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Fevereiro 26, 2011

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Apologética prática: geralmente alguns me taxam de ‘criacionista’ (o que não sou), e quando são cristãos me taxam de liberal (o que também não sou), sou liberal no sentido mais ou menos político. Agora na minha vida ninguém me taxou de homofóbico, porque eu não sou, e tenho diversos colegas que são homossexuais, e eu os respeito.

A minha questão aqui é: alguns cristãos, ou teístas de forma geral, achar que nós queremos acabar com o homossexualismo, nós não queremos isso. Se algumas pessoas querem ser homossexuais podem ser, eu os respeito por isso, e não vou descriminá-los. Eles não devem ser descriminados.

Agora me perguntem, o que então eu defendo, e tenho defendido? O que defendo é que não podem tirar o meu direito de dizer para meu filho que “não concordamos com as práticas homossexuais”. Eu não descrimino, mas posso discordar (isso acontece com a maioria das pessoas, em relação aos mais diversos assuntos). Pois, me perdoe, mas ser homossexual não é a mesma coisa que ser branco ou negro, é realmente mudar seu ritmo e estilo de vida sexual, você vai “trocar” as coisas, que habitualmente acreditamos não precisar trocar, ou para alguns, que é absurdo esta “troca”.

Para a mesma coisa, a suposta guerra Ciência vs Religião – esta guerra, de fato, não existe (o que existe são entendimentos fracos e ruins, de ambos os lados: ateus e teístas). E, se existe, se deve à alguns cristãos um tanto quando, me perdoe o termo, “burros”. E, porque? Bem, depois da reforma o nível teológico de certa maneira diminuiu, quer dizer, o crescimento teológico diminuiu. Mas, depois de um tempo, tanto nos reformados quanto no catolicismo voltou-se as velhas e boas práticas teológicas – o que os quatro cavaleiros chamam de ‘teologia sofisticada’.

Entretanto, depois de um tempo, saiu de dentro da reforma algumas coisas bizarras, como o pentecostalismo-físico (acredita-se que Deus se manifesta e obriga a pessoa a fazer movimentos estranhos).

E com essas práticas, acreditavam que não precisavam da teologia, mas só do Espírito Santo para ler as escrituras. E, vou afirmar, é absurdo dizer isso, sem método histórico, hermenêutico, e exegético, não há como fazer uma boa interpretação bíblica. Ou seja, antes de afirmar qualquer inspiração do Espirito Santo, use o intelecto – use o método.

Dessa forma, em certa medida, tanto ateus, como teístas, tem responsabilidades intelectuais, e devo admitir, talvez pelo nível econômico e social das pessoas, elas não estão tão preocupadas com os assuntos e a *vida do espírito.

Ora, em relação ao homossexualismo a posição dos cristãos devem ficar clara  - política, e questão de liberdade de expressão e opinião; ou seja, devemos ser também contra a homofobia, no sentido, mais razoável da palavra. Em relação a vida do espírito também – nós cristãos temos responsabilidades, porque já passou da hora, de darmos a “razão de nossa fé” (ou seja, razão, não apenas o lado que nos “comove” a isso).

E, por apologética prática quero dizer, que em certos casos pastores acreditam que devem chegar e “evangelizar” (naquele sentido mais fraco teologicamente), e não se **COMPORTAR como alguém decente e racional. No dia a dia, há determinados momentos que são cruciais, não para para “ganhar alguém”, mas para simplesmente dizer e MOSTRAR “nós não somos como a maioria pensa”.

 

*Por vida do espírito, quero dizer apenas, e somente apenas, o estudo e a contemplação da verdade e do conhecimento, no sentido de mediação entre nós seres humanos, e a infinitude.

**Por comportar quero dizer no sentido de simplesmente se portar bem diante de pessoas que possuí um vida intelectual melhor, e não chegar, desde já, já falando asneiras e besteiras em nome de algo que, talvez, tal, não conheça direito. O conhecimento acaba sendo indispensável para aqueles que dizem serem “representantes”; ou seja, devem conhecer bem aquilo que representam. E, não é só o Espírito Santo que dá isso – a responsabilidade é nossa não da parte de Deus.

NOTA: sei que haverá católicos que talvez critiquem o meu texto, mas, talvez eu esteja interessado não exatamente em católicos ou reformados, mas em pessoas que possuem determinado comportamento caracterizado por irracionalidade.

Autor\Editor: Paulo J. de Oliveira

 

Fonte: Apologética prática | teismo.net

Este post é Domínio Público.

Postado por Albert Richerd Carnier Guedes | 4 comentários

Fevereiro 07, 2011

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Slogan da campanha

 

Lemaitre

 

Gregor Mendel

 

Ronald Fisher

 

Blaise Pascal

 

Francis Collins

 

Lembrando que a idéia aqui, não é causar proselitismo religioso, mas sim, mostrar que a criação científica não é afetada pelas crenças do cientista e vice-versa.

De fato, o atraso científico só pode ser causado pela falta de pragmatismo de uma época ou grupo, mas que não pode ser aplicado a indivíduos como regra.

 

Fonte: "Ciência não é contra religião"

Palavras-chave: ciência, religião

Este post é Domínio Público.

Postado por Albert Richerd Carnier Guedes | 8 comentários

Junho 28, 2010

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O problema do mal é uma das questões existênciais no tocante a teologia.

Quem nunca se perguntou o do porque existe tanto sofrimento no mundo, e mais ainda, se Deus existe, porque ele não faz nada no tocante a isso ?

Eu mesmo em minha indagações já me deparei com estas e outras dúvidas que estão no centro de uma interpretação de mundo com um Deus consciente.

Navegando na rede me deparei com este texto de autoria do Sr. Jaime Quintas no site "Crítica na rede" onde este aborda o problema do mal , e onde veremos a que conclusão ele chega.

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O Problema do mal

O mundo em que vivemos está repleto de coisas más.

Dor, fome, pobreza, tristeza, guerras, catástrofes e muitas outras coisas.

Faz-nos pensar: "Se eu fosse Deus, acabaria com tudo isso e faria um mundo melhor !"

Dizem que Deus é criador, bom, omnipotente e omnisciente.

Se assim fosse, o mal não existiria; um ser bom e com poderes ilimitados não criaria um mundo mau — criaria um mundo perfeito.

Ao olharmos para o mundo e para os seus habitantes somos levados a concluir que o deus descrito atrás não existe.

Este é o problema do mal. Como podemos compatibilizar um mundo repleto de sofrimento com a existência de Deus? Dificilmente.

O problema do mal pode ser encarado de duas perspectivas distintas: por um lado temos os crentes, para quem o problema do mal é mais um desafio à fé que professam, talvez um Mistério da Fé; por outro, os não crentes, que encaram este problema como um argumento contra a existência de Deus.

Neste texto, irei abordar o problema do mal do ponto de vista do não crente e tentarei demonstrar que, contrariamente ao que o argumento nos diz, o mundo que conhecemos é compatível com Deus.


Deus

O argumento do mal contra a existência de Deus só se coloca quando se discute a existência de Deus tal como é defendida pelos teístas.

Deus sabe tudo, pode fazer tudo, é infinitamente bom e criou o universo.

Por saber tudo, sabe da existência do mal; por poder fazer tudo, pode eliminar o mal; por ser bom, quererá eliminar o mal; e por ter criado o universo é responsável pelo que fez.

Se discutimos a existência de um deus que não reúna qualquer uma destas quatro características fundamentais, o problema do mal deixa de se colocar.

Importa detalhar um pouco o que se entende por um ser omnipotente e bom.

Enquanto, neste contexto, a omnisciência de Deus não levanta grandes questões — Deus sabe do mal que existe no mundo — já a omnipotência e a bondade poderão originar alguns equívocos.

Por omnipotência entende-se a capacidade de fazer tudo o que é logicamente possível.

Assim, Deus poderá criar e destruir mundos, mas não poderá fazer um círculo quadrado ou um objecto demasiado pesado para Ele próprio levantar, dado que isto são impossibilidades lógicas.

Quando dizemos que Deus é infinitamente bom, queremos dizer que Ele quererá fazer o melhor mundo possível, de acordo com critérios humanos.

Uma das maneiras de contornar o problema do mal seria afirmar que o conceito de bondade aplicado a Deus é diferente do aplicado aos seres humanos, pelo que, segundo os padrões de Deus, este seria o melhor mundo possível; o problema está em que, segundo este critério, não podemos afirmar que Deus é bom, uma vez que este conceito perde o seu significado.


Respostas possíveis

Assim, sendo Deus omnipotente, omnisciente, infinitamente bom e criador, como conseguimos compatibilizar o mundo que conhecemos, repleto de mal e sofrimento, com a Sua existência?

Há diversos caminhos para responder a esta questão.

Podemos justificar a existência do mal com base em bens maiores, proporcionados por esse mal.

Temos assim o argumento do livre-arbítrio, que defende ser o sofrimento no mundo originado pela completa liberdade dos seres humanos — é um bem maior que origina o mal no mundo; temos também o argumento dos Santos e dos Heróis, que defende que o mal foi colocado no mundo para permitir a ocorrência de grandes feitos e actos de fé — é o mal que origina um bem maior.

Em qualquer uma destas explicações, e noutras da mesma natureza, faz-se uma tentativa de justificar e explicar todo o mal e todo o sofrimento do mundo.

Ao justificar esse mal com recurso a um bem maior, deixa de ser contraditória a existência de Deus com o mundo que conhecemos.

Este tipo de argumento tem, quanto a mim, um problema de raiz: baseia-se numa análise dos propósitos e intenções de Deus.

Como tal, apenas fará sentido depois de pressuposta uma determinada crença, não sendo possível contrariar a perplexidade dos não crentes perante o mal no mundo.

Existem no mundo inúmeros factores que provocam quantidades exageradas de sofrimento — desde terramotos e outras catástrofes naturais a guerras e acções de extermínio provocado pelos seres humanos.

Será que existe algum tipo de bem que justifique estes males ?

Qual é a justificação para a ocorrência de um terramoto que provoca milhares de mortes ?

Não seria possível para um ser omnipotente proporcionar esses alegados bens sem ter de recorrer a um terramoto ?

Estas e outras perguntas colocam sérios obstáculos aos argumentos de justificação do mal pela criação de bens maiores.

O argumento do mal é extremamente simples e, talvez por isso, muito forte; eventualmente mais forte do que qualquer justificação ou explicação do mal que consigamos arranjar.

Se começamos por tentar explicar ou justificar a existência do sofrimento antes de conseguirmos demonstrar a sua compatibilidade com Deus, nunca conseguiremos ultrapassar o argumento do mal; a nossa argumentação ficará apoiada numa base muito fraca, de nada servindo contra a solidez do problema do mal.

O que eu defendo neste texto é que só conseguiremos ultrapassar o problema do mal, mesmo para aqueles que não crêem em Deus, se conseguirmos provar que a existência de um mundo sem mal é uma impossibilidade lógica.

Se tal for conseguido, segue-se que nem a omnipotência nem a bondade de Deus são postas em causa pela existência do mal no mundo.


O argumento

Quando afirmamos que a quantidade de mal existente no mundo é incompatível com a existência de Deus estamos a afirmar duas coisas simultaneamente:

1) Há demasiado mal no mundo; 

2) É possível a existência de um mundo melhor.

Caso 2 seja falsa, Deus, mesmo sendo omnipotente, terá criado o melhor dos mundos, pelo que o argumento do mal perde a sua força.

Não vou contestar 1, uma vez que me parece óbvia, mas irei desenvolver um pouco mais 2 com vista a provar a sua falsidade.

Quando dizemos que existe demasiado mal no mundo, estamos a basear-nos nas nossas próprias observações.

É o ser humano, o ser que sofre, que diz que o mundo tem demasiado sofrimento; não poderia nunca ser de outro modo.

O sofrimento, quando se trata de abordar o problema do mal, será sempre avaliado pelos humanos.

Assim, as proposições 1 e 2 serão equivalentes, respectivamente, a:

1') Quanto a nós, habitantes do mundo, existe demasiado mal no mundo;

2') É possível que exista um mundo que os seus habitantes considerem suficientemente bom.

O que eu defendo é que 2' é uma impossibilidade lógica, ou seja, que por muito pouco que seja o sofrimento ou mal existente num determinado mundo, este será sempre considerado exagerado pelos seus habitantes.

Assim, o facto de nós considerarmos que o nosso mundo tem demasiado sofrimento não implica que seja um mundo mau; mesmo que o sofrimento existente fosse apenas uma ínfima parte do que agora conhecemos, continuaríamos a achar, com a mesma convicção, que o mundo era demasiado mau.

Verifica-se assim, se 2' for falsa, que o mundo em que vivermos pode ser o melhor mundo possível, independentemente de nós concordarmos ou não.

Note-se que esta afirmação é diferente de dizer que o conceito de bondade de Deus é diferente do conceito de bondade dos homens; o que se diz aqui é que os seres humanos não são observadores isentos e imparciais no que respeita a avaliar o mal do mundo.


A defesa do argumento

Vou agora apresentar argumentos que defendem que 2' é falsa — que não é possível que exista um mundo que os seus habitantes considerem suficientemente bom.

Analisemos antes de mais nada aquilo a que chamamos "sofrimento".

Quanto a mim, todo o sofrimento resulta de uma Necessidade por satisfazer.

Temos as necessidades físicas, que são necessidades no verdadeiro sentido da palavra — se não forem satisfeitas resultarão em sofrimento físico e eventualmente em morte.

Temos as necessidades psicológicas, que habitualmente designamos por "desejos" — aquilo que queremos; se não conseguirmos ter aquilo que queremos, sofremos.

Note-se que o termo "necessidade" é utilizado com dois significados distintos: aquilo que precisamos e aquilo que queremos.

Ao longo do texto utilizarei "Necessidade" para designar o conjunto daquilo que precisamos e daquilo que queremos e "necessidade" para designar apenas aquilo que precisamos.

Conseguimos enquadrar na fórmula das Necessidades por satisfazer todo o tipo de sofrimento: dor (necessidade de bem-estar), fome (necessidade de alimento), doença (necessidade de saúde e bem estar), saudade (necessidade de alguém de que gostamos), tristeza (necessidade de algo/alguém que não temos), etc.

Se pensarmos bem nos vários tipos de sofrimento que conhecemos, verificamos que todos se enquadram neste conceito.

Verificamos também que a maioria dos sofrimentos que consideramos mais graves, aqueles que dizemos incompatíveis com Deus, dão-se quando a Necessidade por satisfazer é do tipo desejo — falta-nos aquilo que queremos, não aquilo que precisamos.

No topo da escala está a morte.

Considero que a morte é sofrimento na medida em que queremos viver, não que precisamos de viver, pelo que será um sofrimento psicológico; a dor eventualmente associada à morte é que será um sofrimento físico.

Em suma: temos necessidades e vontades que, quando não são satisfeitas, resultam em sofrimento.

Para demonstrar que, independentemente da quantidade de mal existente num dado mundo, este será sempre considerado demasiado mau pelos seus habitantes temos que provar os seguintes pontos:

3) Um mundo sem qualquer tipo de mal não é um mundo bom;

4) Um mundo com menos mal do que o nosso, por muito pouco que seja, será considerado demasiado mau pelos seus habitantes.

Imaginemos um mundo sem sofrimento.

Um mundo sem sofrimento é um mundo em que os seus habitantes não têm Necessidades por satisfazer.

Isto pode ser conseguido de duas formas: ou não têm Necessidades ou todas elas estão satisfeitas.

Num mundo sem mal estas duas situações são equivalentes.

Se todas as Necessidades estão satisfeitas, é o mesmo que não haver Necessidades.

Poder-se-á dizer que nós, no nosso mundo, precisamos de água para beber, mas que por vezes essa Necessidade está satisfeita.

No entanto, num mundo sem mal, essa Necessidade nunca esteve ou estará por satisfazer, pelo que os seus habitantes nunca tomaram consciência dela; para eles, será como se não tivessem Necessidade alguma.

Um mundo sem qualquer tipo de Necessidade é um mundo sem emoções, sem sentimentos, sem movimento.

Se não queremos nada nem precisamos de nada, por que razão fazer seja o que for ?

Se pensarmos cuidadosamente verificamos que um mundo sem qualquer tipo de Necessidade por satisfazer não é um mundo bom; com efeito, é um mundo que dificilmente conseguimos conceber.

Muito bem, diremos nós, um mundo sem mal não é um mundo bom.

De qualquer modo, o sofrimento existente no nosso mundo é manifestamente exagerado.

Podemos perfeitamente admitir um mundo em que possa haver sede, fome, alguns desejos não realizados e outras coisas mais, mas daí às guerras, terramotos e sabe-se lá mais o quê, vai um grande salto.

Não temos dúvidas em afirmar que o sofrimento existente no nosso mundo é excessivo, sendo incompatível com a existência de Deus.

Isto leva-nos a 4, que diz que se existe sofrimento num determinado mundo, por muito pouco que seja, este será considerado demasiado pelos seus habitantes.

Um mundo com menos sofrimento do que o nosso, mas mesmo assim com algum sofrimento, será um mundo em que existem algumas, eventualmente poucas, Necessidades por satisfazer, que originam sofrimento.

Quanto a mim, cada indivíduo tem uma escala pessoal de sofrimento, que está relacionada com uma escala pessoal de Necessidades: uns resistem melhor à dor, outros são mais sensíveis, uns são mais fortes emocionalmente, outros choram por tudo e por nada.

Situações semelhantes provocam em cada um de nós emoções diferentes e, se for o caso, sofrimentos diferentes.

Isto deve-se a cada um de nós ter uma escala pessoal de Necessidades, dando uns mais valor a umas coisas do que a outras, precisando uns mais de umas coisas do que de outras.

Todos precisamos ou desejamos diferentes coisas; e mesmo quando Necessitamos das mesmas coisas, a intensidade dessa Necessidade varia.

Podemos classificar as Necessidades da seguinte forma:

Necessidades latentes: São aquelas que ainda não foram consciencializadas por nós.

Há coisas que queremos ou que precisamos mas que ainda não sabemos.

Quando nascemos não sabemos que o ar nos faz falta. A necessidade do ar, nessa fase, é uma Necessidade latente.

À medida que vamos crescendo o número de Necessidades latentes vai diminuindo, apesar de nunca desaparecerem por completo.

Uma Necessidade latente deixa de o ser no momento em que se torna uma Necessidade por satisfazer, passando a ser uma Necessidade activa.

Necessidades activa: São aquelas que já conhecemos e que estão presentes no nosso pensamento.

Uma Necessidade pode estar satisfeita, mas ser uma Necessidade activa. É o caso da necessidade do ar que respiramos — podemos não estar a sofrer com falta de ar, mas sabemos constantemente que nos é imprescindível.

Uma Necessidade activa pode passar a Necessidade adormecida quando se afasta demasiado do nosso consciente.

Todas as Necessidades por satisfazer são Necessidades activas.

Necessidades adormecidas: São aquelas que já conhecemos mas que, de momento, estão longe do nosso pensamento.

Uma Necessidade adormecida é, basicamente, uma Necessidade activa que se foi afastando do nosso consciente.

Se partimos uma perna, vivemos uma Necessidade por satisfazer aguda — a Necessidade que a perna fique boa.

Mesmo depois de curar a perna conhecemos uma Necessidade activa, apesar de não estar por satisfazer, que a perna se mantenha boa.

Ao fim de alguns meses ou anos deixamos de sentir essa Necessidade, passando esta a ser uma Necessidade adormecida — não pensamos mais na perna partida, será apenas uma vaga recordação.

A escala pessoal de Necessidades de cada um de nós, que está intimamente ligada com uma escala pessoal de sofrimento, é determinada pelo conjunto de Necessidades activas que vivemos no momento.

Essa escala não é constante, varia ao longo do tempo em função dos inúmeros factores que determinam as nossas Necessidades.

Quando vivemos uma situação de Necessidade por satisfazer, o sofrimento por ela provocado será função da posição dessa Necessidade na nossa escala pessoal.

Se a Necessidade não satisfeita está no topo da escala, sofremos muito, se está na base, sofremos pouco.

Se me telefonam a meio da noite a dizer que alguém que me é querido teve um acidente e faleceu, sofrerei imenso.

No momento em que recebo o telefonema estou longe de imaginar que tal vai acontecer — a Necessidade que tenho dessa pessoa é uma Necessidade adormecida ou então activa mas distante da minha consciência.

Como tal, a situação que estou a viver é de uma Necessidade por satisfazer elevadíssima, nesse momento é o topo da minha escala, não estou consciente de mais Necessidades que possam surgir naquele momento.

Sofro imenso.

Por outro lado, imaginemos que houve um terramoto, com milhares de vítimas, num lugar onde diversas pessoas que me são queridas estão a passar férias; as notícias que tenho apontam para que ninguém tenha sobrevivido.

Depois, recebo a notícia de que afinal apenas uma pessoa faleceu; o sofrimento que sinto será certamente elevado, mas inferior ao do exemplo anterior.

As notícias precedentes aumentaram consideravelmente a minha escala de Necessidades activas.

A morte de "apenas" uma pessoa já não está no topo da escala, passou a estar num nível mais abaixo.

Quantas vezes, ao viver uma situação de tristeza, não tentamos inconscientemente aumentar a nossa escala de Necessidades activa, para diminuir o sofrimento que sentimos.

Pensamos naqueles que estão pior do que nós, tentamos imaginar que poderia ser pior; em suma, tentamos alargar a nossa escala de Necessidades activas, de modo a que a Necessidade por satisfazer que causa o nosso sofrimento desça um pouco de nível, diminuindo com isso o sofrimento que sentimos.

Voltemos agora ao mundo ideal, com algum sofrimento mas em menor quantidade do que o nosso.

Para que este mundo tenha menos sofrimento temos duas hipóteses: ou existem menos Necessidades ou o seu grau de satisfação é maior.

Qualquer uma destas situações resulta numa escala de Necessidades activas de menor amplitude — a quantidade de Necessidades por satisfazer é menor.

No entanto, depois do que foi dito anteriormente, facilmente se verifica que qualquer criatura desse mundo que viva uma Necessidade por satisfazer do topo da sua escala, seja ela qual for, estará a sofrer intensamente.

Mesmo que esse sofrimento seja provocado por uma unha encravada, se for o topo da escala de Necessidades activas, será um sofrimento atroz.

Vemos situações destas todos os dias, especialmente com as crianças.

Uma criança que viva numa família estável, com um nível de vida médio ou elevado, vive num mundo semelhante ao mundo que dizemos ideal, com pouco sofrimento.

Com efeito, esta criança não conhece nenhum tipo de sofrimento que nós, adultos, dizemos ser elevado: não conhece a fome, a morte, a pobreza, a guerra nem nenhuma outra das desgraças do mundo.

No entanto não podemos dizer que essa criança não sofre; quando quer algo que não pode ter o seu sofrimento será extremamente elevado, essa Necessidade por satisfazer está no topo da sua escala pessoal.

Os pais dirão que é apenas uma birra, o sofrimento que o filho está a sentir não é nada comparado com o que existe à sua volta.

Na escala de Necessidades dos pais, que já conhecem muitos outros tipos de sofrimento, a falta desse brinquedo está no nível mais baixo, se é que chega a figurar nela.

Alternativamente, podemos imaginar um mundo em que a escala de Necessidades activas seja bastante alargada, mas em que os seus habitantes apenas vivam situações "a meio da escala".

O problema desta hipótese está em que para a escala das Necessidades activas ser alargada será necessária uma tomada de consciência das Necessidades que a compõem, caso contrário estas passarão a Necessidades adormecidas ou então nunca deixarão de ser Necessidades latentes.

Para uma Necessidade ser activa temos que tomar algum tipo de contacto com ela, seja porque foi uma Necessidade por satisfazer, mesmo que temporariamente, ou porque sabemos de alguém que a sofreu.

Se o conhecimento que temos dessa Necessidade é muito afastado, não será uma Necessidade activa.

Para qualquer um de nós, a necessidade que temos de um sistema solar estável é algo que está longe dos nossos pensamentos, é uma Necessidade latente muito reduzida; no entanto, se imaginarmos que o planeta Terra estará habitado pelos nossos descendentes daqui a alguns milhões de anos, quando se prevê que o Sol se expanda consumindo todo o sistema solar interior, esta Necessidade será fortíssima, estará certamente no topo da escala.

Eventualmente dirão: "Um terramoto ou uma guerra mundial até seria compatível com Deus, agora um conjunto de planetas consumido por uma bola de fogo ? Nunca !"

Em jeito de resumo podemos dizer que qualquer situação de Necessidade por satisfazer próxima do topo da escala de Necessidades activas será insuportável para quem a vive.

Por outro lado, a escala pessoal de Necessidades activas, que condiciona o sofrimento, é definida pelo sofrimento máximo que conhecemos.

Assim, num mundo em que haja sofrimento, por muito pouco que este seja, haverá necessariamente situações de sofrimento insuportável, do topo da escala do sofrimento, que serão consideradas por quem as vive como incompatíveis com Deus.


Conclusão

Prova-se assim que a existência de um mundo considerado bom pelos seus habitantes é logicamente impossível, pelo que um mundo considerado mau pelos seus habitantes não se torna incompatível com Deus.

O nosso mundo é considerado mau pelos seus habitantes; mas daí não se segue que é incompatível com Deus.

Faço notar, para finalizar, que o argumento que defendo apenas nos diz que o mundo que conhecemos é compatível com a existência de Deus.

Não podemos daqui inferir que Deus é bom, que Deus existe ou sequer que se Deus existisse, seria bom; não podemos a partir deste argumento justificar o mal que há no mundo, nem sequer concluir que o mundo é bom.

O argumento apenas nos diz que não podemos retirar do problema do mal, tal como enunciado no início, que Deus não existe.

A partir daqui podemos avançar para uma tentativa de justificar o sofrimento existente no mundo e, eventualmente, provar que este é o melhor mundo possível.

Este caminho será, mesmo com base no argumento exposto, extremamente difícil; apesar de termos demonstrado que o problema do mal não é conclusivo quanto à existência de Deus, este continua a ser extremamente forte.

Aquele que coloca o problema do mal poderá sempre dizer que, no mundo em que vivemos, as situações de sofrimento do topo da escala média dos humanos são muito mais frequentes do que o necessário.

Seria suficiente um terramoto de vinte em vinte anos para "alargar" a nossa escala de sofrimento, resultando isso num sofrimento médio mais reduzido.

Por outro lado, o crente poderá dizer que não é bem assim, que nos parece a nós que o sofrimento é todo do topo da escala porque, em face de situações de sofrimento elevado, temos tendência para esquecer o sofrimento mais reduzido.

Podemos agora dizer, seguramente, que um mundo com mal é compatível com Deus; mas será que podemos dizer que o nosso mundo, com o mal que nele existe, também o é?

Fica a pergunta, faltam as respostas.

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Leituras:

  • Richard Swinburne - "Por que Razão Deus Permite o Mal" in "Será que Deus Existe ?", Cap. 6 (Gradiva, 1998)
  • Brian Davies - "God and Evil" in "An Introduction to the Philosophy of Religion", cap. 3 (Oxford University Press, 1993)
  • J.L. Mackie - "The Miracle of Theism" (Oxford, 1982)

Fonte: Crítica na rede | O problema do mal

 

Palavras-chave: deus, filosofia, problema do mal, religião

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Postado por Albert Richerd Carnier Guedes | 0 comentário

Janeiro 18, 2010

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Novembro 01, 2009

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Outubro 18, 2009

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Este texto foi extraido do blog "Crítica na rede", onde são publicados textos de filosofia, curtos, mas com boa qualidade - como todo blog tem que ser.

Esse texto em especial faz parte da seção "filosofia da religião", e tema sobre a problematica de tomar Deus como um principio epistemológico.

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Por onde começar a investigar filosoficamente o problema de Deus ?

Que questão deve ter prioridade sobre as outras ?

Saber se existe ? Saber o que é ?

Ou saber se é possível conhecer alguma coisa a seu respeito ?

À primeira vista, qualquer uma parece igualmente boa para começar, mas uma análise mais cuidadosa revela que não é assim.

Rapidamente se descobrem prós e contras em todas e o optimismo inicial corre o risco de se converter em pessimismo céptico e paralisar a investigação.

Analisemos cada uma com algum detalhe e vejamos onde isso nos conduz.

Admitamos, por hipótese, que é a primeira a melhor para iniciar:  "Deus existe ou não ?"

Não é lógico que é esta a questão das questões, a primeira de todas, a que deve ser colocada e respondida antes de qualquer outra ?

Pois,  se Deus não existir, que sentido faz continuar a colocar as outras questões ?

Nenhum, não é verdade ? Se não existir, a questão da sua identidade ou essência, bem como do nosso conhecimento dele, são questões vazias e absurdas; por isso, devemos decidir primeiro se Deus existe ou não e só depois perguntar o que é e o que podemos saber sobre ele, certo ? Errado ! Pois, por outro lado, que sentido faz perguntar se Deus existe, sem sabermos o que ele é ?

Sem sabermos do que estamos a falar quando usamos a palavra "Deus", qual o seu significado ? Nenhum, como é evidente ! Não é absurdo perguntar se algo existe, sem que façamos a mínima ideia do que é esse algo ?

Portanto, talvez a segunda questão deva ter prioridade lógica e metodológica sobre as outras duas ! Definir primeiro o objecto que se quer conhecer e só depois determinar se ele existe e pode ser conhecido ou não.

Mas também aqui podemos encontrar uma objecção a esta tese: como é possível determinar a identidade essencial de algo que se desconhece se existe ou sequer se pode ser conhecido ?

Determinar a essência de uma coisa ou ser não implicará um duplo compromisso ontológico e epistémico com a sua existência real e com a possibilidade de o conhecer ?

Dizer que X é igual a Y ou que pode ser caracterizado pelas propriedades A, B e C, não pressupõe a existência de X e o nosso conhecimento do mesmo ?

E como podemos nós afirmar a essência ou existência de algo sem que isso pressuponha ou implique o nosso conhecimento desse algo, precisamente da sua essência e/ou existência ?

Não será então mais acertado, e porventura a única via possível, começar com a terceira e última das questões, isto é, saber se podemos ou não conhecer algo sobre o objecto em causa ?

Afinal é possível saber algo sobre Deus ou não ?

Só resolvendo isto, podemos e devemos avançar para as outras, já que uma resposta negativa a esta questão esvazia e impossibilita qualquer uma das outras; se nada podemos saber em relação a Deus, nem o que é nem se existe, resta-nos acatar humildemente a conhecida máxima lógico-filosófica segundo a qual devemos calar aquilo de que não podemos falar — mas aqui sem qualquer saída mística, simplesmente suspendendo todo o juízo sobre o objecto, por impossibilidade cognitiva radical !

Mas, uma vez mais, também aqui se pode descobrir um argumento contra tal tese: como podemos decidir que nada se pode saber sobre algo que desconhecemos ?

Não é isto absurdo ? Afirmar que não podemos conhecer um objecto qualquer, real ou imaginário, concreto ou abstracto, possível ou actual, não implica saber ou acreditar que isso existe e o que isso é ?

Caso contrário, que legitimidade racional temos para defender tal ideia ?

Mas então, se cada uma das questões parece reenviar para as outras, pressupondo-as e/ou implicando-as reciprocamente numa rede de interdependências, como desatar este nó lógico, como sair deste beco aparentemente sem saída da investigação filosófica sobre Deus ? Haverá uma saída ?

Ou estamos condenados a mais uma aporia do começo, sem solução racional possível, a não ser o agnosticismo radical face a qualquer uma dessas questões e ao problema de Deus como um todo ?

Será que existe uma quarta questão que resolve o problema?

Será a escolha arbitrária e o ponto de partida indiferente?

Será a questão do começo uma falsa questão?

Será possível atacá-las a todas ao mesmo tempo ?

Será a aporia real ou aparente ?

Como resolver este dilema, ou melhor, este trilema, uma vez que são três questões ?

A solução existe e pode ser inspirada no engenho mítico de dois personagens históricos: Alexandre e a história clássica do nó górdio e Colombo e o lendário problema do ovo.

Analogamente ao corte do nó com a espada e à quebra da base do ovo, a solução da nossa perplexidade teológico-filosófica consiste na sua dissolução, isto é, em perceber que, na realidade, uma das questões pode e deve ser preferida às outras, porque uma das objecções que enfrenta não é, pura e simplesmente, correcta e assenta num equívoco que pode ser desfeito.

De facto, não só é possível, como é mesmo requisito prévio, indispensável a qualquer investigação, que se defina previamente, conceptualmente, o objecto a investigar, pois, caso contrário, não só não se saberia o que procurar, como, caso se descobrisse a resposta, nunca se saberia se era verdadeira ou falsa, dada a indefinição original quanto às condições necessárias ou suficientes que a mesma deveria satisfazer. Assim, a definição conceptual de Deus, a sua caracterização prévia como um ser com determinadas propriedades essenciais específicas (reconhecidas, aliás, salvo pequenas diferenças, por todas as religiões monoteístas e tanto por crentes como por ateus e agnósticos), é condição necessária para se inquirir quer a sua existência, quer a sua cognoscibilidade, e não implica qualquer compromisso ontológico ou epistémico, uma vez que se trata tão só de definir o significado de um termo, a forma como é usado, ou aquilo que queremos dizer quando falamos disso — em suma, o conceito de Deus.

"De que falamos quando falamos de Deus ?" - eis a questão prioritária, que é, no fundo, outra maneira de perguntar "o que é Deus", ou seja, a que tipo de ser corresponde o termo "Deus".

Tal como inquirir se existem o Papai Noel, Mickey Mouse, Super-Homem ou o Conde Drácula, pressupõe tão só que saibamos do que estamos a falar — isto é, que conheçamos o significado desses termos — não implicando qualquer compromisso ontológico — isto é, não implica qualquer crença prévia na sua existência — também no caso de Deus isso acontece e fica assim claro qual deve ser a questão que deve iniciar a investigação.

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Fonte:  "Deus: por onde começar ?" de João Carlos Silva, extraido do site "Crítica na Rede"

 

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Críticas de qualquer categoria são bem vindas, mas dado o carater polêmico de tal assunto, apelo para o bom senso e boa educação daqueles que desejam manter um canal de comunicação como o STOA com o nível de qualidade que é adequado á um meio de comunicação feito por universitários e acadêmicos.

A sociedade espera isso de todos nós.

 

Postado por Albert Richerd Carnier Guedes | 5 comentários

Setembro 13, 2009

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Dr. Francis Collins, ex-ateu - e agora Cristão convicto - foi nomeado pelo Presidente Norte-Americano Barack Obama, como Chefe do Instituto Nacional de Saúde dos EUA.

Collins é o cientista responsável pelo mapeamento do código genético além de ter sido o cientista que mais rastreou genes com a finalidade de encontrar tratamento para diversas doenças e esteve na liderança do projecto genoma humano.

Numa entrevista dada há dois anos ao canal televisivo CBN News, Collins abordou a sua fé profunda em Deus. Ele disse que vê a ciência como forma de adoração:

"Não será que Deus, ao nos dar esta Sua criação gloriosa, e ao nos dar a inteligência para sermos capazes de tentar compreendê-la, não queria ser adorado pela nossa aplicação destes instrumentos ao avaliarmos o que ele fez por nós ?

Isto me atrai mais para perto dele, de uma maneira que eu realmente não consigo articular por palavras. E me dá exatamente uma consciência de quão grande e tremenda deve ser a Sua mente".

 

Palavras-chave: biologia, ciencia, cientista, cristao, cristianismo, deus, DNA, fe, genetica, genoma, projeto genoma, religiao

Postado por Albert Richerd Carnier Guedes | 7 comentários

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Esse texto é exemplar no tocante ao pensamento de um cientista que é além de tudo um crente num criador - aqui mais especificamente, um cristão.

Sim, digo "além de tudo", pois se você acredita num criador pra tudo, por consequência, a crença está sobre qualquer conhecimento que você venha a adquirir sobre seus sentidos, pois se criou tudo, criou até mesmo aquilo que você sabe.

Mas não tão simplista, a idéia de um criador acrescenta mais pesso áquilo que se pode apreender, portanto, além do conhecimento adquirido formalmente em sua profissão, o cientista crédulo ainda precisa lidar com certas farpas mal resolvidas por mal compreensão daquilo que ele crê.

Não raro, essa farpas são causadas por ambos os lados - a comunidade científica extremada e fiéis obscuros. 

Mas felizmente, há sempre aqueles que desejam o melhor pra todos - ateus ou teístas que se preocupam em conviver em harmonia, ainda que possuem pensamentos antagonicos, que longe de ser motivo de embates vergonhosos, são motivo debates construtivos e intelectualmente satisfatórios.

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Ciência e religião têm-se tornado um assunto emocional, tanto na comunidade científica como no interior da Cristandade, em anos recentes.

Compreensões inadequadas abundam, tanto no tocante às implicações religiosas das teorias científicas como das implicações científicas da teologia.

Uma interação genuína e proveitosa entre estes dois aspectos diferentes mas complementares da vida de um cientista Cristão é necessária e benéfica, caso se queira sustentar as próprias crenças com integridade.

O desafio do naturalismo filosófico sentido por alguns Cristãos, tal como amplamente exposado por Richard Dawkins et al, tem resultado em uma interação característicamente negativa entre ciência e religião, na qual o Cristianismo deve ser defendido contra o avanço da maré ateísta (presumidamente o sinônimo de evolucionismo e big bang).

O que tem sido quase apagado da consciência popular é a idéia de que estudar ciência possa realmente fortalecer a fé de alguém, e aprofundar a reverência e o senso de maravilhamento diante de um criador que orquestra o universo com tal variedade bela, complexidade e ingenuidade.

Considere as palavras de Thomas Browne:

"A sabedoria de Deus recebe pouca honra daquelas cabeças vulgares que rudemente arregalam os olhos e em completa rusticidade admiram suas obras; o magnificam mais altamente aqueles cuja judiciosa inquirição em seus atos, e pesquisa deliberada de suas criaturas, retribuem o dever de uma admiração devota e erudita."

O desafio da percepção pública da ciência não se limita à relação com a religião. Não disse alguém, em certa ocasião, que "Um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa" ?

A mídia, um punhado indivíduos falantes, pode ferir um nervo público que é suspeitoso de qualquer coisa que não consiga compreender.

O dom que estes indivíduos tem é de fazer com que as pessoas acreditem que eles, o público, tem razoabilidade suficiente para captar os "fatos" e tomar uma decisão informada.

A retórica é algo poderoso e, se alguém lê um escrito fundamentalista (Cristão ou Naturalista) descobre que a apresentação da informação é, às vezes, distorcida ou abusada.

Muito poucas pessoas atingem uma decisão informada e, talvez, seja possível argumentar que ela nunca é razoável, considerando-se a complexidade da ciência para as pessoas que tomá-la.

Compreensões errôneas do Cristianismo e de Cristãos cientistas por cientistas, jamais serão alteradas pela tentativa de conduzir cada pessoa individual a uma consideração racional das questões envolvidas.

O problema requer, antes, um assalto estratégico aos fundamentos intelectuais de nossas culturas.

Isto pode ser visto nas diferentes formas de pensar da minha geração e da geração de meus pais.

A transição da modernidade (racionalismo) para a pós-modernidade começou muitos anos atrás como uma idéia intelectual em universidades, mas tem sido finalmente absorvida na psiquê popular.

Similarmente, se queremos voltar nossas mentes e corações para Cristo, isso deve começar com um sério engajamento intelectual com a teologia e a ciência, por aqueles colocados como embaixadores para ambas as comunidades - a comunidade científica e a Cristã.

Uma mudança de percepção entre a intelligentsia verá, gradualmente, um grande impacto entre o grande público.

Em minhas discussões com colegas cientistas, uma percepção comum dos Cristãos é a de que eles são anti-intelectuais, e que não levam a sério a evidência disponível.

Minha resposta deveria, assim, redefinir a integridade intelectual considerando tanto o meu trabalho como minha fé, pontuando, simultaneamente, que a "integridade intelectual" assumida se apóia, por vezes, em uma cosmovisão derivada da cultura circundante que é aceita passivamente, e não, como se costuma pensar, do raciocínio dedutivo.

Ao falar com Cristãos, talvez construindo uma apreciação mais positiva de como a minha compreensão da ciência tem enriquecido a minha fé, eles sejam levados a uma visão mais esclarecida do papel da ciência.

Atuar como embaixador a dois mundos diferentes requer compreensão das preocupações e dificuldades de relacionar os dois, um ao outro.

Cientistas cristãos estão posicionados de forma singular, para desenvolver esses asuntos, na medida em que adquirem uma compreensão adequada de ambas as comunidades.

Nossa cultura não está perdida, e o Cristianismo e a ciência não são irreconciliáveis.

O que se requer é o aumento da compreensão obtida por meio do engajamento inteligente, com a confiança de que, enfim, a sabedoria de Deus será mostrada, tanto na revelação como na criação.

Pois a terra se encherá do conhecimento da glória de Deus, como as águas cobrem o mar.

Habacuque 2.14

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Texto extraido de "Christian scientists: Ambassadors to two communities"  de Mike Smith, tradução feita no Blog "Religião e Ciência".

 

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Críticas de qualquer categoria são bem vindas, mas dado o carater polêmico de tal assunto, apelo para o bom senso e boa educação daqueles que desejam manter um canal de comunicação como o STOA com o nível de qualidade que é adequado á um meio de comunicação feito por universitários e acadêmicos.

A sociedade espera isso de todos nós.

Postado por Albert Richerd Carnier Guedes | 12 comentários

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Religião e ciência - duas palavras simples, mas que provocam mais comoção do que qualquer outra para aqueles que estão empenhados na construção do pensamento humano.

Mas como todo é natural do ser humano, os pensamentos heterogênios convivem de modo a harmonizar ou gerar conflito no individuo que os cultiva. Como exemplo drástico de tal acolhimento antagônico, o cientista-teísta é um icone na representação de tal peça - podendo estar ou não em conflito com seu conhecimento e sua crença, podendo estar ou não em harmonia com seus sentimentos, a verdade é vislumbrada não só pelo que se vê no microscópio, mas também é pesado seu papel no todo da criação.

Este que vos escreve nesse blog é um exemplar de tal antagonimo - mas um exemplar harmonizado com suas crenças e seu conhecimento. Sem ter pretensão alguma quanto a esses dois pontos, desejo que essa harmonização seja reproduzida, e ai sim, mantenho a pretensão de que essa harmonia atinja aos pontos conflituosos, para que menos rusgas daqueles que tomam suas partes seja origem de tantos males - principalmente o ódio.

Este texto é meu primeiro que publico como demonstração da estrada para tal harmonização. Apesar de a referência ser o Cristianismo, a base geral se adequa á crença dum criador, que pra mim, é o principio da almejada harmonia.

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Quando um homem dá consigo a interrogar-se sobre a existência de um ser como Deus, ele não está consciente de estar a formular um problema científico nem espera dar-lhe uma solução científica. Os problemas científicos estão todos relacionados com o conhecimento do que as coisas realmente são.

Uma explicação científica ideal do mundo seria uma explicação racional exaustiva daquilo que o mundo realmente é; mas o porquê da existência da natureza não é um problema científico, porque sua resposta não é susceptível de verificação empírica.

A noção de Deus, pelo contrário, aparece-nos sempre na história como resposta a algum problema existencial, ou seja, como o porquê de determinada existência.

Os deuses gregos eram constantemente invocados para explicar diversos “acontecimentos” da história dos homens e das coisas.

Uma interpretação religiosa da natureza nunca se preocupa com o que as coisas são – isto é um problema para os cientistas – mas preocupa-se muito com as questões pelas quais as coisas são aquilo que são, e até mesmo por que razão elas acontecem.

O Deus judaico-cristão que nos é apresentado na Bíblia está aí imediatamente postulado como a explicação última para a existência do homem, para a condição presente do homem na terra, para todos os acontecimentos sucessivos que constituem a história do povo judeu, bem como para estes acontecimentos cruciais: a Encarnação de Cristo e a Redenção do homem pela Graça.

Qualquer que seja o seu valor essencial, trata-se de respostas existenciais a perguntas existenciais.

Como tal, nunca podem ser traduzidas em termos de ciência, mas apenas em termos de uma metafísica existencial.

Por isso, estas duas conseqüências imediatas: que a teologia natural está sujeita não ao método da ciência positiva mas ao método da metafísica, e que pode interrogar corretamente os seus próprios problemas apenas no quadro da metafísica existencial.

Destas duas conclusões, a primeira está condenada a permanecer muito impopular. Para dizer toda a verdade, parece perfeitamente absurdo dizer, e ridículo manter, que os problemas metafísicos mais elevados não dependem de forma alguma das respostas dadas pela ciência às suas próprias questões.

O ponto de vista mais comum sobre este assunto está bem expresso nas palavras de um astrônomo moderno: “Antes dos filósofos terem direito a falar, deveria ser pedido à ciência para dizer tudo o que sabe sobre a verificação de fatos e de hipóteses provisórias.

E só então pode a discussão passar legitimamente para o reino da filosofia”. Concordo que isto me parece bastante mais sensato do que aquilo que eu próprio disse.

Mas quando as pessoas se comportam como se aquilo que eu disse fosse falso, o que acontece? John Toland decidiu discutir problemas religiosos recorrendo a um método que foi buscar à filosofia natural.

O resultado foi o seu livro, que já mencionei: Christianity Not Mysterious. Ora, se o Cristianismo não é misterioso, o que é ?

Em 1930, na sua conferência Rede, proferida perante a Universidade de Cambridge, Sir James Jeans, decidiu abordar os problemas filosóficos à luz da ciência contemporânea.

O desfecho final foi o seu livro mais popular: The Mysterious Universe. Mas se o universo da ciência é misterioso, o que não o é ?

Não precisamos da ciência para nos dizer que o universo é de fato misterioso.

Os homens sabem disso desde os primórdios da raça humana.

A verdadeira e adequada função da ciência é, pelo contrário, fazer tanto quanto possível que o universo nos pareça cada vez menos misterioso.

A ciência fá-lo e fá-lo de forma magnífica.

Qualquer rapaz de dezesseis anos, em qualquer das nossas escolas, sabe hoje mais sobre a estrutura física do mundo do que São Tomás de Aquino, Aristóteles, ou Platão alguma vez souberam.

Pode dar explicações racionais de fenômenos que outrora pareciam às maiores mentes mistérios intrincados.

O universo da ciência como ciência consiste exatamente naquela parte do universo total à qual, graças à razão humana, os mistérios foram retirados.

Então, como é possível que um cientista se possa sentir justificado ao designar este universo como “universo misterioso” ?

Será porque o verdadeiro progresso da ciência o coloca perante fenômenos cada vez mais difíceis de observar, cujas leis são cada vez mais difíceis de formular ?

Mas o desconhecido não é necessariamente um mistério; e a ciência desenvolve-se naturalmente com base no pressuposto de que não o é, porque é pelo menos cognoscível, mesmo que ainda não o conheçamos.

A verdadeira razão por que este universo parece misterioso para alguns cientistas é que, ao confundirem questões existenciais, ou seja, metafísicas, com questões científicas, eles pedem à ciência para lhes responder. Naturalmente não obtém quaisquer respostas. Então ficam confusos e dizem que o universo é misterioso.

A cosmogonia científica de Sir James Jeans apresenta uma coleção esclarecedora dessas perplexidades.

O seu ponto de partida é a real existência de inumeráveis estrelas “vagueando pelo espaço” a distâncias tão grandes umas das outras “que é um acontecimento de uma raridade quase inimaginável que uma estrela chegue alguma vez perto de outra estrela”.

Contudo, temos de “acreditar” que “há cerca de dois mil milhões de anos, este acontecimento raro tenha tido lugar e que uma segunda estrela, vagueando cegamente pelo espaço”, tenha por acaso chegado tão perto do sol que acabou por dar origem a uma vaga enorme na sua superfície.

Esta enorme vaga finalmente explodiu e os seus fragmentos, ainda “girando em volta do seu pai-sol… são os planetas, grandes ou pequenos, sendo a nossa terra um deles”.

Estes fragmentos ejetados do sol arrefeceram gradualmente; “com o tempo, não sabemos como, quando ou porquê, um desses fragmentos em arrefecimento deu origem à vida”.

Daí a emergência de um caudal de vida que culminou no homem. Num universo em que o espaço é mortalmente frio e grande parte da matéria mortalmente quente, o aparecimento de vida era altamente improvável. Não obstante, “tropeçamos neste universo, se não exatamente por engano, pelo menos como resultado do que pode ser apropriadamente descrito como acidente”.

Segundo a conclusão de Sir James Jeans, foi esse “o modo surpreendente através do qual, tanto quanto a ciência presente nos pode informar, passamos a existir”.

Todos concordarão que tudo isso é muito misterioso, mas a questão permanece: será isto ciência ?

Mesmo que, como o seu autor evidentemente faz, as tomemos por “hipóteses provisórias”, poderemos considerar essas hipóteses como sendo, na verdadeira acepção da palavra, científicas ?

Será científico explicar a existência do homem através de uma série de acidentes, em que cada um deles é mais improvável do que o outro ?

A verdade é simplesmente que, sobre o problema da existência do homem, a astronomia moderna não tem rigorosamente nada a dizer.

E a mesma conclusão é válida se à astronomia moderna acrescentarmos a física moderna.

Quando, depois de descrever o mundo físico de Einstein, Heisenberg, Dirac, Lemaitre e Louis de Broglie, Sir James Jeans mergulha finalmente naquilo que, pelo menos desta vez, sabe serem “as águas profundas da metafísica”, qual a conclusão a que acaba por chegar ?

Que embora muitos cientistas prefiram a noção de um “universo cíclico, o ponto de vista científico mais ortodoxo” é que o universo deve a sua forma presente a uma “criação” e que “a sua criação deve ter sido um ato de pensamento”. De acordo.

Mas o que tem estas respostas a ver com Einstein, Heisenberg ou com a justamente famosa galáxia de físicos modernos ?

As duas doutrinas de um “universo cíclico” e de um Pensamento supremo foram formuladas pelos filósofos pré-socráticos, que nada sabiam sobre o que Einstein iria dizer vinte e seis séculos depois deles.

A “teoria científica moderna”, acrescenta Jeans, “obriga-nos a pensar no criador e trabalhar fora do tempo e do espaço, que também fazem parte da sua criação, tal como o artista que está fora da sua tela”.

Por que é que a teoria moderna nos obriga a dizer o que já foi dito, não só por Santo Agostinho, que o nosso cientista cita, mas também por inúmeros teólogos cristãos que não conheciam outro mundo para além do de Ptolomeu ?

Claramente, a resposta filosófica de Sir James Jeans ao problema da ordem do mundo não tem absolutamente nada a ver com a ciência moderna.

O que não é de espantar, uma vez que também não tem absolutamente nada a ver com o conhecimento científico.

Se analisarmos mais de perto, a questão inicial colocada por Jeans levou-o imediatamente, não apenas para águas profundas, mas, cientificamente falando, para longe de qualquer hipótese de sondagem.

Perguntar por que, de uma infinidade de combinações possíveis de elementos físico-químicos, surgiu o ser livre e pensante a que chamamos homem, é procurar a causa devido à qual o complexo de energias físicas que é o homem, realmente é ou existe.

Por outras palavras, é investigar as causas possíveis da existência de organismos vivos e pensantes sobre a terra.

A hipótese de que substâncias vivas possam vir a ser amanhã produzidas por bio-químicos nos seus laboratórios é irrelevante para a questão.

Se alguma vez um químico conseguir produzir células vivas ou algumas espécies de organismos elementares, nada será mais fácil para ele do que explicar a razão por que existem esses organismos.

A sua resposta será: fui eu que os fiz.

A nossa interrogação não é de modo algum: serão os seres vivos e pensantes feitos de outra coisa que não elementos físicos ?

É antes: supondo que, em última análise, eles não são constituídos por mais nada, como poderemos explicar a existência da própria ordem de moléculas que produz aquilo a que chamamos vida e pensamento?

Cientificamente falando, tais problemas não fazem sentido. Se não existissem seres vivos e pensantes, não existiria ciência.

Por isso não haveria interrogações.

Mesmo o universo científico de matéria inorgânica é um universo estrutural; no que diz respeito ao mundo de matéria orgânica, este apresenta por todo o lado coordenação, adaptação e funções.

Quando lhes perguntam por que existem tais seres organizados, os cientistas respondem: acaso. Qualquer pessoa pode executar por sorte uma jogada brilhante numa mesa de bilhar; mas quando um jogador faz uma série de cem, é uma justificação muito fraca dizer que ele teve sorte.

Alguns cientistas sabem-no tão bem que substituem a noção de acaso pela noção de leis mecânicas, o que é precisamente o seu oposto.

Mas quando chega o momento de explicarem como é que essas leis mecânicas deram origem a seres vivos organizados, são novamente forçados a recorrer ao acaso quanto à razão última que é possível citar.

“Os poderes que influem no cosmos”, diz Julian Huxley, “são, ainda que unitários, contudo subdivisíveis; e, embora subdivisíveis, estão contudo relacionados.

São os vastos poderes da natureza inorgânica, neutros ou hostis ao homem. Porém, deram origem à vida que evolui, cujo desenvolvimento, embora cego e fortuito, se encaminhou no mesmo sentido geral que os nossos desejos e ideais conscientes, dando-nos assim uma sanção externa para as nossas atividades direcionais.

Isto, por sua vez, deu origem à mente humana que, no seu decurso, está a mudar o rumo da evolução através da aceleração”, e etc. ad infinitum.

Por outras palavras, as únicas razões científicas que podem levar o nosso jogador de bilhar a fazer uma série de cem são o fato de ele não saber jogar bilhar e de todas as hipóteses estarem contra.

Se os cientistas, falando como cientistas, não tem qualquer resposta inteligível para este problema, por que é que alguns deles parecem tão interessados em dizer disparates sobre o assunto ?

A razão é simples e desta vez podemos ter a certeza de que o acaso não tem nada a ver com a sua obstinação.

Preferem dizer qualquer coisa do que atribuir existência a Deus partindo do princípio de que existe um objetivo no universo. Há uma justificação para esta atitude.

Tal como a ciência pode destruir a metafísica, também a metafísica pode destruir a ciência.

Tendo precedido a ciência no passado, fê-lo muitas vezes ao ponto de evitar a sua ascensão e de bloquear o seu desenvolvimento.

Durante séculos, as causas finais foram erradamente tomadas como explicações científicas por tantas gerações de filósofos que hoje muitos cientistas continuam a considerar o receio das causas finais como o princípio do saber científico.

A ciência está assim a fazer com que a metafísica sofra pelos séculos em que esta se intrometeu nos assuntos da física e da biologia.

Contudo, em ambos os casos, a verdadeira vítima do conflito epistemológico é apenas uma: a mente humana.

Ninguém nega que os organismos vivos parecem ter sido designados ou destinados a cumprir as várias funções relacionadas com a vida.

Todos concordam que esta aparência pode ser apenas uma ilusão. Estaríamos dispostos a tomá-la como ilusão se a ciência pudesse explicar o aparecimento da vida através das suas explicações habituais de tipo mecânico, em que nada mais está envolvido para além das relações dos fenômenos observáveis de acordo com as propriedades geométricas do espaço e as leis físicas do movimento.

Pelo contrário, o que é mais notável é que muitos cientistas defendem obstinadamente o caráter ilusório desta aparência, embora reconheçam abertamente a sua incapacidade de imaginar qualquer explicação científica para a constituição orgânica de seres vivos.

Logo que a física moderna deparou com os problemas estruturais colocados pela física molecular, viu-se confrontada com estas dificuldades. Contudo, os cientistas preferiram introduzir na física as noções não mecânicas de descontinuidade e indeterminação em vez de recorrerem a qualquer coisa como o desígnio.

Numa escala muito maior, vimos Julian Huxley explicar ousadamente a existência de corpos organizados pelas mesmas propriedades da matéria que, de acordo com o próprio, tornam infinitamente improvável que esses corpos possam existir.

Por que é que esses seres eminentemente racionais, os cientistas, preferem deliberadamente às noções simples de desígnio ou intencionalidade na natureza, as noções arbitrárias de força cega, sorte, emergência, variação súbita e outras semelhantes ?

Simplesmente porque preferem uma completa ausência de inteligibilidade em vez da presença de uma inteligibilidade não científica.

Parece que estamos a atingir finalmente o âmago deste problema epistemológico.

Por muito ininteligível que sejam estas noções arbitrárias, são pelo menos homogêneas relativamente a um encadeamento de interpretações mecânicas.

Postuladas no início deste encadeamento ou inseridas nele quando necessário, proporcionam ao cientista as existências de que ele necessita para saber.

A sua irracionalidade intrínseca exprime a resistência invencível oposta pela existência a qualquer tipo de explicação científica.

Aceitando o desígnio ou a intencionalidade como princípio de explicação possível, um cientista introduziria no seu sistema de leis um elo totalmente heterogêneo relativamente ao resto da cadeia.

Ele entrelaçaria as causas metafísicas da existência dos organismos com as causas físicas que tem de atribuir tanto à sua estrutura como ao seu funcionamento.

Ainda pior, ele poderia sentir-se tentado a confundir as causas existenciais dos organismos vivos pelas suas causas eficientes e físicas, regressando assim aos velhos tempos em que os peixes tinham barbatanas porque tinham sido feitos para nadar.

Ora, pode muito bem ser verdade que os peixes tenham sido feitos para nadar, mas ao sabê-lo, ficamos a saber tanto sobre peixes como sobre aviões ao sabermos que eles são feitos para voar.

Se não tivessem sido feitos para voar, não haveria aviões, já que serem máquinas voadoras é a sua própria definição; mas precisamos de pelo menos duas ciências, aerodinâmica e mecânica, para nos explicar como é que eles voam.

Uma causa final pressupôs uma existência cuja ciência pode só por si pressupor as leis.

A heterogeneidade destas duas ordens foi notavelmente expressa por Francis Bacon, quando este afirmou, ao falar de causas finais, que “na física, elas não são pertinentes e como obstáculo ao navio, impedindo as ciências de manterem a sua rota de aperfeiçoamento”.

A sua esterilidade científica é particularmente completa num mundo como o da ciência moderna, em que as essências foram reduzidas a meros fenômenos e eles próprios reduzidos à ordem daquilo que pode ser observado.

Os cientistas modernos vivem ou fingem viver num mundo de meras aparências, em que aquilo que aparece é a aparência do nada.

Todavia, o fato de as causas finais serem cientificamente estéreis não implica a sua desqualificação enquanto causas metafísicas e rejeitar respostas metafísicas a um problema apenas porque elas não são científicas é deliberadamente mutilar o potencial de conhecimento da mente humana.

Se a única maneira inteligível de explicar a existência de corpos organizados for a de admitir que existe desígnio ou intencionalidade na sua origem, admitamo-lo então, se não como cientistas pelo menos como metafísicos.

E como as noções de desígnio e intencionalidade são para nós inseparáveis de pensamento, pressupor a existência de um pensamento como causa da intencionalidade de corpos organizados é também pressupor o fim de todos os fins ou um fim último, ou seja, Deus.

Nem vale a pena dizer que esta é exatamente a conseqüência que os adversários das causas finais pretendem negar.

“Intenção”, diz Julian Huxley, “é um termo psicológico; e atribuir intenção a um processo apenas porque os seus resultados são de algum modo semelhantes aos de um processo verdadeiramente intencional é completamente injustificado, além de ser uma mera projeção das nossas próprias idéias na economia da natureza”.

É certamente isso que fazemos, e porque não haveríamos de o fazer ?

Não precisamos de projetar as nossas próprias idéias na economia da natureza; elas pertencem-lhe por direito próprio.

As nossas próprias idéias estão na economia da natureza porque nós próprios estamos nela.

Cada uma das coisas que o homem faz inteligentemente é feita com uma intenção e com um determinado objetivo, que é a causa final por que o faz.

O que quer que um trabalhador, um engenheiro, um industrial, um escritor ou um artista façam não é mais do que a realização, através de meios selecionados inteligentemente, de um determinado fim.

Não existe qualquer exemplo conhecido de uma máquina auto-construída que tenha surgido espontaneamente em virtude de leis mecânicas da matéria. Através do homem, que é parte integrante da natureza, também a intencionalidade é certamente parte integrante da natureza.

Então, em que sentido é que ela é arbitrária, sabendo à partida que onde há organização há também uma intenção, para concluir que há uma intenção onde quer que haja uma organização ?

Compreendo perfeitamente o cientista que rejeitar tal conclusão como não científica.

Também compreendo o cientista que me disser que, como cientista, não lhe compete chegar a qualquer conclusão quanto à causa possível da existência de corpos organizados.

Mas realmente não consigo compreender em que sentido minha conclusão, se eu a quiser inferir, é “um erro comum”.

Por que haveria de ser um erro concluir que há intenção no universo, com base no progresso biológico ?

Porque, como responde Julian Huxley, isto “pode ser demonstrado como sendo um produto tão natural e inevitável da luta pela existência como é a adaptação, e como não sendo mais misterioso do que, por exemplo, o aumento da eficácia tanto do projétil perfurante como da blindagem, ao longo do século passado”.

Será que Julian Huxley sugere que a blindagem se tornou espontaneamente mais espessa à medida que os obuses se tornavam mais fortes durante o século passado ?

Por outras palavras, será que ele defende que a intencionalidade está tão ausente da indústria humana como está do resto do mundo ?

Ou será que defende que o resto do mundo está tão cheio de intencionalidade como o está obviamente a indústria humana ?

Em nome da ciência ele defende ambas as posições, nomeadamente, que as adaptações nos organismos não são mais misteriosas, onde não há intencionalidade para as explicar, do que o é a adaptação na indústria humana, onde por todo o lado a intencionalidade a explica.

Que as adaptações que se devem a uma luta sem intenção pela vida não são mais misteriosas do que as adaptações que se devem a uma luta com intenção – se esta proposição é um “erro comum”, não sei, parece certamente um erro.

É o erro de um cientista que, dado que não sabe formular questões metafísicas, recusa obstinadamente as suas respostas metafísicas corretas.

No Inferno do mundo do conhecimento existe um castigo especial para este tipo de pecado; a reincidência na mitologia.

Mais conhecido como um prestigiado zoólogo, Julian Huxley também merece a honra de ter acrescentado o deus Luta à já grande família dos olimpianos.

O mundo que perdeu o Deus cristão só pode assemelhar-se ao mundo que ainda não o encontrou.

Tal como o mundo de Tales e de Platão, o nosso mundo moderno está “cheio de deuses”. Nele existem a cega Evolução, a lúcida Ortogénese, o benevolente Progresso e outros cujo nome é mais aconselhável não mencionar.

Para que ferir desnecessariamente os sentimentos dos homens que, hoje, os transformam num culto ?

Contudo, é importante percebermos que a humanidade está condenada a viver cada vez mais sob o feitiço de uma nova mitologia científica, social e política, exceto se exorcizarmos resolutamente estas noções confusas cuja influência na vida moderna se torna aterradora.

Milhões de homens morrem de fome e sangram até a morte porque duas ou três destas abstrações deificadas, pseudo-científicas ou pseudo-sociais estão agora em guerra.

Porque quando os deuses lutam entre si, há homens que tem de morrer.

Não poderíamos nós fazer um esforço para compreender que a evolução deve ser em grande parte aquilo que quisermos que seja ?

Que o Progresso não é uma lei que se cumpre automaticamente mas algo para ser pacientemente conquistado pela vontade dos homens ?

Que a Igualdade não é um fato consumado mas um ideal de que nos devemos progressivamente aproximar através da justiça ?

Que a Democracia não é a deusa condutora de algumas sociedades mas uma promessa magnífica que deverá ser cumprida por todos através do seu desejo obstinado de amizade, se forem suficientemente fortes para a fazer perdurar durante gerações ?

Penso que poderíamos, mas deveria haver primeiro uma grande lucidez, e é aqui que apesar da sua incapacidade proverbial a filosofia poderia constituir uma ajuda.

O problema de tantos dos nossos contemporâneos não é serem agnósticos mas antes serem teólogos pouco judiciosos.

Os verdadeiros agnósticos são muito raros e não prejudicam ninguém a não ser a si próprios. Tal como não tem Deus, estes também não têm deuses.

Muito mais comuns, infelizmente, são esses pseudo-agnósticos que, porque combinam conhecimento científico e generosidade social com uma total falta de cultura filosófica, substituem mitologias perigosas à teologia natural, a qual nem sequer compreendem.

O problema das causas finais é talvez o problema mais habitualmente discutido por estes agnósticos modernos.

Foi por isso que atraiu particularmente a nossa atenção.

É contudo apenas mais um entre os muitos aspectos do mais elevado de todos os problemas metafísicos, o do Ser. Para além da interrogação: “por que há seres organizados ?”, espreita uma mais profunda, que coloco utilizando os termos do próprio Leibniz: por que há alguma coisa em vez de nada ?

Mais uma vez compreendo inteiramente um cientista que se recuse a colocar esta interrogação.

Compreendo se ele me disser que a pergunta não faz sentido. Cientificamente falando, não faz. Metafisicamente falando, faz.

A ciência pode explicar muitas coisas deste mundo; pode um dia explicar tudo o que é realmente o mundo dos fenômenos.

Por que é que alguma coisa é ou existe, a ciência não sabe, precisamente porque nem sequer sabe fazer a pergunta.

A esta interrogação suprema, a única resposta concebível é que toda e qualquer energia existencial, toda e qualquer coisa que exista depende, para existir, de um puro Ato de existência.

De forma a ser a resposta última a todos os problemas existenciais, esta causa suprema tem de ser a existência absoluta.

Sendo absoluta, essa causa é auto-suficiente; se cria, o seu ato criativo tem de ser livre.

Como cria não apenas ser mas ordem, tem de ser algo que pelo menos contenha eminentemente o único princípio de ordem conhecido por nós através da experiência, nomeadamente do pensamento.

Mas uma causa absoluta, que subsiste por si só e conhece não é algo mas alguém.

E, suma, a primeira causa é o Uno em que coincidem a causa da natureza e da história, um Deus filosófico que também pode ser o Deus de uma religião.

Ir mais além seria cometer um erro equivalente ao de alguns agnósticos.

A incapacidade de tantos metafísicos de distinguirem entre filosofia e religião revelou-se não menos prejudicial à teologia natural do que a sua invasão pela ciência pseudo-metafísica.

A metafísica postula Deus como um puro Ato de existência, mas não nos fornece nenhum conceito da Sua essência.

Sabemos que Ele é; não O compreendemos.

Os metafísicos mais simplistas levaram involuntariamente os agnósticos a acreditar que o Deus da teologia natural era o “relojoeiro” de Voltaire ou o “carpinteiro” da apologética de pacotilha.

Em primeiro lugar, nenhum relógio foi feito por qualquer relojoeiro; “relojoeiros” deste tipo simplesmente não existem; os relógios são feitos por homens que sabem fazer relógios.

Do mesmo modo, postular Deus como causa suprema daquilo que é, significa saber que Ele é Ele que pode criar, porque Ele é “Ele que é”; mas isto ainda nos diz menos sobre o que pode ser a existência absoluta do que qualquer obra de carpintaria nos diz sobre o homem que a fez.

Como homens, só podemos afirmar Deus em bases antropomórficas. Mas isso não nos obriga a postulá-Lo como um Deus antropomórfico.

Tal como diz São Tomás de Aquino:

O verbo ser é usado de duas formas diferentes: numa primeira, significa o ato de existir (actu assendi); numa segunda, significa a composição dessas proposições que a alma inventa juntando um predicado a um sujeito.
Considerando ser na primeira forma, não podemos conhecer a Sua essência.
Conhecemo-lo apenas na segunda forma.
Porque, de fato, sabemos que a proposição que formamos sobre Deus quando dizemos: “Deus é”, é uma proposição verdadeira, e sabemo-lo a partir dos Seus efeitos.

Se este for o Deus da teologia natural, a verdadeira metafísica não culmina num conceito, seja ele o de Pensamento, Bem, Uno ou Substância.

Nem sequer culmina numa essê3ncia, mesmo que seja a do próprio Ser. A sua última palavra não é ens mas esse; não ser mas é.

O derradeiro esforço da verdadeira metafísica é o de postular um Ato através de um ato, ou seja, postular através de um ato de julgamento o Ato supremo de existir cuja essência, porque é ser, ultrapassa a compreensão humana.

Onde a metafísica do homem termina, começa a sua religião.

Mas o único caminho que o pode conduzir ao ponto onde começa a verdadeira religião tem necessariamente de o conduzir para além da contemplação das essências, até ao verdadeiro mistério da existência.

Este caminho não é muito difícil de encontrar, mas poucos são os que ousam percorrê-lo até o fim.

Seduzidos como estão pela beleza inteligível da ciência, muitos homens perdem todo o gosto pela metafísica e pela religião.

Alguns outros, absorvidos pela contemplação de alguma causa suprema, tomam consciência de que a metafísica e a religião deveriam acabar por se encontrar, mas não sabem dizer como ou onde; daí que separem a religião da filosofia ou ainda que renunciem à religião em prol da filosofia, se, como Pascal, não renunciarem à filosofia em prol da religião.

Por que não havemos de conservar a verdade e de a conservar na sua totalidade ?

Isso pode ser feito.

Mas só o conseguem fazer aqueles que compreenderem que Ele Que é o Deus dos filósofos é ELE QUE É, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob.

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Fonte: Étienne Gilson, Deus e a Filosofia, Edições 70, págs 86 – 101

 

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Críticas de qualquer categoria são bem vindas, mas dado o carater polêmico de tal assunto, apelo para o bom senso e boa educação daqueles que desejam manter um canal de comunicação como o STOA com o nível de qualidade que é adequado á um meio de comunicação feito por universitários e acadêmicos.

A sociedade espera isso de todos nós.

 

Postado por Albert Richerd Carnier Guedes | 2 comentários