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novembro 29, 2010

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Postado por Ana A. S. Cesar

 

 

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Hoje, 27 de outubro, Graciliano Ramos faria 118 anos de seu nascimento e é considerado  um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.
 O escritor viveu e se dedicou aos  fatos mais significativos da realidade brasileira de sua época, e participou tão intensamente que chegou a ser preso político por 11 meses no período do Estado Novo, o qual ele pressionava por suas ideologias contrárias.
Tive a oportunidade de ler três livros de Graciliano: São Bernardo, Vidas Secas e Angústia. Sua obra é construída sob o domínio do realismo interior, destacando a inquietação e a angústia. Escreve num estilo todo próprio, com linguagem seca, tudo é dito muito diretamente, sem rodeios, objetivo, mas de uma beleza! Muito bom para quem gosta de ler, pois a leitura é prazerosa e  flui livremente.
São Bernardo, conta a história de Paulo Honório, um poderoso latifundiário. O interessante é que o personagem narra seu drama com precisão numa linguagem direta, seca e curta como um homem que viveu sempre no campo, um autêntico fazendeiro da época. O narrador descreve a ascensão e o declínio de si mesmo, tudo parecendo uma fiel  e angustiante confissão,  de um homem enérgico, cruel, estúpido, autoritário, inseguro e ciumento.
Angústia me surpreendeu muito! Acho que pelo título, pois se imagina que o título sugira este sentimento ou  algo referente, mas não tão intensamente! O livro é angústia pura! A narrativa é em primeira pessoa, o que torna a relação personagem/leitor muito mais íntima. Luís da Silva, ‘o cara’, sofre de TOC - rs,rs,rs,rs,rs – é um tímido, frustrado e solitário, só resta a nós para ouvi-lo em confissão e tentar entender o que o levou a tal condição. O monólogo interior é tão intenso que chega a provocar no leitor sensação de amargura e ansiedade. Para quem leu Crime e Castigo de Dostoyevski pode comparar a angústia e a aflição de Raskolnikoff a de Luís da Silva, comprovando a excelência de Graciliano ao explorar o conflito interior, digressões psicológicas que muitas vezes não se sabe se ele esta no passado, pensando, sonhando ou delirando. Devaneios e delírios são as marcas de Angústia, romance psicológico, com registro de fluxo de consciencia que é indispensável às pessoas que querem ler Clarisse Lispector, ou mesmo aos seus fiéis leitores.
Vidas Secas, é um romance que explora o ‘ciclo da seca’ e dentro deste contexto surgem dois personagens que ficam famosos no universo literário brasileiro: Fabiano e Baleia. Fabiano é o centro de interesse do romance e durante a narrativa, na sua luta pela sobrevivência, torna-se o símbolo da injustiça social, exploração do homem do campo e submissão aos poderosos. Fabiano é terra, é bicho. Baleia, já se torna humanizada, pois muitas vezes pensa e interage com o os personagens, utilizando-se de características humanas, como confiança, solidariedade  e esperança. Ao ler Vidas Secas o leitor se sensibiliza com a problemática nordestina, e questiona o poder de sobrevivência de um povo tão explorado e sofrido. Eu, apaixonadamente cearense, daquelas que a terra não sai das unhas nem as unhas saem da terra, já li e rele inúmeras vezes Vidas Secas e todas as vezes choro me solidarizando com Sinhá Vitória e Fabiano. A morte da Baleia e o diálogo de Fabiano com o Soldado Amarelo é um espetáculo da nossa literatura.
Por fim, faço aqui um lembrete para aqueles que ainda não leram Graciliano Ramos, que coloquem em suas liste de intenções de leitura, pois vale muito a pena, é um ótimo escritor e é nosso.

Palavras-chave: Graciliano Ramos, Literatura

Postado por Ana A. S. Cesar

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