(esqueceu?)

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maio 15, 2012

Alive

Chagall

Olhos de neblina
Crianças desenham
cartografias de gelo
Linhas brutais, vazias
Sob as costelas,
um certo músculo degela
- de-va-gar -
gota a gota,
sinfonia silenciosa.
Sob árvores de pedra
felicidade domingueira.
Deus descansa,
não os patos
dançando sobre o lago
- indiferença
Adiante, a solidão repousa,
posição de Lótus.
Talvez seja verão no Tibete agora
Do seu sorriso, porém,
desabrocham primaveras.


maio 14, 2012

2010!


We shall find peace. We shall hear angels, we shall see the sky sparkling with diamonds.
Chekhov.

Happy 2010, everyone!

*** "Alive and kicking", Simple Minds.


The Balkans still

Latinska Cuprija, Sarajevo, BiH.

Bolje spavaj
Ne smej se kad zavolis sto nisi znala da ces zavoleti
glavu svoju obujmi rukama obema
taj obruc od tuci ko ce moci da slomi.
É melhor que durma
Não ria quando algo o agradar, algo que não sabia previamente que iria agradá-lo
cobre a cabeça com as duas mãos
e diz quem irá romper esse escudo de gelo.
Duchán Mátitch, poeta Sérvio.
*** "The legends of lifecountry: Serbia & Bosnia and Herzegovina", Mostar Sevdah Reunion & Ljiljana Buttler.


Once in a while

Well, I'm back. However, not for too long: time keeps slipping away and there are lots of important things to do rather than write stupid things on a stupid blog.
I just wanted to show you one poem. I think it's an amazing one, especially because it was written by somebody that is not a so called "poet". And somebody wrote it on a summer Sunday, somewhere in this world, after very interesting talks, walks, laughs, etc.
Anyway, it could have looked like an ordinary thing if it had happened under plain conditions, but it was one of these days in a person's life that happens only once in a while in a lifetime.
Nevermind, then. Here it is:
Count it as dead.
Count it all as dead, consider it lost
Accept that it's gone.
That you don't have it.
That you never did.

And then, for a moment, it may be yours.
T.M.F.
*** "An ocean apart", Julie Delpy.


maio 13, 2012

Amores Arqueológicos


Revirando papéis velhos, encontro o recado bobo que você deixou anos atrás, meio por brincadeira, meio por agrado espontâneo; delicado e sem muito sentido ou propósito, qual cafuné repentino revolvendo os cabelos.

Como numa casa assombrada, sua caligrafia ganha vida; em cada letra, cada curva, cada traço mais forte, as palavras perdem o sentido que lhes atribui o código da linguagem gráfica, para se tornarem registros fósseis gravados na pedra. A sua mão segurando a caneta se materializa bailando ante aos meus olhos incrédulos, que quase não se lembravam mais do seu jeito único de imprimir o verbo no papel. E da mão que se move germina o braço nu, e do braço o ombro, e sucessivamente cada parte do seu corpo esguio; partes que se agrupam como sílabas, numa totalidade harmoniosa que se move dançante, descrevendo os volteios da caneta fotografados na palavra escrita.

E como quem toma um fantasma para valsar, percorro com as pontas dos meus dedos os pequenos borrões deixados pelas pontas dos seus dedos. Chego próximo à folha rabiscada. A alucinação de papel exala o vapor que se confunde entre o aroma de papéis guardados e o pouco que resta do seu perfume, aprisionado na superfície pautada. É o seu cheiro, ou o cheiro da lembrança do seu cheiro. É a ponta do nariz que percorre com esmero cada pico ou vale da topografia de sua escrita, pele se fundindo ao papel. A tinta se mistura ao ectoplasma de tempos mortos. Perpetuam-se os espíritos dançantes, gravados no rastro de pegadas entre linhas de caderno.

Num último capricho, tomo a caneta na mão, respondo o recado e o guardo para sempre, por enquanto. Já não sei se troco as flores de um jazigo lacrado há séculos ou se tomo meu lugar na sepultura. Que minhas palavras se unam às suas, esquecidas, virando pedra ou pó, como os amantes petrificados de Pompéia.


Sentinela

Eu que me gabava
de ter olhos atrás da nuca
e os punhos sempre cerrados
me pego indefeso, aos tropeços,
só sabendo olhar pra trás;
incapaz de abrir as mãos
e lançar a vista
nas linhas de qualquer destino.

Outrora tão alerta,
estranho-me, entranho-me
no pavor dos que nunca dormem.


 


E agora, José?

O povo
sumiu

 


102

acabei de assistir algo que me tirou do sério.
ao final do vídeo, uma voz em off pergunta:

você disse?
eu te amo.
eu não quero mais viver sem você.
você mudou a minha vida.
você disse?
faça um plano, estabeleça um objetivo, trabalhe para alcançá-lo.
mas, de vez em quando, olhe em volta, absorva.
porque é isso. tudo pode acabar amanhã.

eu não me relembro o suficiente da fragilidade da vida, e que a gente pode acabar sem nunca ter dito coisas importantes.

mas, da minha parte, eu disse, e as conseqüências não importam aqui.

e você, disse?


101

Love Conquers All


frase muito bonita e tudo, mas é mentira. Amor assim é coisa de novela da globo, de filme de Hollywood (e Bollywood também, ainda que daquele jeito estranho, cheio de dancinhas), de seriados novaiorquinos sobre 6 amigos que, no final, encontram suas respectivas almas gêmeas, de músicas românticas cantadas pelo Wando e livros da Jane Austen...


amor de verdade é algo totalmente diferente do que todos os meios de arte e mídia imprimem na nossa cabeça desde que nascemos. Exemplo prático: o casal da famosa foto do Doisneau, tirada em frente a prefeitura de Paris, é um ícone do Amor. Namorados se presenteiam com quadros dessa imagem, apaixonados usam como plano de fundo de seus computadores, mulheres românticas tentam imitar a pose (ainda que seja no Viaduto do Chá, em frente ao Matarazzinho). Um porém, todos se esquecem que aquele casal se separou e nunca mais se encontrou até o leilão da fotografia original!


o que é mesmo, então, que o amor conquista? Se não é felicidade eterna, fidelidade eterna, ou algo eterno, a conquista não parece um grande acheivement. Sei que amor pode vir em muitas formas, mas nenhuma é incondicional, resistente a qualquer intempérie, à prova de balas. Por que, então, pintam esse Amor com a maiusculo como a única solução, o conquistador de tudo? Para que serve essa construção de Amor invencível?


As pessoas têm de acreditar em alguma coisa. Podiam ter escolhido ódio, raiva, vingança, inveja. Decidiram, não sei quando, que o grande protagonista dos nossos períodos de busca seria o Amor. É a ele que recorremos, é ele que queremos e desejamos e almejamos para nossa vida. Only for what? Sofrimento. São irmãos gêmeos. O meu cinismo me impede de ver algum tipo de amor sem um down side. Todo amor implica em perda, em sacrifício, em dor, mais cedo ou mais tarde. E todo amor tem data de validade. Todo. Sem exceção.


Não, nem me venha com a história dos seus avós que estão juntos e apaixonados pelos últimos 60 anos. Isso se chama conveniência. Sim. Amizade, cumplicidade, comodismo, preguiça, escolha o seu substantivo. Amor, do jeito que me ensinaram nas histórias de lived happily ever after nunca vi. Amor tem um ar tão mágico, místico, inexplicável. Só se sabe quem sente, não dá pra explicar. BULL-SHIT. Se você sente, como animal racional, consegue descrever. Assim como um médico consegue identificar um ataque do coração pela descrição da dor que o paciente faz. Amor deveria ser diagnosticável.


Ah, se eu já amei? Já falei “eu te amo” sim, já senti aquela sensação indizível de, … de, … de que? Sei lá. Se eu amo meus pais? Claro. I'm supposed to. Minha irmã? Obviamente! Então explica! Nem tem como. Às vezes eu amo, às vezes odeio. Amor é o oposto de ódio então? Deve ser, já me perdi no meu próprio raciocínio e no meu próprio cinismo ilimitado...


num pedaço de qualquer lugar

nesse dia branco
se branco ele for
esse tanto, esse canto de amor
se você quiser, e vier
pro que der e vier
comigo

eu já falei muito sobre crescer, e amar, sobre gentileza e raiva, sobre felicidade e tristeza e tudo que tem aí no meio. sobre mim e sobre os outros. sobre as coisas. já criei personagens e contei histórias que até podiam ser invenção de tão incríveis. ouvi música, li poesia, vi quadros, tirei fotos. esse blog resume um tempo da vida, é espelho torto de um período específico, espelho talvez quebrado, refletindo só pedacinhos de um todo que tá pra trás.

faz 1 ano que eu não escrevo nada aqui. acho que também é um reflexo. e o pior é que agora... agora que eu quero dizer, quero falar, não acho palavra. to engasgada de uma maneira sufocante com a impossibilidade de expressar o que tá dentro, no peito. antes fosse difícil mostrar o que tá na cabeça, eu lido melhor. já me disseram que eu tenho dificuldade de digerir as coisas, deve ser isso que tá rolando no meu corpo...


se você vier
pro que der e vier
comigo
eu lhe prometo o sol
se hoje o sol sair
ou a chuva
se a chuva cair
se você vier
até onde a gente chegar
numa praça na beira do mar
num pedaço de qualquer lugar


Seis meses sem cigarro,

e putamerda,
que falta me faz.


E então veio abaixo,

e o céu caiu, como eu lhe disse,
"E tu, céu, podes cair".

A chuva veio,
e não lavou nada,
deixou estiradas no chão
mais mágoas que perdões,
perdidos, sem pecados.

Veio a chuva,
com um ronco de motor
e uma oração, para não morrer.
Mas não...
a chuva veio, e matou muitos,
muitos pecados,
lavados embora.

Foi você, que,
dormindo,
não viu.

E amanhã, você vai se dizer
que tudo bem,
e que não faz tanta diferença,
por que você estava linda.

Mas fez toda diferença,
se você guardou seus pecados
debaixo do edredon.


O que eu faço com essa vontade de te pegar pela nuca?
E se eu quiser muito
te chamar por uma última vez?
Muito mesmo...

Eu sei que não dá mais,
E que no fim do dia,
eu te perdi pro meu tédio.

Eu devia ter amado mais você.

Mas da próxima vez,
não vá ficar encabulada.
Eu realmente gosto de você.


esse sim

Eu sinto falta do seu cabelo,
e do jeito que eu tirava sua roupa.
Eu sinto muita falta da sua boca,
e daquele um banho.

Mas a vida é fácil demais na saudade.


Quem sabe se a gente andar por aí de mãos dadas,
e contar pra todo mundo que se gosta
a coisa não vai pra frente, e a gente se acerta de vez?

Caralho, que medo enorme
de arrebentar tudo de novo...


Há um certo tom de cinza
que não quer ir embora por nada,
e mesmo que o céu limpe,
acho que vou ter uma núvem só pra mim,
e toda noite, um pouco de chuva.

A parte boa, eu acho,
é que quem sabe,
algo de bom venha com o vento.


Conselho de camarada:
Correr no frio é uma puta cagada.


E se te amar for ruim?
Se essa agonia continuar pra sempre,
como vou tocar a vida, amor?


Lanzamiento POESIAS DE ESPANHA / Madrid


Colección

POESIAS DE ESPANHA
DAS ORIGENS À GUERRA CIVIL

(Poesías de España: de los orígenes a la Guerra Civil)

Poesía gallega · Poesía española · Poesía catalana · Poesía vasca

Edición brasileña

Organización y traducción al portugués: Fábio Aristimunho Vargas

NOCHE DE LANZAMIENTO

Tertulia Literaria del Café Galdós
Miércoles, 29 de julio, de 18 a 21 horas
C/ Los Madrazo, 10
Madrid - España
(Metro Sevilla)

Coordinada por el poeta Javier Díaz Gil


Más informaciones: http://medianeiro.blogspot.com



Lançamento: ROMANCEIRO CIGANO


Convite para o lançamento do livro


ROMANCEIRO CIGANO
de Federico García Lorca

Organização e tradução de Fábio Aristimunho Vargas

Edição bilíngue espanhol-português

11 de junho, sábado, a partir das 12h
Local: Livraria Kunda (Rua Almirante Barroso, 1473)

Com leitura de poemas no original e na tradução.

Mais informações:
Introdução do livro · catálogo · blogue da editora · Livraria Cultura



La simbología de una sede olímpica

No dia 5 de outubro fui convidado a dar uma entrevista a uma rádio pública do País Basco, a Radio Euskadi, de Bilbau, a respeito da eleição do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas de 2016. O jornalista disse que me achou a partir das matérias que saíram no site Euskal Kultura sobre a coleção Poesias de Espanha. A entrevista foi bem bacana, inclusive redigi depois um artigo a partir da minha fala para eles publicarem no site da instituição. O problema é que não me mandaram a gravação da entrevista e nem publicaram meu artigo... Fazer o quê? Publico a seguir o meu não publicado artigo, de qualquer forma já desatualizado frente aos fatos novos da violência incessante daquela cidade.

*

La simbología de una sede olímpica


Cómo Río de Janeiro ganó la sede de las Olimpíadas de 2016 con la fuerza de los símbolos


Mucho se ha especulado en la prensa española sobre los motivos de la victoria de la candidatura de Río de Janeiro para las Olimpíadas de 2016, la semana pasada, delante de adversarios tan fuertes cuanto Chicago, Tokio y Madrid. Se ha hablado del principio de la rotación de continentes, de una política de Estado a largo plazo, del amparo de una economía sólida y en crecimiento en tiempo de crisis, e incluso de la cuestión del lobby, instrumento tan insondable cuanto decisivo en ciertos campos de la actividad humana.


Sin embargo sea cierto que la conjunción de estos factores todos, además de muchos otros, podría explicar la preferencia de los delegados del COI al votar masivamente en Río en la última ronda de la elección, yo prefiero no subestimar la fuerza de los símbolos. Creo firmemente que fueron los símbolos que nos dieran a los brasileños la sede olímpica de 2016. ¿Y qué símbolos tan especiales serían estos, capaces de ofuscar conjuntamente los esfuerzos de EE.UU., Japón y España? A ver.


La candidatura de Río era la candidatura no de una ciudad: lo era de todo un país. Desde el río Amazonas hacia los pampas, desde las playas hacia las grandes ciudades, los brasileños unieron esperanzas por un objetivo. Y más que la candidatura de un país, era la candidatura de un continente, la América del Sur, región ignorada en la historia olímpica. Era también la candidatura representativa de América Latina y era, además, la candidatura más representativa de los países periféricos que se ven apartados de los acontecimientos del mundo.


En términos geopolíticos, conceder la sede de 2016 a Río significa reconocer el nuevo papel de Brasil en el orden internacional vigente. Como es de conocimiento general, en los últimos años Brasil se ha convertido en un player cada vez más destacado en las relaciones internacionales. Su economía, entre las diez mayores del mundo y la primera a haber superado la reciente crisis, le asegura como interlocutor esencial para las grandes cuestiones económicas del mundo, que son las que de hecho importan. Hay también el supuesto liderazgo de Brasil en América Latina, para la cual no es un poder imperialista más, sino un ejemplo de estabilidad a ser seguido.


Cuanto a la importancia interna de la cuestión, no se puede olvidar que la sede olímpica simboliza el rescate final de una ciudad hasta entonces rehén de sus propias contradicciones. Río de Janeiro fue, sucesivamente, capital colonial de Brasil, capital del imperio colonial portugués, capital del reino unido a Portugal, capital del imperio, capital de la república. En 1960 Brasilia se convierte en la capital de Brasil, mientras Río iniciaría un largo y profundo proceso de degradación social y urbana. Sin embargo, en los últimos años Río de Janeiro, a ejemplo de otras grandes ciudades brasileñas, viene superando sus problemas sociales, saliendo de las páginas policiales de los periódicos para volver a las columnas sociales internacionales, con todo el glamour que le toca. Las Olimpíadas eran el impulso que le faltaba para completar este ciclo de recuperación redentora.


Un último símbolo, no menos importante, de que es imprescindible acordarse: Brasil es el país del fútbol. No lo digo a título de elogio, por lo contrario. Brasil es un país monodeportivo, en que las segundas modalidades, como voleibol, baloncesto y natación, no tienen juntas una fracción de la popularidad del deporte nacional. Agréguese a ello el hecho de que el Mundial de Fútbol de 2014 será realizado en Brasil. En este contexto, las Olimpíadas son la tabla de salvación para el deporte de todo un país. País, dígase, todavía no acostumbrado con los recientes sucesos en modalidades hasta muy poco tiempo (o sea, hasta los Juegos Panamericanos de 2007) sin tradición en el país, a ejemplo de la gimnástica olímpica.


Los símbolos son fundamentales para hacerse victoriosa una candidatura a sede olímpica. Pekín 2008 fue el símbolo de la nueva China, potencia en ascensión cada vez más abierta al mundo. Atenas 2004 pretendió significar el retorno de las Olimpíadas a su cuna, a sus orígenes, aunque sin mayores efectos. Barcelona 1992 simbolizó, en definitiva, la apertura de una España cada vez más plural, redemocratizada y moderna. Tokio 1964 y Múnich 1972 fueron, sobre todo, el retorno de Japón y Alemania –Occidental, en este caso– a la convivencia internacional y a la normalidad posible durante la Guerra Fría, al paso que Moscú 1980 y Los Angeles 1984 no significaron mucho más que un ejercicio de la bipolaridad mundial.


¿Qué símbolos poseían Madrid, Tokio y Chicago para el embate que tuvo lugar en Dinamarca? Muy pocos, si comparados con los ejemplos mencionados. Madrid, por ejemplo, no posee hoy la fuerza simbólica que tenía una Barcelona en 1992. Además, toda elección es la fotografía, el registro de un momento. Si en el instante del flash final el peinado de Río de Janeiro les pareció más bien acabado a los electores del COI, es porque los representantes brasileños supieron impregnarlo con todos los símbolos con que puede hacerse victoriosa una candidatura.


Hoy los brasileños vivimos un momento de gran euforia con la elección de Río de Janeiro para sede de las Olimpíadas de 2016. Más que un evento de porte a ser realizado en nuestro país, dos años después del Mundial de Fútbol, los brasileños tendemos a asimilar a esta conquista como un reconocimiento externo de nuestras calidades internas, una especie de atestado de la plena ciudadanía internacional, tal como lo ha interpretado el presidente Lula. A los españoles seguro que les espera una nueva corazonada para la elección de la sede olímpica de 2020. Yo para entonces les prestaré mi corazón, con todo el simbolismo que lo puede acompañar.


Fábio Aristimunho Vargas

Abogado y escritor brasileño




O olhar do tradutor IV

O evento "O olhar do tradutor", em sua quarta edição, será realizado em Curitiba de 10 a 17 de setembro de 2010.

Organizado pela área de Estudos da Tradução do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPR, o evento terá conferências e oficinas com renomados especialistas e estudiosos da tradução.

Darei uma oficina sobre "Tradução de poesia: galego, espanhol, catalão, basco", na quarta-feira 15 de setembro, das 9h às 11h.


maio 05, 2012

Pastéis de Vento


Falta a fala molhada. Falta o verbo carnudo que preenche o espaço com formas vivas. Falta o discurso que pese, a palavra palpável. Não se ouve o som duro, encorpado, mas o ar é cheio de vozes.

Sempre a mesma ladainha surrada, sussurrada ao pé do ouvido; a aula transparente, a sabedoria de brisa que nos sopram nos tímpanos inflando a mente numa enorme cabeça de balão.

É a palavra assoviada ao coração; que quer ser paixão, sopro de vida, mas que só estufa o oco do peito.

Insuflado de idéias e amores de vento, levito . Cada vez mais alto. Até não caber mais em casa. Até estourar nas nuvens.


marée basse



(à mulher quase imaginária)


Pulo agora da torre Eiffel;
Paris não estará lá amanhã.
Aterrisso em lugar nenhum:
O chão da cidade se mescla
Na visão de névoa, pétalas e lençóis revoltos.
O mergulho se prolonga
Em voltas, voltas e mais voltas
Até ficarmos menos tontos do que antes
Até pular de novo no meio do primeiro salto
Fazendo chão nas nuvens.
Estamos tontos.
Somos tontos.
Tontificamos tudo.
Um mundo de ressaca
De tanto beber a si próprio.
E vomito até virar do avesso,
Só de imaginar o cheiro do vinho francês nas taças européias.

Olhos cravados na praia
Procurando
Da areia ao horizonte
Uma garrafa boiando em lágrimas
Atlânticas
Que inundaram cidades perdidas.
Uma só garrafa que não venha a navio.
Com seu vinho francês pagador de impostos e gerador de empregos
Diplomata do velho mundo.
Uma só garrafa que mate a sede do náufrago
Ou ao menos lhe sirva pra se embriagar
E cortar os pulsos
Rindo-se muito do vinho tinto das veias.
Negrume
Que iluminismo nenhum há de amarrar sentido.


Apêndice


A velha angústia;
De tão antiga às vezes penso
Que se não nasceu comigo
Fui eu que brotei dela.


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