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Junho 2008

Junho 03, 2008

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http://hay-tomates.blogspot.com/2008/06/renan-nuernberger.html

* Foto: Fernanda Serra Azul.
Poeta e estudante de Letras na USP (português/alemão). Recebeu o primeiro lugar, na categoria romance, do Prêmio Juvenil Ferreira de Castro (Portugal, 2005), pelo livro Adeus, Pasárgada e organiza sua primeira coletânea de poemas. Escreve no Esboço de Arte Poética (http://esbocodearte.blogspot.com) e coordena o blog O Casulo (http://o-casulo.blogspot.com).

Diamantes cravejados na garganta
Pigarra e cospe
(a voz) melodias
reluzentes.
O senhor engravatado e
a mulata faceira
tão brasil, bandeira,
assistem convictos
que é preciso
machucar-se (o artista).
Em pé (a cantora)
expõe orgulho
na garganta ferida
pelo público vale
tudo, esgaçar-se
inclusive.
Encerrada a audição
vão-se embora (todos)
sem remorso, sem
nenhum sentimento
expresso no palco:
fim do ato, aplausos.
*************************************************************************************

E não o contrário

mordiscadas entre dedos:
o risco de enganar-se
primeiro pelas unhas
(mastigar)
seguindo
ossos, sangue, órgãos
engolir-se por inteiro
esquecendo displicente
dos respingos nesta
página: morrer se
...........eternizar

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Junho 05, 2008

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http://hay-tomates.blogspot.com/2008/06/andra-catrpa.html


Andréa Catrópa nasceu em São Paulo, em 1974. É mestre em Teoria Literária, co-editora do jornal de literatura O Casulo (http://o-casulo.blogspot.com/) e atualmente coordena a série de programas de rádio sobre poesia contemporânea Ondas Literárias (http://ondasliterarias.blogspot.com/).
Legítima defesa

o que eu quero é incomodar. dependendo do ponto-de-vista, há criaturas que só vivem para isso: a ferroada, o desconforto, o mal estar. entenda minha intenção. este é só um carinho diferente, talvez inverso. não sou tímido o bastante para me calar. as palavras rumam para a boca como um exército de formigas. furiosas. espalham-se, deleite precoce. e o arrependimento é igualmente curto para que eu me esqueça e repita tudo como da primeira vez. como se os deuses tivessem ressuscitado para me dar uma punição exemplar. as formigas. se não as liberto, é contra mim que se voltam.
*************************************************************************************
Fosso

desgosto de tudo
não sei se doença
a aura inversa das coisas
ilumina-se
em saturno
sonhos de chumbo
são mote e blecaute
fantasmas de fumo
abrem o cadeado da pele
penetram pelos poros
pulmões são cinza massa
encefálica medula óssea
e há sempre um lugar mais fundo
onde cavar

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Junho 10, 2008

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http://hay-tomates.blogspot.com/2008/06/maiara-gouveia.html

Maiara Gouveia nasceu em 1983, em São Paulo. Seus poemas e artigos sobre cinema e literatura estão espalhados em sites da internet, revistas e jornais. Em 2006, foi finalista do Prêmio Nascente, com o livro de poemas O Silêncio Encantado. A obra inaugural sofreu alterações e hoje se chama Pleno Deserto.
Mantém o blog A Certeza de Fazer o Mal (http://maiaragouveia.blogspot.com) e espera, ansiosamente, a publicação de seu primeiro livro: virá em breve.
No Sumidouro
Ao redor do quarto
migra um cortejo de aves. Não vemos
pois estamos fechados.
Ao redor do quarto
um barco repousa em um mar sem ondas. Não vemos
pois estamos partindo.
Ao redor do quarto
baleias abertas e peixes mortos cobrem a angra. Não vemos
pois estamos sangrando.
Porque estamos sozinhos não vemos
suicidas engolfados nas brânquias tóxicas
dos cardumes. Não vemos
a morte solitária dos corais. Não vemos
a embarcação vazia permanecer
no silêncio das águas. Não vemos:
pois estamos no escuro.
*************************************************************************************
Outra Vez o Corpo
O fruto da bondade
não explodiu nesse solo rude.
Somos o Corpo e outra vez o corpo.
Animal divino que saqueia e fere,
cobre de lírios esse ventre estrangulado.
*************************************************************************************
Migrar
Matrimônio de vogais: agora nada.
Fica a distância entre o corpo e a palavra.
Sequer a marca do sol ou da sarça.
Faróis azuis na memória, e mais nada.
Além do mar, o tempo não traga.
Gaivotas mergulham sem regressar ao quadro.
Nenhum nome persiste além do enigma: migrar sempre.
E esta noite é tudo o que temos.
Toda palavra é precária: flor, pauta de aves, rosa clara.
Nada persiste além da chaga.
Seus instantes de amor, suor e toque, a enseada.
A solidão não une. Tudo nos separa.
Além do mar.
Negro, meu espírito recorda exílio prolongado.
O golpe solar não muda esta noite, minha pele.
Todo nome é grave e transfigura.
Só posso oferecer esta noite, e mais nada.
A morte eclode em cada verso. Nudez necessária.
E só posso oferecer isto: o sonho primitivo
dos corpos sem busca. A mágoa.
Renuncio ao amor, pois sou precária.
Outros amantes espalham gemidos pela casa.
São todos comuns em seus homicídios e meias-verdades.
Uma vez foi dito: é para sempre. Ao meio-dia, uma vez e basta.
O espelho sempre nos mostra o que nos falta.
Mesmo esta paisagem sucumbe em seus vocábulos.
É belo naufragar entre os meus lábios.
Renuncio a ti, amor, pois sou precária.
Além do mar, um país sem nome me aguarda.

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Junho 13, 2008

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http://hay-tomates.blogspot.com/2008/06/rafael-daud.html


Rafael Rocha Daud nasceu em São Paulo. Bacharel em Direito por acidente, ex-burocrata e atual psicanalista. O mais importante sobre ele: sempre teimando em fazer literatura. Atende no http://homelupus.weblog.com.pt/.

Stardust

Embora escorra pó brilhante das galáxias
pelos meus cabelos
Embora os bárbaros guerreiros invejem
minha roupagem vagabunda
E ainda que a chuva alague o país
Serei o manco, o manco
E às vezes também o gago

Espera

Telefono para meu amante; ele não está
Ou não quer me atender.
Sei que ele se culpa por me
deixar na mão
ou por demonstrar um desprezo que
não sente.
Planeja transfigurar sua falta
tratando-me com decoro;
Promete, sem que eu o saiba,
compensar-me, cumular-me
com bens que julga possuir
(é mesmo uma prova de que os possua).

Devo, no entanto, ficar atenta,
presa a qualquer sinal
que indique o momento preciso de seu arrependimento.
Poderei então, calmamente, transmitir-lhe o inofensivo da situação
e prometer-lhe, mentindo, que tudo permanece como antes.

Due scene

I

Teu cabelo dourado
me assombra; fosse antes vermelho,
de um vermelho impossível nesta noite fria,
que nos chama ao calor do pub fechado

onde espero, após a longa e tediosa promessa,
ouvindo bandas tocadas em timbre agudo, original,
feita ainda com o vento sibilante em nossos ouvidos,
quando à porta fechada nosso desejo tinha pressa;

agora sei que o acaso não nos favorece,
pois trabalha firme por encontros casuais
e o nosso não teria sido um encontro casual.
Não posso chamá-la, Níobe, e o nosso amor arrefece.

II

Adoraria ter um filho
Amanhã temos que acordar cedo
Hoje escolhi um bom lugar pra sentar, ao seu lado
Você fica tão bonita quando fala

O inconsciente não pode ser determinado
A segurança não é uma preocupação
Pelo menos vocês conseguem fazer alguma coisa com isso
A Virgem costurando sapatinhos de lã para o menino Jesus

Estive em Nova York e não ouvi nada parecido
Eu não estou dizendo que deva ser assim
Ele vive me perguntando o que fiz com ele
mas quem não consegue mais dormir sozinha sou eu

A dança exige dedicação constante
Viemos só nós hoje
A cerveja não está gelada
A noção de causa não está resolvida na filosofia

je crains qu'il soit trop tard para voltarmos
Duas vezes na semana é demais
Uma superfície límpida, clara
Você não disse que gostava?

Posso emprestar-lhe o carro, se você precisar
Penso que hoje é segunda-feira, não é mesmo?
Ele vive me perguntando o que fiz com ele
mas quem não consegue mais dormir sozinha sou eu

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http://stoa.usp.br/rafaelprince/weblog/25099.html

Deixa-me eu apresentar

sou da terra da neblina

das montanhas lá de Minas

não conheço o verde mar

nem as dunas do Ceará

mas conheço uma menina

das longes praias marinas

Peço a ela emprestado

o sotaque e o bom gingado

da toada nordestina

 

Vou cantar suas proezas:

a pequena tão valente

’studiosa e inteligente

não quis nada cu’a moleza

despediu de Fortaleza

no seu Ceará natal

se embrenhou pra Capital

de São Paulo cá no sul

Deixou de chupar caju

pra mode vir estudar

 

Grã-cidade esquisita

onde a noite é tão vermeia

onde a gente se aperreia

cu’a zoada da avenida

Mas aqui se faz a vida

pra tentar a sorte e a arte

vem gente de toda parte

vem padre, vem puta e punk

africano e até ianque

- diz que vem gente de Marte!

 

É a Meca dos migrantes

é Babel de mil falares

diferentes, familiares

Foi aqui é que estudantes

de Estados tão distantes

por acaso do Destino

ou desígnio divino

fizemo-nos conhecer

tu e eu, eu e você

paulistanos paulatinos

 

Nos descobrimos simpáticos:

nossa mesma fé católica

- tão barroca e filosófica –

um saber enciclopédico

de qualquer cultura inútil

o bom gosto para a música

certa falta de modéstia

a paixão pelo Getúlio

e até mesmo um gosto lúdico

pelas questões da gramática

 

Em plena segunda-feira

no correr do dia-a-dia

não perdes a fantasia

de ser uma exímia arqueira

lutar esgrima e capoeira

valsar na corte d’el rey

aventuras de roleplay

na torre do necromante

esperando o prince charmant

que vem em teu resgate, iei!

 

A completa harmonia

é haver tanto em comum

que os dois querem ser só um

- grandessíssima magia.

És perfeita companhia

pra fazer nome-do-Pai

ou falar de samurais

junto a ti, fico à vontade

quando longe, é só saudade

por isso que eu te gosto, uai!

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Junho 15, 2008

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http://gutoeguto.blogspot.com/2008/06/esta-uma-experincia-de-comparao

esta é uma experiência de comparação entre versos crus e versos trabalhados. Escolham vcs o que eu devo manter no blog.



Em um dia de sol como hoje
os teus olhos eu reconheci.
E fiz de ti a minha eleita,
companheira de rumos incertos,
derradeira mulher e amante.

Deste corpo escaldado dei-te a sombra,
fiz-me quente manta e dedicado colchão...
Com esta boca seca matei tua sede.

Quis, com meus pés chamuscados em areia
nossa história escrever nesta terra.
Com estas mãos, que acariciaram teu ventre,
quis levantar nossa cidade.

Você não.

Em um dia de sol como hoje,
beijei tuas mãos e parti.

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Junho 16, 2008

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Junho 17, 2008

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http://latrinadasletras.blogspot.com/2008/06/foro-central.html



No rumo da asfixia berrante dos automóveis,
Desembarco bem perto do ponto marcado.
Soam os sinos da catedral;
É hora de apertar o passo.

A elegante coleira de nó duplo
Pende do pescoço
Como a língua de um animal exausto.
A falta de oxigênio no peito e no cérebro
Me bota curvo; caminho cego.
Não quero e não posso olhar ao redor.

Por todo o caminho, loucos praguejando alguma coisa;
Profetas mijados, babando o futuro entre parcos e porcos dentes.
Por todo o caminho, corpos tombados
Pela fome ou pelo porre que tenta matar a fome.
Eu não os veria se não tivesse que desviar:
Evito o tropeço num velho dormindo aqui,
Salto por sobre uma criança caída ali,
Me esquivo do migrante vagando acolá.

Carrego volumes e mais volumes de processos.
Eu lhes estenderia a mão,
Mas elas estão muito ocupadas com a Justiça.
A correria, os despachos, os protocolos...
Os prazos a cumprir...
Primeiro as obrigações;
Filantropia, só depois do jantar!

No rumo dos berros asfixiados dos automóveis,
Embarco para longe do ponto de impacto.
Soam os sinos da catedral;
É hora de lavar as mãos.

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Junho 18, 2008

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http://hay-tomates.blogspot.com/2008/06/paulo-moura.html


É advogado e mestre em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da Universidade de São Paulo. Tem poemas publicados pela revista FNX da Academia de Letras da referida faculdade. É co-fundador do coletivo Vacamarela, entidade que edita o jornal de literatura contemporânea O Casulo e organiza a FLAP!.
Paulo é um precursor da poesia alheia [veja o manifesto completo aqui].
Querida

você tem razão,
isso aqui acaba sendo
um exercício escolástico,

às vezes a gente até sabe
que está errado,

mas ainda assim
vamos discutindo
pelo gosto

de discutir.
*************************************************************************************
De Paris
se ainda houver alguém,
essa mensagem é só para dizer
que este é meu último dia
de paris - espero que o último
com esse maldito teclado.
balanço? não, daqui não
sairá um romance nem
um poeminha sequer.
baudelairianamente falando,
andei por toda paris.
cruzei-a de ponta à ponta:
todos os meios de transportes
(quer dizer, menos barco).
talvez essa seja minha maior impressão,
que mais que lidar com paris,
tive que lidar comigo mesmo.
quando a boca cala,
sobra mais tempo
para mente inventar coisas.
gostei da bagunça em meio a toda
ordem meio clássica, a toda a "razão".
paris muda, disse baudelaire
-errou. paris quase não muda.
o que muda é a sua periferia.
muito rica, com todas as
contribuições possíveis,
na paris que todos conhecemos
ouve-se um pouco de tudo.
menos francês...
(ainda há algumas horas para flanar).
*************************************************************************************
Mágoas

se foi-se é foice,
então, cálice,
digo, calo-me
e digo
que é criativo
mas não inovador.
*************************************************************************************
O que é sentido?

o que é sentido?
juro que jamais
entendi essa crítica.
como disse o octávio paz,
as imagens
não nos levam a outra coisa
como acontece com a prosa,
mas nos colocam diante
de uma realidade
concreta...
orações e frases são meios.
a imagem não é meio;
sustentada em si mesma,
ela é seu sentido.
o poema não explica
nem representa:
apresenta...
a imagem não explica:
convida-nos a recriá-la
e, literalmente,
a revivê-la.
era só isso.

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Junho 20, 2008

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http://latrinadasletras.blogspot.com/2008/06/mente-pequena-do-homem-mdio-um-


A mente pequena
Do homem-médio
É um grande problema...

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Junho 21, 2008

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http://medianeiro.blogspot.com/2008/06/gerao-vacamarela.html



Acaba de sair o número 38 da Revista sèrieAlfa, editada pelo amigo Joan Navarro. Esta edição traz um dossiê com os poetas do Coletivo Vacamarela, em versão trilíngüe português-catalão-espanhol:


sèrieAlfa
núm. 38
estiu de 2008


Geração Vacamarela

[17 poetes brasilers del segle XXI]



Elisa Andrade Buzzo

Ivan Antunes



Lilian Aquino

Fábio Aristimunho

Gustavo Assano



Vinicius Baião

Andrea Catrópa

Donny Correia



Ana Paula Ferraz

Victor Del Franco

Eduardo Lacerda



Julia Lima

Carol Marossi

Paulo Moura



Renan Nuernberg

Thiago Ponce de Moraes

Ana Rüsche





[Traducció:]

Fábio Aristimunho Vargas

Alfredo Fressia

Joan Navarro

[Vinyeta de la portada:]

Carmen Martínez Albors

[Fotografies interior:]

Joan Navarro

[Agraïments:]

Carles Belda

Fábio Aristimunho Vargas



http://perso.wanadoo.es/joan-navarro/home.htm

http://www.sapiens.ya.com/joan-navarro/alfa/indexalf.htm


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Junho 22, 2008

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http://latrinadasletras.blogspot.com/2008/06/conto-rural.html


Sentiu-se santo enquanto algo salgado, mas viscoso demais para ser suor, lhe corria da fronte. Agraciado, ainda olhou o céu; o rosto salpicado do próprio sangue, espargido por aquele estranho sacerdote bruto de mãos calejadas a bradir austero a marreta, tal qual os imponentes juízes da capital, a martelar a justiça.

Era um homem bom. Sabia que a piedade do Divino lhe guardava o repouso eterno, narrado nas histórias do vigário. Já se sentia cego ao ver a luz do paraíso que lhe esperava com muita carne, cerveja e anjas de ancas carnudas para apertar; êta divina providência arretada! Já ouvia o céu chamando seu nome quando o chumbo enfim rachou-lhe o crânio uma última vez.

Brito. Era como sempre foi chamado, e foi assim que assinou, em letras tortas, a papelada que lhe apresentaram ao chegar naquelas lavouras maiores que o sertão inteiro. Era um homem simples. Jamais soube, por exemplo, que diabos era o tal “patronímico” que lhe pediram naquele momento. E se não soube, não era devido apenas à complexidade do termo, mas também porque pai nunca teve, nem alguém que lhe ensinasse aquela língua estranha de doutor.

Da sua terra, não trazia mais que uma trouxa de roupa encardida pra vestir e um nome pra ser chamado. Sobrenome não tinha; seu nome vinha sempre seguido de alguma ordem. “Brito, trabalha direito!”, “Brito, pára de enrolar!”, “Brito, infeliz, corta cana que nem homem!”.

Engraçada a nossa mente na hora da morte... Não pensou em tudo que o levara até ali, naquele circo de horror. Não lembrou das reivindicações por melhores condições; não lembrou da união dos lavradores, da greve no campo, nem de como, por fim, afrontaram o patrão. Deste, a única lembrança que tinha era a de seus sonhos febris, nos quais aquele homem corpulento aparecia a cavalo, pisoteando tudo e todos, chamando-o numa amabilidade falsa, com sua voz de trovão: “Vem cá, Brito... Vem cá, Brito! Vem ser imolado...”. Não pensou em nada relacionado às movimentações e tensões que o levaram àquele massacre na plantação, extasiado pelo cheiro de pólvora e açúcar queimado.

Sua última visão é a marreta que vem beijar-lhe a testa, como os lábios da mãe que coloca o filho para dormir. Um baque. O tombo. Algo já lhe empapa a vista. Vem o segundo golpe. Não sente mais medo o homem caído. Não sente nada. Aquela cortina vermelha, o algoz a pregar sua cabeça chata no chão, como um prego, tudo lhe faz lembrar apenas o Barba, com aquela velha bandeira rubra em frangalhos, que ele dizia ter ganhado de presente de “um cabra que veio de longe”. No pano escarlate, se cruzavam uma foice e um martelo mui amarelados, mas que só de olhar se via que já haviam sido brancos como o cerne da mandioca recém-arrancada da terra. O pobre homem guardava aquilo como um talismã, vai entender... Deve estar até agora abraçado àquele trapo.

A loucura cessa. Não há mais gritos na plantação. Os trabalhadores estão mais unidos do que nunca, empilhados e cimentados pelo próprio sangue. Dezenas de tijolos moldados num só bloco, soldados.

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http://latrinadasletras.blogspot.com/2008/06/curta-metragem.html

Baixei o filminho da minha vida na internet
Pra não ter que ver só uma vez,
Na hora da minha morte.

Tédio.
Sua história diante dos seus olhos,
Como um pastelão dos anos 30:
Sem nexo. Sem cor. Ação!

"Seria melhor ter ido ver o Pelé..."

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Junho 23, 2008

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Junho 24, 2008

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http://hay-tomates.blogspot.com/2008/06/uma-vaca-cosmopolita.html

* Os poetas Giancarlo Huapaya e Rodrigo Flores (segundo plano), durante o festival Tordesilhas.

Primeiro o polissexualzinho Giancarlo Huapaya Cárdenas - Gianca - publicou o trabalho do Coletivo Vacamarela na Lapsus, collage editorial peruana. Link aqui.

* Os poetas/tradutores Fábio Aristimunho Vargas e Joan Navarro.

Agora foi a vez do queridíssimo Joan Navarro publicar alguns poemas dos membros do Coletivo Vacamarela na sua prestigiada Séria Alfa (link aqui). Neste número 38, a revista eletrônica editada pelo poeta e professor de filosofia valenciano trouxe alguns poemas das vaquinhas, bem como suas respectivas versões em espanhol e catalão.

A vaca começa a sair do brejo e ganhar o mundo! Muuuuu!

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Junho 28, 2008

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http://latrinadasletras.blogspot.com/2008/06/quimera.html


Sou lagarto vagaroso
Largado à espera do sol
Desde a primeira hora do dia,
Pra ferver no seu fogo
Meu sangue gélido de réptil.

Sou salamandra
Que chispa nas chamas,
Te chamando pra inflamar comigo;
Crepitando, queimando um por um
Tantos retratos monocromáticos de casais cinzentos.
Nossa história tem todas as cores muito vivas!
Ardentes.
___
Sou camaleão.
Minha pele se perde na tua pele;
Dois tons, duas matizes
Fazendo uma só pintura.
A cor da noite vem vindo
Engolir tudo.
Acorda! a noite vai indo
E deixou nossos corpos inertes pra trás.

Sou presa fácil.
Nem te vejo quando vem
E me puxa de volta.
Me devora num só bote,
Me envolvendo nos encantos
Da cama, leoa!

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http://latrinadasletras.blogspot.com/2008/06/heresias.html


O pecado santifica.
O fruto proibido alimenta com as delícias
Que um Deus egoísta guardou só para si.
A vista escurecendo mergulha o cego
Num batismal banho de luz.
Os corpos exaustos desfalecem
Ainda cheios cheios de vida.
É a morte às avessas;
O milagre da ressurreição!

O suor, como água benta,
Esparge minha carne herege
E rega as sementes do mal
Plantadas bem fundo no coração.
A alma brota em flor de espinhos
Que me rasgam a pele da nuca
Num arrepio risonho.

O calor do purgatório aquece
Como a lareira na nossa ceia
De vinho tinto e rosas vermelhas.
Os braços abertos em cruz
Ensaiam um abraço divino.
Um amor entre o céu e o inferno
Que casará anjos e demônios
Por muito mais que dois mil anos.

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Junho 30, 2008

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http://medianeiro.blogspot.com/2008/06/cacto-no-blog-do-noblat.html

O Blog do Noblat publicou ontem, 29/6, meu poema "O cacto".

Para ver clique aqui.


Gostei da surpresa. Obrigado ao Noblat!

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