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janeiro 24, 2009

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Postado por Ana A. S. Cesar

 Eça de Queiroz

 

Em novembro de 1845 nascia na cidade de Povoa do Varzim o grande escritor Eça de Queiroz. Filho de mãe solteira, passou a infância na casa dos avós paternos num Vilarejo chamado “Verde Milho” no distrito de Aveiro. Seu pai, ido daqui do Brasil era Juiz na cidade de Viana do Castelo; com a sociedade hipócrita daquele tempo, para não abalar a sua reputação como juiz, não o reconheceu como filho. Só mais tarde o fez casando com a mãe.

Cursou o secundário na cidade do Porto e a Faculdade de Direito na Universidade de Coimbra. Na sala de aula era uma figura! Ele e mais alguns colegas como Antero de Quental e Guerra Junqueiro, que mais tarde atingiriam o firmamento literário, sentavam na última fila; era a famosa turma da coelheira. Enquanto o professor dava aula eles jogavam damas abaixados de trás dos outros. Um ficava de plantão atento à aula do professor, para que se o mestre se dirigisse a algum deles, este soprava baixinho as respostas. Dizia que não estudava para não “contrair a imbecilidade dos Lentes” (professores), e o Guerra Junqueiro dizia: “Para a faculdade dar alguma luz será necessário incendiá-la”.

Admiro-o pela elegância, pela forma, a imagem, a maneira luxuosa de vestir a idéia e, sobretudo pelo modo como combate a mediocridade e a corrupção da sociedade de seu tempo, que ainda hoje perdura, e que fora tão tristemente transplantada no Brasil.

Durante muitos anos, em Portugal, foi o mais discutido dos desconhecidos. Viveu quase sempre no estrangeiro. Como diplomata vivera em Cuba, Inglaterra e Paris – mas nesse tempo os portugueses não viajavam: ir a Paris ou a Londres era uma aventura que marcava um homem durante uma vida. Nestas condições, era natural e lógico, num país de imaginação pronta e juízos fáceis, que se formasse uma lenda em volta daquele autor.

O aparecimento d´O Crime do Padre Amaro foi um escândalo. Era um ataque à Igreja! – e, contudo, com um pouco de ponderação, seria fácil descortinar no autor – que ao refundir o seu livro lealmente lhe introduzira a figura do padre Ferrão – não a intenção de visar a Igreja, mas apenas o padre funcionário público, para quem o sacerdócio era uma carreira em vez de uma vocação.

Na Relíquia, a mesma coisa. Nunca ninguém entendeu o nojo que era a carolice cheia de bafio e bolor da Titi Patrocínio.

Com o Primo Basílio, repete-se o caso. O romance que é, na realidade, a condenação do adultério – tão exaltado e poetizado na velha literatura romântica – e do meio social que o torna quase inevitável, pareceu logo um ataque impudente à família e uma investida contra os bons costumes. E assim Eça de Queiroz, inimigo da religião, passou a ser genericamente "inimigo da moral".

No tipo do Conselheiro Acácio, a burrice solene e burocrática (nunca lhe foi completamente perdoado!), nas ironias cruéis sobre os ridículos portugueses, viu-se em lugar do rude ataque que realmente representavam aos princípios e às modas que então prejudicavam e continuam prejudicando a evolução da sociedade portuguesa, a prova do mais arraigado antipatriotismo.

Com o aparecimento de A Cidade e as Serras, que alterava a velha fórmula, logo uma definição surgiu, fácil, lapidar e simplista: Eça de Queiroz foi “um demolidor que se arrependeu”. A frase pegou – e ainda hoje, quer admiradores quer detratores a falam. Eu não acredito. Arrependimento pressupõe crime. Onde está realmente o crime? – Em ter ridicularizado o que era ridículo e estigmatizado o que era erro? Podíamos falar em arrependimento se víssemos Eça de Queiroz, nos últimos livros cumprimentar respeitosamente o padre Amaro, exaltar o talento do conselheiro Acácio, apertar a mão honrada de Basílio, e falar das virtudes conjugais da pobre Luísa! O que vemos, porém, é muito diverso: cansado de malhar uma sociedade que não parecia querer emendar-se, uma política que cada vez mais se afogava no atoleiro parlamentar, mudou de assunto. Farto da cidade e do século foge para o campo e então temos A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras, livros de transição, e depois as vidas de Santos, livros de repouso.

Aqui já não cabe a ironia que é uma arma, nem o humorismo que é uma forma de desprezo, porque deixou de haver motivo de combate e de sarcasmos. A doçura aparece porque os assuntos são doces. Aqui não há Amaros, nem Basílios, nem Acácios nem Conde de Abranhos, nem partidos, nem advogados espertos, nem convencionalismos falsos, nem mediocridades triunfantes. Há a simplicidade primitiva do campo e as exaltações espirituais da vida rural.

Não resisto a transcrever algumas frases da sua apreciação do campo:

“Como a inteligência aqui no campo se liberta!... A vida é essencialmente vontade e movimento; e naquele campo plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos, de forças que se revelam, e que atingem a sua expressão suprema, que é a forma. E todas belas!... nunca duas folhas de hera, quer na verdura ou recorte se assemelham! Olha aquele castanheiro. Há três semanas que cada manhã o vejo, e sempre me parece outro... a sombra, o sol, o vento, as nuvens, a chuva, incessantemente lhe compõem uma expressão diversa e nova, sempre interessante. Nunca a sua companhia me parece fartar. “É pena que não converse, alguém murmurou”! Como, que não converse? Mas é justamente um conversador sublime! Está claro, não tem ditos, nem parola teorias, "ore rotundo". Mas nunca eu passo junto dele que não me sugira um pensamento ou me não desvende uma verdade. Ainda hoje quando voltava de pescar as trutas, parei; e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal é isenta de trabalho, de ansiedade, do esforço que a vida humana impõe; não tem que se preocupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que ele se mova ou se inquiete... e é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta majestade."

Afinal, se houve algumas vezes intenção moralizadora na sua obra, foi nos primeiros livros. Nos últimos creio que houve essencialmente intenção artística. Foi, como todos nós, moralista e inquieto aos 25 anos e cheio de tolerância aos 50. (Taveiros)

Palavras-chave: Literatura

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