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novembro 17, 2009

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Postado por Ana A. S. Cesar

 

Há livros nos quais a gente ouve falar desde muito cedo, porque se tornaram clássicos. "O Apanhador no Campo de Centeio" é um desses livros.

 

the catcher

 

 

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[...]

A porta do quarto estava aberta, mas bati assim mesmo só para bancar o educado e tudo. Do corredor, podia ver onde ele estava, sentado numa baita poltrona de couro, todo enrolado naquele cobertor que eu acabei de falar. Olhou na minha direção quando bati.
- Quem é? - gritou de lá - Caulfield? Entre, rapaz -. Fora da sala de aula ele estava sempre gritando. Isso às vezes me enchia um pouco.
Foi só entrar e fui ficando logo meio arrependido de ter ido. Ele estava lendo a revista Atlantic Monthly, havia pílulas e remédios espalhados por todo canto e o quarto inteiro cheirava a vick-vaporub. Era um bocado deprimente. Já não morro de amores por gente doente, mas o negócio era ainda mais deprimente porque o velho Spencer estava usando um roupão tão velho e surrado que parecia já ter nascido dentro dele. De qualquer maneira, não me agrada muito ver um sujeito velho de pijama ou roupão. Fica sempre aparecendo o peito, todo ossudo e encalombado. E as pernas. Perna de gente velha na praia é sempre branca e sem cabelo.
- Como vai o senhor? - eu disse. - Recebi seu bilhete e quero lhe agradecer. (Ele tinha me mandado um bilhete pedindo que eu aparecesse para dizer adeus antes das férias de Natal, mas era tudo porque eu não ia voltar mesmo.) – O senhor nem precisava escrever, vinha mesmo aqui me despedir.
- Senta aí, meu filho - disse o velho Spencer, mostrando a cama.
Sentei e fui tratando de perguntar: - O senhor melhorou da gripe?
- Meu filho, se me sentisse um pouquinho melhor ia ter que chamar um médico - Pronto, foi o que bastou. Teve o maior acesso de riso. Afinal, se endireitou e disse:
- Por que é que você não foi ao jogo? Pensei que hoje fosse o dia da grande partida.
- É hoje, sim. Estive lá, mas acontece que estou voltando agorinha mesmo de Nova York com a equipe de esgrima. (Puxa, a cama dele era dura como uma pedra.)
Ele aí começou a ficar sério pra diabo. Eu sabia que ia ser assim.
- Quer dizer que você vai nos deixar, não é?
- É, sim senhor, acho que sim.
Nesse instante, ele começou com aquele negócio de balançar a cabeça. Duvido que haja alguém que sacuda mais a cabeça que o velho Spencer. A gente ficava sem saber se ele balançava a cabeça porque estava pensando muito, ou se era apenas porque já estava ficando gagá.
- O que é que o Doutor Thurmer lhe disse, meu filho? Soube que vocês tiveram uma boa conversinha.
- É, tivemos sim. Uma conversa e tanto. Acho que fiquei mais de duas horas no escritório dele.
- E o que foi que ele disse a você?
- Ah... esse negócio de que a Vida é um jogo e tudo mais. E que a gente precisa jogar de acordo com as regras. Ele até que foi simpático, quer dizer, não subiu pelas paredes nem nada. Só ficou falando que a Vida é um jogo e tudo. O senhor sabe.
- E a vida é um jogo, meu filho. A vida é um jogo que se tem de disputar de acordo com as regras.
- Sim, senhor, sei que é. Eu sei.
Jogo uma ova. Bom jogo esse. Se a gente está do lado dos bacanas, aí sim, é um jogo - concordo plenamente. Mas se a gente está do outro lado, onde não tem nenhum cobrão, então que jogo é esse? Qual jogo, qual nada.
- O Doutor Thurmer já escreveu para seus pais?
- Disse que ia escrever segunda-feira.
- E você, por acaso, já se comunicou com eles?
- Não senhor, não me comuniquei porque acho que vou vê-los na quarta-feira de noite, quando chegar em casa.
- E como é que você acha que eles vão receber a notícia?
- Bem... vão ficar um bocado aborrecidos, lá isso vão. Acho que esse já é o quarto colégio em que estive. (Sacudi a cabeça. Eu costumo sacudir a cabeça um bocado.) - Puxa! - disse. Eu também vivo dizendo "Puxa!", em parte porque tenho um vocabulário horroroso, e em parte porque às vezes me comporto como se fosse um garoto. Naquele tempo eu tinha dezesseis anos - estou com dezessete agora - mas de vez em quando me comporto como se tivesse uns treze. E a coisa é ainda mais ridícula porque tenho um metro e oitenta e cinco e já estou cheio de cabelos brancos. Estou mesmo. Um lado da minha cabeça - o direito - tem milhões de cabelos brancos desde que eu era um garotinho. Apesar disso, às vezes me comporto como se tivesse doze anos. É o que todo mundo diz, principalmente meu pai. Até certo ponto é verdade, mas não é totalmente verdade. As pessoas estão sempre pensando que alguma coisa é totalmente verdadeira. Eu nem ligo, mas tem horas que fico chateado quando alguém vem dizer para me comportar como um rapaz da minha idade. Outras vezes, me comporto como se fosse bem mais velho - no duro - mas aí ninguém repara. Ninguém nunca repara em coisa nenhuma.
O velho Spencer começou a sacudir a cabeça de novo. Começou também a limpar o nariz. Fingiu que estava só coçando, mas enfiou mesmo o dedão lá dentro. Acho que ele pensou que não fazia mal, porque só eu estava no quarto. Não que eu me importasse, só que é um bocado desagradável ficar olhando alguém limpar o nariz. Aí ele disse:
- Tive o privilégio de conhecer seu pai e sua mãe quando eles tiveram aquela conversinha com o Doutor Thurmer algumas semanas atrás. São excelentes pessoas.
- É sim, eles são muito bons.
Excelente. Se há uma palavra que eu odeio é essa. Falsa como quê. Só de ouvir me dá vontade de vomitar.
Então, de repente, o velho Spencer ficou com cara de quem tinha uma coisa especial, algo de verdadeiramente fabuloso, para me dizer. Endireitou-se todo na poltrona e virou mais para o meu lado. Mas não passou de um rebate falso. Só fez mesmo apanhar o Atlantic Monthly do colo e tentar jogá-lo em cima da cama, ao meu lado. Só tem que errou. Por uns cinco centímetros, mas errou. Levantei, apanhei a revista do chão e pus sobre a cama. De uma hora para outra me deu uma vontade danada de dar o fora. Estava para chegar um sermão daqueles. Isso eu ainda agüentava, mas ter de ouvir o sermão sentindo cheiro de vick-vaporub e vendo o velho Spencer de pijama e roupão, tudo ao mesmo tempo, isso também já era demais. Mas o negócio começou mesmo.
- O que é que há com você, rapaz? - disse o velho Spencer, com uma voz um bocado severa, o que não era muito do estilo dele. - Quantas matérias você tinha neste semestre?
- Cinco.
- Cinco. E está sendo reprovado em quantas?
- Quatro. (Mexi a bunda na cama, um pouquinho para o lado. Era a cama mais dura em que eu já havia sentado em toda a minha vida.) - Passei em Inglês - disse - já tinha estudado esse troço todo de literatura quando estava no Colégio Whooton. Quer dizer, não tinha quase nada para fazer em Inglês, a não ser escrever umas redações de vez em quando.
Ele nem estava me escutando. Quase nunca prestava atenção quando a gente dizia alguma coisa.
- Reprovei-o em História porque você não sabia absolutamente nada.
- Eu sei disso, Professor. O senhor não podia fazer nada.
- Absolutamente nada - repetiu. Isto é um troço que me deixa maluco, quando uma pessoa repete a mesma coisa, desse jeito, depois que a gente já concordou na primeira vez. Ele aí disse pela terceira vez: - Mas absolutamente nada. Duvido mesmo que você tenha aberto o livro uma única vez durante todo o ano. Então, abriu ou não abriu? Vamos, rapaz, diga a verdade.
- Bem, dei umas lidas de vez em quando - respondi-lhe. Não queria magoar o velho, ele era biruta por História.
- Deu umas lidas, não foi? - disse ele com uma voz sarcástica pra chuchu. - Sua prova está ali, em cima da cômoda. Bem no alto da pilha. Traga ela aqui, por favor.
Era mesmo um golpe sujo, mas fui até lá e entreguei a folha a ele - não tinha mesmo outra saída. Sentei outra vez na cama de cimento. Puxa, ninguém pode imaginar como eu estava arrependido de ter ido até lá me despedir do velho. Pegou na prova como se fosse titica ou coisa que o valha.
- Estudamos os Egípcios de 4 de novembro a 2 de dezembro. Você mesmo escolheu os egípcios como tema de dissertação. Você se importa de ouvir o que escreveu?
- Não precisa, não senhor.
Mas ele começou a ler assim mesmo. Ninguém consegue parar um professor quando eles resolvem fazer alguma coisa. Vão fazendo de qualquer maneira.
Os egípcios eram uma raça antiga de caucasianos que habitava uma das regiões do norte da África. A África, como todos sabem, é o maior continente do hemisfério oriental.
Eu tinha que ficar lá sentado, ouvindo aquela baboseira toda. Era mesmo sujeira dele.
Os egípcios são extremamente interessantes para nós, nos dias de hoje, por várias razões. A ciência moderna ainda gostaria de saber quais os ingredientes secretos que os egípcios empregavam quando embrulhavam os mortos, para que seus rostos não apodrecessem ao longo dos séculos sem fim. Esse interessante enigma permanece ainda, no século XX, como um desafio à ciência moderna.
Parou de ler e pôs a prova no colo. Eu estava começando a ficar com uma raiva danada dele. - Sua dissertação, se é que devemos chamá-la assim, acaba aqui - disse ele naquela voz sarcástica. Ninguém imaginaria que um cara tão velho pudesse ser tão sarcástico e tudo. - Entretanto, você escreveu-me um bilhetinho no pé da página.
- Eu sei, Professor - fui dizendo bem depressa para ver se ele não começava a ler também aquilo. Mas ninguém podia fazer ele parar. O homem estava mais aceso que um buscapé.
Caro Professor Spencer (começou a ler em voz alta): Isto é tudo o que sei sobre os egípcios.
Não consigo me interessar muito por eles, embora suas aulas tivessem sido muito interessantes. Mas o senhor não precisa se incomodar se eu for reprovado; fui mesmo ao pau em todas as matérias, menos Inglês. Respeitosamente, Holden Caulfield.
Baixou a droga do papel e olhou para mim como se tivesse acabado de me dar uma surra danada num jogo de pingue-pongue ou coisa parecida. Acho que nunca poderei perdoar o velho por ter lido aquela porcaria toda em voz alta. Eu não teria lido para ele, se fosse ele quem tivesse escrito aquele bilhete nojento para que ele não se sentisse mal por ter de me reprovar.
- Você me culpa por tê-lo reprovado, rapaz?
- Não senhor, claro que não! -. Bem que ele podia parar de me chamar de rapaz o tempo todo.
Quando tinha acabado, tentou jogar a prova em cima da cama. Só que errou outra vez, naturalmente. Tive que me levantar de novo, catar o papel do chão e pôr em cima do Atlantic Monthly. É chato ter que fazer isso de dois em dois minutos.
- Que faria você em meu lugar? Diga a Verdade, rapaz.
A gente podia ver que ele estava realmente sentido por ter de me reprovar. Por isso, resolvi entrar com uma conversinha mole. Disse a ele que eu era mesmo um preguiçoso e tudo. Que eu, no lugar dele, teria feito a mesma coisa e que a maioria das pessoas não imagina como é difícil ser professor - em resumo, a maior embromação. Toda a velha conversinha fiada.
Mas o gozado é que, enquanto ia metendo a conversa mole, eu estava pensando no laguinho do Central Park, aquele que fica lá pro lado sul. Imaginava se ele estaria gelado quando eu voltasse para casa e, se estivesse, para onde teriam ido os patos. Estava pensando para onde iam os patos quando o lago ficava todo gelado, se alguém ia lá com um caminhão e os levava para um jardim zoológico ou coisa que o valha, ou se eles simplesmente iam embora voando.
Até que tenho sorte, poder ficar dizendo aquilo tudo ao velho Spencer e, ao mesmo tempo, pensar naqueles patos. Não é preciso pensar muito quando se fala com um professor. De repente, entretanto, ele interrompeu minha conversa fiada. Ele estava sempre interrompendo a gente.
- Como é que você está se sentindo em relação a isso tudo, rapaz? Gostaria muito de saber, muito mesmo.
- O senhor quer dizer, esse negócio de ser expulso do Pencey e tudo? -. Bem que ele podia cobrir o peito encalombado. Não era uma vista das mais agradáveis.
- Se não me engano, você também teve umas dificuldades no Colégio Whooton e no Elkton Hills, não é? -. Além da vozinha sarcástica, ele falava agora com uma pontinha de maldade.
- Em Elkton Hills, não. Lá não tive dificuldade nenhuma, não fui reprovado nem nada. Só que resolvi ir embora...
- Pode-se saber por quê?
- Por quê? Bem, é uma estória muito comprida, Professor. Quer dizer, é um bocado complicada.
Eu não estava era com vontade de discutir o assunto com ele. De qualquer jeito, não ia mesmo me compreender, estava fora do alcance dele. Uma das razões mais importantes para minha saída do Elkton Hills foi que o colégio estava entupido de hipócritas. Só isso, tinha um cretino em cada canto.

[...]

 

Palavras-chave: Literatura estrangeira

Postado por Ana A. S. Cesar

Comentários

  1. Edson Zangiacomi Martinez escreveu:

    Olá Ana

    Eu gostei bastante da capa do "The catcher in the rye", com o desenho da menina e o carrosel. Bastante significativo !

    Um grande abraço

    Edson

    Edson Zangiacomi MartinezEdson Zangiacomi Martinez ‒ terça, 17 novembro 2009, 20:34 -02 # Link |

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