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Fevereiro 03, 2010

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Em um recente curso oferecido aos professores da rede publica de ensino no estado de São Paulo, do qual participei da elaboração, execução e avaliação, durante o segundo semestre de 2009, inflou em mim uma reflexão que até então se encontrava apenas como semente.

 

Sei que a reflexão sobre o papel da tecnologia na educação é antiga e ultrapassam as fronteiras das experiências conquistadas neste curso, minha intenção aqui não é “reinventar a roda”. Este curso, todo à distância, contava com algumas “ferramentas” que permitiam seu desenvolvimento. O curso contava com: quatro vídeoaulas sobre os conteúdos disciplinares com duração entre 60 e 75 minutos; quatro videoconferências com os professores das vídeoaulas; um fórum em que o professor-cursista deveria obrigatoriamente entrar e enviar mensagens; e um formulário em que registrava os trabalhos ao longo do curso.

 

Uma questão que se impõem para entendermos o desenrolar deste curso em especial o alto indicie de evasão – cerca de 80% de desistência na disciplina de física – está em relação à apropriação destas “ferramentas”. Em outras palavras, isto é ferramenta para quem? Ao desenhar o curso, imaginamos que o professor domina minimamente o uso da internet e/ou dos equipamentos que constituem as condições para o envolvimento no curso. De posse destas “ferramentas” o professor pode – como imaginávamos – se dedicar a estudar os conteúdos disciplinares, neste caso a física.

 

Grande engano! E digo grande por sua extensão, já que atinge diretamente todos os professores-cursistas e por sua recorrência, já que está presente na grande parte dos cursos à distância. Podemos elencar algumas razões que nos ajudariam a aprofundar a discussão. É uma grande ingenuidade imaginar que o professor do ensino médio esta automaticamente confortável com a informática simplesmente por viver na contemporaneidade. Sua presença na vida cotidiana é inegável, mas é algo bem diferente de se apropriar e de gostar de usar. Outro aspecto está no uso da ferramenta especifica. Os fóruns, por exemplo, têm funcionamentos específicos. O fato de já ter usado fóruns anteriormente não é garantia de que o uso deste será auto-evidente. Mesmo que dominemos o uso da ferramenta como no caso do fórum ainda existem outras questões que devem ser analisadas, como por exemplo: quantas vezes devem ser acessadas por semana? Como não ser indelicado ao fazer uma crítica? Como sintetizar as idéias para que possa inserir-las neste ou naquele formato? Em suma, podemos sintetizar em três níveis, mais ou menos, complementares: (i) o domínio da informática geral; (ii) o domínio das ferramentas específicas e (iii)  a apropriação cultural desta tecnologia.

 

Negligenciar estes aspectos no desenho do curso faz com que a tecnologia deixe de ser ferramenta e passe a ser objeto de estudo. Os conteúdos disciplinares vagam no plano de fundo. Este curso deixa de ser um curso de física em que se usa a tecnologia para vencer determinadas barreiras e passa a ser um curso da tecnologia em que a física é usada como pretexto. Tanto o primeiro quanto o segundo formato são legítimos. Mas, neste caso em particular, o professor se inscreveu em um curso de física e não de tecnologia. Mesmo que o professor se disponha a aprender sobre a tecnologia, os profissionais contratados para ministrar o curso estão dispostos e sabem ensinar física, não a tecnologia.

 

Isto faz com que, esta questão esteja entre as grandes – não a única – causa da evasão dos professores neste curso à distância. Uma reflexão importante que muitas vezes lhe falta investir o tempo e a atenção necessária. Falta refletir ou aprofundar a reflexão sobre os objetos de estudo e as ferramentas disponíveis para tanto.

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Fevereiro 01, 2010

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“Não sou comunista, podem confiar em mim!” – Esta frase, apesar de não estar explicitamente dita no filme, pode sintetizar uma de suas principais idéias. O filme tem uma função muito clara, mostrar que o nosso presidente nunca teve aspirações comunistas, e correndo o risco de ser demasiadamente genérico poderia dizer que nunca foi de esquerda. O que tornam sua trajetória pessoal e seu governo ainda mais intrigantes.

 

Assistindo o filme a todo o instante tinha a impressão de estar assistindo uma novela global, não só por contar com caras carimbadas da televisão, mas também pela forma com que a história foi contada. Um pout-porri de fatos biográficos nunca suficientemente aprofundados, sempre pintados com um leve tom de cinza claro, o que não permite manchar os personagens com cor alguma. Neste sentido concordo com a crítica feita – the economist – , de uma imagem excessivamente higienizada. O filme vem para consolidar uma imagem a muito cultivada pelo Lula, a de não oferecer perigo algum a ninguém.

 

Apesar disto, me faz pensar no quanto é surpreendente esta história como um todo. Pensar que um operário se tornaria presidente da republica, ainda é um fato difícil de entender. Mais difícil ainda é entender como, em um país extremamente elitista e que procura manter um “estatus quo” preservando o enorme fosso social, este operário consegue se reeleger e terminar seu mandato com os maiores índices de aprovação já vistos. Isto revela um pouco da complexidade da política, economia e social em que este filme está inserido. O que se apresenta como um paradoxo me deixa pessoalmente confuso, não sei se devo gostar ou se devo desgostar. Não sei nem mesmo se existe uma terceira opção.

 

Vejo este fato como andar dois passos para frente, um nordestino, operário e sem curso superior sendo eleito. O que anteriormente o descredenciaria, hoje o torna apito a representar o povo brasileiro. Mostra que avançamos no sentido de derrubar diversos preconceitos. Por outro lado, seu governo se manteve muito preso a medidas paliativas que não vislumbram nenhuma consolidação. A política economia, alvo de grande elogio por toda a imprensa é na verdade o seio de suas contradições, fazendo com que os bancos batam recordes de lucro.  Não chega a tocar nos pontos vitais como o da reforma agrária. Neste sentido andamos um passo para trás. Nesta valsa nem um pouco refinada que é a política nacional vejo que avançamos, mas não o suficiente para que possamos nos alegrar. Não sei se estou sendo muito exigente em relação às ações presidenciais, mas sei que a sociedade ainda aguarda mudanças muito mais profundas do que as que estão ocorrendo hoje.

 

Por fim, não vejo como realizar a crítica deste filme sem tocar na crítica a um governo. Recomendo o filme para que possamos olhar o que de fato está escrito nas entrelinhas. Muitas vezes dito, através do que deixou de dizer. Esta é a oportunidade de exercitar nossa critica que neste filme consegue fundir a crítica política à crítica cinematográfica.

Palavras-chave: Lula, Vídeos

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Dezembro 08, 2009

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Certa vez ouvi de um professor que: quando lemos um texto que nos identificamos, este não faz mais do que dar palavras aquilo que já vínhamos acalentando. Acredito que este texto de Ziraldo sobre Ferreira Gullar é mais uma prova disso. Então cito com prazer.

 

“Me encanto com as palavras do poeta: ‘Ao mesmo tempo o capitalismo é fecundo e criativo. Como a Natureza. É injusto e cruel. Como a Natureza’. E o que é o Socialismo? ‘É a intervenção racional do ser humano neste processo natural.’


Ele propõe diques e regulagens. Em vez de o rio ficar inundando tudo, façamos a represa.
A represa está para o rio como o Socialismo está para o Capitalismo. É a intervenção da razão. O grande problema do Socialismo é que, em tudo, não só na política, a coisa mais difícil é domar o processo da vida, que excede a qualquer teoria.


A proposta do Socialismo, compreendida assim, está acima da possibilidade humana. Nós jamais dominaremos a Natureza. O Homem, porém, não vai desistir por causa disto, não vai deixar de lutar. O Homem é uma invenção dele mesmo. Nós não somos Natureza – pois ela não raciocina –, embora tenhamos uma base natural. E olha o Gullar de novo: ‘Nós inventamos tudo, Deus, as cidades, o teatro, nós vivemos num mundo cultural. A própria Natureza em que vivemos hoje, ainda que não esteja de todo domada, é cultural, modificada, o homem inventou o universo em que vive. A vida não tem sentido mas todo dia nós inventamos um sentido para ela.’


Tentei aqui reproduzir parte do discurso do Gullar, tirando pedaços da entrevista que ele deu para o número de OPasquim21. Ele termina a entrevista dizendo que a grande aventura do homem é esta: inventarmos nós mesmos a cada dia.


Por esta razão, Gullar crê que o sonho não acabou. Quem pensa – ele diz – e é capaz de, pensando, amar o próximo como a si mesmo – esta parte é minha mas o Gullar, é claro, não a nega – tem que ficar atento todo o tempo. Se o Socialismo, que perdeu a batalha do século XX, é a intervenção racional do ser humano na apocalíptica força da Natureza, aqui mencionada, o homem – criador de tudo – há de descobrir o caminho para alcançar, pensando e criando, um mundo justo.


Gullar é um homem cheio de esperança. E porque seu discurso me comoveu profundamente eu, aqui do alto desta tribuna, informo ao mundo que sairei por aí, levando aos gentios a palavra do mestre, bradando aos céus que a esperança não morreu.


Gullar, você é meu profeta e eu vou ser o seu São Paulo.”

 


Ziraldo

Palavras-chave: capitalismo, gullar, Política, socialismo, ziraldo

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Dezembro 07, 2009

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Para aqueles que buscam – por ventura iludidos pelo título – neste texto um resumo do noticiário da manhã que insiste em estampar as “más novas” sobre a educação, recomendo que pare de ler imediatamente. Pare de ler para que sua busca por sanguinolência na educação não sofra nenhuma decepção substancial. Pretendo neste texto refletir sobre a prática do professor em sua atuação mais cotidiana e corriqueira na sala de aula, algo inúmeras vezes esquecido.

 

O professor e falo ao professor de física, mas creio caber a diversos outros casos, é devorado pelo cotidiano e pela convulsão de acontecimentos na sala de aula. Por inúmeras vezes deixa de ver sentido em sua prática e apenas deixa o barco ser levado pela tempestuosa fúria do mar que é a escola contemporânea. Abaixa os punhos e veste a camisa rotulada pelos diversos produtos vendidos na escola. Sua prática deixa de refletir a resistência a um mundo que abomina – e por isso quer mudá-lo – para ser aceitação e passividade diante da mais perversa realidade. Não se desola frente à crueza de sua própria vida, ao contrário se anestesia como todos os outros.

 

Este estado, em que os sujeitos são refém da “vida”, não é privilégio de professores da escola pública, nem mesmo é privilégio dos professores, mas ver quão agudamente este estado está instaurado na educação sinaliza para a permanência de um quadro social mais amplo. O professor se vê como apenas uma peça na avalanche histórica em que se tornou a educação, inflado por um pragmatismo que se miscigena com o descaso e a desesperança, o professor age como um rolo compressor que anda, resolve, faz, trabalho somente na medida em que mantém afastados os fantasmas de suas próprias reflexões.

 

Os professores hoje têm medo de se perguntar sobre o sentido de sua profissão, o sentido da escola, o sentido da educação, o professor assim como muitos outros têm medas da possível, para não dizer quase certa, resposta. Para não encarar de frente suas vidas esvaziadas o professor já não se pergunta mais. Apenas repete o que já vem a séculos sendo feito, assume como verdade o que foi decidido por ela, transforma em obviedade os absurdos e sorri as intransigências. Não vejo como romper com a historicidade da vida escola, mas creio que esta deva estar revitalizada e quando necessário subjugada. 

 

A escola atual já não tem raízes em lugar algum – se é que um dia teve. Não só para os estudantes, mas também para os professores a escola não tem sentido de ser, a escola apenas flutua em alguma esfera extra-corpórea. Isto certamente é crônico, resta-nos saber se é remediável. 

 

Apesar deste texto ter ares de pesar, e ser uma crítica ao zumbi(dismo) que cada dia mais toma conta da educação. Vejo luzes no fim deste túnel. Assim procuro incessantemente brechas nesta armadura, procuro o calcanhar de Aquiles deste imobilismo. Lançar meus alunos e meus professores em suas próprias reflexões fazendo com que conheçam uma parte de si que sempre tiveram medo de olhar. E fazer com que, tanto minhas experiências positivas quanto negativas me sirvam como propulsor nesta busca.

 

Esta transformação nunca é fácil, nunca nos é dada de mão beijada, sempre virá na luta. Uma luta que não se restrinja aos movimentos desesperados na areia movediça e não se restrinja a luta puramente espiritual onde não há comprometimento.

Palavras-chave: educação, Professor

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Novembro 13, 2009

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Ao falar de minhas aspirações e minha busca não poderia deixar de citar Paulo Freire, que tão bem expressou o compromisso estético na formação integral do ser humano, que em suas palavras desenvolvia o sentido vital de ser mais.

 

“Não tenho por que não repetir, nesta carta, que a afirmação segundo a qual a preocupação com o momento estético da linguagem não pode afligir o cientista, mas ao artista, é falsa. Escrever bonito é dever de quem escreve, não importa o quê e sobre o quê. É por isso que me parece fundamentalmente importante, e disto sempre falo para quem trabalha dissertação de mestrado ou tese doutoral que se obrigue, como tarefa a ser rigorosamente cumprida, a leitura de autores de bom gosto. Leitura tão necessária quanto as que tratam diretamente seu tema específico.

 

Exemplos de como jogar esta ou aquela palavra e não outras qualquer num dado momento da escrita, de como manejar as palavras nas relações que travam entre si na organização do discurso, exemplos que vão virando modelos ou quase modelos, sem que isto deva significar que cada sujeito que escreve seu texto não se deva esforçar para ser ela ou ele mesmo, embora marcado ou influenciado por algum modelo.

 

Não sei se você já reparou que, de modo geral, quando alguém é indagado em torno de sua formação profissional, a tendência do perguntado, ao responder, é arrolar suas atividades escolares, enfatizando sua formação acadêmica, seu tempo de experiência na profissão. Dificilmente se leva em consideração, como não rigorosa, a experiência existencial maior. A influência, às vezes, quase imperceptível que recebemos desta ou daquela pessoa com quem convivemos, ou deste ou daquele professor ou professora cuja coerência jamais faltou, como da competência bem-comportada, nada trombeteada, de humilde e séria gente.

 

No fundo, a experiência profissional se dá no corpo da existencial maior. Se gesta nela, por ela é influenciada e sobre ela, em certo momento, se volta influentemente.” (pp. 112-113)

 

É nesta perspectiva que não me limito em minhas leituras e, não permito que por ser físico (ou professor de física, como queiram chamar) não possa opinar, ler, escrever sobre qualquer coisa que seriamente me disponha. É a todo instante colocar a vida cotidiana e a leituras acadêmicas em perspectiva. Nisto apóia minha busca por uma formação integral.

 

FREIRE, P. Cartas a Cristina: Reflexões sobre minha vida e minha práxis. São Paulo: Editora Unesp, 2003.

Palavras-chave: Educação, estética, leituras

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Novembro 12, 2009

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Quase todas, para não dizer todas, as pessoas com quem comento a temática de meu projeto de doutorado, a cerca da alienação e da problematização, prontamente me questionam: O que alienação tem a ver com o ensino de ciências, ou com o ensino de física? Não posso deixar de responder, com a mesma prontidão: A meu ver, tudo!

 

Depois de tantos questionamentos fico aliviado por descobrir que as relações que pretendo construir não são óbvias. Se assim fossem, não haveria necessidade de uma tese para destacá-las, nem investiria um tempo considerável de minha vida neste empreendimento. Então, o fato de não ser uma obviedade funciona para mim como um propulsor e um indicativo de que devo me esforçar, não para torná-las obvias, mas desde cedo tornar as relações entre alienação e o ensino de física as mais claras possíveis. Depois disso é que poderão concordar ou discordar, contribuir e aderir a estas idéias. Esta também não é uma tarefa trivial, pois estas relações não se encontram completamente claras para mim, e não sei se um dia ficarão.

 

Em breve terei à frente uma banca formada por colegas e professores que estimo, e por se colocarem nesta banca como amigos não pouparão esforços, nem palavras, para me fazer claro. Esforço que terá como produto a elucidação das questões centrais do meu projeto. Isso implica em explicar, mesmo que me utilizando de argumentos incipientes, como veja a relação entre a alienação, e devo acrescentar nisto, como vejo o conceito de alienação marxiano ligado ao atual ensino de física. Como treino a esta situação pretendo elaborar alguns textos em que exponho meus principais argumentos e como vejo os desdobramentos destes na prática docente, na escola e no processo de ensino-apredizagem de ciências.

 

O primeiro argumento que não irei explorar aqui em suas conseqüências últimas, pois exigiria mim um esforço filosófico ao qual não disponho de fôlego, está na gênese e na relação essencial entre a física (podemos substituir neste caso por ciência) e o trabalho. Para Engels, e seguidores que se empenharam em refinar este principio, o aparecimento da consciência humana está intimamente relacionada ao aparecimento do trabalho, da ação humana sobre a natureza. Assim o desenvolvimento humano deixa de estar a reboque exclusivo das leis de desenvolvimento biológico e passa a ser influenciado majoritariamente pela cultura. Assim como o trabalho têm em sua gênese a complexa relação entre o homem e a natureza, a física compartilha deste mesmo principio genético.Entender as relações de trabalho, assim como compreender o desenvolvimento e o ensino da física, ambos passam por uma compreensão mais ampla das relações entre homem e natureza.

 

No fundo, este princípio compartilhado se reflete também e de modo semelhante nas relações entre ciência e técnica. A idéia ingênua de que a técnica é sempre produto da ciência e que a finalidade da ciência esta na técnica, ignora o caráter histórico tanto da ciência quanto da técnica.

 

Este princípio apesar de não constituir em si em uma ponte concreta entre a alienação e o ensino de física, servirá de ponto de partida, uma espécie de baliza, para a construção de outros argumentos capazes de relacionar, mesmo que metaforicamente a produção e o consumo no trabalho e na escola.

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Novembro 11, 2009

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Uma das coisas mais surpreendentes da vida e que damos pouco valor é a corriqueira e banal conversa de bar. O bar assim como suas conversas é onipresente, podemos tentar nos esconder, fugir, mudar, mas onde formos lá estará eles o bar e suas conversas. Há muito tempo masculinizadas, hoje, principalmente nos grandes centros, credita de uma democracia assombrosa. Que a meu ver merecem meticulosos estudos.

 

A temporalidade do bar é outra, diversa daquela que encontramos nos lares, no trabalho, nas igrejas. Não há momento mais oportuno que o agora. A qualquer momento se desenrola qualquer conversa sobre qualquer coisa. Não há espera desnecessária apenas prontidão e acolhimento.

 

Nessas conversas, política, religião, sexualidade e futebol se alternam enquanto temática e em diversos momentos se fundem formando um novo mundo mítico, que se desfaz com a mesma velocidade com que se criou. Assuntos velados nas conversas familiares, proibidas no trabalho e heresias na religião, ganham vida e pertinência nessas conversas. O garçom treina sua psicanálise e cria peças de direito de família. Nessas conversas todos somos especialistas de assuntos gerais. Falamos com franqueza e com espontaneidade pueril. Qualquer problema, com meia palavra, se desdobra em pranto de tragédia ou comédia pastelão. Até a mais ardilosa traição ganha cadência de humor e a inocente piada pode ganhar pesar existencial. Não há regra e não há lei. Até a mais consolidada das leis físicas são subvertidas e aceitas, as leis do direito são criadas a cada momento e revogadas a cada momento posterior. O único compromisso que se estabelece é o de viver aqueles istantes. Nem mesmo o compromisso da manutenção da conversa se faz presente.

 

A bebida é elemento importante, mas não é ela quem fornece os objetivos nem as regras do jogo. Nessas argumentações já não existe o desejo de ganhar, de estar certo de ser verdadeiro. Existe um descompromisso em convencer o outro. Podemos ser a favor da legalização da maconha sem sermos presos, podemos deixar de torcer para aquele time ou mesmo deixar de gostar de futebol.

 

Ao fim da conversa nos levantamos e vamos embora, como algo que nunca existiu. Resta apenas uma vaga lembrança dos argumentos dos sentimentos, restam coisas importantes e marcantes, mas insuficientes para mudar nossa vida.

 

Essas conversas tão marginalizadas e esquecidas são um oasis no deserto de trabalhar, estudar, correr, resolver o mundo. Sem romantismos, devemos dar o credito necessário as corriqueiras conversas de bar.

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Novembro 10, 2009

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Em um sábado desses, para ser mais preciso o último sábado, decidi vencer meus maiores inimigos, que por inúmeras vezes me impediam de sair de casa e ir ao teatro. A crença de que sou a pessoa mais atarefada do mundo já me impediu de desfrutar os mais furtivos momentos de lazer e sempre que o fazia me sentia culpado, culpado por não estar trabalhando nas coisas que acredito serem importantes. O segundo inimigo e não menos importante, a preguiça, serve como amarra, que me prende a minha zona de conforto. Vencer o transito, a distância, a insegurança e o desconforto, dentre outras coisas, é um desafio permanentemente imposto a minha cotidianidade.

 

Primeiro fui ao Teatro Popular do Sesi, assim que cheguei ao estacionamento fui informado que os ingressos se esgotaram. Sem pensar duas vezes manobrei o carro e fui rumo ao Sesc na avenida Paulista, algumas quadras a frente. Para minha surpresa os ingressos para as próximas peças também já estavam esgotados. Efeito provocado pelo calor quase insuportável, que impedia qualquer um que tinha juízo de ficar em casa. Lá mesmo comprei os ingressos para assistir a uma peça intitulada “Sonhos de outono”. A única que ainda deixava sobrar ingressos no Sesc consolação. Inicialmente me veio à mente uma paródia melodramática de Shakespeare, imagem criada por minha mente fraca que já não suportaria desconsolos de novela das oito.

 

Grata surpresa! O único cenário disponível para a interação dos personagens, era um cemitério. Nada medonho ou deprimente, ao contrário um cemitério que poderia ser muito bem substituído por uma mesa de bar ou uma sala de estar domingueira, a menos é claro de seu necessário ar funesto que pouco a pouco trançava os personagens e inflava de sentido os diálogos sempre pareados. Ao contrário das obras existenciais, sempre como um soco no estomago, com que tenho me deparado esta peça do dramaturgo norueguês Jon Fosse colocou na espera da morte as mais corriqueiras conversas.

 

Breves encontros entre os personagens, que se aguardavam funerais de parentes e depois dos próprios personagens propiciava a inserção de questões e de escolhas pessoais. O devir de alguns personagens que sempre, a sombra da morte, tomavam decisões e (des)deisões.

 

Esta peça, ao menos como a vejo, ilustra bem a presença contínua e não extraordinária da morte. Apesar da tristeza e apesar dos pesares, está sempre presente e sempre a estreita. Não como uma serpente ardia, mas como uma flor de lapela, que procuramos manter sempre por perto. Sempre nos lembrará de nossa mortalidade e sempre nos obrigará a repensar, mesmo que sutilmente, os rumos e sentidos desta vida. Não como um estudo racional e extraordinário destes sentidos, mas como um mergulho vertiginoso na experiência.

 

Esta tarefa de colocar em cada ação, em cada pensamento em cada respirar uma decisão existencial que se “aproxima da morte” é um desafio que Jon Fosse tentou colocar de maneira suave, e não por isso menos contundente.

 

Desta maneira recomendo uma apreciação atenta desta peça. Para que possamos aprender a saborear a vida.

Palavras-chave: existencialismo, morte, Política, teatro

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Novembro 03, 2009

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Este texto tem a intenção de subverter alguns princípios que servem como pedra angular para aqueles que se aventuram no campo da pesquisa em educação, humanidades, e por que não dizer, para aqueles que se aventuram a pesquisar o mundo. Em minha aventura, ou planejamento dela, esbarrei em duas questões que julgo importantes. Ambas com suas bases ontológicas, epistemológicas e axiológicas específicas, ou seja, estas questões estão transversalmente ao conteúdo e ações da pesquisa. Se acreditasse no “método” diria que são concernentes a ele.

 

A primeira questão está em moldar o problema de pesquisa tornando-o factível e público, sem rendê-lo à “burocratização acadêmica”, sem perder sua vitalidade e visceralidade. Poderíamos dizer que a paixão no casamento não dura para sempre, minada e domesticada pela rotina cotidiana. Entretanto entrar em um casamento prescindindo da paixão é aceitá-lo como natimorto é, em termos populares, embarcar em uma canoa furada. Este deve ser e permanecer como um problema pessoal, não um problema privado ou individualizado, mas personalizado. Um problema permanentemente encharcado de pessoalidade.  Quero dizer que este problema não precisa ficar subjugado ao tangível, mas deve atingir de forma aguda nossa pessoalidade.

 

Por inúmeras vezes nos vemos tentados a abandonar as grandes questões que nos afligem em nome das questões de outrem. Abandonar em nome de esquemas pré-determinados. Abandonar em nome das bolsas, publicações e um eventual “poder”. Colocamos nossa pesquisa e problemas em um circulo alienante, desvitalizamos as questões e extirpamos seus sentidos. A questão que se coloca ao pesquisador desde o início está em como tornar seu problema factível mantendo uma relação intima com o pesquisador. É imprescindível ao pesquisador ver seu problema social e amplo ainda como seu problema. Neste sentido é ilegítimo alegar-se refém.

 

Isto nos leva a segunda questão: como investigar e como conheço meu objeto? Infelizmente a maior parte das pesquisas em educação, em especial na educação científica, carregam um ranço indesejável das pesquisas em física, ou das ciências “chamadas hard”. Baseado principalmente em um realismo ingênuo, estas metodologias de pesquisas cartesianas se infiltraram, corroendo por dentro as tentativas de entender o mundo. A mais nociva dentre elas é a separação entre observador e objeto. Este distanciamento e imparcialidade buscada pelo pesquisador é um projeto falido de início, cega o pesquisador sobre seu próprio posicionamento em relação ao mundo.

 

O pesquisador deve abandonar a busca pela imparcialidade e se assumir como parcial. Assumir a parcialidade não como um mal de que deve ser superado, mas como uma propriedade intrínseca do sistema, intrínseca do viver no mundo e de conhecer o mundo. Só ai encontramos a superação do ilusório distanciamento sujeito e objeto.

 

O próprio pesquisador se coloca como sujeito/objeto da pesquisa, assim a pesquisa em ciência, educação e humanidades nunca se desvincula do fazer ciência e das escolhas éticas que estas implicam. A pesquisa e o pesquisador enquanto ser ético se implicam mutuamente. É neste âmbito que ganha sentido perguntar: fazer ciência para que? Por que fazer esta pesquisa?

 

Perguntas veladas e caladas na academia ganham corpo e passam a assombrar ou a impulsionar o pesquisador.

Palavras-chave: Educação, epstemologia, investigação, pesquisa

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Setembro 23, 2009

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Obviamente não podemos reduzir toda a ação socialista à dois modos, reformistas e revolucionário. Assim reconheço que a ação e reflexão da transformação devem existir em um espectro contínuo que têm como limite a reforma e a revolução. Em outros termos poderíamos dizer que esta é a diferença essencial entre o “velho comunista” e o “comunista velho”, não necessariamente nesta ordem.

 

O reformista se distância do vigor da juventude na mesma proporção que se aproxima das desilusões da maturidade. Cansado de esperar grandes e rápidas mudanças, ele aposta na progressiva remedição. Aplaude com entusiasmos e considera como ganho as mais paliativas das soluções, qualquer passo para frente passa a ser um passo importante, não importa como e não importa quanto. Os reformistas formam a grade massa daqueles que pretendem provocar mudanças. Eles têm uma sabia paciência e desde cedo sabem que não verão as mudanças ocorrem em seu tempo, tentam desta maneira conservar uma esperança quase que espiritual, que transcenda sua existência e a existência de suas ações. Ele é assim caracterizado como o “comunista velho”.

 

Já o revolucionário esta imbuído de outro animo, outro espírito. Ele vê em suas ações o real potencial de mudança. Pretende e busca sempre mudanças essenciais, negando qualquer transformação superficial. Mesmo que tropece em seus próprios passos este pretende caminhar a largos. A efervescia de suas aspirações sempre se confronta com a morosidade mundana e sempre tem como produto a decepção. Os revolucionários são sempre o mínimo possível e nunca deixa se confundir na multidão. O que o torna revolucionário – e por vezes excêntrico – é justamente o que inviabiliza sua revolução. Pode ser chamado de o “velho comunista”.

 

Os revolucionários e reformistas, apesar de não compartilharem suas posições na vida, por vezes se ajudam, mas apenas por vezes. O reformista, por mais que queira transformar não pretende transformar demais, por isso nunca rompe com a lógica anterior. Não sabe ele o poder reacionário, reprodutivo e estabilizador do pensamento hegemônico, não sabe ele que sempre faz carinhos em um leão. Já o revolucionário sempre espera o momento da revolução, espera, espera, espera. O momento perfeito nunca vêm, e ao revolucionário só resta esperar a revolução, o levante revolucionário que está para além de sua própria ação. Isso é o que faz se confundir o pensamento revolucionário com o pensamento utópico.

 

Exposto isso, podemos nos perguntar onde há alternativa? Será que existe a paulatina revolução, que ocorre por meio de revoluções locais e atingem a todos depois de longo tempo? Será que existe reforma global, podemos reformar a lógica essencial do sistema? Creio que estas questões só podem ser feitas por aqueles que buscam de alguma forma a transformação. Para aqueles que, entregues ao fatalismo liberal, os tão resignados que se conformam em fazer parte de algo, mesmo que seja fazer parte de sua própria exclusão. A estes resta lamentar.

 

Essas escolhas, entre o que reformo e o que revoluciono, são as mais difíceis para aqueles que decidem transformar. Mas são ao mesmo tempo as escolhas mais essenciais no processo de transformação, que me coloca perante aquilo que mudo. Quando quero mudar a escola ou a política, minha ação nela e com ela devem ser ações claras, de reforma ou de revolução, não como um dualismo irreconciliável, mas como formas de minha própria consciência. Essa é a escolha que vivo hoje, e que pretendo viver por muito tempo, enquanto houver esperança de transformar.

Palavras-chave: pensamento hegêmonico, Política, reforma, revolução, sistema

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Setembro 18, 2009

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Deparei-me mais de uma vez com um trecho do livro “manuscritos econômico-filosóficos” de Marx. Apesar de escritos (1844) há quase duzentos anos, nos assombramos com a atualidade do texto em especial do trecho que cito a seguir. Este trecho traduz bem em que circunstância vive ou deixa de viver o trabalhador.

 

“A auto-renúncia, a renúncia à vida, a todas as carências humanas, é a sua [economista nacional] tese principal. Quanto menos comeres, beberes, comprares livros, fores ao teatro, ao baile, ao restaurante, pensares, amares, teorizares, cantares, pintares, esgrimires etc., tanto mais tu poupas, tanto maior se tornará o teu tesouro, que nem as traças nem o roubo o corroem, teu capital. Quanto menos tu fores, quanto menos externares a tua vida, tanto mais tens, tanto maior é a tua vida exteriorizada, tanto mais acumulas da tua essência estranhada. Tudo o que o economista nacional te arranca de vida e de humanidade, ele te supre de dinheiro e riqueza. E tudo aquilo que tu não podes, pode o teu dinheiro: ele pode comer, beber, ir ao baile, ao teatro, sabe de arte, de erudição, de raridade históricas, de poder político, pode viajar, pode apropriar-se disso tudo para ti; pode comprar tudo isso; ele é a verdadeira capacidade. Mas ele, que é tudo isso, não deseja senão criar-se a si próprio, comprar a si próprio, pois tudo a mais é, sim, seu servo e se eu tenho o senhor, tenho o servo e não necessito do servo. Todas as paixões e toda atividade têm, portanto, de naufragar na cobiça. Ao trabalhador só é permitido ter para que queira viver, e só é permitido querer viver para ter.” (p.142)

 

Quanto mais deixa de viver mais tem para deixa de viver. Para aqueles que não “trabalham” é difícil se ver neste ciclo.

 

Logo pela manhã minha esposa comentou sobre um e-mail que recebeu e dizia: “Agradeço à minha sobra, pois se há sombra quer dizer que estou ao Sol.” E em seguida comentou com pesar: “Sinto falta da minha sombra! Chego à empresa e o Sol mal saiu, quando saio da empresa o Sol já se pôs”. Isso poderia ser traduzido grosseiramente como falta da própria vida. Vida que agora engendra uma produção estranhada. Será que sem sombra continuamos existindo?

 

Quando subo no trem, sempre lotado, pela manhã. Vejo um rebanho, obtuso, tosco, feio, com a expressão de sofrimento e horror tatuada à face. Isso não é produto de um gosto estético particular, é efetivamente o premio do trabalhador.

 

MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2008.

Palavras-chave: manuscritos econômico-filosóficos, Marx, Política, Trabalhador, trabalho

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Setembro 11, 2009

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Em sua obra autobiográfica intitulada a parte e o todo, o físico alemão Werner Heisenberg escrever e discute sua vida, obra e formação em física. Esta é sem dúvida uma leitura obrigatória para todos os estudantes de física e ciências. Em especial, esta leitura ajudará a desmistificar ainda mais a física e sua construção. As considerações que pretendo tecer aos físicos estendem-se também aos professores de física e ciências em geral.

 

A soma de casos curiosos que percorreram toda da a vida de Heisenberg é gigantesca, então gostaria de destacar alguns aspectos, sem estragar o final, mesmo sendo um final já sabido. Ele conta de suas leituras solitárias de Platão (em grego) durante a primeira guerra mundial. Este pode ser considerado um indicio de que a formação do físico não pode se fechar na física.

 

Conta seu primeiro encontro com o matemático John von Neumann com quem iria trabalhar, e de como ele lhe lembrava Fausto. Seu primeiro contato com a física se deu por meio dos seminários de pesquisa, a física atômica e os problemas mais atuais da física. Só posteriormente veio a se inteirar da física clássica em todas as suas mazelas. Isso também me leva a um outro indicio, a de que a física clássica não é condição ou pré-requisito para a compreensão da física moderna e contemporânea. Essa idéia precisa ser repensada no ensino da física.

 

Outro fato que não podemos deixar passar sobre a sua formação é sua intensa relação com Neils Bohr, em suas diversas viagens e caminhadas discutiram e refinaram diversos aspectos, principalmente filosóficos, da física quântica.  O que me leva a pensar que a formação no físico não pode se limitar à biblioteca, laboratório e sala de aula.

 

Nesta obra, o autor tenta justificar suas escolhas políticas, principalmente em relação à segunda guerra mundial e a ascensão do nazismo. Referente a isso, conta sobre seu retorno a Alemanha pouco antes da guerra se iniciar, suas esperanças de reconstrução da Alemanha pós-guerra, sua participação das reuniões do partido nacional socialista ainda na juventude, e sobre o seu papel no comando do projeto nuclear alemão. Apesar de contar com detalhes suas experiências e de seus argumentos serem convincentes, procuro olhar para este aspecto com certa reserva, é bom lembrarmos que é um alemão, escrevendo em um período de paz sobre suas escolhas na guerra. Não serão completas mentiras, mas estão longes de serem sinceras verdades.

 

Dois momentos são especialmente excitantes. O primeiro em que conta da noite em que chegou ao principio da incerteza, sua angustia e estupefação em relação à física, sua busca por dar significado a isso. Neste episódio relatado por ele, pude perceber o quão humana é a física, e que ela não fala sobre outra coisa que não do homem. O segundo episódio relatado já em uma das últimas partes do livro quando recebeu a notícia, em uma prisão Inglesa, de que a bomba nuclear havia sido detonada. Sua descrença e sua preocupação em relação ao colega de prisão Otto Hahn, cuja a teoria de fissão do urânio viabilizou a construção da bomba. Segundo o autor, Otto Hahn, permaneceu trancado sem falar por alguns dias, o que causava apreensão entre os demais físicos alemães presos. Neste momento Heisenberg discute a culpa do cientista e abre a margem para mais uma vez humanizar o cientista.

 

É interessante ver a interação entre os diversos físicos e cientistas, conhecidos apenas por fama. Coloca a todo o instante sua visão particular sobre Planck, Einstein, Bohr, Dirac, Shödinger dentre outros.

 

A possibilidade de testemunhar a efervescência da física no inicio do século XX, colocando em cheque diversas obviedades na física, política, religião etc, fazem desta uma obra indispensável a reflexão do professor de física e do físico.

HEISENBERG, W. A parte e o todo. São Paulo: Contraponto, 2007.

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Setembro 10, 2009

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Um estandarte evocado pelo ensino de ciências e pelos cientistas que se dedicam à divulgar a ciência, é o embate direto com a religião. Estes vêm guiados principalmente pelo pragmatismo estadunidense e por um “eficientismo” travestido de racionalismo. Tentam, em uma cruzada coroada de nobreza, expurgar todo e qualquer resquício de conceituação não científica. Em meio a guerra santa a diversidade humana sofre. Sofrem os conceitos e ritos que não são, nem chancelados pela ciência, por um lado, e não são protegidos pela mãe religiosa, por outro.

 

Na busca pela verdade os cientistas em geral, e os professores de ciências em especial, se revestem do que podemos chamar de sacerdócio científico. Declaram a mais pura e límpida fé científica. Consolidam liturgias e materializam os rituais. Tomam a ciência com religiosidade fundamentalista. E no estreito caminho da verdade caminham.

 

Mas a estes professores e por que não dizer a estes cientistas, devemos lhe recobrar a práxis. Na vida, não é reservado apenas espaço para a ciência, para a física. Por mais que lhe queira ser cientista, a todo instante a vida lhe impõem circunstâncias de provação em que a ciência deve ser, ao menos por momento, marginalizada, esquecida ou negada. Assim nos permitimos, comunicar, assistir um filme, cozinhar, errar, planejar nossas finanças, amar etc. E é preciso notar que esse não é um obstáculo a ser superado pela ciência, pois a vida cotidiana, não se funda por completo na ciência.

 

Assim, para que uma pessoa se forme ou se diga “cidadã”, não deve e não pode fazer uma redução de seus critérios à ciência. Quando discutimos o aborto, quando compramos pão, votamos, traímos, trabalhamos etc., estamos com muito mais em jogo do que a ciência. Temos em jogo nossos valores, cultura e identidade. Não podemos esperar de um povo, que compre a religião da ciência. Os estudantes, assim como os professores, devem perceber que a ciência não é o único e verdadeiro critério. A ciência é um dos diversos critérios que devemos considerar nas tomadas de decisão, principalmente inseridos na sociedade contemporânea.

 

Partindo deste pressuposto nos despimos de diversas obviedades, como acreditar que o conhecimento técnico sempre sobrepuja a vontade popular, quando imaginamos que o engenheiro irá salvar a cidade, que os cientistas solucionarão o aquecimento global e salvarão a humanidade, que os conhecimentos populares são blasfêmias frente aos conhecimentos científicos, que as formas de pensar cotidianas devem ser extirpadas da vida humana, dentre outras. A caça as bruxas, ou em outras palavras a inquisição científica, nos impede de vermos a diversidade. Diversidade não como obstáculo a ser superado, mas como condição do sistema.

 

Entender que o discurso científico deve ser apropriado como “somatória” aos diversos discursos já disponíveis ao estudante, e que se apropriar de mais este discurso e forma de pensar é imprescindível para que ele, estudante, transite na diversidade e na pluralidade que é sua própria vida, não pode ferir nosso ego científico. Esta não é uma carta de negação da ciência, mas uma tentativa dentre as diversas feitas de dessacralização. O professor deve abrir mão, por mais que lhe doa, de seu sacerdócio. Deve deixar a nobre intenção catequizadora de desbastar o paganismo científico.

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Setembro 08, 2009

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Nada melhor que mergulhar na loucura dos outros para compreender nossa própria insanidade. Assim inicio recomendando que assistam este vídeo lançado em 2006, com o nome de V de Vingança. O que pretendo comentar não é sua história original em romances gráficos, sua adaptação para o cinema, suas falhas técnicas, tão pouco seus problemas de filmagem. Gostaria de comentar-lhes como um expectador, que devo iniciar dizendo, empolgado, entusiasmado pelo a história e pela produção cinematográfica em questão. Não posso deixar passar a oportunidade de registrar minha admiração pessoal por este vídeo.

 

Em um futuro complicado e desiludido, saturado pela servidão e pela subserviência, aparece um herói, que se auto-intitula “V” e que tem como meta de vida, minar a, então atual, forma de Estado. Seu principal recurso é a “idéia”, a força e poder das idéias. Com isso inicia um sucessão de eventos que vão pouco a pouco desmumificando a população e deve culminar em uma grande manifestação popular.

 

A trama mostrou-se interessante, na medida em que consegue emaranhar a investigação policial e o suspense da identidade do herói aos fatos mais amplos do país. Esses pólos da história culminaram em uma mescla sedutora, dos atos dos personagens com os objetivos mais gerais da trama. Isso sem deixar que os personagens se afogassem em sua própria personalidade, e sem fazer com fiquem distantes pura crítica política. Apesar dos elogios, devo destacar alguns pontos que devem ser notados com atenção ao assistir esse vídeo. Se não são passiveis de crítica, são ao menos passíveis de discussão.

 

Nesta trama, creio que por se tratar de um romance, personaliza excessivamente o poder. Durante todo o filme sabemos quem devemos odiar e para quem devemos torcer. Faz com que os alvos estejam sempre visíveis, não nos confunde, não questiona nossa própria moralidade e ética. Apesar de responsabilizar a todos pela quadro crítico, a vingança é sempre muito pontual e pessoal. Na crítica social trazida pelo filme, o perdão e a vingança, são sempre sentimentos pessoais, que nos permite como expectador, sentir empatia e viver a angustia do personagem, mas não nos permite entender as dinâmicas sociais. Neste sentido, o que move o herói, não é mesmo sentimento que move o povo, entretanto o filme todo eles se vêem como cúmplices.

 

Em outro ponto, o filme traz as formas de poder uniformizadas, assim a dominação é dada a população sempre na mesma medida, na mesma forma, o que desproblematiza questões sociais importantes, como as relações de classe e trabalho, sexo e gênero, carências, abundancia e a economia nacional. Mesmo em sistemas totalitários historicamente conhecidos como nazismo, fascismo, à direita e stalinismo, maoísmo, à esquerda. A dominação é sempre problemática em diversos outros níveis, que transbordam a vontade de um ou dois. Assim poderemos acabar com Bush ou com Sadan, mas as questões problemáticas e a dominação permanecerão.

 

Por fim, o vídeo traz uma revolução marcada pela idéia. Não acredito que uma revolução apenas “ideológica” ou “ideal”, sejam suficientes para reverter qualquer quadro político, econômico, ou social. Obviamente, no filme a materialidade do ideal esta encerra na construção a ser destruída, está encerrada no parlamento inglês. Entretanto, ao mesmo tempo que assume a materialidade da revolução, com o ícone, a nega no símbolo. Ou seja, destruir o prédio, apesar de fisicamente, não terá seus efeitos para além do símbolo. Com uma pontualidade britânica, a revolução ganha hora e data marcada, menos paulatina do que esperaria que fosse.

 

Recomendo que assistam atentamente, e quantas vezes forem necessárias, um vídeo que nos permite ao menos sonhar com mudanças. Com um final que nos dá esperança e que recoloca nossas ações frente a algo imensamente maior.

 

V de Vingança (2006). Alemanha/EUA.Warner Bros. Direção: James McTeigue.

Palavras-chave: Anarquia, poder, revolução, romance gráfico, Vídeos

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Setembro 04, 2009

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É preciso iniciar este texto dizendo que não existem ações que sejam puramente locais, o que pode haver, e é o que discutiremos, são as consciências e as forma como a consciência localiza esta ação. Em outras palavras, como situo minha ação no mundo, e como situo minha ação no mundo mediante a outras ações. Neste sentido farei uma critica dedicada ao pragmatismo ingênuo e as reduções da consciência as ações puramente locais.

 

Para diversas pessoas, e em qualquer área de trabalho ou da vida que estivermos passando sempre encontraremos tais pessoas, os problemas devem ser, antes de tudo, solucionados. Não importa como, não importa o porquê. Enquanto dava aula, à escola em que lecionava ganhou uma assinatura de jornal e outra de revista, e cabia aos professores selecionar os materiais a serem adquiridos, depois de muito debater sobre a diversidade de materiais disponíveis não se chegou a nenhuma conclusão, e a conclusão nem mesmo despontava no horizonte. Uma parte dos professores, já insatisfeitos, questionavam por que uma decisão aparentemente simples, tomava tanto tempo e demandava tanta argumentação. Foi neste instante que percebi uma questão latente, que insistia em se esconder ao fundo e que não se tratava desta escolha em especial. Será que temos que resolver este problema independente da sua solução? Será que incentivo o hábito de leitura em meus estudantes independente das qualidades desta leitura? Que custos pago em reflexão para ter meu problema resolvido?

 

Esta é uma questão que não nasce na escola, e por isso transborda seus muros. Está presente na decisão política de um partido que pretende se eleger, e avalia o que deve abrir mão para ter meu problema solucionado. Esta na ação mais corriqueira da dona de casa que faz uma escolha do produto em detrimento de outro. E está, também, na escola e na ação docente, quando o professor avalia o estudante e avalia sua própria prática, quando o professor percebe que os estudantes não compreendem o conteúdo e mesmo assim prosseguem na ânsia de cumprir o programa. Quando o professor economiza trinta minutos ao avaliar uma material didático, quando se nega a refletir sobre suas condições materiais.

 

O professor pode se transformar em um rolo compressor, que resolve tudo, independe da solução. Que faz por fazer e nunca consegue inserir sua ação em propósitos mais amplos. Que tem sua ação na escola descolada de suas escolhas na vida. Este desligamento dos sentidos vitais dos sujeitos e as soluções dadas aos problemas locais é o principio motor da alienação.

 

O professor que desenvolve criticidade e reflete sobre sua prática, consegue conscientemente alocar sua ação local no seio das preocupações e posicionamentos globais, se nega a aceitar qualquer solução para apenas solucionar um problema, e pode por muitas vezes assumir não haver solução ou mesmo se negar a solucionar. Principalmente se sentir que a soluções carecem de mais reflexão e apreciação.

 

Com o mesmo principio podemos pensar em questões mais gerais da educação como o PROUNI – Programa Universidade para Todos, os sistemas de cotas nas universidades públicas, as parcerias que se estabelecem entre ONGs e escolas públicas ou fundações e universidades etc. Acreditar que minha ação docente perante aos estudantes não exige de mim um posicionamento em relação as diversas questões que permeiam a educação é isolar toda ação que acredito ser transformadora, extirpar de minhas ações locais qualquer reflexão das questões mais gerais é assumir minha ação como alienada.

 

Neste quadro, refletir e compreender o porquê e pra que das questões, derrubando as obviedades, se torna tão importante quanto solucionar o problema. Devemos centrar a prática docente na valorização do processo e não só nos frutos ou produtos.

Palavras-chave: ação, existencia, Política, pragmatismo

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Setembro 03, 2009

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Em uma de minhas últimas discussões com um de meus professores, já na pós-graduação, no momento em que discutíamos a organização de um projeto com a escola pública do ensino médio, comentei sobre a formação de uma categoria, categoria trabalhadora. Em cima deste fragmento, e apoiado em pontos anteriores de nossa discussão ele constrói um argumento, que me fez pensar por algum tempo. Dizia ele:

 

Não acredito em categorias ou sindicatos, já fui comunista, mas hoje acredito que sejam nocivos. Suas bandeiras são sempre em defesa de interesses próprios, salário, salário. Nunca se prestam a pensar, por exemplo, no bem da educação nacional. O que fazem estes professores junto a sua comunidade, que tipo de ações desenvolvem, se só lhes resta reivindicar. Este foi o último argumento pronunciado antes da reunião se encerrar. Como é uma síntese minha do argumento de outro e não uma citação ipsis litteris, não achei justo colocá-la entre aspas.

 

Para pensar neste problema temos que distinguir dois tipos de professores, os que se submetem passivamente e aceitam as condições de contorno, e os que se dispõem a agir. Os que se submetem passivamente engrossam cada vez mais as fileiras do magistério e são contaminados e contaminam com a idéia de subserviência e reprodução. “Eu ganho para isso então faço isso”. Limitam-se as condições mais imediatas e se contentam em realizar um trabalho ruim, por ganharem pouco e disporem de péssimas condições de trabalho. Apesar de caracterizá-lo, não iremos pensar neste professor, ao menos por enquanto.

 

E o que resta ao professor que decide agir? Podemos ainda dividi-lo por sua forma de ação profissional. O primeiro, em geral sindicalista, protesta e vê sempre suas ações ligadas aos aspectos globais da educação, as políticas públicas, a índices da educação, se vê inserido em uma categoria trabalhadora, consolida a consciência desta categoria. Entretanto não consegue perceber sentido as ações locais, que para ele estão fadadas a desaparecer e caminhar ao conformismo. Por outro lado, temos o professor que vê sua ação sempre localmente, procura mudanças na sua prática, atualiza-se, busca interação com a comunidade e se esforça para extrair as transformações necessárias das condições fornecidas localmente. Para este professor, as ações globais, lhes parecem reacionárias e protecionistas, vazias de significado e não vê nela frutos.

 

Obviamente o quadro do magistério público não se encerra neste agir paradoxal. Para que se revitalize a ação docente é necessário compreender que, tanto a ação local como a ação global isoladas esvaziam-se. Nenhuma ação local perdurará e provocará reais mudanças se não estiver conectada a ações e posicionamentos globais. Não só de vocação vive o professor, este tem também necessidades humanas, deve ser suportado em condições mínimas de sua materialidade. A ação local que se descola dos sentidos globais, é sempre um esforço remontado a cada instante que não passará de ação localizada, que se encerra na própria ação do professor, em outras palavras, assim que este professor deixar de realizá-la, por qualquer que seja o motivo, a ação local esta ação local desconectada se acaba. De maneira semelhante devemos pensar nas ações globais, que devem vir de uma integração das ações locais, se estes não surgem conectados as localidades se esvaziam e se evaporam no singelo discurso político. Acabam por conseguir apenas “reforminhas”, remendos onde se esperavam mudanças radicais.

 

O professor não pode ter dúvida do valor social do seu trabalho, e de seu papel na mudança da educação. Deve compreender que melhoria nas condições de trabalho do professor, como por exemplo a melhoria de seu salário, implicam diretamente na melhoria da educação. Precisam entender que ação globais e locais não se reduzem uma a outra, e que só ganham sentidos reais se estiveram integradas. O professor não pode abrir mão de se aprimorar e oferecer o seu melhor, ao mesmo tempo que faz parte de sua ação docente e respeito aos alunos lutar por melhores condições de trabalho, como a redução do número de estudantes do sala de aula, um plano de carreira digno para que possam atrair bons e competentes profissionais, um aumento substancial de salário para que a educação entre nas prioridades políticas de investimento, sabendo que o professor é humano e faz parte de sua formação integral, a arte, cultura, leitura e acesso a diversos outros artefatos culturais.

 

Toda a atividade humana é Histórica, isso implica em um devir de transformações que se dão nos âmbitos globais e locais, reintegrá-los é reintegrar a História educacional.

 

Palavras-chave: ação, Política, transformação

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Setembro 02, 2009

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Uma leitura tardia em minha própria história, talvez não tivesse maturidade para tê-la tomado antes. Com certeza muitas coisas não teria compreendido e deixaria passar mais coisas que agora. Não posso dizer que foi a leitura mais simples e fácil que já realizei, mas com certeza uma das mais interessantes.

 

Inicialmente os autores fazem duras críticas ao idealismo de Hegel, que em seu delírio, cria o “Homem”, um homem em geral, um homem ideal. Neste sentido, inviabiliza o entendimento da História como expressão concreta de um homem particular, neste caso o alemão. E desliga o Homem do mundo e de suas condições materiais. Por outro lado, também não deixa passar ilesa os materialismos imóveis e estratificados, que amordaça pelo ingênuo naturalismo. Transformam assim a História em uma mera coleção de fatos de um empirismo vazio.

 

Neste sentido declara sobre a real liberdade, que não pode estar separa de suas condições materiais. Assim a liberdade não pode ser encontrada apenas no plano das idéias, mas deve estar presente nas condições mundanas do homem, no trabalho que este realiza e nas condições deste trabalho e das circunstâncias de sua vida material.

 

Mostra pelo desenvolvimento das relações de trabalho que a História humana não reside nas vontades individuais de soberanos e políticos, a História humana é antes uma história dos meios de produção, que possibilitam ou não determinada forma de vida.

 

Mostra também como a História da propriedade privada esta imbricada à História da divisão do trabalho. Com isso consegue relacionar como mesmo a ciência, que para os cientistas se mostra independente de qualquer ação humana em um contato mais ou menos direto com a natureza, se subordina ao meios de produção e as condições materiais de uma época determinada. Tornando-se na sociedade capitalista a mercadoria.

 

Posso destacar dois trecho representativos de um amplo trabalho de reflexão e observação que Marx & Engels se propuseram neste texto.

 

“Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência” (p. 26).

 

Esta frase tomada isoladamente pode promover mais polemicas que esclarecimentos. Mas é nesta inversão essencial da consciência e da História humana que possibilitou o desenvolvimento frutífero das pesquisas soviéticas no inicio do século XX, como as obras de Bakhtin, Voloshinov, Vigotski, Leontiev dentre outros. Inversão sem precedentes na filosofia que permitiram compreender diversos fenômenos sociais, psicológicos, lingüísticos e econômicos.

 

A segunda trecho que considero importante notar é:

 

“Os indivíduos partiram sempre de si, mas naturalmente, de si no quadro das suas condições e relações históricas dadas, não do individuo ‘puro’ no sentido dos ideólogos” (p. 92).

 

Isto mina as buscas inconseqüentes promovidas na sociologia, educação, psicologia e nas diversas áreas que criaram para si indivíduos puros e ideais, e desenvolveram infinidades de teorias que nunca seriam capazes de se religar ao mundo real ou ao homem real.

 

Atribuo em parte a isso o isolamento e encapsulação dos conteúdos escolares, que foram feitos para um homem existente apenas no imaginários de seus criadores. O que mais para frente poderemos chamar de atividade alienada.

 

Recomendo essa leitura aos educadores, que realmente estão dispostos a repensar sua própria concepção de homem. Por traz da ação pedagógica, seja ela qual for, reside uma concepção antropológica. Para compreender suas escolhas pedagógicas, e escolhas na vida, é importante revisitar sua compreensão de homem, sem a qual nem mesmo a ação seria possível.

MARX, K. & ENGELS, F. A ideologia alemã: Teses sobre Feuerbach. São Paulo: Centauro Editora, 2006.

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Setembro 01, 2009

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Atualmente os mocinhos se apropriaram do discurso ecológico, frenesi que se alastra por diversos setores da sociedade, a começar pela educação e a finalizar nos modos de consumo. É surpreendente como o capitalismo se apropriou do discurso ecológico, tão nocivo a ele no século passado – século XX. Neste século, o capitalismo transmutou o discurso ecológico e o colocou na prateleira dos melhores mercados. Ser ecologicamente correto ainda não é para todos.

 

Por todos os lados somos perseguidos pela culpa de nossa própria existência. Fazer com que se consuma pela culpa mostra-se ainda mais eficiente do que se consumir pela euforia e a felicidade plena.  Como este produto, recém enlatado vem sendo vendido, é apenas uma parte da questão que abordaremos em outro texto. Neste texto gostaria de evidenciar o argumento que se põe como pilar principal do discurso ecológico de mercado.

 

Quando nos perguntamos por que devemos mudar nossos hábitos? Por que preservar? Por que reciclar, reutilizar e reduzir?  A resposta mais disponível esta balizada pela preservação da própria espécie humana. Temos que salvar a terra para que o homem possa viver. Por que salvar ou preservar a fauna ou a flora? Para que o homem possa usufruir dessa riqueza e dessa diversidade mais tarde.

 

Esse argumento é pernicioso na medida em que, o homem só muda na medida do homem. Só haverá preservação enquanto o homem se sentir ameaçado. Só haverá mudança de hábito na medida da coação do homem pelo ambiente. Enquanto este for o argumento vertebral que sustenta os demais argumentos ecológicos não haverão mudanças duradouras e substanciais.

 

Exemplo disso está na economia de energia durante o chamado “apagão”, que promoveu uma redução do consumo de energia significativo em 2001, 2002 e no inicio de 2003, depois disso o consumo volta ao patamares anteriores. De fato foi apenas um incomodo passageiro. Da mesma forma podemos pensar nos índices alarmantes e previsões catastróficas anunciadas pelo IPCC – Intergovernamental Panel on Climate Change. Provocou ampla discussão sobre o assunto e interesse pelo efeito estufa, problema que sempre caia fora dos interesses populares até então.

 

O quanto estamos dispostos a fazer para que a terra se preserve, seriamos capazes de abrir mão do desenvolvimento tecnológico que cresce em um ritmo nunca visto? Seriamos capazes de abrir mão do livre consumo? Seriamos capazes de abrir mão da nossa própria existência em nome da preservação terrestre?

 

Ao que percebo todas essas questões vem sendo respondidas negativamente. O homem não abrirá mão do que lhe convém enquanto homem. Continuaremos criando e recriando necessidades, alimentando o sistema mercadológico. Tudo isso em nome da preservação da espécie humana.Poderiam nos chamar de egoístas, mas de fato quem faria isso?

 

Em nome da liberdade de exploração, em nome da liberdade de consumo, criamos prisões ambientais e ideológicas, que nos cercam e nos paralisam. Violências, epidemias, ignorâncias, medos etc. Livre ao mesmo tempo que presos. O homem conseguiu se aprisionar em seu argumento antropocentrista.

Palavras-chave: antropocêntrico, Ecologia, extinção, humanidade, Política

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Agosto 28, 2009

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Eu e a aldeia -Marc Chagall

Eu e a aldeia – Marc Chagall (1911)

 

Nunca pensei em ser crítico de arte, e minhas aptidões passam longe disso, então farei uma breve consideração, para que, concordando ou não comigo, possam reconstruí-la em seu intimo.

 

Num primeiro olhar vejo um sonho, um sonho do cotidiano, um sonho longe da utopia e longe de qualquer idealismo, um verdadeiro sonho noturno. Um sonho que organiza o cotidiano e que consegue recobrar o viver simples.

A primeira vez que me deparei com esta obra, estava em um curso da pós-graduação, discutindo a organização e a pesquisa em física. É bom parar para pensar nisso.

 

Recomendo esta tela, para que os educadores que mergulhem em suas vivencias mais pueris. Para que possam, redescobrir o entusiasmo nos episódios banais que insistem em nos cercar.

Palavras-chave: Arte, Política, Sonho

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Agosto 27, 2009

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Sempre fui contra a privatização, e hoje mais do que nunca vejo que é necessário nos posicionarmos com relação a este assunto. Certa vez, pouco tempo depois da inauguração do CEU (Centro Educacional Unificado) em Aricanduva, fui visitá-lo. Um tanto deslumbrado com sua grandiosidade, por um lado, e preocupado com seus altos custos de manutenção e sua rápida deterioração e sucateamento, por outro. Quando me deparo com uma propaganda sobre merenda escolar, que havia subido de qualidade após a terceirização da cozinha. Logo minha esposa, que sempre fez uso do ensino público municipal de São Paulo, comenta. Ainda bem que terceirizaram a merenda, na época em que estudei erra horrível. Prontamente discordei sobre os supostos benefícios desta terceirização. Anos se passaram e este assunto ainda me toma espaço na mente.

 

Para que possamos discutir minimamente a privatização, deveríamos discutir o que é o público, o estado e suas responsabilidades. Entretanto, para não alongar por demais o debate, devo apensa dizer que para discutir a privatização, temos que retirar a ilusão que insiste em se enraizar em nosso imaginário, a de que as instituições públicas não funcionam ou estão fadadas a não funcionar. Poderia aqui relacionar diversas instituições públicas que desempenham primorosamente suas funções, mas não é isso que pretendo fazer, já que qualquer um poderia listar um número dobrado das instituições públicas que falham. E por ironia, começariam pelas instituições de educação. Mas ainda assim insisto, é preciso retirar este ranço negativista que impede o funcionamento do setor público.

 

A privatização, apesar de nos parecer sempre um bom negócio já que de maneira geral os serviços melhoram, ou ao menos cria-se a ilusão de que melhora. É fazer com que as pessoas que mais precisam do serviço prestado ou que mais usufruem do direito, fiquem a mercê de interesses privados.

 

Que empresa, em sã consciência e trabalhando na ânsia de crescer, colocaria os interesses públicos à frente do lucro? Não acredito que haja. O setor público que vem passando por diversas privatizações como as empresas de telefonia, fixa e móvel, o transporte e suas concessões, as rodovias e os pedágios, a saúde os planos de saúde, a educação e a faculdades, dentre outras que formam a base da economia, como a produção de “commoditys”.

 

Imaginemos, sem muito esforço, uma empresa que fornece merenda as escolas públicas serve aos alunos carne de segunda com qualidade e cumpre honestamente suas obrigações contratuais. Com a reviravolta do mercado externo a carne tem seu preço reduzido pela metade, e o preço da carne de primeira passa a ser o antigo preço da carne de segunda. Ainda sem fazer muito esforço, pense. Essa empresa passará a servir carne de primeira, mesmo que por tempo indeterminado? Não. Já que aproveitará o momento para aumentar seu lucro.

 

Nesta empresa, apesar de honesta e “bem intencionada” não reside a preocupação pública. O bem comum da lugar ao lucro. A empresa não precisa ser inescrupulosa, já que o lucro no setor privado é visto como algo natural, algo legal. De forma semelhante ocorre para os diversos outros setores da sociedade.

 

O interesse público não só pode como deve possibilitar o desenvolvimento e a melhoria das condições de vivência humana.

Palavras-chave: Política, privatização, público

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