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abril 08, 2010

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Postado por Ana A. S. Cesar

 

 

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O texto abaixo é do escritor paulista Marcelo Novaes. Não posso dizer que o conheço, pois ele mesmo diz: "Eu sou Marcelo Novaes. Seria estranho se você me conhecesse. Ainda mais estranho (de fato!), se julgasse me conhecer. Sou, fundamentalmente, um intérprete de sonhos. E poeta, por consequência. Não abdico dos hífens, mesmo que eles caiam."  

O autor nos presenteia com momentos reflexivos da mais alta capacidade textual. A hermenêutica do pensamento poético está vinculada ao conceito de totalidade dentro da dinâmica do texto, o que faz a sua riqueza de conceitos - a materialidade do poema, as indagações socráticas do Chanceler, o humor presente, a criatividade. Chamou-me atenção a dialética: "- As escamas caíram de nossos olhos..."; "-Tomemos, então, a cicuta nós dois." É conferir e descobrir os novos rumos. O raciocínio circular se impõe e se torna vantajoso (Chanceler); está intrínseco no texto a essência do fenômeno literário. A obra literária de Marcelo Novaes pode conter em si mesma a singularização da linguagem verbal - a literalidade. Excelente!

Nota: Sócrates acreditava que o melhor modo para as pessoas viverem era se concentrando no próprio desenvolvimento ao invés de buscar a riqueza material. Diz-se que Sócrates acreditava que as ideias pertenciam a um mundo que somente os sábios conseguiam entender, fazendo com que o filósofo se tornasse o perfeito governante para um Estado. Se opunha à democracia aristocrática que era praticada em Atenas durante sua época,essa mesma ídeia surge nas Leis,de Platão seu discípulo. Sócrates acreditava que ao se relacionar com os membros de um parlamento a própria pessoa estaria-se fazendo de hipócrita.


Socrático



- Governador, eu vim lhe avisar que uma praga assola a província.


-Gafanhotos, outra vez?! Será que desagradamos ao Deus dos Exércitos, sem nos darmos conta?!


-Não, senhor Governador. Desta vez é pior. Muito pior...


-Não faça drama, chanceler. Seja direto! Você age como algumas ciganas e poetisas que me batem à porta...


-A calamidade que lhe venho comunicar, senhor, tem justamente a haver com isso que acaba de dizer o senhor...


-Com ciganas?!


-Antes fosse, Sr. Governador. Com poetas.


-Poetas não fazem mal a ninguém, chanceler. Poetas são o adorno de uma nação ou província... Ou os porta-vozes de seus melhores anseios... Assim me disseram as ciganas que me importunam pela manhã...


-Ocorre, Sr. Governador, que temos um milhão de poetas na província...


-Um milhão de poetas?! Mas isso deve ser razão de júbilo! Abramos um bom vinho! Que dele eu me embriago “Dele eu me embriago. Mas não bebo como ensinou Teofrasto, cortando o vinho em água, ou em carne antes degustada. Não, eu me embriago de verdade. Eu visto a máscara que me distorce, e ela me cola ao rosto. Eu fermento e me contorço, a partir dos bagos pisados....”, como disse certo poeta.


-Esse que o Sr. Governador cita, não é poeta.


-Não?! Mas este um que eu cito, não proferiu tais palavras?!


-De fato, proferiu tais palavras, aquele. Mas trata-se de um intérprete de sonhos, e não de um poeta de fato.


-Um intérprete de sonhos?! E o que o qualifica como intérprete de sonhos, e não poeta?! Quer dizer que este que citei, não faz parte de nosso valoroso exército de um milhão de poetas?!


-Este está fora, senhor. Trata-se de um intérprete de sonhos. Recitará um punhado destes Teofrastos e bagos mal pisados de uva, tais quais os que o senhor cita e, depois, interpretará sonhos até o final de seus dias. O que o credencia como intérprete de sonhos é o fato de que interpretou muito mais sonhos do que citou o vinho fermentado, ou outra coisa qualquer. Esse não é poeta.


-Compreendo. Citei o homem errado, então. Mas não entendo seu alarme, chanceler. Ter poetas em profusão é bom sinal. Toda província tem seus artistas e artesãos. Veja você..., temos pintores.


-De fato temos, Senhor Governador...


-E quantos são os nossos pintores, chanceler?!


- Uns seiscentos, se tanto...


-Seiscentos?! Não entendo tal disparidade... Certamente temos escultores e músicos...


-Por certo, Senhor, temos essas classes de artistas.


-E quantos seriam nossos outros valorosos artistas?!


-Seis escultores, e mil e duzentos músicos, Excelência.


-O que se passa com nossa valorosa e artística gente, que migra em massa para a arte das palavras?! Exportaremos poetas para Espanha, França, Itália, Inglaterra, Alemanha e Holanda. Essas províncias, reunidas, já tiveram, ao longo de toda sua história, um milhão de poetas?!


-Excelência... Esses povos não aglutinam sequer a décima parte desse montante.


-Então, exportaremos poetas! Se bem que não entenda as razões que nos fazem ter tão poucos pintores, músicos e escultores...


-Senhor, devo lhe esclarecer muitas cousas. Muitas delas, fundamentais para vosso entendimento...


-Chanceler, vosso tom ficou subitamente formal, mui formal, e arrepiou-me a espinha. Faláveis em pragas, depois saltastes deste assunto tenebroso para a saudável embriaguez dos poetas... E agora já adotais esse tom meticuloso e protocolar de me dizer cousas aos sussurros.


-Vossa alteza também assim o fez, sem que se desse conta do feito. Tornou-se protocolar. Tentarei ser o mais são e breve que possa. Apesar da gravidade dos fatos. Não podemos exportar poetas...


-Por que não podemos?!


-Não saberíamos quais exportar.


-Não saberíamos?! Alguns dos bons. Mas não os melhores. Alguns dos bons. Aqueles que o consenso dos poetas considere como bons para a sua espécie...


-Vossa alteza parece, de fato, ter-se embriagado do tal vinho, violando todos os códigos de Teofrasto. Não há consenso entre os poetas. Há entre os músicos. Há, entre pintores, alguma medida de julgamento. Alguns denominadores. Parâmetros. Mas não entre poetas.


-Quando um bom músico ouve a música de outro bom músico, que nome este primeiro músico dá ao que ouve ele?!


-Ele costuma chamá-la de música, senhor. E considera que essa música tenha por propósito agradar aos ouvidos dos que a escutam. Inclusive dos músicos.


-E o que ocorre no tocante aos poetas?!


-Pensam os poetas, senhor governador, que os outros proferem palavras bonitas para humilhá-los.


-Um bom pintor é um ofensor, chanceler?!


-Claro que não, senhor Governador.


-Um mui hábil escultor?!


-Também não, senhor.


-Chanceler..., esclareça-me..., quando um desenhista ou pintor faz um belíssimo desenho a nanquim, bico de pena ou aquarela... a intenção é humilhar os outros, ou compartilhar um dom? Ele quer compartilhar algo da beleza que encontrou, ou ofender seus pares?


-Naturalmente que pretendem compartilhar o belo, Senhor. O mesmo se dá com músicos e escultores, bem como com bailarinos.


-Então, só os poetas apresentam suas palavras com o desejo de humilhar seus pares... São, então, no íntimo, movidos por sadismo, e não pela busca do belo.


-Naturalmente, senhor. São, de fato, uma raça perversa.


-E eu que pensava que poetas, músicos, bailarinos, pintores e escultores eram todos artistas...


-Eu também assim pensava, senhor Governador. Até me caírem as últimas escamas dos olhos. O que move o poeta é, proeminentemente, o sadismo. Assim enxerga cada outro poeta que ouve alguém poetando. É simples.


-Sim. Parece simples. Diga-me chanceler, faz-se um pintor, dando a alguém um punhado de tintas e pincéis?


-Claro que não, senhor Governador.


-Faz-se um poeta dando a alguém um punhado de palavras, ou mesmo sí-la-bas?!


-Sinto dizer-lhe que, hoje na província, assim se faz um poeta, senhor.


-E ao que ele faz, seus pares chamam poesia?!


-Depende, senhor. Se for muito desigual ao que fazem, os que lhe ouvem chamarão de ruído.


-E se for menos desigual?!


-Chamarão de plágio, senhor.


-Quer dizer que, além de sádicos, poetas são ladrões?!


-Exatamente, senhor. Assim o percebi quando me caíram as escamas dos olhos...


-Para ser bom pintor, chanceler, há que se ter um bom manejo das tintas e pincéis, certo?


-Exatamente, senhor.


-Para se ser um bom músico, há de se ter o domínio de algum instrumento musical, correto?!


-Vossa Excelência demonstra excelso raciocínio.


-E para se ser poeta?!


-Basta ter garganta, senhor. Como aqueles bêbados que se pensam grandes cantores. Nenhum cinzel, nenhuma sapatilha, nenhuma tela, nem tintas, nem pianos. Basta a garganta. E se auto-proclamarem poetas.


-Compreendo a dificuldade, chanceler. Daí a vetusta referência ao bom vinho, a Teofrasto, bagos pisados e outras quimeras... A embriaguez os faz pensarem que são poetas. Associada ao sadismo e à rapinagem...


-Exatamente, senhor Governador. Mas devo dizer que, no caso, o senhor cita o tal intérprete de sonhos.


-Mas a matéria da poesia não é imaterial, como são as palavras?!


-Sim, senhor.


-Tão imateriais quanto os sonhos?!


-Exato, senhor. Por isso mesmo, tomastes o intérprete por um poeta, e não o tomaríeis por um bailarino ou violoncelista, por exemplo.


-Começo a compreender a intrincada lógica assimétrica que pauta as artes em nossa decadente província.


-Folgo em sabê-lo, senhor. É com inaudito gáudio que ouço vossa constatação.


-Aprendeste a falar assim com os poetas, chanceler?!


-Não, sua excelência. Isso eu aprendi com os políticos.


-As palavras são imateriais, e as outras artes dependem de suportes materiais... Comparas os poetas aos bêbados, chanceler?!


-Não senhor. Nem todo bêbado é perigoso, senhor. Ou sádico. Ou ladrão.


-Compreendo a urgência da situação.


-Veja, senhor. Todas as crianças rabiscam alguma coisa antes mesmo de falarem. E não almejam ser pintoras quando mais velhas...


-Estou acompanhando...


-Todas as mães acham suas filhas e filhos os mais lindos, mas não os expõem ao ridículo de concursos de beleza quando ficam mais velhos. Para poupar-lhes alguma humilhação desnecessária.


-Compreendo...


-Já os poetas, não poupam suas próprias palavras de concursos, humilhações e auto-humilhações desnecessários.


-Diz-me, então, chanceler, que poetas eventualmente são masoquistas, além de sádicos?


-Perversidade em seu duplo aspecto, senhor: face e contraface.


-Não poupam suas palavras de concursos, nem como poupariam suas filhas?!


-Não senhor!


-Os perfumistas têm faro, chanceler?!


-Naturalmente que possuem, senhor governador. Isso é instintivo!


-Conceberíamos um perfumista que gostasse de odores pútridos?!


-Seria inconcebível, senhor!


-Alguma mãe não admite que o filho de outrem seja mais belo que o seu?!


-Elas sabem, senhor, mas custam a admitir. Não são como os perfumistas...


-Não saberão os poetas do valor das palavras de outrem?!


-Naturalmente que sabem, senhor, tal qual os perfumistas. Mas são mais teimosos que as mães, e não poupam suas palavras de comparações despropositadas...


-Então..., eles sabem..., como os perfumistas...


-Claro que sabem, senhor. Mas além de perversos e ladrões, também mentem, senhor. Mais do que as mães de candidatas em concursos de beleza.


-Vejo então que há disparidades entre as categorias de artesãos e artistas em nossa república... Há muita perversão e rapinagem e engodo concentrados na classe dos artíficies da palavra. Não sei quem possa corrigir tal distorção...


-Não há correção possível, senhor. Nosso ancestral errou na origem.


-Falas de...


-Sim senhor: do quase louvável Adão.


-Hummm... O que ele fez de louvável?


-Deu nomes a todas as coisas...


- Isso é importante! E o que ele fez de mais condenável?!


-Deu os nomes errados, senhor.


-Estamos, então, em decadência, chanceler. Nossa província decai...


-Sempre estivemos, senhor.


-Apenas que agora...


-Sim...


-As escamas caíram de nossos olhos...


-Exatamente, senhor.


-E se juntássemos os poetas num bairro ou congresso, ou concurso... E colocássemos cicuta no abastecimento d’água daquela região da província?!


-Senhor..., fatalmente teríamos de proteger a muitos não-poetas das redondezas dando-lhes algo de beber. E só temos vinho...


-Então...


-Isso mesmo, senhor! Fatalmente se transformariam em poetas ou cantores!


-Tomemos, então, a cicuta nós dois.


-Era o que eu esperava do senhor governador. Eu sabia que, quando as escamas caíssem de vez...


Marcelo Novaes

 

Palavras-chave: Escritores, Literatura

Postado por Ana A. S. Cesar

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