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junho 06, 2009

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Postado por Ana A. S. Cesar
 
Ensino de Artes e de Inglês, O

 

BATE PAPO

As crianças da sala de educação infantil da Associação Nosso Sonho têm uma coisa em comum com a educadora que ministra as aulas. A artista plástica Ana Amália Tavares Bastos Barbosa, 42 anos, sofreu um AVC de tronco durante a defesa de sua tese de mestrado e ficou com seus movimentos seriamente comprometidos. Mas esse fato não a impediu de seguir em frente, superar barreiras e voltar as suas atividades acadêmicas e profissionais. Utilizando os recursos de tecnologia assistiva, Ana Amália não só ministra aula de artes, como também dá uma lição de vida para as crianças mostrando a elas que a deficiência não é empecilho para ser produtivo e feliz. Confira a entrevista concedida ao repórter Maito (maito@nossosonho.org.br):

Como foi que você recebeu a notícia que sofreu um AVC de tronco? O que mudou na sua vida depois disso?

Receber essa notícia foi muito doloroso, especialmente porque eu não sabia nada sobre o assunto. Mudou tanta coisa! Tive que me reinventar e passei a encarar tudo de forma menos trágica. No início não imaginava que minha vida poderia ser ativa, mas também não consigo me imaginar quietinha.

Que tipo de suporte familiar e clínico você tem?

Meus pais foram maravilhosos e nós (eu e minha filha) nos colocamos embaixo das asas deles. Tenho um Home Care, ou seja, tenho enfermagem 24 horas - 2 fisioterapeutas e 2 fonoaudiólogas por dia - T.O (Terapia Ocupacional)., psicóloga, médico e nutricionista. Além disso, faço hidroterapia e TO na DMR (Divisão de Medicina e Reabilitação do Hospital das Clínicas).

Como é superar suas limitações diariamente?

Passei muito tempo acordando de um pesadelo diário. Hoje em dia, ao acordar, eu me pergunto qual será o desafio do dia. Eu sinto que tenho o dever de viver bem, já que estou viva, e é assim que eu quero que Ana Lia (sua filha de 8 anos) veja a vida.

Como é o processo de comunicação com sua filha?

Quando sofri o AVC ela tinha um ano e oito meses, mal sabia falar. Aos poucos ela aprendeu a interpretar meus olhares. Ainda havia momentos em que a palavra era necessária, aí eu escrevia e a babá lia pra ela. Porém há momentos em que não há palavras, apenas sentimentos. Para essas situações eu sempre usei o desenho. Comecei a perceber que quando eu acabava um desenho logo em seguida ela me dava outro. Começamos a conversar através dos desenhos. Achei que quando ela começasse a escrever, deixaria de usar o desenho pra se comunicar comigo, mas ela somou os dois meios de comunicação.

Como é seu trabalho como professora e artista plástica?

O que mais mudou foi que tive que me disciplinar mais e estou muito mais observadora. Isso me auxilia em ambas as atividades. Uma vez por semana eu pinto com a Terapeuta Ocupacional, que é quem sabe manejar as adaptações, e quando paro, coloco no mural que fica à frente da cama e observo. Para dar aula, eu tenho que preparar antes e enviar para que meu intérprete possa se preparar. Em algum momento da sua vida profissional sua capacidade foi colocada em cheque? Poderia nos contar um episódio para ilustrar essa questão? Isso acontece o tempo todo! Não sei se lembro de um episódio, mas algumas atitudes das pessoas já são piadas lá em casa. Normalmente as pessoas acham que como sou muda ou surda, portanto gritam ou gesticulam.

Qual é sua formação acadêmica?

Eu me formei em educação artística com habilitação em artes plásticas, portanto sou professora de artes, mas como também produzo arte, sou artista plástica. Graduei-me em 1991, pela FAAP/SP, em Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas, depois de passar por várias universidades aqui e no exterior. Fiz o mestrado em arte/educação na ECA/USP (2003) e atualmente estou fazendo o doutorado também na ECA/USP.

Como é seu relacionamento com seus colegas do doutorado?

É interessante por que fingem que não estão curiosos e que é absolutamente normal ter alguém como eu na sala.

Você se considera uma pessoa autônoma?

Ainda não, estou quase.

O que você faz hoje que não fazia antes do AVC?

Delegar.

Como foi a sua volta aos estudos?

Comecei devagar, como ouvinte, na graduação da psicologia, na PUC.

Houve alguma mudança na sua rede social arquitetônica e atitudes por causa do AVC?

Minha mãe teve que rearmar a casa toda. Meus amigos tiveram que se adaptar. Mas é  impressionante como nada é realmente adaptado.

Qual era a sua relação com pessoas deficientes antes do AVC?

Nem pensava nisso.

O que mudou na sua visão atual sobre o tema?

Acho que o que mudou foi a minha visão do que é ser humano.

O que te deu mais emoção na vida? Antes e depois do AVC?

Quando tive Ana Lia e estar todo dia ao lado dela.

Como foi feito o convite para dar aula no Nosso Sonho?

A Marisa Hirata, T.O (Terapia Ocupacional) me atende desde 2004, mas o convite foi feito pela Suely Katz, gerente executiva da Associação Nosso Sonho

 

Quem é Ana Amália Tavares Bastos Barbosa?

Ana Amália Tavares Bastos Barbosa é artista plástica e arte/educadora formada pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP/SP), em 1991. Também estudou História da Arte na Texas University at Austin, Design na School of Visual Arts e Litografia na Columbia University em New York/USA e fez diversos cursos extra curriculares no Brasil com professores como Paulo Portella, Carmela Gross, Evandro Carlos Jardim, Carlos Fajardo, Paulo Von Poser e Carlos Basualdo, entre outros. Fundou a empresa "Arteducação Produções", e tem sempre feito parte da equipe desde 2001. É mestre pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Além disso também atuou na área de ensino de línguas, dando aulas de inglês e fazendo traduções simultâneas e escritas. Atualmente é doutoranda na ECA/USP. Em 2 de julho de 2002 teve um acidente vascular cerebral de tronco e como sequela adquiriu a síndrome do locked in, ou seja, ficou tetraplégica, muda e disfágica mas inteiramente consciente e com a cognição plenamente preservada.
(Texto informado pelo autor)

  

Palavras-chave: ECA, Terceiro Setor

Postado por Ana A. S. Cesar

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