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maio 24, 2011

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Postado por سميرة

E nos encontramos ocasionalmente pelos corredores cinzas da faculdade. Trocamos olhares que não dizem nada, mas significam tudo. A primeira reação é a de um esboço de sorriso, como quem encontra um colega e sorri socialmente. Até que me dou conta de quem realmente fui e de quem sou. É aí então que a falsa simpatia dá lugar a uma vergonha, a um desconhecimento que só nós dois conhecemos.

As águas do meu ser nunca são as mesmas...o movimento flutua sobre a face das águas do meu ser...nada é permanente a não ser a mudança, a palavras do velho Heráclito vêm em minha lembrança...

É na mudança que encontramos um objetivo...tudo é fluxo, nada fica parado...tudo acontece por causa do conflito e da necessidade.

Necessidade, conflito, não vos quero mais em mim.

Mais um dia de olhares sem culpa que se cruzam no imenso corredor, na escada, no hall.
Olhares que não dizem mais nada, ou que não mostram nada, e que mesmo assim se fosse antes, insistiria em dizer que foi um olhar apaixonado.
Penso como pude ser tão ingênua a ponto de não perceber, que esse mesmo olhar é distribuido para milhares, e tendo também o mesmo significado.
Ninguém ainda conseguiu decifrar o silêncio de olhos indecisos...os olhares
de amor não foram lançados em vão.
Mas que ao mesmo tempo, são esses mesmos olhos que dizem coisas que jamais um dia gostariamos de saber.
Prefiro assim, não ver naqueles olhos que sempre vi, prefiro presenciar o silêncio de cada olhar, para não ter que me iludir novamente com o silêncio deles.

E é tudo tão de repente! Oh, descanse em paz, amor infecundo no meu ser!

"As pessoas precisam de três coisas: prudência no ânimo, silêncio na língua e vergonha na cara" - (Sócrates).  É meu mestre soberano, faltei na prudência, mas sou tua eterna aprendiz, valeu a lição que ficou.

Cheguei no sétimo degrau...alma livre dos grilhões, alma Senhora de si, contemplando a imensidão da Beleza, O Belo e não mais o belo metonímico.

"Às vezes, não tão de repente
Lento e lerdo, machucando a alma

Da negra inércia advém o alívio
De um fim tardio, agora de repente".

Palavras-chave: desilusão, metonímia, soneto de separação

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maio 20, 2011

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Postado por سميرة

Vídeo da canção "Megales Agapes" do cantor grego Stelios Rokkos.

Sou suspeita para falar da Grécia, Ah! Grécia dos meus amores, linda e eterna pátria!

A música de Stelios é incrível, cheia de ritmos gregos contagiantes e conta com vários instrumentos milenares, do berço eviterno da cultura clássica.

 

Palavras-chave: megales agapes, música grega, stelios rokkos

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Postado por سميرة

Nicholas Lens, é um maravilhoso autor e compositor belga, que aprendeu a tocar violino aos cinco anos de idade com o pai.

Estudou música no Conservatório Real de Música em Bruxelas e lá também iniciou seus primeiros projetos teatrais, filmes e televisão.

É membro da Orquestra Nacional da Bélgica.

A trilogia The Accacha Chronicles [2005] é para mim, dos seus trabalhos mais perfeitos. A parte I: Flamma Flamma - The Fire Requien; a parte II: Terra Terra - The Aquarius Era e a parte III: Amor Aeternus e o melhor, todas as letras são cantadas em Latim!!!

Escrevo abaixo, "Deliciae Meae", uma das minhas músicas preferidas e um deleite para os que assim como eu, são apaixonados pela língva mater.

Deliciae meae 
Venustas tua 
Ipsi morti superest 
Ultimum lavabo 
Corpus nudum tuum 
Lacrimis meis 
Pyra non altius 
Amoris mei igne 
Ardere potest 
Invideao et odi 
Servos funebries quibus 
Te tangere licet 
Post me 
Procus nullus 
Nisi mors 
Te possidet

 

Palavras-chave: latim, língua latina, música belga, nicholas lens

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Postado por سميرة

Desistência, um dos sentimentos mais acerbos na vida humana.


"E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta, é a glória própria de minha condição. A desistência é uma revelação." -  Clarice Lispector

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O poema  O Cão sem Plumas é a descrição das condições sub-humanas nas palafitas e mocambos do Recife. A dicção é dura, como convém ao tema, mas nunca resvala para o panfleto.

É um longo e hermético poema que denuncia não só o estado do rio, mas também a situação de exclusão da população ribeirinha, à margem de tudo.

Há o questionamento sobre as questões regionais e a da geografia humana, que não fica somente nas condições sociais do homem que habita suas margens, mas também sobre o que faz de um ser  humano um ser humano, ou seja,  o autor reflete sobre o que um homem devia ser (sonho e pluma) e se revolta diante da dificuldade de achar, naquele ser, um homem.

Há também a análise do meio ambiente, rio e homem são entidades indissociáveis, tão confundidos que não é possível saber onde um começa e outro termina; a pobreza e a negritude do rio é causa da pobreza do homem negro de lama.


Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.


(João Cabral de Melo Neto)

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maio 17, 2011

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Postado por سميرة

 

Efetivamente, não temos no séc. V a C, retórica no sentido como  a conhecemos (implicando mensagem e transmissão dessa mensagem adequada a um público) e, juntamente com isso, a perspectiva de que essa mensagem seja compreensível ao público, uma elocução, um ethos, uma maneira de se dizer dentre outras, ou seja, uma escolha da melhor maneira de se explicitar entre outras.

Aqui nós temos um exemplo do que são chamados dissoi logoi, que são os duplos discursos ­– modelo de explicitação de uma argumentação que trabalha muito mais com certas características que podem ser apresentadas em circunstâncias semelhantes, nas quais seja necessário argumentar.

Não são a efetivação nem explicitam a questão da efetivação de um discurso estritamente retórico, naquele modelo de que o discurso retórico seja o que sofra a elaboração de uma mensagem de acordo com ouvintes e circunstâncias determinadas.

Caracterizam-se aspectos gerais, como os apresentados na oração fúnebre de Górgias: traços de características argumentativas gerais, ou seja, elementos, dados e argumentos que podem ser utilizados em circunstâncias diversas; ausência de ethos, do caráter do orador; sem preocupação com elocução, só importam os argumentos.

Estamos mais próximos da perspectiva dialética no sentido aristotélico da palavra, ou seja, de como os argumentos se constroem e de como podem ser revertidos de um horizonte para outro (e aí já não é propriamente aristotélico, mas próprio do séc. V), de como argumentos podem ser retabalhados e afirmados num momento e depois negados em outro. Em última instância, fundamentalmente o que funciona é a possibilidade de que se elabore a verdade ou algo semelhante a ela como algo feito e modelado pelo discurso.

São essas características argumentativas que estão explicitadas sobretudo nesse texto, que foi atribuído a Protágoras por muito tempo; hoje não se atribui mais a ele: acredita-se que Protágoras tenha recolhido um conjunto de argumentos, mas não que seja autor deles, na perspectiva específica do que Cole chama de pedagógica; ele traz esses elementos para que alunos se exercitem para, num momento necessário, saibam usar a argumentação mais conveniente.

Toda essa apresentação argumentativa é totalmente ausente do que Cole chamava no capítulo anterior de esqueleto, roupagem: o que temos aqui é, estritamente, o argumento em suas variações.

 

Dissoi logoi

Texto em tópicos: acerca do bem e do mal, do belo e do feio (em grego há muita acepção belo/feio também moral), do justo e do injusto, do verdadeiro e do falso. Estes são os eixos argumentativos determinados por ele, além da sabedoria e da virtude, se são ou não ensináveis.

O que é comum a cada uma dessas questões, que permite que sejam apresentados como elementos antagônicos, é que são valores morais e humanos, portanto passíveis de debate. Aristóteles diz que o que se discute numa assembleia, no começo da Retórica, são os valores determinados pela argumentação. Em grande parte se explicita algo que não era comum de se pensar: que esses valores são dados e construídos a partir do argumento que se faz sobre eles.

A consequência do que ele está dizendo é que não se tem de imediato qual valor é o justo e o injusto, mesmo que, como quer Platão, o justo seja um valor eterno e imutável, porque, para conhecê-lo, necessariamente, será necessário investigar e argumentar para justificar isso, e sempre haverá a possibilidade de um argumento contrário. Da mesma forma para qualquer outra virtude.

Exemplo: a justiça é um bem e deve-se argumentar sobre isso. Pode-se chegar a conclusões diversas sobre isso.

Aqui, o próprio título duplos discursos, é significativamente essa perspectiva de que conceitos e valores morais podem receber defesas e ataques que os constituam. Ou seja: não são dados, verdades determinadas, mas sim sempre passíveis de receber um argumento, e um argumento é sempre passível de receber um argumento contrário. Aqui, lança-se afirmativamente a questão de que qualquer conceituação é passível de seu contrário; se defender que o justo é um bem, sempre pode haver alguém que defenda que o justo é um mal.

 

• Tópico 1 - acerca do bem e do mal

Duas coisas básicas:

1. por um lado a afirmação do bem contraposto ao mal;

2. por outro lado o bem e o mal como o mesmo. Dois argumentos justificam isso, já que uma coisa seria boa para uma pessoa e outra seria má; num segundo momento o mesmo homem diz que ora uma coisa é boa, ora é má.

Temos aqui  basicamente duas oposições:

1. bem é uma coisa, mal é outra; isso poderia ser uma posição como a de Platão por exemplo, que defende que o bem como valor válido, eterno e bom, e o mal como ruim.

2. por outro lado, pode-se defender que uma coisa é boa e má. Para isso, duas razões: primeiro, que se tem o resultado de uma coisa ser boa ou má por um grupo dizendo que ela é boa e outro dizendo que ela é má, e portanto a conclusão é que é boa e má ao mesmo tempo (bom e mal depende de quem diz); segundo, pela afirmação da própria pessoa, dizendo que um bem e um mal podem ser diferentes (o sabor de uma comida agradável quando se está saudável é um bem, mas numa ocasião de a pessoa estar doente tem um gosto ruim, e portanto a mesma pessoa ora acha que é um bem, ora acha que é um mal).

Claro que essas posições explicitadas aqui já implicam, de algum modo, a questão de que isso se define segundo a argumentação que a define. Então, aqui, poderíamos ter:

a) filosoficamente uma posição como a de Platão, que distingue bem e mal como duas coisas opostas por valores absolutos;

b) podemos também ter bem e mal como um mesmo, por não termos como decidir isso, como acontece em Heródoto, quando um povo diz que algo é um bem e outro diz que é um mal. Por exemplo, os lídios não viam problema na prostituição, consideravam-na um bem e, portanto, prostituíam as filhas, ao contrário dos gregos, que consideravam a prostituição um mal. Temos dois povos distintos e duas teses são apresentadas, e podemos concluir que uma coisa é um bem e um mal ao mesmo tempo. Quando se tem uma perspectiva de um lado, de um grupo, e de outro lado um grupo com ideia oposta, podemos concluir que nenhum grupo tem razão, porque cada um diz uma coisa, essa ideia não sendo nem bem nem mal;

c) e por fim, como no Teeteto de Platão, a própria pessoa ora tem a sensação de algo como sendo bom e ora tem a sensação de algo como sendo mal (nesse caso podemos lembrar de Protágoras "o homem é a medida de todas as coisas" e então, portanto, bem e mal não são o mesmo). Aqui, por uma certa percepção física, uma mesma pessoa pode num momento perceber algo como bom, agradável, e em outro momento perceber essa mesma coisa como algo ruim, desagradável. A avaliação não é feita por teses de dois grupos contrários, mas sim pela própria pessoa, que percebe a mesma coisa como boa ou ruim em determinados momentos.

Explicitação e posição além: "observações a partir da vida humana, que se ocupa de comida, bebida e sexo; para o doente são más, para quem goza de saúde, são boas." A partir de uma tese geral sobre as posições possíveis de bem e mal, ele vai fazer um elenco próprio dele do que ele considera como bem e mal a partir de certos exemplos que são gerais, mas já não tão gerais assim.

Argumentativamente, há dois grandes modelos argumentativos: dedução e indução. Um exemplo clássico de dedução é o silogismo (ou entimema, em retórica): partir de uma tese geral e chegar à aplicação em algo particular dessa tese geral, a partir da conclusão gerada por duas premissas ("todo homem é mortal/Sócrates é homem/Sócrates é mortal"). Uma indução faz o oposto: passa do particular e chega ao geral.

O exemplo é um tipo de indução: cria-se o argumento a partir de casos isolados. Dizer que doentes consideram coisas más e homens saudáveis consideram coisas boas cria o argumento, a partir disso, de que ora uma coisa é boa, ora é má. Isso traz um caso mais particular para defender uma tese.

Especificidade – esse exemplo poderia ser mais específico: usando uma característica de uma regra de determinado campo, como o doente, em vez de falar de doente, que é um aspecto ainda geral, pode-se especificar de forma ainda mais particular: em vez de doente, poderia ser Pedro, mas para ser doente, Pedro teria que ter outras características (viver em tal lugar, ser rico ou pobre, ser legal ou não, além de doente), ou seja, outros elementos acessórios acidentais (aristotelicamente falando) são necessários para constituir uma particularidade. Quanto mais elementos, mais específico.

Abstração – a abstração justamente retira o particular. Ninguém conhece o cavalo por percepção, sensoriamente: conhece-se os elementos acidentais de determinado cavalo, com certa cor, certa crina, certas características. Quando se faz uma abstração, retiram-se esses elementos acidentais para se ter, na abstração, o elemento com uma generalidade maior: o cavalo, que já não é algo que se conheça particularmente, na realidade, mas em que se pode pensar quando se associa ao conceito de "cavalo". Conhece-se o conceito por pensamento. De fato, conhece-se um cavalo aqui, outro ali, mas quando se pensa em cavalo, não se pensa em um específico, porque se tiram todos os acidentes como cor, raça etc. Só nos momentos em que se particulariza é que se apresentam esses elementos específicas.

Essa é uma particularização genérica porque traça certas características mas não determina especificamente: não se está falando de alguém doente, mas do doente. Significa que se pode, num determinado raciocínio argumentativo, apresentar essas características sobre um ou outro sujeito específico. Esse é o elemento que permite a Cole dizer que isso são temas gerais, porque a partir desses modelos pode-se aplicá-los a diferentes argumentos em diferentes circunstâncias em que elas são especificadas. Um arsenal de argumentos vai encontrar sua especificidade numa situação específica, em que receberão essas características particularmente.

Todos os exemplos do dissoi logoi estão assim e sempre dando a direção de que não se pode definir uma coisa por ela mesma, mas sempre por quadros de oposição e que, dependendo do ponto-de-vista, o quadro muda.

Sobre temperança, a doença, a morte, etc: se o sujeito é desmedido, para ele próprio isso é ruim, mas para quem obtém algum ganho com a desmesura dele, isso é bom. Para os que adoecem a doença é um mal, para os médicos é um bem: depende do ganho, da utilidade.

Todos os exemplos seguem essa mesma linha de ponto-de-vista de utilidade, de ganho, fazendo a diferença entre o bem e o mal.

Depois ele dá exemplos históricos – a vitória dos lacedemônios sobre os atenienses: para uns foi um bem, para outros um mal; a mesma coisa com relação a Troia, para os troianos um mal, para os gregos um bem; para os centauros um mal, para os lápitas, um bem.

Seguem vários exemplos de argumentos usados em circunstâncias diferentes.

"Outro tipo de argumento diz que um seria o bom e outro o mal e que, diferindo de tal maneira o nome, assim difere a coisa". Aqui ele vai por uma questão prévia, que é a oposição entre bem e mal. Isso é prévio porque se pode dizer: "parece-me que não seria possível discernir qual é o bem e qual é o mal se ambos fossem a mesma coisa e não um diferente do outro. Seria mesmo espantoso se fosse assim". Isso parece absurdo mas foi amplamente discutido no séc. V, ou seja: mal e bem não se opõem, podem ser considerados a mesma coisa porque essas coisas só se dizem quando se diz que são assim.

A ideia central é a de que, para ele, é fundamental trabalhar com a separação entre bem e mal porque, se se disser que o bem é igual ao mal, está-se dizendo que não há diferença entre eles, e portanto a oposição dos nomes não quer dizer nada. Esse foi um debate filosófico importante porque estava por trás disso o reconhecimento de um princípio que é um dos três fundamentais do pensamento.

São 3 princípios:

1. Princípio de identidade: A é igual a A - define-se cadeira e não se pode dizer que é não-cadeira, ela deve ser semelhante a si mesma. Se se define Sócrates, ele tem que ser definido como semelhante a si mesmo. Se algo é reconhecido, antes de tudo deve ser reconhecido como ele mesmo.

2. Princípio de não-contradição: define-se algo como diferente do que é contraditório a ele. Se homem é mortal, não se pode dizer que seja não-mortal. Ou seja: se algo é o bem e define o que é o bem, necessariamente, pelo princípio de contradição, afirma-se o mal como algo que difere do bem, então pelo princípio de não-contradição não se pode dizer que bem e mal sejam a mesma coisa. Isso é interessante porque coloca em perspectiva questão sobre a própria linguagem. No diálogo Crátilo de Platão, em que foi retomada essa personagem, discute-se qual é a natureza dos nomes, de onde eles vêm, por que se nomeiam as coisas com esses nomes. A resposta de Crátilo é de que se pode dizer que os nomes são dados por convenção: se dá o nome de cadeira porque se resolve dar esse nome. O que auxilia muito na tese de que os nomes são arbitrários é o fato de cada língua nomear as coisas com nomes diversos de acordo com uma convenção.

Se por um lado a natureza do nome é uma convenção, o seu contrário seria a natureza. A contraposição é que o nome teria uma physis, uma natureza própria de cada nome. Algumas palavras permitem chegar a aproximações com as mesmas raízes em várias línguas. A onomatopeia é a figura que nos permite aproximar a natureza dos nomes da natureza das coisas. A perspectiva de que se nomeia pelos sons que as próprias coisas fazem possibilitaria dizer que existe uma natureza própria de cada nome.

Por trás disso é que há uma grande questão: como se conhece? Porque se os nomes são convenção e a língua é convenção, então todo signo é arbitrário, e isso significa que o signo não é a coisa; e se o signo não é a coisa, resulta daí que todo nome se separa radicalmente da própria coisa, a ponto de Aristóteles dizer no Livro Gama da Metafísica, a respeito de Crátilo (que seria heraclitiano, segundo Heráclito que dizia que "tudo flui", como fios) que afirmava que não se podia entrar no mesmo rio duas vezes, não só porque a água sempre flui e não é mais a mesma, mas também porque o homem também muda, não é o mesmo, está em constante mudança. Hilme, filósofo do séc. XVIII, dizia que o homem nada mais era do que um fluxo de representações, ou seja, não existe consciência, mas um conjunto de representações; mudando as representações, mudamos nós.

Voltando a Crátilo, o sentido principal para ele é que, no final das contas, não se poderia mais nomear nada, porque todo nome seria uma imposição que não era a coisa, porque as coisas são fluxos. O mesmo para o cavalo, que é sempre um outro, separado. Nietzsche afirmava que não existia nome próprio, todos eram arbitrários, não existia uma coisa que dissesse mais do que outra.

Nessa perspectiva das coisas sob constante mudança, Crátilo não podia mais dizer nada, ele apontava com os dedos, porque se dissesse o dito não seria a coisa, seria algo posterior à própria coisa, enquanto o apontar era simultâneo.

Isso traz a questão sobre bem e mal: são a mesma coisa? Porque em última instância se está discutindo a própria natureza do nomear. Antístenes assumiu que todo e qualquer discurso era verdadeiro, e toda e qualquer coisa dita era verdadeira, porque o verdadeiro se faz pelo dizer e não há um critério externo ao dizer, portanto tudo o que se disser será verdadeiro ao se dizer, não haverá mais oposição de teses, não se poderá dizer que justo é injusto, porque justo e injusto seriam a mesma coisa.

Nesse elemento e nessa concisão que apresentam os dissoi logoi, apresentam-se uma série de problemas que eram debatidos nesse momento, se a linguagem é convenção ou não, sobre a natureza dos nomes, sobre uma série de questões que estão no bojo de uma série de reflexões que em última instância modelam a possibilidade de que se tenha argumentações e oposição argumentativa a partir daí.

3. Princípio do terceiro excluído: que toda proposição, junção de dois termos, pode receber uma qualificação que é fundamental na linguagem: só pode ser falsa ou verdadeira. Toda proposição é bipolar, ela não pode ser outra coisa além de verdadeira ou falsa. Não há meia-verdade.

"Acho que aquele que afirma isso, que uma coisa é boa e má, não teria o que responder se alguém lhe perguntasse: teus pais já te fizeram algum bem? Ele responderia: muitos e grandes bens. Conclusão: então deves muitos e grandes males a eles, se o mesmo é o bem e o mal."

SE se afirma que o bem e o mal são as mesma coisa, assumindo que os pais lhe fizeram grandes bens, logo lhe fizeram grandes males.

O diálogo Eutidemo se esmera em apresentar esse tipo de argumentação, e um texto de Aristóteles, as Refutações Sofísticas, justamente quer retirar essa duplicidade da linguagem, esse duplo sentido, ou assumir que as palavras não têm sentido nenhum, como no caso de bem e mal serem a mesma coisa. Esgotar esses conceitos é de certo modo construir argumentos em situações falaciosas.

Depois vêm exemplos semelhantes. Depois passa a tratar o belo e o feio.

"Também acerca do belo e feio também há dois discursos, pois uns dizem que um é belo, outro é feio (lembrando que belo e feio em grego também quer dizer moralmente adequado ou não), e que diferindo de tal maneira o homem, assim difere a coisa; outros dizem que o belo e o feio são a mesma coisa." De novo a mesma questão.

"Outros dizem que o mesmo é o belo e o feio. Eu tentarei primeiro explicar esse último caso. Por exemplo, para um menino na flor da idade é belo agradar um amante e feio agradar a um homem que não o ame." Aqui fala da eufebia, da relação homossexual que havia entre homens e garotos mais novos; nessa relação o mesmo pode ser bom e mau.

"As mulheres banharem-se em casa é belo; na palestra é feio." Aqui uma série de exemplos cujo sentido é dado pelo decoro, pela adequação.

"Fazer sexo com um homem num lugar tranquilo, escondido por paredes, é belo; ao ar livre é feio. Aliás, fazer sexo com o mesmo homem e com o alheio é feio. Bem como para o homem fazer sexo com sua própria mulher é belo e com a alheia é feio. Embelezar-se, maquiar-se com pintura e adornar-se com joias para o homem é feio, para a mulher é belo." Aqui vários exemplos de belo e feio como a mesma coisa, dependendo de quem faz, do decoro, da adequação.

Passa a exemplos de cidades e povos, com vários exemplos tirados de Heródoto, onde os mecanismos funcionam exemplarmente para a relativização de argumentos, que tem como consequência a verificação de costumes diferentes: "parece ser belo para os macedônios que as moças, antes de casarem-se, apaixonem-se e façam sexo com o homem; após casarem-se, é feio; em várias vezes ambas as coisas são feias. Para os trácios é belo que as moças marquem o corpo (tatuagem), para os outros é um castigo aos injustos as marcas no corpo. Os citas consideram belo que aquele que mata um homem, tendo-lhe arrancado a cabeça, arraste-a pela cabeleira do cavalo e, tendo dourado ou prateado o crânio, beba nele e faça libações ao deuses". Os citas são os povos da estepe famosos pela ourivesaria; para Heródoto são o maior exemplo de bárbaros, no sentido de espantosos, estranhos, porque comem carne semicrua (cozinham na sela do cavalo), bebem vinho sem misturar água, o que é um excesso, e por essa marca violenta no combate. Hartog, em O Espelho de Heródoto, escolhe os citas como exemplo do espelho, da maneira mais distante do que seria em semelhança o grego.

Outro exemplo era os massagetas, que foram o povo que derrotou Ciro: "os massagetas esquartejam e devoram os pais, pois acham que a mais bela sepultura é estar sepultado nos fihos". Esse é um conceito da antropofagia, que considera bom devorar, por pegar o que há de bom no devorado. "Na Grécia se alguém fizesse isso seria expulso e morreria de modo desonroso como autor de obras feias e ferinas."

"Os persas consideram belo que os homens se embelezem como as mulheres e que façam sexo com a filha, com a mãe e com a irmã. Os gregos consideram essas coisas ilegais." Vários outros exemplos seguem.

"Se alguém mandasse todos os homens reunirem, num mesmo local, as coisas feias, cada qual as que assim considera e inversamente, tomarem desse conjunto as coisas belas, conforme parece a cada qual, penso que nenhuma seria deixada para trás, mas todos levariam todas." Bem para um, mal para outro, reunindo-se todos os povos e considerações que eles têm, no final são a mesma coisa.

"Como se diz em geral, tudo é belo na oportunidade e feio na importunidade." Isso é importante pelo viés da adequação.  "Que obtive, então? Disse que queria demonstrar que todas as coisas eram belas e feias, e demonstrarei com todos esses casos. Disse também acerca do feio e do belo que cada um seria diferente do outro. Segue que, se alguém perguntar aos que dizem que alguma coisa é feia e bela, se ele já lhe fez alguma vez algo belo, hão de concordar que também lhe fez algo feio, no caso de feio e belo serem a mesma coisa." É o mesmo argumento que tinha apresentado antes.

Depois sobre o justo e injusto, a mesma argumentação com esses mesmo valores; seguem argumentos que se encontram, também, em Platão: "Primeiro direi que é justo mentir e enganar, embora digo que fazer isso com os inimigos é algo justo e, com os amigos, feio e nocivo" – esse mesmo argumento está no Livro I da República. "No caso, por exemplo, dos mais queridos, os pais: se o pai ou a mãe não quisesse comer ou beber um remédio, não seria justo colocá-lo na comida ou na bebida e não dizer que lá está?" Relativização do que é justo e injusto.

Se mentir para o pai e disser que não está dando o remédio que se está dando, disso conclui-se que é justo mentir e enganar os pais. Ou seja: uma particularização de um caso isolado pode ser levada para a generalização, porque, de certa forma, o argumento falacioso permite que se faça isso; mas se for muito bem motivado, se for revestido de uma forma que não seja tão clara quanto a apresentada aqui, isso será convincente. Isso mostra como se pode manipular o argumento a partir de critérios que são, justamente, a construção do argumento pelo discurso.

"Por exemplo, se algum dos parentes, acometido de dor e aflição, estiver a ponto de se autodestruir com um punhal (e aí entra o mesmo argumento que vimos antes em Platão, de Céfalo, de que é justo que cada um tenha o que lhe é devido, quando Sócrates pergunta: "se alguém que me pede que eu guarde seu punhal, em um certo momento, depois de uma crise de loucura, pedir o punhal de volta, devo devolvê-lo?" A resposta é não; primeiro para não correr risco de vida, segundo para a própria pessoa não se matar, terceiro para que não mate outra pessoa, portanto, não é justo devolver o punhal nessa condição), seria inadequado que recebesse o que é dele, portanto é melhor furtar o punhal dessa pessoa, ou roubá-lo ou mesmo tomá-lo à força."

"Como não seria justo escravizar os inimigos e se alguém, tomando a cidade, se pusesse a vendê-la toda? Ademais parece justo invadir os prédios públicos dos cidadãos, pois se o pai, dominado pelos adversários políticos, fosse preso e condenado à morte, acaso não seria justo cavar um buraco, resgatar e salvar o pai? E quanto ao perjurar, se alguém capturado pelos inimigos prometesse, sob juramento, uma vez libertado, para eles a cidade, acaso agiria com justiça cumprindo o juramento?" São então várias circunstâncias em que um dado que é tido como absolutamente normativo mostra que há uma dificuldade em se cumprir aquilo que se pensa como essa norma.

Ele dá como exemplo o santuário de Delfos, que tinha uma riqueza enorme, justamente pela retribuição, com votos, de quem recebia o cumprimento dos oráculos e a ajuda política que o santuário dava: a cidade está prestes a ser invadida; não é justo ir até lá e destruir todas as coisas em vez de deixá-las aos bárbaros? Não é justo, em última instância, pilhar os templos, destruí-los? Não é justo que Orestes mate a mãe, seu ente mais querido? São circunstâncias que, de um modo ou  de outro, mostram as palavras de Ésquilo ("o deus de engano justo não está distante"): o próprio deus engana e as coisas podem ser feitas adequadamente, de acordo com a circunstância.

Sobre verdadeiro e falso: "uns dizem ser um o discurso mentiroso, outro o verdadeiro" (condição bipolar); "outros, que o mesmo discurso é mentiroso e verdadeiro ao mesmo tempo. Eu digo o seguinte: que ambos são ditos com as mesmas palavras" (ou seja, o verdadeiro ou o falso ou o verdadeiro e falso ao mesmo tempo), "depois que, toda vez que um discurso é enunciado, se o que ele disser acontecer, ele é verdadeiro; se o mesmo não acontecer, o discurso é falso" – aqui ele tem uma definição de verdade que é muito próxima a um dos sentidos aristotélicos que recebe, por São Tomás, o nome de verdade por adequação, que é justamente como os exemplos que vimos de proposições (quando o que é corresponde ao que se diz que é) e essa adequação entre o discurso e a coisa faz com que o discurso seja verdadeiro; se uma coisa disser o que vai acontecer, o discurso é verdadeiro; se disser algo que não acontece, o discurso é falso.

Exemplo: um discurso que acusa alguém de profanação: se aconteceu o fato, é verdadeiro, se não aconteceu, é falso, e o mesmo discurso pode ser do defensor, e os tribunais irão ver o discurso ora mentiroso, ora verdadeiro. Por outro lado os tribunais ora dizem uma coisa, ora outra.

Então, um discurso vai ser verdadeiro quando acompanhado da coisa que corresponde à coisa verdadeira e falso quando acompanhado do falso.

"Disse, também, que um seria o discurso falso, outro o verdadeiro, e que diferindo de tal maneira o nome, assim difere a coisa. Se alguém perguntasse aos que dizem que o mesmo discurso é falso e verdadeiro, se esta mesma afirmação é verdadeira ou falsa, e se eles respondessem que é falsa, é evidente que dizem duas coisas diferentes."

Aqui ele coloca uma situação-limite. Se ele respondesse que o mesmo discurso não é ao mesmo tempo verdadeiro e falso, isso implicaria que verdadeiro é diferente do falso. Se respondesse que é verdadeiro e falso ao mesmo tempo, a consequência seria que isso é falso, porque se é verdadeiro, seria falso também. Então ser verdadeiro seria ser falso.

"E quando alguém diz ou testemunha coisas verdadeiras, então estas mesmas coisas também são falsas, e se conhece um homem veraz também conhece um homem mentiroso." Todos esses aspectos mostram que se deve assumir um discurso ou como verdadeiro ou como falso, porque assumir como verdadeiro e falso ao mesmo tempo.

Paradoxo do mentiroso: "eu minto sempre". Isso é verdadeiro ou falso? Como paradoxo evidentemente não tem resposta. :-)

Ou seja: os discursos não se diferenciam pelo nome, mas sim pela coisa.

Todos esses elementos mostram as variações e possibiidades argumentativas que permitem que se vá para um caminho ou para outro e que também se possa inverter esses caminhos o tempo todo. Por isso o texto foi atribuído a Protágoras, porque é construído na possibilidade de que toda coisa que se diga possa encontrar seu contrário, de forma muito semelhante a uma circunstância de um fato também atribuído a Protágoras, o de que se pode transformar um logos fraco (argumento ruim) em forte.

Do ponto de vista argumentativo isso é apresentado na perspectiva da luta do grandão com o baixinho. De fato, o grandão apanhou do baixinho. Como o baixinho se defende: porque ele é baixo, não tem condição de enfrentar alguém muito mais forte do que ele, então ele inverte o fato e constroi um argumento que justamente coloca essa reversão. Por outro lado, o forte também não bateria no baixinho, porque todos saberiam que ele é mais forte do que o outro e por isso seria acusado pelo fraco de que bateria nele. Mas o forte vai ter uma dificuldade maior em mostrar que ele apanhou do baixinho. Então serão escolhidas certas condições argumentativas para transformar algo desfavorável pelas circunstâncias em algo favorável.

Em várias ocasiões nos dissoi logoi, argumentos são apresentados e depois invertidos. O jogo com os argumentos é uma construção que possibilita, por prática, que um arsenal de argumentos permita, por exercício, modificar ora de um jeito, ora de outro, apresentando esses argumentos ora favoravelmente, ora desfavoravelmente a mim, conforme circunstâncias que Cole insiste serem um tipo de raciocínio de argumentação geral, que encontra em certas particularizações sua efetivação ou não.

Acerca da sabedoria e virtude, se são ensináveis: em Mênom, Platão apresenta pela primeira vez a questão da reminiscência, Mênom se pergunta algo que provavelmente era uma questão paradoxal do séc. V: a virtude é ensinável?

Se alguém admite que algo é ensinável, isso admite que não a conhece, porque só se ensina algo que não sabe para alguém que não sabe. Se alguém não sabe algo, como passará a saber? A questão se propõe no seguinte sentido: se eu não sei, qual é o critério para eu saber que passei a saber o que não sabia? Como não sabendo eu reconheço ou conheço o que não sei? Então se não sei o que é virtude, como posso saber que a obtive, ou o que ela é?

A grande questão é: como conhecer o que não se conhece? Porque justamente se não se conhece, não há condições de avaliar que se passou a conhecer o que não se conhecia. Essa questão atormenta Mênom.

Sócrates soluciona esse problema de forma curiosa: na verdade não se conhece o que não se conhecia, mas se lembra, e para se lembrar do que não conhece o que é necessária a alma. Há a tese da reminiscência porque a alma lembra e então, por isso, se pode relembrar.

Platão usa recursos míticos para explicar, por exemplo, a matemática. Como se conhece a matemática? Temos noções inatas, porque nunca se conhece a matemática empiricamente.

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Palavras-chave: filosofia, retórica

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maio 12, 2011

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Nada melhor do que ler Camões.

Deixo a glosa do poeta português maior e um vídeo da cantora portuguesa Ana Moura, "Canta Camões"...ah, tristeza lusitana profunda.

Lindíssima glosa platônica, só quem sente, sabe.

Evoé Camões!


Glosa a mote alheio

 

      "Vejo-a na alma pintada,

       Quando me pede o desejo

       O natural que não vejo."

 

Se só no ver puramente

Me transformei no que vi,

De vista tão excelente

Mal poderei ser ausente,

Enquanto o não for de mi.

Porque a alma namorada

A traz tão bem debuxada

E a memória tanto voa,

Que, se a não vejo em pessoa,

"Vejo-a na alma pintada."

 

O desejo, que se estende

Ao que menos se concede,

Sobre vós pede e pretende,

Como o doente que pede

O que mais se lhe defende.

Eu, que em ausência vos vejo,

Tenho piedade e pejo

De me ver tão pobre estar,

Que então não tenho que dar,

"Quando me pede o desejo."

 

Como àquele que cegou

É cousa vista e notória,

Que a Natureza ordenou

Que se lhe dobre em memória

O que em vista lhe faltou,

Assim a mim, que não rejo

Os olhos ao que desejo,

Na memória e na firmeza

Me concede a Natureza

"O natural que não vejo.


(Luís Vaz de Camões)




 

Palavras-chave: ana moura, fado, literatura portuguesa, luís vaz de camões, música portuguesa, platonismo

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E por falar em cantoras maravilhosas, não resisti, posto um vídeo de La Negra, Mercedes Sosa, eterna!


Para decidir si sigo poniendo
Esta sangre en tierra
Este corazon que bate su parche
Sol y tinieblas.

Para continuar caminando al sol
Por estos desiertos
Para recalcar que estoy vivo
En medio de tantos muertos;

Para decidir
Para continuar
Para recalcar y considerar
Solo me hace falta que estes aqui
Con tus ojos claros

Ay! fogata de amor y guia
Razon de vivir mi vida

Para aligerar este duro peso
De nuestros dias
Esta soledad que llevamos todos
Islas perdidas

Para descartar esta sensacion
De perderlo todo;
Para analizar por donde seguir
Y elegir el modo

Para aligerar
Para descartar
Para analizar y considerar
Solo me hace falta que estes aqui
Con tus ojos claros

Ay! fogata de amor y guia
Razon de vivir mi vida

Para combinar lo bello y la luz
Sin perder distancia
Para estar con vos sin perder el angel
De la nostalgia

Para descubrir que la vida va
Sin pedirnos nada
Y considerar que todo es hermoso
Y no cuesta nada,

Para combinar
Para estar con vos
Para descubrir y considerar,
Solo me hace falta que estes aqui
Con tus ojos claros.

Ay! fogata de amor y guia
Razon de vivir mi vida.

 

Palavras-chave: mercedes sosa, música latino-americana

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Sou apaixonada pela maravilhosa cantora cabo-verdiana, Cesária Évora. Foi das maiores descobertas musicais de minha vida, essa senhora também conhecida como a "diva dos pés descalços".

Suas canções têm uma melancolia, uma tristeza belíssima, assim como toda a beleza do cenário africano, de seu pequeno e lindo país e sua cidade Mindelo.

O vídeo que deixo, é da canção "Partida", com toda a dolência de uma das sensações mais tristes da vida, a partida, o adeus.

Partida

Nha cretcheu ja`m s`ta ta parti
 Oi partida sô bô podia separano
 Nha cretcheu lavantá pam bem braçob
 Lavantá pam bem beijob
 Pam cariciob esse bô face.
 
 Sel ta sirvi pa leval
 Ma l`ta sirvi pa transportal
 Caminho longe, separação
 Ê sofrimento d`nhamor pa bô
 Oi partida bô leval bô ta torná trazel.
 
 Oi madrugada imagem di nh`alma
 Ma nha cretcheu intrega`m sês lagrimas
 Pam ca sofrê nem tchorá
 Esse sofrimento ca ê sô pa mim
 Oi partida bô ê um dor profundo.
 Nha cretcheu ja`m s`ta ta parti
 Oi partida sô bô podia separano
 Nha cretcheu lavantá pam bem braçob
 Lavantá pam bem beijob
 Pam cariciob esse bô face.
 
 Sel ta sirvi pa leval
 Ma l`ta sirvi pa transportal
 Caminho longe, separação
 Ê sofrimento d`nhamor pa bô
 Oi partida bô leval bô ta torná trazel.
 
 Oi madrugada imagem di nh`alma
 Ma nha cretcheu intrega`m sês lagrimas
 Pam ca sofrê nem tchorá
 Esse sofrimento ca ê sô pa mim
 Oi partida bô ê um dor profundo.
 

Palavras-chave: cesária évora, música africana

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abril 30, 2011

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Vídeo do maior gênio do saxofone, eternamente, John Coltrane!

 

 

Palavras-chave: jazz, john coltrane, música norte americana, saxofonistas

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abril 27, 2011

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Vídeo do genial pianista de jazz francês, Michel Petrucciani.

Maravilhoso!

 


Palavras-chave: jazz, michel petrucciani, pianistas

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Sou suspeita para falar da obra deste gênio da música alemã, é das jóias mais incríveis da música, perfeito, esplêndido, inexplicável!

 

 

Palavras-chave: Jacky Terrasson, música alemã

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Dispensa comentários, simplesmente, Zoltán Kodály!

Palavras-chave: zoltán kodály

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Música perfeita, na voz da maravilhosa Nana Caymmi.


Nossa Canção


Olhe aqui, preste atenção
Essa é a nossa canção
Vou cantá-la seja aonde for
Para nunca esquecer
O nosso amor
Nosso amor!...

Veja bem, foi você
A razão e o porquê
De nascer esta canção assim
Pois você é o amor
Que existe em mim...

Você partiu e me deixou
Nunca mais você voltou
Prá me tirar da solidão
E até você voltar
Meu bem, eu vou cantar
Essa nossa canção...

Veja bem, foi você
A razão e o porquê
De nascer esta canção assim
Pois você é o amor
Que existe em mim...

Você partiu e me deixou
Nunca mais você voltou
Prá me tirar da solidão
E até você voltar
Meu bem, eu vou cantar
Essa nossa canção...

 

Palavras-chave: música popular brasileira, nana caymmi, nossa canção

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abril 02, 2011

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Deixo uma pequena parte do filme Sócrates de Roberto Rossellini (Itália 1971)

Sócrates discursa com seus interlocutores, através do método dialógico sobre a riqueza e o poder político.

Esse filme é maravilhoso.

 

Palavras-chave: cinema italiano, filosofia, rossellini, socrates

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março 31, 2011

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Sinceramente, não sei o quê é mais poderoso. Se a letra ou a música? Mas uma coisa eu posso afirmar e todos concordarão comigo, o conjunto faz desta música algo simplesmente estonteante.

Chico Buarque fala como ninguém de emoções e sentimentos que quando ouvimos pensamos : "Poxa vida, esse cara também sentiu isso e é isso que eu sinto e nunca consegui dizer" .

 É sublime.

Deixo um vídeo incrível de 1974, de Chico com a saudosa musa da Bossa Nova, Nara Leão e o grupo MPB4.

Sem Fantasia

Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer

Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perde-te em meus braços
Pelo amor de Deus

Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu

Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer

De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus.

 

http://www.youtube.com/watch?v=1Ra9-9rotqk

Palavras-chave: chico buarque, mpb4, música popular brasileira, nara leão, sem fantasia

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março 29, 2011

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Postado por سميرة

"Não existiria som
Se não houvesse o silêncio
Não haveria luz
Se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim,
Dia e noite, não e sim...

Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer,
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente eu te falo com paixão...

Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz.
Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som,
Tem certas coisas que eu não sei dizer...

A vida é mesmo assim,
Dia e noite, não e sim...

Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz,
Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som,
Tem certas coisas que eu não sei dizer...

 

Palavras-chave: certas coisas, lenine, música popular brasileira, zelia duncan

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Oh meu amor, no mar de saudades que vivo qualquer gota de ausência me faz afogar...o fogo que me faz arder, diante de tua presença, é a mesma que me ilumina.

Na vida de toda a gente há braçados floridos dessas tolices sem importância. Só a raros eleitos é dado o milagroso dom de um grande amor. Eu teria muita pena que o destino não me trouxesse esse grande amor que foi o meu grande sonho pela vida fora. Devo agradecer ao destino o favor de ter ouvido a minha voz. Pôr finalmente, no meu caminho, a linda alma nova, ardente e carinhosa que é todo o meu ampa­ro, toda a minha riqueza, toda a minha felicidade neste mundo. A morte pode vir quando quiser: trago as mãos cheias de rosas e o coração em festa: posso partir contente. 


Por tudo, eu te amo...


Aspiração

Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.

É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.

Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...

Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!

(Antero de Quental)

Palavras-chave: antero de quental, poesia portuguesa, soneto

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março 28, 2011

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O Habitante de Pasárgada – instantâneo do Cinema Novo, sob as lentes de Joaquim Pedro - apresenta um Manuel Bandeira (1886-1968) solitário, de hábitos frugais, soprando a boca do fogão para fazer seu café, de pijama, escrevendo em sua máquina; compra jornais e leite nas redondezas, caminha pela Avenida Rio Branco e recita seus próprios versos.

Adoro este vídeo, pois nele podemos ver e ouvir Manuel! Poetas da grandeza de Manuel faz com que tenhamos a sensação de terem sido pessoas diferentes de nós e no vídeo quando observamos o poeta em seus hábitos cotidianos, tão simples, sua voz a recitar seus versos, é realmente lindo.

A simplicidade da vida diária de Manuel é tocante, os momentos de inspiração poética, o ambiente em que viveu solitário, admiravelmente retratados sob a adireção de Joaquim Pedro de Andrade, Fernando Sabino e David Neves.



Palavras-chave: literatura brasileira, manuel bandeira, o habitante de pasárgada, poesia brasileira

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Augusto Frederico Schmidt sempre foi um poeta sem medo de ser ele mesmo, com coragem e máxima desenvoltura.

Desde seu primeiro livro “O Canto do Brasileiro” de 1928, verificamos um poeta extremamente lírico e que não teme por isso, jamais tentando se justificar diante das críticas, assim como nunca tentou disfarçar seu lirismo mudando sua poesia, atenuando-a, disfarçando-a sob o rótulo de “moderno”.

Schmidt nunca foi um “criador de palavras”, ou a utilização de termos específicos, para assim estar de acordo a uma pretensa estética modernista, do original, popular, incomum.

Suas imagens são de tempos imemoriais vindos desde os primeiros poetas: a noite, o universo, o firmamento e seus astros, a criação; e os temas se é que assim podemos nomeá-los são os mais antigos: a solidão, a morte, o amor, assim como a  efemeridade do homem, um dos temas mais antigos vindo desde as épocas clássicas da Grécia na figura de poetas elegíacos como Mimnermo e Simônides.

O poeta se abandona diante da sua poesia, sem preocupações com modas literárias, mas não um abandono ingênuo, muito pelo contrário extremamente consciente, como por exemplo, a de inteligência matemática de Paul Valéry, de quem Schmidt é intenso admirador.

Como um poeta moderno, ousa o retorno de temas antigos ou já muito explorados, tentando assim rivalizar com os antecessores, porém, através de uma linguagem moderna desprovida de solenidade.

Schmidt surgiu poeticamente durante o auge da revolução modernista, por fins da década de 20, desprezando os cacoetes de linguagem, expressões coloquiais, modismos e o pitoresco dos poetas pau-brasil, preferiu a variedade e a séria simplicidade, contendo pouco dos costumes brasileiros, da vida cotidiana.

Sua poesia é universal e permanente, em um período de modernismo exacerbado de futuro o poeta parece “desambientado” em uma época de poesia metafísica ou social, parece inatual num tempo de exasperadas preocupações ideológicas, Schmidt nos leva ao passado, as lembranças, memórias, saudades, paraísos perdidos. Extremamente subjetiva, introspectiva, psicológica; e também com um forte caráter musical, hipnótica, de reminiscências do inconsciente que sobem à flor da consciência.

Outra grande característica é a repetição de verso e vocábulo, obtendo um resultado encantatório de um ritual, os poemas têm um tom de cantilena, de melopéia, de litania hebraica, de monodia oriental.

Schmidt fez vários versos em homenagem a Portugal, dessa forma podemos ver como o poeta não seguia a lusofobia dos modernistas de 22.

Temos também a imagem do amor como algo eterno, as antíteses e contradições (paradoxos), a evocação de Deus e características básicas do Barroco em pleno modernismo.

 

Deixo abaixo, um soneto do grande mestre.

 

Soneto

 

Escravo em Babilônia espero a morte.

Não me importam os céus tristes e escuros

Nem claridades, nem azuis felizes,

Se espero a morte, escravo em Babilônia.

 

Escravo em Babilônia, não me importam

Cantos, que de Sião os ventos trazem

Com as inaudíveis vozes da lembrança,

Se espero a morte, em Babilônia, escravo.

 

Não me importam amores e esperanças

Se escravo sou e a morte aspiro

Em Babilônia, onde me esqueço.

 

Do que fui, das auroras e dos sonhos

E da enganosa e pérfida doçura

Que neste exílio me precipitou.

 

 (Augusto Frederico Schmidt)

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março 27, 2011

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João Cabral de Melo Neto, mestre da literatura brasileira.

Deixo abaixo um dos trechos mais poéticos e lindos de sua incrível obra, Morte e Vida Severina, assim como um trecho emocionante do especial televisivo Morte e Vida Severina de 1981. "É a parte que te cabe neste latifúndio..."


—— De sua formosura 
já venho dizer: 
é um menino magro, 
de muito peso não é, 
mas tem o peso de homem, 
de obra de ventre de mulher.

—— De sua formosura 
deixai-me que diga: 
é uma criança pálida, 
é uma criança franzina, 
mas tem a marca de homem, 
marca de humana oficina.

—— Sua formosura 
deixai-me que cante: 
é um menino guenzo 
como todos os desses mangues, 
mas a máquina de homem 
já bate nele, incessante.

—— Sua formosura 
eis aqui descrita: 
é uma criança pequena, 
enclenque e setemesinha, 
mas as mãos que criam coisas 
nas suas já se adivinha. 


—— De sua formosura 
deixai-me que diga: 
é belo como o coqueiro 
que vence a areia marinha.

—— De sua formosura 
deixai-me que diga: 
belo como o avelós 
contra o Agreste de cinza.

—— De sua formosura 
deixai-me que diga: 
belo como a palmatória 
na caatinga sem saliva.

—— De sua formosura 
deixai-me que diga: 
é tão belo como um sim 
numa sala negativa. 


—— é tão belo como a soca 
que o canavial multiplica.

—— Belo porque é uma porta 
abrindo-se em mais saídas.

—— Belo como a última onda 
que o fim do mar sempre adia.

—— é tão belo como as ondas 
em sua adição infinita. 


—— Belo porque tem do novo 
a surpresa e a alegria.

—— Belo como a coisa nova 
na prateleira até então vazia.

—— Como qualquer coisa nova 
inaugurando o seu dia.

—— Ou como o caderno novo 
quando a gente o principia. 


—— E belo porque o novo 
todo o velho contagia.

—— Belo porque corrompe 
com sangue novo a anemia.

—— Infecciona a miséria 
com vida nova e sadia.

—— Com oásis, o deserto, 
com ventos, a calmaria.

Palavras-chave: joão cabral de melo neto, morte e vida severina, poesia brasileira

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