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Março 2010

Março 01, 2010

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Postado por Ana A. S. Cesar

 



Oh! Bendito o que semeia Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!


Castro Alves


"O poeta sente as palavras ou frases como coisas e não como sinais, e a sua obra como um fim não como um meio; como uma arma de combate."

Jean-Paul Sartre


foto: revista brasileiros

 

Notícia do Jornal Folha de São Paulo de 1º de março de 2010:

O bibliófilo e empresário José Mindlin, de 95 anos, morreu na manhã de ontem, em São Paulo, vítima de falência múltipla dos órgãos, ocorrida após complicações cardíacas e pulmonares. Ele estava internado havia um mês para tratar uma pneumonia. Apaixonado pelos livros, o bibliófilo e empresário organizou a maior e mais importante biblioteca privada do País.

Responsável por organizar a maior e mais relevante biblioteca privada do País, doada em 2006 à Universidade de São Paulo (USP), o também fundador da Metal Leve e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) recebeu homenagens durante a tarde no velório realizado no Hospital Albert Einstein, na zona sul da capital paulista.

Durante a cerimônia, em que compareceram dezenas de pessoas, a contribuição à USP e outras importantes atuações, como decisões tomadas durante a ditadura, foram lembradas por amigos do mundo político. A família preferiu uma cerimônia reservada a parentes e amigos e não quis dar declarações durante a homenagem.

Por volta das 15h, pouco antes de o corpo deixar o local, parentes abraçavam-se enquanto ouviam-se cantos em hebraico. O caixão seguiu para o Cemitério Israelita da Vila Mariana, na zona sul, onde Mindlin foi enterrado no fim da tarde.

O governador José Serra (PSDB) decretou luto oficial de três dias em razão da morte.

"Muita gente se refere a ele como bibliófilo, mas ele foi mais do que isso", afirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) ao deixar o velório. "Foi um resistente ao regime autoritário, fui testemunha disso. Quando fomos postos fora da universidade, em 1969, e fizemos um centro de pesquisa para poder permanecer no Brasil, o Mindlin prestou apoio", continuou. "Ele é muito mais que um bibliófilo. É uma pessoa preocupada com o futuro do País", concluiu FHC.

Em nota, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a morte de Mindlin.

"Ele foi um grande brasileiro e motivo de orgulho para todos nós. Com seu imenso amor à cultura, sua defesa da liberdade e sua conduta empresarial, prestou serviços extraordinários ao País. E, apesar da idade, ainda tinha força e disposição para contribuir com o progresso nacional", afirmou o presidente na nota.

"Foi uma grande figura como pessoa, intelectual e também, num certo momento, uma grande figura política, quando soube defender a liberdade de imprensa, a liberdade cultural. Um homem que sempre foi um democrata, uma grande figura de São Paulo", disse José Serra, que foi ao velório acompanhado da primeira-dama, Mônica Serra.

Em nota oficial, Serra enfatizou ainda que, quando secretário Estadual da Cultura, nos anos 70, Mindlin convidou o jornalista Vladimir Herzog para a diretoria de Jornalismo da TV Cultura. "Sabe-se que os torturadores dos jornalistas presos procuravam, também, incriminar a Mindlin. E ele soube se comportar com altivez e dignidade diante das ações que levaram à morte de Herzog", afirmou o governador.

O rabino Henry Sobel também lembrou da ditadura ao falar sobre Mindlin. "Naquela época sombria no Brasil, quando decidimos não enterrar (o jornalista) Vladimir Herzog como suicida, eu tive o apoio dele à minha decisão", afirmou Sobel, um dos primeiros a chegar ao velório, em referência ao assassinato do jornalista pela ditadura militar.

"Ele era um empresário fantástico, que estimulou a aprendizagem e teve sempre uma conduta exemplar", completou o amigo José Pastore, professor titular da Faculdade de Economia e Administração da USP.

O senador Eduardo Suplicy (PT) também manifestou-se durante o velório sobre a importância do bibliófilo. "Foi um homem que ajudou o Brasil a ser um País melhor."

Presente na homenagem, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), divulgou nota em que exaltou a doação dos livros de Mindlin à USP.

"José Mindlin foi um gigante da cultura brasileira. Como todo grande homem, deixa um grande legado, que é a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin", afirmou a nota.

O reitor da USP, João Grandino Rodas, reiterou, ao deixar a cerimônia, que o acervo em papel e digitalizado será abrigado em um dos prédios mais modernos e "imponentes" da universidade. Os obras deverão estar disponíveis ao público já no próximo ano, quando está prevista a inauguração.

"Ele era um empresário bem-sucedido, mas não viveu nunca como muitos desses empresários. Tinha uma casa confortável, mas simples. Ele e sua mulher viviam para juntar os livros e trabalhavam para sua conservação e digitalização", afirmou o reitor. Rodas destacou ainda que ficarão acessíveis ao público obras como o primeiro exemplar de Os Lusíadas, de Camões, e mapas brasileiros raríssimos que foram colecionados pelo bibliófilo.

Ainda segundo Rodas, foram necessários 15 anos de "luta" para que a USP recebesse os livros. "No Brasil, muitas instituições têm verdadeira ojeriza às doações privadas e ele foi pioneiro nisso."

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso enfatizou que foi necessária mudança legal para permitir a doação sem custos para donatários. "Foi um gesto importante porque, no Brasil, não temos a prática de doar", complementou a ex-prefeita Marta Suplicy (PT).

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Março 05, 2010

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Postado por Ana A. S. Cesar

 

    

A 5ª. Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas e 4º. Flipoços serão lançados para editoras e livreiros na CBL – Câmara Brasileira do Livro dia 11 de março, na sede da entidade em São Paulo. O convite partiu da presidente da entidade Rosely Boschini que vê na Feira de Poços de Caldas um grande potencial de crescimento e desenvolvimento, e considerada hoje no mercado editorial uma das mais promissoras do setor. Para ela a Feira de Poços associada ao Flipoços (Festival Literário) – que é uma atividade de muito destaque, é uma das mais bem organizadas e “redondas” feiras de interior. “Nós da CBL, enquanto entidade fomentadora do livro e leitura temos também por obrigação incentivar boas e sérias iniciativas que promovam este objetivo e que compartilhem da filosofia da CBL. A Feira do Livro de Poços para nós é uma feliz parceria”, enfatiza Roseli Boschini que estará também na abertura oficial dos eventos dia 24 de abril, às 20 horas na Urca. Na agenda do evento haverá palestras para professores e alunos, teatro, lançamentos de livro, conversa com o escritor e mais outro tanto de coisa boa. O patrono da Feira nesta edição será o escritor mineiro Rubem Alves que receberá homenagem e fará palestra aberta ao público dia 25 de abril às 10h30 no teatro da Urca. Presenças confirmadas para este ano: Moacyr Scliar, Fabricio Carpinejar, Ferrez, Fernanda Takai e outros. Haverá também um Concurso Nacional de Poesia. As inscrições ainda estão abertas para o concurso. Precisamos fazer da leitura uma ferramenta ao alcance de todos. Interessou-se? Visite o site: http://www.feiradolivropocosdecaldas.com.br/

Na foto acima: Gisele Ferreira, Rubem Alves, e Raissa Castro da Verus Editora no Prêmio Jabuti 2009 quando Rubem recebeu prêmio de 2º. Lugar de Melhor Livro de Contos com a obra “ Ostra feliz não faz pérola”.

 

 

 

 

Raquel

 
 


Rubem Alves
Antonio Calloni
Lobão
Moacir Scliar
Fabrício Carpinejar
Fernanda Takai
Caio Riter
Milton Hatoum
Chico Lopes
Ferréz
Sérgio Vaz
Juliano Pessanha
Luis Nassif
Marcio Souza
Dilea Frates
Thalita Rebouças
Staël Gontijo
Stelio Marras
João Evangelista Rodrigues
Elizabeth Lorenzotti
Menalton Braff
Telma Guimarães
Murilo Carvalho
Rita Schultz
     
Tânia Mara de Carvalho
Flávio Brasil
Camila Denlescki
     

Karlo Campos
Walter Alvarenga
Juliano Sasseron

Chico Lopes
Participação Especial

 

 
Inscreva-se agora para os cursos da Escola do Escritor
Faça sua Inscrição clicando aqui
   
João Scortecci
Maria Esther Perfetti
       

 

Divulgação oficial das 40 poesias vencedoras do 1º Concurso Nacional
de Poesias Amigos do Livro / FLIPOÇOS - 2010

27 de abril às 17h - Espaço Hora da Prosa

   
Betty Vidigal
Carlos Felipe Moisés
       

Palestras voltadas para educadores, professores, diretores e coordenadores de escolas, estudantes de pedagogia e pessoas ligadas a área educacional.

Acompanhe em breve a programação
   
Galeno Amorim
Gislaine Buosi
Paulo Eduardo de Oliveira
     

 
Palestras e debates sobre literatura das religiões e espiritualidade. Pela primeira vez em Poços de Caldas pessoas de vários
segmentos religiosos


Acompanhe em breve a programação
   
Monja Coen Sensei
Jason Pessoa
       

Em breve informações
 


Palestras sobre Gastronomia em geral e curso de Culinária Mineira


Acompanhe em breve a programação
     
           


David Daniel
Pâmela Mira
Marcos Mágico
Livia Miranda
Hello Ferreira
Carol Mello
Dema Melo
Biblioteca Móvel
Sarau de Poesia
Cia Alpha de Teatro
Nivaldo Divanny
 


 
Roberto Tereziano
Flávia Araújo
Giovani Dias
Jéssica Balbino
CIA Bella de Artes
 

parceiros
 

http://www.feiradolivropocosdecaldas.com.br/

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O Dia Internacional da Mulher está relacionado aos movimentos socialistas feministas dos fins do século XIX ao início do século XX, que reivindicavam a igualdade entre homens e mulheres em todas as áreas da sociedade. O primeiro Dia da Mulher foi comemorado em Chicago em 3 de maio de 1908, onde 1500 mulheres reclamavam igualdade de direitos com os homens. Em 1909 foi comemorado em Nova Iorque em 28 de fevereiro, e enfatizava o direito da mulher ao voto. Em 1910, foi comemorado em 27 de fevereiro, após um período de mais de três meses de greve, na qual 80% dos grevistas eram mulheres.

Tal greve chamou a atenção da sociedade da época para a situação precária das mulheres. Em 1911, inspiradas pelas mulheres norte-americanas, as alemãs celebram o dia da Mulher em 19 de março, e as suecas em primeiro de maio. Na Rússia, ainda sob o regime dos Czares, as mulheres que celebraram o Dia da Mulher foram duramente reprimidas, chegando a ser presas. Mas o movimento foi ganhando vulto internacional. Em cada país era celebrado numa data diferente e sempre enfatizava o direito das mulheres ao voto. Em 1914, as alemãs comemoram no dia 8 de março, escolhendo essa data mais por questões práticas do que em homenagem a algum acontecimento especial.

Em 1922, o Dia Internacional da Mulher foi oficializado em 8 de março. O motivo do por que esta data foi escolhida tem duas histórias:

A história mais popular é que esse dia homenageia as 129 mulheres mortas em 1857 em Nova Iorque que reivindicavam melhores condições de trabalho. O dono da fábrica de tecidos Cotton trancou suas funcionárias em uma mesma sala e depois ateou fogo no prédio, queimando-as vivas.  Elas reivindicavam a redução da jornada de trabalho de 16 para 10 horas e um salário mais justo.

http://www.tvcanal13.com.br/fotos/FOT20080304213330.jpg

Fábrica em Nova York onde morreram 129 mulheres carbonizadas em 1911. (Wikipedia/Commons)

Carroça dos bombeiros passa por via onde ocorreu o incêndio que matou mais de 140 mulheres e crianças, em Nova York. (Wikipedia/Commons)

A outra história refere-se às mulheres russas, que em 1917 escolheram o Dia da Mulher de para fazerem uma greve contra a fome, a guerra e o regime czarista. As operárias deixaram as fábricas e saíram às ruas, atraindo a massa popular a tal ponto, que o incidente deu início a Revolução Russa e que derrubou o regime czarista. Isso ocorreu em 23 de fevereiro no calendário russo, que coincide com o 8 de março do calendário ocidental (gregoriano). Em 1921, a Conferência Internacional das Mulheres Comunistas propôs o dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher, em comemoração à atitude das mulheres russas.

Independente da realidade à escolha desta data o 8 de março está aí firme e forte. No ano 2000, o 8 de março foi celebrado com a Marcha Mundial das Mulheres que mobilizou mulheres de 161 países contra a fome e a violência contra o sexo feminino.

No Brasil, podemos dizer que o dia 24 de fevereiro de 1932 foi um marco na história da mulher brasileira. Nesta data foi instituído o voto feminino. As mulheres conquistavam, depois de muitos anos de reivindicações e discussões, o direito de votar e serem eleitas para cargos no executivo e legislativo.

Desde a mais remota antiguidade a desigualdade de direitos entre homens e mulheres vem percorrendo os séculos. Na Antiguidade, seja no Ocidente ou no Oriente, a mulher era praticamente propriedade de seu marido, e seu principal valor estava em ser esposa, e ser esposa para ser mãe, para gerar herdeiros legítimos para o marido. Ai das estéreis daqueles dias, pois não podiam cumprir o único papel importante que a sociedade lhes reservava. As culturas antigas celebravam o nascimento de um homem e menosprezavam o de uma mulher, isto é, quando não matavam a criança recém-nascida do sexo feminino.

A mulher não tinha importância na vida pública: era incapaz juridicamente, tinha papel inferior na vida religiosa, não podia herdar, nem possuir. Trabalho feminino, por mais produtivo que fosse, praticamente só beneficiava o homem, pois a mulher não podia enriquecer por conta própria. A mulher foi vítima inclusive de "santos" de várias religiões que a viam simplesmente como fonte de tentação para sua “santidade”.

"... pois a dignidade da mulher não depende de cultura, religião ou raça, e sim no fato dela ter sido criada a imagem e semelhança de Deus..."

Na época de Jesus a mulher era em tudo inferior ao homem. As mulheres eram praticamente excluídas da vida religiosa, os rabinos discutiam se a mulher tinha alma, homens judeus e greco-romanos agradeciam aos Céus por não terem nascido mulher; elas não eram consideradas testemunhas fidedignas. Ter amizade com mulheres ou conversar com elas em público era escandaloso - mais porque a mulher era considerada um ser inferior do que para fugir da aparência do mal. Arriscando seu prestígio e passando por cima desses tabus, Jesus quebra esse comportamento machista:

- Conversa sozinho com uma mulher samaritana (para espanto de seus discípulos) quebrando dois preconceitos: o sexual e o racial (João 4.4-42);

- Tem amigas (Lucas 10.38-42; João 11.5,33 e 12.1-8) e seguidoras (Lucas 8.1-3; Marcos 15.40-41);

- É surpreendente que as mulheres, que eram consideradas testemunhas sem valor, sejam escolhidas como as primeiras testemunhas da ressurreição de Cristo (Marcos 16.1-7);

- Quando Jesus defende a indissolubilidade do matrimônio (Mateus 19.3-6), ele beneficia as mulheres, pois na época o homem podia se divorciar da mulher por qualquer motivo banal;

- Jesus, arriscando sua reputação, defende do preconceito uma mulher de vida pecaminosa (Lucas 7.36-48) e arriscando a vida, salva da morte uma mulher adúltera (João 8.1-11). É bom observar, que Jesus defendeu as mulheres, mas não os seus pecados.

Existem várias outras atitudes de Jesus que enobrecem as mulheres, porém as listadas acima já ilustram bem o fato de que Jesus não se prendeu aos padrões de sua época em relação à mulher, pois a dignidade da mulher não depende de cultura, religião ou raça, e sim no fato dela ter sido criada à imagem e semelhança de Deus.

Muitas vezes nos surpreendemos aos padrões bíblicos da submissão da mulher ao homem. O texto bíblico trata das funções dentro do lar, onde “o homem é o cabeça”. Isto em nada deprecia a mulher, pois o padrão de Deus é a mulher se submeter ao marido, como uma figura da Igreja se submetendo a Cristo (Efésios 5.22-33). Os machões de plantão não devem se vangloriar de ser cabeça como se isso fosse permissão para fazer o que bem entenderem com a mulher. Pois, se a mulher deve representar a Igreja, o homem deve representar a Cristo. E Cristo maltratou alguma mulher? Não. Ele reconheceu a dignidade das mulheres. Mirem-se no exemplo do tratamento de Jesus para com as mulheres e saberão o que é ser cabeça.

O IBGE registrou o crescimento dos evangélicos e registrou também que a maioria dos evangélicos é composta por mulheres. Portanto, a Igreja deve agir à luz da Bíblia mostrando qual é o referencial que a mulher tem no propósito de Deus, para que ela não fique presa a preconceitos que mutilam seu potencial e nem seja solta na libertinagem usada como objeto sexual.

De acordo com a ONU - os dados são de 2006 - 25% das brasileiras são vítimas constantes de violência no lar. Em apenas 2% dos casos o agressor é punido e, em cerca de 70%, esse agressor é o marido ou companheiro.

Segundo o Ministério da Previdência Social, existem atualmente nove milhões de donas-de-casa no Brasil. Até mesmo as cerca de 40 milhões de mulheres que ocupam postos no mercado de trabalho, formal ou informal, acabam desempenhando atividades domésticas. Ou seja, no mundo contemporâneo, ainda cabe ao sexo feminino a tarefa de cuidar do lar e da família.

O Dia Internacional da Mulher lembra-nos da justa luta do sexo feminino para que a sociedade reconheça a dignidade da mulher, que segue um caminho em busca de respeito à sua dignidade pessoal, social e profissional, principalmente a dignidade de ter sido feita à imagem e semelhança do Criador.

Criação da mulher
 “Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou-lhe, então, uma das costelas, e fechou a carne em seu lugar; e da costela que o senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao homem.
Então disse o homem: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; ela será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada”. (Gênesis 2:21-23)

Mulher mãe
"Ele faz com que a mulher estéril habite em família, e seja alegre mãe de filhos." (Salmos 113:9)
"O Senhor visitou a Sara, como tinha dito, e lhe fez como havia prometido. Sara concebeu, e deu a Abraão um filho na sua velhice, ao tempo determinado, de que Deus lhe falara." (Gênesis 21:1-2)

Mulher Sábia
"Toda mulher sábia edifica a sua casa; a insensata, porém, derruba-a com as suas mãos." (Provérbios 14:1)
"Casa e riquezas são herdadas dos pais; mas a mulher prudente vem do Senhor." (Provérbios 19:14)

Mulher Fervorosa
"(...)Levantou-se, pois, Jesus, e o foi seguindo, ele e os seus discípulos. E eis que certa mulher, que havia doze anos padecia de uma hemorragia, chegou por detrás dele e tocou-lhe a orla do manto porque dizia consigo: Se eu tão-somente tocar-lhe o manto, ficarei sã. Mas Jesus, voltando-se e vendo-a, disse: Tem ânimo, filha, a tua fé te salvou. E desde aquela hora a mulher ficou sã." (Mateus 9:19-22)

Mulher Obediente
“Então ele se levantou, e foi a Sarepta; e, chegando à porta da cidade, eis que estava ali uma mulher viúva apanhando lenha; e ele a chamou, e lhe disse: Traze-me, peço-te, num vaso um pouco de água que beba. E, indo ela a trazê-la, ele a chamou e lhe disse: Traze-me agora também um bocado de pão na tua mão. Porém ela disse: Vive o SENHOR teu Deus, que nem um bolo tenho, senão somente um punhado de farinha numa panela, e um pouco de azeite numa botija; e vês aqui apanhei dois cavacos, e vou prepará-lo para mim e para o meu filho, para que o comamos, e morramos. E Elias lhe disse: Não temas; vai, faze conforme à tua palavra; porém faze dele primeiro para mim um bolo pequeno, e traze-mo aqui; depois farás para ti e para teu filho. Porque assim diz o SENHOR Deus de Israel: A farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não faltará até ao dia em que o SENHOR dê chuva sobre a terra. E ela foi e fez conforme a palavra de Elias; e assim comeu ela, e ele, e a sua casa muitos dias. Da panela a farinha não se acabou, e da botija o azeite não faltou; conforme a palavra do SENHOR, que ele falara pelo ministério de Elias.” (1Reis 17:10-16)

Mulher Virtuosa
 “A mulher virtuosa é a coroa do seu marido; porém a que procede vergonhosamente é como apodrecimento nos seus ossos." (Provérbios 12:4)
"Enganosa é a graça, e vã é a formosura; mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada." (Provérbios 31:30)


Mulher da Vida, minha irmã

Cora Coralina

Mulher da Vida, minha Irmã.

De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.

Mulher da Vida, minha irmã.

Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por
aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.

Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.

Flor sombria, sementeira espinhal
gerada nos viveiros da miséria, da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes da Terra.

Um dia, numa cidade longínqua, essa
mulher corria perseguida pelos homens que
a tinham maculado. Aflita, ouvindo o
tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.

A Justiça estendeu sua destra poderosa e
lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra”.

As pedras caíram
e os cobradores deram as costas.

O Justo falou então a palavra de equidade:
“Ninguém te condenou, mulher...
nem eu te condeno”.

A Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu àquela
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém
as urgências brutais do homem para que
na sociedade possam coexistir a inocência,
a castidade e a virtude.

Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho.

Sem cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.

Mulher da Vida, minha irmã.

No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça
do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.

E o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco em
novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrutível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.

Mulher da Vida, minha irmã.

Declarou-lhe Jesus:
 “Em verdade vos digo
que publicanos e meretrizes
vos precedem no Reino de Deus”.
Evangelho de Mateus 21:31

 

Canção das mulheres

Lya Luft

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco — em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade mas talvez seu medo ou sua culpa.

Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo “Olha que estou tendo muita paciência com você!”

Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua, nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça.

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que quando levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha logo atrás de mim reclamando: “Mas que chateação essa sua mania, volta pra cama!”

Que se eu peço um segundo drinque no restaurante o outro não comente logo: “Pôxa, mais um?”

Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro — filho, amigo, amante, marido — não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa — uma mulher.

 

No paraíso da transgressão

Lya Luft

"Vivemos feito bandos de ratos aflitos, recorrendo à droga, à bebida, ao delírio, à alienação e à indiferença, para aguentar uma realidade cada dia mais confusa"

A gente se acostuma a criticar os jovens por eles serem pouco educados, os homens por serem arrogantes, as mulheres por serem chatas, os governos por serem omissos ou incompetentes, quando não mal-intencionados. Políticos sendo acusados de corrupção é tão trivial que as exceções se vão tornando ícones, ralas esperanças nossas. Onde estão os homens honrados, os cidadãos ilustres e respeitados, que buscam o bem da pátria e do povo, independentemente de cargos, poder e vantagens?

Transgredir no mau sentido é natural entre nós. Ladrões e assassinos, mesmo estupradores, recebem penas ridículas ou aguardam o julgamento em liberdade; se condenados, conseguem indultos absurdos ou saem em ocasiões como o Natal, e boa parte deles naturalmente não volta. Crianças continuarão a ser estupradas, inocentes mortos, velhinhos roubados, mulheres trancadas em suas casas, porque a justiça é cega, porque as leis são insensatas e, quando prestam, raramente se cumprem.

Nesta nossa terra, muitos cidadãos destacados, líderes, são conhecidos como canalhas e desonestos, mas, ainda que réus confessos ou comprovados, inevitavelmente se safam. Continuam recebendo polpudos dinheiros. Depois de algum tempo na sombra, feito eminências pardas, voltam a ocupar importantes cargos de onde nos comandam. Assassinos ao volante nem são presos. Se presos, são soltos para o famoso "aguardar o julgamento em liberdade". Centenas e centenas de vidas cortadas de maneira brutal e o assassino, a não ser que acossado pela culpa moral, se tiver moral, logo voltará ao seu dia-a-dia, numa boa. Se invadir a casa de meu vizinho, fizer seus empregados de reféns, der pauladas na sua mulher ou na sua velha mãe e escrever nas paredes com excremento humano frases ameaçadoras, imagino que eu vá para a cadeia. Os bandos de pseudoagricultores (a maioria não sabe lidar na terra) fazem tudo isso e muito mais, e nada lhes acontece: no seu caso, bizarramente, não se aplica a lei.

 

Se sobram muitas vagas nos exames vestibulares, em alguns casos simplesmente se fazem novas provas, provinhas mais fáceis. Leio (se me engano já me desculpo, nem tudo o que se lê é verdadeiro) que, como são poucos os aprovados nos exames da OAB, porque os estudantes saem despreparados demais das faculdades de direito que pululam pelo país, o exame se tornou mais simples: há que aprovar mais gente. Quantidade, não qualidade. Governantes, os bons e esforçados, viram objeto de ódio de adversários cujo interesse não é o bem da comunidade, estado ou país, mas o insulto, o desrespeito, a violência moral do pior nível. Aliás, nesses casos o nível não importa, o que importa é destruir.

Eis o paraíso dos transgressores: a lei é a da selva, a honradez foi para o brejo, a decência tem de ser procurada como fez há séculos um filósofo grego: ao lhe indagarem por que andava pela cidade com uma lanterna acesa em dia claro, declarou: "Procuro um homem honesto". O que devemos dizer nós? Temos pouca liderança positiva, raríssimo abrigo e norte, referências pífias, pobre conforto e estímulo zero, quase nenhuma orientação. A juventude é quem mais sofre, pois não sabe em que direção olhar, em que empreitadas empregar sua força e sua esperança, em quem acreditar nesse tumulto de ideias desencontradas. Vivemos feito bandos de ratos aflitos, recorrendo à droga, à bebida, ao delírio, à alienação e à indiferença, para aguentar uma realidade cada dia mais confusa: de um lado, os sensatos recomendando prudência e cautela; de outro, os irresponsáveis garantindo que não há nada de mais com a gigantesca crise atual, que não tem raízes financeiras, mas morais: a ganância, a mentira, a roubalheira, a omissão e a falta de vergonha. E a tudo isso, abafando nossa indignação, prestamos a homenagem do nosso desinteresse e fazemos a continência da nossa resignação. Meus pêsames, senhores. Espero que na hora de fechar a porta haja um homem honrado, para que se apague a luz de verdade, não com grandes palavras e reles mentiras.

Palavras-chave: Dia Internacional da Mulher

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Março 06, 2010

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Postado por Ana A. S. Cesar

 

Preservação Digital da Obra Completa do Artista

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Primeiro Catálogo Raisonné de obra completa de um pintor ao sul do Equador, “Candido Portinari – Catálogo Raisonné” é também a primeira publicação desta natureza a ser totalmente produzida, impressa e distribuída por brasileiros.

Nem Rivera, Orozco, Siqueiros, Tamayo possuem Catálogo Raisonné de sua obra completa, e todos sabem do amor que o México dedica aos seus pintores. De 170 mil artistas, de todas as nações e de todas as épocas, reconhecidos internacionalmente, apenas 800 foram contemplados com um Catálogo Raisonné. Portanto, de cada 200 artistas famosos, apenas um tem um Catálogo Raisonné.

Um Catálogo "Raisonné" é, dentre os tipos de monografias e estudos, a mais definitiva e completa fonte de referência sobre a obra de um artista.

Com o patrocínio da Petrobrás, o Projeto Portinari lançou em 2004, na 26ª Bienal de São Paulo, o Catálogo "Raisonné" de Candido Portinari. A edição, bilíngüe, em 2.000 exemplares, apresenta todos os trabalhos do artista em verbetes por ordem cronológica, acompanhados de reprodução da obra, referências documentais a ela relacionadas, biografia ilustrada do artista, textos avulsos, bibliografia, índices remissivos, etc. Acompanha o catálogo um CD-ROM contendo todos os índices, o material de apoio à leitura e estudo do catálogo, além de textos avulsos.

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Logo após sua publicação, em 2004, este Catálogo Raisonné mereceu
quatro dos mais importantes prêmios brasileiros:

Prêmio CLIO de História - Academia Paulistana da História;
Prêmio Sérgio Milliet - Associação Brasileira de Críticos de Arte - ABCA;
Prêmio Rodrigo Mello Franco de Andrade — Instituto do Patrimônio;
Histórico e Artístico Nacional – IPHAN;
Prêmio Jabuti — Câmara do Livro.

Em razão da importância desta obra, o Presidente Lula honrou o
Projeto Portinari escolhendo-a como presente nacional oferecido às
visitas de Estado da Presidência da República. Assim, ele foi
oferecido ao Primeiro-Ministro do Japão, ao Presidente da França,
à Rainha da Inglaterra, à Presidente do Chile, ao Papa Bento XVI,
e à Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice.

O sociólogo, cientista-político e jornalista Emir Sader assim se pronunciou sobre o Catálogo Raisonné de Candido Portinari, em artigo intitulado “Candido do Brasil”, publicado no Jornal do Brasil (05.09.04):

A publicação da obra completa de Candido Portinari constitui um dos maiores acontecimentos culturais do novo século, no Brasil e na América Latina. O maior pintor brasileiro é o primeiro artista latinoamericano a ter um Catálogo Raisonné. Sua edição é um dos mais expressivos resultados de um dos mais extraordinários trabalhos culturais realizados no nosso país e no mundo, pelo Projeto Portinari, dirigido por seu único filho, João Candido Portinari.
(…)
A trajetória de Portinari é um pedaço do Brasil, de sua cultura,
de sua vida e de sua história. Sempre fiel à pintura, ao Brasil
e ao comunismo, Candinho pintou e recriou o nosso país, fez
chegar aos nossos olhos os principais personagens populares
da gesta de construção da nação, viveu e morreu das tintas
e articulou estreitamente sua obra a uma visão emancipadora
da parte dos explorados e ofendidos.

O catálogo da obra de Portinari é um conjunto belíssimo de cinco
volumes encadernados e unidos em uma caixa, que cobre todo o
período de sua produção – de 1914 a 1962, contendo um total
de 4991 obras. Bilíngüe – português/inglês reúne também um CD-ROM
com todas obras catalogadas. Inclui as obras certificadas
como autênticas. O V volume apresenta os verbetes das obras
e um texto sobre a vida, a obra e a época de Portinari,
além de um glossário.

Agora estão dadas as condições do encontro de Portinari com o
Brasil. Que o catálogo seja adquirido por todas as instituições
públicas que possam colocar a obra do nosso maior pintor à
disposição do povo brasileiro e de todos os povos que queriam
conhecer a nossa identidade expressa na sua forma mais sensível
e profunda. Ninguém conhece o Brasil se não conhece a obra de
Portinari. O país tem que agradecer e reconhecer o extraordinário
trabalho realizado pelo Projeto Portinari e propiciar as condições
do conhecimento e o desfrute amplo da obra por parte dos mais
extensos setores da população brasileira. .




DADOS SOBRE O CATÁLOGO

5 volumes / 2.406 páginas / 4.991 obras, pinturas, desenhos e gravuras / 5,165 reproduções
a cores / CD-ROM com o conteúdo completo, incluindo ferramentas de busca / crono-biografia
ilustrada do artista.

Palavras-chave: Acervo, Arte, Estudos, IEA, Pintura, Portinari

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Março 08, 2010

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Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconsequente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero...".
Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e,
se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconsequente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta.

Clarice Lispector

Palavras-chave: Clarice Lispector

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Março 09, 2010

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Henrique Chagas esteve no Programa Neusa Matos, e foi por ela entrevistado sobre Ética. A entrevista foi instigante e proporcionou enormes reflexões sobre o tema. O programa foi transmitido no dia 26/10/2009 no canal 20 da TV Cabo, retransmitido a cada hora. Enorme sucesso na cidade de Presidente Prudente/SP, de grande retorno.

Henrique Chagas*, nas suas palestras, busca desenvolver o espaço da ética ao longo da história filosófica da humanidade, conclamando, ao final, para uma ética da responsabilidade para com o futuro: Ética da Sustentabilidade.
Apresenta a problemática da ética a partir dos principais eixos da crise atual: a) a apartação social alarmante, b) o paradoxo trabalho x avanço tecnológico, c) a crise ecológica (escassez de reservas fósseis e água); e d) o lugar do masculino no mundo atual. Os eixos da crise são analisados com foco em conceitos éticos, que são um conjunto de símbolos e códigos desenvolvidos a partir das crenças e da moral.
Segundo Henrique, “ética e moral, todos acham que tem e a grande maioria das pessoas pensam que os outros não tem!”. Então, o que é Ética?
Para a discussão e construção da ética pós-moderna, nas suas palestras, desenvolve o estudo da ética desde Aristóteles, Platão, passando por Maquiavel, Kant, Max Weber, desembocando nos pensadores modernos como Hannah Arendt e Hans Jonas. Ao final, é analisado o pensamento de Zygmunt Bauman, com suas críticas à pós-modernidade e suas consequências éticas.

 

* Henrique Chagas: estudou Filosofia e Direito, com pós-graduação em Direito Civil, com MBA em Direito Empresarial pela FGV. É escritor de contos e crônicas, que publica em sites e revistas eletrônicas. Pratica jornalismo cultural no portal cultural VerdesTrigos.org, do qual é o criador intelectual e mantenedor.

Veja os vídeos:

Parte I

http://neusamatos.com.br/index.php?vdn=273

Parte II

http://neusamatos.com.br/index.php?vdn=274

 

Visite o site do autor:

http://www.verdestrigos.org/


 

Palavras-chave: Entrevista, Ética, Filosofia

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Março 11, 2010

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"Abriu o chuveiro, pegou o sabonete e, com a palma da mão, começou a fazer bolhas bem leves e interessantes. Enquanto assoprava... SSSSUSSSS!, observou que elas eram diferentes umas das outras e podiam transformar-se, de repente em vários personagens, com histórias próprias..."


O trecho acima faz parte do livro "Bolhas", da escritora Dilea Frate. O livro conta a estória de uma menina que vivia com a cabeça nas nuvens e que teimava em ver bolhas em tudo: gente, bicho, poeira, comida, coisas de um mundo de TVs-bolha, computadores-bolha, carros-bolha, com pessoas que se trancavam em casas-bolha. Talvez pensasse assim porque se sentia meio solta e perdida no mundo, como as bolhas, que, por não lhe saírem da cabeça, acabaram chegando ao seu coração.




Dilea Frate é jornalista e escritora. Estudou na ECAUSP. Tem livros infantis e contos publicados. Adaptou seu primeiro livro, Procura-se Hugo, para o teatro. Atualmente está trabalhando em Caxias do Sul gravando cenas de um novo programa que estreia em 22 de abril na Tv Brasil (tv pública, antiga TV E): o Tv Piá.

Dilea Frate estará na FLIPOÇOS 2010 no dia 30 de abril.
Palestra e batepapo sobre o tema "Como um livro pode competir com a tela de TV?"



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Março 12, 2010

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Morre Glauco Villas Boas

 

Hoje o Brasil perdeu um grande talento. E de forma muito violenta.

Morreu, nesta madrugada, vítima de um assalto a mão armada, o cartunista Glauco Villas Boas. Junto dele estava o filho Raoni, que também morreu.

O bom é que, quem tem talento, sempre deixa uma grande contribuição para a humanidade…

donamarta122

netao202

ozetes17

zedoapocalipse70

fonte: http://daredacao.com

Palavras-chave: Cartunista

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Março 15, 2010

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quarta-feira, 10 de março de 2010

DOSSIE VOLTAIRE SCHILLING VII - QUANDO TUDO COMEÇOU..


Rigotto empossa Voltaire Schilling como novo diretor do Memorial do RS
2005
Memorial do RS O governador Germano Rigotto deu posse, hoje (16), ao novo diretor do Memorial do Rio Grande do Sul, Voltaire Schilling, e a oito novos integrantes do Conselho Estadual de Cultura. O historiador adiantou a orientação que vai adotar na sua e gestão e destacou o trabalho realizado por José Bacchieri Duarte, que esteve à frente do espaço cultural até fevereiro deste ano, quando faleceu. "Encontrei uma casa muito organizada, recebi uma herança bendita. Não haverá ruptura", elogiou Schilling, durante ato realizado. "Bacchieri respirava e vivia o Memorial desde que o convidamos para o cargo. Fez com que a instituição saísse destas paredes para levar um pouco da história do Rio Grande do Sul às escolas", afirmou Rigotto. Segundo o novo diretor, a gestão terá como referência para os projetos pontos cardeais. "O Sul serão os interesses de Porto Alegre e do RS, ao Norte tudo o que disser respeito ao Estado em termos de Brasil. O Oeste ficaria com os assuntos internacionais relacionados com a história local, e o Leste, um contato maior com o Mercosul e seus produtores culturais", definiu. "Nossa ênfase também será em publicações, especialmente para alcançá-las aos professores, como material de auxílio a ser utilizado em sala de aula", completou. Rigotto destacou a trajetória de Voltaire Schilling, autor de mais de 60 trabalhos, e a qualificação da Cultura no RS. "É um historiador que dispensa comentários por sua história e sua bagagem. Um Estado com atividade cultural forte tem a capacidade de definir seus caminhos no futuro", disse o governador. "O Rio Grande do Sul e Porto Alegre vão ter muitos equipamentos voltados para cultura. A atividade cultural que caracteriza o Estado, vai ser ainda mais forte", salientou, ao citar, entre os novos projetos, o Multipalco do Theatro São Pedro.Conselho de CulturaO governador também empossou no Conselho Estadual de Cultura Cláudio Britto (titular) e Décio Magalhães Duarte (suplente); Gervásio Neves (titular) e Fatimarlei Lunardelli (suplente); Ivo Ladislau (titular) e Glênio Reis (suplente); Heloísa Beckmann Morgado (titular) e Magda Schneider (suplente); José Henrique Pires (titular) e Paulo Roberto de Fraga Cirne (suplente). Permanecem no Conselho Tailor Diniz Neto (titular) com Luiz Coronel (suplente); Nelson Muratore Hoffmann (titular) com Cleudes Piazza (suplente); Walter Galvani (titular) com Regina Escosteguy Flores da Cunha (suplente). O órgão tem, entre suas atribuições, julgar projetos artísticos e culturais que se candidatam a receber apoio pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC). "O conselho tem desempenhado papel fantástico para o desenvolvimento da Cultura no Estado", afirmou o secretário da Cultura, Roque Jacoby. Também participaram do ato o chefe da Casa Civil, Alberto Oliveira, o coordenador da Assessoria de Comunicação Social do Governo do Estado, Celito De Grandi, o coordenador do Conselho Estadual de Cultura, Jorge Campos, Luiz Alberto Gusmão - que interinamente vinha desempenhando a função de diretor - o secretário municipal da Cultura, Sérgius Gonzaga, e o reitor da Uergs, Nelson Boeira. O porto-alegrense Voltaire Schilling, nascido em 1944, é professor de História e colunista do jornal Zero Hora, além de autor de diversas obras, entre elas: A revolução chinesa: colonialismo, maoísmo, revisionismo (1984), O nazismo: breve história ilustrada (1988), Momentos da história: a função da história na conjuntura social (1988), Estados Unidos versus América Latina: as etapas da dominação (1991), Tempos da História (1995), O conflito das idéias (1999).

Dossie Voltaire Shlling VI - Entrevista de Voltaire recoloca a questão da arte

Arte 05/12/2009 05h10min
Arte na berlinda: Zero Hora entrevista Voltaire Schiling
Artigo do historiador gerou polêmica sobre arte na Capital
O artigo
A capital das monstruosidades, do historiador Voltaire Schiling, publicado em Zero Hora no dia 25 de outubro deste ano, foi o estopim de uma polêmica sobre a arte na Capital gaúcha. Os jornalistas Eduardo Veras e Luiz Antônio Araujo conversaram com Schiling sobre o assunto, na casa do historiador, no Morro Santa Teresa. Confira a íntegra da entrevista.

Zero Hora — O senhor esperava que seu artigo fosse ponto de partida para uma polêmica sobre arte em Porto Alegre?

Voltaire Schilling — Não. Minha percepção era apenas reclamar contra o que eu considero o conjunto de horrores estéticos que nos cercam. Para mim, o ponto de deflagração foi a "casa monstro" (a obra Tapume, de Henrique Oliveira). Acho que não contribui para a cidade. Sou um cidadão de Porto Alegre descontente com o tipo de monumento e estatuária que existe por aí. Pelo menos com aquelas elencadas. Repare que não é uma declaração universal de horror a toda a estatuária da cidade. Depois soube que o mesmo escultor (Tenius) que fez o monumento ao ditador (a obra Monumento a Castello Branco, no Parcão) é o dos Açorianos, que acho um trabalho muito interessante.

ZH — As soluções formais do Monumento a Castello Branco e do Monumento aos Açorianos são muito próximas, se não as mesmas, não?

Schilling — Bom, isso é difícil, não gostaria de me ater. Existem obras de arte moderna e contemporânea excelentes e outras que não o são. Da mesma maneira que um pintor tem o seu mau dia, que um cineasta faz filmes maravilhosos e, de repente, faz um abacaxi ou um extraordinário teatrólogo faz uma peça que não funciona.

ZH — O monumento do Parcão é mal-resolvido?

Schilling — Não, só estou dando uma impressão. Não é uma questão de estudo acurado e profundo. O que acho estranho nessa área das artes plásticas é que, na literatura, o sujeito pode escrever um livro ruim, e a crítica em geral pode manifestar sua hostilidade. A mesma coisa acontece com o teatro, com o cinema. Mas parece que as artes plásticas resolveram reservar a si uma posição de não aceitar e imediatamente cair no pentágono da desqualificação: quem critica é nazista, stalinista, reacionário, ignorante e burro. Sabia que, se houvesse algum tipo de contestação (ao artigo), entraria em uma dessas categorias. Curiosamente, não me chamaram de veado ainda. É praxe isso.

ZH — O senhor foi chamado desses qualificativos?

Schilling — A todo momento. Em e-mails e coisas de tudo que é tipo. Um dos epítetos foi "machista", porque eu estranhava que apesar de a cidade ser simpática, a população ser afável e as mulheres serem as mais bonitas do Estado, não inspirasse os artistas a fazer alguma coisa esteticamente relevante. Mas isso é praxe. Quem usou "nazista" foi o meu querido amigo Paulo Amaral (citando): "Ah, te lembra que os nazistas...". Bom, Rockefeller (John D. Rockefeller Jr., dono da Standard Oil e proprietário do Rockefeller Center) mandou repintar um mural de Diego Rivera (pintor mexicano). O primeiro sujeito que usou essa palavra associada à monstruosidade foi Walter Rathenau, judeu ilustrado, morador de Berlim, riquíssimo. Ele escreveu um ensaio no final do século 19 no qual chamava Berlim de "a cidade mais bonita do mundo" e dizia: "Nossa capital é a principal acolhedora da feiúra moderna". Antes dos nazistas, essa estética da feiura já provocava estranhamento.

ZH — No texto o senhor usa termos como "monstruosidade", "flagelo", "medonhice", "perversidade" em relação às obras que rejeita, num sentido não irônico. O senhor ficou surpreso com a reação a esses qualificativos?

Schilling — Não. O texto também procurou ser divertido. É evidente que tem ironia. Se tu olhares o Monumento a Castello Branco, ele pode ser entendido como desembarque de um extraterrestre, por que não? Aquela outra, o "timão" (Estrela Guia, de Gustavo Nackle), parecia realmente ser feita de estrume, de esterco. Teve um sujeito que me falou que buscava a mulher aqui na Febem e toda vez que passava em frente (à obra) se sentia mal do estômago. O cara tinha engulhos ao passar por aquilo. Se tu perguntares para as pessoas da Zona Sul o que eles acham daquilo... Faz um levantamento. É claro que eu procurei fazer ironicamente a coisa. Não sou a favor de que as massas se reúnam e destruam as obras de arte. Fiz uma ironia. Apesar de que tu sabes que hoje em dia há instalações em que as pessoas chegam, e o artista entrega um martelo para o cara destruir.

ZH — Ou seja, de fato o senhor acha que Porto Alegre não tem de se livrar dessas obras?

Schilling — Não. Não. Não. É o seguinte: doravante, doravante... Eu acho difícil porque existe de certa forma no circuito dos artistas plásticos uma tirania que acovarda as pessoas. Fica todo mundo apavorado. Ninguém gosta, mas ninguém ousa dizer que o rei está nu e que isso é uma porcaria. No Brasil inteiro, tu tens Affonso Romano de Sant'Anna (poeta), Ferreira Gullar (poeta e crítico)... Por quê? Porque tu pagas um ônus. Ninguém gosta de ter seu nome associado ao nazismo. E é a primeira coisa que tu vais encontrar. Pega o artigo do Paulo Amaral: "Ah, os nazistas...". Então as pessoas se acovardam. Outra coisa: "Tu és burro, tu não entendes, tu tens de ter uma formação etc e tal". Me lembro até que saiu uma mineira dizendo assim: "Para fazer uma crítica à arte, as pessoas têm de estudar". Mais ou menos assim como se tivesse que fazer um pós-graduação para, aí sim, ousar fazer algum tipo de ilação negativa. E mesmo se fizer não há garantia nenhuma de que não vão te chamar de nazista ou stalinista. Então, tens de ter coragem, tu entendes? Milhares de pessoas estão se manifestando: "Pô, mas é isso mesmo, eu estava me achando burro...". E não é gente ignorante. Um amigo meu, ex-diretor da Faculdade de Medicina, disse: "Pô, eu também estava achando isso". Só que as pessoas estavam inibidas, porque há uma tirania e tu não podes ser contra.

ZH — Qual deve ser a atitude diante das obras expostas ao público em museus e praças, na medida em que uma parcela desse público não goste do que está sendo exibido?

Schilling — Isso é uma situação difícil de resolver. Arte não se resolve por plebiscito, por levantamentos ou por vontade geral da nação. Isso não funciona com a arte. É um setor que tem de ser tratado com carinho, com certa atenção, não pode ser submetido a plebiscitos. Mas, por outro lado, também não podemos cair na tolerância completa, o que acaba acontecendo em grande parte do mundo com a arte conceitual. Se caiu num vale-tudo. Me diz o que é um charlatão e o que é um artista autêntico. Há controvérsias. Robert Hughes (crítico australiano) considera aquele sujeito que empalhou um tubarão e vendeu por não sei quantos milhões de dólares um charlatão. Outros não o consideram. Qual é o critério de que um fogareiro aceso com uma serpentina em cima é uma obra de um grande artista e não obra de um picareta?

ZH — Quem define os critérios?

Schilling — Nós fomos tão tolerantes que as pessoas passaram a ter medo de exercer qualquer tipo de crítica. Tudo é bonito, tudo é válido, tudo é sensacional. Se tu não entendes a coisa, é porque és burro, idiota, reacionário, não percebes a magnitude dessa mensagem que daqui a alguns anos vai ser consagrada. Essa é a retórica de sempre: "Ah, lembrem os impressionistas..." Bem, vamos lembrar os impressionistas. Praticamente todos morreram bem. Estive na casa de Monet (Claude Monet, pintor impressionista) na França. Ele devia ganhar US$ 10 mil por mês para manter aquilo. Degas morreu bem. Picasso morreu multimilionário. Agora vão me dizer...

ZH — Quando jovens eles foram rejeitados. Há quem diga que o impressionismo foi mais rejeitado do que a arte de hoje.

Schilling — Tudo bem, mas não morreram mal.

ZH — Essa é a dinâmica do sistema das artes. Schilling — É. Vamos dizer o seguinte: é uma necessidade...

ZH — O senhor acha que a obra dos impressionistas acabou se impondo?

Schilling — Vamos supor o seguinte: há um exagero cultivado por eles mesmos. Porque isso fazia parte da demonização do artista: aquela ideia de que "nós, no passado, fomos rejeitados". Isso foi superexagerado no sentido de valorizar aquele martírio que eles passaram. No final, ninguém foi preso, ninguém foi detido. Perto do que aconteceu depois, no século 20, do que os artistas passaram na mão de Stalin e de Hitler... Nada aconteceu disso com os impressionistas. E se houve alguma utilidade nisso... E provavelmente muitas outras escolas artísticas ao longo da história de artistas que começam e são rejeitados. Quem é que disse que o Michelangelo saiu já... ZH — Van Gogh morreu pobre, Modigliani morreu pobre. Schilling — É, sim, mas aí, querido, me desculpe: alcoolismo, né? Aí é alcoolismo, né? Dois casos de coma alcoólica. Morreram por alcoolismo, por loucura alcoólica. E além do mais, até por temperamento. Modigliani foi negociar com um milionário americano e bateu a porta do hotel, xingou o cara. São idiossincrasias da personalidade. ZH — O senhor quer dizer que quem é bom vai ser reconhecido ainda em vida? Schilling — Não, não necessariamente. Mas esse tem sido o grande argumento para tu aceitares tudo. Tem a arte que agora não está sendo entendida. Bom, não está sendo entendida porque tu és burro, reacionário, e mais tarde vai haver a consagração. ZH — Voltando ao tema dos critérios de apreciação da arte: no seu entender, quem deve estabelecer os critérios? Como? Baseado em quê? Schilling — Bom, hoje em dia é fácil se identificar. Há, ao lado dos artistas plásticos, o que eu chamo de sacerdotes sibilinos, que são os críticos de cultura e de arte, que ficam interpretando o que é aquilo: "Ah, essa chapa, essa chapa de ferro, isso aí é a perplexidade do mundo perante as hostilidades etc e tal." Pronto. Do lado, tem o crítico, é ele que interpreta. Ele é o sacerdote sibilino. ZH — E como o senhor acha que seria o ideal? Schillling — Não sei. Eu não sei. Eu não sou artista. Sou um observador e um estudioso. ZH — O senhor é um intelectual. Schilling — Eu fui professor, eu comecei minha vida como professor de História da Arte. Não sou um amador. Eu li pelo menos os principais clássicos, os principais livros de História da Arte, tenho intimidade com esse assunto, não é uma coisa estranha a mim, mas não cabe a mim saber quais são as possibilidades... O que existe hoje é o seguinte: existe uma quantidade enorme de objetos que passam por obras artísticas, instalações etc, e do lado existem os críticos de arte e donos de galeria, que são, digamos assim, os apoiadores desse processo. E o crítico existe, a função dele é de sacerdotisa sibilina, quer dizer, ninguém entende nada daquilo, mas aí vem o crítico e explica, quase como uma espécie de bula de remédio o que é : "Aquilo significa isso, isso e isso". E, apesar das explicações, as pessoas não têm se convencido, né? Então, eu vejo até com preocupação, até é uma preocupação dolorosa com a arte. Eu sou admirador da arte. Eu fico preocupado com o destino da arte. Com esse abismo que está se abrindo, tu entendes? Em vez de haver uma espécie de conciliação hegeliana entre o mundo artístico e o grande público, nós estamos abrindo um abismo cada vez maior onde as pessoas mostram a sua perplexidade, a sua indiferença. Não é bom isso, não é bom isso para ninguém, não é? Eu ainda sou um, digamos assim, um seguidor da ideia iluminista de que a estética tem uma função de melhorar todos nós. A estética faz bem para nós. Agora, em parte, eu te diria que essa fome estética que a humanidade sente ela está sendo desviada para a tecnologia. Por exemplo, as pessoas vão num salão do automóvel e saem absolutamente embevecidas. Coisa que tu não vês quando as pessoas saem de uma Bienal — não é a nossa, qualquer uma. Tu não vês esse empolgamento das pessoas. ZH — O senhor foi à Bienal este ano? Schilling — Sim. ZH — Aonde o senhor foi? Schilling — Ah, fui ali, aquela ali do... Aliás, hoje eu estou com vontade ainda de ... Tenho um compromisso lá e vou, quero ver se faço um arremate final. ZH — Ali no Margs? Schilling — É. No Margs eu fui, claro, é do meu lado (Voltaire é diretor do Memorial do Rio Grande do Sul, situado no antigo prédio dos Correios, vizinho do Margs, na Praça da Alfândega). Foi a que tem sido mais visitada, inclusive... ZH — E o que o senhor achou? Schilling — Olha, eu achei que tem trabalhos escolares, né? Tem coisas assim de trabalho de ginasiano, colagenzinha de ginasiano, né? ZH — O senhor não acha que o fato de a Bienal estar na sétima edição, de ter tido um crescimento de público sustentado, de ter atraído não só o público adulto, que frequenta museus, mas de ter se tornado um ponto de referência para escolas, de alguma maneira indica que a disposição do público não é exatamente a que o senhor tem? Schilling — Olha, duas coisas. Primeiro, eu não sou contra a Bienal. Acho que a Bienal é ótima para a cidade. Acho muito bom. Pelo menos de dois em dois anos, há um encontro, uma confraternização das propostas dos artistas com o público, que é uma coisa boa para a cidade. Como é que eu vou ser contra a arte? Em segundo lugar, mesmo com o aumento de público, eu não encontrei empolgação. Não tem. Eu estou numa posição estratégica, já é a terceira Bienal (à qual assiste como diretor do Memorial do Rio Grande do Sul). Nunca, nunca nenhuma pessoa demonstrou na minha frente, para amigos meus, para pessoas próximas a mim, empolgação: "Vi tal coisa maravilhosa". Nenhuma vez. Ao contrário: decepção. A palavra é decepção. Sempre decepção. As pessoas vão com toda a boa vontade e saem decepcionadas. Muitas pessoas dizem: "Mas essa é a função da arte hoje. Criar esse tipo de embaraçamento etc e tal". ZH — Nenhum trabalho lhe empolgou ali no Margs? Schilling — (Pausa.) Não. (Mais baixo.) Não, não. Os meus, digamos assim, os meus ídolos, as pessoas que eu admiro, são os impressionistas... mesmo os cubistas e os futuristas... Eu sou, digamos assim, defensor da arte pré-contemporânea, da primeira arte moderna, pré-contemporânea. Isso aí (da Bienal) pouco diz para mim. Então a primeira questão que eu levanto é isso: por que um grupo reduzido de artistas plásticos, de críticos culturais e de donos de galeria atingiu um patamar que se coloca acima da crítica e reage ferozmente quando criticado? Essa que eu acho que é a questão interessante. É um grupo muito pequeno se tu somares os artistas plásticos e os críticos culturais etc e tal que aterrorizam a população. Tanto é que as pessoas não gostam mas não têm coragem de dizer. Esse é um sentimento. Vocês não percebem isso? ZH — Será que essa reação não foi à maneira como o senhor se posicionou? O senhor chamou as obras de arte de "flagelo", disse que elas "atormentam", disse que uma parecia "estrume", chamou de "monstruosidades". O senhor juntou obras modernas e contemporâneas, obras selecionadas por concurso e obras temporárias. Será que não foi isso que incomodou? Schilling — Não. ZH — Chamar de "flagelo", "monstruosidade"... Schilling — Não. Não. Não. ZH — Não foi isso? Schilling — Não. ZH — O senhor acha que os termos foram... Schilling — Mas são sempre os mesmos. Olhem: se eu fosse o mais suave possível, a reação seria a mesma: nazista, stalinista, reacionário, ignorante e burro. Tenta fazer um artigo. Tenta fazer um nessa linha... ZH — Eu fiz um artigo. Schilling — Não, tudo bem, mas tenta fazer um no sentido crítico. ZH — Eu fiz um artigo crítico sobre a Bienal. Schilling — Vê se não vai desabar sobre ti. ZH — Eu fiz um artigo crítico sobre a Bienal. Schilling — Eu já sei. ZH — Para eu entender, professor: o senhor acha que os seus termos foram adequados, corretos e equilibrados e a reação é que foi desproporcional? Schilling — Não, eu não estou incomodado com a reação... Tu achas que eu estou incomodado com a reação a essa altura da minha...? Eu só tô dizendo que isso é a praxe. Essa é a praxe. Tu acha que isso me surpreende? ZH — Eu acho que se o senhor foi chamado de nazista tem de se surpreender. Schilling — Não, não, ao contrário, querido. Tu acha que a essa altura da minha vida, com tudo que eu já vi, com tudo que eu já passei, com ditadura que eu enfrentei, eu vou me assustar porque um sujeito lá escreveu que eu sou nazista? ZH — Mas o senhor, como intelectual, tem uma posição pública. Se alguém lhe chama de nazista num debate público, essa pessoa tem de sustentar aquilo que está dizendo. Estou lhe perguntando se houve extrapolação da parte dos que lhe responderam. Schilling — Não. Não houve. É praxe. É praxe. Em toda discussão que envolve crítica às artes plásticas contemporâneas, tu és taxado de nazista ou de stalinista. Toda. Mesmo que eu fosse suave, mesmo que eu usasse uma adjetivação mansa, a resposta seria essa. ZH — Como é que o senhor qualifica essa adjetivação que o senhor usou? Schilling — Digamos assim, fruto da indignação de um cidadão de Porto Alegre. É um texto de uma pessoa indignada. Eu não acho que a nossa cidade mereça isso. Acho que a nossa cidade merece uma escultuária melhor. Não sei qual. Não sou artista. Né? ZH — O senhor disse que, em matéria de arte, gosta dos impressionistas e da arte moderna. Schilling — Certo. ZH — Pré-arte contemporânea. Schilling — Ou arte conceitual. Que é um gosto. ZH — Digamos que nós sejamos vizinhos, e eu goste da arte renascentista. Como é que nós podemos chegar a um entendimento sobre o tipo de arte que tem de ser exposta na cidade? Schilling — É, isso é uma questão difícil, mas observa que tanto o impressionismo quanto a Renascença estão mais ou menos dentro de um enquadramento comum: pintam figuras humanas, pintam paisagens. Tu pegas uma tela impressionista, tu pegas um Monet e pega um Fra Angelico, tem denominações comuns: são figurativas, são paisagens. Claro que um está mais marcado pela presença da vida santificada e outro pela vida laica, por assim dizer, mas existem certas identificações. Agora, de repente, o sujeito cria um tarugo de ferro e diz que isso é a chegada de Deus na Terra, ali ele rompe, tu entende? Esse nosso alinhamento — você simpático ao Renascimento e eu ao impressionismo —, nós temos algo em comum. ZH — Mas o senhor conhece História da Arte e sabe que do Renascimento ao impressionismo e à arte moderna há uma ruptura muito grande. A arte moderna teve de abrir caminho frente a críticos muito mais, digamos, indignados do que o senhor. Schilling — Eu só quero te dizer que ainda entre o impressionismo e a Renascença existem pontos, denominadores comuns que agora não existem mais. Bom, inclusive não existe mais pintura. Não existe mais escultura. Foram abolidos, né? ZH — O senhor está reconciliando a arte renascentista com o impressionismo e a arte moderna. Para o senhor, isso tudo é parte de um mesmo movimento e de um mesmo entendimento, pode ser reconciliado e se chegar a um acordo. Mas eu posso achar que não. Posso achar que é só a arte renascentista que tem sentido. Schilling — Tudo bem. Não vou te chamar de nazista pelo que tu estás dizendo. Não vou te chamar de reacionário nem de homossexual porque tu pensas assim. ZH — Mas já que nós estamos falando de espaços públicos, como chegar a uma definição? O senhor diz: "Porto Alegre, cidade aprazível, povoada por gente simpática, habitada pelas mulheres mais belas do país". Como é que nós, os porto-alegrenses, mesmo aqueles que não são tão bonitos nem tão simpáticos, vamos chegar a um entendimento sobre que arte tem de ser exibida? Schilling — A prefeitura tem órgãos, tem possibilidade de criar comissões, de aprovar ou não. Mas eu sou cético quanto a isso. Eu sou cético em relação a isso. Eu não acredito que isso aí vá funcionar. Porque a imposição desse pequeno grupo é tamanha que vamos supor que uma comissão rejeite. Desaba: "Vocês são nazistas, reacionários, burros, retrógrados". ZH — Num concurso uns vão ser excluídos e outros selecionados. Schilling — Sim, mas seja o que for, mas a adjetivação é terrível. A pergunta que eu faço é: como esse pequeno grupo, numa democracia, aterroriza milhares de pessoas? Milhares de pessoas. Não gostam e não podem dizer que não gostam. E se ousarem dizer que não gostam, são submetidas a uma avalanche de ofensas aterrorizadoras. Não é só eu. Qualquer um. ZH — Algumas das obras que o senhor rejeitou no artigo foram aprovadas em concursos públicos inclusive com a presença de artistas consagrados que o senhor cita. Por exemplo, a obra de Gustavo Nackle foi aprovada num concurso que tinha, na comissão julgadora, Xico Stockinger. Schilling — É, deve ter. Deve ser. Porque até é solidariedade de classe. Corporativo. Espírito corporativo. Ninguém quer brigar nessa área. Ninguém quer brigar. Ninguém quer levantar celeuma. O princípio é: "Ah, é genial". Tudo é genial. É criativo, o que tu vais dizer? Tu que não entendeste". Isso aqui (indica uma garrafa térmica sobre a mesa) é o ready made. Se eu boto isso aqui numa exposição não vale nada, mas vamos supor que um artista plástico ponha isso aqui: "Ah, é uma obra maravilhosa. Viram a genialidade do sujeito?". Não é? Eu não posso colocar isso porque não sou artista. Então existe todo um espírito de confraria, é natural que seja assim, um procura ajudar os outros, ninguém critica. Eu nunca vi uma crítica. ZH — O senhor conhece algum caso de artista que tenha tido a sua obra rejeitada com base na alegação de que "isso não é arte" por alguma dessas comissões? Schilling — Não sei. Eu não tenho intimidade com esse tipo de coisa. Nunca participei de nenhuma comissão desse tipo. Nunca soube disso. Pode ser, se é isso que tu estás levantando. Tu tens um espaço público só, deve ter 10 candidatos, nove são rejeitados. ZH — Mas com base nesse critério de que não se trata de arte. Schilling — Mas eu não sei. Não sei. Não sei. Não sei qual é o critério usado. Não tenho a mínima ideia. Só que é isso, quer dizer, tu vês que a cidade começa a ficar tomada por objetos absolutamente estranhos, que não dizem nada a ninguém a não ser aos críticos de arte. "Ah", num deslumbramento, "você não entendeu, você é uma pessoa reacionária, você é um assassino de judeus, não entende a profunda magnitude dessa obra". Entende? Então as pessoas ficam apavoradas. Essa é que é a verdade. ZH — O que me intriga é que o senhor fala sempre de uma maneira generalista: "Ninguém sai da Bienal entusiasmado". Eu já vi até crianças entusiasmadas. Uma coisa é a crítica a priori que rejeita. Outra coisa é ir lá, olhar e pensar. Schilling — Mas a minha crítica não foi à Bienal. Tanto assim que grande parte das estátuas que estão aí não eram de pessoas da Bienal. Esse desse uruguaio, aí, essa estrela... Eu só não queria aquele que parece um tarugo. Que um sujeito que está com esse negócio aí sem ter o que fazer, não vendeu ele, então deixa de doação ao município. Nesse caso... ZH — Ele criou especialmente para aquele lugar. Schilling — Bom, só para te falar. O Robert Hughes exatamente diz isso: a arte conceitual virou brincadeira de criança. Entrar num tubo, sair não sei o quê. Eu acho que as crianças se divertem. Mas elas também se divertem num playground. Elas se divertem num carrossel. Tu não leste a entrevista do Robert Hughes? ZH — Acho que não. Schilling — É, a famosa entrevista da Veja. Eu reproduzo. Basicamente, o que ele diz... O que me espanta é que isso passe em Porto Alegre por novidade. Essa entrevista já foi feita há mais de dois anos. ZH — A da Veja? Sim, eu li. Schilling — Ele é tido como um dos maiores críticos de arte contemporâneos. E ele diz: "Olha, eu parei de escrever porque isso virou uma comercialização, um vale-tudo, nada mais significa nada e eu me nego a entrar nesse negócio". Pronto. Entende? Porque às vezes ele fazia menção a respeito de uma determinada peça qualquer de arte e aquilo disparava no mercado. E ele disse: "Eu não vou colaborar com isso. Me nego". Se negou a escrever. Podia continuar a escrever. Está com 68 anos. Por que que o maior crítico de arte, não é da Holanda, é dos Estados Unidos, ele é australiano de origem, mas... né? Peguem a entrevista dele. Eu não disse nada de mais. Essas críticas que eu fiz ao Duchamp ele também fez. Ele disse: não, o Duchamp de um lado liberou os artistas, de outro lado foi uma catástrofe. Eu acho que foi uma catástrofe. Não é Voltaire Schilling só que está dizendo. ZH — O senhor acha que Duchamp foi referência, por exemplo, para o Monumento a Castello Branco? Schilling — Não sei. Não sei. ZH — Mas é só olhar. Schilling — Vem cá, num artigo de jornal... ZH — É só olhar para ver. Schilling — Bom, não é essa questão. A questão é a seguinte, as pessoas cobram... ZH — O senhor escreveu que era. Schilling — As pessoas me cobram: "Por que tu não botaste tal coisa?". Outro quer: "Mas tu tinha que por a monstruosidade na arquitetura". Vem cá, mas eu estou num texto limitado. Nem sei se... ZH — Mas esta entrevista é justamente para o senhor entrar nesses detalhes. Schilling — "Porque tem monstruosidades na arquitetura. Porque tem não sei o quê..." É... é... Bom, não era a minha preocupação, tu entende? A minha preocupação é apenas isso, tu entende... ZH — Mas tem uma diferença entre o senhor e Robert Hughes. Schilling — Tem, claro. Primeiro uma diferença financeira. (Risos.) ZH — Digo, uma diferença em relação à atitude diante da obra. Ele não está propondo empacotar o Duchamp e mandar embora. Schilling — Eu, olha, eu não sei, quer dizer, eu pelo menos tenho uma, é um tipo de reação, a reação dele foi outra, foi se refugiar numa, digamos assim, numa vida mais solitária. Talvez seja diferença de temperamentos. Eu não quero desmantelar o que existe aí. Isso aí não vai acontecer. É que há... ZH — Mas o senhor não quer porque não vai acontecer ou porque é preciso haver uma outra resposta? Schilling — Não, não é isso. Digamos assim: doravante, a minha expectativa é que as pessoas encarregadas disso tenham mais cuidado, só isso. Doravante, pensem um pouco: "Pô, mas será que isso realmente é uma coisa meritória para nossa cidade? Ela merece isso?" ZH — Ter cuidado é um conselho bastante amplo. Do ponto de vista de quem julga a obra de arte, quais seriam as principais diretrizes que consubstanciariam esse cuidado? Schilling — Não tenho condições (de responder) porque eu não sou artista. Eu só reajo: isto aqui não está bom, não está bom, não está bom. Minha reação é essa. Não é a questão nem só da feiura, é o mau gosto, tu entende? É o mau gosto. É o mau gosto. E se por trás de mim não tem ninguém, se é um ato absolutamente isolado da minha personalidade, não sei por que vocês então dão valor para isso. ZH — Nós damos valor mesmo que seja um ato isolado. Schilling — Sim, pois é, eu não estou entendendo... ZH — Nós não estamos lhe entrevistando como um deputado ou como um representante de um partido político. Schilling — Eu participei de um debate em que 80% das pessoas concordavam com a minha posição. Se nós chegássemos a uma avaliação, nós vamos ver que Porto Alegre está povoada de 800 mil nazistas, reacionários, burros e ignorantes, o que é um dado absolutamente alarmante sobre a nossa população. Pega os critérios tradicionais de defesa do que eu chamo de talibã estético que nós estamos vivendo. 80% da população de Porto Alegre é isso aí. ZH — Mas me parece que quando lhe chamaram dessa maneira, não era seu gosto que estava em discussão, mas o fato de o senhor pedir que as obras fossem despachadas. Schilling — Não. Não. Não. Não é isso. É sempre a mesma coisa. Mesmo que eu não quisesse tirar, eu te passo "n" críticas onde é sempre a mesma coisa: "o nazista, o nazista, o nazista". É a mesma coisa sempre. É o argumento de praxe. Tu invalida, tu entende? "Isso é coisa do nazismo." Eu estava dizendo: bom, então a campanha antitabagista deve ser suspensa porque foi apoiada por Hitler. Ele não gostava que fumassem. Ele queria desencadear na Alemanha uma campanha antitabagista. ZH — Mas existe uma diferença entre fumar ou não fumar e dizer que obras têm de ser despachadas. Schilling — Não, eu só quero dizer assim... ZH — O senhor disse: "Nós temos sido excessivamente tolerantes". Quando o senhor diz "nós"... Schilling — Os 80%. ZH — A palavra "tolerância" pode ser aplicada à relação entre etnias e nacionalidades. Foi muito usada ao longo do século 20. No que toca à arte, é pouco usada porque em geral artistas e críticos concordam que uma manifestação artística pode ser válida ou não, boa ou ruim, bela ou feia. Mas aquilo que está além da tolerância tem de ser descartado. Também no século 20, o que estava "além da tolerância" foi descartado, e sabemos que isso está sempre associado a experiências bastante ruins na história. Schilling — Sim, sim, sim. ZH — Essa é uma palavra sua. Eu não estou colocando na sua boca. O senhor usou "tolerância". Schilling — Sim, sim. O que eu digo "tolerância" é a ausência de crítica. Então, como não há crítica, tu vais, tu entendes, tu deixas, digamos assim, hoje a arte corresponde ao que o artista acha que é arte, a sua subjetividade. ZH — E não tem de ser assim? Schilling — Bom, agora é assim, mais do que nunca: "Eu decido o que é arte". Tu conheces o caso daquele que vendeu fezes, né? Aliás, só um italiano poderia fazer um negócio desses. O cara vendeu fezes. ZH — Era uma provocação. Schilling — Seja o que for. Andy Warhol pedia que alguns amigos dele urinassem em cima de certas telas que ele deixava no chão. Entende? Esse tipo de coisa. Então, se tu não fazes... Digo "tolerância" no sentido de ausência de crítica. Então de repente tu tens aberrações. É algo assim tipo a criança traquinas: vai fazendo, vai fazendo arte, de repente ela incendeia a casa? Por quê? Porque tu és excessivamente tolerante e conivente. Então talvez se nós exercêssemos sobre a arte conceitual... ZH — O senhor acha que os nossos artistas estão a ponto de incendiar a casa? Schilling — Não, metaforicamente, né? A partir do momento em que você não exerce nenhum tipo de crítica, você abriu a torneira da tolerância por uma série de razões, você termina de certa forma contribuindo para essa situação. De certa forma foi a contribuição que os intelectuais e os críticos fizeram: esse enorme abismo que existe entre as pessoas e a arte hoje em dia. Como é que tu explicas esse fenômeno? Todo mundo é burro, então? Todo mundo é burro? Ninguém entende, todo mundo é burro. Reacionários, canalhas, homossexuais... ZH — É o entendimento que está em jogo? Tem de entender a arte? Será que as pessoas entendem a Mona Lisa, por exemplo? Schilling — Digamos assim, ela não requer a necessidade de um enorme ensaio ou de uma bula. ZH — Mas há enormes ensaios sobre a Mona Lisa. Schilling — Sim, tudo bem, mas isso não é necessário. Não é necessário da parte do espectador que ele se informe de uma enorme literatura para se entusiasmar com a Mona Lisa. ZH — Por que o senhor acha que as grandes obras de arte suscitam permanentemente releituras, se não é necessário? Schilling — Releituras em que sentido? ZH — Releituras, estudos, interpretações. Schilling — Isso mostra a capacidade de transcendência e perenidade da arte. Essa notável capacidade que alguns grandes artistas têm de se perpetuar pelo tempo. Esse é um problema que a arte conceitual abdicou. Quando um Fídias, um Praxíteles esculpia alguma coisa, ou um Leonardo da Vinci, o cara imaginava que isso aí era uma maneira de perpetuar a ele e a sua obra. Hoje em dia não, você faz uma montagem, desmonta, vai embora... ZH — Isso é uma das maneiras de um artista rejeitar o mercado. Era o que estava na pauta dos artistas conceituais: criar uma obra efêmera. Schilling — Ao contrário, ele criou um bem de consumo descartável. ZH — Mas a obra dele não é vendida. Schilling — Bom, isso é um outro problema. Eu acho que se essa obra dele fosse comprada, dificilmente ele rejeitaria um bom par de dólares. Eu não acredito que nenhum artista profissional hoje faça algum tipo de coisa sem querer um dinheiro em troca. Não é possível. ZH — Mas os artistas conceituais que o senhor citou, nos anos 60, queriam fazer isso. Schilling — Bom, tem gente bizarra em todas as áreas. Vocês escrevem no jornal esperando salário. Eu dou minhas aulas esperando salário. E é justo. Agora, o que aconteceu nesse aspecto, voltando à questão da tolerância, foi exatamente a ausência de crítica, tu entende? Então a coisa foi indo, foi indo, e o resultado concreto é que existe um enorme abismo entre o mundo artístico de hoje, especificamente das artes plásticas, e o público em geral. Em qualquer lugar do mundo, não é aqui. ZH — O senhor usou a palavra "tolerância" e agora disse que estava se referindo à crítica. Em vez de "excesso de tolerância", teria havido "ausência de crítica". Me parece que existe uma considerável obra crítica em relação a todos os temas da nossa discussão. A própria estatuária de Porto Alegre tem estudos e livros. O que é preciso fazer, no seu entender, para que essa crítica encontre o seu ponto? Schilling — Vocês supõem a crítica no sentido como a filosofia idealista tentou, no sentido de colaborar, esclarecer. A palavra "crítica" que estou dizendo é em outro sentido. É de denúncia. É uma empulhação, tu tens de denunciar a empulhação. ZH — Tudo é empulhação? Schilling — Não, não, não é isso. Mas tem de denunciar quando é empulhação. ZH — Aquelas obras que o senhor cita são empulhação? Schilling — Eu não sei, eu não estou preocupado com isso. A minha preocupação não é essa. A minha preocupação é de ordem estética. ZH — Mas o senhor acabou de dizer que têm de ser denunciadas. Schilling — Eu não estou dizendo que essas obras são empulhação. Eu não disse isso. São simplesmente cafonas, feias, não correspondem a, digamos assim, ao que eu imagino que seja um lugar gostoso de passar e ver um bom monumento. Necessariamente não precisa ser de beleza, que tenha de ser uma Vênus de Milo, um Apolo, não é isso. Mas que de alguma forma ele tenha uma expressão estética interesssante, aceitável por todos. Ou pelo menos pela maioria. Agora eu volto a te dizer, eu sou cético. Eu acho que nós somos governados por uma tribo esotérica, que domina os jornais, que domina as revistas, que se associa a galerias, que se associa ao marketing, que se associa aos leilões estapafúrdios, e isso aí, e além do mais às coleções dos milionários. Que arte de transgressão é essa em que as principais obras de transgressão são compradas pelos milionários? As pessoas mais conservadoras do Ocidente têm seu dinheiro empregado nisso aí. E obviamente que elas não querem que alguém diga lá: "Olha, o rei está nu. O senhor comprou uma caixa de sabão Omo, não um ready made". Elas não querem saber disso. Agora, volto a insistir nessa questão: como, de que maneira, quais as condições históricas que permitiram que um grupo, essa tribo esotérica domine o universo das artes plásticas, se imponha perante a população e aterrorize a população. As pessoas se sentem aterrorizadas, com medo de comentar qualquer coisa. Elas saem de uma exposição, não gostam e não têm coragem de dizer que não gostam. Lembra um pouco, tu entende, o filme na minha época de geração, a nouvelle vague. A gente ia ao cinema e não entendia. Então tinha em Porto Alegre uns quatro ou cinco especialistas que entendiam o filme. Então aquelas pessoas eram os sacerdotes sibilinos da nossa época. Eles explicavam: "Olha, o (Jean-Luc) Godard quis dizer tal coisa". As pessoas não entendiam e ficavam absolutamente envergonhadas porque não entendiam os filmes. Então tinha que ter um especialista, um crítico de arte, um crítico de cinema que explicava ao vulgo o que aquilo queria dizer. É mais ou menos essa situação que hoje tu encontra nas artes plásticas. ZH — A nouvelle vague era uma empulhação? Schilling — Não, não estou dizendo, estou dizendo que era um tipo de proposta cinematográfica que exigia esse tipo de coisa. Tinha porcaria também. Tinha porcaria. Nem tudo que o Godard fez... Tanto é que se tu contares ao todo tem quatro ou cinco filmes do Godard que são relevantes, e o resto caiu na poeira da história. Quem é que disse que isso que está aqui em Porto Alegre é o supra-sumo, é a maravilha? Por que não se pode aventar a hipótese de que é ruim? Em nenhum momento ninguém pode pensar que a coisa não funcionou, que foi um momento de infelicidade estética da cidade. Por que não pode ser? Por que 800 mil pessoas estão erradas? ZH — Pessoalmente, posso não gostar da escultura do Gustavo Nackle, mas não acho que, por eu não gostar dela, ela tenha que ser despachada para fora da cidade. Ela pode nos dar algum ensinamento. Schilling — Ah, mas tu tens de entender a ironia, a brincadeira, a ironia... ZH — É brincadeira? Schilling — Não, não é... Bom, quem chamou de brincadeira, não sei o quê, foi o... o... ZH — O senhor chamou agora. O senhor disse que era uma brincadeira. Schilling — Eu estou dizendo... É o tom. O tom irônico, né? Tu vês que é o tom irônico. Tu achas que eu vou chefiar brigadas e... ZH — Mas o leitor desta entrevista tem de levar em consideração os termos que o senhor usa. O senhor diz que estamos sendo "aterrorizados". Meu filho de cinco anos foi à Bienal e não voltou — pelo menos perceptivelmente — aterrorizado, voltou falando das coisas que viu lá. Nosso papel nesta entrevista é permitir que o senhor esclareça, detalhe e disseque sua forma de pensar. Qual seria a maneira de essa população — "aterrorizada", para usar sua expressão — lidar com essas obras? Schilling — Em primeiro lugar, não acredito que essa obras vão desaparecer. As circunstâncias históricas em que elas foram gestadas e o apoio que os Estados Unidos dão a isso dificilmente vão fazer com que esse tipo de arte vá desaparecer. Em parte, o que aconteceu é fruto da Guerra Fria. Essa ausência de crítica aconteceu num contexto muito interessante da Guerra Fria. Não é só da Guerra Fria, já era antes, dos anos 30. Os americanos queriam fazer uma confrontação com o que estava acontecendo na Europa, especialmente na União Soviética. Tu observa que o MoMA (Museu de Arte Moderno de Nova York) é inaugurado nos anos 30 exatamente quando Hitler chega ao poder e decreta o fim da arte expressionista na Alemanha. Em 1934, Stalin decreta com seu ministro da Cultura, Zhdanov (Andrei Zhdanov só foi encarregado da política cultural na União Soviética em 1946), o realismo socialista. Essa tolerância que surgiu nos Estados Unidos com a criação artística — faça o que quiser, imagine qualquer tipo de possibilidade criativa — estava estreitamente vinculada ao combate da Guerra Fria — ao nazismo e, depois, ao comunismo. Tanto é que a CIA organizou expedições artísticas ao largo da Europa para exatamente fazerem isso: "Reparem como os artistas americanos têm absoluta liberdade enquanto os soviéticos estão submetidos ao dirigismo, às exigências de um Estado totalitário". Então essa é a origem histórica e sociológica dessa história toda. ZH — O senhor está se referindo ao expressionismo abstrato. Schilling — Isso, e tudo que veio depois. A arte conceitual é derivada do Marcel Duchamp. ZH — Mas o exemplo que o senhor estava dando era claramente o do expressionismo abstrato americano. O crítico era Greenberg, os artistas eram Pollock, De Kooning e outros. Isso faz com que se tenha de rejeitar todos os artistas expressionistas abstratos? Schilling — Não. As qualidades do Pollock são inquestionáveis. Eu nem teria qualificação para desqualificar aquilo que é quase uma unanimidade dentro da arte moderna que é a arte do Pollock. Só estou dizendo de onde vem a tolerância. A tolerância vem exatamente disso: a posição que os Estados Unidos marcaram no sentido de dizer que "a nossa terra é a terra da liberdade, os nossos artistas fazem o que quiserem, não há tipo de censura nenhuma". Esse tipo de arte foi apoiado pelos magnatas americanos. O MoMA foi fundado pela família Rockefeller. Há um claro interesse de que esse tipo de arte corresponda aos anseios de liberdade defendidos pelo Ocidente no seu enfrentamento com o mundo comunista. ZH — Mas, no mundo comunista, os artistas que tentavam fazer alguma coisa parecida estavam a serviço de quem? Foram ferozmente reprimidos e mandados para campos de concentração. Schilling — Não. Não. Não. Não é bem isso. Não digo que eles tenham sido... Até aqueles que pintavam de maneira equivocada no realismo socialista também foram perseguidos. Mas agora tu tens de ver que há uma interpenetração da arte. Agora, por exemplo, há instalações na Rússia... ZH — Mas o senhor atribui a origem desse momento da arte contemporânea a um objetivo político da elite americana. Na União Soviética, o único país comunista nos anos 30, havia artistas em todos os campos que faziam um outro tipo de arte. Maiakovski, que se suicidou em 1930 por razões também estéticas, tinha algum tipo de associação com os magnatas de Nova York? Schilling — Não, não. É que de alguma forma há uma interpenetração. A própria arte dos anos 30 também foi influenciada no Ocidente pelo realismo socialista, em geral com pintores comunistas. Na Alemanha, tu tens a Kathe Köllwitz, uma figura significativa. Os muralistas mexicanos eram todos integrantes de variantes do Partido Comunista. Há uma interpenetração. O que eu quero te dizer é qual pode ser a provável origem dessa excessiva tolerância. Era uma posição claramente ideológica. O nosso artista, nos Estados Unidos, faz o que lhe vem na telha e ninguém tem de se opor. ZH — O senhor não acha isso positivo? Não é positivo que os artistas possam fazer aquilo que lhes dá na telha? Schilling — É. Isso. Agora vem um outro problema... ZH — Hoje, por exemplo, em Cuba, no Vietnã, na Coreia do Norte, na China, entre outros países, os artistas não podem fazer aquilo que lhes dá na telha. Schilling — É. Isso. Bom. Vamos ver agora outra questão. Por que se gerou esse universo enorme de coisas sem sentido? Aí vem um outro problema, que é o descolamento dos artistas daquilo que se chamava grande arte. Se tu olhares ao longo dos 3 ou 4 mil anos da cultura ocidental, o artista exercia o seu metier em função de alguma grandeza. O Partenon, por exemplo, tinha a função de exaltar a cidade e a deusa da cidade. O artista não está criando por si, ele simplesmente está a serviço de uma força maior. E assim você vai ver que os artistas sempre estavam a serviço ou do Estado, ou da Igreja. E depois também a existência de uma nobreza refinada na Europa. Então tu tens realmente uma sustentação. O artista era chamado, o mecenas dizia: "Tu vais fazer isto, isto e isto". Ele usava a criatividade dele em função da visão grandiosa que o mecenas passava para ele. A Eneida do Virgílio foi um projeto feito pelo próprio mecenas, a mando do Augusto: você tem de criar alguma coisa grande do nosso passado romano que não seja "nós, filhos da loba". Por exemplo, Versalhes: é um palácio maravilhoso, uma decoração fantástica. De onde saiu aquilo? Da exigência da monarquia absolutista de Luís XIV. Agora você vê hoje em dia o que está acontecendo. Não existem mais essas forças, foram dissolvidas na era moderna. Não existe mais o Estado absolutista, não existe mais a Igreja com o poder que exerceu na Idade Média, e não existe mais a nobreza, que foi substituída pelo empresariado, pela burguesia, pela classe média. Tu tens hoje o artista isolado — ele, entregue a sua própria subjetividade. Ele já não representa grandeza nenhuma, ele representa apenas a sua subjetividade. ZH — Isso é ruim? Schilling — Não, não estou dizendo que é ruim ou não. Mas o que interessa a subjetividade dessas pessoas? ZH — Não interessa? Schilling — Não. A quem interessa e por que interessa? ZH — E o senhor, o que representa se não a sua subjetividade? Schilling — Olha, de alguma maneira... Tu estás fazendo referência ao meu artigo? ZH — Não, me refiro ao seu papel como intelectual. Schilling — Olha, de alguma maneira, eu, eu, digamos, fui no meu artigo o intérprete dessa insatisfação que existe na nossa cidade. Não sei em outras. Mas aqui, pela repercussão que teve, eu fui intérprete involuntário disso. Então, nesse caso específico, a minha subjetividade se articulou com o mal-estar coletivo das pessoas em relação ao que se passa na nossa cidade especificamente — não estou falando da Bienal — especificamente a estatuária e a escultuária de nossa cidade, especificamente aqueles que foram citados por mim. Só isso. Então eu fui intérprete. Isso pode acontecer. Às vezes você escreve alguma coisa e provoca... ZH — Então a subjetividade de alguém pode interessar aos outros. Schilling — Pode, sim. Pode. Mas isso não é... Agora também é o seguinte: pode não provocar nada. Pode também provocar desinteresse. ZH — Mas pode provocar interesse. Schilling — Pode. Pode. ZH — Quando Rilke escreve, é a subjetividade dele que está em questão. Schilling — Isso. Tudo bem. Tem coisas que tu consegues transformar a tua subjetividade em uma grande arte. Mas isso cabe aos grandes artistas, e não a todos, né? Não são todos os poetas que colocam a sua subjetividade e conseguem a consagração. ZH — Mas o poeta tem o direito de buscar a conexão com o gosto e com o público. Schilling — Não tem dúvida. Não tem dúvida. Ele tem o direito de fazer o que quiser. A priori, todos nós temos o direito de fazermos o que quisermos. Só que eu digo: grande parte dessa subjetividade, na verdade, fracassa. Como grande parte da poesia e da novelística não se sustenta ao longo da história. ZH — Mas o tempo vai selecionando. Schilling — É. Isso mesmo. ZH — Na época de Leonardo e Michelangelo havia outros pintores. Schilling — É. Agora o grande problema... Agora aí vem esse tipo de argumento: sou obrigado, sob o ponto de partida de que eu não estou entendendo as coisas agora, a aceitar tudo que vem porque todos eles se consagrarão. ZH — Há artistas ruins. E há renascentistas ruins. Schilling — Pois é. E por que não se aceita que Porto Alegre tenha cinco ou seis monumentos ruins, feios? Qual é o problema? Por que tem de fazer uma tragédia disso? Tem que doutores escreverem, chamarem de nazista, porque tem cinco ou seis monumentos na cidade que são feios? Porque eu acho aquela casa monstro um pavor? Então pode ter sido a subjetividade daquele artista. Que, para mim, fracassou. Para mim e para muita gente. E para os 800 mil neonazistas que esta cidade abriga. ZH — Para algumas pessoas deu certo. Schilling — Pode ser. Para os 20%. ZH — Zero Hora entrevistou um sargento da Brigada que presta serviço de guarda na entrada do Comando Geral bem em frente a essa obra. Ele fica todos os dias olhando para aquilo, seis horas por dia. Ele gostou da obra e diz que as pessoas que passam por lá param, tiram fotografias, comentam e admiram... Schilling — Tudo bem. Há gosto por bizarrice. As pessoas não vão ver a mulher barbada no circo? Tem tudo, tem de tudo. A bizarrice atrai. Um corpo de um atropelado na rua junta gente para olhar. Põem velinha, põem jornal. É a bizarrice humana. Não tem nada a ver com arte. ZH — Mas a arte sempre namorou o grotesco. Schilling — Sim. E tem coisas do grotesco que são extraordinárias. Esteticamente extremamente relevantes. Não existem, de fato, assim, regras definitivas. Eu posso pintar uma megera e ter um impacto estético extraordinário. Posso pintar uma mulher belíssima e ser um fracasso estético. Mas eu posso pintar até uma cena... Cenas de batalha, por exemplo, as pessoas morrendo. Tem uma tela do Gros famosa, o Napoleão lá em cima, os soldados morrendo. É uma coisa impressionante, os soldados ali, estraçalhados pelas bombas, é uma cena horrível. Mas esteticamente impressionante. Então não é um regra assim tão estreita, que eu só tenha de pintar o belo. Não é bem assim. A coisa é bem mais complicada. Então não significa necessariamente um retorno ao realismo socialista ou coisa desse gênero. Agora, volto a te dizer: acho que enquanto existir essa posição dos Estados Unidos, não haverá alterações, isso aí vai continuar existindo. A força da tribo esotérica é poderosíssima. Ela se encontra na imprensa, na mídia, nas galerias. É formada pelos grandes bancos, pelas grandes fortunas, pelos grandes colecionadores. Só havendo um outro momento histórico, daqui a cem, 150 anos, aí talvez mude. Não sei para que lado. Como tudo muda, né? Mas no momento não há a mínima perspectiva de que possa haver alguma alteração. Quando fizermos de novo outra Bienal aqui ou a de São Paulo, vai ser a mesma coisa: a estética do vazio, mesma coisa. Porque a situação histórica não se alterou. Os Estados Unidos continuam como potência dominante. O individualismo é extremamente enfatizado pelo neoliberalismo. Essas coisas vão continuar existindo. Não vai desaparecer. Vai continuar. Não tem a mínima possibilidade de surgir um regime tirânico, que vai impor censura. Nada disso assinala no horizonte. É uma onda que começou especialmente na II Guerra Mundial e vai indo, vai se espalhando, até haver alguma reação. Não sei que tipo de reação futura. Provavelmente nem vai ter mais pintores nem escultores, porque não precisa mais. Por outro lado há de fato, sim, um certo lamento da minha parte. ZH — E uma nostalgia, não? Schilling — No seguinte sentido: o enorme acervo técnico de qualificação de pintores e escultores vai ser posto fora. Há quantos mil anos o Ocidente começou a fazer escultura? Tudo isso está se perdendo. Um sujeito escreveu para nós assim: "Olha, eu recebi encomenda de fazer cinco caixotes de madeira. Depois eu soube com surpresa que estavam ali empilhados no Cais do Porto como obra de arte". Esses ambientes artísticos estão sendo substituídos por marceneiros, por pedreiros. Não por artistas. Há uma nostalgia? Há, sim.ZERO HORA
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Comentários
Robertson Frizero -
frizero@gmail.com Denuncie este comentário 08/12/2009 09:58

Os entrevistadores nitidamente são contrários a Voltaire Schilling, e ler a entrevista na íntegra me faz pensar que o historiador não foi entrevistado, mas interrogado. No final, ficou-me a impressão de que os entrevistadores foram à casa de Schilling para se vingar, para tirar a desforra em nome de seus amigos da arte contemporânea contra o articulista que ousou falar mal da Bienal do Mercosul e de empulhações afins. A questão é saber se a população concorda com a dinheirama pública gasta ali.
Giovani Andreoli - Há momentos da entrevista onde se percebe claramente a hesitação de Schiling. Isso, ao meu ver, denota duas coisas: primeiro, que ele não estava preparado para um embate teórico neste assunto, e sim apenas expressando uma opinião muito pessoal, levando-o a assumir uma postura defensiva, por vezes confusa; segundo, que o entrevistador assumiu uma postura não de "eficiência", e sim de aberta agressão, recorrendo às vezes a argumentos (disfarçados de perguntas capiciosas) lineares, tautológicos.

Palavras-chave: Blog

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Março 18, 2010

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Palestra


Quarta-feira, 31 de março às 19h


Tema: Encantamentos: os feitiços da leitura e da poesia

Palestrante:
Rubem Alves


Local: Livraria Cultura Shopping Center Iguatemi - Av. Iguatemi, 777 - Lojas 04 e 05 - Piso 1 - Vila Brandina - Campinas - SP

 

Livraria Cultura é palco do lançamento do livro em São Paulo

No dia 3 de março, o autor Rubem Alves esteve presente na Livraria Cultura do Conjunto Nacional de São Paulo, para lançar seu novo livro, Sobre reis, ratos, urubus e pássaros, destinado ao publico infantojuvenil e editado por Edições Loyola.

O lançamento foi prestigiado por grande público, e o autor, além de autografar sua obra, deu entrevistas e discursou brevemente.

foto: Ana Paula Nogueira (Ed. Loyola)

www.loyola.com.br

 

Palavras-chave: Rubem Alves

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Rubem Alves palestra sobre educação



Com o compromisso de levar os mais diversos temas para formação e atualização dos seus alunos e da comunidade, a Anhanguera Educacional promove em março duas grandes palestras relacionadas à área de pós-graduação. Na quinta-feira (18), o escritor Rubem Alves fala sobre o tema "Conversas sobre educação". Já no dia 24, o cientista da computação Christian Barbosa ministra palestra intitulada Tríade do Tempo, momento em que deve discutir métodos para atingir melhor produtividade por meio do gerenciamento do tempo.

Ambas as palestras serão transmitidas ao vivo, às 20h (horário de Brasília), para as unidades da Anhanguera Pelotas, Rio Grande e Passo Fundo. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo site www.anhanguera.com/palestra. As vagas são limitadas.

 

Palestrantes

Rubem Alves é psicanalista, educador, teólogo e escritor, autor de livros e artigos que abordam temas religiosos, educacionais e existenciais, além de uma série de livros infantis. Entre suas publicações destacam-se: Dogmatismo e Tolerância, Variações sobre a vida e a morte, Gandhi: a magia dos gestos poéticos, Conversas com quem gosta de ensinar, Conversas sobre Educação, entre outros temas.

Christian Barbosa é considerado o maior especialista do país em administração de tempo e produtividade. Ele é também fundador da Triad Consulting, empresa multinacional especializada em programas e consultoria na área de produtividade, colaboração e administração do tempo. Ministra treinamento e palestras para as maiores empresas do país e para a Fortune 100. É facilitador do programa de empreendedores do Sebrae/ONU-Empretec e autor dos livros A Tríade do Tempo, Você, Dona do Seu Tempo, Estou em Reunião, e Mais Tempo, Mais Dinheiro, em parceria com Gustavo Cerbasi.

Pelotas, quinta-feira, 18 de março de 2010

fonte: www.diariopopular.com.br

Palavras-chave: Rubem Alves

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Março 20, 2010

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Geraldão, de Glauco. Crédito: reprodução da versão on-line da Folha de S.Paulo

 

Glauco vai continuar na página de tiras da "Folha de S.Paulo". O jornal decidiu relançar, pelo período de um ano, uma seleção de histórias criadas por ele.

A edição desta quarta-feira, mostrada acima, traz a estreia de Geraldão, que começou a ser publicado no jornal em 4 de outubro de 1983.

Desde então, o desenhista criou uma série de personagens, que tinham em comum as neuroses urbanas.

A Folha tem procurado manter vivo o trabalho do quadrinista, assassinado na sexta-feira passada. O jornal publicou ontem um "Gibi do Glauco", coletânea de desenhos dele.

fonte: blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br

Palavras-chave: Cartunista, Jornal, Quadrinhos

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                Um novo jeito de ler Clarice Lispector

A escritora também transformava palavras em imagens deixando fluir sua busca infinita nas tintas que se aliavam aos veios da madeira. É a inquietude de escrever com pincel que Ricardo Iannace apresenta no livro Retratos em Clarice Lispector, lançamento da Humanitas, em co-parceria com a Editora da UFMG. Também a Edusp apresenta uma nova edição de Clarice: uma vida que se conta, de Nádia Battella Gotlib

Ler Clarice Lispector através de suas pinturas. É esse o desafio do leitor ao folhear as primeiras páginas de Retratos em Clarice Lispector – Literatura, pintura e fotografia, de Ricardo Iannace, lançado pela Humanitas e Editora da UFMG. São 18 imagens – 17 em madeira de pinho-de-riga e apenas uma em tela –, que estão arquivadas na Fundação Casa de Rui Barbosa.
Cada uma delas tem algo para contar. Ver. Ou esconder.  Foram todas pintadas em 1975. Dois anos antes de morrer. Mas o que levava Clarice a escrever pintando ou pintar escrevendo? É esse questionamento que toca o leitor diante dos quadros e da vida. O mesmo questionamento que levou Iannace a pesquisar durante anos. O resultado foi a tese de doutorado defendida em 2004 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que agora pode ser vista em livro.
“Quando me deparei pela primeira vez com essas imagens, tive uma sensação indefinida”, conta Iannace. “Não eram paisagens que sugeriam uma estética, uma composição ou o belo. As cores, as linhas traziam exatamente a transgressão de Clarice. Percebi a identificação com o hostil, com o avesso”, diz o autor.
Iannace percebeu o mundo da escritora saltando da madeira. “São imagens pequenas, feitas em chapas de pinho-de-riga, de espessura fina, que já sofreram uma ligeira alteração”, explica. “Duas delas trazem imagens na frente e no verso e há aquelas que, na ausência de título, apresentam, atrás, apenas a assinatura da autora de atravessado.” Clarice, na avaliação de Iannace, não tinha a intenção de mostrar a sua face de pintora. Seus quadros não traziam nenhuma perfuração, gancho, nem foram feitos para serem emoldurados. “A impressão é que ela pintava como um exercício, sem nenhuma pretensão.”
A professora da FFLCH Nádia Battella Gotlib, que há anos estuda e pesquisa a trajetória de Clarice Lispector, observa as suas pinturas como um mero passatempo. “Uma tendência para deslocar-se cada vez mais do figurativo, na escrita, aproximando-se do ritmo e de sons puros, desvinculados de compromissos com a linha contínua do discursivo e da história; e na pintura, detendo-se em cores e linhas, com manchas fortes. E construção que indicia inquietação e turbulência interior.”


Só recentemente a crítica vem se atendo à pintura de Clarice Lispector. Mas, exatamente para evitar que esses quadros tenham a análise rigorosa de uma obra de arte, o trabalho de Ricardo Iannace traz uma nova dimensão do trabalho da escritora. E propõe uma análise inusitada no contexto da literatura e também da pintura e da fotografia.  Ou, como define Nádia Gotlib, que assina a apresentação do livro Retratos em Clarice Lispector, é um novo jeito de ler e apreciar o legado da escritora. “A leitura da arte abstrata em Clarice e a partir de Clarice, Iannace faz promovendo um diálogo produtivo com teóricos e críticos como Giulio Carlo Argan, Mel Goodin e Charles Harrison”, explica a professora. “O repertório atento ao movimento do próprio processo de linguagem artística, desvinculado de compromissos figurativos, desenvolve a discussão sobre a forma do retrato a partir da leitura de textos que a própria Clarice traduziu e adaptou.”
A capa do livro de Iannace traz um retrato inédito de Clarice Lispector: um desenho pintado pelo poeta mineiro Otávio Dias Leite em abril de 1947.

Linhas e linhas – Iannace vai buscando a admiração e a identificação de Clarice com a pintura. Em A descoberta do mundo, Clarice registrou: “A verdade é que simplesmente me faltou o dom para a minha verdadeira vocação: a de desenhar. Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas – e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas”.
São paisagens que aliam o abstrato e o figurativo. Em cores fortes, pinceladas soltas e o descompromisso com a forma, Clarice vai imprimindo sensações como a do Medo, uma tela de maio de 1975 onde predomina o preto e uma massa amarela que, segundo Iannace, é uma boca sem dentes tentando gritar. Ou Perdida na vaguidão, também daquele mesmo mês, com traços livres em tons terra.
O título Tentativa de ser alegre é um desabafo e uma sugestão. Nesse quadro, Clarice estampa Ulisses, cachorro que a acompanha nos seus últimos anos de vida. O autor registra o depoimento de Clarice em Um sopro de vida: “Eu quase que já sei como será a minha morte. A sala vazia, o cachorro a ponto de morrer de saudade. Os vitrais de minha casa. Tudo vazio e calmo”.


O vermelho pintado em círculos, manchado com tinta preta. E uma legenda onde há o nome do quadro Raiva e rei[ndifi]ção, de 28 de abril de 1975, como se fosse, na observação de Iannace, uma lápide de sepultura. Nesse quadro, Clarice sugere uma explosão de movimentos circulares. Iannace cita, nesse mesmo clima lúgubre, Escuridão e luz: centro da vida, com três velas brancas acesas se projetando no meio do negro.
“Não são quadros agradáveis de se olhar”, constata Nádia Gotlib. “As cores são lúgubres e distribuem-se num feio carregado. Nem atraem pela combinação de cores ou pelo ritmo do traçado das linhas. Impressiona a carga pesada, funesta.”
Porém, nem tudo é sombra ou avesso. Clarice registra momentos de sonho em Pássaro da liberdade, de junho de 1975, ou Ao amanhecer, de setembro do mesmo ano. “Se comparados aos quadros já descritos, exibem motivos ingênuos”, assinala Iannace. “Enquanto em um aparece o traçado pouco expressivo de uma gaivota azul, no outro se armam nuvens brancas alvacentas ligeiramente azuladas.”

Uma mesma fonte – Para apresentar a escritora e pintora na mesma tela, Ricardo Iannace – como define Aurora Fornoni Bernardini, professora da FFLCH que o orientou na tese de doutorado – traçou uma engenhosa trama entre os textos que Clarice escreveu, traduziu ou leu, onde estão presentes a arte do retrato. O autor tem como referência citações da escritora como: “Antes de mais nada, pinto pintura. Acho que o processo criador de um pintor e do escritor são da mesma fonte. Quando eu escrevo, misturo uma tinta a outra e nasce uma nova cor”.
“O percurso é sabiamente construído”, analisa a professora Aurora. “Parte de uma crônica de Fundo de gaveta, de A legião estrangeira. Passa pela obra O retrato de Dorian Gray, que Clarice adaptou para o português, e pausa no quadro de Paul Klee, Paysage aux oiseaux jaunes, que Clarice admirou.” Na análise sobre retrato e fotografia, Iannace vai buscar o estudo de especialistas como Susan Sontag, Roland Barthes e Philippe Dubbois. “Vozes entre outras que acompanham as de Platão e Leibniz no momento da análise profunda de dois escritos fundamentais de Clarice: A imitação da rosa e A quinta história.”
O que é o concreto e o abstrato é o questionamento que Clarice Lispector deixa transparecer entre tintas e textos. O autor termina o livro lembrando o diálogo na crônica intitulada Irmãos:
– Mas agora vamos brincar de outra coisa. Quero saber se o senhor é inteligente. Este quadro é concreto ou abstrato?
– Abstrato.
– Pois o senhor é burro. É concreto: fui eu que pintei, e pintei nele meus sentimentos e meus sentimentos são concretos.

Retratos em Clarice Lispector – Literatura, pintura e fotografia, de Ricardo Iannace, Humanitas e Editora da UFMG, 184 páginas, R$ 36,00.

Uma vida que se conta

Acompanhar as reflexões e inquietações de Clarice Lispector, pesquisar suas histórias e o transcorrer de sua própria vida. Com essa proposta, Nádia Battella Gotlib, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, vem escrevendo artigos e livros que são uma referência nos estudos sobre a escritora.
Neste mês, a Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) lança a sexta edição de Clarice: uma vida que se conta. “Esse livro é o resultado de uma experiência de leitura dos textos de Clarice Lispector que procura considerar sua escrita a partir de uma via dupla”, explica Nádia. “Centra-se nas suas ficções por meio de abordagens críticas; detém-se em certos dados de caráter autobiográfico, desde que tenham eles ligação mais direta com a produção literária, no sentido de que possam contribuir para sua contextualização.”
Nesta edição da Edusp (a anterior foi pela Ática, em 1995), Nádia inseriu novos dados e notas. “Incluí uma cronologia abreviada e esquemática, para facilitar a visualização de informações espalhadas ao longo dos capítulos do livro. E ampliei o repertório de imagens acrescentando fotos e documentos inéditos.”

Clarice: uma vida que se conta, de Nádia Battella Gotlib, Edusp, 656 páginas, R$ 62,00.

por LEILA KIYOMURA

 


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Março 22, 2010

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Wolfgang Wagner, diretor durante 57 anos do Festival de Bayreuth, na Alemanha, consagrado a seu avô Richard Wagner, morreu no domingo, aos 90 anos, informou o festival em seu site oficial.

 

http://www.bayreuther-festspiele.de/images_container/images/biografien/mitwirkende/wagner_wolfgang.jpg

 

"Dedicou toda sua vida ao patrimônio do célebre avô", afirma um comunicado, que lembra o envolvimento de Wolfgang no festival mesmo em idade avançada.

Ele comandou de fato o Festival de Bayreuth até 2008, quando passou a responsabilidade para as duas filhas, Eva Wagner-Pasquier e a irmã dela Katharina Wagner.

Wolfgang Wagner assumiu a direção do festival em 1951, ao lado do irmão Wieland, que morreu em 1966, quando tinha 49 anos.

O contrato dele era de diretor vitalício. Comandou o festival com mão de ferro, apesar das disputas familiares sobre a sucessão, nos últimos 10 anos, terem dado quase tanto que falar quanto a programação artística.

Ele fez de tudo para impedir que Eva Wagner-Pasquier o sucedesse, apesar da filha do primeiro casamento ter feito carreira como assessora artística em alguns dos principais teatros líricos do mundo. Finalmente, em 2008, aceitou transmitir a direção à primeira filha, ao lado de Katharina, fruto do segundo casamento, com a colaboradora Gudrun.

O Festival de Bayreuth, na Baviera (leste da Alemanha), é totalmente desdicado a Richard Wagner (1813-1883), compositor, entre outras, das óperas "Parsifal" e da tetralogia do "Anel do Nibelungo".

 

fonte: da France Presse, em Berlim; Jornal Folha de São Paulo, 22/03/2010.

Palavras-chave: Música erudita

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Biografia

 

Jayme Ovalle, para o jornalista Wilson Figueiredo, era um personagem à procura de seu autor; da mesma forma, Humberto Werneck era um autor à procura de um personagem. O feliz encontro entre os dois se deu em O santo sujo – A vida de Jayme Ovalle, a biografia que Werneck começou a pesquisar dezessete anos antes de lançá-la, em 2008. Faturou o prêmio da APCA e ontem levou o Jabuti para casa – foi o terceiro colocado na categoria que neste ano terá sido a mais disputada.

Nem bem foi lançado, o livro já virou assunto até entre quem não o conhecia direito, na inenarrável mesa da Flip protagonizada por um tresvariado Xico Sá e um afiado Werneck. No ano seguinte, o turrão de açúcar Lobo Antunes voltaria ao assunto, na mesma tenda de Paraty.

Quem leu se impressionou com o jeito próprio de escrever biografia que Werneck inventou, montando uma ânfora muito particular com os caquinhos que Ovalle espalhou por aí.

Pois aqui não estamos falando de uma grande estrela da cultura, um Garrincha, um Chatô, uma Clarice Lispector ou um Nelson Rodrigues, de obra farta, copiosamente fotografados e já queridos do público. Estamos falando de uma daquelas figuras que sempre estão no cantinho da fotografia. Como nesta imagem, em que um gaiato Ovalle nos fita com seu monóculo, no canto superior direito.

Rio, 1946: Arpad Szenes, Murilo Mendes, Maria Helena Vieira da 
Silva, não identificado, Octavio Tarquínio de Souza, não identificado, 
Lúcia Miguel-Pereira, Jayme Ovalle e Candido Portinari

Rio, 1946: Arpad Szenes, Murilo Mendes, Maria Helena Vieira da Silva, não identificado, Octavio Tarquínio de Souza, não identificado, Lúcia Miguel-Pereira, Jayme Ovalle e Candido Portinari. A foto é do Projeto Portinari: www.portinari.org.br

Jayme Ovalle foi conhecido apenas de uma íntima confraria; sua obra é diminuta e praticamente irrealizada; fragmentos de sua passagem por este mundo encontravam-se espalhados, muitas vezes de maneira escamoteada, na obra dos amigos. Foi, como disse Luiz Fernando Vianna, um “amigo secreto”.

O desafio era, portanto, não apenas fazer uma pesquisa complexa e costurar uma narrativa coerente – era preciso também convencer o leitor de que tinha bons motivos para ler 400 páginas sobre um compositor e poeta, boêmio e funcionário público, que realmente foi gauche na vida.

O santo sujo é uma sensacional dobradinha de Ovalle, que entra com suas histórias, boutades e lances místicos, e Werneck, que soube captar não só o folclore ovalliano, mas também seu lado menos solar. Se estão lá as histórias bizarras, os lances místicos, as boutades de Ovalle, também estão a melancolia, a irrealização do artista, a cara de cão que olha para a gente e quer dizer alguma coisa mas não consegue, como definiu Otto Lara Resende. O autor do Pai dos burros haverá de nos condenar o lugar-comum, mas é coisa que se lê como um romance. Elegante e irônico, de mansinho ele se inscreveu entre os nossos grandes narradores em atividade.

O personagem aqui, como já deu pra perceber, é Humberto Werneck – que nos perdoe Wilson Figueiredo. Vamos então ao que ele respondeu para o nosso blog.

Escrever e lançar O santo sujo o levou a alguma situação ovalliana?
Durante as pesquisas para o livro, fui entrevistar a viúva de Ovalle na Califórnia. Vindo de San Francisco, à noite, me perdi na autopista — as placas verdes passam sobre a minha cabeça, às dezenas, mas nenhuma delas indicava Los Gatos, a cidadezinha onde a entrevistada me esperava. Já me via descendo indefinidamente rumo ao México, quem sabe a Patagônia, pelo final de meus dias — e, em pânico, berrei: Ovalle, olha a merda em que você me meteu! Foi eu berrar e os faróis iluminaram a placa à direita: LOS GATOS.

Foi muito comentada a sua proeza em compor uma narrativa com base em informações esparsas e escassas — falou-se muito que você “tirou leite de pedra”. Depois da publicação, surgiram muitas novidades sobre Ovalle que vc desconhecia? Pode adiantar algum dos updates da segunda edição que está a caminho?
Depois que o livro saiu, o poeta Eucanaã Ferraz foi mexer na papelada de Vinicius de Moraes, para organizar um volume de inéditos e esparsos, e encontrou um poema de circunstância, manuscrito, feito em janeiro de 1946 a propósito da partida iminente de Ovalle para quatro anos em Nova York. Surgiu também, da leitura de cartas de Elizabeth Bishop ao poeta Robert Lowell, uma historinha de amor, sem maiores consequências, vivida pela viúva de Ovalle com Alfredo Laje, conhecido empresário e pensador católico, no final dos anos 50. [Nota da redação: Ovalle morreu em 1955]
A cada prêmio que você ganha, confirma-se a sua vocação natural para o Exército do Pará, a categoria da Nova Gnomonia de Ovalle e Schmidt que congrega aqueles que “vêm do Norte para vencer na capital”. Você seria capaz de um arroubo kerniano, por exemplo devolver o prêmio, como Sartre fez com o Nobel? Sartre foi um kerniano ou um Pará?
Um Pará genuíno nunca devolve o que conquistou, muito menos um prêmio. O milhão de dólares do Nobel, convenhamos, é algo bem Mozarlesco. Já o Jabuti não, é Dantas. E Sartre foi, sim, um kerniano legítimo. Mas ao ganhar o Nobel o sujeito automaticamente bandeia para a categoria dos Onésimos, pois sabemos que a presença de um Nobel esfria os ambientes.

fonte: www.editora.cosacnaify.com.br

Palavras-chave: Biografia, Prêmio Jabuti

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Março 23, 2010

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http://www.jfmg.com.br/imagens/UserFiles/Image/_03.jpg

 

Candido Portinari foi o pintor brasileiro a alcançar maior projeção internacional com mais de cinco mil obras concluídas, desde pequenos esboços a gigantescos murais.

Nasceu numa fazenda de café, Santa Rosa, em Brodowski (próximo a Ribeirão Preto),
no interior de São Paulo, em 29 de Dezembro de 1903. Filho dos imigrantes italianos Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato, que tiveram doze filhos, sendo ele o segundo. De família humilde, cursou apenas o primário, porém desde criança manifestou sua vocação artística.

Aos seis anos de idade, Portinari começou a desenhar, sendo que aos nove participou durante vários meses dos trabalhos de restauração da igreja de Brodowski, sua cidade natal, ajudando os pintores italianos. Aos nove anos, desenhou o retrato de Carlos Gomes, como via numa caixa de cigarros.

 

http://lidebrasil.com.br/site/wp-content/uploads/2009/05/casaporti.jpg

Casa onde viveu Portinari, em Brodowski. Hoje "Museu Casa de Portinari"

 

Em 1918, Portinari, também chamado carinhosamente de "Candinho" pela família, viajou para São Paulo, para ingressar no Liceu de Arte e Ofícios de São Paulo. Contudo, aos quinze anos de idade, matricula-se na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, na qual estudou desenho e pintura, tendo como professores Rodolfo Amoedo, Batista da Costa, Lucílio Albuquerque e Carlos Chambelland.

Em 1922, Portinari executou um retrato para o Salão de Belas Artes, e ganhou medalha de bronze pelo seu trabalho. Em 1928 conquistou o "Prêmio de Viagem ao Estrangeiro", da Exposição Geral de Belas-Artes, de tradição acadêmica.

Em 1929, Portinari partiu para a Europa, viajou pela Itália, Inglaterra, Espanha e se fixou em Paris, onde permaneceu até 1930. Ia diariamente aos museus e lá descobriu a pintura moderna. Discutia sobre arte nos cafés e não tinha quase nenhum tempo para pintar. Foi em Paris que Portinari conhece Maria Martinelli, com quem mais tarde se casou.

Longe de sua pátria, saudoso de sua gente, Portinari decide, ao voltar para o Brasil em 1931, retratar nas suas telas o povo brasileiro, superando aos poucos sua formação acadêmica e fundindo a ciência antiga da pintura a uma personalidade experimentalista e moderna.

Em 1932, Portinari expôs individualmente. Três anos depois, em 1935, seu quadro, em grandes proporções, Café recebeu a segunda menção honrosa da Exposição Internacional do Instituto Carnegie, nos Estados unidos.

Em 1936 revelou sua inclinação muralista através dos painéis executados no Monumento Rodoviário situado no Eixo Rio–São Paulo (Via Dutra), nos afrescos do novo edifício do Ministério da Educação e Saúde, realizados entre 1936 e 1944. Estes trabalhos, como conjunto e concepção artística, representam um marco na evolução da arte de Portinari, afirmando a opção pela temática social, que será o fio condutor de toda a sua obra a partir de então.

Nessa época, foi nomeado professor de pintura do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal. Em novembro de 1939 expôs 269 trabalhos no Museu Nacional de Belas Artes. Antes havia executado três grandes painéis para o pavilhão brasileiro na Feira Mundial de Nova York. No mesmo ano nasceu seu único filho, João Candido.

Companheiro de poetas, escritores, jornalistas, diplomatas, Portinari participa da elite intelectual brasileira numa época em que se verificava uma notável mudança da atitude estética e na cultura do país: tempos de Arte Moderna e apoio do mecenas Getúlio Vargas que, dentre outras qualidades soube cercar-se da nata da intelectualidade brasileira de seu tempo.

No final da década de trinta consolida-se a projeção de Portinari nos Estados Unidos. Em 1939 executa três grandes painéis para o pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York. Nesse mesmo ano o Museu de Arte Moderna de Nova York adquire sua tela O MORRO.

Em 1940, participa de uma mostra de arte latino-americana no Riverside Museum de Nova York e expõe individualmente no Instituto de Artes de Detroit e no Museu de Arte Moderna de Nova York, com grande sucesso de público, de crítica e mesmo de venda (menor das preocupações do Artista...)

Em dezembro deste ano a Universidade e Chicago publica o primeiro livro sobre o pintor, Portinari, His Life and Art, com introdução do artista Rockwell Kent e inúmeras reproduções de suas obras.

Em 1941, Portinari executa quatro grandes murais na Fundação Hispânica da Biblioteca do Congresso em Washington, com temas referentes à história latino-americana.

De volta ao Brasil, realiza em 1943 oito painéis conhecidos como "Série Bíblica", fortemente influenciado pela visão picassiana de Guernica e sob o impacto da 2ª Guerra Mundial.

Em 1944, a convite do arquiteto Oscar Niemeyer, inicia as obras de decoração do conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, destacando-se o mural "Sâo Francisco" e a "Via Sacra", na Igreja da Pampulha.

A escalada do nazi-fascismo e os horrores da guerra reforçam o caráter social e trágico de sua obra, levando-o à produção das séries "Retirantes" e "Meninos de Brodoswki", entre 1944 e 1946, e à militância política, filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro e candidatando-se a deputado, em 1945, e a senador, 1947.


 

Brodowski conserva os objetos, as paisagens e o cotidiano do maior pintor brasileiro. Acima, Arduíno Morando, um dos meninos retratados por Portinari


Em 1948, Portinari exila-se no Uruguai, por motivos políticos, onde pinta o painel "A Primeira Missa no Brasil", encomendado pelo banco Boavista do Brasil.

Em 1949 executa o grande painel "Tiradentes", narrando episódios do julgamento e execução do herói brasileiro que lutou contra o domínio colonial português. Por este trabalho Portinari recebeu, em 1950, a medalha de ouro concedida pelo Juri do Prêmio Internacional da Paz, reunido em Varsóvia.

Em 1952, atendendo a encomenda do Banco da Bahia, realiza outro painel com temática histórica, "A Chegada da Família Portuguesa à Bahia" e inicia os estudos para os painéis "Guerra e Paz", oferecidos pelo governo brasileiro à nova sede da Organização das Nações Unidas. Concluídos em 1956, os painéis, medindo cerca de 14x10 m cada - os maiores pintados por Portinari - encontram-se no "hall" de entrada dos delgados de edifício-sede da ONU, em Nova York.

Em 1960 nasceu sua neta Denise, que passou a ocupar boa parte de seu tempo. Pintou muitos quadros com o retrato dela. Quando não estava com Denise, Portinari passava horas fitando o mar, sozinho. No ano seguinte escreveu um ensaio de oração para a neta.

Em janeiro de 1962 sofreu nova intoxicação por chumbo, que já o atacara em 1954. Adoecido, não mais se recuperou. Nessa época, preparava uma grande exposição, com aproximadamente duzentas obras, a convite da prefeitura de Milão. Em 6 de fevereiro, Portinari morreu, vítima de intoxicação pelas tintas que utilizava.

 

www.culturabrasil.pro.br/portinari e www.wikipedia.org

 

 

GUERRA E PAZ

 

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A arte na guerra pela paz

por Emir Sader

 

É como se a paz tivesse nascido depois da guerra. Pelo menos para a arte. Como se as sociedades humanas tivessem nascido em guerra e somente depois tivessem conquistado a paz. Tudo isso pela forma como a guerra foi tem privilegiado de todas as formas de arte - da pintura ao cinema, do romance à poesia, da dança à música - especialmente no século XX, um século de guerra mais do que paz.

Por isso a paz foi um dos temas igualmente privilegiados pelos mais importantes artistas do mundo contemporâneo - a paz, a luta contra a guerra, a guerra pela paz. Dentre eles, Pablo Picasso, Bertold Brecht, Charlie Chaplin e Candido Portinari - quatro dos maiores artistas do século XX.

Um século que teve os prognósticos de que as guerras interimperialistas levariam a humanidade a sangrentos enfrentamentos militares, dramaticamente confirmados, que envolveu seus artistas e sua arte no clima bélico que ocupou praticamente toda a sua primeira metade, a ponto de ter havido quem o definisse como "o século das guerras".

A geração de artistas que cruzou grande parte do século comprometida com o humanismo teria necessariamente que fazer da paz e da guerra um de seus temas centrais.

A deflagração da Primeira Guerra Mundial no centro mesmo do que se considerara a civilização mais avançada do mundo revelou como os termos "civilização" e "barbárie" se misturavam, com fronteiras dificilmente delimitáveis. 

Desatou-se o mais selvagem enfrentamento bélico que a humanidade havia conhecido, a guerra da baioneta, do choque cara-a-cara, dos massacres como nunca se haviam dado nas guerras anteriores. Iniciava-se o século em que mais homens mataram homens em guerras, com um conflito que só se resolveu para abrir as condições que gerariam sua continuação pouco mais de duas décadas depois.

Instalava-se na Europa um clima de intolerância e de regimes de terror, com a proliferação dos fascismos de diferentes formas - da Alemanha à Itália, da Espanha a Portugal. A república espanhola foi vítima particular da sanha dessas forças, congregando na sua defesa aquilo com que de melhor o mundo da cultura e das artes poderia contar, com sua derrota simbolizando como se deslocava a favor das forças belicistas o pêndulo da história na primeira parte do século XX.

A resistência ao fascínio galvanizou o mundo e os homens da cultura e das artes, que colocaram a serviço da luta contra as forças que representavam as expressões mais extremistas dos imperialismos mundiais. A Segunda Guerra Mundial desatou os movimentos pela paz com força que não haviam tido até ali, demonstrando como os destinos futuros da humanidade eram jogados decisivamente naquele momento.

Aquele capítulo particularmente violento da história humana ainda viveria as bombas atiradas sobre Hiroshima e Nagasaki, antes que a paz mundial aparentemente prevalecesse na metade do século XX.

Foi nesse marco - o da resistência e o do triunfo democrático - que uma geração notável de artistas e homens de cultura brasileiros se integraram a esse movimento internacional com o melhor de sua capacidade criativa. Os poemas de Carlos Drummond de Andrade sobre o assassinato de Federico Garcia Lorca, sobre a resistência de Stalingrado, ao lado das telas de Portinari Guerra e Paz se destacam como expressões maiores desse movimento.

Portinari teve, com todos os méritos, obras suas entronizadas naquela instituição cuja fundação deveria consagrar a vitória da paz sobre a guerra - a Organização das Nações Unidas. O mundo pôde, pela primeira vez, conhecer e admirar um artista brasileiro incorporado a espaços de prestígio e visibilidade mundiais.

No sofrimento daqueles rostos, daqueles corpos vergados pelo peso do sofrimento, naquelas expressões carregadas de desespero e de temor, Portinari elevava a arte brasileira à universalidade, inserindo - na criatividade de sua forma e na contundência do seu conteúdo - sua obra no acervo mundial da arte comprometida com o humanismo e com a solidariedade.

Brasileiro, pintor, comunista, Portinari se consagrava como a figura mais poderosa e expressiva da pintura brasileira do século XX. A partir dali, a carta que - segundo as reveladoras palavras de seu filho João Candido -, escrita por ele ao povo brasileiro, ainda está por ser entregue, passou a ter outro grande destinatário - a humanidade. Dela Portinari soube captar um drama que parece se perpetuar, enquanto os desvarios imperiais seguirem ameaçando impor a força da metralha sobre a vontade de paz e de convivência solidária. Portinari, aqui de corpo inteiro, revela toda sua atualidade e sua humanidade, a dos que lutam por um outro mundo possível.

 

O "Menino de Brodósqui"

Editora: Livroarte Editora
 Ano: 1979
               


         

Este livro é uma nova edição da original, publicada em 1979, primeiro fruto do Projeto Portinari, que então ensaiava os seus primeiros passos. Esta nova edição surgiu com a sinergia do mundo de Portinari com O Boticário, empresa brasileira, de excelência, responsabilidade social e cidadania.

Este é um livro sobre a infância. A infância do pintor e a infância vista na sua obra. E como a infância chama o futuro, é sobre o pintor, nós e o futuro que eu quero falar. Mas antes preciso contar uma história. Porque acontece que o pintor, o "Menino de Brodósqui", foi meu pai - ou, como descendente de italianos, meu "papa".

A história tem a forma de uma carta que eu-filho-nós escreve para ele-pai-Brasil.

João Candido, 1979.

 

"Quanta coisa eu contaria se pudesse

E soubesse ao menos a língua como a cor."

Portinari, Bordo do Conte Grande

25 de outubro de 1958

 

http://www.estantevirtual.com.br/imagens/capas/1966177.jpg

 

O menino e o povoado

 

Fizeram uma parada, uma parada

Para o trem carregar café,

Antes, estradas difíceis, só carros de bois

Transitavam, levando dias e dias,

Depois, uma casa aqui, outra ali.

 

Formaram o povoado. Não

Há rio, nem pedras.

De tijolos caiados e telhas antigas

São as construções; de taipas e

Arame farpado, os divisores.

 

Lugar arenoso no meio da terra roxa

Cafeeira. Imenso céu azul circula

O areal. Milhares de brancas nuvens

Viajam. Caravanas luminosas

Em movimento. O mais solitário, ali

Deixaria de sê-lo. Toda essa fagueira

Companhia. Alegre e promissor

Futuro...

 

As festas, os bailes, a banda de música

Procissões e o sino repicando...

Muito povo endomingado

Noites enluaradas e todas as estrelas

Eram mais claras do que os dias nos outros povoados.

 

Antes da luz e da água encanada,

No povoado havia lamparina

E cisterna; dez a quinze metros

Para encontrar o líquido.

 

Os circos traziam iluminação

De carbureto. Próximos

Dos elementos. Quantos vendavais e

Chuvas de granizo!

 

Moinhos de garapa,

Feitos de madeira - canaviais

E matas virgens com seus pássaros e

Frutas. Consumiram

 

Tudo e mais as lendas. Onde

Estarão os jacus e as pacas?

Os jenipapos e jatobás?

As estradas cortando as

 

Matas criavam histórias

E medos. Os caminhos

Também fugiram. Olhando

O céu, às vezes os vejo transformados em nuvens.

 

Saí das águas do mar

E nasci no cafezal de

Terra roxa. Passei a infância

No meu povoado arenoso.

 

[...]


 

http://ritualcafe.files.wordpress.com/2007/07/portinari.jpg

foto: Portinari e sua esposa Maria, no seu ateliê (Rio, 1931)

 

“Vim da terra vermelha e do cafezal.
As almas penadas, os brejos e as matas virgens
Acompanham-me como o espantalho,
Que é o meu auto-retrato.
Todas as coisas frágeis e pobres
Se parecem comigo.”

 

Projeto Portinari: http://www.portinari.org.br/

Palavras-chave: Biografia, Memória, Pintura, Portinari

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Março 24, 2010

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Eventos em 2010

REALIZADOS

   
Março

Dia

Hora

Tema

Conferencista

Iniciativa

Local

24

10h

RAÍZES SOCIAIS E
IDEOLÓGICAS DO LULISMO

http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/01/andre-singer.jpg

Inscrições:
www.iea.usp.br/inscricao/form3.html

Conferencista:
André Singer
(FFLCH)
Debatedores:
José Augusto Guilhon de Albuquerque (Nupri) e Luiz Carlos Bresser-Pereira (FGV-SP)

IEA

Auditório Alberto Carvalho da Silva, sede do IEA (mapa)

25

13h30

SEMINÁRIO DE LÓGICA PARACONSISTENTE ANOTADA
EM BIOMEDICINA, AUTOMAÇÃO
E ROBÓTICA

Coordenador:
Jair Minoro Abe (IEA
)

Grupo de Pesquisa de Lógica e Teoria da Ciência

Faculdade de Medicina da USP, Instituto Oscar Freire, Prédio da Medicina Legal, Rua Dr. Arnaldo 455, 1º andar, Sala 2, São Paulo

 
Abril

Dia

Hora

Tema

Conferencista

Iniciativa

Local

6

11h

PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E INOVAÇÃO NO GRUPO SAINT-GOBAIN

Expositor:
Paul Houang (Saint-Gobain — Weber Quartzolit)

Observatório da Inovação e Competitividade

Auditório Alberto Carvalho da Silva, sede do IEA (mapa)

 

7 10h30 A FIOCRUZ E OS DESAFIOS DA INOVAÇÃO DA SAÚDE NO BRASIL Expositor:
Paulo Gadelha (Fiocruz)
7 14h JOVENS CIENTISTAS DO
ESTADO DE SÃO PAULO

Recepção de novos
membros afiliados da
Academia Brasileira de Ciências
Expositores:
Valtencir Zucolotto (IFSC),
Hamilton Brandão Varela de Albuquerque (IQSC),
Alexandre da Costa Pereira (Incor-HCFM)
Dráulio de Araújo (FFCLRP)
Coordenação:
Jacob Pallis (diretor da ABC), César Ades (diretor do IEA) e Adolpho Melfi (vice-presidente regional da ABC em São Paulo)
ABC e IEA

12

9h

SEMINÁRIO DO CICLO
"PRÉ-SAL NA USP"

Coordenador:
Ildo Sauer (PPGE-IEE)

PPGE, IEA, IEE, EP, IO, FEA, IGc e Fusp

13

11h

SÃO PAULO, DESENVOLVIMENTO E ESPAÇO: A FORMAÇÃO DA MACROMETRÓPOLE PAULISTA

Expositor:
Alexandre Abdal (Faculdade do Povo)

Observatório da Inovação e Competitividade

19

15h

A NATUREZA COMO
LIMITE DA ECONOMIA

Expositors:
André Cechin (Universidade de Wageningen, Holanda)
Debatedores:
José Eli da Veiga (FEA) e Carlos Henrique de Brito Cruz (Fapesp)

IEA

20

11h

A CIÊNCIA QUE SONHA E O VERSO QUE INVESTIGA

Expositor:
Evando Mirra (ABC)

Observatório da Inovação e Competitividade

27

11h

AS REDES EMPRESARIAIS DA ELITE INDUSTRIAL DE SÃO PAULO: FIESP-CIESP: 1992-2004

Expositor:
Demétrio Toledo (OIC-IEA)

 

REALIZADOS

 

PRÓXIMOS

   
Janeiro

Dia

Hora

Tema

Conferencista

Iniciativa

Local

14

14h30

PESQUISAS EM ANDAMENTO
NO LABORATÓRIO DE
AEROTERMODINÂMICA
E HIPERSÔNICA
PROF. HENRY T. NAGAMATSU

Marco Antonio Sala Minucci (diretor do IEAv)

IEA Polo São Carlos

Auditório do Pólo do IEA em São Carlos

21

13h30

SEMINÁRIO DE LÓGICA PARACONSISTENTE ANOTADA
EM BIOMEDICINA, AUTOMAÇÃO E ROBÓTICA

COORDENADOR:
Jair Minoro Abe (IEA)

Grupo de Pesquisa de Lógica e Teoria da Ciência

Instituto Oscar Freire, Faculdade de Medicina da USP

   
Março

Dia

Hora

Tema

Conferencista

Iniciativa

Local

9, 10 e 11

9h

O IMAGINÁRIO DO VINHO:
UMA SEDE DE PERFEIÇÃO

Jean-Pierre Goubert (École des Hautes Études en Sciences Sociales, França)

IEA e Lapsi

Instituto de Psicologia, USP

17

9h30

ECONOMIA DO CLIMA

José Goldemberg (IEE-USP); José Marengo (INCT-MCT); Eduardo Haddad, Ricardo Abramovay e Carlos Roberto Azzoni (os três da FEA-USP); Vera Lucia Imperatriz Fonseca (IEA e IB-USP); Paulo Artaxo (IF-USP) e Jacques Marcovitch (FEA e IRI-USP)

IEA e FEA

Auditório FEA 5 da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP

17

14h

CIDADE DO CONHECIMENTO:
10 ANOS DE PESQUISA,
EXTENSÃO E CULTURA

Vários expositores

Cidade do Conhecimento-ECA-USP e IEA

Anfiteatro Camargo Guarnieri, Av. do Anfiteatro, Cidade Universitária, São Paulo

19

15h

A CRIAÇÃO IMPERFEITA:
COSMOS, VIDA E CÓDIGO
OCULTO DA NATUREZA

 

Conferencista:
Marcelo Gleiser

(Dartmouth College, EUA)
Debatedor:
Laerte Sodré Jr. (IAG-USP)
Coordenador:
Carlos Henrique de Mesquita (Ipen e IEA)

IEA e Editora Record

Auditório Alberto Carvalho da Silva, sede do IEA

 

22

14h

ELEMENTOS DE
BIOMETEOROLOGIA
HUMANA E SAÚDE

Conferencista:
Luís Bartolomé Lecha Estela
(UCLV, Cuba)
Debatedores:

Helena Ribeir
o (FSP-USP) e Fábio Luiz Teixeira Gonçalves (IAG-USP)

Grupo de Pesquisa de Ciências Ambientais

23

11h

REDES SOCIAIS, MOBILIZAÇÃO E SEGURANÇA PÚBLICA: A EVOLUÇÃO DAS REDES DE ATORES NO PROCESSO PREPARATÓRIO DA 1ª CONFERÊNCIA NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA

Expositores:
Demétrio Toledo (OIC-IEA) e Thais Pavez (Cebrap)

Observatório da Inovação e Competitividade

24

10h

RAÍZES SOCIAIS E
IDEOLÓGICAS DO LULISMO

Inscrições:
www.iea.usp.br/inscricao/form3.html

Conferencista:
André Singer
(FFLCH)
Debatedores:
José Augusto Guilhon de Albuquerque (Nupri) e Luiz Carlos Bresser-Pereira (FGV-SP)

Palavras-chave: Eventos, IEA

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http://criseoportunidade.files.wordpress.com/2009/04/paul-singer1.jpg

 

Paul Israel Singer (Viena, 24 de março de 1932) é um economista brasileiro nascido na Áustria.

Nascido numa família judaica radicada no Brasil desde 1940, Singer formou-se em eletrotécnica no ensino médio da Escola Técnica Getúlio Vargas de São Paulo, exercendo a profissão durante cinco anos. Nesse período, filiou-se ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, militando no movimento sindical. Como trabalhador metalúrgico, liderou a histórica greve dos 300 mil, que paralisou a indústria paulistana por mais de um mês, em 1953.

Obteve a cidadania brasileira em 1954.

Posteriormente, estudou Economia na Universidade de São Paulo, ao mesmo tempo em que desenvolvia atividade político-partidária, no PSB. Graduado em 1959, no mesmo ano participou da fundação da Polop, organização política constituída por membros da ala esquerda do PSB.

Em 1960, inicia sua atividade docente na USP, como professor assistente. Em 1966, obteve o grau de doutor em Sociologia com um estudo sobre desenvolvimento econômico e seus desdobramentos territoriais, abordando cinco cidades brasileiras – São Paulo, Belo Horizonte, Blumenau, Porto Alegre e Recife - na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. A tese deu origem ao livro Desenvolvimento Econômico e Evolução Urbana, sob orientação do professor Florestan Fernandes.

É também professor-titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade da mesma universidade.

Entre 1966 e 1967, estudou Demografia em Princeton, nos Estados Unidos. Em 1968, apresentou sua tese de livre-docência, Dinâmica populacional e Desenvolvimento. Nesse mesmo ano, retoma suas atividades como professor da USP até ter seus direitos políticos cassados pelo AI-5 e ser aposentado compulsoriamente, em razão de suas atividades políticas, em 1969.

 

[Paul+Singer.jpg]

 

Nessa época, com alguns outros professores expulsos da universidade ou simplesmente discordantes do regime, como Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni, participa da fundação do CEBRAP - Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, que se constituiu em importante núcleo da intelligentsia brasileira de oposição à ditadura militar, então vigente no país. Atuou no Cebrap até 1988, quando foi Secretário Municipal de Planejamento de São Paulo. É amigo de Fernando Henrique Cardoso, mesmo divergindo fortemente dos projetos econômicos por ele adotados.

A partir de 1979, volta à atividade docente, como professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde permanece por quatro anos, tendo sido chefe do Departamento de Economia e membro do Conselho Universitário.

Em 1980, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, ao lado de outros intelectuais historicamente ligados à esquerda, como Francisco Weffort, Plínio de Arruda Sampaio, Perseu Abramo, Mário Pedrosa, Sérgio Buarque de Holanda, Chico de Oliveira e Vinícius Caldeira Brant.

Em 1989, foi convidado pela então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, a assumir a Secretaria de Planejamento do município, ocupando o posto durante todo o seu mandato, que terminou em 1992.

Trabalhando recentemente com o tema da economia solidária, o professor Paul Singer assumiu a tarefa de implementar, desde junho de 2003, a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), constituída pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego.

Paul Singer é pai do cientista político André Singer, da jornalista Suzana Singer e da socióloga Helena Singer.

No día 13 de março de 2009, o prof. Paul Singer foi condecorado com a Grande Ordem do Mérito da República da Áustria, em cerimônia realizada na residência do Cônsul Geral da Áustria, em São Paulo.

 

Principais livros publicados


Introdução à Economia Solidária. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2002.
Para entender o mundo financeiro. São Paulo: Contexto, 2000.
O Brasil na crise: perigos e oportunidades. São Paulo: Contexto, 1999. 128 p.
Globalização e Desemprego: diagnósticos e alternativas. São Paulo: Contexto, 1998.
Uma Utopia Militante. Repensando o socialismo. Petrópolis: Vozes, 1998. 182 p.
Social exclusion in Brazil. Geneva: Internacional Institute for Labour Studies, 1997. 32 p.
São Paulo's Master Plan, 1989-1992: the politics of urban space. Washington, D.C.: Woodrow Wilson International Center for Scholars, 1993.
O que é Economia. São Paulo: Brasiliense, 1989.
São Paulo: trabalhar e viver. São Paulo: Brasiliense, 1989. Em co-autoria com BRANT, V. C.
O Capitalismo - sua evolução, sua lógica e sua dinâmica. São Paulo: Moderna, 1987.
Repartição de Renda - ricos e pobres sob o regime militar. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.
A formação da classe operária. São Paulo: Atual, 1985.
Aprender Economia. São Paulo: Brasiliense, 1983.
Dominação e desigualdade: estrutura de classes e repartição de renda no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
SINGER, P. I. (Org.) ; BRANT, V. C. (Org.) . São Paulo: o povo em movimento. Petrópolis: Vozes, 1980.
Guia da inflação para o povo. Petrópolis: Vozes, 1980.
O que é socialismo hoje. Petrópolis: Vozes, 1980.
Economia Política do Trabalho. São Paulo: Hucitec, 1977.
A Crise do Milagre. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
Curso de Introdução à Economia Política. Rio de Janeiro: Forense, 1975.
Economia Política da Urbanização. São Paulo: Brasiliense, 1973.
A cidade e o campo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1972. Em co-autoria com CARDOSO, F. H.
Dinâmica Populacional e Desenvolvimento. São Paulo: Hucitec, 1970.
Desenvolvimento Econômico e Evolução Urbana. São Paulo: Editora Ncional, 1969.
Desenvolvimento e Crise. São Paulo: Difusão Européia, 1968.

 

[Paul.jpg]

 

Economia Solidária - Entrevista com Paul Singer

http://www.scielo.br/pdf/ea/v22n62/a20v2262.pdf

 

Palavras-chave: Eventos, IEA, Paul Singer

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Março 26, 2010

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A arte na guerra pela paz

por Emir Sader

 

É como se a paz tivesse nascido depois da guerra. Pelo menos para a arte. Como se as sociedades humanas tivessem nascido em guerra e somente depois tivessem conquistado a paz. Tudo isso pela forma como a guerra foi tem privilegiado de todas as formas de arte - da pintura ao cinema, do romance à poesia, da dança à música - especialmente no século XX, um século de guerra mais do que paz.

Por isso a paz foi um dos temas igualmente privilegiados pelos mais importantes artistas do mundo contemporâneo - a paz, a luta contra a guerra, a guerra pela paz. Dentre eles, Pablo Picasso, Bertold Brecht, Charlie Chaplin e Candido Portinari - quatro dos maiores artistas do século XX.

Um século que teve os prognósticos de que as guerras interimperialistas levariam a humanidade a sangrentos enfrentamentos militares, dramaticamente confirmados, que envolveu seus artistas e sua arte no clima bélico que ocupou praticamente toda a sua primeira metade, a ponto de ter havido quem o definisse como "o século das guerras".

A geração de artistas que cruzou grande parte do século comprometida com o humanismo teria necessariamente que fazer da paz e da guerra um de seus temas centrais.

A deflagração da Primeira Guerra Mundial no centro mesmo do que se considerara a civilização mais avançada do mundo revelou como os termos "civilização" e "barbárie" se misturavam, com fronteiras dificilmente delimitáveis. 

Desatou-se o mais selvagem enfrentamento bélico que a humanidade havia conhecido, a guerra da baioneta, do choque cara-a-cara, dos massacres como nunca se haviam dado nas guerras anteriores. Iniciava-se o século em que mais homens mataram homens em guerras, com um conflito que só se resolveu para abrir as condições que gerariam sua continuação pouco mais de duas décadas depois.

Instalava-se na Europa um clima de intolerância e de regimes de terror, com a proliferação dos fascismos de diferentes formas - da Alemanha à Itália, da Espanha a Portugal. A república espanhola foi vítima particular da sanha dessas forças, congregando na sua defesa aquilo com que de melhor o mundo da cultura e das artes poderia contar, com sua derrota simbolizando como se deslocava a favor das forças belicistas o pêndulo da história na primeira parte do século XX.

A resistência ao fascínio galvanizou o mundo e os homens da cultura e das artes, que colocaram a serviço da luta contra as forças que representavam as expressões mais extremistas dos imperialismos mundiais. A Segunda Guerra Mundial desatou os movimentos pela paz com força que não haviam tido até ali, demonstrando como os destinos futuros da humanidade eram jogados decisivamente naquele momento.

Aquele capítulo particularmente violento da história humana ainda viveria as bombas atiradas sobre Hiroshima e Nagasaki, antes que a paz mundial aparentemente prevalecesse na metade do século XX.

Foi nesse marco - o da resistência e o do triunfo democrático - que uma geração notável de artistas e homens de cultura brasileiros se integraram a esse movimento internacional com o melhor de sua capacidade criativa. Os poemas de Carlos Drummond de Andrade sobre o assassinato de Federico Garcia Lorca, sobre a resistência de Stalingrado, ao lado das telas de Portinari Guerra e Paz se destacam como expressões maiores desse movimento.

Portinari teve, com todos os méritos, obras suas entronizadas naquela instituição cuja fundação deveria consagrar a vitória da paz sobre a guerra - a Organização das Nações Unidas. O mundo pôde, pela primeira vez, conhecer e admirar um artista brasileiro incorporado a espaços de prestígio e visibilidade mundiais.

No sofrimento daqueles rostos, daqueles corpos vergados pelo peso do sofrimento, naquelas expressões carregadas de desespero e de temor, Portinari elevava a arte brasileira à universalidade, inserindo - na criatividade de sua forma e na contundência do seu conteúdo - sua obra no acervo mundial da arte comprometida com o humanismo e com a solidariedade.

Brasileiro, pintor, comunista, Portinari se consagrava como a figura mais poderosa e expressiva da pintura brasileira do século XX. A partir dali, a carta que - segundo as reveladoras palavras de seu filho João Candido -, escrita por ele ao povo brasileiro, ainda está por ser entregue, passou a ter outro grande destinatário - a humanidade. Dela Portinari soube captar um drama que parece se perpetuar, enquanto os desvarios imperiais seguirem ameaçando impor a força da metralha sobre a vontade de paz e de convivência solidária. Portinari, aqui de corpo inteiro, revela toda sua atualidade e sua humanidade, a dos que lutam por um outro mundo possível.

 

Extraído do livro "Guerra e Paz", realização Projeto Portinari, p. 40 e 41.

 

Um presente do Brasil à Organização das Nações Unidas e à causa da paz mundial


Palavras-chave: Arte, Portinari

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