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setembro 24, 2009

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Postado por Ana A. S. Cesar

Em entrevista, o português António Lobo Antunes revela seus sentimentos sobre o Brasil, a doença, a escrita e a leitura.

fonte: Revista Língua Portuguesa 09/2009 - 47ª edição - Terciane Alves, de Paraty.


Do escritor português António Lobo Antunes espera-se um homem austero, reservado, de poucas palavras. Afinal, tem fama de intimidar as pessoas, tanto por sua obra quanto por sua personalidade. Mas tudo isso foi se desconstruindo ou se afirmando de outro jeito, bem mais brasileiro do que propriamente português, em sua vinda ao Brasil, em julho, depois de vinte e seis anos de ausência do país. Lobo Antunes participou da 7ª edição da Festa Internacional Literária de Paraty para lançar Explicação dos Pássaros (1981) e O Meu Nome é Legião (2007), ambos pela Alfaguara-Objetiva. Aos 66 anos, 30 da estreia como escritor (Memória de Elefante e Os Cus de Judas, em 1979), é um psiquiatra autor de 21 romances, que foi tenente e médico do exército português em Angola, na Guerra do Ultramar de 1971 a 73.

Mas ainda se considera o menino que cresceu ouvindo o avô falar com sotaque paraense. Mete Garrincha no meio de uma conversa literária, fala das feijoadas do amigo João Ubaldo Ribeiro e dos nomes brasileiros das tias Miluca e Maroca.

Diferentemente de tantos autores lusitanos, que têm forte veia nostálgica, Lobo Antunes transforma lembranças em histórias de humor ou catarses carregadas da mesma força com que produz sua literatura.

Seu encanto vem de um certo "centro de gravidade numa paisagem familiar" de que já falou Paulo Mendes Campos sobre os poetas. O fato é que Lobo Antunes, hoje um expoente da língua, não consegue recontar sua história de vida ou de trabalho sem falar do Brasil.

Alguns indícios desse território fictício chamado Brasil num escritor que tem origem em famílias brasileiras: Lobo Antunes cresceu lendo Machado, Alencar e Lobato na casa do avô e declara-se apadrinhado de Jorge Amado. Em menino, quando doente, ouvia o pai ler Bandeira e notava a ambiguidade do velho em dia de jogos Brasil-Portugal.

Diz que o Brasil não é para ele um país, mas um território de sentidos: cheiros, imagens dos avós, tios e parentes. A seguir, algumas questões feitas por Língua durante o encontro que ele teve com jornalistas, em Paraty. Nos quadros das próximas páginas, os comentários do escritor a questões abordadas nas coletivas de que participou.

O senhor esteve bastante doente em 2007....
Queres saber detalhes sobre a minha doença?

Não exatamente. Mas quero saber se esse problema interferiu no processo de escrita ou na sua relação com as palavras. Até porque o senhor já disse que se sentia "mais inteiro nos livros" desde então.
Doenças são uma falta de educação da natureza. Eu tive um cancro. Fiquei em um hospital público, com pessoas muito simples. E, nesse momento, você termina tendo muito tempo para conversar consigo mesmo. Eram meninos de 18 anos. Homens de 80. E todos em tratamento completo. E eu me dei conta de que era nada perto deles. Essas pessoas [doentes de câncer] têm uma dignidade natural, uma profunda coragem. Lembro de um senhor de 90 anos, com nódulos espalhados por todo o corpo, que sempre ia ao hospital de traje completo, a gravata mais bonita que eu já vi, e avançava para o guichê como se fosse um príncipe. Muitas vezes pensei: eles são muito melhores do que eu.

Sente-se mais sensível do que antes?
Penso que é muito complicado falar disso tudo. Mas eu descobri muitas coisas por causa do que passei. Percebi que a fama e o sucesso não valem nada. Aos 21 anos, estava de plantão em um hospital e vi um menino de 4 anos. Ele morreu. Quando um adulto morre em um hospital, ele segue em uma maca, coberto, e vai protegido. Aquele menino seguia coberto, no colo de um enfermeiro, só com o pezinho de fora. Então, eu pensei, vou escrever para aquele pé. Se você escrever por um pé, você já fez o bem. 

Quem o senhor considera os maiores romancistas de língua portuguesa da atualidade?
Eu. (E prende o olhar fixo na repórter) (Gargalhadas na coletiva). Se quiserem, posso mentir.

Além do senhor, quem mais? Nada a dizer sobre o Nobel português José Saramago?
O que temos na nossa língua de bom, sobretudo, são os poetas. Quando menino, éramos seis irmãos, e quando um adoecia, todos adoeciam também. Meu pai lia na cama para dormirmos. Lia em voz alta Vou me Embora para Passárgada e eu achava que aquilo era pra mim. (Carlos) Drummond de Andrade e (João) Cabral (de Mello Neto) são pra mim os grandes poetas. Por coincidência, brasileiros. Meu pai tinha em sua casa, quando pequeno, Machado, Aluísio de Azevedo, Pompeia.

Mas o senhor falou de poetas, e romancistas?
Não gosto do termo romancistas. Penso em ficcionistas. Não gosto de dar conselhos porque não gosto de receber, mas se pudesse dar um seria "nunca acredite num escritor". Estou sempre a posar de perfil para a eternidade, reparem como sou profundo. A maior parte dos jornalistas quer que eu faça jus a essa postura, é um jogo de equívocos. Mas se você encontrar no mundo todo cinco bons escritores já é muito bom. Isso é um problema grave para os editores.

O senhor diz que escrever é difícil, trabalhoso. Como é, na prática, essa dificuldade?
Escrevo sempre à mão. Fiz assim com todos os meus livros e seguirei fazendo assim nos próximos. É um ir e vir constante. Dois terços das palavras que você escreve são inúteis. (O escritor argentino Julio) Cortázar costumava dizer: "Esses adjetivos são umas putas". Há palavras que surgiram para ser simplesmente cortadas, advérbios de modo, adjetivos. Se você escreve dez horas, duas você passa realmente escrevendo. As outras, cortando. 

Como definiria a escrita de um romance?
Muitas vezes eu me pergunto até que ponto um grande livro não é inevitavelmente um livro doente. Não há intrigas nos meus romances. Os romances maus contam histórias. Os romances bons falam de nós mesmos. Se eu não escrevo, sinto-me culpado. Há um escritor português chamado Francisco Manuel de Melo que dizia: "O livro trata do que vai escrito nele. Freud falava da inveja do pênis, mas a da gravidez é muito maior. No fim, escrever é a única maneira de ficar grávido". Temido, ousado, irônico.

O que deve entusiasmar num livro?
O leitor sentir as emoções por meio de suas palavras. Não vou deixar que o livro me vença. É preciso criar o máximo que se possa. Encher os livros de silêncio.

O reconhecimento de sua obra é a meta de um escritor?
Nunca imaginei que fosse acontecer comigo tudo isso: os prêmios, as traduções, todo esse conhecimento. Ainda hoje continuo com esse medo. Não imaginei que fosse acontecer comigo o que aconteceu. Começa a se pôr outra espécie de problema. Se aquilo que estou a fazer está à frente do meu tempo, não haverá unanimidade. Quando há unanimidade, você começa a se interrogar o que há, que é que fez mal. Juro que a única maneira é fazer o seu trabalho e não pensar no resto, em nada.

Sobre a arte da leitura


O leitor é quem está escrevendo o livro. Ler é um ato criativo. E há poucas pessoas que sabem ler. Ler não é um ato passivo como quando a gente vê novela. Os livros que eu gosto de ler são os livros que exigem muito de mim . Daí eu estou a pensar se os livros em vez de ter o nome do escritor, deviam ter o nome do leitor na capa. Ele é quem de fato escreve o livro. Quem começa a ler um livro bom sempre descobre coisas acerca de si mesmo. Livros extraordinariamente simples são os mais complexos.

A amizade com João Ubaldo


Íamos à casa de João às duas da manhã e lá estava ele fazendo
feijoada, de chinelo e calção. Ele vivia o inverno de Lisboa, que é frio, como se estivesse no verão da Bahia. E às quatro da manhã se comia a feijoada. Depois, não escrevia. Então deu uma entrevista a um jornal, em que lhe perguntavam:
- Você já não escreve?
E João Ubaldo respondeu:
- Escrevo. Meu pseudônimo é António Lobo Antunes.

A relação com o Brasil


Para mim, o Brasil não é um país. São os cheiros, os sabores, os doces da minha avó e das minhas tias, a comida, uma maneira de viver e de falar e é sobretudo o meu avô, que está aqui presente em toda a parte. É a terra dele, é a terra da minha família. É a terra de onde vêm os meus nomes Lobo e Antunes, e por isso para o escritor é muito comovente estar de novo no Brasil, onde - apesar de ainda aqui ter família - já não vinha desde 1983.


A recusa do pai em lê-lo


Eu também pensava que ele não tinha lido. Mas depois da morte dele encontrei os meus livros todos anotados e uma carta que ele me deixou de 600 páginas. Deve ter levado uns dois anos a escrever aquela carta. O meu pai, que era médico, era muito severo. Não queria ter filhos, queria campeões de karaté. Tínhamos de ser bons em tudo. Mas foi graças a ele que aprendi a gostar de ler poesia: era o pai que nos lia Manuel Bandeira quando cada um estava doente.

Palavras-chave: Literatura

Postado por Ana A. S. Cesar

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