terça, 12 janeiro 2010, 17:15 -02 # Link |

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