Stoa :: Ana A. S. Cesar :: Blog :: Quem foi Candido Portinari?

março 23, 2010

default user icon
Postado por Ana A. S. Cesar

 

 

http://www.jfmg.com.br/imagens/UserFiles/Image/_03.jpg

 

Candido Portinari foi o pintor brasileiro a alcançar maior projeção internacional com mais de cinco mil obras concluídas, desde pequenos esboços a gigantescos murais.

Nasceu numa fazenda de café, Santa Rosa, em Brodowski (próximo a Ribeirão Preto),
no interior de São Paulo, em 29 de Dezembro de 1903. Filho dos imigrantes italianos Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato, que tiveram doze filhos, sendo ele o segundo. De família humilde, cursou apenas o primário, porém desde criança manifestou sua vocação artística.

Aos seis anos de idade, Portinari começou a desenhar, sendo que aos nove participou durante vários meses dos trabalhos de restauração da igreja de Brodowski, sua cidade natal, ajudando os pintores italianos. Aos nove anos, desenhou o retrato de Carlos Gomes, como via numa caixa de cigarros.

 

http://lidebrasil.com.br/site/wp-content/uploads/2009/05/casaporti.jpg

Casa onde viveu Portinari, em Brodowski. Hoje "Museu Casa de Portinari"

 

Em 1918, Portinari, também chamado carinhosamente de "Candinho" pela família, viajou para São Paulo, para ingressar no Liceu de Arte e Ofícios de São Paulo. Contudo, aos quinze anos de idade, matricula-se na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, na qual estudou desenho e pintura, tendo como professores Rodolfo Amoedo, Batista da Costa, Lucílio Albuquerque e Carlos Chambelland.

Em 1922, Portinari executou um retrato para o Salão de Belas Artes, e ganhou medalha de bronze pelo seu trabalho. Em 1928 conquistou o "Prêmio de Viagem ao Estrangeiro", da Exposição Geral de Belas-Artes, de tradição acadêmica.

Em 1929, Portinari partiu para a Europa, viajou pela Itália, Inglaterra, Espanha e se fixou em Paris, onde permaneceu até 1930. Ia diariamente aos museus e lá descobriu a pintura moderna. Discutia sobre arte nos cafés e não tinha quase nenhum tempo para pintar. Foi em Paris que Portinari conhece Maria Martinelli, com quem mais tarde se casou.

Longe de sua pátria, saudoso de sua gente, Portinari decide, ao voltar para o Brasil em 1931, retratar nas suas telas o povo brasileiro, superando aos poucos sua formação acadêmica e fundindo a ciência antiga da pintura a uma personalidade experimentalista e moderna.

Em 1932, Portinari expôs individualmente. Três anos depois, em 1935, seu quadro, em grandes proporções, Café recebeu a segunda menção honrosa da Exposição Internacional do Instituto Carnegie, nos Estados unidos.

Em 1936 revelou sua inclinação muralista através dos painéis executados no Monumento Rodoviário situado no Eixo Rio–São Paulo (Via Dutra), nos afrescos do novo edifício do Ministério da Educação e Saúde, realizados entre 1936 e 1944. Estes trabalhos, como conjunto e concepção artística, representam um marco na evolução da arte de Portinari, afirmando a opção pela temática social, que será o fio condutor de toda a sua obra a partir de então.

Nessa época, foi nomeado professor de pintura do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal. Em novembro de 1939 expôs 269 trabalhos no Museu Nacional de Belas Artes. Antes havia executado três grandes painéis para o pavilhão brasileiro na Feira Mundial de Nova York. No mesmo ano nasceu seu único filho, João Candido.

Companheiro de poetas, escritores, jornalistas, diplomatas, Portinari participa da elite intelectual brasileira numa época em que se verificava uma notável mudança da atitude estética e na cultura do país: tempos de Arte Moderna e apoio do mecenas Getúlio Vargas que, dentre outras qualidades soube cercar-se da nata da intelectualidade brasileira de seu tempo.

No final da década de trinta consolida-se a projeção de Portinari nos Estados Unidos. Em 1939 executa três grandes painéis para o pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York. Nesse mesmo ano o Museu de Arte Moderna de Nova York adquire sua tela O MORRO.

Em 1940, participa de uma mostra de arte latino-americana no Riverside Museum de Nova York e expõe individualmente no Instituto de Artes de Detroit e no Museu de Arte Moderna de Nova York, com grande sucesso de público, de crítica e mesmo de venda (menor das preocupações do Artista...)

Em dezembro deste ano a Universidade e Chicago publica o primeiro livro sobre o pintor, Portinari, His Life and Art, com introdução do artista Rockwell Kent e inúmeras reproduções de suas obras.

Em 1941, Portinari executa quatro grandes murais na Fundação Hispânica da Biblioteca do Congresso em Washington, com temas referentes à história latino-americana.

De volta ao Brasil, realiza em 1943 oito painéis conhecidos como "Série Bíblica", fortemente influenciado pela visão picassiana de Guernica e sob o impacto da 2ª Guerra Mundial.

Em 1944, a convite do arquiteto Oscar Niemeyer, inicia as obras de decoração do conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, destacando-se o mural "Sâo Francisco" e a "Via Sacra", na Igreja da Pampulha.

A escalada do nazi-fascismo e os horrores da guerra reforçam o caráter social e trágico de sua obra, levando-o à produção das séries "Retirantes" e "Meninos de Brodoswki", entre 1944 e 1946, e à militância política, filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro e candidatando-se a deputado, em 1945, e a senador, 1947.


 

Brodowski conserva os objetos, as paisagens e o cotidiano do maior pintor brasileiro. Acima, Arduíno Morando, um dos meninos retratados por Portinari


Em 1948, Portinari exila-se no Uruguai, por motivos políticos, onde pinta o painel "A Primeira Missa no Brasil", encomendado pelo banco Boavista do Brasil.

Em 1949 executa o grande painel "Tiradentes", narrando episódios do julgamento e execução do herói brasileiro que lutou contra o domínio colonial português. Por este trabalho Portinari recebeu, em 1950, a medalha de ouro concedida pelo Juri do Prêmio Internacional da Paz, reunido em Varsóvia.

Em 1952, atendendo a encomenda do Banco da Bahia, realiza outro painel com temática histórica, "A Chegada da Família Portuguesa à Bahia" e inicia os estudos para os painéis "Guerra e Paz", oferecidos pelo governo brasileiro à nova sede da Organização das Nações Unidas. Concluídos em 1956, os painéis, medindo cerca de 14x10 m cada - os maiores pintados por Portinari - encontram-se no "hall" de entrada dos delgados de edifício-sede da ONU, em Nova York.

Em 1960 nasceu sua neta Denise, que passou a ocupar boa parte de seu tempo. Pintou muitos quadros com o retrato dela. Quando não estava com Denise, Portinari passava horas fitando o mar, sozinho. No ano seguinte escreveu um ensaio de oração para a neta.

Em janeiro de 1962 sofreu nova intoxicação por chumbo, que já o atacara em 1954. Adoecido, não mais se recuperou. Nessa época, preparava uma grande exposição, com aproximadamente duzentas obras, a convite da prefeitura de Milão. Em 6 de fevereiro, Portinari morreu, vítima de intoxicação pelas tintas que utilizava.

 

www.culturabrasil.pro.br/portinari e www.wikipedia.org

 

 

GUERRA E PAZ

 

autografo.gif (13236 bytes)

 

 

 

A arte na guerra pela paz

por Emir Sader

 

É como se a paz tivesse nascido depois da guerra. Pelo menos para a arte. Como se as sociedades humanas tivessem nascido em guerra e somente depois tivessem conquistado a paz. Tudo isso pela forma como a guerra foi tem privilegiado de todas as formas de arte - da pintura ao cinema, do romance à poesia, da dança à música - especialmente no século XX, um século de guerra mais do que paz.

Por isso a paz foi um dos temas igualmente privilegiados pelos mais importantes artistas do mundo contemporâneo - a paz, a luta contra a guerra, a guerra pela paz. Dentre eles, Pablo Picasso, Bertold Brecht, Charlie Chaplin e Candido Portinari - quatro dos maiores artistas do século XX.

Um século que teve os prognósticos de que as guerras interimperialistas levariam a humanidade a sangrentos enfrentamentos militares, dramaticamente confirmados, que envolveu seus artistas e sua arte no clima bélico que ocupou praticamente toda a sua primeira metade, a ponto de ter havido quem o definisse como "o século das guerras".

A geração de artistas que cruzou grande parte do século comprometida com o humanismo teria necessariamente que fazer da paz e da guerra um de seus temas centrais.

A deflagração da Primeira Guerra Mundial no centro mesmo do que se considerara a civilização mais avançada do mundo revelou como os termos "civilização" e "barbárie" se misturavam, com fronteiras dificilmente delimitáveis. 

Desatou-se o mais selvagem enfrentamento bélico que a humanidade havia conhecido, a guerra da baioneta, do choque cara-a-cara, dos massacres como nunca se haviam dado nas guerras anteriores. Iniciava-se o século em que mais homens mataram homens em guerras, com um conflito que só se resolveu para abrir as condições que gerariam sua continuação pouco mais de duas décadas depois.

Instalava-se na Europa um clima de intolerância e de regimes de terror, com a proliferação dos fascismos de diferentes formas - da Alemanha à Itália, da Espanha a Portugal. A república espanhola foi vítima particular da sanha dessas forças, congregando na sua defesa aquilo com que de melhor o mundo da cultura e das artes poderia contar, com sua derrota simbolizando como se deslocava a favor das forças belicistas o pêndulo da história na primeira parte do século XX.

A resistência ao fascínio galvanizou o mundo e os homens da cultura e das artes, que colocaram a serviço da luta contra as forças que representavam as expressões mais extremistas dos imperialismos mundiais. A Segunda Guerra Mundial desatou os movimentos pela paz com força que não haviam tido até ali, demonstrando como os destinos futuros da humanidade eram jogados decisivamente naquele momento.

Aquele capítulo particularmente violento da história humana ainda viveria as bombas atiradas sobre Hiroshima e Nagasaki, antes que a paz mundial aparentemente prevalecesse na metade do século XX.

Foi nesse marco - o da resistência e o do triunfo democrático - que uma geração notável de artistas e homens de cultura brasileiros se integraram a esse movimento internacional com o melhor de sua capacidade criativa. Os poemas de Carlos Drummond de Andrade sobre o assassinato de Federico Garcia Lorca, sobre a resistência de Stalingrado, ao lado das telas de Portinari Guerra e Paz se destacam como expressões maiores desse movimento.

Portinari teve, com todos os méritos, obras suas entronizadas naquela instituição cuja fundação deveria consagrar a vitória da paz sobre a guerra - a Organização das Nações Unidas. O mundo pôde, pela primeira vez, conhecer e admirar um artista brasileiro incorporado a espaços de prestígio e visibilidade mundiais.

No sofrimento daqueles rostos, daqueles corpos vergados pelo peso do sofrimento, naquelas expressões carregadas de desespero e de temor, Portinari elevava a arte brasileira à universalidade, inserindo - na criatividade de sua forma e na contundência do seu conteúdo - sua obra no acervo mundial da arte comprometida com o humanismo e com a solidariedade.

Brasileiro, pintor, comunista, Portinari se consagrava como a figura mais poderosa e expressiva da pintura brasileira do século XX. A partir dali, a carta que - segundo as reveladoras palavras de seu filho João Candido -, escrita por ele ao povo brasileiro, ainda está por ser entregue, passou a ter outro grande destinatário - a humanidade. Dela Portinari soube captar um drama que parece se perpetuar, enquanto os desvarios imperiais seguirem ameaçando impor a força da metralha sobre a vontade de paz e de convivência solidária. Portinari, aqui de corpo inteiro, revela toda sua atualidade e sua humanidade, a dos que lutam por um outro mundo possível.

 

O "Menino de Brodósqui"

Editora: Livroarte Editora
 Ano: 1979
               


         

Este livro é uma nova edição da original, publicada em 1979, primeiro fruto do Projeto Portinari, que então ensaiava os seus primeiros passos. Esta nova edição surgiu com a sinergia do mundo de Portinari com O Boticário, empresa brasileira, de excelência, responsabilidade social e cidadania.

Este é um livro sobre a infância. A infância do pintor e a infância vista na sua obra. E como a infância chama o futuro, é sobre o pintor, nós e o futuro que eu quero falar. Mas antes preciso contar uma história. Porque acontece que o pintor, o "Menino de Brodósqui", foi meu pai - ou, como descendente de italianos, meu "papa".

A história tem a forma de uma carta que eu-filho-nós escreve para ele-pai-Brasil.

João Candido, 1979.

 

"Quanta coisa eu contaria se pudesse

E soubesse ao menos a língua como a cor."

Portinari, Bordo do Conte Grande

25 de outubro de 1958

 

http://www.estantevirtual.com.br/imagens/capas/1966177.jpg

 

O menino e o povoado

 

Fizeram uma parada, uma parada

Para o trem carregar café,

Antes, estradas difíceis, só carros de bois

Transitavam, levando dias e dias,

Depois, uma casa aqui, outra ali.

 

Formaram o povoado. Não

Há rio, nem pedras.

De tijolos caiados e telhas antigas

São as construções; de taipas e

Arame farpado, os divisores.

 

Lugar arenoso no meio da terra roxa

Cafeeira. Imenso céu azul circula

O areal. Milhares de brancas nuvens

Viajam. Caravanas luminosas

Em movimento. O mais solitário, ali

Deixaria de sê-lo. Toda essa fagueira

Companhia. Alegre e promissor

Futuro...

 

As festas, os bailes, a banda de música

Procissões e o sino repicando...

Muito povo endomingado

Noites enluaradas e todas as estrelas

Eram mais claras do que os dias nos outros povoados.

 

Antes da luz e da água encanada,

No povoado havia lamparina

E cisterna; dez a quinze metros

Para encontrar o líquido.

 

Os circos traziam iluminação

De carbureto. Próximos

Dos elementos. Quantos vendavais e

Chuvas de granizo!

 

Moinhos de garapa,

Feitos de madeira - canaviais

E matas virgens com seus pássaros e

Frutas. Consumiram

 

Tudo e mais as lendas. Onde

Estarão os jacus e as pacas?

Os jenipapos e jatobás?

As estradas cortando as

 

Matas criavam histórias

E medos. Os caminhos

Também fugiram. Olhando

O céu, às vezes os vejo transformados em nuvens.

 

Saí das águas do mar

E nasci no cafezal de

Terra roxa. Passei a infância

No meu povoado arenoso.

 

[...]


 

http://ritualcafe.files.wordpress.com/2007/07/portinari.jpg

foto: Portinari e sua esposa Maria, no seu ateliê (Rio, 1931)

 

“Vim da terra vermelha e do cafezal.
As almas penadas, os brejos e as matas virgens
Acompanham-me como o espantalho,
Que é o meu auto-retrato.
Todas as coisas frágeis e pobres
Se parecem comigo.”

 

Projeto Portinari: http://www.portinari.org.br/

Palavras-chave: Biografia, Memória, Pintura, Portinari

Postado por Ana A. S. Cesar

Você deve entrar no sistema para escrever um comentário.

Termo de Responsabilidade

Todo o conteúdo desta página é de inteira responsabilidade do usuário. O Stoa, assim como a Universidade de São Paulo, não necessariamente corroboram as opiniões aqui contidas.