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abril 08, 2010

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Postado por Ana A. S. Cesar





                    Poesia concreta

* Ideograma: apelo à comunicação não-verbal.

* Atomização: comumente as palavras são desmanchadas, criando outras significações.

* Metacomunicação: simultaneidade da comunicação verbal e não-verbal.

* Polissemia (muitos significados): trocadilho, justaposição de substantivos e verbos, aliteração.

* Estrutura verbivocovisual: valorização do campo visual, do aspecto gráfico da letra, da cor e da disposição das palavras.

O ideograma, a repetição sonora, a aliteração e a assonância se fazem por si mesmos, isto é, “o poema concreto é uma realidade em si, não um poema sobre”. “É o emprego do som, da letra, da página, da cor, da linha, enfim, do que existe de acústico e de visual na disposição dos vocábulos”.

Os concretistas atribuem a Mallarmé a posição de precursor do movimento com o seu poema Un Coup de Dés (Um Lance de Dados), de 1887. O Cubismo e o Futurismo já trabalhavam algumas formas concretistas que apareciam em poemas de Jorge de Lima, de Carlos Drummond de Andrade, de Oswald de Andrade.

O Movimento Concretista ganha expressão na década de 50 em São Paulo, quando os professores e publicitários Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos divulgaram as idéias básicas do concretismo na revista Noigandres (expressão da Idade Média francesa de significado desconhecido) e na Exposição Nacional de Arte Concreta em 1956, realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo.


poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia

poesia em lugar do homem
pronome em lugar do nome

homem em lugar de poesia
nome em lugar de pronome
poesia de dar o nome

nomear é dar o nome

nomeio o nome
nomeio o homem
no meio a fome

nomeio a fome



Haroldo de Campos consegue transformar fragmentos e versos curtos numa estrutura definitiva: “céu-pavão / / turquesa / rampante / / azul / a pino / / centúrias / de olhos-luz / num caudário / de estrelas / poeira / / constelário / o mundo / do seu / pedúnculo / (mundúnculo) / desestrela / trema / / e isto / * / / cisco / risco / astro / / asterisco”. Em alguns momentos, o barroco parece encontrar algo de Celan: “onde um / céu de chumbo / satúrneo / respira / violetas de / genciana”. E o orientalismo passa do discurso de Auto do possesso para a síntese de “arabescando”: “duzentas / cimitarras / assaltam o / papel / / alvor – / califa / / pássaros-cimitarras / desvoam / a nata / de seda / / cantante / cali- / grafia / / branco / (tur- / bante) / no / branco / / golpes / de cimitarras / / (pássaros) / / a sede capitula”. Mas não há isolamento nisso: a poesia de Haroldo é do diálogo e compartilha a criação. Claro que essa poesia já foi copiada e mesmo diluída – mas, de certo modo, isso representa sua força motriz inicial, capaz de reencaminhar a literatura sob um ponto de vista menos naturalista, preso a concepções antiquadas (e embora muitos ainda julguem que o que ele fez seja um neoparnasianismo, a meu ver um equívoco).
A verdade é que Xadrez de estrelas sintetiza o Haroldo que se aperfeiçoaria em Signantia quasi coelum e A educação dos cinco sentidos. Signantia, por exemplo, é uma continuação das técnicas elaboradas em Lacunae. A educação dos cinco sentidos é o livro mais diferente de Haroldo, optando por um bom humor quase ausente do restante de sua obra. Crisantempo seria o livro múltiplo mais próximo de Xadrez de estrelas. Esses, ao lado de Galáxias, compõem, na minha opinião, o eixo da obra haroldiana. E Xadrez, ainda bem, está novamente em circulação, na veia do povo inventalínguas, como diria o master entremeado às estrelas, na rosácea crepuscular de Homero.


O poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-1898) é visto como um dos escritores mais herméticos da modernidade, situado entre o simbolismo e as vanguardas do início do século XX, entre as quais se incluem o futurismo e o dadaísmo. Se já é difícil de compreendê-lo na língua original, a tradução de sua obra se torna um desafio ainda maior. Mallarmé, igualmente, por meio de Un coup de dés e de seus poemas em prosa, levou adiante as conquistas na dissolução entre gêneros, como antes dele fizeram Baudelaire e Rimbaud, na ligação entre literatura e música, além de ter sido um dos teorizadores da poesia moderna, por meio de Divagations.

Há a importância das traduções de Mallarmé feitas pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e de Décio Pignatari, visto como um dos precursores da poesia concreta dos anos 1950.

Sugiro a leitura do livro de Augusto de Campos Despoesia, Perspectiva, 1994.



1988: tvgrama I: tombeau de mallarmé



Postado por Ana A. S. Cesar

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